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O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA ( )

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O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA (1808-1831) O período joanino e o processo de emancipação brasileiro (1808-1831)

Historiografia da Independência do Brasil. Diferenças em relação à América espanhola.

Interiorização da metrópole. Medidas iniciais da transmigração. Reformas joaninas. As raízes da Revolução Pernambucana. A Revolução do Porto e os liberais brasileiros. O papel de José Bonifácio. As guerras de Independência.

Como nunca antes na historiografia deste país, há uma proliferação relativamente recente de estudos sobre o século XIX. Considerando o período da independência, de 1995 até 2002 – Jurandir Malerba se deu o trabalho de contar –, foram 46 obras que retomaram o interesse que o tema suscitou nas décadas de 1960 e 1970, quando se institucionalizavam no Brasil os cursos de pós-graduação em história (excluída a Revista do IHGB, com 99 artigos, Malerba inventariou 201 publicações, mais do que a soma de tudo o que já se havia publicado desde o Grito do Ipiranga).

No mesmo livro, o sempre didático José Murilo de Carvalho, divide os autores desses títulos sobre o século XIX em três gerações. A primeira, sem formação universitária especializada (José Honório Rodrigues, Pedro Calmon, Hélio Viana), vinha desde o início do século XX; a segunda, na qual ele mesmo se inclui, é fruto do processo de especialização e de consolidação do sistema universitário no país (Ilmar Mattos, Maria Odila Leite Dias, Emília Viotti da Costa, Maria Yedda Linhares, Carlos Guilherme Mota); e a terceira é a responsável por este boom mais recente de publicações sobre o Império, que não fez senão crescer desde 2002, em parte por causa dos duzentos anos da transmigração, comemorados com muitos lançamentos. Destacam-se as recentíssimas compilações de Keila Grinberg e Ricardo Salles (2009) e de Lilia Moritz Schwarcz (2011), que o candidato ao Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) mais dedicado não deveria evitar.

O senso comum sobre o período joanino repete um tipo de ênfase que favorece a ridicularização. Nas palavras de Iara Schiavinatto:

é ocioso lembrar que a memória do governo joanino enfatiza o rei glutão e acovardado, a rainha fogosa e interesseira, a rainha-mãe enlouquecida que executou os inconfidentes mineiros, a atabalhoada transferência da Corte. Prepondera o tom de comédia, repetido na filmografia, em programas de tevê, no anedotário (2009).

Contra esse tipo de memória que servia perfeitamente à propaganda republicana da virada do século se levantou – quixotescamente, diria Gilberto Freyre, seu afilhado intelectual – Oliveira Lima, que é um dos primeiros autores da história do Brasil a fugir exclusivamente dos temas políticos e diplomáticos, discutindo também aspectos sociais e culturais. Não por acaso seus estudos (D. João VI no Brasil e O movimento da independência) ainda hoje marcam o tom de boa parte da historiografia. Lima promove um alargamento do horizonte cronológico sobre a emancipação na historiografia que lhe sucedeu. A independência de fato começa em 1808, quando há a “inversão brasileira”, e o Rio de Janeiro se torna a capital do Império português. Se ainda não é a completa independência do país, certamente já é o fim de um regime colonial, efetivado juridicamente em 1815, com a elevação do Brasil a Reino Unido.

Com base em Oliveira Lima, uma série de questionamentos importantes sobre o tema da emancipação vem sendo discutida pelos historiadores. Muitos já estão hoje superados, mas são constantemente revisitados por tratarem afinal do tema da independência, sempre retomado por

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motivos diversos – sentimentais, de legitimação histórica ou de comemoração de efemérides –, como foi o caso da repatriação dos restos mortais de Pedro I para o Museu do Ipiranga em 1972.

Uma das questões mais relevantes é justamente a da continuidade do Estado português no Estado brasileiro, que daquele herdaria estruturas, aparelhos e instituições, incluindo aí a própria dinastia; a independência foi uma mera “transação” bragantina, um acordo relativamente pacífico. A pergunta sobre se foi uma revolução ou não permeou longamente o debate historiográfico, e isso fica evidente nos cinco volumes em que José Honório Rodrigues (1975) se dedica a lhe dar resposta. Para Rodrigues, foi uma revolução de fato, feita por brasileiros liberais a partir da ruptura com as cortes portuguesas. O autor enfatiza o papel das guerras de Independência (contabiliza o número de mortos e destaca sua relevância proporcionalmente a outras lutas de libertação) e o papel do patriarca José Bonifácio, cuja demissão, em 1823, desencadearia o que Rodrigues chama de “contrarrevolução absolutista”.

Hoje está mais do que claro que o processo todo foi conservador, ainda que frequentemente eivado de correntes liberais radicais, mas que tiveram desfecho trágico (Frei Caneca) ou nunca foram capazes de chegar ao poder (Gonçalves Ledo), ou, quando chegavam, eram impedidas de implementar um programa mais radical (Teófilo Ottoni).

A manutenção da escravidão por gerações inteiras após a independência é a prova mais cabal, embora longe de ser a única, do conservadorismo resiliente e do liberalismo matizado e/ou mutilado que se vivenciou no processo de independência do Brasil19. É a obra de José Murilo de Carvalho, A construção da ordem, que vai buscar em Coimbra as origens dessa homogeneidade conservadora das elites que caracterizou e garantiu a significativa unidade da história imperial brasileira.

Em 1981, foi lançada, sob a organização de Carlos Guilherme Mota, Dimensões: 1822, obra em que aparece pela primeira vez o clássico de Maria Odila Leite Dias, “A interiorização da metrópole”, de onde se depreendem vários insights de forte impacto na historiografia que lhe foi posterior. A premissa do texto é a especificidade da América portuguesa em relação à América espanhola, imbuída da crítica certa tradição historiográfica na qual a imagem tradicional da independência é sempre de uma Colônia em luta contra sua metrópole. Em que pese a importância disso até para a construção da nacionalidade em termos ideológicos – e é inegável que foi o caso para a geração do romantismo –, tal paralelismo perde de vista os interesses que os próprios portugueses tinham no processo de emancipação. Não se tratava, no Brasil, simplesmente de uma luta de criollos versus chapetones, mas justo o oposto, uma aliança entre colonos e reinóis que vinha desde 1808, em um processo que Maria Odila chama de “interiorização da metrópole”.

A autora se distancia assim do que chama de “fetiche europeísta” do modelo de independência norte-americano e defende uma historiografia baseada em parâmetros brasileiros, mesmo sem perder de vista o contexto geral ao destacar a absoluta excepcionalidade que foi a transmigração da Corte, evento sem nenhum outro paralelo na história da humanidade. Para Maria Odila, com a abertura dos portos em fevereiro de 1808, tem início a “interiorização da metrópole”, cujo processo segue pelo menos até o gabinete do Marquês do Paraná e seu Ministério de Conciliação em 1853. A independência é vista como um longo processo de quase quarenta anos de construção negociada do Estado imperial brasileiro.

Destacando muito mais o contexto geral, está um texto de síntese, um pouco posterior ao de Maria Odila, publicado pelo historiador Leslie Bethell em sua famosa Cambridge History of Latin America. Trata-se de síntese incrivelmente didática que enumera sete diferenças entre os processos de emancipação da América portuguesa e da América espanhola. Dada a frequência com que o tema “independência” é cobrado nas provas do CACD, até mesmo pedindo explicitamente as

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diferenças entre os dois processos, convém destacar cada uma delas e reforçá-las com exemplos que nem sempre Bethell fornece.

A primeira diferença é que a colonização espanhola já era mais arraigada e seus agentes, dotados de uma perspectiva de mais longo prazo que os colonos portugueses. Nos vice- reinos espanhóis, formaram-se famílias, verdadeiras dinastias de criollos ricos, de até sete gerações coloniais. No Brasil, a maior parte dos grandes proprietários na década de 1820 era composta de brasileiros de primeira geração, filhos de portugueses.

A segunda diferença é que havia mais mobilidade social na colonização portuguesa do que na colonização da América espanhola, e disso nem precisamos de Bethell para saber. Trata-se de tema importante em Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, clássico dos anos 1930.

O sistema português era bem menos opressivo e bem menos excludente para com os colonos notáveis. Imediatamente nos ocorrem os exemplos de Alexandre de Gusmão, Azeredo Coutinho e do próprio José Bonifácio, todos ocupantes de altos cargos na administração portuguesa pré-independência.

O terceiro elemento destacado pelo autor inglês é que não havia universidades aqui no Brasil como houve na América espanhola. Tanto a universidade quanto a imprensa foram proibidas pela Coroa, mesmo quando essa iniciativa partia de seus próprios funcionários, como no caso do Marquês do Lavradio, governador do Rio de Janeiro no século XVIII. O Brasil era talvez o único lugar do mundo civilizado ocidental onde a palavra impressa não existia até 1808. Nesse sentido, os brasileiros ricos e abastados tinham de ir para Coimbra, e isso criava uma espécie de esprit de corps, uma espécie de contato comunitário com a elite portuguesa.

O quarto elemento estabelecido por Bethell é que a América portuguesa era um sistema escravista, com base em uma produção majoritariamente escravista, e isso inexistia na América espanhola. Trata-se do argumento do haitianismo também enfatizado por quase todos os historiadores

como amálgama da aliança posterior por um tipo de independência demofóbica que evitasse um levante popular.

Uma quinta diferenciação se dava na configuração geográfica da economia colonial brasileira, relativamente isolada e com poucos vínculos comerciais endógenos. Uma economia de plantation que os geógrafos chamam de “arquipélagos”, ou seja, não havia vinculações intensas e muito significativas entre as zonas coloniais da América portuguesa23, o que favorecia os laços de continuidade com Portugal. Na América espanhola, a produção para o mercado interno era muito mais intensa poderia viver perfeitamente sem a Europa, o que seria muito mais complicado no caso da economia brasileira, fortemente informada pela lógica de plantation. Prova disso é que a substituição de Portugal pela Inglaterra se deu sem grandes traumas, bem ao contrário, com crescimento econômico.

Um sexto fator a se destacar é que o exclusivo metropolitano era muito mais frágil na América portuguesa. O tráfico negreiro controlado por baianos e cariocas é um exemplo disso. Se, na América espanhola, o controle era absolutamente estrito, até com o regime de porto único na metrópole, na América portuguesa o caminho para a África raramente passava pela Europa.

Por último, um elemento conjuntural, que são as reformas da Ilustração. As reformas bourbônicas da Espanha ilustrada e as reformas pombalinas tinham praticamente o mesmo intuito: buscavam modernizar o Antigo Regime e viabilizar uma política absolutista mais racional e mais estruturada. Usava-se um instrumental iluminista para fortalecer o absolutismo e o Antigo Regime. Embora o objetivo seja o mesmo, no caso brasileiro, as reformas pombalinas, em que pese o arrocho fiscal, produziram igualmente melhorias no padrão de vida colonial e/ou eliminaram

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interesses poderosos, como o dos jesuítas no Brasil. O renascimento agrícola no Nordeste estimulou a produção, enriqueceu todo um grupo social que produzia algodão, couro, pecuária, farinha de mandioca, muitas vezes para o mercado de exportação. Essa situação não ocorreu na América espanhola. O regime opressivo aumentou drasticamente, ainda que, durante o processo de independência, verifique progressiva hostilidade dos brasileiros.

Não me parece que qualquer uma dessas distinções questione a importância do conceito de “interiorização da metrópole” proposto por Maria Odila, que continua sendo uma referência historiográfica relevante. Tomando-o como premissa estrutural, caberia perceber que o quadro se altera significativamente com a transmigração da Corte após 1808. A conjuntura se impõe e o processo se acelera.

A leitura atenta do texto de Odila permite destacar vários elementos, sendo o sociológico dos mais relevantes. O estabelecimento de vínculos comerciais, pessoais e mesmo familiares se dará pela compra de fazendas no Rio de Janeiro e nos arredores por membros da aristocracia e da elite comercial portuguesa24 ou por meio de matrimônios entre a elite reinol que se interiorizava e os filhos proeminentes dos colonos ricos do Centro-Sul – Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo –, centro dinâmico da nova metrópole. Era o contexto de prosperidade econômica motivado pelo estabelecimento da cúpula do Estado português.

D. João é o cimento institucional desse processo. Oferece sinecuras, empregos públicos, mercês, concede centenas de títulos de nobreza e vantagens diversas tanto para cooptar seus súditos autóctones a lhe servirem com renovada lealdade quanto para apaziguar os súditos de além-mar forçados a acompanhá-lo no exílio. Mais tarde, durante o processo de independência, esse cimento se renovaria com nova camada de argamassa na figura de D. Pedro I, quando então o temor de uma rebelião generalizada de escravos, nos moldes de São Domingos, era fator de preocupação comum entre brasileiros e portugueses, favorecendo uma solução conciliatória, conforme veremos.

Em breve síntese do impacto do período joanino no Brasil, há que se identificar as medidas tomadas e as instituições criadas a partir da transmigração da Corte. Foram quase sete anos de indecisão e de disputa política entre a facção inglesa e a francesa na Corte de Lisboa. A vitória da facção inglesa, em 1807, tem muito mais de iniciativa francesa. Napoleão cansou de esperar uma decisão do príncipe regente, que chegou a sugerir aos ingleses uma guerra simulada e toda a sorte de meios de escapar a uma difícil decisão, que por fim lhe foi praticamente imposta quando chega a Portugal a notícia de que as tropas do general Junot já se encaminhavam para a fronteira norte.

A velha ideia de transmigração da Corte25 para o centro mais dinâmico do Império português, o Brasil, finalmente é posta em prática em 1807.

A chegada da família real traz impacto socioeconômico profundo e levaria, no quadro político, a crescentes demandas por autonomia e, eventualmente, à articulação eficaz das ideias liberais em prol da independência. Quatro dias depois do desembarque em Salvador, o príncipe decide, por sugestão do liberal José da Silva Lisboa, abrir os portos às nações amigas, e isso basta para desfechar o mais formidável e definitivo golpe no modelo do exclusivo metropolitano.

Reconheçamos que esse exclusivo era aplicado de modo bem pouco rígido, mas, em fevereiro de 1808, acabava definitivamente, e abria-se a Colônia para o comércio internacional e sua vinculação com o restante do mundo.

Até 1810, essa vinculação se deu nos moldes do liberalismo smithiano que os ingleses, eles mesmos, só adotariam no governo de Sir Robert Peel em meados do século XIX. No entanto, com a chegada ao Brasil de Lord Strangford, a pressão inglesa se faz sentir, e o modelo liberal

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adotado com a abertura dos portos torna-se um modelo de favorecimento aos ingleses. A cláusula de nação mais favorecida vinha acompanhada de uma série de privilégios. Além da baixíssima tarifa de 15% para produtos ingleses, havia vantagens políticas, como o direito à extraterritorialidade judicial – um “juiz conservador” dos ingleses, eleito pelos próprios e nomeado pelo príncipe –, que tornava os ingleses livres da jurisdição legal portuguesa no território da Colônia.

Ao longo desse período, já fica clara certa vocação industrialista que se tornará forte nas legislaturas parlamentares nos anos de 1820 e 1830. Tal vocação havia sido prejudicada quando, em 1785, D. Maria proíbe as manufaturas na Colônia. Pouco mais de vinte anos depois, seu filho, como príncipe regente e residente, passa a incentivar abertamente as manufaturas, tornando o próprio Estado português transmigrado um grande investidor no setor secundário.

Assim, a revogação do alvará de 1785, somada à abertura dos portos, em 1808, e os tratados desiguais com a Inglaterra, em 1810, formam a tríade de medidas iniciais do período joanino que, juntas, reconfigurariam a situação econômica da América portuguesa. Há, é claro, um elemento contraditório entre incentivar manufaturas e ao mesmo tempo adotar medidas tão generosas na política tarifária com os ingleses, nosso maior parceiro comercial.

O Brasil estava submetido economicamente a tarifas tão baixas em relação à Inglaterra que se moverá verdadeira cruzada no Parlamento contra esse sistema de “tratados desiguais” até sua revogação, em 1844. Por um lado, tratava-se de defender e de estimular a incipiente indústria nacional; por outro, era também um problema de receita e de orçamento do Estado, dado que o grosso da arrecadação estava justamente na tributação das importações.

Os tratados de 1810 foram tão favoráveis à vinda de mercadorias inglesas que, por uma questão de oportunismo e também por causa da conjuntura de bloqueio continental, chegou imediatamente ao Brasil enorme quantidade de produtos inúteis para o uso dos brasileiros e que, naturalmente, encalhou27. Essas observações não invalidam o fato de que o Brasil era um mercado formidável para os comerciantes ingleses. Éramos então o terceiro maior mercado para a Inglaterra, ultrapassando quase todo o comércio com a Ásia.

A essas medidas iniciais soma-se uma série de outras medidas muito relevantes que vão sendo implementadas a partir de 1808 e ao longo da década de 1810. No conjunto, são chamadas de reformas joaninas: o Jardim Botânico (Real Horto), a Escola de Música, o Teatro Real, a Casa da Moeda, a Fábrica de Pólvora, novas estradas ou a melhoria das estradas já existentes, visando melhorar a comunicação entre as capitanias, notoriamente entre a nova Corte e Minas Gerais, que já era então a mais populosa das capitanias e, com o declínio da mineração, havia se convertido progressivamente em uma capitania agrícola de abastecimento cujo principal mercado era justamente o Rio de Janeiro. Salta aos olhos que a maior parte dessas medidas e instituições tenha sido criada no Rio de Janeiro ou em seu entorno.

Tais medidas reforçam a tese de Maria Odila de que estava em curso, no Sudeste e no Centro-Sul do Brasil, um processo de “interiorização da metrópole”. Tratava-se de uma integração significativa da região Centro-Sul com os interesses dos comerciantes portugueses e burocratas transmigrados, mediada pelas novas instituições criadas pelo Estado português na América. Os portugueses transmigrados seriam mais tarde o chamado “partido português”, enquanto as novas instituições seriam o embrião do Estado imperial brasileiro após 1822. Nada simboliza melhor essa “interiorização da metrópole” do que a suave adaptação do próprio príncipe regente à sua Colônia, emblemática da conjunção de interesses socioeconômicos que se formou entre os reinóis aclimatados aos trópicos e os colonos beneficiários das reformas joaninas.

O outro lado da moeda era a permanência de uma relação metrópole-Colônia. Se a

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metrópole se interiorizou, significa que continuavam existindo uma Colônia e um exclusivo metropolitano, traduzido na relação com as demais regiões do Império português agora subordinadas ao Rio de Janeiro. Nenhuma região do Império sofreu tanto quanto o Nordeste, crescentemente extorquido em pleno declínio da economia açucareira. Afinal, para bancar as reformas joaninas, as novas instituições do Império transmigrado, vai se recorrer à extração fiscal pura e simples, sobretudo com as do Nordeste. Estas se sentem ainda mais prejudicadas por estarem pagando a conta sem os benefícios da proximidade com o poder28. Pernambuco, por exemplo, era uma capitania que já vinha sofrendo achaques fiscais nada desprezíveis desde o final do período colonial. As separações da capitania do Ceará e da capitania da Paraíba já haviam sido, em 1799, parte desse intuito de maior afã extrativo.

Somem-se o declínio econômico e o aumento da extração fiscal à grande seca de 1816, em um contexto de crescente negligência para com a região por parte do Estado português, e eclodiria em 1817 a Revolução Pernambucana, naquela que foi a única grande rebelião provincial durante o período joanino. A rebelião também foi motivada ideologicamente pela presença significativa de membros do clero, muitos dos quais formados na instituição conhecida como Seminário de Olinda. Havia sido criada pelo bispo e educador D. Azeredo Coutinho, governador de Pernambuco em 1800. Apesar de nomeado pela Coroa, o bispo era um intelectual saído da Universidade de Coimbra, reformada por Pombal, e era originariamente um grande colono do norte fluminense; em seus escritos, criticava a sanha fiscalista da Coroa portuguesa sediada em Lisboa. Não seria agora que, sediada no Rio de Janeiro, haveria de mudar os sentimentos dos pernambucanos, muito pelo contrário, eles se haviam agravado.

O movimento foi reprimido, mas sem a violência que será verificada posteriormente à independência. Seus líderes, presos, seriam anistiados em 1821. A Coroa, única da América, seguia mais firme e mais forte em sua estada colonial que seus vizinhos recém-republicanizados ou em vias de se tornarem. O que D. João, agora “sexto”, não bém no próprio reino, em Portugal.

Posta em perspectiva, a situação do reino era ainda mais dramática que a de Pernambuco. Os prejuízos da guerra eram grandes – o porto havia sido completamente evacuado –, mas ainda maior era o impacto econômico que Portugal havia sofrido com a perda, desde a abertura dos portos, do papel de intermediário monopolista no comércio entre o Brasil e o restante do mundo de que a burguesia lusa sempre gozara. Abandonado desde 1808 e governado por um preposto britânico – Beresford –, havia uma pressão dos ingleses também, mais que tudo dos portugueses, para que a família real retornasse. Era como se o retorno fosse a panaceia para curar todas as mazelas econômicas vividas pelo reino.

O quadro geral de disseminação das ideias liberais pós-1815 contra a ordem de Viena chegou a Portugal após ter convulsionado a Espanha e o sul da Itália. Setores significativos da burguesia portuguesa vão se reunir na cidade do Porto clamando pelo retorno da família real e pela constitucionalização do reino em 1820. Seu projeto liberal será recebido com simpatia pelos liberais da Corte e das demais capitanias americanas. O entusiasmo constitucionalista no Rio de Janeiro motivaria o efetivo retorno do rei, que temeu por uma revolução também deste lado do oceano.

Entre 1821 e meados de 1822, ocorre um flerte entre os liberais de lá e os de cá, com a eleição de deputados para as “cortes” constitucionais em todas as províncias brasileiras e até na África. O movimento é fortemente estimulado pela imprensa, já praticamente livre de qualquer tipo de censura, que vigorara firme nos anos posteriores à transmigração. De repente, porém, do riso fez-se o pranto, e o flerte entre os liberais, que poderia virar namoro, muito rapidamente se transmudou em divórcio.

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Insatisfeitos com a chamada inversão colonial, em que a Colônia era sede do reino e o reino parecia ter virado Colônia, os membros portugueses das cortes sugeriam modelos políticos inaceitáveis para os brasileiros. Ávidos por serem compensados pelos anos de guerra e sedentos pelo retorno do modelo monopolista, os deputados portugueses nem sequer cogitaram a sugestão de Martim Francisco de Andrada, que propunha dois parlamentos, um na Europa e outro no Rio de Janeiro, com uma Coroa transumante ou compartilhada com o príncipe Pedro como regente.

Defenderam, para a estupefação dos brasileiros presentes, o retorno a um modelo mais que pré- joanino, pré-pombalino, em que toda a administração retornaria à Europa e o contato com as províncias seria fragmentado sem passar pelo Rio de Janeiro. Não seria possível conciliação ou acordo, e os brasileiros abandonam a Assembleia.

Essa falta de percepção política da burguesia portuguesa, entretanto, não era comum ao rei, que percebeu claramente que os liberais brasileiros, e mesmo os interesses portugueses da elite transmigrada, não aceitariam, em nenhuma hipótese, um retrocesso que previsse a revogação do regime de portos abertos.

A elite brasileira-portuguesa interiorizada se vinculou então à figura do príncipe regente D. Pedro. Após 1821, ele serviria de âncora de legitimação tanto para os brasileiros, que viam nele a última tábua de salvação para a manutenção legítima do regime de portos abertos instituído por seu pai, quanto pelos portugueses, que viam em um príncipe da casa de Bragança o derradeiro bastião de uma ordem monárquica que garantisse os bens, os interesses e, sobretudo, a integridade física dos portugueses residentes no Brasil. Sem Pedro, seria a guerra, e isso todos queriam evitar. Daí a percepção de parte da historiografia de que o que houve, mais que uma luta de independência, foi um acordo político, uma conciliação dinástica, para evitar a ruptura radical.

Maria Odila ressalta ainda que o cimento dessa aliança complexa entre colonos e reinóis, parte do que ela chamou de “interiorização da metrópole”, foi o medo.

Sombra subjacente a pairar temerariamente sobre a cabeça de todos os brancos, sobretudo proprietários, o medo era de que, no caso de uma conflagração revolucionária pela independência, fosse necessário mobilizar as camadas populares, disseminando o conceito de liberdade. Não era tolo acreditar que, para escravos, mulatos e homens pobres em geral, a liberdade de Portugal fosse um conceito abstrato demais a ser traduzido de outro modo.

A liberdade mais ansiada era outra, e, em termos histórico-sociológicos, o Haiti parecia bem mais perto que em termos geográficos.

Com o vasto apoio de camadas políticas poderosas e amplas no Centro-Sul brasileiro, era natural que o príncipe assumisse a liderança do movimento de enfrentamento às cortes portuguesas que seu pai, praticamente prisioneiro em Portugal, não tinha condições de implementar.

Surgem, entre 1821 e 1822, questões de ordem jurídica que embasam o debate em torno da soberania sobre o Brasil e o país se torna um laboratório de ciência política ilustrada.

Quem é soberano? Quem tem autoridade para governar o Brasil? As cortes portuguesas, uma vez que D. João, efetivo monarca, havia aceitado uma Constituição transferindo, portanto, parcela significativa de sua autoridade para a Constituinte? Ou seria o príncipe regente, deixado como governante residente por seu pai no Reino do Brasil, efetivamente autônomo desde 1815 por ordem do próprio monarca? É um confronto de vontades vencido naturalmente pelo príncipe por ser o representante de uma coalizão invencível dos interesses interiorizados que se articulavam social e economicamente desde 1808 e vinham se articulando politicamente desde 1820. O Dia do Fico e o episódio do “Cumpra-se” nada mais são do que os fatos mais conhecidos dessa sucessão de conflitos de autoridade que, com o sete de setembro, culminam em ruptura definitiva e início

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de hostilidades militares.

O grande articulador dos interesses difusos da elite brasileira junto ao príncipe foi José Bonifácio de Andrada e Silva, uma espécie de superministro de D. Pedro que acumulava as principais pastas do reino que se configuraria independente após o sete de setembro. Uma das pastas foi a das Relações Exteriores, o que faz de Bonifácio nosso primeiro chanceler. Um mês antes do sete de setembro, Bonifácio faz circular o famoso Manifesto às Nações Amigas, em que já antecipava uma série de justificativas contra a submissão humilhante de uma pátria irmã, um Reino Unido (desde 1815) levado a cabo pelas cortes portuguesas. Seu intuito não era o mesmo da Declaração das Treze Colônias de 1776. Não falava em ruptura. Desejava angariar simpatia para seu príncipe junto aos reinos europeus, revestindo-lhe da legitimidade paterna oriunda do decreto de 1815 e de sua condição de regente contra a “usurpação” dos liberais portugueses e sua sanha contrária ao regime de portos abertos. Aos ingleses tocavam o argumento econômico, aos austríacos o Dinástico, aos franceses o jurídico, a cada qual segundo seu gosto, evidenciando a formação coimbrã, ilustrada porém conservadora, do cientista e mineralogista José Bonifácio.

A história de nossa ruptura é sui generis. Se tentarmos explicá-la a um colega latino- americano, teremos complicações. Podemos imaginar o seguinte diálogo:

Latino-Americano: Quem é o herói da sua independência? Brasileiro: O herdeiro do trono da metrópole, o príncipe Pedro de Alcântara. LA: Estava o príncipe em conflito com o próprio pai? B: Não, estava em conflito contra os liberais portugueses! LA: Liberais? Os liberais eram contra a independência? B: Eram! Os liberais portugueses não eram bem liberais, queriam recolonizar o Brasil e restaurar o exclusivo metropolitano! LA: Como assim restaurar? Vocês já não eram mais submetidos ao monopólio antes da independência? E ainda eram Colônia? B: Sim, desde 1808. D. João havia aberto os portos quando se mudou para cá. LA: O rei de Portugal se mudou para a Colônia?! B: É, e acabou com o exclusivo metropolitano. É, é complicado mesmo!

Acredito que só não nos damos conta dessa sucessão de improbabilidades por sermos apresentados a ela desde a mais tenra idade nas aulas de história do colégio. Maria Odila acredita que parcela não desprezível da historiografia – fortemente influenciada pela literatura norte e latino-americana de independência como ruptura, levante revolucionário e guerras de libertação – quis enxergar semelhanças no modelo brasileiro, deixando de perceber os elementos de continuidade que ela apresenta com o conceito clássico, ainda hoje relevante, de “interiorização da metrópole”. Entende-se ali a emancipação como um processo, um longo processo de criação e de consolidação do Estado imperial brasileiro. Vincula-se então tal processo de independência ao marco cronológico de 1808 e à transmigração da Corte, do qual o ano de 1822 era apenas mais um desdobramento. Desdobramento relevante, mas não inédito, já que a emancipação política evidenciada pelo sete de setembro já era, na prática, antecedida pela elevação do Brasil em 1815 à categoria de reino.

Para Maria Odila, os conflitos posteriores ao sete de setembro ainda podem ser enxergados como uma guerra civil portuguesa. Entre os interesses dos portugueses de lá, apoiados significativamente por regiões mais vinculadas a Lisboa que ao Rio de Janeiro, como o Maranhão e o Pará, contra os interesses dos portugueses de cá, apoiados fortemente pelos interesses dos brasileiros do Centro-Sul, dos liberais e de todos aqueles que eram beneficiários do regime de portos abertos de 1808. Essa última aliança é selada pela figura do príncipe. Ele serviria de argamassa. Oferecia legitimidade dinástica e dava garantia aos portugueses de que não seriam espoliados. O outro cimento era o haitianismo, verdadeiro amálgama aterrorizante das elites, que temiam mais que tudo o levante popular. Seu temor de uma rebelião

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negra favoreceu o entendimento intra elite mesmo entre grupos rivais.

Não é possível, no entanto, fingir que não houve Guerra de Independência. Houve significativa resistência ao Grito do Ipiranga nas regiões em que a vinculação a Lisboa era mais forte que ao Rio de Janeiro – Pará e Maranhão, por exemplo – e também nas regiões onde havia grande presença de militares e de comerciantes portugueses, como a Bahia e a Cisplatina.

Diferentemente da luta cruenta ocorrida na América espanhola, do lado de cá dos Andes o conflito foi tópico e muito mais concentrado no tempo.

A disputa mais estratégica se deu no plano naval, em que a superioridade de forças era claramente portuguesa, e o Brasil independente, sem Marinha, teve de recorrer a mercenários ingleses que, com o fim das guerras napoleônicas, viam no contexto turbulento da América do Sul oportunidades de atuação. Em que pesem os combates terrestres na Bahia, por exemplo, foi a atuação de Lord Cochrane, semiaposentado, no comando de uma armada improvisada, que garantiu a capitulação das forças portuguesas, mais por meio de expedientes e uso inteligente de sua própria reputação do que por superioridade inequívoca de forças. São Luís se rende sem combate, e Belém, após rápida demonstração de força, seria facilmente contida com a chegada de reforços.

Em menos de um ano, todas as províncias estão sob o controle do imperador aclamado no Rio de Janeiro. Do sete de setembro paulista ao dois de julho baiano não se passaram dez meses, diferente dos mais de dez anos que separam Hidalgo de Iturbide no México ou da década e meia que separa Miranda de Ayacucho nos Andes. Política e militarmente, estava consolidada a independência. Faltava agora seu reconhecimento internacional, que ocorreria nos turbulentos anos do Primeiro Reinado.

Autoria de João Daniela de Almeida

Fonte: Manual do Candidato – História do Brasil – Fundação Alexandre de Gusmão - 2013 Disponível em Site: www.funag.gov.br

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