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ACÓRDÃO DO TRIBUNAL DE JUSTIÇA 5 de Julho de 1990*

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A C Ó R D Ã O D O TRIBUNAL DE JUSTIÇA 5 de Julho de 1990*

N o processo C-42/89,

Comissão das Comunidades Europeias, representada por Thomas van Rijn, mem- bro do Serviço Jurídico, na qualidade de agente, com domicílio escolhido no Luxemburgo no gabinete de Georgios Kremlis, membro do Serviço Jurídico, Cen- tro Wagner, Kirchberg,

demandante, contra

Reino da Bélgica, representado por Jan Devadder, conselheiro adjunto no Ministé- rio dos Negócios Estrangeiros, do Comércio Externo e da Cooperação para o Desenvolvimento, com domicílio escolhido no Luxemburgo na embaixada da Bél- gica, 4, rue des Girondins,

demandado, que tem por objecto declarar verificado que, por não ter tomado, no prazo fixado, as medidas necessárias para proceder em conformidade com as disposições da Di- rectiva 8 0 / 7 7 8 / C E E do Conselho, de 15 de Julho de 1980, relativa à qualidade das águas destinadas ao consumo humano (JO L 229, p. 11; EE 15 F2 p. 174), e, nomeadamente, com os seus artigos l.°, 2.°, 9.°, 18.°, 19.° e 20.°, o Reino da Bélgica não cumpriu as obrigações que lhe incumbem por virtude do Tratado CEE,

O TRIBUNAL,

constituído pelos Srs. O. Due, presidente, F. A. Schockweiler e M. Zuleeg, presi- dentes de secção, G. F. Mancini, R. Joliét, T. F. O'Higgins, J. C. Moitinho de Almeida, G. C. Rodríguez Iglesias e F. Grévisse, juízes,

advogado-geral : C. O. Lenz

secretario: J. A. Pompe, secretario adjunto

* Língua do processo: neerlandês.

(2)

ACÓRDÃO DE 5. 7. 1990 — PROCESSO C-42/89

visto o relatório para audiência,

ouvidas as alegações dos representantes das partes na audiência de 6 de Dezembro de 1989,

ouvidas as conclusões do advogado-geral na audiência de 14 de Dezembro de 1989,

profere o presente

Acórdão

1 Por requerimento entregue na Secretaria do Tribunal em 20 de Fevereiro de 1989, a Comissão das Comunidades Europeias intentou, ao abrigo do artigo 169.° do Tratado CEE, um acção destinada a obter a declaração de que, por não ter to- mado, no prazo fixado, as medidas legislativas, regulamentares e administrativas necessárias para proceder em conformidade com as disposições da Directiva 80/778/CEE do Conselho, de 15 de Julho de 1980, relativa à qualidade das águas destinadas ao consumo humano (JO L 229, p. 11), e, nomeadamente, com os seus artigos l.°, 2.°, 9.°, 18.°, 19.° e 20.°, o Reino da Bélgica não cumpriu as obriga- ções que lhe incumbem por virtude do Tratado CEE.

2 A presente acção tem a sua origem na verificação pela Comissão, por um lado, de que o decreto real de 27 de Abril de 1984, que transpôs a directiva para o direito belga (Moniteur belge 1984, p. 9860), não é conforme à alínea b) do n.° 1 e ao n.° 3 do artigo 9.° desta directiva, na medida em que admite derrogações às dis- posições da directiva em condições menos restritas do que aquelas que esta prevê (artigo 5.° do decreto real) e exclui d o seu campo de aplicação a água tirada de poços e fontes por pessoas singulares, para uso nas suas casas (artigo 1.° do de- creto real), e, por outro lado, de que a água fornecida à cidade de Verviers não cumpre os requisitos exigidos pela directiva, tendo em conta o seu teor em chumbo.

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3 Em 4 de Agosto de 1986, a Comissão, ao abrigo do primeiro parágrafo do artigo 169.° do Tratado, dirigiu ao Governo belga uma carta de notificação mencio- nando a violação das disposições da directiva que proíbem certas derrogações, bem como uma infracção relativa à insuficiente qualidade da água de Verviers. Por carta de 15 de Dezembro de 1987, a Comissão fez ao Governo belga uma notifi- cação complementar, relativa à exclusão, nas medidas de transposição da directiva, da água tirada de poços e fontes por pessoas singulares para uso nas suas casas.

Considerando que a resposta do Governo belga não era suficiente para retirar as suas objecções, a Comissão formulou, em 16 de Maio de 1988, um parecer funda- mentado, e convidou o Governo belga a tomar as medidas necessárias para, no prazo de dois meses, proceder em conformidade com ele.

4 O Governo belga começou, por carta de 17 de Janeiro de 1989, por solicitar, ao abrigo do artigo 20.° da directiva, um prazo suplementar para assegurar o cumpri- mento do anexo I da directiva, no que respeita à água de Verviers. Seguidamente, respondeu ao parecer fundamentado, por carta de 1 de Março de 1989, na qual argumenta, em primeiro lugar, que a causa da poluição nas casas ainda equipadas com canalizações de chumbo é a taxa de acidez da água fornecida à população de Verviers, para a qual nenhuma norma está prevista nos anexos da directiva. Consi- dera que, na medida em que o artigo 12.° da directiva só prevê controlos no lugar em que a água é posta à disposição dos consumidores, isto é, no momento do seu fornecimento pela sociedade de distribuição, a água fornecida a Verviers deve ser considerada conforme às exigências da directiva. Acrescenta que, de qualquer modo, a poluição em causa só afecta um pequeno número de habitantes (10 000).

s O Governo belga argumenta, em segundo lugar, que as captações privadas não entram no campo de aplicação da directiva. Invoca, a este respeito, para além do primeiro travessão do artigo 2.° e do n.° 2 do artigo 12.° da directiva, as dificul- dades práticas que o controlo dos poços individuais acarretaria, bem como a finali- dade da directiva, a qual, de acordo com o seu segundo considerando, tende a prevenir condições de concorrência desiguais e não visa, por consequência, senão a água comercializada.

6 Entendendo que a resposta do Governo belga ao parecer fundamentado não era satisfatória, a Comissão intentou a presente acção.

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ACÓRDÃO DE 5. 7. 1990 — PROCESSO C-42/89

7 Para mais ampla exposição dos factos, da tramitação processual e dos fundamentos e argumentos das partes, remete-se para o relatório para audiência. Estes elemen- tos apenas serão adiante retomados na medida do necessário para a fundamenta- ção da decisão do Tribunal.

Quanto às acusações fundamentadas na desconformidade do decreto real de 27 de Abril de 1984 com as disposições da directiva

8 H á que começar por realçar que, pelo acórdão de 14 de Dezembro de 1988, o Conselho de Estado da Bélgica anulou o decreto real de 27 de Abril de 1984, com o fundamento de os executivos regionais não terem sido associados à elaboração daquele decreto, como é exigido pelo artigo 6.°, n.° 4, da lei das reformas institu- cionais, de 8 de Agosto de 1980 (Moniteur belge 1980, p. 9434).

9 Após ter sido intentada a presente acção, as três regiões tomaram medidas para transposição da directiva. Considerando que as medidas adoptadas pela região da Flandres são conformes com a directiva, a Comissão desistiu do pedido neste ponto. A Comissão verificou, porém, que as coisas eram diferentes quanto ao de- creto real de 19 de Junho de 1989, emitido para a região de Bruxelas (Moniteur belge 1989, p. 11895), na medida em que a água tirada de poços e fontes por pessoas singulares ficou excluída do seu campo de aplicação, e quanto ao decreto do executivo da Valónia de 20 de Julho de 1989 (Moniteur belge 1990, p. 3052), que é abrangido pelo conjunto das censuras já formuladas a propósito do decreto real de 27 de Abril de 1984.

io E exacto que o artigo 5.° do decreto do executivo da Valónia retoma o artigo 5.°

do decreto real já citado, quanto ao regime das derrogações, e que tanto este decreto como o decreto real emitido para a região de Bruxelas excluem do seu domínio de aplicação a água tirada de poços e fontes por pessoas singulares.

n Nestas condições, imputando, no decurso do processo, as acusações formuladas ao decreto real de 27 de Abril de 1984 à regulamentação regional que o substitui, a Comissão não alterou o objecto do litígio.

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12 Devem, pois, examinar-se as acusações da Comissão relativas às derrogações que esta regulamentação permite, em comparação com as previstas na directiva, e à exclusão das captações privadas do seu campo de aplicação.

i3 A este respeito, a Comissão argumenta, em primeiro lugar, que a faculdade confe- rida pelo artigo 5.° do decreto do executivo regional da Valónia ao ministro en- carregado dos poderes locais, dos trabalhos subsidiados e da água, de autorizar um aumento das concentrações máximas admissíveis, em caso de grave emergência ou de situações relativas a condições meteorológicas excepcionais, «na medida em que este aumento não apresente qualquer risco inaceitável para a saúde pública e em que a distribuição por rede não possa ser assegurada de qualquer outra ma- neira», é incompatível com o n.° 3 do artigo 9.° da directiva.

H Com efeito, o decreto em causa de nenhum modo exclui, como, no entanto, é expressamente exigido pela mencionada disposição da directiva, as derrogações respeitantes ao factores tóxicos e microbiológicos. Esta acusação, que, aliás, não é contestada pelo Governo belga, deve, em consequência, ser acolhida.

is A Comissão argumenta, em segundo lugar, que a exclusão das captações privadas do campo de aplicação da regulamentação aplicável às regiões da Valónia e de Bruxelas é incompatível com o artigo 1.° da directiva, segundo o qual esta se aplica a todas as águas utilizadas para o consumo humano, qualquer que seja a sua origem.

i6 H á que lembrar, a este respeito, que nos termos do artigo 2.° da directiva «en- tende-se por águas destinadas ao consumo humano todas as águas utilizadas para esse fim, no seu estado original ou após tratamento, qualquer que seja a sua ori- gem:

— quer se trate de águas destinadas ao consumo, ou

— quer se trate de águas:

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ACÓRDÃO DE 5. 7. 1990 — PROCESSO C-42/89

— utilizadas numa indústria alimentar para fins de fabrico, de tratamento, de conservação ou de colocação no mercado de produtos ou substâncias desti- nados a ser consumidos pelo homem, e

— que afectem a salubridade do produto alimentar final».

17 Resulta desta disposição que a directiva só se aplica à água fornecida para con- sumo humano e à água utilizada nos alimentos por uma empresa alimentar, e que a água proveniente de captações privadas está excluída do seu campo de aplicação.

is Esta interpretação é confirmada pelo n.° 2 do artigo 12.°, segundo o qual os con- trolos previstos pela directiva incidem sobre as águas destinadas ao consumo hu- mano na altura da sua colocação à disposição do utilizador. Resulta daqui que apenas a água fornecida para o consumo humano está submetida aos controlos e, portanto, ao regime previsto pela directiva.

i9 Esta interpretação é também confirmada pelo anexo II da directiva. Tratando-se, por um lado, dos parâmetros a tomar em consideração para os controlos periódi- cos, a nota 4 do quadro A deste anexo precisa que eles «são determinados pela autoridade nacional competente, tomando em consideração todas as condições que poderiam ter um efeito sobre a qualidade da água potável fornecida ao consumi- dor e que poderiam permitir a avaliação do balanço iònico dos constituintes». Tra- tando-se, por outro lado, do controlo ocasional para situações especiais ou aciden- tais, o referido quadro A do mesmo anexo precisa que «a autoridade nacional competente dos Estados-membros determinará os parâmetros, consoante as cir- cunstâncias, tomando em consideração todas as condições que possam ter um efeito nefasto sobre a qualidade da água potável fornecida ao consumidor». Estas disposições só respeitam, pois, à água fornecida aos consumidores, e não àquela que provém de captações privadas.

2o Daqui resulta que a acusação baseada na exclusão das captações privadas, pelas medidas de transposição da directiva relativas às regiões da Valónia e de Bruxelas, nao é procedente.

(7)

Sobre a acusação baseada na desconformidade da água potável de Vervíers com as exigências impostas pela directiva

21 Deve começar por se observar que, contrariamente ao que o Governo belga sus- tentou na sua resposta ao parecer fundamentado, a água potável de Verviers, pro- veniente da estação de tratamento de Eupen, que permite alimentar uma parte da cidade enquanto se espera pelo fim dos trabalhos da estação de Gileppe, tem ca- racterísticas que não correspondem às exigências da directiva. Com efeito, segundo o quadro D do anexo I, no caso de canalizações de chumbo, o teor em chumbo é avaliado com base em amostras colhidas directamente depois do escoamento e, se o teor em chumbo ultrapassar frequentemente ou sensivelmente 100 µg/l, devem ser tomadas medidas adequadas a fim de reduzir os riscos de exposição do consu- midor ao chumbo. Ora, está determinado que a água potável de Verviers, prove- niente da estação de Eupen, ultrapassa este parâmetro e que não foi adoptada nenhuma medida apropriada.

22 O Governo belga argumentou perante o Tribunal que, por motivo dos custos e da complexidade dos trabalhos de construção da estação de tratamento de águas, ne- cessários para que a cidade de Verviers seja abastecida de águas cujas característi- cas correspondam às exigências da directiva, estas só poderão ser respeitadas cerca do fim de 1990. Esta situação está na base do pedido apresentado por aquele Go- verno em 17 de Janeiro de 1989, ao abrigo do artigo 20.° da directiva, com o fim de obter um prazo suplementar para assegurar o cumprimento do anexo I desta directiva.

23 Deve observar-se, a este respeito, que o pedido de um prazo suplementar desti- nado a permitir o cumprimento do disposto no anexo I, apresentado nos termos do artigo 20.° da directiva, deve ser formulado no prazo previsto no artigo 19.°

para a transposição desta. Ultrapassado este prazo, só são admissíveis derrogações em caso de grave emergência e nas condições definidas no artigo 10.° da directiva.

Ora, o pedido do Governo belga foi formulado mais de quatro anos depois do esgotamento do referido prazo.

24 N o que respeita, por fim, às dificuldades invocadas pelo Governo belga para asse- gurar que a água fornecida à cidade de Verviers seja conforme à directiva, há que lembrar que, segundo a jurisprudência do Tribunal de Justiça, um Estado-membro não pode invocar dificuldades práticas ou administrativas para justificar o desres- peito das obrigações e dos prazos determinados nas directivas comunitárias. O mesmo sucede quanto às dificuldades financeiras, competindo aos Estados-mem- bros tomar as medidas apropriadas para as ultrapassar.

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ACÓRDÃO DE 5. 7. 1990 — PROCESSO C-42/89

25 Daqui resulta ser fundada a acusação da Comissão sobre a não conformidade da água potável de Verviers com as exigências enunciadas pela directiva.

26 Há, pois, que declarar que, ao permitir que a região da Valónia autorizasse que fossem excedidas as concentrações máximas admissíveis constantes do anexo I da Directiva 80/778 do Conselho, de 15 de Julho de 1980, relativa à qualidade das águas destinadas ao consumo humano, em circunstâncias diferentes das previstas nesta directiva, e que autorizasse o abastecimento a Verviers de água potável cujas características não correspondem às exigências daquela mesma directiva, o Reino da Bélgica não cumpriu as obrigações que lhe incumbem por virtude do Tratado.

Quanto às despesas

27 Por força do disposto no n.° 2 do artigo 69.° do Regulamento Processual, a parte vencida deve ser condenada nas despesas. N o entanto, de acordo com o primeiro parágrafo do n.° 3 do mesmo artigo, se cada parte obtiver vencimento parcial, ou em caso de circunstâncias excepcionais, o Tribunal pode determinar que as partes suportem as respectivas despesas, no todo ou em parte.

28 Tendo ambas as partes ficado parcialmente vencidas, deve determinar-se que su- portem as respectivas despesas.

Pelos fundamentos expostos,

O TRIBUNAL

decide:

1) Ao permitir que a região da Valónia autorizasse que fossem excedidas as concen- trações máximas admissíveis constantes do anexo I da Directiva 80/778/CEE do Conselho, de 15 de Julho de 1980, relativa à qualidade das águas destinadas ao consumo humano, em circunstâncias diferentes das previstas nesta directiva, e que autorizasse o abastecimento a Verviers de água potável cujas características

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não correspondem às exigências daquela mesma directiva, o Reino da Bélgica não cumpriu as obrigações que lhe incumbem por virtude do Tratado.

2) No mais, a acção é julgada improcedente.

3) Cada parte suportará as respectivas despesas.

Due Schockweiler Zuleeg Mancini Joliét O'Higgins Moitinho de Almeida Rodríguez Iglesias Grévisse

Proferido em audiência pública no Luxemburgo, a 5 de Julho de 1990.

O secretário

J.-G. Giraud

O presidente

O. Due

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