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VEREDAS FAVIP - Revista Eletrônica de Ciências - v. 3, n. 1 - janeiro a junho de 2010

Bacharelado e Licenciatura em Filosofia pela USP. Professor de Filosofia do Curso de Filosofia da Unidade Acadêmica de Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Paraíba.

e-mail: [email protected]

ANÁLISE DO CONCEITO DE INTENCIONALIDADE (PARÁGRAFO 84) DA OBRA IDÉIAS RELATIVAS A UMA FENOMENOLOGIA PURA E UMA

FILOSOFIA FENOMENOLÓGICA DE EDMUND HUSSERL

R

E S U M O

O parágrafo 84, da obra de Husserl em destaque, desenvolve o conceito de intencionalidade. Esta noção, juntamente com as de consciência e fenômeno, perfaz aquilo que denominamos de Mundo. Nesse sentido, compreender que existe um Mundo antes de nosso aparecimento nele, e, que, à medida que uma consciência vem habitá-lo, terá pela consciência intencional de se dirigir obrigatoriamente ao fenômeno, para conhecê-lo, vivenciá- lo, a fim de, inclusive, sobreviver no mundo, são aspectos fundamentais para a compreensão da fenomenologia desenvolvida pelo pensador alemão. Por isso, a necessidade de analisarmos o conceito de vivências e suas peculiaridades.

Palavras-chave: Intencionalidade. Vivências. Fenômenos.

A

B S T R A C T

Paragraph 84, the work of Husserl in focus, develops the concept of intentionality. This notion, together with the phenomenon of consciousness and, makes up what we call the World. In this sense, understanding that there is a world of our appearance before him, and that, as a consciousness inhabiting it will come by intentional awareness of the phenomenon is directly bound to know it, live it in order, even to survive in it, are crucial to understanding the phenomenology developed by the German thinker. Therefore, the need to examine the concept of experiences and their peculiarities.

Keywords: Intentionality. Experiences. Phenomena.

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Análise do conceito de intencionalidade (parágrafo 84) da obra Idéias relativas a uma fenomenologia pura...

1 INTRODUÇÃO

A nossa intenção é analisar o conceito de intencionalidade desenvolvido por Husserl no parágrafo 84 de sua obra Ideas relativas a una fenomenología pura y una filosofia fenomenológica . Antes

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disso, vale a pena, mesmo que brevemente, a fim de compreender o sentido geral da fenomenologia, abordar algumas definições propostas por Husserl.

Uma delas é a sua proposição afirmando que “a fenomenologia pura é a ciência fundamental da filosofia” (HUSSERL, 1992, p. 7). Ou seja, a fenomenologia, que busca a essência dos fenômenos, procurou resgatar a Filosofia que, notadamente, a partir do século XIX, juntamente com as chamadas ciências humanas, foi influenciada pelos métodos das ciências físicas e matemáticas, positivando-a, fazendo com que ela perdesse a sua vocação originária: buscar “as coisas mesmas”, ou seja, a verdade das coisas, a essência. Há, pois, a necessidade de fazê-la voltar a filosofar e a pensar filosoficamente, desvencilhando-a das orientações racionalista e empirista, típica dos moldes do pensamento científico. Nesse sentido, podemos entender a sua outra proposição de que “a fenomenologia pura chama-se a si mesma como ciência dos fenômenos” (Ibid, p. 71). Isto é, os fenômenos não se tratam de fatos ou dados sensíveis, tanto físicos como conscientes (que podem ser identificados a aparências ou ilusões),

mas sim o estudo daquela “coisa”, daquele objeto que é dado à consciência, de que pensamos ou do qual falamos. Portanto, a fenomenologia não tem o interesse pela descrição empírica dos fatos, mas refletir sobre os processos subjetivos em que se moldam os fenômenos externos. Trata-se, enfim, de uma crítica ao psicologismo (redução do conceito à condição de um produto de um ato psicológico).

Segundo Husserl, contrariamente à Psicologia que é

uma ciência dos fatos, de matters of fact no sentido de Hume [...] a fenomenologia pura ou transcendental não é uma ciência dos fatos, senão uma ciência de essências (ciência “eidética”);

c o m o u m a c i ê n c i a q u e q u e r ch e g a r exclusivamente a “conhecimentos essenciais” e não fixar, em absoluto, fatos (1992, p. 10).

A redução, que faz com que se passe de fenômenos psicológicos (empíricos) à pura essência (objetos ideais), portanto, da unidade fática (empírica) à universalidade “essencial” (por se referir a todas as vivências), é a redução eidética. Conforme Ribeiro Júnior

Consiste, assim, a redução fenomenológica não em negar o mundo real [...] mas em suspender o juízo sobre ele. A redução fenomenológica é uma operação intelectual que permite que passemos do objeto à essência desse objeto. É uma reflexão interna (reflexão intuitiva) sobre o objeto, que tenta fixar o próprio objeto em sua intencionalidade (1991, p. 47).

A importância da redução eidética ou epoché está no fato de que a fenomenologia não deve ser uma

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Os parágrafos da obra de Husserl citados neste artigo, foram traduzidos por nós.

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fenômenos transcendentalmente reduzidos, isto é, fenômenos refletidos pela consciência intencional.

Sobre a noção de consciência, vejamos o entendimento de Severino: “[...] a consciência é o horizonte intranscendível que transcende e contêm todas as partes, todas as subdivisões e todas as relações entre as coisas...” (1987, p. 207). Husserl, na Segunda meditação cartesiana, ressalta: por mais que se busque reduzir tudo, até colocar em parênteses a própria consciência, não se pode deixar de lado o fato de que a consciência é de alguma coisa.

Finalmente, no parágrafo 84, destacaremos a criação e a utilização, por parte de Husserl, de locuções compostas, que põe em fila várias expressões de fala corrente, usadas no sentido aproximadamente igual, porém no intuito de melhor precisar as suas proposições.

2 PARÁGRAFO 84: A INTENCIONA- LIDADE, TEMA FENOMENOLÓGICO CAPITAL

A intencionalidade, segundo Husserl, é “ [...]

a peculiaridade das vivências, que se pode chamar o tema geral da fenomenologia de orientação

´objetiva´” (1992, p. 198). Entendemos vivências (erlebnis) no sentido daquilo que se tem consciência de algo. Os exemplos são diversos: o medo de altura é a vivência do medo do medo de altura; a ficção de determinado centauro é a vivência da ficção da ficção de determinado centauro... Na essência da

também, do que é e em que sentido preciso ou impreciso é. Ou seja, a consciência reflete internamente sobre os fenômenos captados por ela, julgando-os, não no sentido de optar se quer ou não c a p t á - l o s, m a s, q u e, c o n s t i t u t iva m e n t e, obrigatoriamente, ela se dirige aos fenômenos para captá-los. Husserl afirma: “[...] É inerente à consciência, como imanente a ela, um “dirigir-se” ao fenômeno” (1992, p. 83).

A vivência, no sentido amplo, é tudo aquilo com que nos encontramos na corrente das vivências, assim não só os pensamentos atuais e potenciais, tomados em sua plena concreção, senão quantos ingredientes encontram nesta corrente e suas partes concretas. Isto é, nas nossas vivências diante dos fenômenos do mundo, a partir da intencionalidade da consciência de captá-los, nos deparamos com vivências que estão ocorrendo no ato da minha visagem de um determinado fenômeno, portanto atuais, bem como podemos vivenciar percepções inatuais, porém vivenciadas anteriormente e, agora, recordadas pela consciência. Neste último caso, por exemplo, a vivência de recordar a fragrância de um perfume vivenciado anterior mente, numa determinada época. Outros exemplos ajudam-nos a compreender esses aspectos: o teste psicológico de Rorschach, no qual se interpreta as manchas de tinta constantes em cartões de cores diferentes, pela vivência atual, possibilita outra interpretação potencial através de outra vivência posterior; um lance dado num jogo de xadrez é uma vivência atual

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de outras possibilidades potenciais de lances; como também, a vivência de uma obra de arte, a partir de novas vivências da mesma obra, possibilita outras compreensões. Por isso, segundo Husserl, “[...] nem todo ingrediente da unidade concreta tem o mesmo caráter fundamental de intencionalidade, ou seja, de ser consciência de algo” (1992, p. 83), porque como orientação objetiva, a cada uma das vivências é inerente um sentido noemático (a descrição das diversas maneiras como o objeto se mostra quando é intencionado. É o objeto considerado pela reflexão em seus diversos modos de ser dado; o percebido, o recordado, o imaginado).

Temos, aqui, uma distinção entre um tipo de vivência denominada atual e outra denominada de inatual, o que remete para a atualidade e potencialidade. A vivência atual é, como vimos anteriormente, o momento mesmo de uma visagem a um fenômeno determinado. A partir dessa intenção, no sentido de referência, ou seja, ter um fim a que se dirige, a compreensão do fenômeno é alcançado. Portanto, a partir da recordação, por exemplo, de uma determinada vivência que não se dá na atualidade, mas é desta derivada, temos uma vivência inatual, porém com a mesma magnitude da visagem originária. Há, pois, um correlato de vivências. Citamos Husserl:

Reconhecemos, ademais, que a essência de todas estas vivências - sempre tomadas em sua plena concreção - está inerente essa notável modificação que faz passar a consciência no modo da inatualidade, e vice-versa. Uma vez é a vivência consciência 'explícita', por assim dizer, de seu objeto; outra vez, implícita, meramente

potencial [...] Por mais profundo que seja a alteração que experimentam as vivências da consciência atual ao passar a inatualidade, seguem, tendo, sem dúvida, as vivências modificadas uma significativa comunidade de essência com as primitivas... (1992, p. 80-81).

Importa aqui, acrescentar um aspecto importante às correntes das vivências, sejam atuais e inatuais, que é o denominado halo de intuições de fundo.

À medida que nos dirigimos pela intencionalidade a apreender os fenômenos numa corrente inteira de vivências, sempre ficam alguns que não são apreendidos, uma vez que não demos a devida atenção; um halo de intuição de fundo não destacado. Por isso, por exemplo, ao nos dirigirmos intencionalmente a um quadro de arte, para apreendermos as suas diversas possibilidades, necessitamos fazê-lo diversas vezes para podermos apreendê-los em maior abrangência. Essas várias possibilidades que as vivências do quadro nos apresentam, embora não possamos tê-las de uma única vez, elas fazem parte da unidade de uma consciência, isto é, vou acrescentando a cada vivência novas possibilidades de apreensão do fenômeno (quadro), construindo assim, pela intencionalidade, um referencial mais abrangente do fenômeno. Conforme Husserl

O apreender é um destacar, todo percebido tem um fundo empírico. Em torno do papel há livros, lápis, um tinteiro, etc., de certo m o d o t a m b é m ' p e r c e b i d o s ' , perspectivamente aí, no campo da 'intuição', mas, entretanto estava voltado para o papel, não estava voltado para eles, nem os apreendi de forma alguma, nem sequer secundariamente... Toda percepção de uma coisa tem, assim, um halo de intuições de fundo... (1992, p. 79).

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geral, Husserl trata da análise da consciência e sua relação com a realidade natural, através das várias possibilidades que essa relação exprime. O que ele chama de ato, aliás, expressão, inicialmente desenvolvida na sua obra Investigações lógicas, tem, neste parágrafo, o mesmo sentido de vivência atual.

Portanto, ato e cogitatio (o pensado) são identificados como vivências atuais, contrariamente às potenciais e inatuais, já vistas anteriormente.

Husserl esclarece que o ato não se trata de um processo psicológico - chamado vivência, isto é, o olhar natural de um sujeito psicológico - a outra existência real, objetiva (no sentido de um objeto que está pleno de sentido em si mesmo, puro); mas de vivências essenciais, portanto, “a priori”, pois têm a intenção de dirigir-se ao fenômeno (aquele que aparece à consciência) e refleti-lo. Portanto, uma consciência transcendental (condição a priori de possibilidade de conhecimento) e imanente (tem a capacidade de outorgar significado às coisas exteriores). Ressaltamos, pela importância, que os atos de consciência, portanto atuais, possuem, duas características em relação ao fenômeno: o fato de apreendê-lo (isto é, representá-lo) e o de realizar valorações ao seu respeito. Portanto, apreensão e valoração. Dessa forma, temos a partir da vivência (ato de consciência) valorações simples (como representar o fenômeno) e mais complexas, notadamente os atos do sentimento e da vontade.

Diz Husserl:

vontade atos fundados em um grau mais alto, e, em correspondência, também, se multiplica a objetividade intencional e se multiplicam os modos em que os objetos encerrados na objetividade unitária e total se tornam objetos de um voltar-se a eles (1992, p. 85).

No início do parágrafo 84 afirma que, toda vivência em geral é intencional, sejam, inclusive, aquelas distintivas do ato e do cogitatio, como já vimos, as inatuais e potenciais. Nesse sentido, é que podemos compreender que a consciência (para Husserl é sempre consciência de alguma coisa) e o objeto (Husserl denomina de fenômeno - o que aparece à consciência; é o outro para a consciência e não a criação desta) se inter-relacionam, se conectam através da vivência, não ocorrendo, assim, uma desconexão entre o ser psicológico (no sentido de ser uma consciência; aquele que intenciona) e o percebido através da vivência.

Nos excertos, do parágrafo, que se seguem, Husserl retoma, de maneira mais elaborada, então, noções que já analisamos anteriormente, conforme transcrevemos:

Dado que agora se trata de discutir a intencionalidade como rótulo geral de estruturas fenomenológicas universais, vamos recapitular o anteriormente dito, mas na forma em que é mister para conseguir nossos fins atuais, que são essencialmente distintos [...] Intencionalidade é a peculiaridade das vivências de “ser consciência de algo”. É uma maravilhosa peculiaridade, a qual se retratam todos os enigmas da teoria da razão e da metafísica, na consciência explícita (1992, p. 198-199).

Ainda: “Assim é, por exemplo, claro que o

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fundo objetivo do qual se destacava o objeto conscientemente percebido, porque o alcança a assinalada volta do eu, é real e vivencialmente um fundo objetivo” (HUSSERL, 1992, p. 199), sendo, portanto, um campo potencial de percepções para novas vivências.

Voltamos aqui às vivências de valorações simples, quando representamos o fenômeno apreendido e, às complexas, quando julgamos o fenômeno, estando em maior grau aquelas que dizem respeito aos sentimentos. Nesse sentido, por exemplo, aos termos a vivência de uma obra de arte, o fundo objetivo é um campo vasto de possibilidades de percepção. Assim a percepção pode ser de maneira simples (representando, apreendendo somente o estilo dos traços), bem como, de maneira mais complexa, destacando da vivência desse fundo a percepção de um sentimento qualquer, por exemplo, de tristeza. Pode ser que a finalidade do artista era a de não bosquejar traços com tal sentimento, assim a percepção de tristeza estaria afastada do fundo, mas, ao mesmo tempo, por ter sido apreendida por uma consciência, a vivência do sentimento de tristeza tem correlato com a obra, enquanto fundo objetivo. Conforme Husserl

Um agradar-se, um desejar, um julgar, etc., pode 'levar ao fim' no sentido específico desta expressão, a saber, pelo eu, que neste levar ao fim 'atue vivamente' (o, como ao 'levar ao fim' a tristeza, 'padeça' atualmente);

mas semelhantes modos de consciência podem já 'mover-se', emergir do 'fundo', sem que se as 'leve a cabo' também. Por sua própria essência são já, sem dúvida, estas inatualidades 'consciência de algo'” (1992, p.

200)..

Portanto, de acordo com Husserl, o caráter da consciência (compreendida na sua multiformidade e investigada fenomenologicamente), na essência da intencionalidade, é o “olhar a”, o “dirigir-se a”

alguma coisa: o fenômeno que aparece à consciência.

3 SOBRE A TERMINOLOGIA

Considerando-se que esta é a segunda obra, datada de 1901, logo após a publicação de Investigações lógicas, datada de 1900, em dois volumes: Prolegômenos à lógica pura e Seis pesquisas lógicas, portanto, ainda, no início da fenomenologia, os conceitos nessas obras estão sendo redefinidos ou clareados, por exemplo, o de ato. Nesse sentido, podemos entender o aspecto da fluidez dos conceitos e dos seus desdobramentos através das investigações fenomenológicas que ocorreram após 1901. Portanto, em não havendo qualquer indicação, ao falar-se simplesmente de atos, devemos considerá-los exclusivamente como sendo atuais, ou seja, levados a cabo.

Husserl, já sentindo a necessidade de aclarar alguns conceitos e dar conta das objeções ao seu método, percebe, também, que novas descobertas (camadas) fenomenológicas surgirão com o avançar de suas investigações dentro do desenvolvido primeiramente do fundo objetivo das investigações fenomenológicas. Utilizando-nos dos conceitos husserlianos, a fenomenologia se equivaleria a um fundo objetivo, e as investigações feitas até então, portanto vivências em ato, apreenderam determinadas possibilidades de conceitos, mas

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investigações (vivências em ato), à medida que o halo de intuições de fundo for se aclarando cada vez mais, através de um “descascar” das percepções apreendidas.

Husserl, fiel aos seus conceitos, na busca de maior clareza de sua terminologia, ressalta que mesmo através de um processo fenomenológico claramente apreensível, usando a reflexão, a relação entre os conceitos resulta que a investigação sempre se depara com certo halo de indeterminação do fundo objetivo investigado. Assim, não há somente uma “camada essencial”, pois novas camadas (conceitos) podem surgir a partir de novas apreensões (pensar de novo).

Como disse Merleau-Ponty acerca da proposta fenomenológica: “Se quisermos reencontrar o pensamento e a obra, e se quisermos ser fiéis a eles, só nos resta uma caminho: pensar de novo” (apud RIBEIRO JR., 1991, p. 80).

Um dos processos para o clareamento dessa ter minologia é justamente o da redução fenomenológica, eidética (de eidos=essência) ou epoché que se instaura como um “movimento regressivo que vai, sucessivamente, apontando as 'representações' histórico-sociais em que as 'coisas mesmas' foram cristalizadas, com a preocupação apenas de libertá-las”

(CRITELLI, 1986, p. 245). Conforme Husserl

O determiná-lo, o aclará-lo posteriormente é, justo a tarefa posterior, como por outra parte, a análise interna que há que levar ao fim por meio

Após tais ponderações acerca da terminologia, Husserl aproveita para criticar os que exigem que os seus conceitos sejam definidos da mesma for ma que nas Ciências Exatas, argumentando:

Aqueles que, não contentes com a apelação feita à intuição, pedem “definições” como nas ciências “exatas”, ou, que crêem que com conceitos fenomenológicos obtidos a base de um par de rudes análises de exemplos e supostamente fixados podem mover-se livremente dentro de um pensamento científico não intuitivo e fazer com isto progredir a fenomenologia, são na mesma medida uns principiantes que não captaram a essência da fenomenologia nem os métodos que está requer por princípio (1992, p. 201).

A base dessa crítica está no querer aplicar à fenomenologia o modelo das ciências físico- matemáticas, passíveis de uma definição rigorosa e unívoca por meio de conceitos exatos, portanto, construções teóricas que não exprimem a vivência e m s i m e s m o, m a s i n d i r e t a m e n t e. N a fenomenologia, pelo contrário, vivencia-se a experiência através da correlação consciência intencional e fenômeno, podendo, dessa forma, através de novas vivências re-elaborar os seus conceitos. De acordo com Ribeiro Jr.:

A Fenomenologia preocupa-se, então, em descrever de que maneira, concreta e originariamente, o meu corpo pertence à minha

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experiência; em descrever como na minha intersubjetividade, na minha convivência, na minha troca de conhecimentos e de experiência prática, descubro o mundo... (RIBEIRO JR., 1991, p. 71) .

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A crítica de Husserl tem outro endereço também, “o dito não é menos válido para a fenomenologia psicológica de direção empírica no sentido de uma descrição dos fenômenos psicológicos vinculada ao essencial do imanente”

(1992, p. 201). Ou seja, numa vivência (consciência intencional que visa a um fenômeno, sendo este, outro para a consciência), considerar apenas o ato psicológico como fundamental, ou seja, certa psicologização da vivência, em detrimento do fenômeno. Isto é, este sendo somente uma espécie de criação da consciência, portanto, não um outro para ela.

O final do parágrafo volta a reforçar o conceito chave da fenomenologia, já destacado por nós durante esta análise, o de intencionalidade e as suas características de vivências: atual, inatual e potencial. Segue a transcrição: “O conceito de intencionalidade, tomado com a amplitude indeterminada em que o temos tomado, é um conceito inicial e fundamental totalmente indispensável para o começo da fenomenologia”

(HUSSERL, 1992, p. 202).

REFERÊNCIAS

CRITELLI, Dulce Mara. Índices para um reconhecimento do método fenomenológico. In: O ensino da filosofia no 2º. Grau. São Paulo: Sofia Editora SEAF, 1986.

HUSSERL, Edmund. Ideas relativas a una f e n o m e n o l o g í a p u r a y u n a f i l o s o f i a fenomenológica. México: Fondo de Cultura Econômica, 1992.

__________________. Investigações lógicas - sexta investigação. São Paulo; Abril Cultural, 1980.

(Os Pensadores).

RIBEIRO JR., João. Fenomenologia. São Paulo:

Pancast Editora, 1991.

SEVERINO, Emanuele. A filosofia contemporânea. Lisboa: Edições 70, 1987.

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É interessante, também, verificar a análise de Sartre em sua obra Situations I, o artigo Une idée fondamentale de la phénoménologie de Husserl: L´Intentionnalité, Paris: Gallimard, 1947, sobre o conceito de intencionalidade de Husserl. Em caso de interesse, ler a nossa tradução sobre o artigo de Sartre em VEREDAS FAVIP – Revista de Ciências e Cultura, site http://veredas.favip.edu.br/index.php/veredas. Acessar a revista, depois buscar no link Arquivos a edição vol. 2, n. 1 (2005).

Ao aparecer a capa da edição, clicar em Sumário; depois selecionar o artigo referido.

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