Processo 02P3100
Data do documento 9 de julho de 2003
Relator
Leal Henriques
SUPREMO TRIBUNAL DE JUSTIÇA | PENAL
Acórdão
DESCRITORES
Princípio da livre apreciação da prova > Poderes da relação > Poderes de
cognição > Modificabilidade da decisão de facto > Respostas aos quesitos > Princípio da imediação > Prevaricação > Extorsão > Medida da pena > Renovação de prova > Escuta telefónica > Jovem delinquente > Fundamento de direito > Fundamento de facto
SUMÁRIO
TEXTO INTEGRAL
Acordam na Secção Criminal do Supremo Tribunal de Justiça:1. Na 1ª Vara Criminal de Lisboa, e em Tribunal Colectivo, foram julgados 16 arguidos, acabando por serem sentenciados da forma seguinte:
- «Declarar por verificada a excepção de caso julgado relativamente ao crime de tráfico de que vinha pronunciado o arguido A e consequentemente o absolver nestes autos de tal crime.
- Declarar por verificada a excepção de caso julgado quanto aos arguidos B e C pelo crime de tráfico relativamente aos factos ocorridos entre Outubro de 1997 e 23 de Julho de 1998 e consequentemente os absolver nesta parte.
- Declarar improcedente por não provada a acusação do Ministério Público dos arguidos D e E e consequentemente os absolver dos crimes de que vinham pronunciados.
- Declarar procedente por provada a acusação do Ministério Público contra o arguido F e consequentemente condená-lo:
- pelo crime de chefia de associação criminosa, com reincidência, na pena de 17 anos de prisão;
- pelo crime de tráfico de estupefaciente, agravado, com reincidência, na pena de 11 anos de prisão.
- condená-lo em cúmulo jurídico na pena única de 25 anos de prisão.
- Declarar parcialmente procedente, por parcialmente provada, na forma demonstrada, a acusação do
Ministério Público contra o arguido G e consequentemente:
- o absolver do crime de associação criminosa;
- o condenar pelo crime de tráfico de estupefacientes, agravado, com reincidência, na pena de 11 anos de prisão.
- o condenar pelo crime de falsificação com reincidência, na pena de 2 anos de prisão.
- o condenar em cúmulo jurídico na pena única de 12 anos de prisão.
- Declarar procedente por provada, na forma demonstrada, a acusação do Ministério Público contra o arguido B e consequentemente:
- o condenar pelo crime de associação criminosa, na pena especialmente atenuada de 4 anos de prisão;
- o condenar pelo crime de tráfico de estupefacientes, agravado, na pena especialmente atenuada de 5 anos de prisão.
- o condenar em cúmulo jurídico na pena única de 6 anos de prisão.
- Declarar parcialmente procedente por parcialmente provada, a acusação do Ministério Público contra a arguida H e consequentemente:
- a absolver do crime de associação criminosa;
- a condenar, como cúmplice, do crime de tráfico de estupefacientes agravado na pena de 5 anos de prisão.
- Declarar parcialmente procedente, por parcialmente provada, na forma demonstrada a acusação do Ministério Público contra o arguido I e consequentemente:
- o absolver do crime de associação criminosa;
- o condenar pelo crime de tráfico de estupefacientes, agravado, na pena de 8 anos de prisão.
- Declarar procedente por provada a acusação do Ministério Público contra a arguida J e consequentemente:
- a condenar pelo crime de associação criminosa, na pena de 6 anos de prisão;
- a condenar pelo crime de tráfico de estupefacientes, agravado, na pena de 6 anos de prisão.
- a condenar em cúmulo jurídico na pena única de 8 anos de prisão.
- Declarar procedente por provada, na forma demonstrada, a acusação do Ministério Público contra a arguida C e consequentemente:
- a condenar pelo crime de associação criminosa, na pena especialmente atenuada de 3 anos de prisão;
- a condenar pelo crime de tráfico de estupefacientes, agravado, na pena especialmente atenuada de 3 anos de prisão.
- a condenar pelo crime de branqueamento na pena especialmente atenuada de 2 anos de prisão.
- a condenar pelo crime de detenção de arma proibida na pena de 6 meses de prisão.
- efectuar o cumulo jurídico destas penas com a pena do Proc. 19/99.2TDLSB desta 1ª Vara, 2ª secção, e condená-lo na pena única de 7 anos de prisão .
- Declarar procedente por provada, na forma demonstrada, a acusação do Ministério Público contra a arguida L e consequentemente:
- a condenar pelo crime de associação criminosa, na pena especialmente atenuada de 3 anos de prisão;
- a condenar pelo crime de tráfico de estupefacientes, agravado, na pena especialmente atenuada de 4
anos de prisão.
- condená-la em cúmulo jurídico na pena única de 5 anos de prisão.
- Declarar parcialmente procedente, por parcialmente provada, na forma demonstrada, a acusação do Ministério Público contra a arguida M e consequentemente:
- a absolver do crime de associação criminosa;
- a condenar pelo crime de tráfico de estupefaciente, agravado, na pena de 6 anos de prisão.
- Declarar parcialmente procedente por parcialmente provada, a acusação do Ministério Público contra o arguido N e consequentemente:
- o absolver do crime de associação criminosa;
- o condenar, como cúmplice, do crime de tráfico de estupefacientes agravado na pena de 18 meses de prisão.
- Declarar improcedente por não provada a acusação do Ministério Público contra o arguido A pela prática do crime de detenção de arma proibida e consequentemente dele o absolver.
- Declarar procedente por p ro v a d a a acusação do Ministério Público contra o arguido A e consequentemente:
- o condenar pela prática do crime de associação criminosa na pena de 6 anos e 6 meses de prisão.
- o condenar pela pratica de um crime de branqueamento na pena de 3 anos de prisão.
- efectuar o cumulo jurídico desta pena com a pena do Proc. 19/99.2TDLSB desta 1ª Vara, 2ª secção, e condená-lo na pena única de 8 anos de prisão.
- Declarar parcialmente procedente por parcialmente provada, a acusação do Ministério Público contra o arguido O e consequentemente:
- o absolver pelo crime de associação criminosa.
- o condenar pelo crime de tráfico de estupefacientes, agravado, na pena especialmente atenuada de 4 anos de prisão.
- Declarar improcedente por não provada, a acusação do Ministério Público contra os arguidos P e Q, pela prática dos crimes de prevaricação e branqueamento e deles os absolver.
- Declarar procedente por provada, na forma demonstrada, a acusação do Ministério Público contra os arguidos P e Q e consequentemente:
- os condenar pela prática de 1 crime de extorsão na pena de 6 anos de prisão».
Inconformados com o sentenciado, dele interpuseram recurso para a 2ª instância alguns dos arguidos condenados e também o MºPº, tendo o Tribunal da Relação de Lisboa proferido acórdão em que decidiu:
- conceder total provimento ao recurso interposto pelos arguidos P e Q, absolvendo-os;
- conceder parcial provimento ao recurso, alterando a censura imposta à arguida H para 18 meses de prisão, já expiada;
- conceder parcial provimento ao recurso relativamente ao arguido O, alterando a respectiva pena para 3 anos de prisão;
- negar provimento aos recursos interpostos pelos arguidos G, I e J;
- conceder parcial provimento ao recurso interposto pelo MºPº, relativamente à aplicação do perdão concedido pela Lei nº 29/99, de 12 de Maio à arguida C.
Ainda irresignados, vêm agora impugnar esta segunda decisão junto do Supremo Tribunal de Justiça, quer o MºPº, quer os arguidos G, I e O, concluindo assim as respectivas motivações:
A) MINISTÉRIO PÚBLICO:
- Quanto aos arguidos P e Q:
- « Não tendo sido admitida a impugnação da matéria de facto conforme requerido pelos arguidos P e Q, tem a mesma de se considerar fixada.
- A reapreciação de parte da fundamentação constante do acórdão de 1ª instância no que a estes arguidos respeita, viola o princípio da livre apreciação da prova constante do artº 127º do CPP e, por isso, tem de ser eliminada.
- Os factos assentes nos pontos 40 e 41 do acórdão de 1ª instância configuram os crimes de extorsão e de prevaricação devendo ambos estes arguidos ser por eles igualmente condenados, pelo primeiro delito na pena de 6 anos de prisão, tal como ficou decidido em 1ª instância, e, pelo segundo, e em concurso real, na pena de 2 anos de prisão.
- No art° 369° do CP, ao prever e punir a conduta de um funcionário que, no âmbito de um inquérito, não promover ou não praticar um acto no exercício dos seus deveres decorrentes do cargo que exerce, também se abrange a conduta de agente policial que, após perseguir uma pessoa que sabe transportar consigo dinheiro proveniente de tráfico de estupefacientes, lho retira das mãos e, em vez de
lavrar o respectivo expediente, se apropria desse dinheiro em proveito próprio.
- Caso se não enquadre a conduta dos arguidos no n°1 do art° 369° do CP, sempre cairá na alçada do seu n° 3, pois que, sendo competentes e obrigados a deter a arguida, detectada em flagrante delito de tráfico de estupefacientes agravado (art° 255° do CPP), deliberadamente não o fizeram.
- Deve proceder na íntegra o recurso interposto pelo Mº Pº ao acórdão de 1ª instância, tal como consta das conclusões 16ª a 30ª da sua motivação de folhas 4851 e seg., pois que, além de um crime contra o património em geral (extorsão), cometeram os arguidos um crime contra a realização da justiça ( prevaricação) .
- Foram violados, além dos preceitos constantes do corpo desta motivação, os art°s 369° e 386° do CP e 127° e 242° e 255° do CPP.
- Quanto à arguida H:
- A pena aplicada à arguida H de 5 anos de prisão por cumplicidade no crime de tráfico de estupefacientes agravado é ajustada à culpa e ao grau de ilicitude dos factos que cometeu, devendo ser mantida.
- Violou-se os art°s 21 ° e 24°, als. b) e c), do DL n° 15/93 e os art°s 27°, 71° e 72° do C. Penal.
- Quanto ao arguido O:
- A pena imposta ao arguido O de 4 anos de prisão deve manter-se porque ajustada.
- Foram neste caso também violados os preceitos citados...»
B)- G:
- «O recorrente suscitou no seu recurso a questão da renovação da prova, pelo que o acórdão recorrido ao decidir que tal questão não foi suscitada elaborou em
erro e, consequentemente, não procedeu ao reexame da matéria de facto, ferindo de nulidade a decisão proferida, por violação do disposto nos art.ºs 417°, n.º 3, al. e), 430°, n.ºs 1 e 2, 431° e 379°, n.º 1°, al. c), todos do CPP, nulidade que não deve considerar- -se sanada e é determinante do reenvio do processo para novo julgamento nos termos do disposto nos artºs. 434° e 426° do mesmo diploma legal para renovação da prova.
- O acórdão recorrido não conheceu da inconstitucionalidade da norma do art.º 127° do CPP, por afrontamento do art.º 32°, nº 1, da CRP, invocada pelo recorrente, pelo que é nulo por omissão de pronúncia sobre essa concreta questão, nulidade que não deve considerar-se sanada e é determinante do reenvio do processo para novo julgamento.
- O acórdão recorrido não conheceu das restantes questões suscitadas na motivação do recurso e suas conclusões, sendo nulo por violação do disposto no
art.º 379°, n.º 1°, al. c), do CPP, nulidade que não deve considerar-se sanada e é determinante do reenvio do processo para novo julgamento.
- O exame crítico das provas a que faz referência o n.º 2 do art.º 374° do CPP, impõe que a sentença contenha, ainda que de forma resumida, os elementos indispensáveis, quer de facto quer de direito, a indicação das provas que determinaram a decisão de facto e a explicitação das concretas razões porque aquela prova convenceu o tribunal no sentido expresso na sentença proferida, não se bastando com a simples indicação desses meios de prova e/ou a remissão para outras peças processuais.
- O acórdão recorrido, conhecendo da questão suscitada pelo recorrente sobre o valor probatório das declarações dos co-arguidos em caso de co-arguição, decidiu sumariamente que as declarações do co- arguido B não contribuíram irrestritamente para a formação da convicção do Tribunal por outra prova válida ter sido produzida, porém, não se pronunciou concreta e fundamentadamente sobre esses meios de prova utilizados.
- O acórdão recorrido ao conhecer desta questão bastou-se com a enunciação efectuada no acórdão proferido pelo tribunal de 1ª instância quanto aos meios de prova que ali se referem terem coadjuvado as declarações prestadas pelo co-arguido B, não obstante tais meios de prova terem sido motivadamente postos em crise pelo recorrente enquanto coadjuvadores daquelas declarações e ter sido sobre tais pontos da matéria facto pedida a renovação da prova.
- Aquela enunciação dos meios de prova que serviram para formar a convicção do tribunal efectuada pelo
acórdão proferido em 1ª instância e pelo acórdão ora recorrido, não cumpre ainda os requisitos do art.º 374°, n.º 2, do CPP, porquanto não foi acompanhada do necessário exame crítico dessas provas, limitando- se a remeter para as mesmas, num caso ou outro com considerações demasiado genéricas sobre tais meios de prova e, ainda assim, parcas, o que o fere de nulidade nos termos do disposto no art.º 379°, n.º 1, al. a), daquele diploma.
- O acórdão recorrido ao conhecer e decidir previamente das questões sobre o valor probatório das declarações de co-arguido e vícios da decisão recorrida nos termos do art.º 410°, n.º 2, do CPP, partiu para a apreciação e decisão dos vícios do art.º 374°, n.º 2 e 379°, nº 1, al. a), do mesmo diploma, com base na conclusão a que chegou sobre aquelas matérias, inquinando dessa forma a apreciação e consequente decisão, porquanto tal conhecimento e decisão tiveram como pressuposto a inalterabilidade da factualidade apurada.
- O acórdão recorrido ao conhecer da questão da nulidade do acórdão proferido em 1ª instância, por falta de fundamentação no sentido da não verificação de tal vício "... com respaldo integral na resposta dada à questão anterior", fê-lo por recurso a fórmulas genéricas e sem analisar o caso que lhe foi concretamente apresentado, com o que violou o disposto no art.º 374°, n.º 2, do CPP, pelo que é nulo nos termos do disposto no art.º 379°, nº 1, al. a), do mesmo diploma legal.
- A fundamentação constante do acórdão proferido pelo Tribunal da Relação de Lisboa, supra transcrita, e ainda no sentido de que, quanto ao arguido G, "Os meios de prova utilizados no julgamento, não consubstanciam quaisquer limites ou excepções, negativas ou positivas, ao princípio da livre apreciação da prova. E, em consequência, o Tribunal po(u)de valorar livremente a prova e nela encontrar a motivação para a convicção probatória.", é vaga e manifestamente insuficiente, não cumprindo as exigências de fundamentação das decisões, contidas no art.º 374°, n.º2, do CPP e art.º 205°, n.º 1, da CRP.
- Inconstitucionalidade do art.º 374°, nº 2, do CPP, que aqui se argui na interpretação efectuada pelo acórdão recorrido, no sentido de que a fundamentação das decisões em matéria de facto e de direito se basta com a mera enumeração dos meios de prova utilizados, não exigindo a explicitação do processo de formação da convicção do tribunal, por violação do dever de fundamentação das decisões previsto no art.º 205°, nº 1, da CRP, bem como, quando conjugada com as normas das alíneas a), b) e c) do n.º 2 e n.º 3 do art.º 410° do mesmo diploma, por violação do direito ao recurso consagrado no n.º 1 do art.º 32° da Constituição da República Portuguesa.
- Não obstante a exigência legal, também quanto à impugnação da matéria de facto e verificação, ou não, dos vícios do art.º 410°, nº 2, do CPP, levadas à motivação do recorrente, o acórdão recorrido pronunciou- se em termos meramente abstractos, não analisando concretamente cada uma das questões levadas à motivação e conclusões sobre estas matérias, antes se respaldando na resposta dada a questão anteriormente tratada, ou seja, no sentido da declaração, tout court, da inexistência de tais vícios.
- O acórdão recorrido violou assim, também nesta parte, o disposto no art.º 374°, nº 2, do CPP, pelo que é nulo nos termos do estatuído no art.º 379°, nº 1, al. a), do mesmo diploma, mas ainda por via do estipulado na al. c) do mesmo dispositivo, uma vez que o tribunal não se pronunciou sobre as questões que foram concretamente suscitadas quanto à arguida nulidade de falta de fundamentação e invocados vícios da decisão nos termos do art.º 410°, n.º 2, als. a) a c), nulidades que determinam o reenvio do processo para
novo julgamento.
- A interpretação do art.º 374°, nº 2, e 410°, nº 2, do CPP, efectuada pelo acórdão recorrido, no sentido de que a apreciação das questões que foram colocadas ao tribunal se basta com a mera remissão para a apreciação efectuada quanto a outras questões, não exigindo ainda a sua fundamentação, é insconstitucional, por violação do dever de fundamentação das decisões previsto no art.º 205°, nº 1, da CRP, bem como, quando conjugada com as normas das alíneas a), b) e c) do n.º 2 e n.º 3 do art.º 410° do mesmo diploma, por violação do direito ao recurso consagrado no n.º 1 do art.º 32° da Constituição da República Portuguesa.
- O acórdão proferido pelo Tribunal da Relação de Lisboa, ao aderir, na íntegra, à motivação de facto e de direito do acórdão proferido pelo Tribunal a quo, confirmando-a, sem a necessária análise e fundamentação, para além de padecer dos vícios da decisão proferida pelo Tribunal de 1ª instância que assim se lhe comunicam, está ferido da nulidade prevista no art.º 379°, nº 1, als. a) e c) do CPP, por violação do disposto no art.º 374°, n.º 2 e do art.º 205°, nº 1, da CRP.
- Invocados os vícios do art.º 410°, nº 2, do CPP, impunha-se que o acórdão recorrido verificasse - independentemente da renovação da prova -, se a matéria de facto provada era suficiente para a decisão de direito tomada, se existia ou não contradição insanável da fundamentação e erro notório na apreciação da prova, uma vez que estes são requisitos da fundamentação e consequentemente da própria decisão.
- Da leitura e análise do texto do acórdão proferido em 1ª instância e a que o acórdão recorrido aderiu, verifica-se que os factos constantes de 34. e 36. dos Factos Provados, no sentido de que também o recorrente transaccionou elevadas quantias de produto estupefaciente que veio a ser distribuída, ao longo do tempo, por elevado número de consumidores, estão em flagrante e insanável contradição, com os factos constantes de 2., 3., 5., 8., 12. e 37. desses mesmos Factos Provados e ainda com os factos constantes de 1., 3., 4., 10., 11., 12 e 16. dos Factos Não Provados.
- Tais factos, constantes de 34. e 36. dos Factos Provados, estão ainda em contradição insanável com a motivação da decisão de facto, nomeadamente, na parte em que refere, expressamente, que, relativamente ao crime de associação criminosa quanto ao arguido G, não se deram os factos como provados porque as declarações do arguido B, em sentido afirmativo, não se encontram corroboradas por outros meios de prova.
- E ainda em contradição com o texto do acórdão proferido em 1ª instância quanto ao aspecto jurídico da causa e a que o acórdão recorrido aderiu, onde se decidiu que relativamente ao recorrente não se provou a materialidade fáctica relativa ao crime de associação criminosa em razão do que o absolveu nessa parte.
- Por sua vez, os factos constantes dos pontos 2., 3., 5., 8., 12. e 37. dos Factos Provados e dos pontos 1., 3., 4., 10., 11., 12 e 16. dos Factos Não Provados, estão em contradição, também ela insanável, com o texto do acórdão proferido em 1ª instância na parte referente ao aspecto jurídico da causa - enquadramento jurídico penal - a que o acórdão recorrido aderiu -, mais concretamente na apreciação dos elementos objectivos e subjectivos do crime de tráfico de estupefacientes por que o recorrente foi condenado, porquanto sobre a mesma questão resultam daquele posições antagónicas e inconciliáveis.
- Assim, por um lado, decorre do texto da decisão proferida que o arguido G não aceitou associar-se ao grupo organizado dos restantes co-arguidos (vd. 2., 3., 5., 12., 37, dos factos provados e 1., 3., 4., 10., 11.
e 12., dos factos não provados), não entregou quaisquer das quantidades de produto estupefaciente enunciadas na pronúncia a qualquer dos seus co-arguidos, incluindo o B, com excepção da entrega do dia 27.11.98 (vd. 2., 3., 5., 12., 37, dos factos provados e 1., 3., 4., 10., 11. e 12., dos factos não provados);
não auferiu qualquer rendimento em razão de tal actividade e tão pouco que os bens que lhe foram apreendidos foram dela provenientes (vd. 16. dos factos não provados).
- Mas, por outro lado, decidiu-se que o arguido G actuou no âmbito de um plano prévio e gizado por todos os co-arguidos para a venda de produtos estupefacientes no Casal Ventoso de Baixo, ao longo do tempo, angariando dessa actividade proventos económicos que repartiam entre si (vd. 36. dos factos provados, motivação de facto, enquadramento jurídico-penal e a parte relativa aos destino dos bens apreendidos).
- Tais posições antagónicas e inconciliáveis sobre as mesmas questões são inultrapassáveis pelo tribunal de recurso, pelo que, estando a decisão eivada deste vício, impunha-se e impõe-se a renovação da prova ou o reenvio do processo para novo julgamento, para que se desfaça a contradição e se decida em conformidade (art.ºs 410°, n.º 2, 430°, 431°,434° e 426, todos do CPP).
- Da análise do próprio texto da decisão recorrida, por si só e quando conjugado com as regras da experiência comum, verifica-se que dos factos provados (1, 3, 4, 10, 11, 12 e 16) e não provados (34 e 36), e da fundamentação, não pode concluir-se que o recorrente tivesse transaccionado elevadas quantias de produtos estupefacientes e, consequentemente, que tais quantias tivessem sido distribuídas, ao longo do tempo e por elevado número de consumidores e que com as mesmas tivesse ou visasse obter quaisquer lucros, verificando-se flagrante e insanável contradição.
- Os factos provados e não provados não permitem a integração da conduta do recorrente nos elementos objectivos e subjectivos do crime de tráfico de estupefacientes agravado, p. e p. pelo art.º 24, als., b) e c) do DL 15/93, de 22 de Janeiro, sendo que um non liquet nesta matéria, não pode deixar de ser
resolvido senão a favor do arguido, admitindo-se no máximo que a ocorrência descrita em 15. dos factos provados, integre o crime de tráfico de estupefacientes p. e p. no art.º 21°, nº1, do DL 115/93, de 22 de Janeiro.
- O acórdão recorrido padece pois do vício da insuficiência para a decisão da matéria de facto provada, ferindo-a de nulidade, devendo, em consequência, ser a mesma revogada e substituída por outro que integre a conduta do arguido na previsão do art.º 21°, nº 1, do DL 15/93, de 22 de Janeiro ou, caso assim se não entenda, proceder-se à renovação da prova ou reenviar-se o processo para novo julgamento (artºs 410°, n.º2, 430°,431°,434° e 426, todos do CPP).
- Tendo o acórdão recorrido, face às declarações prestadas pelo arguido B sobre a quase totalidade da matéria imputada na pronúncia ao seu co-arguido G, decidido no sentido de aquelas condutas terem sido praticadas não pelo recorrente (vd. 1., 3., 4., 10., 11., 12. e 16 do factos não provados), mas pelo declarante (vd. 2., 3., 5., 8., 12., 37., dos factos provados), a única ilacção a retirar é a de que aquelas declarações não são credíveis também no que respeita ao facto levado a 15, dos Factos Provados.
- Não se trata apenas da verificação de as declarações do arguido B estarem desacompanhadas de outros meios de prova quanto às condutas imputadas ao recorrente mas não provadas, mas ainda da intrínseca credibilidade das declarações por aquele prestadas, no seu todo, no que respeita às condutas por ele atribuídas ao recorrente e quanto ao juízo formulado no acórdão no sentido de o mesmo ter colaborado
durante a investigação com os órgãos de polícia criminal e sobretudo na audiência, na produção da prova, de modo profícuo para dar como provados factos relevantes relativamente a alguns arguidos e à actividade deles no âmbito da organização a que estavam ligados (vd. 51 dos factos provados).
- Verifica-se, pois, um manifesto erro na apreciação da prova como decorre ainda do facto de o acórdão sustentar a sua convicção e juízo formulado nos relatórios de vigilâncias efectuados por agentes da P.J. que confirmariam aquelas declarações, os quais, mencionados na motivação da decisão de facto - a fls. 88 e 89, 91 a 93, 227 a 230, 347 e 348, 405 e 473 -, apenas referem encontros entre ambos os co-arguidos, nada mais do que isso e por isso se deram como não provados e inerente factualidade (vd. 2. e 4. dos factos não provados).
- Fiscalizada a credibilidade das declarações do co-arguido B, até pela verificação de elementos exteriores à própria declaração corroboranda, concluiu-se pela inexistência de prova adicional que torne segura a versão dos factos por aquele apresentada, resultando a condenação do recorrente apenas nas declarações de um co-arguido.
- O acórdão recorrido não considerou todos os elementos de prova colhidos nos autos e apreciados em sede de discussão da causa - designadamente, os depoimentos das testemunhas de defesa arroladas pelo recorrente transcritos no texto da decisão recorrida -, meios de prova que credibilizam a versão dos factos por ele apresentada e que foram levados à motivação da decisão de facto por o Tribunal os ter considerado rigorosos e isentos, revelando-se assim essenciais e não insignificantes para a boa apreciação e decisão da causa.
- Não se pronunciando sobre questões que lhe foram apresentadas o acórdão encontra-se ferido de nulidade (art.º 379°, n.º 1, al. c), do CPP), verificando-se ainda erro notório na apreciação da prova, vício que fere de irremediável nulidade a decisão proferida e determina a absolvição imediata do recorrente, ou, caso assim se não entenda, a renovação da prova e/ou o reenvio do processo para novo julgamento (cfr.
art.ºs 410° n.º 2, al. c), 431°,434° e 426°, todos do CPP).
- O acórdão recorrido limitou-se a afirmar, de forma genérica e abstracta, que se mostram preenchidos os pressupostos de facto de que dependia a imputação do referido ilícito que consta da pronúncia, verificando-se manifesta insuficiência da fundamentação da decisão proferida (art.ºs 374°, n.º 2, 379° n.º 1, al. a) e 410°, n.º 3 do CPP), nomeadamente quanto à integração da conduta do recorrente descrita em 15. dos Factos Provados, no tipo p. e p. no art.º 24°, als. b) e c), do DL 15/93, de 22 de Janeiro.
- Também no que respeita à escolha e medida concreta da pena, o acórdão recorrido não se pronunciou sobre as questões suscitadas, limitando-se a considerações doutrinais sobre o processo de determinação da pena, fazendo considerações vagas e reproduzidas das apreciações que fez sobre esta questão quanto aos demais recorrentes, concluindo, assepticamente, no sentido de a pretensão do recorrente não proceder, enfermando assim de manifesta insuficiência da fundamentação da decisão proferida (art.ºs 374°, n.º 2, 379°. n.º 1, al. a) e 410°, n.º 3 do CPP).
- Tanto mais que a pena aplicada ao arguido se situa próxima do limite máximo, mesmo considerando a agravação prevista nas alíneas b) e c) do art.º 24° do DL 15/93 de 22 de Janeiro - no que se não concede -, apresentando-se excessiva e desproporcionada de per si, mas sobretudo face à pena aplicada aos seus co- arguidos, nomeadamente ao F e ao B, cujas condutas são objectiva e subjectivamente muito mais gravosas
e não obstante a acentuada redução de que este beneficiou em razão da sua alegada colaboração.
- O acórdão recorrido, ao manter inalterada a pena aplicada ao arguido G, violou o disposto nos art.ºs 40°, n.º 2, 70°, 71°, nºs 1 e 2, als. a) e b), do CP, pelo que deva a decisão ser revogada, no sentido de a pena concreta a aplicar ao recorrente, ser substancialmente reduzida, situando-se próximo do seu limite mínimo, considerando a moldura penal abstracta aplicável ao crime p. e p. pelo art.º 21°, n.º 1 , do DL 15/93 de 22 de Janeiro».
C) - I:
- «O conteúdo das transcrições telefónicas eram primeiramente do conhecimento dos elementos policiais.
- Tais transcrições foram feitas segundo o critério dos agentes, ou segundo o critério previamente imposto pelo superior hierárquico.
- Assim, primeiro o órgão policial procedia às transcrições das fitas gravadas, segundo um critério por ele escolhido e só depois eram entregues ao Juiz de Instrução Criminal.
- Este limitava-se a ordenar a junção aos autos.
- Tal posição contende com o disposto no art.º 188º, nº1, do C.P.Penal.
- Também outro dos itens do art.º 188, nº1, do C.P.P., foi violado ao não se levar as fitas gravadas imediatamente ao conhecimento do juiz.
- As escutas, nesta conformidade, estão feridas de nulidade e consequentemente são método proibido de prova.
- A nulidade a que nos referimos é cominada no art.º 189º do C.P.P., porque se traduz numa proibição de prova, sendo, portanto, arguível a todo o tempo, o que ora se faz.
- Consequentemente estando as escutas feridas de nulidade e sendo método proibido de prova, não podiam ser valoradas em julgamento, consequentemente não o tendo entendido assim o Tribunal "a quo"
que aderiu às violações atrás mencionadas.
- O tribunal de 1ª instância fez uso do disposto do princípio da livre apreciação da prova.
- Tal princípio vem consignado no disposto no art.º 127º do C.P.P..
- Não se estabelecendo quaisquer regras, que não as aleatórias regras da experiência, dá-se uma tão grande amplitude ao julgador na livre apreciação da prova que torna tal norma inconstitucional por violação do disposto no art.º 32º, nº1, do C.R.P., inconstitucionalidade que se pretende ver declarada com legais consequências, posto que o Tribunal ora recorrido não acolheu a tese do recorrente antes sufragando a posição do tribunal de 1ª instância.
- O douto acórdão de 1ª instância não fundamentou a sua convicção sobre a matéria de facto.
- Formula a sua convicção sobre os factos provados e não provados, no que tange ao arguido O, ora recorrente, por remissão para o depoimento de co-arguido, testemunha, vigilância e escutas.
- Não foram exibidas, nem o arguido confrontado com quaisquer documentos em tribunal.
- O douto acórdão violou pois o art.º 374º, nº2, do C.P.P. sendo por isso nulo, por força do disposto no art.º 379º, al.c) do mesmo diploma, sendo certo, que o aresto em apreciação sufragou tal violação.
- Foi ainda violado o disposto no art.º 355, nº1, do C.P.P., o que reconduz à nulidade do acórdão, tendo
também tal violação sido sufragada pelo tribunal recorrido.
- Ao não se indicar os motivos de facto que fundamentaram a decisão em 1ª instância violou-se o disposto no art.º 320º, nº1, e 212, nº1, do C.P.P, o que o tribunal "a quo" consentiu.
- O Audi-Porche RS2, matrícula ...-II, a embarcação TUIUI-I e o Ford Cosworth, não podem ser perdidos a favor do estado, pois tendo sido adquiridos pelo arguido I, não se deu como provado na sentença ter este utilizado dinheiro proveniente de qualquer actividade ilícita.
- O mesmo se diga relativamente ao imóvel sito na Urbanização da Anta, Av. Infante D.Henrique n.º ... - l°
Dto, Agualva, Cacém, pois deu-se como provada que a compra foi em Novembro de 97, com base numa certidão do Registo Predial que apenas diz que foi registado nessa data.
- O tribunal de 1ª instância, por falta de elementos, não podia dizer que a compra foi nessa data, até porque tal ocorreu em Novembro de 96.
- Sendo que quanto ao O, aqui recorrente, só se deu por provado ter entrado no negócio da droga em 97, e consequentemente não podia dar-se como provado ter o dinheiro origem ilícita, e tendo o Tribunal da Relação de Lisboa aderido à tese perfilhada em 1ª instância, manteve a violação do disposto nos art° 374º, nº 2 e 379º, nº1, b), do C.P.P. que conduz à anulação do julgamento.
- A pena de 8 anos aplicada ao O é manifestamente exagerada, tanto mais que o Tribunal "a quo" veio a reconsiderar algumas penas aplicadas pelo tribunal de 1ª instância, diminuindo- -as.
- O recorrente é primário e tem bom comportamento anterior e posterior aos factos.
- O seu dolo é menos intenso, posto que segundo o douto acórdão de 1ª instância se limitou a ajudar pontualmente a companheira J no tráfico de estupefacientes.
- Ao manter-se uma pena tão elevada não se teve em conta o disposto nos art.s 71º e 72º do C .P .P , pelo que se manteve a violação de tais preceitos legais.
- O recorrente entende que lhe deveriam ter sido aplicadas as normas violadas, no sentido expendido pelo legislador, o que defende na sua motivação».
D) - O:
- «No acórdão de 1ª instância foi o arguido condenado pela prática de um crime de tráfico de estupefacientes agravado, numa pena especialmente atenuada de 4 anos de prisão.
- O Tribunal da Relação de Lisboa, face ao recurso interposto, decidiu aplicar uma pena detentiva de 3 anos.
- O Tribunal de 1ª instância considerou como provado, no ponto 147 do acórdão por si proferido, que o arguido ora recorrente "... confessou os factos relativamente ao crime de tráfico de que vinha pronunciado, que praticou como forma de obter drogas que consumia e de que actualmente se encontra recuperado, revelando-se arrependido".
- E que "actualmente trabalha como estafeta auferindo mensalmente entre esc. 100.000$00 e esc.
150.000$00 conforme os serviços" e que "Vive com a mãe e um irmão e contribui com esc. 30.000$00 mensalmente para a manutenção do agregado familiar" e ainda que "no CRC do arguido junto aos autos, nada consta".
- Pese a alteração feita, o Tribunal da Relação de Lisboa, na determinação da pena, não ponderou correctamente as finalidades específicas da pena de prisão.
- O crime pelo qual o recorrente foi condenado reveste-se de acentuada ilicitude e gravidade, porém, a moldura concretamente estabelecida sobre condições pessoais do recorrente e as circunstâncias do facto punível determinam que a pena atribuída seja ainda excessiva, se atentarmos num quadro de reintegração social e de prevenção especial.
- O recorrente continua a ser, presentemente, um indivíduo social e familiarmente integrado, responsável e produtivo da nossa sociedade.
- Na determinação concreta da medida da pena não foi ainda devidamente ponderado o seguinte:
- o facto de o arguido, ora requerente, ser, à data dos factos, toxicodependente e de este facto ter sido determinante na prática dos factos;
- o facto de ter confessado;
- o facto de não ter antecedentes criminais;
- o facto de ser jovem e ter envidado sérios - e bem sucedidos - esforços de recuperação da toxicodependência de que padecia;
- o facto de se ter esforçado no sentido de uma reintegração social e familiar, ambas conseguidas;
- o facto de ter cumprido todas as obrigações processuais.
- o facto de não ter cometido nenhum outro ilícito desde a prática dos factos.
- Por outro lado, o crime em apreço - tráfico de estupefacientes p. e p. no artº 21º do DL 15/93 de 22 de Janeiro - é um tipo de ilícito que visa proteger, axiologicamente, a incolumidade pública na sua vertente da saúde pública - o bem jurídico primordialmente protegido por esta incriminação.
- Ora, no presente caso, tal como definido na matéria de facto dada como provada, não devia o Tribunal da Relação ter concluído - como concluiu - que continuam a existir razões repressivas e preventivas que determinam a atribuição de uma pena de prisão efectiva.
- O recorrente não tem antecedentes criminais.
- As circunstâncias em que os factos foram objecto de julgamento foram praticados e os respectivos contornos não foram ainda devidamente ponderados pelo Tribunal da Relação.
- Na determinação concreta da medida da pena, o Tribunal da Relação não ponderou devidamente o facto de o recorrente ser, à data dos factos, toxicodependente e de este facto ter sido determinante da prática dos factos, o facto de ter confessado, o facto de não ter antecedentes criminais, o facto de ser jovem e de ter envidado sérios - e bem sucedidos - esforços de recuperação da toxicodependência de que padecia, o facto de estar plenamente reintegrado social e familiarmente, o facto de ter cumprido todas as obrigações processuais e o facto de não ter cometido nenhum outro ilícito desde a prática dos factos.
- O crime de tráfico de estupefacientes, p. e p. no artº 21º, do DL 15/93, de 22 de Janeiro, é o tipo de ilícito que visa proteger, axiologicamente, a incolumidade pública, na sua vertente da saúde pública.
- Mas diversamente do que entendeu o Tribunal da Relação no presente caso, tal como definido na matéria d e facto como provada, não subsistem razões repressivas e preventivas especiais que determinem a atribuição de uma pena de prisão efectiva.
- Conforme refere o Tribunal de 1ª instância, tem sido perfilhado um entendimento jurisprudencial no
sentido de que "... o tráfico põe em causa uma pluralidade de bens jurídicos: a vida, a integridade física e a liberdade dos consumidores de estupefacientes e afecta a vida em sociedade, na medida em que dificulta a inserção social dos consumidores e tem comprovados efeitos criminógenos"
- No entanto, o Tribunal da Relação não espelha este entendimento (Cfr. Preâmbulo do DL 15/93 de 22/01), nem pondera uma série de outros factores, com consequente violação do espírito deste e outros normativos legais.
- O recorrente sabe, por experiência pessoal e mais concretamente pelo facto de ter sido consumidor de estupefacientes, que o tráfico afectou a sua vida, a sua integridade física, a sua liberdade e a sua vida em sociedade, pois dificultou, se não mesmo impediu, a sua inserção social e familiar durante o período em que o foi e teve os referidos efeitos crimonógenos - pelos quais respondeu em julgamento.
- E é por este motivo que o recorrente entende que o Tribunal da Relação não considerou todos os factores supra referenciados na configuração da pena, com consequente violação do disposto nas alíneas c) in fine, d) do nº2 do artº 71º e c) do nº1 do art.º 72º, todos do Código Penal.
- Acresce que, diversamente do entendimento perfilhado pelo Tribunal da Relação, o recorrente beneficia como beneficiou do regime especial constante do DL nº 401/82 de 23 de Setembro, pelo que a pena devia ter sido especialmente atenuada e suspensa na sua execução.
- Aliás, o Tribunal diz que só não suspende a pena porque não parece possível formular já o prognóstico favorável relativamente ao seu comportamento futuro.
- Esquece o Tribunal da Relação que poderá suspender a pena e ao mesmo tempo sindicar o comportamento futuro do recorrente através da imposição de determinadas obrigações (cfr. artº 8º do DL nº 401/82 de 23 de Setembro.)
- O cumprimento agora, 4 anos após o cometimento do crime, de uma pena de prisão efectiva pelo recorrente terá efeito inevitavelmente perverso e que desvirtua aquele que é o escopo da aplicação de uma pena.
- Donde o acórdão sindicado ter violado o disposto no artº 4º do DL citado.
- O Tribunal da Relação considerou os factos em termos estritamente objectivos e imediatos, sem ponderar as consequências-nefastas - sociais e pessoais que inevitavelmente advirão para o arguido e para a sociedade, se este for condenado numa pena de prisão efectiva.
- Assim, deve a pena concretamente determinada na decisão recorrida ser modificada na decisão de recurso.
- Ponderadas todas as circunstâncias que têm, necessariamente e nos termos da lei, de influir na determinação da pena concreta - a confissão, o arrependimento, a toxicodependência do arguido como motivo determinante da prática do ilícito, a inexistência de antecedentes criminais, o cumprimento de todas as obrigações processuais, v.g. de apresentação desde o início do julgamento, a sua integração familiar e social - decerto o Supremo Tribunal concluirá que a pena adequada a aplicar ao arguido deverá ser suspensa na sua execução.
- A pena é manifestamente excessiva, sobretudo se tivermos em consideração a pena concretamente aplicada a outros co-arguidos, que não agiram num quadro de toxicodependência grave como o arguido, ora recorrente.
- Ao ter concluído pela aplicação ao arguido de uma pena de três anos, o Tribunal "a quo" violou os artigos 71° e 72° do Código Penal e, num plano mediato, o Tribunal violou também o art° 50° do Código Penal.
- A decisão do tribunal "a quo", e em concreto a violação das disposições penais supra invocadas, contende ainda com as garantias de defesa asseguradas ao arguido no processo criminal, com consequente violação do nº1 do artº 32º da Constituição da República Portuguesa que assegura ao arguido todas as garantias de defesa.
- Entende o arguido que a decisão recorrida deve ser modificada, concluindo-se pela aplicação de uma pena de 3 anos, suspensa na sua execução, uma vez que se verificam os pressupostos de que a mesma depende, sendo que a simples censura do facto e a ameaça de prisão realizam de forma adequada e suficiente as finalidade da punição».
Ao recurso do MºPº responderam os arguidos pela forma seguinte:
A) - O:
- o MºPº nada aponta que ponha em crise o acórdão ora em apreciação quanto à medida da pena;
- ao contrário do que propugna, essa pena deve ser ainda mais reduzida, atento o circunstancialismo provado e a atitude demonstrada pelo arguido em julgamento.
B) - P e Q:
- a Relação julgou bem absolvendo os arguidos, porquanto não dispunha de prova para decidir de maneira diferente;
- na verdade, as escutas telefónicas nada têm a ver com tais arguidos e os demais depoimentos ou são apenas de ouvir dizer (caso do R e da S) ou não são credíveis (caso da co-arguida C).
Aos recursos dos arguidos respondeu o MºPº na comarca, para dizer, em síntese, o seguinte:
A)- Quanto ao do G:
- o arguido apenas evidencia desacordo quanto à matéria de facto que o Colectivo entendeu fixar, o que não só não tem qualquer relevo, como não cabe ao STJ reapreciar matéria dessa natureza;
- os factos apurados não autorizam outro tipo de enquadramento legal;
- a pena imposta e confirmada na 2ª instância não merece censura, atenta a culpa do arguido e os seus antecedentes criminais (foi condenado em 1991 em 12 anos de prisão por crime igual).
B)- Quanto ao do I:
- o arguido foi bem absolvido do crime de associação criminosa;
- a invocação de nulidades das escutas telefónicas é uma mera tentativa de reeditar a discordância sobre a matéria de facto, sendo certo que o Tribunal da Relação já apreciou anteriormente a questão e de forma correcta;
- a pena imposta (8 anos de prisão) só peca por defeito.
C)- Quanto ao do O:
- ao pedir o agravamento da pena de 3 anos de prisão imposta pela Relação, o MºPº tem implícito no seu recurso a discordância quanto à suspensão da execução da pena subscrita por este arguido.
Neste Supremo Tribunal de Justiça o MºPº pugnou pelo prosseguimento dos autos, designando-se data para audiência oral.
Colhidos os vistos, foi o processo a julgamento, havendo agora que apreciar e decidir.
2.
As Instâncias deram como provados os seguintes factos:
- «O arguido F foi julgado e condenado, por acórdão de 01/07 de 1993, no âmbito do processo da 3ª Secção n.º 228/91, 6.ª Vara Criminal de Lisboa, pela prática de vários crimes, designadamente o de tráfico de estupefacientes, na pena de 13 anos, 1 mês e 15 dias, vindo a ser-lhe concedida a liberdade condicional em 6 de Julho de 97.
- Não obstante a condenação referida, este arguido, revelando uma clara indiferença ao aviso de que a mesma lhe deveria ter servido, continuou a dedicar-se à actividade de tráfico de estupefacientes em quantidades avultadas e no âmbito do qual viria a auferir elevadas quantias em dinheiro.
- desde data não concretamente apurada mas que se sabe ter sido durante o ano de 1997 o arguido F, no âmbito da sua referida actividade, associou-se a B, J, C, L e A, também arguidos nestes autos, com os quais, de forma reiterada, organizada e sob sua chefia, nos termos subsequentemente descritos, passou a introduzir produtos estupefacientes, designadamente heroína e cocaína, no nosso país, cujo destino final seria, atentas as quantidades envolvidas, milhares e milhares de consumidores, auferindo lucros pecuniários, com os diferenciais entre os preços de aquisição e venda, em montantes não concretamente apurados mas que se traduziram em muitas dezenas de milhares de contos.
- O arguido F, dono do produto estupefaciente, o qual recebia de local e indivíduos não apurados, entregava-o ao arguido B o qual por sua vez se encarregava de o entregar às arguidas J, L, C e A e aquelas três arguidas, por sua vez, se encarregavam de o pesar, dosear, embalar e providenciar pela sua venda aos consumidores.
- Inicialmente, pelo menos durante o ano de 1997, o local de pesagem, embalamento e doseamento foi numa casa pertencente à arguida J, sita no Casal Ventoso de Baixo, n.º ..., em Lisboa.
- Mais tarde e por solicitação da arguida J, a arguida M aceitou disponibilizar para a pesagem, embalamento e doseamento da droga a sua residência e do seu marido, sita na Rua Conselheiro Pequito, n.º ..., 1.º Drt.,
na amadora, o que ocorreu durante o primeiro trimestre de 1998.
- O arguido N em data não concretamente apurada do Verão de 1998 veio a ter conhecimento de que a sua residência era utilizada para a pesagem, embalamento e doseamento da droga pelas arguidas J, C e L, nada tendo feito para lhes pôr termo, por influência da mulher, que o dominava emocionalmente.
- O arguido F procedia às entregas do produto estupefaciente ao arguido B, normalmente, nas ruas da Amadora, após prévia combinação, através de telemóvel.
- Inicialmente a quantia exigida pelo F, por cada quilo de heroína, era de 5.250.000$00 (cinco milhões duzentos e cinquenta mil escudos).
- A arguida H em data não concretamente apurada passou a ter conhecimento de que o marido B, a filha L e ainda a companheira do filho J e irmã desta, C, se dedicavam à venda de produtos estupefacientes, a ela não se opondo, aconselhando-os de forma a que os mesmos não fossem detidos pelas autoridades.
- O produto estupefaciente era levado para a residência da arguida M, através do arguido B e algumas vezes também através do arguido I , este último, posteriormente, também se encarregava de fazer transportes de estupefaciente já embalado, para o Casal Ventoso, com vista à sua venda neste local.
- Em dia não concretamente determinado mas situado durante o período de tempo correspondente ao último trimestre de 1997, o arguido F fez duas entregas, de um quilo de heroína cada, ao arguido B, após combinação prévia, através de telemóvel.
- Tal heroína, pela qual o arguido F exigiu que lhe viesse a ser entregue, depois de vendida, o preço de 5.250.000$00, por Kg., foi depois transportada para a residência da arguida M , pelo arguido B.
- O produto estupefaciente entregue pelo arguido F ao arguido B era transportado para a residência dos arguidos M e N, e depois de embalado e devidamente doseado, era posteriormente direccionado para zonas de venda aos consumidores e quase sempre para o Casal Ventoso, em Lisboa.
- Este último transporte era feito, para além do arguido I, pelo arguido A, o qual se deslocava ao apartamento referido, sito na Rua Conselheiro Pequito, e recebia a droga de uma das arguidas L, C ou J . - O arguido A vendia o estupefaciente recebido no Casal Ventoso, para onde se transportava na sua moto Honda CBR 900RR, com a matrícula ...-LC, apreendida e examinada a fls. 901.
- Depois de vendida a droga, levava o dinheiro para a casa da arguida M, entregando-o a uma das arguidas C, J ou L.
- Pelo trabalho realizado, o arguido A recebia uma quantia compreendida entre os 10 e os 50 mil escudos diários, consoante as receitas obtidas.
- Este arguido exerceu a actividade referida sempre sob a ordem e direcção das arguidas J , C ou L, a quem competia pagar-lhe o trabalho, até 23 de Julho de 1998, data em que veio a ser detido, no âmbito do processo com o NUIPC 17967/97.7TDLSB, por tráfico de estupefacientes.
- Depois da detenção do arguido A, tornou-se necessário arranjar alguém que o substituísse.
- Assim, a arguida J contactou o arguido O, conhecido pelo "Brasileiro", para exercer as funções de transporte e venda de produtos estupefacientes, mediante o pagamento da quantia diária de 60.000$
(Sessenta mil escudos).
- A partir daquela altura, o arguido O instalou-se na casa da arguida J, sita no Casal Ventoso, n.º 153, local onde procedia à venda da droga a consumidores.
- Nas vendas efectuadas no Casal Ventoso, os arguidos facturavam inicialmente valores na ordem dos 500/600 mil escudos diários.
- Estes valores vieram a aumentar consideravelmente e, em Novembro de 1998, altura em que se procederam às primeiras detenções dos arguidos, tais valores atingiam já os 6.500.000$00 (seis milhões e quinhentos mil escudos), diários, correspondentes á venda de cerca de 1Kg. de estupefaciente.
- No dia 1 de Novembro de 1998, cerca das 22 horas, as arguidas J, L e C, encontravam-se na residência dos arguidos M e N, preparando heroína para vender, estando a arguida H, em tal residência, na sala com os netos;
- Cerca das 22.15 horas, as quatro arguidas saíram da residência referida na amadora - Rua Conselheiro Pequito - fazendo-se transportar cada uma delas numa viatura.
- A arguida H conduzia a viatura Volkswagen POLO, com a matrícula ...-IB, apreendida e examinada a fls.
899-G, a arguida J, a viatura Volkswagen SHARON, com a matrícula ...-IA, a L a viatura PEUGEOT 106 GTi.
com a matrícula ...-JX, apreendida e examinada a fls. 900 e a C a viatura Opel Corsa com a matrícula ...-IN, apreendida e examinada a fls. 899-B.
- Tomaram a direcção de Lisboa, pelo trajecto que passa junto à Academia Militar, atravessaram o IC 19 e junto às instalações da Fiat, viraram à direita, dirigindo-se as quatro para a zona sul do parque de estacionamento do hipermercado "..." , onde pararam as viaturas, excepto a arguida H, a qual, entretanto, atrasara o andamento da sua viatura, em relação às outras arguidas.
- Estas arguidas (L, J e C), encontraram-se naquele local com o arguido D, o qual se encontrava no interior da viatura Nissan Micra, com a matrícula ...-BH. Estas arguidas entregaram ao D uma mochila cujo conteúdo não resultou concretamente apurado.
- O arguido G, no dia 1 de Outubro de 1998, viajou para a Colômbia, via Madrid, com regresso marcado para o dia 14 do mesmo mês, fazendo-se acompanhar de sua esposa U.
- No dia 27 de Novembro de 1998, o arguido G, após prévio contacto telefónico com o arguido B, combinou com este encontrarem-se num parque de estacionamento sito nas traseiras de um posto de abastecimento de combustível, junto à Estrada Marginal, em Santo Amaro de Oeiras, para ali lhe entregar cerca de 1 kg.
de heroína.
- O arguido B dirigiu-se para o local, fazendo-se transportar na sua viatura de marca Mercedes-Benz, com a matrícula ...-HV, apreendida e examinada a fls. 899-I, onde sempre se transportava no âmbito da sua actividade de narcotráfico.
- Ali chegado, estacionou a viatura no parque, saiu da mesma e posicionou-se junto à entrada do referido parque, à espera do arguido G, o qual chegou alguns momentos depois, fazendo-se transportar numa viatura de marca Seat-Toledo ostentando a matrícula ...-LF, não verdadeira, apreendida e examinada a fls.
899-F.
- Com efeito, a matrícula verdadeira de tal viatura á ...-CF e a sua substituição, por outra não verdadeira, teve como objectivo iludir a acção das autoridades, em caso de eventual avistamento de tal viatura, no âmbito da sua actividade ilícita.
- O arguido G parou a viatura junto ao arguido B, o qual abriu a porta da frente do lado direito da viatura, introduziu a parte superior do corpo na mesma e depois de ter estado a conversar por alguns momentos
com o G, recebeu deste uma embalagem com cerca de 1 quilo de heroína.
- O arguido G retirou-se de imediato do local, para Oeiras , onde reside.
- O arguido B foi nesta altura interceptado por elementos da Polícia Judiciária - DCITE, os quais vigiavam a sua acção e a do arguido G, tendo-lhe sido apreendida a heroína que acabara de receber.
- Entretanto, o arguido G Tomar, que se dirigira para a sua residência sita no n.º ..., da Rua Garcia da Orta em Oeiras, foi imediatamente seguido por elementos da P. Judiciária e veio a ser detido alguns momentos depois, quando se aprestava para deixar já a residência, fazendo-se agora transportar num "JEEP" de marca Nissan, com a matrícula XC-... , apreendido e examinado a fls. 899-A.
- O arguido G fora já condenado no âmbito do Proc. 396/91 da 8.ª Vara Criminal de Lisboa, em 1991, pela prática do crime de tráfico de estupefacientes, na pena de 12 anos de prisão.
- Em 27 de Outubro de 1997, veio-lhe a ser concedida a liberdade condicional, pelo que, ao actuar da forma supra descrita, demonstrou uma clara indiferença ao aviso de que lhe deveria ter servido a anterior condenação.
- Na mesma altura e na residência dos arguidos M e N, sita na Rua Conselheiro Pequito, n.º ..., 1.º Drt. na amadora, encontrava-se o seguinte material relacionado com a actividade de narcotráfico:
- diversos sacos plásticos, contendo heroína, com o peso bruto de 3,5 Kg. de heroína, para ali levada pelo arguido B;
- 1 saco de plástico contendo cocaína, com o peso líquido de 220,8 gramas, também levada para ali pelo arguido B;
- diversos sacos plásticos, destinados a embalar droga;
- 3 balanças de precisão de marca "Tanita", destinadas a pesar droga, contendo resíduos de heroína e cocaína;
- 383 pequenas embalagens plásticas contendo cocaína, já doseada e preparada para venda , com o peso líquido de 155,2 gramas;
- dinheiro português, no montante de 804.000$00 (oitocentos e quatro mil escudos) obtidos na actividade de narcotráfico;
- A arguida C detinha consigo, na sua residência, sita na Urbanização Vale Mourão, n.º ..., 1.º Esq. em Paiões, Rio de Mouro, os seguintes valores e objectos, relacionados com a sua actividade de narcotráfico:
- dinheiro português no montante de 8.919.000$00 (oito milhões novecentos e dezanove mil escudos);
- dinheiro Espanhol, no montante de 9.000 pesetas;
- diversas peças em ouro, com o peso total de 1.274 Kgs.;
- 1 moto de marca Honda CBR 900RR, de cor laranja, com a matrícula ...-LC, a qual fora utilizada para transporte de droga para o Casal Ventoso, pelo companheiro da arguida, A.
- Nas imediações da residência dos arguidos M e N detinha ainda consigo, a arguida C, a viatura de marca Opel Corsa, com a matrícula ...-IN.
- Ainda na sua residência, detinha a arguida C , na mesma altura (27/11/98), um revólver de calibre 38 Especial, equivalente a 9 mm no sistema métrico, da marca Smith & Wesson, modelo 15, com o n.º de série 3K2459, de origem norte americana, em boas condições de funcionamento, bem como 25 munições, do calibre respectivo.
- Tal revólver fora adquirido a desconhecidos, na feira da ladra, em Lisboa, pela arguida C, companheira do arguido A.
- O arguido B, na mesma altura e relacionada com a descrita actividade de narcotráfico, detinha com ele, na residência sita na Av.ª Cidade de Oeiras n.º ..., r/c -C, na Amadora:
- diversos artigos, designadamente 5 relógios e 16 artigos em ouro, com o peso bruto de cerca de 9 quilos, todos descriminados a fls. 493/494;
- aparelhos de som e imagem;
- 1 conjunto de pequenos sacos plásticos, dos utilizados para acondicionar estupefaciente.
- A arguida H detinha ainda consigo no interior da sua viatura de marca Volkswagen Polo, com a matrícula ...-IB, estacionada nas imediações da sua residência e que igualmente foi apreendido, os seguintes artigos:
- 1 balança de precisão de marca "Tanita", destinada a pesar objectos de ourivesaria;
- 1 saco plástico contendo vários molhos de sacos igualmente de plástico, destinado a acondicionar objectos em ouro;
- 2 estojos em veludo, contendo peças de joalharia, com o peso bruto de 1, 657 Kg.;
- dinheiro português, no montante de 154.000$00 (cento e cinquenta e quatro mil escudos) em moedas de 20$00, 50$00, 100$00 e 200$00.
- A arguida J, bem como o seu companheiro, o arguido I , o " Mau Mau", na altura fugido à acção das autoridades, detinham, na residência da primeira, sita na Av.ª Infante D. Henriques, n.º ..., 1.º Drt., no Cacém, relacionada com a descrita actividade de narcotráfico:
- 13,75 gramas de canabis, vulgarmente conhecido por haxixe;
- diversos artigos em ouro, com o peso de 1,163 Kgr.;
- dinheiro português, no montante de 383.500$00(trezentos e oitenta e três mil e quinhentos escudos);
- dinheiro espanhol, no montante de 10.000 pesetas;
- 1 viatura de marca Opel Tigra, com a matrícula ...-EJ, estacionada junto á residência.
- Ao arguido G, para além da viatura Seat Toledo,... foram apreendidos, na sua residência, diversos artigos, designadamente vários telemóveis, relógios, peças em metal amarelo, bem como uma balança de precisão digital de marca "micro Scale", com o número de série 23861020045, os quais se encontravam na sua residência, sita em Rua Garcia de Orta, n.º ..., 6.º B, em Oeiras.
- Mais foram apreendidos ao arguido um veículo automóvel ligeiro de mercadorias de marca Citroen, com a matrícula ...-FOX, examinada a fls., 899-E, e um motociclo de passageiros de marca Honda, modelo VFR 800 FI, com a matrícula ...-LA, examinada a fls. 901.
- Foram apreendidas as viaturas de marca BMW, modelo Z3, com a matrícula ...-HZ e da marca Peugeot, modelo 106 GTi, com a matrícula ...-LX, adquiridas pela arguida L, com dinheiro proveniente da actividade de narcotráfico, ambas registadas em nome de seu marido T . Na compra da viatura BMW, por 7.541.561$00 a arguida H, mãe da L, contribuiu com 4.000.000$00( v. cheque de fls. 940).
- Os arguidos F, B, J, C, L e A, antes de se terem associado com vista ao exercício da actividade de narcotráfico, já se dedicavam, desde altura não concretamente apurada, à referida actividade de cujos proventos iam retirando benefícios, adquirindo bens diversos, tais como imóveis e viaturas, designadamente, para além dos supra descritos, o arguido B o imóvel sito na Rua Elvira Velez, Torre A - ...,
nº ..., 7º Dtº, em São João da Caparica e a Vivenda sita na Rua José Malhoa nº ..., - Marisol - em Almada.
- Em Fevereiro de 1998, os arguidos A e C, sua companheira, compraram a X, id. a fls.1137, este em representação da firma "...- Sociedade de Construções, Lda", a fracção autónoma, designada por letra "C", correspondente ao primeiro andar esquerdo, do prédio urbano, lote 66, sito em Vale Mourão - Paiões - Rio de Mouro, pelo preço de 18.500.000$00 (dezoito milhões e quinhentos mil escudos), pago de imediato e em notas do Banco de Portugal, obtidas na venda de droga .
- Com o intuito de ocultar a proveniência de tal dinheiro, o arguido A, pediu ao arguido E que aceitasse figurar na escritura de compra e venda como comprador.
- O arguido E aceitou a proposta que lhe foi feita e desta forma figurou como comprador na escritura de compra e venda respectiva, datada de 18 de Fevereiro de 1998.
- Os arguidos J e I , seu companheiro, em Novembro de 1997, compraram, pelo preço de 15.000.000$00(quinze milhões de escudos), pagos a pronto, no acto da escritura, em notas do Banco de Portugal, o imóvel sito em Urbanização da Anta, Av.ª Infante D. henrique, n.º ..., 1.º drt., em Agualva- Cacém.
- Em finais de 1997, o arguido I comprou por 3.000.000$00 (três milhões de escudos) pagos em 3 prestações de 1000 contos a viatura Opel Tigra, referida no ponto 23.º.
- Pelo mesmo arguido foi ainda comprado:
- a viatura de marca Audi, Porsche RS2 Avant, de matrícula ...-IL, por preço superior a 8.000 contos, apreendida e examinada a fls. 1275.
- a viatura de marca Ford Escort Cosworth, com a matrícula ...-BC, pelo preço de 3.800 contos, apreendida e examinada a fls. 1276.
- uma embarcação de recreio, com a denominação TUiUIU-II, tipo lancha, em fibra de vidro, pelo preço de 2.000 contos, apreendida a fls. 1252, examinada a fls. 2654;
- em Agosto de 1998, um prédio rústico, com a área de 1890 m2, sito em Esporão, inscrito na matriz cadastral da freguesia de São Pedro de Tomar, sob o art. 5.º da Secção G, feita pelo preço de 4.8000.000$00 (quatro milhões e oitocentos mil escudos), pagos a pronto e com notas do Banco de Portugal.
- O arguido D, no dia 10 de Fevereiro de 1999, detinha consigo, na sua residência, sita na Rua Maria Pia, n.º..., porta 13 em Lisboa, 1500 sacos de plástico.
- O arguido F, depois da detenção do arguido B e esposa, a arguida H, ocorrida a 28 de Novembro de 1998, pretendeu saber das condições em que eles e os outros arguidos associados consigo se encontravam.
- Assim, cerca de dois meses após tais detenções, durante o mês de Janeiro de 1999,o arguido F enviou ao arguido B, através de seu filho Z, a quantia de Esc: 2.500.000$00, destinada a custear as despesas com a sua defesa.
- O dinheiro foi entregue a A' , filho do arguido B, num consultório de próteses dentárias onde o mesmo trabalhava, sito na Travessa dos Inglesinhos.
- Desta forma pretendia o arguido F, além do mais, garantir o silêncio do arguido B, sobre quem chefiava o grupo organizado de narcotráfico.
- Face aos indícios existentes contra o arguido F, da prática dos factos que agora lhe são imputados, veio o
mesmo a ser detido no âmbito dos presentes autos e submetido a 1.º interrogatório judicial, a fls. 2188 e sgs.
- Na altura em que foi detido, a 28 de Setembro de 1999, foi apreendido ao arguido F a sua viatura de marca Audi, modelo A6, com a matrícula ...-LB, documentação bancária diversa e ainda 7 telemóveis, destinados a fazer contactos, no âmbito da actividade de narcotráfico, sendo o elevado número de aparelhos uma forma de melhor se poder salvaguardar de eventuais intercepções telefónicas, ordenadas pelas autoridades competentes.
- Um dia após a detenção do arguido F e no dia 29 de Setembro de 1999, a sua filha V, id. a fls.2170, com receio de que as contas bancárias de seu pai viessem a ser congeladas, dirigiu-se à agência do ... - ... , sita na Rua Conde de Oeiras, na Reboleira - Amadora e procedeu ao levantamento da quantia de 4.600.000$00 (quatro milhões e seiscentos mil escudos) da conta n.º 00218527712, titulada por seu pai, que obtivera tal dinheiro na actividade de narcotráfico.
- Esta quantia veio-lhe a ser apreendida , conforme auto de fls. 2175, por elementos da P. Judiciária, que vigiavam a sua acção.
- O arguido F , depois de ser detido e no dia 30 de Setembro de 1999, foi submetido a 1.º interrogatório judicial, nos termos do art. 141.º do C.P.Penal.
- Neste interrogatório e a fls. 2190, este arguido referiu que havia sido contactado por um indivíduo espanhol e que este lhe propôs a participação e colaboração numa operação de descarga e transporte de 2.000 Kgs. de cocaína que iria ser adquirida na Colômbia e transportada por navio, efectuando-se o transbordo em alto mar para um barco de pesca de Peniche, local onde a cocaína viria a ser descarregada, armazenada por alguns dias, seguindo-se o seu transporte para Madrid.
- Ao arguido F caberia receber a droga após o desembarque, transportá-la para um armazém que teria de arranjar, bem como contratar e organizar o transporte que a levaria a Espanha.
- O arguido F demonstrou disponibilidade para colaborar com a justiça na descoberta e detenção dos indivíduos implicados em tal transporte de cocaína.
- As diligências que o arguido teria então de realizar, juntamente com o órgão de polícia criminal eram incompatíveis com a sua permanência em Estabelecimento Prisional, uma vez que, após o seu 1.º interrogatório judicial, lhe foi imposta a medida de prisão preventiva.
- A Polícia Judiciária propôs então que a custódia do arguido F ficasse a cargo daquela polícia, pelo tempo indispensável à realização das diligências, o que veio a ser deferido , por despacho de fls. 2214.
- A 16 de Outubro de 1999, quando ainda se encontrava sob a custódia da Polícia Judiciária, o arguido F logrou fugir, iludindo a vigilância dos agentes que o guardavam, factos estes que estão a ser averiguados, por processo instaurado à ordem do despacho de fls. 2475 a correr termos autonomamente.
- Os arguidos F, G, B, I, J, C, L, M, A e O tinham perfeito conhecimento da natureza e características da heroína e cocaína, a cujo tráfico procediam.
- Os arguidos F, B, J, C, L e A, nas diferentes formas das suas acções, ora fornecendo a heroína, ora servindo de intermediários ou "correios" de produto estupefaciente ou dinheiro, tiveram sempre consciência de que agiram no âmbito de um grupo organizado cujo objecto era o tráfico de estupefacientes, chefiado pelo arguido F, dono de todo o produto estupefaciente transaccionado no âmbito
da associação criada.
- Os arguidos F, G, B, I, J, C, L, M, A e O agiram com intuitos lucrativos e as elevadas quantidades de produto estupefaciente que transaccionaram vieram a ser distribuídas, ao longo do tempo, por elevado número de consumidores.
- Os arguidos F, B, J, C, L e A auferiram, ao longo do tempo e por força da descrita acção conjugada e organizada, elevados ganhos pecuniários, o que permitiu a alguns deles adquirirem os bens respectivamente supra indicados.
- O arguido G, ao colocar na viatura Seat Toledo chapas de matrícula não verdadeiras, nos termos descritos..., pôs em crise a credibilidade que tais números identificadores de viaturas devem merecer do Estado e do público em geral.
- O revólver supra referido, não se encontra registado nem manifestado e a arguida C sabia que não o podia adquirir nem deter, nas condições descritas.
- Durante a tarde do dia 14 de Junho de 1998 a arguida C, no âmbito da actividade de narcotráfico, deslocou-se, na sua viatura de marca Opel Corsa com a matrícula ...-IN, ao Casal Ventoso, onde foi fazer a recolha de dinheiro da venda de estupefaciente dos dois dias anteriores que se encontrava na casa da arguida J, sita no Casal Ventoso de Baixo, n.º ... .
- Daquele local trouxe então, na viatura, uma mochila, contendo dinheiro português no montante de 15.000.000$00 (quinze milhões de escudos).
- De seguida, a arguida dirigiu-se às bombas de combustível da ..., sitas na Avenida Engenheiro Duarte Pacheco, em Lisboa, no sentido Lisboa-Cascais, para abastecer de combustível a sua viatura.
- Nesta altura, a movimentação da arguida C era seguida pelos arguidos P, 1.º subchefe da PSP, da Esquadra de Lisboa da Avenida João Crisóstomo e Q, Guarda da PSP de Alfragide, os quais se faziam transportar numa viatura de marca Honda Concerto, com a matrícula NX-..., registada em nome da esposa do arguido P e conduzida pelo este último.
- Assim, cerca das 18 horas, depois de a arguida C ter parado a viatura nas bombas referidas, o arguido P fez o mesmo .
- Os arguidos P e Q sabiam que a arguida C transportava consigo elevada quantia em dinheiro, proveniente de tráfico de estupefacientes e pretendiam apoderar-se do mesmo.
- Enquanto o P se manteve ao volante da viatura, o Q saiu da mesma e dirigiu-se ao guichet das bombas, onde se encontrava a trabalhar na altura S.
- O Q que, tal como o seu companheiro P, trajava à civil, perguntou então à funcionária referida se podia sair pelas traseiras das bombas, dado não ter abastecido, tendo-lhe sido dada resposta afirmativa.
- De seguida, o Q, depois de ter passado pela viatura do seu companheiro P e enquanto este se mantinha no seu interior, dirigiu-se à arguida C, a qual caminhava para a sua viatura e, depois de lhe ter dito que era um agente policial, perguntou-lhe se sabia da razão porque ele e o seu companheiro se encontravam no local.
- A arguida C, perfeitamente consciente da ilicitude da sua actividade, respondeu-lhe que sim.
- O Q disse-lhe então para não gritar nem fazer barulho, enquanto o arguido P saía do seu carro e de imediato se dirigia à viatura da arguida C.