Estratégias concorrEnciais E crédito bancário no
brasil no contExto pós-crisE
Maria Cristina Penido de Freitas1
Doutora em Economia, Consultora do Grupo de Economia / Fundap
Introdução
Ao final de 2008, a economia brasileira experimentou uma fase de dificuldades associada aos impactos do agravamento da crise global. Reagindo com o excesso de prudência à reversão das ex-pectativas e crescentes rumores sobre as perdas, de empresas e bancos, com derivativos de câmbio, os bancos privados contraíram fortemente o crédito tanto para as empresas e pessoas físicas como para outros bancos, contribuindo para a rápida desaceleração da atividade econômica.
As repercussões da retração do crédito privado só não foram mais intensas em função da ação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e das demais instituições finan-ceiras públicas, notadamente Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal (CEF) que, seguindo orientação de política financeira do governo federal, ampliaram a oferta de crédito agindo de modo complementar às medidas de reativação do crédito adotadas pelo Ministério da Fazenda no último trimestre de 2008.
Ao aliar a ação anticíclica a suas próprias estratégias operacionais, os bancos públicos criado-res de moeda, ou seja, aqueles que operam com depósitos à vista e atuam em concorrência direta com as instituições bancárias privadas, diversificaram sua atuação, penetrando em segmentos do mercado de crédito até então dominados pelas instituições privadas, e ampliaram suas bases de clientes. Somente a partir do final de 2009, com a recuperação da atividade econômica e a retomada do crescimento e dos planos empresariais de investimentos, os bancos privados começaram a reagir ao avanço dos seus concorrentes públicos.
O propósito deste artigo é analisar os reflexos das estratégias concorrenciais bancárias sobre o desempenho dos distintos segmentos do mercado de crédito ao setor privado no período
dezem-1. A autora agradece os comen-tários da equipe do Grupo de Economia / Fundap e a leitura atenta de Maria Luiza Levi, as-sumindo a responsabilidade por erros e omissões.
bro de 2008 a junho de 2009. Além dessa introdução, o artigo está organizado em três seções. Na primeira, com base nas estatísticas de operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) disponibilizadas pelo Banco Central do Brasil (BCB), são sumarizados os principais aspectos da evolução recente do mercado de crédito no Brasil sob o prisma da propriedade do capital das instituições. Na segunda, examinam-se o avanço dos bancos públicos e a reação dos bancos pri-vados, cotejando-se os desempenhos da carteira de crédito dos cinco maiores bancos atuantes no país, dois públicos (BB e CEF) e três privados (Itaú Unibanco, Bradesco e Santander), com base nas informações disponíveis nos demonstrativos financeiros. Na terceira e última, a guisa de conclusão, discutem-se as perspectivas do crédito bancário em um contexto de medidas de contenção do cré-dito e moderação do crescimento.
Evolução do crédIto bancárIo ao sEtor prIvado por proprIEdadE do capItal no pEríodo rEcEntE
O volume de crédito do SFN, medido em termos do produto interno bruto (PIB), cresceu 6,7 pontos percentuais (p.p.) entre dezembro de 2008 e junho de 2011, alcançando 47,2% (Gráfico 1). Já o estoque de crédito ao setor privado atingiu 45,4% do PIB (39,6% em dezembro de 2008), com acrés-cimo de 5,7 p.p. no mesmo período, o maior patamar da série histórica do BCB iniciada em 2001.
Gráfico 1. créditodo SfN em PerceNtualdo PiB1SeGuNdoa ProPriedadedo caPital
5,0 7,0 9,0 11,0 13,0 15,0 17,0 19,0 21,0 se t/ 08 ou t/ 08 no v/ 08 de z/ 08 ja n/ 09 fe v/ 09 m ar /0 9 ab r/ 09 m ai /0 9 ju n/ 09 ju l/ 09 ag o/ 09 se t/ 09 ou t/ 09 no v/ 09 de z/ 09 ja n/ 10 fe v/ 10 m ar /1 0 ab r/ 10 m ai /1 0 ju n/ 10 ju l/ 10 ag o/ 10 se t/ 10 ou t/ 10 no v/ 10 de z/ 10 ja n/ 11 fe v/ 11 m ar /1 1 ab r/ 11 m ai /1 1 ju n/ 11 % d o PI B 34,0 36,0 38,0 40,0 42,0 44,0 46,0 48,0 % d o PI B
SF Público2 SF Privado Nacional SF Estrangeiro Total SFN (eixo direito)
Fonte: BCB. Série histórica de Empréstimos do Sistema Financeiro Nacional. Elaboração própria. (1) PIB acumulado dos 12 últimos meses – valores correntes.
(2) Inclui bancos federais e estaduais, BNDES, agências estaduais de fomento.
Em termos de propriedade de capital, o aumento do volume de crédito ao setor privado foi lide-rado pelo subsistema das instituições financeiras públicas. Este saltou de 14,0% do PIB em dezembro de 2008 para 18,1% do PIB em junho de 2011, com ganho de 4,1 p.p. Embora em ritmo mais lento, o subsistema privado nacional também expandiu o crédito – que atingiu 19,2% em junho de 2011, com
acréscimo de 1,9 p.p. em relação a dezembro de 2008 –, enquanto o estoque de crédito do subsiste-ma financeiro estrangeiro, medido também em termos do PIB, encolheu 0,5 p.p., declinando de 8,6% para 8,1% no mesmo período (ver Tabela A1, ao final deste artigo).
Contudo, analisando-se a evolução do crédito do SFN ao setor privado entre dezembro de 2008 e junho de 2011 em termos de taxas de crescimento reais em 12 meses, é possível identificar dois períodos distintos, nos quais o desempenho dos subgrupos das instituições financeiras, classificadas por propriedade do capital, também difere marcadamente (Tabela 2). No primeiro período que se es-tende do final de 2008 até novembro de 2009, houve forte desaceleração do ritmo de concessão do crédito, expressa em taxas decrescentes de crescimento reais em 12 meses (Gráfico 2). No segundo período, iniciado em dezembro de 2009, com a recuperação da atividade econômica e a retomada do crescimento e dos planos empresariais de investimentos, os bancos privados começaram a reagir ao avanço dos seus concorrentes públicos. Desse modo, a expansão do crédito ao setor privado voltou a ganhar ímpeto, sem, contudo, retornar ao padrão de elevado crescimento observado entre agosto de 2007 e setembro de 2008, quando chegou a registrar taxa média real da ordem de 24%. Porém, a intensidade da reação variou segundo a propriedade do capital, sendo bem mais forte entre os priva-dos nacionais, o que sugere que, não obstante o mercado brasileiro ser fonte de parte expressiva priva-dos lucros obtidos pela rede mundial, as filiais brasileiras das instituições estrangeiras sofrem as conse-quências do baixo dinamismo das economias dos países de origem de suas matrizes.
Gráfico 2. taxade creScimeNto real1em 12 meSeSdo créditoao Setor Privado, Por ProPriedadedo caPital (em %)
Fonte: BCB. Série histórica de Empréstimos do Sistema Financeiro Nacional. Elaboração própria. (1) Deflacionado pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
(2) Inclui bancos federais e estaduais, BNDES e agências estaduais de fomento.
No primeiro período, enquanto o subsistema público sustentou a expansão do crédito a uma taxa real média superior a 20%, o subsistema de instituições estrangeiras retraiu fortemente as concessões de crédito, o que resultou em taxas de crescimento reais negativas. Já com relação ao
-10,0 -5,0 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 se t/ 08 ou t/ 08 no v/ 08 de z/ 08 ja n/ 09 fe v/ 09 m ar /0 9 ab r/ 09 m ai /0 9 ju n/ 09 ju l/ 09 ag o/ 09 se t/ 09 ou t/ 09 no v/ 09 de z/ 09 ja n/ 10 fe v/ 10 m ar /1 0 ab r/ 10 m ai /1 0 ju n/ 10 ju l/ 10 ag o/ 10 se t/ 10 ou t/ 10 no v/ 10 de z/ 10 ja n/ 11 fe v/ 11 m ar /1 1 ab r/ 11 m ai /1 1 ju n/ 11 %
subsistema privado nacional, cujo volume de crédito ao setor privado vinha, antes do impacto da crise global, crescendo a taxas reais médias próximas de 30%, o ritmo das concessões arrefeceu consideravelmente.
As instituições públicas federais ampliaram e/ou criaram novas linhas de crédito para suprir a necessidade de capital de giro das empresas nos diversos setores de atividade econômica e para suprir a demanda de financiamento do consumo das famílias. Desse modo, contribuíram para evitar uma forte retração da demanda doméstica, viabilizando uma reativação do crescimento econômico muito mais rápida do que a verificada em outros países. Além disso, essas instituições adquiriram carteiras de crédito dos bancos de menor porte, que sofriam com escassez de recursos em razão do “empoçamento” de liquidez no interbancário e da “fuga para segurança” dos grandes depositantes, o qual só foi efetivamente equacionado com a criação do depósito a prazo com garantia especial em março de 20092. Desse modo, esses bancos menores puderam dar continuidade às suas operações ativas, em particular ao financiamento de capital de giro para pequenas e médias empresas, crédito para aquisição de veículos e crédito consignado.
Em razão da ação anticíclica do BNDES e dos bancos federais e da maior aversão ao risco das instituições privadas, as instituições financeiras públicas ampliaram a participação no mercado de crédito, passando de 35,1% em dezembro de 2008 para 39,3% do total de crédito em dezembro de 2009, enquanto as privadas nacionais recuaram de 43,4% para 41,6% no mesmo período. As instituições financeiras estrangeiras foram as que mais perderam espaço no mercado (-2,5 pontos percentuais ante -1,6 dos privados nacionais), reduzindo sua participação para 18,9% no total de crédito do SFN. Além de uma provável maior aversão ao risco em cenário de incerteza e baixo dina-mismo da atividade econômica, a redução da participação desse grupo refletiu o efeito da apreciação do real em 2009 sobre o saldo das operações com funding externo, cujo peso é relativamente maior nas carteiras desse subsistema.
Nesse primeiro período, a contração do crédito pelas instituições financeiras privadas, nacio-nais e estrangeiras, atingiu de forma distinta os segmentos do mercado de crédito ao setor privado. Como é possível observar nos Gráficos 3 e 4, bem como na Tabela A1 ao final do artigo, a retração na concessão de crédito foi mais acentuada no segmento de crédito a pessoas jurídicas do que no segmento de pessoas físicas. Enquanto no segmento de pessoas físicas houve um arrefecimento no ritmo de expansão do crédito, no segmento de crédito corporativo ocorreu queda real no volume de empréstimos.
No contexto de aversão ao risco, de elevada preferência pela liquidez e de rápida desaceleração econômica nos meses seguintes ao impacto da crise global, os bancos privados deixaram de renovar parte das linhas de crédito, sobretudo para pequenas e médias empresas industriais3, e tornaram-se mais seletivos na avaliação de risco dos tomadores. Ao longo de 2009, a elevação da inadimplência e a prolongada reestruturação de dívida das empresas, em particular daquelas envolvidas com as ope-rações com derivativos de câmbio, contribuíram para aumentar a reticência das instituições privadas em conceder crédito ao setor corporativo, uma vez que nesses casos a regulamentação vigente exige maiores provisões e base de capital.
Nesse primeiro período, a maior cautela dos bancos privados em ampliar crédito para o setor corporativo enquanto prevaleceu o cenário de baixo crescimento da economia brasileira também está por trás do menor dinamismo das operações de repasse com recursos do BNDES, modalidade do 2. O depósito bancário com
ga-rantia especial do Fundo Garan-tidor de Crédito em até R$ 20 milhões por investidor foi regu-lamentado em 26 de março de 2009 pela Resolução nº 2.692 do Conselho Monetário Nacio-nal (CMN). Sobre o empoçamen-to de liquidez no interbancário e as medidas adotadas para a mitigação dos seus efeitos, ver Freitas (2009).
3. Como será visto na próxima seção, a indústria foi o setor econômico que mais sofreu com a retração do crédito bancário. Enquanto os setores terciários se beneficiaram da sustentação da demanda doméstica, os efei-tos da crise financeira interna-cional na indústria foram muito mais intensos e prolongados.
Gráfico 3. taxade creScimeNto real1em 12 meSeSdo créditoaS PeSSoaS fíSicaS2, Por ProPriedadedo caPital (em %)
Fonte: BCB. Série histórica de Empréstimos do Sistema Financeiro Nacional. Elaboração própria. (1) Deflacionado pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
(2) Inclui financiamento habitacional.
(3) Inclui bancos federais e estaduais, BNDES e agências estaduais de fomento.
Gráfico 4. taxade creScimeNto real1em 12 meSeSdo créditoaS PeSSoaS JurídicaS2, Por ProPriedadedo caPital (em %)
Fonte: BCB. Série histórica de Empréstimos do Sistema Financeiro Nacional. Elaboração própria. (1) Deflacionado pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
(2) Soma das operações de crédito à indústria, setor rural, comércio e outros serviços. (3) Inclui bancos federais e estaduais, BNDES e agências estaduais de fomento.
0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 40,0 45,0 se t/ 08 ou t/ 08 no v/ 08 de z/ 08 ja n/ 09 fe v/ 09 m ar /0 9 ab r/ 09 m ai /0 9 ju n/ 09 ju l/ 09 ag o/ 09 se t/ 09 ou t/ 09 no v/ 09 de z/ 09 ja n/ 10 fe v/ 10 m ar /1 0 ab r/ 10 m ai /1 0 ju n/ 10 ju l/ 10 ag o/ 10 se t/ 10 ou t/ 10 no v/ 10 de z/ 10 ja n/ 11 fe v/ 11 m ar /1 1 ab r/ 11 m ai /1 1 ju n/ 11 %
SF Público3 SF Privado Nacional SF Estrangeiro Total SFN
-15,0 -10,0 -5,0 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 40,0 se t/ 08 ou t/ 08 no v/ 08 de z/ 08 ja n/ 09 fe v/ 09 m ar /0 9 ab r/ 09 m ai /0 9 ju n/ 09 ju l/ 09 ag o/ 09 se t/ 09 ou t/ 09 no v/ 09 de z/ 09 ja n/ 10 fe v/ 10 m ar /1 0 ab r/ 10 m ai /1 0 ju n/ 10 ju l/ 10 ag o/ 10 se t/ 10 ou t/ 10 no v/ 10 de z/ 10 ja n/ 11 fe v/ 11 m ar /1 1 ab r/ 11 m ai /1 1 ju n/ 11 %
crédito direcionado4 na qual o risco de crédito é assumido pelos agentes financeiros repassadores. Enquanto o volume de crédito do BNDES direto5 cresceu 40,7% em termos reais entre dezembro de 2008 e dezembro de 2009, as operações de repasse avançaram apenas 18% (Gráfico 5). O cresci-mento dessa modalidade foi sustentado pela ação anticíclica do BB e também pelos bancos estran-geiros controlados pelas montadoras de veículos automotivos e fabricantes de tratores e máquinas agrícolas, que aderiram ao Programa de Sustentação ao Investimento (PSI), lançado pelo BNDES em junho de 20096, com o propósito de sustentar as vendas e, por consequência, as receitas das matri-zes, já bastante fragilizadas pela recessão nas economias avançadas.
Gráfico 5. taxade creScimeNto real1em 12 meSeSdo crédito direcioNado2, Por modalidade (em %)
Fonte: BCB. Operações de crédito do sistema financeiro. Elaboração própria. (1) Deflacionado pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
(2) Refere-se a operações de crédito com recursos compulsórios ou governamentais. (3) Refere-se às operações realizadas com pessoas físicas e cooperativas habitacionais. (4) Refere-se apenas a crédito concedido por bancos e agências de fomento. Exclui cooperativas. (5) Incluem, dentre outros, financiamentos do Fundo Constitucional do Centro-Oeste (FCO) e créditos dos bancos de desenvolvimento e agências de fomento.
Já a relativa sustentação do crédito das instituições privadas para as pessoas físicas em 2009, que pode ser comprovada pela evolução do segmento com recursos livres7 (ver Gráfico 6), resultou da combinação de diversos fatores, tanto do lado da oferta de crédito como do da demanda. Pelo lado da oferta, houve a reativação da concessão de crédito nas modalidades “aquisição de veículos” e “cré-dito consignado” pelos bancos de menor porte, em decorrência do “desempoçamento” da liquidez do interbancário e da regulamentação, já mencionada, dos depósitos bancários a prazo com garantia especial do Fundo Garantidor de Crédito (DPGE).
Pelo lado da demanda, atuaram a relativa estabilidade do nível de emprego e da massa de ren-dimentos, a queda dos juros e a retomada da tendência de alongamento dos prazos8, bem como a de-soneração fiscal de bens de consumo duráveis, como geladeiras, automóveis e alguns produtos do
seg--10,0 0,0 10,0 20,0 30,0 40,0 50,0 60,0 70,0 se t/ 08 ou t/ 08 no v/ 08 de z/ 08 ja n/ 09 fe v/ 09 m ar /0 9 ab r/ 09 m ai /0 9 ju n/ 09 ju l/ 09 ag o/ 09 se t/ 09 ou t/ 09 no v/ 09 de z/ 09 ja n/ 10 fe v/ 10 m ar /1 0 ab r/ 10 m ai /1 0 ju n/ 10 ju l/ 10 ag o/ 10 se t/ 10 ou t/ 10 no v/ 10 de z/ 10 ja n/ 11 fe v/ 11 m ar /1 1 ab r/ 11 m ai /1 1 ju n/ 11 %
BNDES - Direto BNDES - Repasses Habitação3 Rural4 Outros5
4. O crédito com recursos dire-cionados refere-se às operações de crédito, com prazos e custos regulamentados, relacionadas às exigibilidades sobre os de-pósitos bancários, à vista e de poupança, os fundos de nature-za parafiscal, como o FGTS, e os fundos constitucionais regionais. Nessa modalidade estão incluí-dos os empréstimos concediincluí-dos diretamente pelo BNDES ao tomador final, os repasses de re-cursos do BNDES intermediados pelos bancos, o crédito rural e o financiamento habitacional. 5. Em algumas linhas, o BNDES concede financiamento direta-mente ao tomador final. Nesses casos, o próprio BNDES realiza a avaliação de risco da opera-ção e assume os riscos. 6. Financiado com recursos do Te-souro, o PSI reduziu o custo final para o tomador dos financiamen-tos para aquisição e produção de máquinas e equipamentos.
7. Nas operações de crédito com recursos livres, a alocação dos empréstimos e financiamentos é realizada a critério da instituição financeira com taxas livremente pactuadas entre as partes. 8. Segundo o BCB (2010), a combinação desses fatores com a reativação das linhas de crédi-to mais longas e relativamente menos onerosas, como financia-mento à aquisição de veículos e crédito consignado, resultou na redução do comprometimento da renda das famílias, expresso na relação entre fluxo de renda e ser-viço da dívida, ao longo de 2009, o que viabilizou a forte expansão do crédito a pessoas físicas ob-servada em 2010.
mento de material de construção, cujas aquisições são, em geral, financiadas pelas instituições finan-ceiras que mantêm parcerias com as grandes lojas varejistas e/ou revendas. Igualmente, a demanda por empréstimos foi estimulada pela ampliação do limite de comprometimento da renda líquida para o crédito consignado para aposentados e pensionistas do INSS, que em março passou de 20% para 30%.
Gráfico 6. taxade creScimeNto real1em 12 meSeSdo créditocom recurSoS livreS, Por deStiNo
(em %) -10,0 -5,0 0,0 5,0 10,0 15,0 20,0 25,0 30,0 35,0 40,0 se t/ 08 ou t/ 08 no v/ 08 de z/ 08 ja n/ 09 fe v/ 09 m ar /0 9 ab r/ 09 m ai /0 9 ju n/ 09 ju l/ 09 ag o/ 09 se t/ 09 ou t/ 09 no v/ 09 de z/ 09 ja n/ 10 fe v/ 10 m ar /1 0 ab r/ 10 m ai /1 0 ju n/ 10 ju l/ 10 ag o/ 10 se t/ 10 ou t/ 10 no v/ 10 de z/ 10 ja n/ 11 fe v/ 11 m ar /1 1 ab r/ 11 m ai /1 1 ju n/ 11 %
Pessoa jurídica Pessoa Física Total Setor Privado
Fonte: BCB. Operações de crédito do sistema financeiro. Elaboração própria. (1) Deflacionado pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
Em flagrante contraste com os seus congêneres privados, o subsistema financeiro público am-pliou a concessão de crédito tanto às famílias como às empresas em 2009. Ao garantir a sustenta-ção da demanda doméstica, fornecendo capital de giro às empresas e financiando o consumo das famílias, a ação anticíclica desempenhada pelo BNDES, pela CEF e pelo BB contribuiu para atenuar o impacto da crise sobre a economia brasileira e impulsionou a rápida retomada do crescimento. Além de ampliar a concessão de crédito com recursos direcionados, as duas instituições bancárias públi-cas federais passaram a operar com novas modalidades de crédito com recursos livres, penetrando em segmentos do mercado de crédito bancário até então exclusivos e/ou dominados pelos bancos privados, nacionais e estrangeiros9.
A forte expansão do crédito – com taxas reais de crescimento em 12 meses superiores a 30% no segmento de pessoas físicas e crescimento real médio em 12 meses de 23% no segmento corporativo – no subsistema público resultou na elevação da participação desse subgrupo no total de crédito do SFN a pessoas físicas e a pessoas jurídicas. No segmento de pessoas físicas, a fatia das instituições públicas saltou de 26,1% em dezembro de 2008 para 30,3% em dezembro de 2009 (28,4% em junho). No segmento de crédito corporativo, mais intensamente afetado pela aversão ao risco das instituições privadas, o avanço do subsistema público foi ainda maior. De uma fatia de mer-cado já expressiva, da ordem de 40,6% em dezembro de 2008 (38,8% no mês de setembro), o grupo
9. Em 2009, insatisfeito com a manutenção dos spreads ban-cários em níveis elevados, o go-verno federal orientou os bancos públicos federais a reduzirem os juros das suas operações ativas. Ao longo do primeiro semestre daquele ano, tanto o BB como a CEF realizaram diversas rodadas de corte de taxas nas operações de crédito com recursos livres so-bretudo para pessoas físicas, de-sencadeando a esperada reação dos bancos privados (FUNDAP, 2010). Para não perder fatias ain-da maiores de mercado, os ban-cos privados também diminuíram os juros cobrados em seus em-préstimos. Em consequência, ao longo de 2009, os juros médios praticados no SFN caíram 8,1 p.p., enquanto os spreads médios diminuíram 6,1 p.p. No segmento de pessoas físicas, essa redu-ção, mais acentuada do que no segmento de crédito corporativo, estendeu-se até o final de 2010. A partir de dezembro, em resposta ao efeito combinado das medidas de política macroprudencial com as expectativas de elevação da meta da Selic, os juros e spreads médios voltaram a subir.
das instituições públicas alcançou 45,4% de participação no crédito total do SFN a pessoas jurídicas, assumindo a liderança no segmento do mercado de crédito ao setor privado.
Esse expressivo avanço do subsistema de instituições públicas nesses dois segmentos do mer-cado de crédito ao setor privado suscitou dúvidas sobre a qualidade das suas carteiras de crédito. Os críticos da política financeira anticíclica argumentavam que o rápido crescimento do crédito pro-vavelmente se traduziria em elevação da inadimplência e consequente fragilidade financeira dessas instituições, algumas das quais haviam sofrido, em um passado não muito distante, amplo e profundo processo de saneamento. No entanto, tal temor se revelou infundado. O nível de inadimplência do subsistema público permaneceu muito abaixo do observado nos subsistemas privado nacional e es-trangeiro. No primeiro subperíodo, o percentual máximo de inadimplência no subsistema público foi de 2,8% do estoque total de crédito, registrado em maio e em setembro de 2009. Já nos subsistemas privados, a inadimplência atingiu 5,8% no mês de setembro no caso das instituições nacionais. O mesmo percentual foi alcançado no mês de outubro no caso das instituições estrangeiras (Gráfico 7).
Gráfico 7. evoluçãoda iNadimPlêNcia1NaS oPeraçõeSde créditodo SfN, Por ProPriedadedo caPital
(em %) 0,0 1,0 2,0 3,0 4,0 5,0 6,0 7,0 se t/ 08 ou t/ 08 no v/ 08 de z/ 08 ja n/ 09 fe v/ 09 m ar /0 9 ab r/ 09 m ai /0 9 ju n/ 09 ju l/ 09 ag o/ 09 se t/ 09 ou t/ 09 no v/ 09 de z/ 09 ja n/ 10 fe v/ 10 m ar /1 0 ab r/ 10 m ai /1 0 ju n/ 10 ju l/ 10 ag o/ 10 se t/ 10 ou t/ 10 no v/ 10 de z/ 10 ja n/ 11 fe v/ 11 m ar /1 1 ab r/ 11 m ai /1 1 ju n/ 11 % d o to ta l d o cr éd ito
SF Público2 SF Privado Nacional SF Estrangeiro Total SFN
Fonte: BCB. Série histórica de Empréstimos do Sistema Financeiro Nacional. Elaboração própria. (1) Percentual do saldo em atraso superior a 90 dias.
(2) Inclui bancos federais e estaduais, BNDES e agências estaduais de fomento.
Diversas hipóteses não excludentes podem explicar a menor inadimplência no subsistema pú-blico em relação à média do SFN. Uma delas é que a expansão do crédito foi feita em modalidades com menor risco de crédito, como os empréstimos consignados e os financiamentos à aquisição de veículos e habitação, nos quais o próprio bem é a garantia da operação. Outra é que as instituições bancárias públicas conquistaram clientes de bom risco dos seus concorrentes privados, oferecendo melhores condições, em um momento de forte incerteza, em que os bancos privados preferiram se manter líquidos e aumentaram as exigências junto aos potenciais tomadores. Em terceiro lugar, a
rápida recuperação da economia brasileira, que saiu da recessão já no final do segundo trimestre de 2009 impulsionada pelo desempenho dos setores terciários e pelo consumo das famílias, segura-mente contribuiu para garantir a adimplência dos tomadores.
A partir do final de 2009, a inadimplência entrou em trajetória de queda em todos os três gru-pos de instituições financeiras. Essa trajetória associada às expectativas favoráveis de desempenho da atividade econômica resultou em ampliação do crédito em condições gerais mais favoráveis para os tomadores, com queda dos juros e ampliação dos prazos.
Nesse segundo período (dezembro de 2009 a junho de 2010), marcado pelo crescimento vigo-roso da economia em 2010 e pelo forte ritmo de expansão dos créditos às pessoas físicas, o subsis-tema financeiro público manteve-se na liderança da ampliação do volume do crédito ao setor privado, sustentando taxas reais de dois dígitos (Gráfico 2). No segmento de pessoas físicas, a concessão de crédito pelo subsistema público cresceu acima de 25% em termos reais até março de 2011 (Gráfico 3), impulsionada sobretudo pelos financiamentos habitacionais. Mas, a trajetória de desaceleração teve continuidade e tornou-se mais acentuada em 2011, o que sugere o alinhamento dessas institui-ções às orientainstitui-ções da política financeira governamental de contenção do crédito para o desaqueci-mento do consumo das famílias.
No segmento de pessoas jurídicas, as taxas reais de crescimento em 12 meses do subsistema registram desaceleração desde agosto de 2010, em razão do expressivo arrefecimento da concessão direta de crédito pelo BNDES (Gráficos 4 e 5). O recuo do BNDES direto teve como contrapartida a ampliação das operações de repasses, sobretudo pelas instituições financeiras privadas que, com a retomada do crescimento e dos planos empresariais de investimento, voltaram a atuar como agentes financeiros.
Em evidente comportamento procíclico, as instituições privadas nacionais aceleraram a con-cessão de crédito ao setor privado em um esforço para recuperar fatias de mercado perdidas para os bancos públicos, registrando taxas reais de crescimento acima da média do SFN. Porém, nota-se que apenas no final desse período, que coincide com a entrada em vigor das medidas de contenção do crédito, o subsistema privado nacional logrou taxas reais de crescimento em 12 meses superiores às do congênere público.
No segmento de pessoas físicas, diferentemente do que se observa para o subsistema públi-co, o grupo privado nacional não desacelerou a concessão do crédito no primeiro semestre de 2011 (Gráfico 3). Contudo, ao longo desse segundo período, as instituições privadas continuaram a perder participação para as instituições bancárias públicas, que, em concorrência acirrada, ampliaram sua base de clientes, beneficiando-se das condições favoráveis do mercado de trabalho e da crescente “bancarização” da população de níveis de renda mais baixa, que ampliou seu acesso ao mercado bancário especialmente em função da conquista da carteira de trabalho. Com o avanço dos bancos públicos, notadamente CEF e BB, a participação do subsistema privado no crédito total do SFN des-tinado a pessoas físicas declinou de 48,1% em dezembro de 2009 para 46,1% em junho de 2011 (Tabela A1, ao final do artigo).
No segmento de crédito corporativo, com a reativação do repasse dos recursos do BNDES e a ampliação da concessão de crédito com recursos livres (Gráficos 5 e 6), as instituições privadas na-cionais foram bem-sucedidas em sua reação à concorrência das instituições públicas, bem como das estrangeiras. Embora ainda não tenha recuperado a liderança, perdida para o subsistema público em
dezembro de 2008, o grupo privado nacional elevou sua participação de 37,1% para 39,5% do total do crédito do SFN a pessoas jurídicas.
No segundo período, o grupo das instituições estrangeiras também elevou o crédito ao setor privado, mas a retomada teve início bem mais tarde (em maio de 2010) e em ritmo bem mais lento que o dos demais grupos (ver Gráfico 2). Provavelmente, esse baixo dinamismo do subsistema estran-geiro é consequência da revisão de estratégias operacionais definidas pelas matrizes, que enfrentam dificuldades em seus mercados domésticos em virtude do fraco crescimento das economias avança-das e avança-das maiores exigências de capital mínimo10.
O corte por segmento mostra que as taxas reais de crescimento do crédito desse grupo foram mais elevadas no segmento de pessoas físicas (variação real média de 7,5%, ver Gráfico 3) do que no de pessoas jurídicas (variação real média de 0,3%, ver Gráfico 4). Mesmo se for considerado o efeito estatístico da baixa base de comparação, associado à forte retração do crédito corporativo em 2009, os dados da evolução do crédito sugerem que as instituições estrangeiras priorizaram o segmento de crédito a pessoas físicas, possivelmente em razão dos indicadores favoráveis do mercado de trabalho e das expectativas positivas para a expansão do mercado interno. Ademais, nesse segmento, além de mais rentáveis, as operações de crédito são padronizadas e a avaliação dos riscos é bem mais fácil e menos onerosa do que no segmento corporativo.
Com o propósito de aprofundar a análise das estratégias concorrenciais bancárias e seus efei-tos sobre o mercado de crédito ao setor privado, coteja-se a seguir a atuação dos cinco maiores bancos, que respondiam em março de 2011 por 79,2% do total do crédito do sistema bancário estrito senso, ou seja, aquele integrado exclusivamente por bancos criadores de moeda, e por 66,1% do crédito total do Sistema Financeiro Nacional.
o avanço do bb E da cEF E a rEação dos bancos prIvados
Como mencionado anteriormente, o BB e a CEF aproveitaram a oportunidade criada pela forte aversão ao risco dos bancos privados, em razão do impacto da crise global na economia bra-sileira, para ampliar a sua participação no mercado de crédito ao setor privado. Aliando as diretri-zes governamentais com suas próprias estratégias operacionais, os dois maiores bancos federais avançaram em diferentes segmentos de negócios, alguns até então dominados por instituições privadas, como é o caso das modalidades de crédito consignado e de financiamento à aquisição de bens duráveis no segmento de pessoas físicas e o de pequenas e médias empresas no segmento de pessoas jurídicas.
Essa diversificação da área de atuação operacional foi ainda maior no caso da CEF, cujas ativi-dades estavam bastante concentradas no financiamento habitacional e imobiliário (ver Tabela A2, ao final do artigo). Para essa instituição, a contração do crédito privado em razão da crise global repre-sentou uma excelente oportunidade para a ampliação e diversificação da base de clientes, tanto no segmento de pessoas físicas como no de pessoas jurídicas. Em 2009, o volume de crédito concedido pela CEF ao setor corporativo aumentou 103,3% em termos reais, enquanto a concessão de crédito a pessoas físicas (incluindo habitação) cresceu 42,6% na mesma base de comparação. Naquele ano, a CEF ultrapassou o Santander, tornando-se o quarto maior do país por volume de ativos, posição que consolidou no ano seguinte. Em 2010 e no primeiro semestre de 2011, a CEF continuou registrando 10. Exemplo da revisão de
estratégias de instituições es-trangeiras é a recente decisão do HSBC de encerrar negócios considerados não estratégicos na América Latina. Em conse-quência, em julho de 2011, a filial brasileira demitiu mais de 300 funcionários da área de fi-nanciamento de veículos a não clientes, da qual o banco irá se retirar, vendendo a carteira para outra instituição. Igualmente, o banco decidiu reduzir as ativi-dades de crédito pessoal reali-zados pela sua financeira, a Lo-sango (COTIA e MANDL, 2011).
expressivas taxas de crescimento, bem superiores às dos demais bancos da amostra em ambos os segmentos do mercado de crédito ao setor privado (Tabela 1).
taBela 1. BaNcoS SelecioNadoS: taxade creScimeNto real1 em 12 meSeSda carteirade créditoao
Setor Privado (em %)
Instituição Pessoa Fisica2 Pessoa Jurídica Total Setor Privado
Dez./09 Jun./10 Dez./10 Jun./11 Dez./09 Jun./10 Dez./10 Jun./11 Dez./09 Jun./10 Dez./10 Jun./11
BB3 80,3 40,9 16,3 13,6 18,6 17,2 12,2 8,4 29,2 21,3 12,6 9,3
Itaú Unibanco 5,5 6,3 8,9 13,5 -7,8 6,8 2,1 13,7 -2,1 6,5 5,2 13,6
Bradesco 6,9 15,1 13,0 7,7 -2,3 8,2 15,6 16,8 1,4 11,0 14,5 12,9
CEF 42,6 39,6 36,1 34,5 103,3 57,2 27,0 23,0 53,8 43,5 33,9 31,7
Santander 4,7 7,9 12,9 13,9 -7,3 2,5 7,6 5,4 -2,3 4,9 10,0 9,3
Fonte: Demonstrativos financeiros dos bancos. Elaboração própria. (1) Valores deflacionados pelo IPCA.
(2) Inclui financiamento habitacional.
(3) No caso do BB, Pessoas Físicas exclui as operações de crédito rural, as quais, contudo, estão conta-bilizadas no total do crédito ao setor privado.
O BB também diversificou sua carteira de crédito em 2009, ampliando sua atuação nas moda-lidades de crédito consignado, financiamento à aquisição de veículos e financiamento habitacional. Essa diversificação se reflete na carteira de crédito ao setor privado, com forte crescimento real em 12 meses da carteira de pessoas físicas (excluídas as operações de crédito rural), que registrou in-cremento de 80,3% em dezembro de 2009 em relação a dezembro de 2008 (Tabela 1), impulsiona-da pela expansão do financiamento de veículos (197%) e do crédito pessoal (variação de 88,7%). A carteira de pessoas jurídicas também registrou aumento real (18,6%) em 2009, sob a liderança das operações de crédito ao setor de serviços (22,7%). Considerando o porte dos clientes, a carteira de pequenas e médias empresas também subiu 23,4% em termos reais, bem acima da média do setor corporativo (ver Tabela A3 ao final do artigo), em clara indicação da estratégia do BB em priorizar esse segmento, que, de resto, foi fortemente afetado pela retração do crédito privado. Destaque-se, adicio-nalmente, que os bancos públicos continuaram a expandir o crédito ao setor privado em ritmo forte em 2010, já em um contexto de retomada do crescimento e normalização do mercado de crédito.
Ao combinar estratégias concorrenciais agressivas com a aquisição de participação minori-tária em bancos privados com forte atuação em nichos específicos do mercado – caso do banco Votorantim11, líder no financiamento de veículos usados, ou do banco PanAmericano, com expressiva presença no financiamento ao consumo das classes C, D e E –, o BB e a CEF ampliaram suas fatias de mercado ao longo de quase todo o período em tela, tanto no segmento de crédito a pessoas físicas quanto no de pessoas jurídicas
Tomando como referência o volume de crédito total do SFN ao setor privado, observa-se que o BB assumiu a liderança em junho de 2009 (Gráfico 8), quando ultrapassou o Itaú Unibanco, que até então era também o maior banco brasileiro no ranking por volume de ativos12. De uma participação de 17% no total do crédito ao setor privado em dezembro de 2008, o BB atingiu 20,5% em junho de 2010. Nos dois semestres seguintes, o BB perdeu participação, declinando para 19,9% do total em junho de 2011, mas ainda se mantinha à frente de seu principal concorrente, o Itaú Unibanco. Esse
11. Em janeiro de 2009, o BB adquiriu participação de 49,9% do capital do banco Votorantim, fortemente atingido pelo aperto de liquidez no último trimestre de 2008, enquanto a CEF ad-quiriu 49% do capital votante (36,6% do capital social) do ban-co PanAmericano em dezembro de 2009. Após a descoberta de vultosa fraude relacionada à con-tabilização de cessão de carteira de crédito no PanAmericano em novembro de 2010, que motivou intervenção do Fundo Garantidor de Crédito, o controlador dessa instituição vendeu sua partici-pação ao banco de investimento BTG Pactual no final de janeiro de 2011. Pelo acordo de acionis-ta firmado, o BTG Pactual passou a dividir o controle do banco com a CEF (ADACHI, 2011). 12. Cabe ressaltar que, em 2009, o BB incorporou o banco estadual paulista Nossa Caixa, adquirido em novembro de 2008.
banco, após recuar para uma participação equivalente a 16,6% do volume de crédito total ao setor privado em dezembro de 2010, voltou a aumentar sua fatia em junho de 2011 para 17,9%.
Gráfico 8. BaNcoS SelecioNadoS: ParticiPaçãoNo volumede crédito totaldo SfN coNcedidoSao
Setor Privado (em %) 17,1 19,9 14,9 6,0 11,6 19,0 18,7 14,3 7,3 11,0 20,5 18,0 14,0 8,5 10,5 20,5 17,8 14,2 9,3 10,3 20,2 16,6 14,0 9,9 10,1 19,9 17,9 14,1 10,9 9,9
BB Itaú Unibanco Bradesco CEF Santander
%
dez/08 jun/09 dez/09 jun/10 dez/10 jun/11
Fonte: Demonstrativos financeiros dos bancos. Elaboração própria.
O Bradesco, terceiro maior banco brasileiro por volume de ativos, também sofreu os efeitos do avanço dos bancos públicos no mercado de crédito ao setor privado, porém em menor intensidade que o Itaú e o Santander. Entre dezembro de 2008 e dezembro de 2009, a participação desse grande banco privado de capital nacional no saldo do crédito total do SFN ao setor privado diminuiu 0,9 p.p. ante queda de 1,9 p.p. do Itaú Unibanco e de 1,1 p.p. do Santander. Desde então, a sua fatia de mer-cado tem-se mantido relativamente estável, em torno de 14%.
Já a participação do Santander no mercado de crédito ao setor privado declinou continuamen-te, alcançando 9,9% em junho de 2011. Cabe ressaltar que embora essa instituição tenha elevado o capital em outubro de 2009 mediante oferta pública de certificados de ações no Brasil e na Bolsa de Nova Iorque13, esse reforço ainda não se traduziu no incremento de suas operações de crédito no Brasil. Provavelmente, as dificuldades enfrentadas pela matriz no seu mercado de origem, fragilizado pelo fraco crescimento da economia espanhola, explicam a cautela desse banco estrangeiro em ala-vancar o seu crescimento no mercado brasileiro14.
No segmento de pessoas físicas, o avanço dos bancos públicos introduziu significativa pressão concorrencial sobre os bancos privados (ver Gráfico 9). Tanto o BB como a CEF ampliaram suas partici-pações. Porém, a CEF conquistou uma fatia maior desse mercado, desbancando o líder Itaú Unibanco, ao saltar de 12,9% do crédito total para esse segmento para 19,6% entre dezembro de 2008 e junho de 2011. Em grande medida, isso decorreu do expressivo aumento do financiamento habitacional, alavancado pelo programa federal Minha Casa, Minha Vida (lançado em abril de 2009, para garantir 13. A oferta pública no mercado
acionário doméstico foi o cami-nho encontrado pelo banco ma-triz para capitalizar a subsidiária brasileira em condições mais favoráveis do que a emissão de dívida subordinada no mercado internacional.
14. De fato, parte dos recursos captados foi destinada ao resga-te anresga-tecipado de dívida subordi-nada, garantida pela matriz, e à aquisição de carteira de crédito da matriz espanhola, integrada por operações de financiamento a exportações de clientes brasi-leiros (MANDL, 2011b).
crédito subsidiado à população de baixa renda) e pelas condições favoráveis do mercado de trabalho. Já o BB, após o ganho inicial de 5,8 p.p. entre dezembro de 2008 e 2009, manteve a participação de 16,6% do total até junho de 2010, declinando nos dois semestres seguintes, não obstante o forte aumento das concessões de crédito nas modalidades de crédito pessoal, sobretudo consignado, e financiamento à aquisição de veículos (Tabela 2A ao final do artigo).
Gráfico 9. BaNcoS SelecioNadoS: ParticiPaçãoNo volumede crédito totaldo SfN coNcedidoSàS
PeSSoaS fíSicaS1 (em %) 10,8 22,7 16,0 12,9 12,9 13,6 21,1 14,6 14,0 12,1 16,6 20,4 14,6 15,6 11,5 16,6 19,4 14,5 16,9 11,3 16,4 18,9 14,1 18,2 11,1 16,2 18,9 13,4 19,6 11,1
BB Itaú Unibanco Bradesco CEF Santander
%
dez/08 jun/09 dez/09 jun/10 dez/10 jun/11
Fonte: Demonstrativos financeiros dos bancos. Elaboração própria. (1) Inclui financiamento habitacional.
Contudo, se forem desconsideradas as operações de financiamento habitacional, o domínio do Itaú Unibanco se mantém incontestável ao longo de todo o período em exame (ver Gráficos 9 e 10), não obstante o avanço do BB, que em dezembro de 2010 alcançou participação de 22,5% no volume de crédito nesse segmento (ante 12,5% em dezembro de 2008). Embora tenham perdido par-ticipação, o Bradesco e o Santander controlam uma parcela importante desse segmento, da ordem, respectivamente, de 16,2% e 12,9% do total em junho de 2011. É provável que a concorrência nesse segmento se acirre ainda mais com a vitória do BB no leilão de licitação do Banco Postal15, até então operado pelo Bradesco, que, desde 2001, mantinha parceria com os Correios.
Do ponto de vista macroeconômico, observa-se que a atuação do BB e da CEF no segmento de crédito para o setor corporativo teve evidentes efeitos anticíclicos. Enquanto os três maiores bancos privados do país foram ainda mais conservadores e diminuíram as concessões de emprés-timos, registrando variações negativas em termos reais na comparação com dezembro de 2008 (à exceção do crédito destinado às empresas do setor de serviços), os bancos públicos ampliaram significativamente as linhas de financiamento às empresas (ver Tabela 1 e Tabela A2, ao final do ar-tigo). Em consequência, ambos aumentaram suas fatias de mercado. No caso da CEF, a magnitude do ganho foi ainda mais significativa, dado que passou de uma participação no volume de crédito total do SFN de apenas 1,8% em 2008 para 4,4% em junho de 2011. Com presença expressiva e
15. Em maio de 2011, o BB ba-teu o Bradesco na 12ª rodada do leilão ao oferecer R$ 2,3 bi-lhões para operar o Banco Pos-tal a partir de janeiro de 2012 (ADACHI e LIMA, 2011).
consolidada nesse segmento, o BB registrou incremento menor, mas não menos importante, de 2,4 p.p. entre dezembro de 2008 e junho de 2010, quando alcançou participação de 17,3%, recuando para 17,1% em junho de 2011 (Gráfico 11).
Gráfico 10. BaNcoS SelecioNadoS: ParticiPaçãoNo volumede crédito totaldo SfN coNcedidoSàS
PeSSoaS fíSicaS, exceto HaBitação (em %)
12,5 24,6 18,0 3,9 13,8 15,7 23,1 16,6 4,4 13,1 19,5 22,8 16,9 4,6 12,7 19,9 22,5 17,1 4,8 12,7 20,1 22,2 16,9 4,8 12,7 20,1 22,5 16,4 5,1 12,9
BB Itaú Unibanco Bradesco CEF Santander
dez/08 jun/09 dez/09 jun/10 dez/10 jun/11 Fonte: Demonstrativos financeiros dos bancos. Elaboração própria.
Gráfico 11. BaNcoS SelecioNadoS: ParticiPaçãoNo volumede crédito totaldo SfN coNcedidoSàS
PeSSoaS JurídicaS (em %) 14,9 18,3 14,2 1,8 10,8 16,2 17,0 14,1 2,7 10,2 17,2 17,7 13,5 3,5 9,7 17,3 16,6 13,9 3,9 9,6 17,3 15,0 14,0 4,0 9,4 17,0 17,1 14,7 4,4 9,1
BB Itaú Unibanco Bradesco CEF Santander
dez/08 jun/09 dez/09 jun/10 dez/10 jun/11
Observe-se que no caso do Itaú Unibanco e do Santander, a retração do crédito às pessoas jurí-dicas em 2009 foi mais acentuada do que a verificada no caso do Bradesco (Tabela 1). É provável que além da elevação da inadimplência e do efeito da desvalorização do dólar nos estoques de crédito em moeda estrangeira, a reestruturação de dívida das empresas, em particular daquelas envolvidas com as operações com derivativos de câmbio, tenha contribuído para essa contração, uma vez que a regulamen-tação em vigor exige aumento de provisões e da base de capital. Essa hipótese é reforçada pelo fato de que foram as operações com as grandes empresas que lideraram a diminuição da carteira corporativa do Itaú Unibanco, uma vez que o volume de crédito concedido às pequenas e médias empresas aumentou 20,4% em termos reais na comparação com dezembro de 2008 (ver Tabela A3, ao final do artigo).
No segmento de pessoas jurídicas, chama atenção a forte reação dos bancos privados nacio-nais ao avanço dos seus concorrentes públicos. Após perder 3,3 p.p. na sua fatia no volume de crédito do SFN a pessoas jurídicas, declinando de 18,1% em dezembro de 2008 para 15,0% em dezembro de 2010, o Itaú Unibanco reagiu e acelerou a concessão de crédito para as empresas no primeiro semes-tre de 2011 (variação real de 13,7% em 12 meses terminados em junho), em particular aquelas dos setores da indústria e comércio (17,9%) e de pequeno e médio portes (32,6%), recuperando parte do terreno perdido para os seus concorrentes. Em junho de 2011, o Itaú Unibanco reassumiu a liderança desse segmento, mas com uma diferença mínima em relação ao BB, de apenas 0,1 p.p.
Com relação ao Bradesco, que ocupa a terceira posição nesse segmento, a resposta teve início em 2010. Na comparação com dezembro de 2009, o volume de crédito cresceu 15,6% em dezembro de 2010 em termos reais, expandindo-se a dois dígitos também no primeiro semestre de 2011. Como resultado dessa reação, a participação do Bradesco no volume de crédito do SFN a pessoas jurídicas alcançou 14,7% em junho de 2011, 0,5 p.p. a mais do que a parcela de mercado controlada em de-zembro de 2008 (Gráfico 11).
A indústria foi o setor corporativo que mais recebeu crédito do Bradesco no período recente, seguida pelo setor de comércio. Contudo, a participação das empresas industriais na carteira de pes-soa jurídica dessa instituição caiu a 33% em junho de 2011 (42% em dezembro de 2008), enquanto o peso das empresas do setor de serviços subiu de 33% para 37% no mesmo período (Tabela A2, ao final do artigo).
A participação do Santander no segmento de crédito corporativo recuou continuamente no pe-ríodo analisado, passando de 10,8% em dezembro de 2008 para 9,1% em junho de 2011. A indústria foi o setor corporativo que mais sofreu com a retração desse banco privado estrangeiro, com variação real negativa da ordem de 20% em 12 meses terminados em junho de 2010. Já o crédito ao setor de serviços registrou variação positiva ao longo de 2009 e 2010, ampliando sua participação na carteira de pessoas jurídicas dessa instituição. Apenas em junho de 2011, esse setor registrou queda real de 6,9% em relação a junho de 2010 (Tabela 1).
A combinação da ação anticíclica com estratégias de conquista de parcelas do mercado pelos bancos públicos iniciada em 2009 foi bem-sucedida, pois, além de se traduzir no aumento expressivo da participação relativa dessas instituições no SFN, resultou em melhoria significativa da qualidade de sua carteira de crédito. Tanto no caso do BB como no da CEF, a parcela dos créditos de melhor nível de risco (operações classificadas como AA, A e B) subiu no período em exame (Gráfico 12). Na CEF, a parcela de crédito de melhor qualidade mantém-se um pouco menor do que no BB, possivelmente em razão do peso dos financiamentos imobiliários.
Gráfico 12. Qualidadeda carteirade créditodoS BaNcoS SelecioNadoS: ParticiPaçãodoS créditoS com Nívelde riSco aa a B No total (em %)
79,9 85,5 76,2 69,9 87,1 83,1 81,8 71,7 78,6 85,5 83,0 83,6 70,2 78,13 87,9 83,2 83,6 69,4 77,47 86,6
BB Itaú Unibanco Bradesco CEF Santander
dez/08 dez/09 dez/10 jun/11
Fonte: Demonstrativos financeiros dos bancos. Elaboração própria.
Entre os bancos privados, apenas o Bradesco registrou piora na qualidade relativa de sua carteira, com diminuição das operações de melhor classificação de risco. Ao longo do período em foco, o percentual de operações AA a B no total da sua carteira de crédito ao setor privado se reduziu continuamente, declinando de 76,2% em dezembro de 2008 para apenas 69,4% em junho de 2011. A hipótese mais provável para esse desempenho no período mais recente, caracterizado pelo recuo da inadimplência, é a ampliação no crédito para pequenas e médias empresas (variação real de 34,9% em 12 meses terminados em junho de 2011)16, segmento que apresenta maior risco. Em contraste, embora tenha recuado entre dezembro de 2008 e dezembro de 2009, o percentual de créditos clas-sificados como de melhor risco no Itaú Unibanco e no Santander superou o dos bancos públicos em dezembro de 2010 e em junho de 2011.
No que se refere à inadimplência, ou seja, o percentual das operações de crédito com atraso superior a 90 dias, o Bradesco se encontra, porém, em posição melhor do que os seus congêneres privados. Em junho de 2011, esse banco registrava inadimplência de 3,7% (3,6% em dezembro de 2011), enquanto no Itaú Unibanco e no Santander o percentual dos créditos em atraso, além de subir mais, ficou acima da média do SFN (4,2%). No Itaú, a inadimplência alcançou 4,5% (4,2% em dezembro de 2010), refletindo o aumento dos atrasos na carteira de crédito de pessoas jurídicas e, em particular, de pequenas e médias empresas. No Santander, a inadimplência passou de 4,0% em dezembro de 2010 para 4,3% em junho de 2011.
Em contraste, os bancos públicos registraram menor inadimplência. No BB, essa taxa, que se mantém em trajetória de queda desde dezembro de 2009 (3,3%), foi de 2% em junho de 2011, mes-mo percentual registrado pela CEF. Nessa instituição, a elevação do percentual de atraso na carteira de pessoas jurídicas foi compensada pela diminuição da redução da inadimplência nos financiamen-tos habitacionais, que têm maior peso na carteira de crédito dessa instituição.
16. No final de 2010, o Brades-co lançou novas linhas de cré-dito (capital de giro e aquisição de máquinas e equipamentos) para pequenas e médias em-presas, com faturamento anual até R$ 2,4 milhões. O volume inicialmente previsto de R$ 200 milhões foi dobrado em junho, porque até o mês de maio o banco já havia fechado 10 mil contratos, com valor médio de R$ 20 mil (LIMA, 2011).
pErspEctIvas
A análise da evolução do crédito ao setor privado no período dezembro de 2008 a junho de 2011 sob a ótica da propriedade do capital mostrou que as instituições públicas assumiram a dian-teira da oferta de empréstimos e financiamentos aos consumidores e às empresas, desempenhando papel-chave como instrumento da política financeira anticíclica de mitigação dos efeitos da contração do crédito privado durante o período de aversão ao risco e incerteza quanto aos efeitos da crise global sobre a economia brasileira. Essa ação anticíclica do sistema financeiro público foi fundamental para reativar o mercado de crédito doméstico e sustentar a demanda interna, impulsionando a retomada do crescimento econômico.
A retração do crédito privado ofereceu uma oportunidade ímpar para os dois principais ban-cos públiban-cos federais criadores de moeda, BB e CEF, diversificarem sua atuação em vários segmen-tos do mercado bancário ao setor privado. Na conquista de fatias de mercado e no uso de diversas estratégias concorrenciais, essas duas instituições lideraram a expansão do crédito mesmo após a recuperação da economia brasileira, que retomou trajetória de crescimento a partir de meados em 2009.
A reação dos concorrentes privados ao avanço dos bancos públicos só foi ocorrer no final de 2009. Com a concorrência acirrada e os esforços dos bancos privados em recuperar fatias de mercado perdidas para os bancos públicos, a ampliação dos volumes de crédito, sobretudo no segmento de pessoas físicas, se deu em ritmo acelerado ao longo de 2010. Porém, as elevadas taxas de crescimento do crédito às pessoas físicas, em particular nas modalidades de financiamen-to para aquisição de veículos e empréstimos consignados, acenderam o alarme das aufinanciamen-toridades econômicas.
Em razão das pressões inflacionárias associadas à forte expansão do consumo lastreado em crédito, o BCB anunciou, em dezembro de 2010, um conjunto de medidas de natureza macropru-dencial, para a contenção do crédito17. Além de elevar de 8% para 12% o adicional do compulsório sobre depósitos à vista e a prazo, aumentou de 11,0% para 16,5% o capital mínimo para operações de crédito a pessoas físicas – financiamento para aquisição de bens (veículos e outros bens), rotativo do cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal, inclusive consignado – com prazo superior a 24 meses.
Essas medidas tiveram efeitos diferenciados no sistema bancário. Como os bancos são agen-tes econômicos ativos, que nem sempre reagem no sentido esperado às ações dos bancos centrais, aqueles com maior folga de capital, passado o choque inicial do anúncio das medidas, continuaram a ampliar o crédito. Esse é o caso, sobretudo, dos bancos maiores.
Já os bancos de pequeno e médio portes foram mais afetados pela ação da autoridade mone-tária. Além da base de capital mais estreita, as perspectivas de menor crescimento de suas carteiras de crédito resultaram na elevação do seu custo de captação. Ademais, esses bancos sofreram o im-pacto dos problemas associadas à cessão de carteira de crédito no PanAmericano, casos do Schahin e do Morada, que também resultaram em perda de depositantes e aumento no custo da cessão de crédito, importante fonte de recursos, dada a baixa capilaridade de suas redes de agências. O Sachin terminou sendo adquirido em abril de 2011 pelo BMG, um dos líderes privados do segmento de cré-dito consignado.
17. Para maiores detalhes so-bre as medidas de contenção ao crédito, ver o texto “Inter-venções macroprudenciais no mercado de crédito e no mer-cado de câmbio”, no Boletim de
Conjuntura / Fundap, nº 3, de
Portanto, se a nova rodada de crise nas economias avançadas não resultar em forte desacele-ração do crescimento econômico do Brasil, é de se esperar que o crédito ao setor privado prossiga em sua trajetória de elevação, impulsionado pelos grandes bancos e, em particular, os de capital nacio-nal, de origem pública ou privada. Contudo, não se exclui a possibilidade de que os bancos estrangei-ros, como o Santander, que também possui folga de capital, adotem uma estratégia mais agressiva de conquista de mercado, inclusive mediante a aquisição de concorrentes.
Também é de se esperar aumento na concentração no mercado brasileiro de crédito, em par-ticular em determinados segmentos. No segmento do crédito consignado, por exemplo, em que os bancos de menor porte têm forte presença, o BB e os grandes bancos privados – Itaú, Bradesco e Santander – vêm ganhando terreno. Em uma estratégia de manter sob controle a inadimplência de suas carteiras de crédito em um contexto de elevação da taxa de juros, esses bancos vêm ampliando suas concessões de crédito consignado em 2011 a um ritmo superior ao da média das demais ins-tituições. O mesmo vem ocorrendo no segmento de pequenas e médias empresas, tradicionalmente atendidos pelas instituições de menor porte. Tanto o BB como o Itaú e o Bradesco vêm priorizando esse segmento.
Em tal cenário de concentração do mercado brasileiro de crédito é fundamental que o governo federal utilize os bancos públicos, como fez em 2009, como instrumento de pressão concorrencial sobre os bancos privados para que, ante o temor de perder mercado, se vejam obrigados a reduzir spreads (e tarifas cobradas pelos serviços) e a melhorar a qualidade do aten-dimento aos clientes. Naquela ocasião, o BB e a CEF reduziram spreads e ampliaram o volume de empréstimos, mantendo a qualidade da carteira do crédito, exemplo que poderia ser seguido pelos bancos privados.
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taBela a1. créditodo SiStema fiNaNceiroao Setor Privado, Por ProPriedadedo caPitale deStiNo
Crédito ao Setor Privado - Pessoas Físicas1 Crédito ao Setor Privado - Pessoas Jurídicas2
Volume (R$ milhões) Variação real em 12 meses (%)3 Participação no Total do SFN (%) % do PIB Volume (R$ milhões) Variação real em 12 meses (%)3 Participação no Total do SFN (%) % do PIB
Sistema Financeiro Público4
set./08 107.992 26,1 24,6 3,6 268.922 26,9 38,8 9,0 dez./08 118.165 30,0 26,1 3,9 303.563 31,2 40,6 10,1 jun./09 142.872 36,6 28,4 4,7 325.692 22,5 43,7 10,7 dez./09 168.237 36,5 30,3 5,3 363.971 14,9 45,4 11,4 jun./10 195.078 30,2 32,0 5,7 390.577 14,4 45,6 11,4 dez./10 225.311 26,5 32,8 6,1 423.974 10,0 44,6 11,5 jun./11 258.543 24,2 34,2 6,6 444.633 6,7 44,0 11,4
Sistema Financeiro Privado Nacional
set./08 223346,3 24,8 51,0 7,5 285.336 34,9 41,2 9,6 dez./08 225.468 17,5 49,8 7,5 295.934 23,8 39,6 9,8 jun./09 247.275 14,1 49,2 8,1 280.461 2,7 37,6 9,2 dez./09 266.684 13,4 48,1 8,4 297.046 -3,8 37,1 9,3 jun./10 287.757 11,0 47,3 8,4 322.239 9,6 37,6 9,4 dez./10 323.998 14,7 47,1 8,8 369.010 17,3 38,8 10,0 jun./11 348.005 13,3 46,1 8,9 399.026 16,0 39,5 10,3
Sistema Financeiro Estrangeiro
set./08 106.811 16,3 24,4 3,6 138.819 24,6 20,0 4,7 dez./08 109.176 14,3 24,1 3,6 147.771 27,3 19,8 4,9 jun./09 112.093 3,8 22,3 3,7 139.953 7,2 18,8 4,6 dez./09 119.410 4,9 21,5 3,7 139.983 -9,2 17,5 4,4 jun./10 125.913 7,1 20,7 3,7 143.292 -2,3 16,7 4,2 dez./10 138.671 9,7 20,2 3,8 157.146 6,0 16,5 4,3 jun./11 148.360 10,4 19,7 3,8 167.060 9,3 16,5 4,3
Total Sistema Financeiro Nacional
set./08 438.149 22,9 100,0 14,7 693.077 29,6 100,0 23,3 dez./08 452.809 18,7 100,0 15,1 747.268 26,7 100,0 24,9 jun./09 502.240 17,0 100,0 16,4 746.106 11,5 100,0 24,4 dez./09 554.331 17,4 100,0 17,4 801.000 2,8 100,0 25,1 jun./10 608.748 15,6 100,0 17,7 856.107 9,4 100,0 25,0 dez./10 687.981 17,2 100,0 18,7 950.130 12,0 100,0 25,9 jun./11 754.908 16,2 100,0 19,4 1.010.720 10,6 100,0 26,0
Fonte: BCB. Série histórica de Empréstimos do Sistema Financeiro Nacional. (1) Inclui financiamento habitacional.
(2) Soma das operações de crédito à indústria, setor rural, comércio e outros serviços. (3) Deflacionado pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).
taBela a2. evoluçãoda carteirade créditoao Setor Privado, Por SeGmeNtoS, modalidadeSe/ou
SetoreS SelecioNadoS (em r$ milHõeS)
Segmento/Modalidades
Banco do Brasil1
Dez./08 Jun./09 Dez./09 Jun./10 Dez./10 Jun./11
Pessoas Físicas2 Crédito Pessoal3 Cartão de Crédito Veículos Habitação 48.811 26.491 7.586 6.694 80 68.467 43.187 7.830 8.180 1.139 91.791 52.149 9.382 20.738 1.530 101.122 57.835 9.383 22.774 2.105 113.096 63.438 11.867 27.395 2.951 122.561 68.209 11.481 30.535 4.200 Pessoas Jurídicas Indústria Comércio Serviço 111.639 71.909 30.424 30.424 120.760 73.568 27.413 32.745 138.117 84.799 32.175 38.935 148.353 95.681 37.097 39.520 164.167 105.234 40.126 45.378 171.630 111.709 42.745 47.051
Total Setor Privado 205.652 236.608 277.172 300.873 330.660 350.881
Segmento/Modalidades
Itaú Unibanco
Dez./08 Jun./09 Dez./09 Jun./10 Dez./10 Jun./11
Pessoas Físicas Crédito Pessoal3 Cartão de Crédito Veículos Habitação 102.590 23.731 24.307 47.854 6.698 105.922 24.416 24.897 49.535 7.075 112.849 23.147 29.987 52.276 7.439 118.017 22.274 28.842 55.093 6.342 130.097 23.612 33.030 60.118 8.067 142.899 30.025 35.405 60.141 10.984 Pessoas Jurídicas Indústria4 Serviço 136.651 74.210 43.919 127.011 67.728 42.224 131.449 68.090 48.705 142.171 73.372 54.249 142.171 73.372 54.249 172.475 92.314 63.315
Total Setor Privado 239.241 232.933 244.299 260.188 272.268 315.373
Segmento/Modalidades
Bradesco
Dez./08 Jun./09 Dez./09 Jun./10 Dez./10 Jun./11
Pessoas Físicas Crédito Pessoal3 Cartão de Crédito Veículos Habitação 72.602 12.793 2.162 20.491 2.485 73.193 14.199 8.972 18.585 2.287 80.922 16.272 14.085 18.683 2.653 88.322 21.040 14.576 21.328 3.140 96.884 24.119 16.605 24.817 4.084 101.462 27.122 16.363 26.753 5.273 Pessoas Jurídicas Indústria Comércio Serviço 106.412 44.261 23.547 35.122 104.913 40.153 24.034 37.180 108.446 39.285 26.436 39.250 119.017 42.505 29.107 44.101 132.757 45.268 34.519 49.496 148.290 49.380 39.649 54.858 Total Setor Privado 179.014 178.106 189.368 207.339 229.641 249.752 Segmento/Modalidades
Caixa Econômica Federal
Dez./08 Jun./09 Dez./09 Jun./10 Dez./10 Jun./11
Pessoas Físicas Habitação Empréstimos5 58.304 43.176 15.128 70.502 51.737 18.765 86.697 65.613 21.084 103.167 79.311 23.857 124.998 98.676 26.322 148.070 117.895 30.175 Pessoas Jurídicas Indústria Comércio Serviço 13.302 4.298 4.380 4.625 20.446 1.366 1.119 16.901 28.213 8.198 6.282 13.733 33.694 10.638 5.866 17.189 37.933 11.832 6.434 19.667 44.214 17.017 7.120 20.067
Total Setor Privado 71.606 90.948 114.910 136.862 162.931 192.284
Segmento/Modalidades
Santander
Dez./08 Jun./09 Dez./09 Jun./10 Dez./10 Jun./11
Pessoas Físicas Crédito Pessoal6 Cartão de Crédito Habitação 58.418 52.565 6.988 4.468 60.753 48.851 7.107 4.795 63.805 50.107 8.472 5.226 68.743 54.265 8.869 5.609 76.293 58.835 10.760 6.698 83.571 64.216 11.707 7.647 Pessoas Jurídicas Indústria Comércio Serviço 80.648 32.980 14.016 27.626 76.220 29.071 12.357 29.060 77.970 27.502 11.730 33.457 81.901 24.359 12.342 40.312 88.856 28.400 13.600 41.854 92.081 30.227 17.279 40.069 Total Setor Privado 139.066 136.972 141.775 150.644 165.150 175.652
Fonte: Demonstrativos financeiros dos bancos.
(1) Os dados do BB referem-se ao crédito no país e incluem 49,9% do Banco Votorantim. (2) No caso do BB, a rubrica Pessoas Físicas exclui as operações de crédito rural, as quais, contudo,estão contabilizadas no total do crédito ao setor privado.
(3) Inclui crédito consignado.
(4) No caso do Itaú, o saldo dos créditos ao setor de comércio está incluído no total à indústria. (5) No caso da CEF, a rubrica empréstimos inclui todas as modalidades de crédito à pessoa física, tais como crédito pessoal, financiamento à aquisição de bens, cartão de crédito, cheque especial, etc. (6) No caso do Santander, financiamento para aquisição de veículos está somado a crédito pessoal.
taBela a3. evoluçãoda carteirade créditoa PeSSoaS JurídicaSPor PortedaS emPreSaS
(em r$ milHõeS)
Segmento
Banco do Brasil
Dez./08 Jun./09 Dez./09 Jun./10 Dez./10 Jun./11
Empresas por Porte1
Grandes
Micro, Pequena e Médias
62.292 34.900 63.858 39.493 80.416 44.920 88.193 47.382 98.894 50.916 95.556 59.900 Segmento Itaú Unibanco
Dez./08 Jun./09 Dez./09 Jun./10 Dez./10 Jun./11
Empresas por Porte Grandes
Micro, Pequenas e Médias2
102.826 50.640 91.664 54.312 95.832 63.377 98.643 71.114 110.793 83.158 118.958 89.710 Segmento Bradesco
Dez./08 Jun./09 Dez./09 Jun./10 Dez./10 Jun./11
Empresas por Porte Grandes
Micro, Pequenas e Médias
52.961 54.392 50.943 55.241 49.695 60.372 53.169 67.097 55.235 78.495 62.435 86.937 Fonte: Demonstrativos financeiros dos bancos.
(1) No caso do BB, a carteira de crédito de pessoas jurídicas por porte exclui operações de crédito ao setor de agronegócio.