Mecˆ anica e Reologia de C´ elulas
Yareni Aguilar Ayala
Tese de Doutorado apresentada ao Programa de P´os- Gradua¸c˜ao em F´ısica do Instituto de F´ısica da Univer- sidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necess´arios `a obten¸c˜ao do t´ıtulo de Doutor em Ciˆencias (F´ısica).
Orientador: Prof. Nathan Bessa Viana
Rio de Janeiro Dezembro de 2013
A283 Aguilar Ayala, Yareni Mecânica e Reologia de Células / Yareni Aguilar Ayala. —
Rio de Janeiro, 2013.
xxvii,129 f.: il. ; 30 cm.
Tese (Doutorado em Física) – Programa de Pós-graduação em Física, Instituto de Física, Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Orientador: Dr. Nathan Bessa Viana Bibliografia: f. 114-129
1. Reologia. 2. Pinças óticas. 3. Mecânica celular. 4. Rigidez de flexão. 5. Materiais Moles. I. Viana, Nathan Bessa. II.
Universidade Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Física. III.
Título.
CDD 531.1134
Nome do Aluno: Yareni Aguilar Ayala
Orientador: Nathan Bessa Viana
Resumo da Tese de Doutorado apresentada ao Programa de P´os-Gradua¸c˜ao em F´ısica do Instituto de F´ısica da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necess´arios `a obten¸c˜ao do t´ıtulo de Doutor em Ciˆencias (F´ısica).
A c´elula ´e a unidade estrutural b´asica do ser vivo. Ela est´a constantemente sujeita a est´ımulos mecˆanicos provenientes do meio externo ou de condi¸c˜oes fisiol´ogicas internas que influenciam suas fun¸c˜oes biol´ogicas. Uma abordagem interdisciplinar ´e necess´aria para entender os princ´ıpios de sua organiza¸c˜ao, as rela¸c˜oes entre sua fun¸c˜ao e estrutura e os mecanismos celulares usados para levar a cabo suas fun¸c˜oes vitais. Neste trabalho s˜ao estudadas as propriedades mecˆanicas da membrana e do citoesqueleto de fibroblastos NIH3T3 utilizando a pin¸ca ´otica.
As pin¸cas ´oticas s˜ao ferramentas de micromanipula¸c˜ao utilizadas para medir for¸cas na escala de picoNewton (1pN = 10−12N). Essa ´e a escala de for¸ca na qual aconte- cem importantes processos celulares tais como locomo¸c˜ao, divis˜ao, contra¸c˜ao, ades˜ao e remodelamento celular. Por essa raz˜ao as pin¸cas ´oticas se tornaram nos ´ultimos anos fer- ramentas muito utilizadas e aplicadas a problemas de interesse biol´ogico. Neste trabalho s˜ao utilizadas duas t´ecnicas baseadas no uso de pin¸cas ´oticas para estudar o complexo membrana-citoesqueleto. A primeira delas ´e a t´ecnica de extra¸c˜ao de amarras que permite caracterizar as propriedades da membrana celular. A outra t´ecnica ´e a t´ecnica de reologia,
esta t´ecnica foi implementada durante o desenvolvimento deste trabalho e ´e utilizada para medir as propriedades viscoel´asticas do citoesqueleto. Para estudar a dependˆencia que as propriedades mecˆanicas possuem com a integridade do complexo membrana-citoesqueleto foram utilizadas drogas que desestabilizam a estrutura do citoesqueleto.
As c´elulas NIH3T3 foram tratadas com trˆes drogas que agem de forma molecularmente diferente afetando a dinˆamica e a estrutura do citoesqueleto: citocalasina D, blebistatina e jasplakinolida. O efeito das drogas foi verificado para v´arias concentra¸c˜oes atrav´es de imagens de microscopia confocal. A microscopia confocal permite avaliar a integridade do citoesqueleto ao marcar as c´elulas com faloidina-FITC, um marcador fluorescente para actina polimerizada, principal componente do citoesqueleto.
Nas membranas biol´ogicas frequentemente s˜ao formadas estruturas cil´ındricas longas e finas (com comprimento da ordem de µm), conhecidas como nanotubos ou amarras de membrana. O estudo da forma¸c˜ao destas estruturas ´e uma parte importante na com- preens˜ao de v´arios processos biol´ogicos. Artificialmente as amarras de membrana celular podem ser geradas usando a pin¸ca ´otica. A descri¸c˜ao mecˆanica das amarras ´e dada por um modelo baseado na energia livre de Helfrich para descrever a elasticidade de bicamadas lip´ıdicas. A partir da abordagem da energia de Helfrich ´e poss´ıvel obter express˜oes para a tens˜ao superficial efetivaσef =σef(F, R) e para a rigidez de flex˜ao efetivaκef =κef(F, R) em fun¸c˜ao da for¸ca necess´aria para formar a amarra F e do raio da amarra formada R.
O raio da amarra R foi medido usando a t´ecnica de microscopia eletrˆonica de varredura para cada uma das condi¸c˜oes estudadas.
O complexo membrana-citoesqueleto ´e o principal respons´avel pelas propriedades es- truturais das c´elulas, relacionando-se diretamente com processos de importˆancia vital. De- vido `as suas caracter´ısticas estruturais, o complexo membrana-citoesqueleto tem um com- portamento similar ao de materiais conhecidos como materiais moles (col´oides, pol´ımeros, espumas, g´eis, etc). Dependendo das carater´ısticas do est´ımulo externo o citoesqueleto pode se comportar como um l´ıquido ou como um s´olido. A dinˆamica do acoplamento
Nos nossos resultados observamos uma diminui¸c˜ao dos valores de for¸caF para formar a amarra de membrana em fun¸c˜ao da concentra¸c˜ao da droga usada, quanto maior con- centra¸c˜ao menor a for¸ca. Um efeito contr´ario ´e observado para o raio da amarra R. Os valores deF eRmedidos levam a uma diminui¸c˜ao da tens˜ao efetiva da membranaσef para todos os tratamentos de drogas, especialmente no tratamento com citocalisina D. Esta diminui¸c˜ao ´e um indicativo da desestrutura¸c˜ao do citoesqueleto que se traduz em uma perda da capacidade da c´elula em suportar grandes valores de tens˜ao na sua membrana.
Por outro lado, os experimentos de reologia que acessam diretamente `as propriedades do citoesqueleto dos fibroblastos NIH3T3 mostram que o m´odulo viscoel´astico deste tipo de c´elula ´e descrito por uma lei de potˆencia com expoente β = 0.22± 0.03 que descreve o estado inalterado do citoesqueleto. A desestrutura¸c˜ao do citoesqueleto, observada nos experimentos de amarras com a diminui¸c˜ao da tens˜ao da membrana plasm´atica, ´e tradu- zida nos resultados de reologia em uma diminui¸c˜ao direta dos m´odulos el´astico e viscoso para todas as condi¸c˜oes estudadas. A diminui¸c˜ao do m´odulo viscoel´astico caracterizada por um aumento do expoente da lei de potˆencia β descreve um estado mais flex´ıvel do citoesqueleto. Os fibroblastos tratados com citocalasina D apresentam um citoesqueleto em estado mais l´ıquido quando comparado com as demais condi¸c˜oes estudadas. A rigidez de flex˜ao efetiva κef, associada com o acoplamento membrana-citoesqueleto, apresenta um inesperado aumento em resposta ao tratamento com drogas quando comparada com a situa¸c˜ao controle. No entanto, este aumento se mostra insens´ıvel `a concentra¸c˜ao usada para o caso de blebistatina e jasplakinolida. J´a para o tratamento com citocalasina D o aumento de κef ´e consider´avel, atingindo valores encontrados para o caso de membrana
plasm´atica desacoplada do citoesqueleto. A poss´ıvel rela¸c˜ao destes parˆametros mecˆanicos com as fun¸c˜oes do citoesqueleto s˜ao discutidas neste trabalho. Para explicar os resultados encontrados para os valores deκef ´e proposto um modelo baseado na extens˜ao da energia livre de Helfrich-Canham com a introdu¸c˜ao fenomenol´ogica de parˆametros relacionados com a curvatura da membrana plasm´atica e sua energia de ades˜ao ao c´ortex.
Palavras-chave: Pin¸ca ´Otica, Mecˆanica Celular, Extra¸c˜ao de Amarras, Membrana Plasm´atica, Citoesqueleto, Energia Livre de Helfrich-Canham, Reologia, Materiais Moles, M´odulo Viscoel´astico, Curvatura Espontˆanea.
Rio de Janeiro
Dezembro de 2013
Orientador: Prof. Nathan Bessa Viana
Abstract da Tese de Doutorado apresentada ao Programa de P´os-Gradua¸c˜ao em F´ısica do Instituto de F´ısica da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, como parte dos requisitos necess´arios `a obten¸c˜ao do t´ıtulo de Doutor em Ciˆencias (F´ısica).
The cell is the basic unit of life; it is constantly subjected to mechanic stimulus from the external environment and from its internal physiological condition that influence its biological functions. An interdisciplinary approach is necessary to understand the princi- ples of its organization, its function-structure relations and the cellular mechanisms that are used to perform its biological functions. In this thesis the membrane and cytoskele- ton mechanical properties of NIH3T3 fibroblast are studied by using an optical tweezers system. Optical tweezers are micro-manipulation tools used to measure forces in the pi- coNewton (1pN = 10−12N) scale. On this scale important cellular process occurs such as locomotion, division, contraction, adhesion and cellular remodelling. For these reason the optical tweezers are used extensively in biological applications. In this work, two te- chniques based on optical tweezers systems are used to study the membrane-cytoskeleton complex. The first one is the tether extraction technique that allows cellular membrane properties to be characterized. The other one is the rheology technique that was imple- mented during the development of this work. The rheology technique is used to measure the viscoelastic properties of the cytoskeleton. In order to study the relation between the mechanical properties of the cell and the membrane-cytoskeleton complex integrity drugs
that crash the cytoskeleton structure were used.
The NIH3T3 cells were treated with three different drugs: cytochalasin D, blebista- tin and jasplakinolide. Each drug acts on the cytoskeleton in a different molecular way, interfering with its dynamics and structure. The drug effects were verified for all concen- trations by using confocal microscopy. The confocal microscopy allows a verification of the cytoskeleton integrity by the fluorescent effect of phalloidin-labeled cells.
Frequently, biological membranes form long thin cylindrical structures (with micro- metric length) known as nanotubes or membrane tethers. The study of tether formation mechanisms is an important tool used to investigate several biological processes. Ar- tificially, the cellular membrane tethers can be generated by using an optical tweezers system. The mechanical description of tether formation is given by a model based on Helfrich-Canham free energy that describes the phospholipidic bilayers elasticity. From Helfrich-Canham energy approach it is possible to obtain expressions for the effective membrane surface tension σef(F, R) and bending energy κef(F, R) as a function of the force (F) needed to form a tether with radius (R) . The tether radius is measured by using the scanning electronic microscopy technique.
The membrane-cytoskeleton complex is the principal responsible for the structural properties of the cells. Due to its structural characteristics, the membrane-cytoskeleton complex has a behavior similar to other materials called soft glassy materials (colloids, slurries, etc). Depending on the characteristics of the external stimulus, the cytoskeleton behaves as a solid or as a liquid material. The dynamics of its solid-liquid nature cou- pling can be characterized by means or power laws that describe the complex viscoelastic modulus dependence on the external stimulus frequency that acts on the cell. The opti- cal tweezers can induce a sinusoidal mechanical perturbation on the cell with controlled amplitude and frequency that enable the study of the cytoskeleton rheological behavior.
In our results we observe a decrease in the tether formation force values (F) as a function of drug concentration, as higher is the concentration the less is the observed force. An
law with an exponent of β = 0.22±0.03. The cytoskeleton disruption, observed by the tether extraction experiments through the effective membrane tension, is also detected in the rheological experiments by a direct complex viscoelastic modulus decrease for all tested conditions. The fibroblasts treated with Cytochalasin D exhibit a more liquid-like cytoskeleton behavior than the others tested conditions. The effective bending rigidity κef, associated with the membrane-cytoskeleton coupling, exhibits an unexpected increase in response to the drugs treatment.
However, for blebistatin and jasplakinolide this increase appears to be insensitive to the drug concentrations used. For citochalasin D there is a considerable increase of κef, reaching values found for the plasma membrane vesicles case.
A possible correlation of these mechanical parameters with the cytoskeletal functi- ons is discussed. In order to explain the results found for the bending rigidity a model is proposed. This model is based on the Helfrich-Canham free energy extension with two phenomenological parameters added related to the plasma membrane curvature and membrane-cortex adhesion energy.
Keywords: Optical Tweezers, Cell Mechanics, Tether Extraction, Cell Membrane, Cytoskeleton, Helfrich-Canham Free Energy, Rheology, Soft Glass Materials, Viscoelastic Modulus, Spontaneous Curvature.
Rio de Janeiro
Dezembro de 2013
Agradecimentos.
Gostaria de agradecer em primeiro lugar ao meu orientador, o professor Nathan Bessa Viana por me ter dado a oportunidade de trabalhar no Laborat´orio de Pin¸cas ´Oticas da UFRJ, pela paciente condu¸c˜ao deste trabalho de tese e pela sua grande contribui¸c˜ao
`as id´eias que deram forma a este trabalho. Aos meus colegas de laborat´orio, Bruno Pontes pela sua valiosa ajuda na parte de biologia atrav´es da troca de experiˆencias e discuss˜oes. Ao meu colega Rafael Dutra pelas discuss˜oes da parte te´orica da pin¸ca ´otica.
Aos professores Moyses Nussenzveig, Vivaldo Moura, Marcos Farina e Paulo Am´erico por participarem das reuni˜oes do laborat´orio acrescentando id´eias e discutindo resultados.
Ao Laborat´orio de Morfogˆenese Celular, do Instituto de Ciˆencias Biom´edicas da UFRJ por disponibilizar a sua estrutura para a obten¸c˜ao das amostras biol´ogicas usadas neste trabalho, assim como a todas as pessoas pertencentes a esse laborat´orio. A todos os professores da UFRJ que contribu´ıram na minha forma¸c˜ao durante estes anos. `As agˆencias CAPES pela concess˜ao da bolsa de doutorado e CNPq pela bolsa DTI-1 para financiar os ´ultimos trˆes meses do desenvolvimento deste trabalho. Finalmente quero agradecer a minha fam´ılia pelo apoio que sempre me deu para continuar estudando.
Sum´ario xii
Lista de S´ımbolos e Abreviaturas xv
Lista de Figuras xix
Lista de Tabelas xxvii
1 Introdu¸c˜ao 1
2 Membrana celular e citoesqueleto 4
2.1 Estrutura celular . . . 4
2.2 Membrana celular . . . 6
2.2.1 Lip´ıdios da membrana . . . 10
2.2.2 Prote´ınas da membrana . . . 11
2.2.3 Dom´ınios da membrana: Rafts de lip´ıdios . . . 12
2.2.4 Tens˜ao da membrana . . . 14
2.2.5 Rigidez de flex˜ao e curvatura de membrana . . . 15
2.3 Citoesqueleto . . . 20
2.3.1 Estrutura do citoesqueleto . . . 20
2.3.2 Complexo membrana-citoesqueleto . . . 25
2.3.3 Polimeriza¸c˜ao de actina: forma¸c˜ao e dinˆamica dos microfilamentos . 27 2.3.4 Prote´ınas motoras do citoesqueleto . . . 28
2.4 Amarras de membrana em c´elulas . . . 32
2.4.1 Modelo da forma¸c˜ao de amarras de membrana . . . 34
2.5 Reologia do citoesqueleto . . . 37
2.5.1 Modelos da dinˆamica do citoesqueleto . . . 39
2.5.2 A c´elula como material mole . . . 42
3 Materiais e m´etodos 46 3.1 Pin¸cas ´oticas . . . 46
3.1.1 Pin¸cas ´oticas: Montagem experimental . . . 50
3.1.2 Calibra¸c˜ao da pin¸ca ´otica . . . 54
3.2 Cultura celular . . . 58
3.2.1 Tratamento com drogas . . . 60
3.3 Experimento de extra¸c˜ao de amarras . . . 62
3.3.1 Microscopia eletrˆonica de varredura: Medida do raio da amarra . . 63
3.3.2 Imunocitoqu´ımica e microscopia confocal . . . 64
3.4 Medidas do m´odulo viscoel´astico da c´elula . . . 65
3.4.1 Fun¸c˜ao geom´etrica . . . 69
4 Resultados 75 4.1 Calibra¸c˜ao da pin¸ca ´otica . . . 75
4.2 Extra¸c˜ao de amarras de Fibroblasto NIH3T3 . . . 77
4.3 Medida do m´odulo viscoel´astico do Fibroblasto NIH3T3 . . . 79
4.4 Fibroblasto NIH3T3 sob a¸c˜ao de drogas: Extra¸c˜ao de amarras e reologia . 84 4.4.1 Propriedades mecˆanicas do Fibroblasto NIH3T3 sob a¸c˜ao de drogas 88 4.4.2 Propriedades viscoel´asticas do Fibroblasto NIH3T3 sob a¸c˜ao de drogas 89 5 Discuss˜ao 93 5.1 Fibroblasto NIH3T3 controle . . . 93
Referˆencias Bibliogr´aficas 114
Lista de S´ımbolos e Abreviaturas.
a - Raio da microesfera de poliestireno
Aα - Fun¸c˜ao polinomial que define a fun¸c˜ao geom´etrica α ADP - Difosfato de adenosina
AF M - Microsc´opia de for¸ca atˆomica
Arp2/3 - Complexo de prote´ınas relacionado `a actina AT P - Trifosfato de adenosina
Bα - Fun¸c˜ao polinomial que define a fun¸c˜ao geom´etrica α BBI - Blebistatina
BLEB - Bolhas de membrana plasm´atica BSA - Albumina do soro bovino
C - Cuvatura espontˆanea ativa da membrana plasm´atica C1, C2 - Curvaturas principais da membrana
C0 - Curvatura espontˆanea da membrana CitoD - Citocalasina D
CW - Modo Cont´ınuo do laser DN A - ´Acido desoxirribonucleico
DM SO - Crioprotetor (Dimetilsulf´oxido)
DM EM −F12 - Meio espec´ıfico utilizado para cultura de c´elulas (Dulbecco’s Modified Eagle Medium/Nutrient Mixture F-12)
E - M´odulo de Young
E0 - M´odulo el´astico da c´elula no modelo Kelvin-Voigt
Ei - Energia dos po¸cos de potencial no modelo de materiais moles E↔ - Polariza¸c˜ao linear do laser horizontal `a mesa de trabalho El - Polariza¸c˜ao linear do laser perpendicular `a mesa de trabalho
g - M´odulo viscoel´astico no dom´ınio temporal G - Curvatura Gaussiana da membrana
G(f) - M´odulo viscoel´astico no dom´ınio de frequˆencias G′(f) - M´odulo el´astico no dom´ınio de frequˆencias G′′(f) - M´odulo viscoso no dom´ınio de frequˆencias
G0 - Rigidez da c´elula como parˆametro de escala da equa¸c˜ao de amortecimento estrutural GKV - M´odulo viscoel´astico do modelo Kelvin-Voigt
GU V - Ves´ıculas unilamelares gigantes h - Altura
H - Energia de Helfrich-Canham hu - Altura da c´elula sob a microesfera JP K - Jasplakinolida
Kc - Constante el´astica aparente da c´elula Kc∗ - Rigidez complexa da c´elula
L - Comprimento da amarra
LP O - Laborat´orio de Pin¸cas ´Oticas M T C - Citometria de tor¸c˜ao magn´etica N A - Abertura Num´erica da objetiva nar - ´Indice de refra¸c˜ao do ar
nesf - ´Indice de refra¸c˜ao da microesfera
nmeio - ´Indice de refra¸c˜ao do meio em que est´a imersa a microesfera
N IH3T3 - Linhagem de c´elulas de fibroblastos p - Press˜ao dentro da ves´ıcula
P AK/LIM - Quinase que se liga a actina no processo de polimeriza¸c˜ao
P BS−EDT A - Tamp˜ao fosfato salino com ´acido etilenodiamino tetra-ac´etico P IP2 - Fosfatidilinositol-4,5-bisfosfato
P M V - Ves´ıculas de membrana plasm´atica R - Raio da amarra
R0 - Raio da amarra referente a ves´ıcula Raf t - Balsa lip´ıdica
RAs - Prote´ına RAt Sarcoma v´ırus RN A - ´Acido ribonucleico
Rp - Raio que define a ´area de ades˜ao entre a microesfera e a c´elula SBF - Soro bovino fetal
SGR - Soft Glass Rheology - Reologia de materias moles Src - Prote´ına tirosina quinase
V - Volume da ves´ıcula
W asp/Sar - Prote´ınas que promovem a polimeriza¸c˜ao de actina W - Energia de ades˜ao da membrana plasm´atica com o citoesqueleto α(θ, hu, a) - Fun¸c˜ao geom´etrica que relaciona Kc com G
β - Expoente da lei de potˆencia βS - Coeficiente de Stokes Γ - Fun¸c˜ao Gamma
∆A - Diferen¸ca de ´area entre as camadas da membrana
∆ρ(t) - Deslocamento da microesfera de sua posi¸c˜ao de equil´ıbrio η - Viscosidade do meio
θ - ˆAngulo que define a ´area de contato entre a microesfera e a c´elula κ - Rigidez de flex˜ao da membrana
σef - Tens˜ao superficial efetiva da membrana plasm´atica
˜
σ - Tens˜ao mecˆanica na membrana σ - Tens˜ao superficial da membrana τi - Tempo caracter´ıstico
φ - ˆAngulo de fase entre a componente el´astica e a componente viscosa da c´elula
Lista de Figuras
2.1 Partes principais da estrutura de uma c´elula eucari´otica. . . . 6 2.2 Diagrama simplificado da estrutura qu´ımica de um fosfolip´ıdio, unidade b´asica da mem-
brana plasm´atica caracterizado por sua cabe¸ca hidrof´ılica e sua cauda hidrof´obica. . . . 8 2.3 Diagrama simplificado da membrana plasm´atica segundo a descri¸c˜ao do modelo de mo-
saico fluido definida por um arranjo de mol´eculas de l´ıpidios e prote´ınas. . . . 9 2.4 Figura representativa dos Rafts e da Caveola. a) Actina em forma de filamentos e
monˆomeros e tubulina em forma de d´ımeros est˜ao associadas com o raft e com a ca- veola. b) A desestrutura¸c˜ao dos filamentos de actina e dos microt´ubulos causa uma reorganiza¸c˜ao das prote´ınas que fazem parte doraft [27]. . . . 13 2.5 (a) Para descrever a flex˜ao da membrana usa-se o conceito geom´etrico de circunferˆencia
osculatriz. Circunferˆencia cujo centro se encontra sobre a normal `a curva e tem a mesma curvatura que a curva dada nesse ponto. O raio desta circunferˆencia (r1,r2) ´e chamado raio de curvatura, ´e o inverso da magnitude da curvatura. (b) Cria¸c˜ao dos momentos de flex˜ao intr´ınsicos causados por um gradiente na press˜ao lateral π(z) ao longo da espessura da bicamada. A curvatura espontˆanea ´e determinada pela a¸c˜ao rec´ıproca do gradiente de press˜ao entre a regi˜ao da cauda e a regi˜ao da cabe¸ca dos fosfolip´ıdios. (c) Para dobrar ou flexionar uma membrana uma tens˜ao positivaT+ tem que ser aplicada numa das camadas, e uma tens˜ao negativa T− na outra, resultando num momento de flex˜aoM =D(T+−T−), onde D ´e espessura da membrana. Figura (a) modificada de [38] e figuras (b) e (c) de [39]. . . . 15
ser¸c˜ao assim´etrica de prote´ınas [48]. . . . 19 2.7 Imagem da estrutura do microt´ubulo: o microt´ubulo possui uma estrutura cil´ındrica
constru´ıda a partir de 13 protofilamentos paralelos, cada um composto de mol´eculas alternadas deαeβ-tubulina, imagem modificada de [57].. . . 21 2.8 a) Actina globular ligada a ATP (azul) associa-se espontaneamente para formar fila-
mentos definidos por um extremo de crescimento r´apido + (actina ligada a ATP - azul) e um extremo lento - (actina ligada a ADP - vermelho). Toxinas como a citocalasina D (isoladas de esponjas marinhas) possuem afinidade para se ligar a actina no extremo +, evitando assim a adi¸c˜ao de mais monˆomeros e induzindo despolimeriza¸c˜ao. Existe uma variedade de prote´ınas que ligam-se a actina influenciando a organiza¸c˜ao e estrutura do citoesqueleto, por exemplo b) α-actinina promove o arranjo em feixes de actina e c) fi- lamina promove estruturas em rede. a) Outras como a profilina promove polimeriza¸c˜ao, a cofilina favorece a despolimeriza¸c˜ao e a gelsolina o encurtamento do filamento [59]. d) Imagem da rede de filamentos que formam o citoesqueleto de actina de queratin´ocitos [52]. . . . 24 2.9 a) Imagem da arquitetura do c´ortex de c´elulas da art´eria pulmonar bovina (BPAECs)
mapeada por AFM em [62]. b) Organiza¸c˜ao molecular de ades˜oes entre o citoesqueleto e a membrana em c´elulas de m´usculo liso. Os filamentos de actina ligam-se a diversas prote´ınas via liga¸c˜oes cruzadas atrav´es de integrinas. HSP (heat shock protein), ILK (in- tegrin linked kinase), FAK (focal adhesion kinase), N-WASp (neuronal Wiskott-Aldrich syndrome protein) [61]. . . . 26
2.10 Modelo de nuclea¸c˜ao dendr´ıtica: esquema do modelo que descreve o mecanismo mole- cular que controla a dinˆamica dos filamentos de actina [69]. . . . 29 2.11 a) Estrutura da mol´ecula de miosina II. b) Mecanismos de contra¸c˜ao muscular. c) Ciclo
contr´atil da actomiosina. Figura modificada de [70]. . . . 32 2.12 Forma¸c˜ao inicial de uma amarra a partir de uma membrana considerada localmente
plana. A curva da for¸ca requerida para formar o tubo em fun¸c˜ao do comprimentoLe o raio do tuboR0[85]. . . . 36 2.13 a) A rede de citoesqueleto modelada como um arranjo infinito de elementos unit´arios
representados pelo ´ındicei. b) cada elemento se comporta como um circuito de Kelvin- Voigt com um tempo de resposta caracter´ısticoτi, figura modificada de [98] . . . . 40 2.14 Esquema representativo dos po¸cos de potencial que definem a matriz de elementos do
modelo de materiais moles. Os elementos presos nos po¸cos de energiaEipodem escapar causando um rearranjo da rede. Se o elemento entra dentro de um outro po¸co fora da posi¸c˜ao de equilibrio, uma for¸ca ´e gerada permitindo um deslizamento do elemento que eventualmente se direciona `a posi¸c˜ao de equilibro do po¸co [102]. . . . 43
3.1 For¸cas ´oticas sobre uma microesfera na aproxima¸c˜ao da ´otica geom´etrica. A luz do laser incide na objetiva de grande aumento com abertura num´erica definida porN A= nsinθmax, onden´e o ´ındice de refra¸c˜ao do meio que est´a em contato com a objetiva.
A lente da objetiva focaliza a luz sobre uma microesfera. A microesfera com ´ındice de refra¸c˜ao nesf est´a imersa num meio com ´ındice nmeio, de forma que nesf > nmeio. A intera¸c˜ao dos raios de luz focalizados na microesfera gera uma for¸caFref lex˜ao resultado da reflex˜ao dos raios sobre a superf´ıcie, esta for¸ca afasta a microesfera da regi˜ao do foco.
Uma outra for¸ca Fref rac˜ao ´e originada da refra¸c˜ao dos raios de luz ao se propagarem dentro da microesfera gerando uma for¸ca restauradora que puxa a microesfera para a regi˜ao do foco luminoso. . . . 49
3.3 a) Esquema do microsc´opio invertido usado na montagem experimental: 1) ocular, 2) condensador que ilumina a amostra, 3) cˆamara com controle de temperatura e CO2, 4) est´agio m´ovel, 5) espelho dicr´oico para direcionar o laser na entrada da objetiva, 6) laser colimado. b) A cˆamara 3) est´a montada sobre o est´agio m´ovel 4), o qual ´e controlado por um sistema de posicionamento piezoel´etrico nas dire¸c˜oes x,y e z. Dentro da cˆamara
´e colocada a placa de cultura celular contendo microesferas de poliestireno, de tal forma que o fundo de vidro da placa de cultura fica em contato com a objetiva atrav´es do ´oleo de imers˜ao. A pin¸ca ´otica formada pelo laser ao ser focalizado pela objetiva sobre uma microesfera interage com as c´elulas que est˜ao aderidas no fundo da placa de cultura. . . 53 3.4 Laborat´orio de Pin¸cas ´Oticas da COPEA/UFRJ. . . . 54 3.5 Figura representativa da amostra usada para calibrar a pin¸ca ´otica. A luz do laser
representada pelo perfil do feixe em vermelho, entra pela parte inferior da amostra para aprisionar uma microesfera de poliestireno. A pin¸ca ´e mantida fixa enquanto o meio l´ıquido de viscosidadeηpassa pela microesfera. A for¸ca de arrastoFa´e equilibrada pela for¸ca da pin¸ca ´oticaFp. . . . 56 3.6 A linhagem NIH3T3 foi descongelada e mantida em cultura celular dentro de uma estufa
com temperatura e concentra¸c˜ao deCO2controladas. A partir da passagenP4 at´eP15
as c´elulas podem ser usadas para os experimentos. 24 horas antes de cada experimento, as c´elulas s˜ao contadas usando uma cˆamara de Neubauer e plaquedas em placas petri especialmente adaptadas para seu uso nas pin¸cas do LPO. As placas petri foram furadas na sua base onde foi grudada uma lam´ınula de vidro devidamente limpa. A lam´ınula de vidro define a regi˜ao de uso da pin¸ca ´otica. . . . 60
3.7 Representa¸c˜ao esquem´atica do processo de extra¸c˜ao de amarra. (a) Condi¸c˜ao inicial de equil´ıbrio. (b) Mudan¸ca da posi¸c˜ao de equilibrio devido ao deslocamento da platina e
`
a ades˜ao da microesfera na membrana celular. (c) Imagem fluorescˆencia das amarras extra´ıdas com a pin¸ca, indicando a presen¸ca de actina nas mesmas. Imagens extra´ıdas de [83]. . . . 64 3.8 Esquema representativo do experimento de reologia. Uma microesfera ´e colocada em
contato com a superf´ıcie da c´elula e mantida na pin¸ca ´otica. Um movimento oscilante de amplitude ξ0 ´e induzido no est´agio do microsc´opio. O parˆametro x quantifica a deforma¸c˜ao sofrida pela c´elula eρa posi¸c˜ao da microesfera na pin¸ca ´otica. . . . 68 3.9 a) Imagem de microscopia eletrˆonica de varredura mostrando a ades˜ao da microesfera
de poliestireno com a superf´ıcie de um fibroblasto NIH3T3 tomada da referˆencia [83]. b) Imagem de [117] para determinar α(θ, a, hu). A geometria da c´elula ´e modelada como um paralelep´ıpedo de dimens˜oeslxlxhem contato com uma microesfera. Os parˆametros que influenciam fortemente a resposta celular s˜ao a alturahu, o raio da microesferaae o grau de imers˜ao dela dentro da c´elula definido pelo ˆangulo 2θ. c) Mapa da distribui¸c˜ao da deforma¸c˜ao efetiva da c´elula na vizinhan¸ca da ´area de contato entre a microesfera e a c´elula para um dos casos particulares estudados em [117], ondeθ = 65o,a= 2.5µm, l = 20a, for¸ca aplicada de 50pN em c´elulas de alturas diferentes, 6.5µm e h = 2µm mostradas em a) e b), respectivamente. . . . 71 3.10 Esquema do m´etodo utilizado para medir a altura do fibroblasto NIH3T3. . . . 74 4.1 Posi¸c˜ao do centro de massa da microesfera presa na pin¸ca quando s˜ao aplicados trˆes
conjuntos de deslocamentos diferentes. O primeiro deles representa a resposta da micro- esfera aprisionada na pin¸ca quando s˜ao aplicados deslocamentos laterais com diferentes velocidades. O segundo representa a posi¸c˜ao da microesfera quando s˜ao aplicados des- locamentos senoidais de frequˆencias diferentes e o ´ultimo quando s˜ao aplicados desloca- mentos com onda triangular de frequˆencias diferentes. . . . 75
fibroblasto NIH3T3 em condi¸c˜ao controle. . . . 77
4.4 Medida do m´odulo viscoel´astico da c´elula. Exemplo das oscila¸c˜oes induzidas na c´elula para caracterizar suas propriedades viscoel´asticas. Um movimento senoidal formado por um conjunto de oscila¸c˜oes de amplitude constante para cada uma das frequˆencias
´e aplicado na c´elula. Uma microesfera de poliestireno, previamente aderida sobre a lam´ınula em uma regi˜ao fora da c´elula mas pr´oxima dela, ´e usada como referˆencia do movimento real da amostra. Um outra microesfera presa na pin¸ca ´otica ´e aderida sobre a c´elula. Antes de terminar a medida, o laser ´e desligado para verificar que a aderˆencia das microesferas foi mantida durante todo o experimento. O movimento simultˆaneo de ambas as microesferas ´e gravado e comparado para obter o valor dos m´odulosG′ eG′′
do fibroblasto estudado. . . . 80
4.5 M´odulo viscoel´asticoG=G′+iG′′ em fun¸c˜ao da amplitude de oscila¸c˜ao de uma onda senoidal de frequˆencia 1Hz. No intervalo de amplitudes de oscila¸c˜ao correspondente a [0.5,1.5], o valor deGn˜ao varia significativamente. . . . 80
4.6 Medida da altura dos fibroblastos NIH3T3. O est´agio do microsc´opio ´e deslocado com velocidade conhecida vz na dire¸c˜ao z para fazer uma varredura das imagens das mi- croesferas utilizadas para realizar o experimento de reologia. A microesfera aderida na lam´ınula (direita) funciona como referˆencia para comparar o n´ıvel de cinza central da outra microesfera aderida sobre a superf´ıcie da c´elula (esquerda). . . . 81
4.7 M´odulo el´asticoG′(P a)(•) e m´odulo viscosoG′′(P a)() do fibroblasto NIH3T3 controle.
O comportamento deG′ eG′′em fun¸c˜ao da frequˆenciaf(Hz) segue uma lei de potˆencia que cresce com expoenteβ= 0.22±0.03. A lei de potˆencia est´a representada pelas linhas s´olidas que ajustam o m´odulo viscoel´astico da c´elula. O ajuste dos dados experimentais com a lei de potˆencia para esta situa¸c˜ao ´e dado usando como parˆametros de ajuste G0= (53±4)P a,µ= (1.1±0.4)P a·sef0= 1Hz. . . . 83
4.8 Fibroblastos controle NIH3T3 e fibroblastos tratados com diferentes concentra¸c˜oes de ci- tocalasina D. a) Imagens de imunocitoqu´ımica mostram as c´elulas NIH3T3 com marca¸c˜ao para faloidina-FITC em microscopia confocal para cada uma das concentra¸c˜oes usadas para esta droga [120]. b) Valores m´edios da for¸ca para forma¸c˜ao da amarraF0 ±erro padr˜ao obtidas de pelo menos 20 c´elulas diferentes para cada concentra¸c˜ao de citocala- sina D usada. c) Resposta viscoel´astica do fibroblasto para v´arias frequˆencias, descrita por uma lei de potˆencia com expoenteβ: Fibroblasto controle (), 2.5µM(◦) e 5µM(•) de Citocalasina D. . . . 85
4.9 Fibroblastos NIH3T3 controle e tratados com diferentes concentra¸c˜oes de blebista- tina. a) Imagens de imunocitoqu´ımica mostram as c´elulas NIH3T3 com marca¸c˜ao para faloidina-FITC em microscopia confocal para cada uma das concentra¸c˜oes usadas para blebistatina [120]. b) Valores m´edios da for¸ca para forma¸c˜ao da amarraF ±erro padr˜ao obtidos de pelo menos 20 c´elulas diferentes para cada concentra¸c˜ao de blebistatina usada.
c) Resposta viscoel´astica do fibroblasto para v´arias frequˆencias, descrita por uma lei de potˆencia com expoenteβ: Fibroblasto controle (), 5µM() e 10µM() de blebistatina. 86
por uma lei de potˆencia com expoenteβ: Fibroblasto controle (), 25nM(△) e 50nM(N) de jasplakinolida. . . . 87 4.11 Modelo viscoel´astico de Kelvin-Voigt para caracterizar o comportamento viscoel´astico
do Fibroblasto NIH3T3 para frequˆencia 1Hz. . . . 91 4.12 Parˆametros obtidos da representa¸c˜ao do comportamento viscoel´astico da c´elula usando
o modelo de Kelvin-Voigt. Este modelo permite caracterizar a resposta da c´elula para frequˆencias baixas, neste caso paraf = 1Hz. . . . 92
Lista de Tabelas
4.1 C´alculo da fun¸c˜ao geom´etricaα(θ, a, hu). Da combina¸c˜ao dos valores obtidos de extra¸c˜ao de amarras para a for¸ca m´axima Fmax e da medida da altura das c´elulashu, define-se o fator geom´etrico que relaciona a resposta aparente da c´elula, medida diretamente do experimento de reologia, com seu m´odulo viscoel´astico. . . . 82 4.2 Tabela com resultados da extra¸c˜ao de amarras para fibroblasto NIH3T3. . . . 89 4.3 Tabela com resultados de reologia. . . . 90 5.1 Tabela com valores de curvatura espontˆanea C e de energia de liga¸c˜ao membrana-
citoesqueleto W e para a tens˜ao mecˆanica ˜σ do fibroblasto NIH3T3, determinados a partir da energia livre de Helfrich-Canham com a adi¸c˜ao de parˆametros fenomenol´ogicos paraC eW. . . . 110
Introdu¸c˜ ao
As c´elulas representam sistemas altamente complexos e dinˆamicos. O interesse em estu- dar suas propriedades mecˆanicas tem por objetivo poder relacion´a-las com suas fun¸c˜oes biol´ogicas, pois diferentemente dos materias inertes, na c´elula a aplica¸c˜ao de um est´ımulo mecˆanico se traduz em uma resposta biol´ogica.
A c´elula possui a capacidade de interpretar est´ımulos mecˆanicos do exterior e trans- form´a-los em sinaliza¸c˜oes bioqu´ımicas, como a ativa¸c˜ao de canais iˆonicos na membrana que se abrem em resposta a uma tens˜ao permitindo a entrada de c´alcio e outros ´ıons [1].
As fun¸c˜oes biol´ogicas que as c´elulas individuais desempenham por sua vez s˜ao traduzidas na capacidade de tecidos como a pele de sentir mudan¸cas de temperatura, a capacidade do sistema vascular de regular o fluxo sangu´ıneo ou a do sistema muscular de responder a tens˜oes mecˆanicas [2].
As propriedades mecˆanicas da c´elula s˜ao reguladas principalmente pela sua estrutura interna, em especial, pela rede de actina que forma o citoesqueleto acoplada `a membrana plasm´astica. Ambas estruturas s˜ao altamente heterogˆeneas e dinˆamicas e as propriedades mecˆanicas da c´elula dependem fortemente de seu acoplamento.
Diversas t´ecnicas de micromanipula¸c˜ao tem sido utilizadas para explorar a resposta mecˆanica de c´elulas a tens˜oes aplicadas sobre elas [3]. A extra¸c˜ao de amarras de mem- brana ´e uma t´ecnica que possibilita a forma¸c˜ao de um fino tubo a partir da membrana plasm´atica. Atrav´es do estudo da forma¸c˜ao deste tubo ´e poss´ıvel caracterizar propriedades
mecˆanicas como a tens˜ao superficial e rigidez de flex˜ao da membrana plasm´atica acoplada ao citoesqueleto. Por outro lado, a t´ecnica de reologia revela a resistˆencia dinˆamica da c´elula a ser deformada por um est´ımulo externo de frequˆencia dada. Esta t´ecnica permite a medida do m´odulo el´astico e do m´odulo viscoso da c´elula. O acoplamento destas duas propriedades descreve a natureza viscoel´astica do citoesqueleto.
Como objetivo geral desta tese propomos:
Estudar as propriedades mecˆanicas de fibroblastos NIH3T3, atrav´es do uso de duas t´ecnicas: a extra¸c˜ao de amarras de membrana e a reologia, que permitem caracterizar a resposta mecˆanica e viscoel´astica da c´elula a diferentes est´ımulos externos.
Como objetivos espec´ıficos destacamos:
- Utilizar a t´ecnica experimental de extra¸c˜ao de amarras e microscopia eletrˆonica de varredura para medir as propriedades mecˆanicas de fibroblastos NIH3T3 em condi¸c˜oes de cultura.
- Estabelecer no Laborat´orio de Pin¸cas ´Oticas LPO da UFRJ a t´ecnica experimental de reologia para medir as propriedades viscoel´asticas de fibroblastos NIH3T3 em condi¸c˜oes de cultura.
- Usar a t´ecnica de microscopia confocal para descrever qualitativamente o efeito em fibroblastos NIH3T3 de drogas que interferem na dinˆamica do citoesqueleto.
- Com a finalidade de entender a participa¸c˜ao mecˆanica do citoesqueleto na defini¸c˜ao destas propriedades, utilizar a t´ecnica de extra¸c˜ao de amarras para investigar as propri- edades mecˆanicas dos fibroblastos NIH3T3 quando s˜ao submetidos a tratamentos com essas drogas.
- Uma vez estabelecida a t´ecnica de reologia, investigar as propriedades viscoel´asticas dos fibroblastos NIH3T3 quando s˜ao submetidos a tratamentos com as mesmas drogas.
- A partir dos resultados obtidos por ambas as t´ecnicas, identificar as propriedades mecˆanicas associadas `a membrana plasm´atica quando a mesma est´a desacoplada do ci- toesqueleto. Da mesma forma, identificar a mudan¸ca dessas propriedades mecˆanicas em
plasm´atica e o citoesqueleto. Neste cap´ıtulo tamb´em ´e apresentada a descri¸c˜ao f´ısica do modelo que explica a forma¸c˜ao de amarras de membrana, abordada pela energia livre de Helfrich-Canham. No final do cap´ıtulo s˜ao discutidos os conceitos f´ısicos da teoria de materiais moles e sua rela¸c˜ao com as propriedades viscoel´asticas das c´elulas.
No cap´ıtulo 3 apresentamos os materiais e m´etodos utilizados. Detalhes das metodo- logias usadas na aplica¸c˜ao da t´ecnica de extra¸c˜ao de amarras e de reologia s˜ao discutidos.
No cap´ıtulo 4 s˜ao apresentados os resultados obtidos da aplica¸c˜ao de ambas as t´ecnicas ao fibroblasto NIH3T3. Primeiramente s˜ao apresentados os valores medidos das proprieda- des mecˆanicas e viscoel´asticas para a condi¸c˜ao controle, quando o fibroblasto encontra-se em um estado inalterado e em seguida s˜ao apresentados os resultados para cada uma das condi¸c˜oes de tratamento com as drogas utilizadas.
No cap´ıtulo 5 s˜ao discutidos os resultados apresentados no cap´ıtulo anterior. A dis- cuss˜ao dos valores obtidos para a rigidez de flex˜ao em todas as condi¸c˜oes estudadas leva
`a apresenta¸c˜ao de uma extens˜ao do modelo de energia livre de Helfrich-Canham para descrever a mecˆanica do tubo extra´ıdo da membrana plasm´atica de c´elulas. Nesse mo- delo s˜ao adicionados dois termos fenomenol´ogicos que representam parˆametros mecˆanicos associados ao acoplamento entre a membrana plasm´atica e o citoesqueleto.
Finalmente, no cap´ıtulo 6 apresentamos as conclus˜oes do trabalho.
Cap´ıtulo 2
Membrana celular e citoesqueleto
2.1 Estrutura celular
A c´elula ´e a unidade b´asica de todo ser vivo. De acordo com sua estrutura, as c´elulas animais podem ser classificadas em dois tipos: as eucari´oticas e as procari´oticas. As pro- cari´oticas s˜ao c´elulas estruturalmente mais simples, podem ser encontradas em bact´erias e carecem de um n´ucleo verdadeiro. As c´elulas procari´oticas vivas atualmente s˜ao simi- lares `as encontradas em f´osseis que datam de mais de 3.5 bilh˜oes de anos. Acredita-se que por mais de 2 bilh˜oes de anos os procariontes eram os ´unicos seres vivos existentes, antes da apari¸c˜ao das primeiras c´elulas eucari´oticas [4], [5]. Atualmente todos os ou- tros tipos de organismos que n˜ao s˜ao bact´erias: protistas, fungos, plantas e animais s˜ao formados por c´elulas eucari´oticas muito mais complexas internamente. Ambos tipos de c´elulas possuem uma regi˜ao nuclear que cont´em o material gen´etico rodeada por um meio fluido chamado citoplasma. No caso das procari´oticas o material gen´etico encontra-se no nucle´oide, que ´e uma regi˜ao que carece de membrana limitante para separ´a-la do cito- plasma. A c´elula eucari´otica possui um n´ucleo bem definido limitado por uma estrutura membranosa complexa denominada membrana nuclear. Esta diferen¸ca na estrutra ´e a origem dos nomes dados aos dois tipos fundamentais de c´elulas: procari´oticas (pro, antes;
carion, n´ucleo) e eucari´otica (eu, verdadeiro;carion, n´ucleo). Neste trabalho foram usadas c´elulas animais, portanto descreveremos apenas a estrutura das c´elulas eucari´oticas. De
citoplasma em compartimentos, dentro dos quais s˜ao realizadas atividades bioqu´ımicas altamente especializadas. Estas membranas tamb´em formam um sistema de condutos e ves´ıculas interligadas cuja fun¸c˜ao ´e transportar substˆancias para o interior e o exterior da c´elula. O citoplasma ´e o espa¸co no interior da c´elula entre a membrana plasm´atica e o envolt´orio nuclear formado por diversas estruturas. Estas estruturas, por sua vez, contˆem organelas recobertas por membranas cuja natureza ´e a mesma da membrana plasm´atica exterior. Por exemplo: as mitocˆondrias, onde encontra-se dispon´ıvel a energia qu´ımica que a c´elula precisa para realizar suas fun¸c˜oes; o ret´ıculo endoplasm´atico, onde ´e gerada a maior parte dos lip´ıdios e prote´ınas; o complexo de Golgi, onde os materiais s˜ao clas- sificados, modificados e enviados a um destino espec´ıfico da c´elula. No interior da c´elula tamb´em s˜ao encontradas diversas estruturas que carecem de membrana. Neste grupo est˜ao inclu´ıdos os microt´ubulos e os diversos filamentos prot´eicos que formam uma rede dinˆamica no interior da c´elula, o citoesqueleto. Esta estrutura filamentosa participa ati- vamente dos movimentos celulares, al´em de dar suporte estrutural `a c´elula. Um outro elemento encontrado no citoplasma s˜ao os ribossomos: complexos macromoleculares que participam da montagem de prote´ınas. O n´ucleo celular ´e a estrutura que controla as atividades qu´ımicas da c´elula. Al´em de estar delimitado por uma membrana plasm´atica, o n´ucleo celular armazena a maior parte do material gen´etico, o qual ´e respons´avel de prover `a c´elula suas caracter´ısticas ´unicas. Este material ´e constitu´ıdo pelo DNA e os componentes necess´arios para a transcri¸c˜ao e processamento do RNA.
Neste trabalho foram estudadas propriedades da c´elula relacionadas principalmente
Figura 2.1: Partes principais da estrutura de uma c´elula eucari´otica.
com a membrana plasm´atica e o citoesqueleto. A seguir descrevemos com mais detalhes estas duas estruturas.
2.2 Membrana celular
As membranas s˜ao estruturas que estabelecem o limite espacial da c´elula, separando o conte´udo celular do ambiente externo. S˜ao estruturas complexas que funcionam como barreiras seletivas, permitindo a passagem de compostos moleculares para o interior da c´elula e deixando outros sa´ırem. Estas estruturas s˜ao suficientemente est´aveis para su- portar as hostilidades do meio externo. Mas, ao mesmo tempo apresentam carater´ısticas dinˆamicas que permitem `a c´elula levar a cabo processos como crescimento, divis˜ao e mu- dan¸cas de morfologia. O interesse por esses tipos de estrutura data do s´eculo XIX, quando come¸cou-se a investigar a intera¸c˜ao do ´oleo com ´agua. Uma aten¸c˜ao especial para o caso da membrana celular foi dada por volta de 1899 [6]. A partir de ent˜ao, apareceram os primeiros modelos tentando explicar como e por que as mol´eculas de ´oleo podiam se orientar na ´agua [7]. Nesta ´epoca tamb´em apareceram os primeiros experimentos que come¸caram a detectar caracter´ısticas estruturais como a fluidez da membrana celular [8].
A principal unidade estrutural da membrana plasm´atica s˜ao os fosfoglicer´ıdeos, mol´eculas lip´ıdicas pertencentes ao grupo dos fosfolip´ıdios. S˜ao mol´eculas compostas por glicerol, um grupo fosfato e duas cadeias de ´acidos graxos. Numa mol´ecula individual podemos distinguir um extremo hidrof´obico, composto pelas cadeias de ´acidos graxos e um extremo hidrof´ılico, constitu´ıdo pelo grupo fosfato, como ilustrado na figura 2.2. Esta caracter´ıstica peculiar da sua estrutura, permite aos fosfolip´ıdios num meio aquoso, organizarem-se lado a lado, expondo sua parte hidrof´ılica em contato com a ´agua e escondendo seu lado hi- drof´obico, formando assim bicamadas est´aveis de forma espontˆanea.
O fato de que a membrana celular tenha como unidade fundamental os fosfolip´ıdios possui vantagens energ´eticas e estruturais n˜ao somente do ponto de vista biol´ogico, mas tamb´em f´ısico. Devido a sua natureza hidrof´obica, os fosfolip´ıdeos conseguem se associar em ´agua a partir de concentra¸c˜oes muito baixas, apresentando propriedades el´asticas
´
unicas. Os fosfolip´ıdios formam estruturas que possuem uma baixa rigidez de flex˜ao e uma tens˜ao lateral interna muito alta. S˜ao capazes de criar momentos de flex˜ao intr´ınsecos por meio da introdu¸c˜ao de assimetrias. Devido a isto, as bicamadas exibem fortes efeitos de auto reestrutura¸c˜ao quando sofrem uma desmontagem na sua estrutura. Elas apresentam uma alta estabilidade ao se associarem devido `a for¸ca hidrof´obica [10], para minimizar seu contato com a ´agua [11]. Estas propriedades f´ısicas intr´ınsecas da sua natureza ser˜ao tratadas com mais detalhes nos cap´ıtulos posteriores, pois est˜ao relacionadas com um dos objetivos de estudo deste trabalho. A seguir descrevemos o modelo de mosaico fluido proposto por Singer e Nicolson.
Figura 2.2: Diagrama simplificado da estrutura qu´ımica de um fosfolip´ıdio, unidade b´asica da membrana plasm´atica caracterizado por sua cabe¸ca hidrof´ılica e sua cauda hidrof´obica.
• Modelo do mosaico fluido
A estrutura e disposi¸c˜ao dos componentes da membrana no modelo de mosaico fluido s˜ao notavelmente diferentes das propostas por modelos anteriores. Segundo este modelo, a membrana ´e formada por uma bicamada de fosfolip´ıdios que possui v´arias mol´eculas pro- teicas dispersas aleatoriamente formando um mosaico de part´ıculas como o esquematizado na figura 2.3. Estas part´ıculas penetram profundamente no interior da bicamada, algu- mas delas atravessando-a completamente. A caracter´ıstica fluida deste modelo ´e assim chamada por considerar a membrana celular como uma estrutura dinˆamica com compo- nentes m´oveis e com capacidade de se agruparem e participarem ativamente dos processos biol´ogicos. Dentre os componentes da membrana celular, os lip´ıdios formam quase a me- tade da massa da membrana. Tamb´em podemos encontrar os glicolip´ıdios, o colesterol e as prote´ınas. Os glicolip´ıdios s˜ao encontrados exclusivamente na camada externa da membrana, com seu grupo de carbohidrato exposto na superf´ıcie como mostrado na fi- gura 2.3. Eles formam cerca de 2% dos lip´ıdios de membrana. O colesterol constitui a maior parte da membrana, estando presente nela quase na mesma quantidade que os fos- folip´ıdios. Hoje se sabe que o colesterol participa da regula¸c˜ao da rigidez de membranas
Figura 2.3: Diagrama simplificado da membrana plasm´atica segundo a descri¸c˜ao do modelo de mosaico fluido definida por um arranjo de mol´eculas de l´ıpidios e prote´ınas.
O modelo de Singer e Nicolson prevˆe uma liberdade rotacional e translacional, assim como uma distribui¸c˜ao aleat´oria dos seus componentes moleculares. Por´em, hoje ´e sabido que essa liberdade de mobilidade das prote´ınas e l´ıpidios est´a longe de ser considerada uma mobilidade sem restri¸c˜oes. O descobrimento do co-nivelamento (co-capping) forneceu um dos primeiros ind´ıcios da distruibui¸c˜ao das prote´ınas com car´ater n˜ao aleat´orio [15].
A difus˜ao das prote´ınas na membrana, como descrito no modelo de mosaico fluido perdeu for¸ca com o surgimento da evidˆencia da constru¸c˜ao hier´arquica de complexos proteicos [16]. O descobrimento da existˆencia de associa¸c˜oes est´aveis de l´ıpidios e colesterol, os chamadosrafts, cuja fluidez ´e muito menor que `a da membrana, tamb´em veio a contradizer
o modelo de 1972 [17].
2.2.1 Lip´ıdios da membrana
Todos os tipos de l´ıpidios da membrana s˜ao de natureza anfip´atica, apresentam uma regi˜ao hidrof´ılica e uma regi˜ao hidrof´obica. A maioria deles possuem um grupo fosfato, algumas exe¸c˜oes s˜ao os glicolip´ıdios e o colesterol. Quase todos os fosfolip´ıdios possuem um esqueleto glicerol, como o exemplo mostrado na figura 2.2 que representa a estru- tura da colina. Dois dos grupos hidroxila do glicerol se esterificam para formar ´acidos graxos (caudas hidrof´obicas); um terceiro grupo do glicerol se esterifica para formar um grupo fosfato. Um grupo adicional, a colina se une ao fosfato definindo a estrutura da fosfatidilcolina. Em geral, dependendo do grupo adicionado ao fosfato, podem se formar fosfatidiletanolamina, fosfatidilserina, esfingomielina, fosfatidilinositol, entre outros. Es- tes diversos grupos que se unem ao fosfato formam o dom´ınio identificado como cabe¸ca hidrof´ılica. Por outro lado, as cadeias de ´acidos graxos, longas e n˜ao ramificadas, forma- das por cadeias hidrocarbonadas que possuem natureza hidrof´obica, formam a regi˜ao da cauda da estrutura. Outros compostos presentes na membrana, por´em menos abundan- tes, s˜ao os esfingolip´ıdios: lip´ıdios derivados de esfingosina unida a um ´acido graxo por meio de seu grupo amino, carentes de grupo fosfato. Dentre eles temos a esfingomielina e os glicolip´ıdios, ambos aparecem mais concentrados na camada externa, em localiza¸c˜oes assim´etricas. Os primeiros s˜ao assinalados como participantes na regula¸c˜ao da distri- bui¸c˜ao do colesterol, outra importante mol´ecula da membrana [13]. Os glicol´ıpidios est˜ao relacionados com mecanismos de reconhecimento celular [14].
Outro componente importante das membranas ´e o colesterol, que diferentemente dos demais lip´ıdios, ´e menos anfip´atico. Encontra-se inserido na bicamada com seus grupos hidroxilas alinhados pr´oximos `as cabe¸cas dos fosfolip´ıdeos. O colesterol est´a relacionado com a funcionalidade das prote´ınas, pois tem se mostrado que mudan¸cas nos n´ıveis de co- lesterol na membrana altera as fun¸c˜oes das prote´ınas [18], [19]. Ele tamb´em ´e respons´avel
Enquanto os lip´ıdios definem a estrutura da membrana, diversos tipos de prote´ınas est˜ao inseridas assimetricamente nela, de modo que, de acordo com sua localiza¸c˜ao, s˜ao agru- padas em prote´ınas integrais, perif´ericas e em um terceiro grupo formado por prote´ınas ancoradas nos lip´ıdios.
Prote´ınas integrais: S˜ao prote´ınas que penetram a bicamada por completo, mantendo contato com o meio extracelular e citoplasm´atico simultaneamente. Contˆem res´ıduos n˜ao polares, em grande parte, oriundos da sua superf´ıcie exposta. Estas regi˜oes n˜ao polares da prote´ına se integram ao interior da bicamada de lip´ıdios onde podem interagir com os ´acidos graxos. O restante da prote´ına ´e composto principalmente por amino´acidos iˆonicos e polares n˜ao integrados na bicamada. Estes amino´acidos se sobressaem em um ou em ambos lados da bicamada, formando um canal aquoso. Estes dom´ınios hidrof´ılicos s˜ao as partes de uma prote´ına integral que podem interagir com sustˆancias hidrosol´uveis na superf´ıcie da membrana, ou bem dentro do canal. Devido a sua forte intera¸c˜ao com a membrana ´e dificil separar este tipo de prote´ına sem causar um dano na membrana.
Geralmente consegue-se extra´ı-las usando detergentes.
Prote´ınas perif´ericas: S˜ao prote´ınas unidas `a membrana mediante liga¸c˜oes fracas n˜ao covalentes. Podem se unir temporariamente aos grupos hidrof´ılicos dos l´ıpidios ou a regi˜oes hidrof´ılicas das prote´ınas integrais que sobressaem da bicamada.
Prote´ınas ancoradas em lip´ıdios: Podemos distingu´ı-las em dois grupos, a partir do tipo de liga¸c˜ao que as une ao lip´ıdio e da sua localiza¸c˜ao. As prote´ınas que se localizam na camada externa da membrana est˜ao unidas a ela mediante um oligossacar´ıdeo. Este, por sua vez, est´a unido a uma mol´ecula de glicofosfatidilinositol integrada `a camada
externa. Outro grupo de prote´ınas presente na membrana ´e formado por prote´ınas que est˜ao ancoradas na membrana mediante liga¸c˜oes de cadeias de hidrocarbonetos integradas
`a camada interna da membrana. Pelo menos duas destas prote´ınas (Src e Ras) foram relacionadas na transforma¸c˜ao de c´elulas normais em c´elulas em estado maligno [23] .
2.2.3 Dom´ınios da membrana: Rafts de lip´ıdios
Osrafts foram propostos a partir de estudos da polaridade de c´elulas epiteliais [24]. Eles s˜ao definidos como microdom´ınios l´ıquidos ordenados e unidos mais fortemente que o resto das componentes que formam a membrana de fosfolip´ıdios. Os rafts s˜ao estruturas altamente dinˆamicas que boiam em forma de balsas dentro da bicamada da membrana.
Uma das propriedades mais importantes dos rafts ´e que mesmo sendo menos fluidos do que seu entorno, eles permitem que tanto os lip´ıdios quanto as prote´ınas que os formam entrem e saiam dos seus dom´ınios. O tamanho dos rafts ´e var´ıavel, e assim como suas fun¸c˜oes e sua dinˆamica, o tamanho ´e ainda um tema em discuss˜ao. Dependendo da t´ecnica e do tempo de resolu¸c˜ao usados, diferentes propriedades tˆem sido reveladas. Apesar da falta de consenso no tamanho dosrafts, ´e aceito que eles contˆem apenas poucas prote´ınas.
H´a uma evidˆencia, cada vez mais aceita, que sugere que os rafts se associam em clusters em ambas as camadas da membrana [25]. Estudos bioqu´ımicos sugerem que os rafts s˜ao formados por colesterol e esfingolip´ıdios na camada exoplasm´atica e por colesterol e fosfolip´ıdeos com ´acidos graxos saturados na camada endoplasm´atica. Dentre as prote´ınas com afinidade para formarraftsest˜ao as prote´ınas ligadas ao glicofosfatidilinositol, quinase da fam´ılia Src, prote´ınas unidas com colesterol como as caveolinas, e prote´ınas unidas a fosfolip´ıdeos como as anexinas [26].
Umraft morfologicamente indentificado ´e a caveola (pequena cova), de tamanho apro- ximado de 50−100nm representado na parte a) da figura 2.4. A caveola ´e um tipo de invagina¸c˜ao presente na membrana de c´elulas epiteliais e adiposas [28]. As caveolas s˜ao formadas a partir de um raft de l´ıpidios pela polimeriza¸c˜ao de caveolinas, prote´ınas in-
Figura 2.4: Figura representativa dos Rafts e da Caveola. a) Actina em forma de filamentos e monˆomeros e tubulina em forma de d´ımeros est˜ao associadas com o raft e com a caveola. b) A de- sestrutura¸c˜ao dos filamentos de actina e dos microt´ubulos causa uma reorganiza¸c˜ao das prote´ınas que fazem parte doraft [27].
tegrais da membrana que est˜ao unidas fortemente ao colesterol. Apesar da fun¸c˜ao da caveola n˜ao ser totalmente clara, ela tem sido relacionada aos processos mecˆanicos e de forma¸c˜ao da curvatura da membrana, como a endocitose [29], e nas transdu¸c˜oes de sinais mecˆanicos [30]. A c´elula investe grandes quantidades de energia para gerar e manter a caveola atrav´es do ATP e de mecanismos dependentes de actina, prote´ına que descreve- remos na pr´oxima se¸c˜ao, provavelmente porque estas estruturas dinˆamicas permitem `a c´elula minimizar os danos que possa sofrer na sua membrana plasm´atica, por exemplo um aumento na tens˜ao da membrana ´e rapidamente minimizado com um achatamento da caveola como mostrado na parte b) da figura 2.4 [31].
2.2.4 Tens˜ ao da membrana
Todas as fun¸c˜oes celulares que envolvem deforma¸c˜oes da membrana ou mudan¸cas mor- fol´ogicas da c´elula est˜ao vinculadas `a tens˜ao da membrana. A motilidade da c´elula ´e controlada pelo citoesqueleto de actina que constantemente empurra a membrana. Esta intera¸c˜ao resulta em um esticamento da mesma e na gera¸c˜ao de tens˜ao superficial. A tens˜ao na membrana funciona como um regulador mecˆanico que acopla diferentes pro- cessos bioqu´ımicos que acontecem em diversas regi˜oes da c´elula [32]. Qualquer processo relacionado com a deforma¸c˜ao ou flex˜ao da membrana tem um custo energ´etico para a c´elula que depende da tens˜ao da mesma. Por exemplo, foi mostrado que a tens˜ao est´a en- volvida na coordena¸c˜ao da ativa¸c˜ao e do balan¸co entre exocitose e endocitose, assim como das contra¸c˜oes sofridas pela c´elula durante mudan¸cas morfol´ogicas [33]. Tamb´em foi mos- trado que a caveola, descrita brevemente na subse¸c˜ao 2.2.3, funciona como reservat´orio de membrana, pois permite que as c´elulas endoteliais e musculares mudem rapidamente sua
´area superficial em resposta a aumentos na tens˜ao da membrana. A caveola rapidamente se achata, como esquematizado na parte b) da figura 2.4, permitindo `as c´elulas aumentar sua ´area superficial e com isso evitar danos ou rompimentos na membrana causados por mudan¸cas na tens˜ao [31]. Em c´elulas a tens˜ao aparente da membrana tem a contribui¸c˜ao de duas componentes. Uma delas ´e a tens˜ao lateral da bicamada de lip´ıdios, devida prin- cipalmente `a press˜ao hidrost´atica e `a flex˜ao da membrana [34]. A segunda contribui¸c˜ao,
´e a tens˜ao cortical, referente `a contratilidade do citoesqueleto aderido a ela. Esta ´ultima tens˜ao ´e mediada por prote´ınas ligadas `a fosfolip´ıdeos que podem estar ligadas ao cito- esqueleto [35]. A magnitude da contribui¸c˜ao de cada uma das componentes depende do estado de cada c´elula, das prote´ınas que ligam a membrana como citoesqulesto (filami- nas, α actinina, etc), e de processos que ainda n˜ao est˜ao totalmente esclarecidos, pois as contribui¸c˜oes s˜ao dependentes umas das outras. Quando por exemplo, a ades˜ao da membrana com o citoesqueleto ´e reduzida, seja por despolimeriza¸c˜ao, ou por diminui¸c˜ao
Figura 2.5: (a) Para descrever a flex˜ao da membrana usa-se o conceito geom´etrico de circunferˆencia osculatriz. Circunferˆencia cujo centro se encontra sobre a normal `a curva e tem a mesma curvatura que a curva dada nesse ponto. O raio desta circunferˆencia (r1,r2) ´e chamado raio de curvatura, ´e o inverso da magnitude da curvatura. (b) Cria¸c˜ao dos momentos de flex˜ao intr´ınsicos causados por um gradiente na press˜ao lateralπ(z) ao longo da espessura da bicamada. A curvatura espontˆanea ´e determinada pela a¸c˜ao rec´ıproca do gradiente de press˜ao entre a regi˜ao da cauda e a regi˜ao da cabe¸ca dos fosfolip´ıdios. (c) Para dobrar ou flexionar uma membrana uma tens˜ao positiva T+ tem que ser aplicada numa das camadas, e uma tens˜ao negativa T− na outra, resultando num momento de flex˜ao M = D(T+−T−), onde D ´e espessura da membrana. Figura (a) modificada de [38] e figuras (b) e (c) de [39].
de certas prote´ınas como a miosina, s˜ao formadas bolhas de membrana chamadas blebs que crescem do lado externo da membrana. Nestas regi˜oes separadas do citoesqueleto, a componente da tens˜ao que age ´e a referente `a press˜ao hidrost´atica. O valor da tens˜ao do bleb ´e significativamente menor quando comparado com o valor da tens˜ao em outra regi˜ao da c´elula ligada ao citoesqueleto [36], [37]. Entre os mecanismos moleculares que as c´elulas utilizam para identificar e responder aos sinais mecˆanicos, foram identificados mecanismos relacionados com elementos que interagem com a membrana plasm´atica: os canais iˆonicos mecanosensitivos [40], as prote´ınas sens´ıveis e indutoras de curvatura de membrana (BAR ou ALPS) [41] e as prote´ınas que ligam a membrana plasm´atica com o citoesqueleto de actina (filamina e miosina I) [35].
2.2.5 Rigidez de flex˜ ao e curvatura de membrana
A descri¸c˜ao da rigidez de flex˜ao de membrana est´a intimamente ligada ao conceito de curvatura de membrana. A curvatura caracteriza o quanto uma membrana foi flexionada num ponto particular. Por sua vez, a curvatura ´e descrita pelo raio de um c´ırculo que caracteriza a deforma¸c˜ao sofrida, como mostrado na figura 2.5.
A curvatura ´e definida como o inverso do raio, com sinal positivo ou negativo depen- dendo se o c´ırculo que a define est´a por cima ou por baixo da membrana respectivamente como ilustrado na parte a) da figura 2.5. Se R → ∞, a membrana descrita ser´a plana na dire¸c˜ao definida por R e viceversa. Por outro lado, os m´ınimos e m´aximos valores dos raios num ponto particular definem as curvaturas principais, C1 e C2 associadas a esse ponto. A curvatura m´edia, H, e a curvatura gaussianaG, s˜ao definidas em fun¸c˜ao de C1
e C2 como,
H = 1
2(C1+C2) , G=C1C2. (2.1) O modelo de energia de Helfrich-Canham possibilita a descri¸c˜ao mais simples para a rigidez de flex˜ao da membrana [42]. Helfrich percebeu que a natureza da bicamada de fosfolip´ıdios tinha carater´ısticas similares aos cristais l´ıquidos. Baseando-se na teoria que existia na ´epoca para cristais l´ıquidos [43], ele prˆopos o funcional da energia de curvatura por unidade de ´area como,
E[C1, C2] = κ 2
I
dA[C1+C2−C0]2, (2.2) na equa¸c˜ao anterior C0 ´e a curvatura espontˆanea e κ´e a rigidez de flex˜ao da membrana.
Para entender a origem do parˆametro C0, usamos a figura 2.5 (b). Vemos que para uma dada rigidez de flex˜ao κ, o raio de uma ves´ıcula e sua estabilidade podem ser controlados pela tens˜ao no plano da bicamada. Esta tens˜ao aparece da deforma¸c˜ao de fosfolip´ıdios nas bordas causada pela flex˜ao da bicamada para evitar a exposi¸c˜ao da sua regi˜ao hidrof´obica
`a ´agua ou pela inser¸c˜ao de outras mol´eculas presentes na membrana. S˜ao criadas for¸cas compressivas dentro da regi˜ao hidrof´ılica, para apertar as mol´eculas de modo `a minimizar a exposi¸c˜ao da cadeia hidrof´obica `a agua [44]. Estas for¸cas est˜ao presentes nessa regi˜ao mesmo sem a presen¸ca de uma for¸ca externa aplicada para flexionar a membrana, como no caso (c) da figura 2.5. Uma forma de caraterizar o efeito ´e introduzir o parˆametro de curvatura espontˆanea C0 reduzindo a energia de flex˜ao. C0 pode ser ajustado por um gradiente de press˜ao lateral dπdz, na dire¸c˜aoz, normal `a membrana, que causa um momento