COMPACTAÇÃO A QUENTE COMO PROCESSO DE PRODUÇÃO EM TECNOLOGIA NUCLEAR
CLAUER TRENCH DE FREITAS
PUBLICAÇÃO lEA N.°
Outubro — 1971247
INSTITUTO DE ENERGIA ATÔMICA Caixa Postal 11049 (Pinheiros)
CIDADE UNIVERSITARIA "ARMANDO DE SALLES OLIVEIBA"
SAO PAULO — BRASIL
COMPACTAÇÃO A QUENTE COMO PROCESSO DE PRODUÇÃO EM TECNOLOGIA NUCLEAR*
Clauer Trench de Freitas
Divisão de Metalurgia Nuclear Instituto de E n e r g i a Atômica
Sao Paulo - Brasil
Publicação lEA N ? 247 Outubro - 1971
* Separata de "METALURGIA - REVISTA DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE METAIS", vol. 2?, léé, Setembro, p. 66l-é64, 1971.
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COMPACTAÇÃO A QUENTE CÓMO PROCESSO DE PRODUÇÃO EM TECNOLOGIA NUCLEAR
CLAUER TRENCH DE FREITAS '•^'>
R E S U M O
Discute-se o potencial de aplicação industrial do processo de compactação a quente, dando-se, também, ênfase ao estudo da conformarão em alta temperatura, de alguns óxidos actinideos de interesse nuclear, ancãisando-se siuxs densificações e microestruturas.
1. I N T R O D U Ç Ã O
A comparação entre prensagens a quente e outros processos de fabricação usuais, em Me- talurgia de P ó ou Cerâmica, demanda uma aná- lise ampla de todos os fatores envolvidos. Tal não é o escopo deste trabalho. Além disso estu- dos daquela natureza já foram efetuados em pro- fundidade por AUen '•^^ e Fulrath <-^K
Alguns dos característicos inerentes ao pro- cesso de compactação a quente são especialmente atrativos, quando se trata de fabricar peças cons- tituídas por óxidos actinideos. Os aspectos que assumem maior relevância são apresentados a seguir,
2 . POSSÍVEIS V A N T A G E N S D O E M P R E G O D A C O M P A C T A Ç Ã O A Q U E N T E
Alcança-se uma precisão dimensional extremamente elevada, sem que se tenha de re- correr a, operações finais de usinagem. Quando se trata de materiais enriquecidos e m U^^^ ou plu- tonio, esta consideração torna-se muito importan- te, pois indica a possibilidade de se reduzir subs- tancialmente as perdas de processamento. Mes- mo peças grandes, c o m o briquetes c o m 50 x 50 x 6 mmj podem ser fabricadas obedecendo a rígi- das especificações dimensionais (^>. E m relação a pecas fmenorés, Oudemans (^') pôde produzir bar- ras de; óxido de urânio c o m aproximadamente 12 m m de diâmetro, sendo as variações dimensio- nais aceitáveis para aplicações nucleares; utili- zando o mesmo processo, foi ainda possível pro- duzir barras de ferrita, cujas diâmetros apresen- taram u m desvio m á x i m o de 5 /x, em um período de produção abrangendo seis meses.
(1) Conrtibuicão Técnica n.o 948. Apresentada ao X X V I Congresso Anual da A B M ; Rio de Janeiro, G B ; junho/
julho de 1971.
(2) M e m b r o da A B M . Engenheiro Ceramista e Nuclear; da Divisão de Metalurgia Nuclear, Instituto de Energia Atômica; São Paulo SP.-
2) São desnecessárias adições de aglome- rantes. Note-se que no processo bastante empre- gado de compactação a frio, seguida de sinteri- zação, é muitas vêzés indispensável adicionar aglo- merantes aos pós, a fim de que a prensagem seja possível; tal prática pode introduzir contamina- ção indesejável nos materiais utilizados, princi- palmente quando estes se destinam a uso na in- dústria nuclear.
3) Quando a sinterização pode causar v o - latilização, decomposição ou mudanças de fase prejudiciais, a prensagem a quente permite mini- mizar tais efeitos mediante processamento a bai- xas temperaturas e tempos curtos. Esse fato é importante, p o r exemplo, na fabricação de peças de óxido de plutónio, material que facilmente se decompõe em PuO^-x e PUaOaí*^
4) Pode-se atingir densidades muito eleva- das, e m tempos geralmente bem mais curtos que aqueles demandados pelo método de sinterização convencional. Taís densidades altas frequentemen- te conferem excelentes propriedades mecânicas e térmica aos produtos obtidos por metalurgia de pó. E m tecnologia nuclear, combustíveis de alta densidade são desejáveis, principalmente para apli- cação em reatores de potnêcia ou conversores térmicos empregando óxidos actinideos.
5) É possível desenvolver sinterização rea- tiva durante a prensagem a quente em tempe- raturas muito reduzidas. Nesse método, que uti- liza pós c o m reatividade estimulada por reações de decomposição e discordâncias, bem c o m o in- versões de fase, não o c o r r e m distorções nas pe- ças processadas. Surgem, geralmente, deforma- ções diferenciais excessivas, quando se tenta usar sinterização reativa, sem aplicação de pressão.
Warren e ChaKiáder <-'^\ empregando tal proces- so para oxalato de uranilo, produzirâhi a 700°C pastilhas de U O 2 c o m alta densidade e excelente qualidade. D a mesma maneira, consegue-se o b - ter pastilhas de urania muito densas, partindo-se de óxidos de urânio hiperestequiométricos.
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662 COMPACTAÇÃO A QUENTE EM TECNOLOGIA NUCLEAR
6) Os dispositivos para compactação a quen- te podem ser construidos de forma a se apresen- tarem muito compactos. Sistemas automáticos pe- quenos, similares àquele descrito por O u d e m a n s ( ° \ são excelentes para processamento de material radioativo ou tóxico, que deve ser manipulado em células "quentes" ( i . e . , c o m níveis elevados de radiação) ou "glove-boxes". Tendo e m vista que toda manipulação de plutonio e seus compostos deve ser desenvolvida no interior de "glove-bo- xes", o processo de compactação a quente é ime- diatamente considerado quando se necessita fa- bricar elementos plutonígenos.
3 . DISPOSITIVOS P A R A C O M P A C T A Ç Ã O A Q U E N T E
A figura 1 mostra o aspecto de dispositivo para compactação a quente, utilizado pelo autor na preparação de pastilhas cerâmicas, de alta den- sidade. É êle constituído por uma prensa manual, c o m 10 toneladas de capacidade, na qual está montado um forno de resistência de platina, ca- paz de operar até 1.500°C, ao ar ou e m atmosfera inerte. Pode-se ver, no canto inferior direito da
Fig. 1 DisposiUvo para compactação a quente de óxi- dos actinideos.
fotografia, uma das matrizes de grafita empre- gadas, b e m c o m o três peças retangulares de alu- mina nela compactadas simultaneamente.
A grafita t e m sido o material mais freqüen- temente usado em compactação a quente, mas apresenta muitas limitações. N o caso de tecno- logia nuclear, em que é imperativa a alta pureza de materiais, a contaminação por carbono resul- tante do desgaste e corrosão da matriz constitui um sério problema. A fim de evitar ou diminuir a reação entre a peça prensada e os componentes da matriz, têm-se usado revestimentos de vários tipos para a grafita. Outra solução consiste c o - locar, entre o material e as paredes da matriz, peças que diminuam a mencionada interação. R e - vestimentos de grafita pirolítica, moldes inseri- dos de nitreto de boro ou óxido de alumínio, espa- çadores de metais nobres ou retratarlos (Pt, W , Mo, Ta, entre outros) ou ainda de c o m p o s t o s re- f ratar ios ( c o m o o SiC) e também pós de óxidos retrátanos ( c o m o o Z r O o ) , têm muitas vezes se revelado capazes de resolver o problema.
Quando usada na compactação a quente, a grafita deve ser mantida em atmosfera inerte ou em vácuo; para operações acima de 2.200>'C, o emprego de atmosfera inerte revela-se essencial, devido a alta pressão de vapor do material. E m certos casos, é possível operar ao ar o dispositivo de compactação a quente; evita-se excessiva o x i - dação da matriz por injeção de argônio no inte- rior do forno. Nessa situação, a tmosfera no inte- rior da matriz é constituída por CO-CO, mais ni- trogênio em equilíbrio, originados pela reação de ar ou oxigênio residual c o m a grafita.
Prensagem a quente realizada a vácuo tem sido aplicada c o m sucesso em muitos casos, mas em geral não parece apresentar vantagens sig- nificativas, quando se trata de compactar óxidos de interesse nuclear.
4 . I N F L U Ê N C I A D A P R E S S Ã O
De acordo c o m F\jlrath para compacta- ção a quente uni-axial, entre 1.100-2.500°C, o in- tervalo de pressões comumente utilizado está abai- x o de 2,8 t . c m - = , devido a limitações impostas pela resistência dos materiais de matrizes. A possibilidade de aplicar pressões muito maiores que a mencionada abriu novas perspectivas para a aplicação industrial da prensagem a quente.
Antes de 1964, a pesquisa no campo de pres- sões ultra-altas havia se desenvolvido no nível m á x i m o de 51 t.cm~=; exceto pela agora clássica síntese do diamante e alguns poucos outros casos, ela se limitava aos sistemas metálicos.
Vasilos e Spprigs descreveram, em 1964, um dispositivo para compactação a quente capaz de operar até 70 t . c m - ^ ; puderam produzir pe- ças cilíndricas de 12,5 m m de diâmetro p o r 25,4
M E T A L U R G I A — VOL. 27 — N.° 166 — SETEMBRO, 1971 6 Í 3 m m de comprimento. Alcançaram-se densidades
acima de 9 9 % , c o m tamanhos de grãos inferio- res a 1 /j., tendo-se empregado AI2O3, M g O , N i O e C r j O a .
E m b o r a seja baixa a resistência mecânica das amostras preparadas e m altas pressões, tal não constitui impecilho para aplicação do pro- cesso de Vasilos e Spprigs no preparo de c o m - bustível nuclear usando óxidos actinideos; c o m efeito, nesse caso particular, as propriedades me- cânicas; não são críticas. O grande potencial de aplicação de compactação a quente, sob altas pres- sões, reside na excepcional diminuição de tempo requeriído para se atingir determinada densidade.
O proriunciado efeito da pressão pode ser exem- plificado considerando-se o caso de NiO. A 1.100°C, sob 140 kg-cm-2, o NiO atinge 9 5 % da densidade teórica somente após 500 minutos. O tempo requerido passa a ser meio minuto, por- tanto mil vezes menos, quando se aumenta ape- nas de 10 vezes a pressão.
5, E X P E R I Ê N C I A S D E C O M P A C T A Ç Ã O D E Ó X I D O S A C T I N I D E O S
Compactaram-se o s seguintes materiais:
— óxido de urânio;
— óxido de tório;
— óxido de plutonio;
— mistura de UO2 com 15% em peso de UO2;
— mistura de UO2 com 20% em peso de Th02; e
— mistura de ThOa com 15% de PUO2.
Empregou-se o dispositivo de compactação a quente mostrado na figura 1. Para a prensagem do óxido de plutonio e de misturas contendo esse material, colocou-se o mencionado dispositivo em
" g l o v e - l D O x e s " doladas de atmosfera de nitrogê- nio. Todas as experiências foram desenvolvidas na Divisão de Metalurgia do Laboratório Nacional de Argpnne (EUA)..
Os pós utilizados eram de tipo cerâmico, c o m tamanhos de partícula menores que 1 ¡j. e super- fícies específicas compreendidas entre 2 e 7 m^/g.
As relações O / U eram próximas das composições estequiométricas.
Utilizou-se matriz de grafita, c o m cavidade cilíndrica de 25,4 m m de diâmetro. O forno foi aquecido até 1.350«C, a 800°C/hora. Mediu-se o recalque do pó no interior da matriz por meio de um defletômetro, ligado a base da prensa, con- f o r m e mostra a figura 1.
Empregando cargas de 20 g e pressões de 267 k g . c m - ^ , obtiveram-se os resultados mostra- dos na figura 2. Note-se q u e , sendo igual, e m to-
dos os casos, o regime de aquecimento d o forno, a derivada do recalque em função da tempera- tura está relacionada à velocidade de densifica- ção dos materiais ensaiados.
10000
. 7 6 0 0 UJ O
<
5 0 0 0
2 5 0 0
6 0 0 8 0 0 lÒOO ( 2 0 0 1400
TEMPERATURA ( ° C )
Fig. 2 — Den!5ificação de óxidos actinideos e a l g u m a s de suas misturas, no intervalo de 6 0 0 a 1.350»C; pressão
constante de c o m p a c t a ç ã o i g u a l a 267 kg.cm-^'.
Do gráfico pode-se concluir que a densifica- ção só se torna apreciável acima de 700°C. A tabela I dá as temperaturas em que o c o r r e a má- xima velocidade de densificação (correspondentes aos pontos de inflexão das curvas) para os vários materiais utilizados.
TABELA I — Temperaturas correspondentes às máximas velocidades de densificação de óxidos ,
actinideos, para pressões de 267 km.cm-2.
M a t e r i a l T e m p e r a t u r a cc
UO2 960
PUO2 820
TliOi 1050
U 0 2 - 1 5 % PUO2 870
T h 0 2 - 1 5 % PUO2 1050
U O 2 - 2 0 % ThCh 1020
664 COMPACTAÇÃO A QUENTE EM TECNOLOGIA NUCLEAR Para recalque de 6.500 e lO.OpO p., as densi-
dades finais eram respectivamente 8,9 e 10,1 g . c m " ^
Dos dados obtidos concluiu-se que, nas con- dições da experiência, o s materiais mais rapida- mente compactáveis a quente são, pela o r d e m :
1 — P U O 2 ; 2 — U O 2 — 1 5 % P u O s ; 3 — U O . ; 4 — T h 0 2 — 1 5 % PuO,_; 5 — U O , - 2 0 % ThO,; e 6 — T h O ^ .
6. M I C R O E S T R U T U R A S
O exame metalográfico revelou que as pas- tilhas compactadas apresentavam algumas partí- culas de carbono, numa camada de cerca de 130 ¡x, junto às superfícies externas. Adjacente à essa região estava aparente uma segunda camada, cuja formação se atribuiu à ação redutora dos gases CO-CO2 presentes na cavidade da matriz;
provavelmente é ela constituída por óxido ligei- ramente hiperestequiométrico, mas c o m relação oxigênio/metal menor que a inicial.
A figura 3 indica esquemáticamente a dis- tribuição das várias camadas citadas, em rela- ção a parede da matriz.
^ p o r t i c u l o de grafita orroncada do parede da matriz durante a prensagem
l»particula de U C g
^ p o r t i c u l a de U O 2 apresentando cornada externo de U C g
porticulo de U O 2
U O 2 + X reduzido porciolmente A camada s u p e r f i c i a l C , contendo c a r b o n e t o , e' arroncoda duronte a retirodo da amostra Fig. 3 — DistrilDuição esquemática de c a m a d a s de dife- rentes composições, formadas j u n t o a superfície de pas-
tillias constituidas por óxidos actinideos.
A perda de material que ocorre durante a extração das pastilhas é pequena (menor que 0,1 g ) . Julga-se que seja possível evitá-la, revestin- do-se as paredes da matriz c o m material que im- peça a formação de carbonetos.
7. CONCLUSÕES
1 — A compactação a quente apresenta gran- de interesse para a produção industrial de peças contendo plutónio ou materiais altamente tóxicos.
2 — É possível compactar, em tempos da ordem de um minuto, materiais cerâmicos c o m característicos similares aos dos óxidos actini- deos; a pressões empregadas devem ser da ordem de 70 t . c m - ^
3 — E m ordem de rapidez de compactação a quente, nas condições experimentais descritas, os óxidos actinideos se classificam da seguinte maneira:
1 _ PuO,; 2 — U O o — 1 5 % PuO^; 3 — U O , ; 4 — T h O , — 1 5 % PuO,; 5 — U O 2 — 2 0 % T h Ò , ; e 6 — ThO,.
4 — Há evidência de contaminação das pas- tilhas por grafita e de pequena perda de material durante a operação da extração. Julga-se que tal possa ser evitado revestindo a parede da cavidade da matriz c o m material que impeça a formação de carbonetos.
B I B L I O G R A F I A
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Por espectrometria de raios-X não se cons- tatou a presença de carbonetos nas pastilhas.
Atribuiu-se tal fato ao arrancamento da camada superficial em que êles se encontravam, por oca- sião da retirada da pastilha do interior da matriz.
6. R e t ( 3 ) , p. 2.
7 . Ref. ( 2 ) , p. 8 8 1 .
8. V A S I L O S , T. & S P R I G G S , R . M . — "Pressure Sintering of Ceramics". Progress in Ce^'amic Science, v. 4, P e r g a m o n Press, p. 95-132, 1966.
ABSTRACT
It is discussed the potential of the hot pressing process for industrial applica- tions. Emphasis is given to the hot-forming of some actinide oxides of interest in nuclear technology; their densifications and microstructures were analyzed.
RESUME
L'auteur présente la possibilité d^application industrielle du procédé de compaci- té à chaud. Il^étude aussi la conformation à haute température de certains oxides actinides d'intérêt nucléaire et il en analyse les densités et les microstructures.
RESÜMEM
Discútese el potencial de aplicación industrial del proceso de compactación en ca- liente, dándose también énfasis al estudio de la conformación en alta temperatura de algunos óxidos actinideos de interés nuclear, analisando-se sus densificaciones y microestructuras.