262REM: R. Esc. Minas, Ouro Preto, 64(3), jul. set. | 2011
Notas da REM
News from REM
A criaÑ\o de uma revista periódica que se ocupe com o estado da indústria das minas no Brasil $ complemento natu-ral necessÈrio da organizaÑ\o da Escola de Minas de Ouro Preto.
Uma e outra t_m por im estudar, tornar conhecidas as riquezas minerais do pais e vulgarizar os meios de aprovei-ta-as.
Absorvido, durante os primeiros anos, pelos cuidados incessantes que re-queria a organizaÑ\o da Escola de Mi-nas, pelas diiculdades inúmeras que de todas as partes ameaÑavam o futuro des-ta instituiÑ\o, n\o me tinha sido ainda possível tratar de tal publicaÑ\o.
Hoje, por$m, podendo a Escola defender-se por si mesma, e estando con-cluída a primeira e a mais importante parte do programa que me foi coniado, cumpre-me tratar da segunda.
Assim como a execuÑ\o da pri-meira exigiu o concurso de todos os ho-mens que se interessam realmente pelo desenvolvimento da instruÑ\o, tamb$m ser-me-È ele preciso para bem terminar minha miss\o; e, pois, sob sua proteÑ\o ponho a revista da Escola de Minas de Ouro Preto.
~ fÈcil expor o meu programa. A revista que me proponho publi-car deveria aparecer em períodos deter-minados, para o que seria mister dispor da soma necessÈria È impress\o.
A experi_ncia mostra infelizmen-te todos os dias que n\o $ convenieninfelizmen-te, mormente no comeÑo, contarem as revis-tas cientiicas demasiado com os recursos provenientes de assinaturas. Dispondo somente desse meio, ser-me-ia impossí-vel contrair compromissos, que por forÑa maior talvez fosse o brigado a n\o satis-fazer.
ComeÑarei mais modestamente, impetrando auxilias que me animem a abandonar os tímidos ensaios do co-meÑo. Por enquanto só me $ permitido comprometer-me a fazer aparecer mais um numero, utilizando economias feitas no jÈ muito sobrecarregado orÑamento da Escola.
ReconheÑo todos os inconvenientes de semelhante incerteza de publicaÑ\o; entretanto, por mais restrita que seja ela, Julgo-a muito preferível ao silencio com-pleto.
Os Annaes da Escola de Minas de Ouro Preto fornecer\o os pormenores mais precisos que se puderem dar so-bre a situaÑ\o das minas exploradas no Imp$rio do Brasil e sobre o estado das diversas concessões feitas pelo governo, dos estudos sobre os estabelecimentos
metalúrgicos existentes, dos trabalhos de mineralogia e geologia relativos ao pais, dos resultados das analises feitas no labo-ratório de docimasia da Escola.
Dar\o tamb$m noticias dos aperfei-Ñoamentos mais recentes introduzidos na exploraÑ\o das minas e na metalurgia, e em im informaÑões sobre as questões i-nanceiras ou jurídicas mais importantes, que interessem tanto a indústria mineira do Brasil, como a do resto do mundo.
N\o desenvolverei mais este pro-grama: por$m airmo bem alto que ele serÈ realizado; e si este primeiro numero n\o corresponder cabalmente a meus de-sejos, esforÑar-me-ei por conseguí-lo no segundo.
Como os Annaes das minas devem tamb$m ser enviados para o estrangeiro, poderia parecer conveniente imprimí-los em duas ou tr_s línguas.
N\o julgo isso necessÈrio, nem mesmo uti1.
Al$m do acr$scimo de despesa (quest\o capital), perderia a publicaÑ\o sua homogeneidade e facilidade de leitu-ra. Demais a língua portuguesa se apro-xima assaz do latim, para que, sobretudo tratando-se de estudos cientiicas, todas as pessoas que conhecerem um idioma que tenha a mesma origem possam com-preender o sentido do que estiver escrito nos Annaes.
Nem discutirei mesmo a opini\o, emitida por alguns, de escrev_-los em franc_s sob pretexto que essa língua $ mais conhecida.
Uma revista publicada no Brasil in-teressa especialmente o pais.
O primeiro numero dos Annaes conterÈ os trabalhos seguintes:
1. Estudo químico e geológico das rochas do centro da província de Minas Gerais; 1” parte: Arredores de Ouro Pre-to, por H. Gorceix.
2. Estudo geológico das jazidas de topÈzios da província de Minas Gerais, por H. Gorceix.
3. ExploraÑ\o das minas de gale-na do ribeir\o do Chumbo, aluente do Abaet$, e estudo da zona percorrida de
Prefácio do Annaes da Escola de Minas de Ouro Preto
n@ 1, em 1881, por Claude-Henri Gorceix
REM: R. Esc. Minas, Ouro Preto, 64(3), jul. set. | 2011263 Através da aquisição de sondas hidráulicas, novas ferramentas e frota de veículos, a GEOSOL garante às nossas equipes de campo, melhores condições para realizarem suas atividades com eicácia, segurança e respeito ao meio ambiente.
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de Paula Oliveira, engenheiro de minas, 4. Viagem de estudos metalúrgicos no centro da província de Minas, por Joaquim Candido da Costa Sena, enge-nheiro de minas,
5. AnÈlises feitas nos laboratórios de química e docimasia da Escola de Mi-nas de Ouro Preto.
6. Estatística da produÑ\o do ouro na província de Minas Gerais durante o ano de 1879.
A esses trabalhos poderia ajuntar um estudo sobre o futuro e processos empregados na exploraÑ\o dos depósitos diamantíferos; uma noticia sobre gemas do Brasil: aguas marinhas, berilos, gra-nadas, turmalinas, etc.
Tais assumptos, bem como outros que interessam ainda mais diretamente a indústria do pais, quais sejam: a explora-Ñ\o do ferro em Minas Gerais, presente e futuro dessa indústria, ensaios sobre a natureza das diversas terras vegetais, se-r\o reservados para uma segunda publi-caÑ\o, cujo aparecimento dependerÈ do acolhimento que tiver a primeira.
N\o faltam materiais para a execu-Ñ\o da obra que empreendemos. O
estu-do da mineralogia e geologia estu-do Brasil e de suas aplicaÑões È indústria estÈ ainda inteiramente por fazer.
Mui poucas das riquezas do solo brasileiro s\o conhecidas, e hoje que o melhoramento das vias de comunicaÑ\o e os progressos do pais em todas as outras ordens de ideias permitem dar È indústria mineira nova impuls\o, $ do nosso dever fazer conhecer essas riquezas e vulgarizar noÑões exatas sobre sua constituiÑ\o ge-ológica.
~ admirÈvel ver qu\o pouco espa-lhadas est\o as noÑões mais elementares sobre a natureza das rochas e dos terre-nos das diversas partes do Imp$rio, e sur-preende-nos ainda mais ver citar e tomar para guias as obras menos cientiicas e mais eivadas de erros, desconhecendo-se memorias cheias de factos interessantes, bem observados e bem discutidos.
~ mais que tempo de sair de t\o de-plorÈvel caminho.
O tempo das discussões frívolas sobre palavras e teorias, simples especu-laÑões do espirito legadas pela idade me-dia, das quais ha muito o velho mundo desembaraÑou-se, jÈ passou.
~ absolutamente preciso estudar
factos, observar fenômenos.
~ enganar a mocidade, $ desen-caminhÈ-la com grande detrimento do bem publico, ensinar-lhe uma ci_ncia de palavras, composta de teorias, sem du-vida mui engenhosas, mui belas, por$m teorias que somente os mestres, no im de sua carreira, t_m O direito de expor como resumo de uma vida toda de tra-balhos, de observaÑ\o e de pesquisas ex-perimentais.
Certamente $ interessante discutir sobre a origem das rochas, dos terrenos; mas $ preciso que se tenha antes adqui-rido conhecimento dessas rochas, desses terrenos: e para conseguir isso n\o ha ou-tro meio sen\o estudÈ-los com o martelo e o espirito: “cum mente et malleo”. ~ a divisa que escolhi para a publicaÑ\o que hoje empreendo.
Acharei colaboradores entre os alu-nos da Escola de Minas de Ouro Preto, aos quais espero que a divisa dos Anna-es servirÈ de guia; por$m apAnna-esar disso a miss\o estaria acima de minhas forÑas sem o auxilio dos que se interessam pelo progresso da ci_ncia e pela prosperidade de pais.
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Leis para as empresas
A meu ver, e $ princípio admitido por todos, todas as empresas industriais, de qualquer natureza que sejam, devem encontrar no Governo toda animaÑ\o e auxílio possível. Ora, como primeira consequ_ncia desse princípio, a adminis-traÑ\o n\o deve embaraÑar de nenhum modo a iniciativa particular, quer pelas leis que ela apresenta ao Parlamento, quer pelos regulamentos que devem reger a execuÑ\o dessas leis.
Ensino primário e secundário
Sem ensino primÈrio n\o hÈ ensino secundÈrio, sem o secundÈrio n\o hÈ o superior e sem o superior n\o terÈ o Bra-sil engenheiros nem homens úteis ao país.
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Dedicando-me ao professorado por gosto e por educaÑ\o e desejando pres-tar ao país os maiores serviÑos possíveis na posiÑ\o que tenho a honra de ocupar, n\o posso deixar de insistir sobre um es-tado de coisas que traz as mais desastro-sas consequ_ncias, quest\o de interesse t\o palpitante para o país. Ainda uma vez, repito, bem poucos alunos t_m uma educaÑ\o cientíica secundÈria suiciente quando entram para os cursos superio-res. Daí vem a inferioridade em que icarÈ sempre o primeiro desses ensinos e uma causa de esterilidade para todas as me-didas por meio das quais procurar-se-ia elevÈ-lo sem dar-lhe a base que lhe falta.
Obs: Gorceix tentou em v\o lecio-nar para as professoras primÈrias e se-cundÈrias naquela $poca.
O professor
O professor deve encontrar no valor do seu ensino e na sua inlu_ncia moral, a forÑa necessÈria para impor aos seus discípulos o respeito e a consideraÑ\o que devem eles ter para com ele n\o só na Es-cola como fora dela.
Os alunos
Quando a experi_ncia da vida e a maturidade da idade lhes permitirem compreender bem as relaÑões que devem existir entre os diversos membros de uma mesma sociedade e quando encararem a vida em sua realidade e n\o atrav$s de
prismas de ilus\o da mocidade, ser\o os primeiros a reconhecer a utilidade dos Regulamentos que hoje atacam.
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Devem os alunos ser habituados a resolverem problemas cujas soluÑões de-pendam das teorias expostas no curso, de modo a desenvolver neles o espírito inventivo sem o qual haverÈ esterilidade na ci_ncia. N\o conheÑo melhor ginÈsti-ca intelectual que esta para ensinar aos alunos a raciocinar e habituar o espírito a pesquisas. ~ bom, sem dúvida, conhe-cer-se tudo o que produziram os grandes homens dos outros povos; por$m muito melhor $ saber servir-se do que eles ize-ram para fazer novas descobertas.
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Este espírito inventivo $ adquirido desde a inf*ncia, nos bancos de col$gios e escolas.
Sobre os alunos pobres
A instalaÑ\o da Escola esteve ame-aÑada de n\o se realizar a 12 de outubro de 1876. Admitidos è matrícula na Esco-la, os alunos Francisco de Paula Oliveira, Antônio Veríssimo de Mattos Júnior e Leandro Dupr$ Júnior enviaram ao Mi-nistro do Imp$rio, Jos$ Bento da Cunha e Figueiredo um abaixo-assinado pedindo concess\o de auxílio pecuniÈrio a im de poderem se manter na Província de Mi-nas Gerais por serem pobres e, sem ele, seriam forÑados a desistir de suas matrí-culas.
Gorceix comenta esse pedido di-zendo: “O orÑamento da Escola para o ano 1876-7 estÈ estabelecido de tal for-ma que mesmo com esse acr$scimo de despesa ser-me-ia ainda possível realizar economias. Mas, se razões de ordem su-perior n\o nos permitirem vir em auxílio desses alunos e, por conseguinte, torna-riam impossível a abertura da Escola, eu seria muito feliz e muito glorioso em ser chamado a facilitar a instalaÑ\o de um estabelecimento que eu tive a honra de organizar. PeÑo-lhe pois, Sr. Ministro, retirar do meu ordenado a metade da quantia necessÈria para suprir a manu-tenÑ\o de tr_s alunos na Escola de Minas
de Ouro Preto, solicitando de vossa gene-rosidade o complemento desse socorro.
Educado na Escola Normal Su-perior de Paris sob condiÑões anÈlogas, contraí para com o meu país uma dívida que, feliz, quitarei no Brasil onde tenho a honra de estar no serviÑo que meus mes-tres me ensinaram a amar seja qual for o país que eu deva servir.”
Gorceix e a política
de seu tempo
Gorceix, ao dar início a seu tra-balho para o funcionamento da Escola se encontrava sobrecarregado com a re-construÑ\o do velho edifício a ela desti-nado a com todas as tarefas exigidas na sua organizaÑ\o, como a obrigaÑ\o de, constantemente, se dirigir è Corte para a resoluÑ\o de casos que a todo instante surgiam.
Gorceix admitiu como coadjuvante o Francisco Luiz Maria de Brito e, veri-icando a sua capacidade para o serviÑo lutou para conseguir sua nomeaÑ\o para SecretÈrio da Escola. A proposta n\o po-dia ser aceita: havia candidato de mais peso, bacharel e com assento na Assem-bl$ia Legislativa. O mÈximo conseguido por Gorceix foi a designaÑ\o daquele ci-dad\o para, durante suas aus_ncias isca-lizar as obras de reconstruÑ\o do pr$dio, cuidar da conservaÑ\o dos objetos da Es-cola tendo a seu cargo todos os trabalhos referentes è Biblioteca e è Secretaria, para os quais tinha aprovaÑ\o total de Gor-ceix, prestando serviÑos at$ chegada do secretÈrio que veio a ser nomeado: Bel. Jos$ Eufrosino Ferreira de Brito (o pesa-delo de Gorceix): “Minha idade, minha qualidade de estrangeiro, talvez dessem pouco peso ès observaÑões que eu pro-curava dirigir a um homem que, por sua posiÑ\o política se considerava bem aci-ma do Diretor e usava dessa posiÑ\o para diminuir a autoridade deste”, comentou.
Em vista dos absurdos cometidos pelo bacharel, Gorceix se viu obrigado a dizer ao ministro: em tais condiÑões, Sr. Conselheiro, ser-me-È impossível conti-nuar a dirigir a obra que me foi conia-da, e $ grande minha fadiga, que tive que abandonar meus trabalhos de pesquisas.
Jos$ Eufrosino acabou dispensado e isso reletiu fortemente na Assembleia Legislativa Provincial.