selvagem: habitantes de terras utópicas
Ana Cláudia Romano Ribeiro
Ana Cláudia Romano Ribeiro é co-editora da Revista Morus — Utopia e Renascimento. Faz seu doutorado no Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para o qual prepara um estudo e uma tradução para o português de La Terre Australe Connue (1676), de Gabriel de Foigny, sob a orientação do Prof. Dr. Carlos Eduardo Ornelas Berriel, É bolsista da FAPESP desde junho de 2005. Em seu trabalho de mestrado, Ilha dos Hermafroditas: viagem à França especular de Henrique III", realizado na mesma instituição, e com o mesmo orientador, estudou e traduziu para o português L'Isle des Hermaphrodites (1605), utopia francesa atribuída a Artus Thomas. É formada em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG, Brasil) e em Etnomusicologia pela Universidade de
Dragões, harpias, unicórnios, cilas, lestrigãos antropófagos,
' MONTAIGNE, Michd de. "Des tannibales", in Essaá.
Paris: Librairie Generale française, 1972, pp. 303-319;
"Dos canibais", in Ensaios, Tradução de Sérgio Milliet.
São Paulo: Abril Cultural, 1972, pp. 104-110.
2 L'Isle des Hermaphrodites.
Edition, introduction e notes par Claude-Gilbert Dubois.
Genève: Droz, 1996; A Ilha dos Hermafroditas. Tradução de Ana Cláudia Romano Ribeiro.
In "1/ Ilha dos Hermafroditas":
viagem à França especular de Henrique III, trabalho de mestrado (tradução e estudo) orientado pelo Prof. Dr. Carlos Eduardo Orneias Berriel.
Departamento de Teoria Literária, IEL, UNICAMP, 2005.
' FOIGNY, Gabriel de. La terre australe connue (1676).
Edition établie, présentée et annotée par Pierre Ronzeaud.
Paris: S.T.F.M., 1990.
4 Ver DUBOIS, Claude- G ilbert. "L'Hermaphrodi te:
une allégorie énigmatique et son utilisation sous le règne d'Henri IV", em Cabiers de Littérature du XVII' si/ele, n° 9, 1987, pp. 11-27; "Un aspect de la littérature utopique dans les Lemes françaises sous le règne de Henri IV", in Mots et règles, jeux et délires. Etudes sur l'imaginaire verbal au XVI'
si/ele. Caen: Paradigme, 1992, pp. 247-268; "Le sauvage et l'hermaphrodite", in La rencontre des imaginaires entre Europe et Amériques. Paris:
L'Harmattan, 1993, pp.
91-99; Introdução à Vide des Hermapbrodites. Genève:
Droz, 1996, pp. 7-41. Ver também RONZEAUD, Pierre. "L'Hermaphrodisme des Australiens et de Sadeur", in L'utopie hermaphrodite.
Marseille: C.M.R. 17, 1982, pp, 19-84.
antípodas, lunares, dentre muitos outros: no século XVII, o imaginário europeu expresso nos diversos relatos de viajantes, nas utopias e em
outras obras literárias já havia povoado terras longínquas com criaturas de espécies as mais variadas, com freqüência grotescas. Ateremo- nos neste artigo a alguns destes seres, habitantes de terras utópicas, dotados de fecundos significados que ora convergem, ora divergem: o
"andrógino", mítica expressão da completude, o "hermafrodita", seu contrário híbrido e desarmônico, e o "canibal", que podemos chamar genericamente de "selvagem", na acepção de Montaigne, aquela de um homem dotado de pureza originária.
Em primeiro lugar, trataremos da origem dos mitos do andrógino e do hermafrodita, suas diferenças e a localização histórica destes termos. Em seguida, veremos como o andrógino platônico torna-se o termo de comparação entre europeus e selvagens em "Dos canibais" (1580), de Montaigne.' Neste ensaio fundamental, que inspirou escritores de épocas diversas (Shakespeare, Rousseau e, no século )0(, Oswald de Andrade), o andrógino e os índios brasileiros - os selvagens canibais tupiniquins, que Villegagnon conheceu - são ambos seres completos e virtuosos que relativizam a civilidade de europeus belicosos, sanguinários e ambiciosos. Finalmente, relacionaremos os dois mitos aos habitantes bissexuados de duas utopias escritas em língua francesa no século XVII: A Ilha dos Hermafroditas (Paris, 1605), atribuída a Artus Thomas, 2 e A Terra Austral Conhecida (Genebra, 1676), de Gabriel de Foigny. 3 Estudaremos as acepções possíveis para o termo hermafrodita nos dois textos: no primeiro, ele é eminentemente negativo, pois ckscreve de maneira satírica frívolos e artificiosos cortesãos e, indo mais longe, conforme a análise de Dubois4, critica certo tipo de comportamento político, econômico e estético; já no segundo texto, o autor povoa as desconhecidas e muito desejadas terras austrais com seres completos, referindo-se sem dúvida ao sentido platônico do mito.
OS mitos do andrógino e do hermafrodita
O substantivo "hermafrodita" tem os dois gêneros, masculino e feminino, tanto no francês quanto no português. Seu uso vem dos mitos do andrógino e do hermafrodita, que alimentaram construções simbólicas diferentes no decorrer dos séculos. O primeiro, expressão mística da integração bem-sucedida de contrários, inspirou criações em que foi empregado sobretudo com uma conotação positiva. Já o mito do hermafrodita, manifestação do conflito entre partes que, apesar de reunidas, permanecem em desacordo, exprimia uma idéia
depreciativa de homem dividido, dissimulado e moralmente ambíguo.
O hermafrodita deve ser compreendido em relação ao andrógino, já que estas duas figuras são ao mesmo tempo aparentadas e diversas.
Os casos de hermafrodismo encontrados na natureza, repertoriados em épocas remotas, inspiraram Ovídio e Plínio, o Velho e deram origem a inúmeras lendas e digressões. Nos século XVI e XVII encontram-se duas acepções para a palavra hermaphrodit ou hermaphrodite: técnica e figurada. O termo é neutro, quando faz parte do vocabulário técnico da medicina, e simbólico, em tratados de política. No sentido técnico, o termo era usado por médicos, designando um tipo de anomalia anatômica.' Na acepção figurada, tratava-se de um termo pejorativo, usado para simbolizar uma forma de oportunismo moral, econômico, filosófico e político, encoberto por uma conduta e um discurso ambíguos. Para estudar as diversas implicações do termo "hermafrodita" na Ilha dos Hermafroditas e na Terra Austral Conhecida é necessário ter em mente o mito do andrógino e o mito do hermafrodita, contados por Platão e por Ovídio, respectivamente.
A primeira referência escrita ao andrógino encontra-se no Banquete, de Platão', na réplica em que Aristófanes narra a gênese da diferenciação sexual, e discorre sobre a natureza do amor como o desejo de retorno a um estado de completude perdido, representado pelo andrógino. Ele era uma das três criaturas que habitavam a terra e que foram fendidas devido à fúria de Zeus. Possuía os dois sexos, representando assim a dicotomia do homem primordial. Sua forma era esférica, configuração geométrica que traduz a idéia de perfeição e de totalidade. Em cada ser humano criado a partir dele existiria, portanto, o desejo de encontrar sua metade complementar capaz de fazê-lo retornar ao seu estado androgínico perdido. Cosmicamente, a perfeição espiritual consiste nesse processo de totalização, em que se busca a expressão do ser universal, do "Uno"! Esta noção encontra-se ainda na literatura alquímica, na lirica amorosa, nas reflexões sobre a organização social ideal e, por fim, com sentido místico, na cabala (na figura de Adam Kadmon) e no cristianismo (na figura do Cristo de dupla natureza).
A representação literária mais bem sucedida do mito do hermafrodita está nas Metamorfoses de Ovídio', que conta como a ninfa Salmacis se apaixona pelo jovem Hermafrodita, filho de Herme's e de Afrodite, quando ele vem banhar-se nas águas de seu lago. Não obtendo reciprocidade, ela pede aos deuses que juntem seu corpo ao dele, numa operação de hibridização sexual. Trata-se de uma união forçada que resulta em desarmonia dissimulada.
A origem histórica do hermafrodita localiza-se no período
Em 1573, Ambroise PARE, longevo médico cirurgião de Henrique II, Francisco II, Carlos IX e de Henrique III, em sua obra pioneira Des Monstres et prodiges, escreve um capitulo chamado "Des bermapbrodites ou androgynes" no qual, no entanto, usa somente a palavrã "hermafrodita" para designar tais singularidades naturais. Alguns anos mais tarde, apareceram outras obras tratando do tema:
SCHENK. Observationum medi carum et monstruosarum
Francfort: Hoffmann, 1609; BAUHIN, Caspari Bahuini de bermaphroditorum monstrosorurnque partuum natural...] libri duo hactenus
11071 editi[...]. Oppenheimi, typ. H. Galleri, 1614; Jacques DUVAL é o primeiro a elaborar uma teoria sobre os hermafroditas em Des bermaphrodites, accouchements des femmes et traitement qui est requis pour les relever eu santé et bico dever leurs enfants, par Me Jacques Duval, seigneur d'Ectomare et du Harod Rouco:
1612. (Existe uma edição de Alcide Bonneau feita em Paris em 1614). Jean RIOLAN o contestará com Discours sur les Hermapbrodites, oit ii est demonstré, centre topinion commune, qu'il n'y a pas de vrays bermaphrodites (Paris, 1614), e Duval reafirmará sua posição em Response au discours.faict par le sieur Riolan centre thistoire de thermaphrodite de Rouca (Rouen, s.d.).
O Banquete. Tradução de José Cavalcante de Souza. São
Paulo: Abril Cultural, 1972, pp. 28 a32.
'Esta idéia, adotada pelos humanistas franceses com entusiasmo, se encontra inclusive na representação do rei Francisco I um tanto andrógina, ostentando as virtudes de Marte, Mercúrio, Minerva, Diana e Eros em um retrato alegórico de Niccolo
dell'Abate. posterior ao auge da civilização grega, na Grécia Alexandrina dos
Les métamorphases. Traduction epyllia ovidianos. Trata-se de uma invenção dos artistas helenísticos
nouvelle avec introduction et notes par J. Chamonard. Paris:
Librairie Garnier Fretes, 1936, pp. 180-187.
' As primeiras representações esculturais do Hermafrodita datam do período alexandrino, por volta do século II a.C. Ele participa do longo percurso da escultura grega: desde o século VII a.C. os escultores clássicos buscaram representar no corpo humano o masculino e o feminino, embora com a presença mais mareada deste ultimo. A partir do século IV a.C., houve uma tendência para a feminização da anatomia, sendo comum encontrar cabeças de homem em corpos delicados.
de que se apropriaram em seguida os poetas alexandrinos. A história do hermafrodita e de seu uso é uma invenção dos períodos de decadência.' No século XVI, ele aparece após a voga do termo
"andrógino" no Renascimento, no período que Curtius, Panofsky e Marcel Rayrnond chamaram de maneirismo, ou Renascimento tardio.
O hermafrodismo seria um prolongamento maneirista nos anos em que o barroco se instaura. A origem helenística do hermafrodita indicou o caminho de sua interpretação nas obras artísticas e literárias posteriores: o hermafrodita está estreitamente ligado a uma produção estetizada, em que uma figura aparentemente canônica, apresentada segundo uma ordem clássica e harmônica, apresenta discretamente uma anormalidade, salienta a diferença, expõe uma desarmonia dissimulada.''
Montaigne
'° Marie Delcourt mostra No Renascimento francês, o mito do andrógino refere-se,
que não se pode separar o hermafrodita da representação estetizada: "Pronunciar o nome
"Hermafrodita" é evocar, em um museu de Florença ou de Roma, uma figura deitada sobre o flanco, com a cabeça pousada sobre uma almofada, que os visitantes abordam de costas. Eles devem contorna- la para que ela lhes revele seu segredo. Aqueles que vêem este ser gracioso, oprimido por um nome pesado demais, seriam incapazes de lembrar-
se de uma só lenda na qual ele esteja implicado. Podem acreditar que, reunindo em si os atributos dos dois sexos, o escultor obedeceu a uma simples fantasia, ao desejo de instigar a curiosidade e de gracejar com um tema protegido pelas mais severas proibições." DELCOURT, Marie. Hermaphrodite, mythes et rites de la bissexualité dans l' antiquité classique. Paris:
P.U.F., 1958, p.l. (Todas as traduções são minhas),
sobretudo, à imagem ideal do homem reintegrado em sua plena natureza, em harmonia com as divinas proporções. Para Montaigne, ele
"traz em si a forma inteira da condição humana."" Em "Dos canibais", publicado em 1580, o filósofo usa este arquétipo para apresentar os habitantes modelares da França Antártica de Villegagnon, que vivem conforme a natureza, segundo leis naturais, próximos de sua
"ingenuidade natural". Segundo Montaigne, eles vivem em uma sociedade melhor do que a da idade do ouro contada pelos antigos, e melhor do que a República de Platão. No entanto, são chamados de bárbaros pelos europeus por viverem nus, desconhecerem a Revelação e praticarem o canibalismo. Montaigne reflete sobre este julgamento, guiado por opiniões pré-concebidas, e condena-o, preferindo julgar a partir da razão, e não dos hábitos. Observando os canibais do Brasil, o filósofo constata estarem eles próximos de um estado de inocência original, do qual faz parte a antropofagia, instituição social com valor simbólico e não expressão de crueldade individual, como quiseram certos observadores europeus. 12 O autor compara o valor e a coragem destes índios que guerreiam por motivos nobres e que, captores ou capturados, permanecem virtuosos, às faltas mais comuns dos europeus - traição, deslealdade, tirania, crueldade, ambição —, freqüentes e imperdoáveis. Logo, pode-se chamar os tupinambás de bárbaros, segundo as regras da razão, porém, não segundo as regras
"Citado em DUBOIS. "Le dos europeus. Aqui está o mote que norteia todo o ensaio: julga-se
sauvage...", p. 92.
bárbaro o que é diferente de si.
Em visita a Rouen, cidade portuária importante da Normandia, uma comitiva de três índios foi recebida pelo rei Carlos IX. Os índios ficaram surpresos com o fato de que, em um mesmo país, pudesse haver ricos e pobres, e que cometessem violências uns contra os outros, pois para eles, que chamavam-se uns aos outros de "sua metade", seria inconcebível cometer violência contra seus iguais. Portanto, na sociedade tupinambá, conforme Dubois, "o fermento da completude toma a forma da solidariedade social. Natureza e sociedade, por um indício lingüístico, se potencializam para expressar um estado ideal que não é o hermafrodismo, mas o novo andrógino, em harmonia com as leis naturais e suprindo as lacunas sociais pela solidariedade.""
A sociedade descrita por Montaigne em "Des cannibales" refere- se ao mito androgínico, pois é íntegra: nela não há classes sociais, propriedade privada ou leis, as relações não são mediadas pelo dinheiro, não há escravidão nem mendigos, a noção de liberdade e de moral é consensual.
12 Ces nations me semblent done ainsi barbares, pour avoir reçu fort peu de leçon de
1 i h
.'espr_t _umain, et étre encore fort voisines de leurs naiveté originelle. Les bis naturelles leur commandent encore, fort Peu abâtardies par les Mirres [...]. Idem, ibidein, p. 308.
.
O termo "hermafrodita" no século XVII
No século XVII encontram-se duas acepções para a palavra
"hermafrodita": técnica e figurada. Em sentido técnico, ela era empregada na área da teratologia médica designando os casos de deformação anatômica em que era oferecida a ilusão de um sexo duplo.
O termo se empregava de maneira figurada nos campos da política, da moral e da religião. Além disso, era termo injurioso em obras que atacavam os libertinos.
A libertinagem intelectual no século XVII não tem contornos precisos. Segundo Pintard, os termos "libertino" e "libertinagem"
correspondem a realidades variadas e indicam "opiniões, tendências ou comportamentos que se afastam das crenças ensinadas pelo magistério eclesiástico, e aceitas pelos fiéis comuns: é 'libertino' tudo o que marca um excesso de 'liberdade' em matéria de moral e de religião, em relação ao que os dogmas, tradições, conveniências e poder político definem ou preconizam." 14 Dubois define a libertinagem intelectual como a fusão do sensualismo epicurista com o racionalismo, aplicado às investigações
DUBOIS. "Le sauvage...", p. 97.
sobre a natureza, resultando em descrença religiosa e em materialismo , alvos dos missionários da Reforma e da Contra-Reforma. O padre
PINTARD, René. Le libertinage érudit dans la
Garasse, emuma das mais importantes obras de ataque à libertinagem, denominava os protestantes "hermafroditas.""
première moitié du XVII' siècle.
Geneve-Paris: Slaktine, 1983, p. XIV.
O termo "hermafrodita" não aparece apenas nas duas utopias
citadas, mas também em dois tratados sobre moral política: L5Inti- '5 GARASSE, Doctrine curieuse
„, ,
.es ”eaux esprits de ce ternps...,
hermaphrodite, de 1606, e L'Hermaphrodite de ce temps, de 1611. O Paris: Sébastien Chapelet,
Anti-hermafrodita foi escrito porJonathas Petit de Brétigny, calvinista, 1624.
e denunciava a frouxidão moral, política e jurídica de seu tempo. Nesta obra, o hermafrodita é comparável à figura do ateu e do libertino, que formarão toda uma nova geração de aristocratas cansados de guerras, e dispostos a construir para si "um modo de existência fora dos padrões tradicionais, exaltando o espírito do livre exame e os bens sensíveis da vida."" O Hermafrodita deste tempo' critica personalidades conhecidas por "servirem a dois mestres", e acusa a hipocrisia dos que professam paradoxalmente um naturalismo e um liberalismo, encobrindo intenções escusas. O autor deste opúsculo, em uma série de advertências a figuras eminentes, exorta-as a respeitarem um
"código de conduta que pode ser resumido em duas palavras: não se pode servir a dois mestres."" Para Dubois, A Ilha dos Hermafroditas (1605), juntamente com o Anti-hermafrodita (1606) e o Hermafrodita deste tempo (1611) lançam a acusação de hermafroditismo político e fazem um apelo à restauração da moral política.
A Ilha dos Hermafroditas
16 DUBOIS. Introduction..., p. 18.
" Existe um exemplar desta obra na Bibliothèque de l'Arsénal, repertoriado sob o código 8H6656, peça 13, publicado em uma coletânea de textos que dizem respeito à morte de Henrique IV.
° DUBOIS. Introduction..., p. 37.
° Ver RIBEIRO, Ana Cláudia Romano. "Natureza e artifício na Ilha dos Hermafroditas", in Revista da UFAL, Alagoas, no prelo,
.Dusoís. Introduction..., p. 27.
A Ilha dos Hermafroditas tem duas grandes partes: a descrição de seus habitantes e de suas leis e a transcrição dos escritos heréticos que atacam os hermafroditas. Interessaremo-nos pela primeira, em que o narrador conta a história de um viajante que, após naufragar em uma ilha desconhecida povoada por hermafroditas, situada nos caminhos marítimos que levam a Lisboa, descobre sua natureza exuberante e seu suntuoso palácio. Nele, encontrará os syresdonnes,
"senhoresdamas", cortesãos sexual e moralmente ambíguos, cuja aparência, comportamentos e leis descreverá. Estes cidadãos, que nada têm da virtude nem da frugalidade exemplares das utopias de Morus ou de Campanella, ou dos tupinambás de Montaigne, têm seu código moral baseado na realização de empreendimentos prazeirosos e vantajosos através do artifício, manifestado pela sofisticação das aparências. Estes hermafroditas vivem, portanto, em um estado de cultura avançado, em que a natureza encontra-se sempre oportunamente modificada: a ilha dos hermafroditas, longe de ser um paraíso selvagem, é um lugar altamente civilizado. Nela, o artifício encobre aquilo que se quer dissimular, o interesse individual, e se traduz na preocupação que mostram os hermafroditas em adornar a sua aparência, a dos objetos que fazem parte de sua vida, a sua linguagem e seu comportamento."
As leis desta sociedade têm a forma de uma listagem feita nos moldes dos códigos religioso, civil e militar, escrita em linguagem preciosa, cujo princípio gerador é a ironia, e que se exprime por paradoxos e pela inversão do modelo jurídico". De fato, A Ilha dos
Hermafroditas pode ser vista COM() uma sátira que apresenta exatamente o contrário do que poderiam desejar as diversas instâncias da vida social. Assim, para expor alguns exemplos, nesta legislação é dito que:
os eclesiásticos podem vender objetos sagrados, que são permitidos o homicídio, o incesto, o matricídio, parricídio, o fratricídio e o tráfico de crianças desde que, em troca, se alcance uma boa recompensa, que os reformadores e oficiais de polícia aceitarão falsificações diversas, desde que devidamente recompensados, e que será considerado uma ilusão acreditar que a inteligência e a razão devem guiar a vontade.
Dubois vê no comportamento destes hermafroditas uma crítica ao estetismo maneirista derivado do naturalismo renascentista.
Nela, natureza e artifício, dois elementos centrais, se contrapõem. A natureza deve ser entendida aqui em seu aspecto negativo: não como em Campanella (em cuja Cidade do Sol ela é potência organizadora de uma vida social harmônica), mas como fonte de comportamentos anti-sociais porque instintivamente egoístas, naturalmente viciados. O uso da palavra "natureza" não se funda em um naturalismo que busca a harmonia dos contrários. Os hermafroditas não traduzem os ideais universais do retorno à natureza e à liberdade expressos no ensaio de Montaigne. Estes ideais, na utopia de Artus Thomas, mascaram atitudes hipócritas, chamadas metaforicamente de "hermafródicas".
A base das ordenanças dos hermafroditas é tripla: o prazer, a liberdade e o lucro. O comportamento ideal do hermafrodita consiste em usar a liberdade para tirar o máximo proveito da realização do próprio prazer, portanto visando alguma forma de lucro, princípio que rege a legislação e leva ao paroxismo formulações hedonistas e liberais.
A liberdade para realizar o desejo individual vigora em diferentes setores da vida, particularmente no setor econômico, em que não há obstáculos de ordem ética para qualquer empreendimento. Desse modo, tal lei "selvagem" cria uma imagem de natureza muito diversa daquela edênica e idílica, que norteia as utopias fundamentadas em uma imagem maternal de natureza.
Dubois vê nestes hermafroditas decadentes um homem cuja natureza degenerou-se por um processo de hiperbolização da cultura. Neste sentido, "o hermafrodita é uma degenerescência da figura androgínica, associada à decadência do natural e à hipertrofia do cultural." 21 O mito do andrógino se degrada aqui em mito hermafródico, uma paródia da androginia. O hermafrodita representa o homem do velho mundo em vias de decomposição. O selvagem é sua antítese.
DUBOIS. "Le sauvage...", p. 92.
A Terra Austral Conhecida
A Terra Austral Conhecida, de 1676, é habitada por seres bissexuados bem diferentes daqueles da Ilha dos hermafroditas, mais parecidos com os índios descritos por Montaigne. Chamados de
"hermafroditas", estes seres devem, no entanto, ser compreendidos como andróginos. Não se sabe se Foigny leu o libreto utópico A ilha dos hermafroditas ou se leu Montaigne, mas, tem em comum com estes textos o fato de criticar a sociedade européia de sua época.
O protagonista chama-se Sadeur. Ele nasceu com a anomalia do sexo duplo, no mar, em um navio que naufragou nas costas espanholas.
Cresceu e foi educado em Portugal. Capturado por piratas quando ia para a Universidade de Coimbra, naufragou novamente e foi salvo por mercadores portugueses que se dirigiam às índias Orientais. Em seguida, passou um tempo no Congo, e, após outra viagem naufragou novamente perto de Madagascar. Chegou em uma ilha que era, na verdade, o dorso de uma baleia gigante que, quando submergia, fazia aparecer animais fantásticos alados, que transportaram o viajante até a terra austral. Após uma batalha com estes animais, os habitantes hermafroditas do continente desconhecido salvaram Sadeur e, admirados com sua coragem e, percebendo que ele também era hermafrodita, ao invés de o matarem, como faziam com todos os estrangeiros, acolheram-no.
Sadeur descobriu uma sociedade sem instituições, sem poder centralizado, sem escravos, sem privilegiados e sem distinções de classe. Um hermafrodita não domina outro, sua liberdade é limitada somente pela razão, não há religião revelada, nem disputas religiosas.
O racionalismo permeia todos os aspectos da vida dos austrais. Há uma simetria na disposição geográfica do país, na uniformidade da língua, dos costumes, das habitações. Basta conhecer uma região para conhecer as outras, semelhantes. O país é extenso e fica isolado, limitado, em uma das extremidades, por montanhas inacessíveis, e na outra, por um mar com um pé de profundidade, o que impede qualquer navegação.
A moral dos austrais se baseia no racionalismo. A perfeita racionalida.de corresponde à natureza física e mental do homem, completa e perfeita. Os europeus são imperfeitos, pois têm um só sexo e passam a vida a procurar o que lhes falta. Já os hermafroditas austrais são "perfeitos porque auto-suficientes e porque dispõem de uma autarquia sentimental e sexual que elimina todas as tentações, os afãs, as aflições, e instaura no Estado a paz perpétua. Graças a este duplo dom da natureza os austrais ignoram, portanto, o ódio e a inveja,
fonte dos mais terríveis males, e provam reciprocamente somente amor fraterno."22 A bissexualidade dos austrais indica que eles são completos tanto no corpo quanto no espírito. Todo o mal vem do fato de que os humanos são feitos de metades separadas, que estão constantemente em desacordo. Os austrais, contrariamente, vivem todos em respeito e liberdade, e não conhecem o sentimento de posse individual. Não conhecem a avareza, nem a ambição, nem a discórdia, nem a divisão, e não se preocupam com os bens terrenos. Os europeus, em comparação, revelam ter sede de riquezas, de poder, além de serem conspiradores, assassinos e traidores, guiados antes pelas paixões do que pela razão.
Com efeito, os austrais não admitem entre eles seres unisexuados, considerados meio-homens e, logo, incompletos. Caso algum bebê nasça com um só sexo, é imediatamente eliminado. Os hermafroditas da terra austral recordam, portanto, a figura mítica do andrógino;
eles são o bom selvagem montaigneano das terras descobertas pela imaginação utópica.
BIBLIOGRAFIA Fontes primárias:
FOIGNY, Gabriel de. La terre australe connue (1676). Édition établie, présentée et annotée par Pierre Ronzeaud. Paris: S.T.F.M., 1990.
MONTAIGNE, Michel de. "Des cannibales", in Essais. Paris: Librairie Génerale française, 1972, pp.303-319.
. "Dos canibais", in Ensaios. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Abril Cultural, 1972, pp.104-110.
L'Isle des Hermaphrodites. Edition, introcluction e notes par Claude-Gilbert Dubois. Genève: Droz, 1996.
A Ilha dos Hermafroditas. Tradução de Ana Cláudia Romano Ribeiro. In
"A Ilha dos Hermafroditas".. viagem à França especular de Henrique IH, trabalho de mestrado (tradução e estudo) orientado pelo Prof. Dr.
Carlos Eduardo Ornelas Berriel. Departamento de Teoria Literária, IEL, UNICAMP, 2005.
OVIDE. Les métammphoses. Traduction nouvelle avec introduction et notes par J. Chamonard. Paris: Librairie Garnier Frères, 1936, pp.180- 187.
PLATÃO. O banquete. Tradução de José Cavalcante de Souza. São Paulo:
Abril Cultural, 1972, pp.28 a 32.
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CAMBI, Maurizio. "Storia e utopia nel primo seicento francese" em Vite di utopia. Ravenna: Longo, 1997, pp.113-122.
DELCOURT, Marie. Hermaphrodite, mythes et rites de ia bissexualité dans l'antiquité classique. Paris: P.U.F., 1958.
DUBOIS, Claude-Gilbert. "L'Hermaphrodite: une allégorie énigmatique et son utilisation sous le regne d'Henri IV", em Cahiers de Littérature duXVlPsiêcle, n° 9, 1987, pp.11-27.
. "Uri aspect de la littérature utopique dans les Lettres françaises sous le regne de Henri IV", in Mots et règles, jeux et délires. Etudes sur l'imaginaire verbal au XVP siècle. Caen: Paradigme, 1992, pp.247- 268.
• "Le sauvage et l'hermaphrodite", in Larencontre des imaginaires entre Europe et Amériques. Paris: L'Harmattan, 1993, pp.91-99.
• Introdução à L'Isle des Hermaphrodites. Geneve: Droz, 1996, pp.7-41.
GIUCCI, Guillermo. "Velhos e novos mundos: da conquista da América ao domínio do espaço cósmico", in Revista Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 4, n. 7, 1991, pp.3-18.
LESTRINGANT, Frank. "A outra conquista: os huguenotes no Brasil", in A descoberta do homem e do mundo. São Paulo: Companhia das Letras,
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• "Mitológicas: a invenção do Brasil", in Revista USP, n°12.
Tradução e apresentação de Luiz Dantas e Alcir Pécora. São Paulo:
USP (on-line), s/d.
MINERVA, Nadia. "Viaggi in utopia. Note su alcuni romanzi dei secoui XVII e XVIII", in Utopia e... amici e nemici dei genere utopico nella letteratura francese. Longo Editore, Ravenna, 1995, pp.41-62.
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de Montaigne a Shakespeare", in América: ficção e utopias. José Carlos Sebe Bom Meihy e Maria Lúcia Aragão (Orgs.). São Paulo: Edusp, 1994, pp.45-56.
PICHETTO, Maria Teresa Bovetti. "Gabriel de Foigny, utopista e libertino", in Studi sull'utopia, raccolti da Luigi Firpo. Firenze: Leo S. Olschki, 1977, pp. 189-221.
PINTARD, René. Le libertinage érudit dans la première moitié du XVII siècle.
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