CRÉDITO: 05 a 09 de abril
Banco deve pagar indenização por não concluir transferência
via Pix
Fonte: Consultor Jurídico
Data: 1º/04/2021
Banco que não conclui transferência feita por meio do Pix, mas diz que o fez, falha na prestação do serviço. Com esse entendimento, o 10º Juizado Especial Cível condenou, nesta quinta-feira (31/3), o Banco C6 a pagar indenização por danos morais de R$ 2 mil a um cliente. O homem fez uma transferência por meio do Pix, mas o valor não foi enviado. Ele entrou em contato com o banco, mas o problema não foi resolvido. Após a propositura da ação, a instituição financeira
devolveu o dinheiro ao cliente.
O julgador afirmou que o banco falhou na prestação do serviço. Afinal, não justificou por que o valor não foi transferido, informando que tinha feito o procedimento, e só estornou o dinheiro após o cliente ir à Justiça. "Notável a frustração da expectativa do consumidor com o serviço prestado e a impotência de fazer valer seu direito em razão da recalcitrância do réu em cumprir um dever jurídico em que pese ter reclamado administrativamente, o que caracteriza o desvio produtivo de seu tempo útil", disse o julgador.
Processo 0004647-53.2021.8.19.0210
https://www.conjur.com.br/2021-abr-01/banco-pagar-indenizacao-nao-concluir-transferencia-via-pix
Tributaristas
repudiam
ameaça
de
representação
a
conselheiros do Carf
Fonte: Consultor Jurídico
Data: 1º/04/2021
A ameaça de representação feita contra conselheiros do Carf pelo presidente da 1ª Turma da 4ª Câmara da 3ª Seção do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) "rompe com a imparcialidade e a regra do livre convencimento motivado", segundo uma nota conjunta de oito entidades do Direito divulgada nesta quinta-feira (1º/4). Os signatários se referem ao julgamento de um processo administrativo da última quinta-feira (25/3), cuja gravação foi disponibilizada na quarta (31/3), no qual Lázaro Antonio Souza Soares aparece ameaçando os conselheiros que apresentaram voto divergente de representação perante a presidência do Carf.
Estava sendo debatida a aplicação da Súmula 11 da Corte, que decreta que "não se aplica a prescrição intercorrente no processo administrativo fiscal". Os conselheiros advertidos tinham votado por não aplicar a súmula ao caso. O Regimento Interno do Carf preconiza que pode perder o mandato o conselheiro que não aplicar súmula. Por outro lado, o Manual do Conselheiro diz que "quando a matéria tangenciar súmula do Carf e o julgador não aplicá-la por entender que os fatos
de direito não se subsumem a ela, é preciso deixar expresso no voto tal entendimento".
No julgamento, portanto, os conselheiros "advertidos" pelo presidente estavam aplicando distinguishing (distinção) e explicando por que a súmula não se aplicava ao caso analisado. O presidente disse que eles estavam se negando a aplicar súmula e que iria representá-los. "Por dever de lealdade a todos os colegas, antes que sejam proferidos todos os votos, tenho que ressaltar que consultei a administração do Carf sobre essa situação e fui orientado que caso o voto seja contrário ao conteúdo da súmula, a questão deve constar em ata, de forma mais detalhada possível, e, em seguida, o presidente do colegiado deve fazer uma representação à Presidência do Carf dando notícia do ocorrido, que é exatamente o que eu irei fazer", disse Soares.
"Eu não demito ninguém e não julgo nada. Vou apenas fazer uma representação, consignar tudo em ata. Vocês serão ouvidos, a gravação será repassada. Se houver apenas uma distinção, não tem motivo para vocês se preocuparem", prosseguiu.
Para as entidades que assinam a nota de repúdio, a conduta do presidente tentou "impedir o Conselheiro do Carf de se posicionar de forma técnica e fundamentada". "No caso em questão, claramente não houve ofensa à súmula, mas simples conformação muito bem fundamentada do seu âmbito de eficácia, e a reação do Presidente demonstra a tentativa de manter à força aquilo que não pode sustentar com argumentos técnicos."
"É essencial que o órgão adote as devidas providências administrativas, mormente relacionadas a infrações ao Código de Ética do CARF, relativo ao ocorrido, como forma de dissuadir eventuais novas tentativas de restringir a liberdade de julgamento dos conselheiros", afirmam.
O documento é assinado pela Associação Brasileira de Direito Financeiro (ABDF); Associação Brasileira de Direito Tributário (Abradt); Associação Paulista de Estudos Tributários (Apet); Instituto de Estudos Previdenciários, Trabalhistas e Tributários (Ieprev); Instituto de Pesquisas Tributárias (IPT); Instituto de Direito Tributário da Bahia (ITB); Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp); e Instituto Brasileiro de Direito e Processo Tributário (IDPT).
https://www.conjur.com.br/2021-abr-01/tributaristas-repudiam-ameaca-conselheiros-carf
Bancos devem informar corretamente sobre prorrogação de
dívidas
Fonte: Consultor Jurídico
Data: 02/04/2021
Por considerar que as propagandas eram vagas, incompletas e omissas, a 17ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais manteve decisão que determinou que os bancos Itaú, Bradesco e Santander publicassem informações claras sobre suas medidas de prorrogação do pagamento de dívidas. A desembargadora-relatora Aparecida Grossi constatou violações ao Código de Defesa do Consumidor. De acordo com ela, as propagandas veiculadas pelos bancos não prestavam corretamente as informações e permitiam "concluir que a intenção da instituição financeira seria prorrogar os contratos sem a incidência de quaisquer encargos remuneratórios".
As instituições financeiras haviam emitido propagandas nas quais prometiam prorrogar o prazo de pagamento de empréstimos e financiamentos de seus clientes por 60 dias. Porém, muitos consumidores não tiveram a demanda atendida ou se depararam com encargos remuneratórios que incidiam sobre os procedimentos. O Instituto Defesa Coletiva, uma entidade da sociedade civil sem fins lucrativos, ajuizou ação civil pública contra os bancos. Na primeira instância, uma liminar já havia determinado que as instituições expusessem de forma precisa os termos da prorrogação ou renegociação e a incidência ou não de encargos conforme o percentual pactuado.
"As propagandas dos bancos usavam expressões como 'jogar duas parcelas de seu empréstimo para frente', 'pausar', e 'prorrogar' como se fosse algo a ser feito sem custo. Porém o que estava acontecendo era o refinanciamento do contrato", explica Lillian Salgado, presidente do instituto.
https://www.conjur.com.br/2021-abr-02/bancos-informar-corretamente-prorrogacao-dividas
Banco deve indenizar por firmar contrato de cartão sem
autorização
Data: 03/04/2021
Por constatar falha crassa na prestação de serviços, o 4º Juizado Especial Cível de Brasília condenou o Santander a ressarcir e indenizar uma cliente por ter firmado contrato de cartão de crédito consignado sem sua autorização. A autora havia entrado em contato com o banco para fazer a portabilidade, com juros menores, de um contrato de empréstimo contraído com outra instituição. Porém, recebeu depósitos indesejados e descobriu que, na verdade, teria contratado um cartão de crédito consignado, o que previa descontos mensais no seu contracheque.
A juíza Oriana Piske observou que o réu viabilizou "concreta e efetivamente" a contratação de um produto não solicitado pela autora. Segundo ela, o Santander "não atendeu à verdadeira intenção da autora e em evidente má-fé entabulou um contrato de cartão de crédito consignado. Verifica-se, inclusive, que a todo momento a autora questiona o banco réu sobre a ilegalidade da operação, mas nenhuma providência foi tomada".
Para a magistrada, a contratação do cartão "é totalmente nula e iníqua em face do total desrespeito do que fora negociado entre as partes e de sua total desvinculação com a real intenção da autora, enquanto contratante".
Oriana determinou a devolução em dobro das quantias descontadas do contracheque, devido não apenas à falta de autorização, mas também ao caráter abusivo do contrato. De acordo com ela, o termo "assegura vantagem extrema ao banco réu, pois os descontos mensais não cessam, na medida em que são abatidos apenas os juros do período e, portanto, não são revertidos ao consumidor de modo a abater o débito ou finalizá-lo, o que, praticamente, por vias oblíquas, deixa o saldo devedor do mútuo bancário aberto indefinidamente".
Em função de a autora ter sido enganada e tratada com falta de respeito, a juíza ainda fixou indenização por danos morais, no valor de R$ 5 mil. "Os requeridos não agiram com a cautela necessária à realização da operação bancária, permitindo o cometimento de ato ilícito por terceiros. Isso, evidentemente, ultrapassou o mero dissabor, fez com que a requerente passasse por uma situação de preocupação, sofrimento, angústia, indignação e sentimento de impotência, pois se viu enganada e prejudicada pela conduta negligente dos requeridos", aponta Pedro Henrique Costódio Rodrigues, advogado do caso, especialista em Direito Administrativo.
0731835-47.2020.8.07.0016
Os impactos fiscais das alterações promovidas na Lei de
Falências
Fonte: Consultor Jurídico
Por: Bruno Marques Santo, Camila Somadossi e Fernanda Sampaio
Data: 05/04/2021
O Congresso Nacional analisou no último dia 18 os vetos realizados pelo presidente Jair Bolsonaro a dispositivos da Lei n° 14.112/2020, aprovada em 24 de dezembro de 2020, e que fazia importantes alterações à Lei de Recuperação Judicial (Lei n° 11.101/05). No total foram derrubados 12 dos 14 vetos presidenciais, sendo que, em especial, dois deles (artigo 6°-B e artigo 50-A) são muito relevantes sob a ótica fiscal, visto que reduzem os impactos fiscais para as empresas que estão em recuperação judicial ou em falência.
O primeiro deles refere-se à possibilidade de utilização do prejuízo fiscal e da base negativa da CSLL, sem qualquer teto de valores — isto é, sem a aplicação da famosa "trava dos 30%" —, sobre o lucro líquido decorrente de ganho de capital resultante da alienação judicial de bens ou direitos pela pessoa jurídica em recuperação judicial ou até mesmo com falência decretada.
Como exceção, a nova tratativa não se aplica na hipótese em que o ganho de capital decorra de transação efetuada com pessoa jurídica relacionada (controladora, controlada, coligada ou interligada) e com pessoa física que seja acionista controlador, sócio, titular ou administrador da pessoa jurídica devedora.
Tal medida é inédita e com certeza trará impactos importantes para os contribuintes, visto que empresas em recuperação judicial normalmente possuem valores relevantes de prejuízo fiscal e base negativa de Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), os quais representam créditos fiscais de difícil utilização nesses casos.
O segundo dispositivo resgatado está relacionado com a tributação do deságio das dívidas obtido pelas empresas em recuperação judicial, tema este amplamente debatido e controverso no
meio tributário. Com essa alteração, está garantido pela legislação que a receita obtida pelo devedor não é tributada pela contribuição para o Programa de Integração Social (PIS) e pela contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins).
A doutrina e a jurisprudência sobre a matéria já aderiram a esse entendimento, sob o argumento de que o "perdão de dívida" não pode ser tratado como uma receita para fins de tributação por não configurar ingresso efetivo e não se integrar ao patrimônio do devedor de forma inaugural. Apesar disso, a positivação desse tema em lei é de extrema relevância para garantir segurança jurídica aos contribuintes, que por vezes eram autuados pela Receita Federal do Brasil, que persistia em exigir o pagamento das contribuições.
Com relação ao Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e à CSLL para as empresas optantes pelo lucro real, a base de cálculo é apurada a partir do lucro contábil, ajustados por adições e exclusões conforme previstas em lei. Dessa forma, considerando que o deságio é uma receita para fins contábeis e integra o lucro líquido, o entendimento da jurisprudência é de que não havendo previsão legal expressa para a exclusão na apuração, deverá ser tributado pelo IRPJ e pela CSLL.
As alterações promovidas na Lei da Recuperação Judicial reforçam o entendimento de que o deságio da dívida deve ser tributado pelo IRPJ e pela CSLL quando o devedor for optante pelo lucro real, no entanto traz importante avanço ao permitir que esse ganho possa ser compensado com prejuízo fiscal e base negativa de CSLL de forma ilimitada, sem que se sujeite à trava dos 30% do lucro real e da base de cálculo da CSLL do período.
Apesar de permanecer a tributação pelo IRPJ e pela CSLL, é certo que tal medida traz bastante alívio às empresas em situação de recuperação judicial, visto que passam a poder compensar seus ganhos oriundos de renegociação de dívidas de forma integral com seus prejuízos fiscais e bases negativas de CSLL acumulados. Por fim, a nova legislação deixa claro que as despesas correspondentes às obrigações assumidas no plano de recuperação judicial são dedutíveis na determinação do lucro real e da base de cálculo da CSLL, desde que não tenham sido objeto de dedução anterior.
Vale deixar claro que as alterações listadas acima não se aplicam na hipótese de dívidas com pessoa jurídica relacionada (controladora, controlada, coligada ou interligada) e com pessoa física que seja acionista controlador, sócio, titular ou administrador da pessoa jurídica devedora. Em termos gerais, tais alterações são positivas para as empresas em dificuldade e se alinham com a finalidade do instituto da recuperação judicial, que tem por objetivo "viabilizar a superação da situação de crise econômico-financeira do devedor, a fim de permitir a manutenção da fonte
produtora, do emprego dos trabalhadores e dos interesses dos credores, promovendo, assim, a preservação da empresa, sua função social e o estímulo à atividade econômica", conforme dispõe o artigo 47 da Lei n° 11.101/2005.
Não parece lógico e nem razoável que a União neutralize ou diminua o efeito de sua principal medida para que se alcance a finalidade da norma, que é a concessão de prazos e condições especiais para pagamento das obrigações vencidas e vincendas, exigindo tributação sobre os descontos obtidos. Dessa forma, não há dúvidas de que as alterações promovidas pela Lei n° 14.112/20 são essenciais para as tantas empresas que tentam se reerguer, especialmente em tempos difíceis de crise sanitária.
Bruno Marques Santo é advogado especialista da área Tributária Consultiva e sócio do escritório Finocchio & Ustra Advogados.
Camila Somadossi é advogada especialista da área de Recuperação Judicial e sócia do escritório Finocchio & Ustra Advogados.
Fernanda Sampaio é advogada especialista da área Tributária Consultiva do escritório Finocchio & Ustra Advogados.
https://www.conjur.com.br/2021-abr-05/opiniao-impactos-fiscais-alteracoes-lei-falencias
A repercussão do ICMS-ST na base de cálculo do PIS e da
Cofins
Fonte: Consultor Jurídico
Por: Marcio Abbondanza Morad e Sergio Carrer
Data: 05/04/2021
A inconstitucionalidade da inclusão do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) na base de cálculo do Programa de Integração Social (PIS) e da Contribuição para
Financiamento da Seguridade Social (Cofins), decidida pelo Supremo Tribunal Federal em março de 2017, é, sem dúvidas, um dos temas tributários de maior impacto para os contribuintes, dele surgindo várias questões adjacentes, como a de se perquirir se o ICMS incidente sob o regime de substituição tributária (ICMS-ST) também estaria abarcado nos efeitos desse julgamento.
Recentemente a 2ª Turma do Supremo Tribunal de Justiça proferiu posição sobre esse tema no REsp 1885048, ao decidir que o contribuinte substituído não tem o direito de excluir o ICMS-ST da base dessas contribuições, sob o argumento de que o tributo é recolhido pelo substituto tributário assumindo a feição de tributação direta, sem repercussão na cadeia. Há outros acórdãos e decisões monocráticas nesse sentido dessa mesma turma do STJ.
Esse entendimento não está alinhado à interpretação jurídica adotada pelo STF quando tratou do tema da substituição tributária e sua fenomenologia na apuração do ICMS e também aos julgados que vêm sendo proferidos pelos Tribunais Regionais Federais (TRFs) e pela 1ª Turma do STJ sobre o tema em relação às referidas contribuições.
Pelo regime de substituição tributária, o primeiro agente da cadeia de produção, circulação e consumo de um produto recolhe, antecipadamente, o tributo que seria devido pelo contribuinte adquirente na etapa posterior de revenda. Por antecipar a obrigação tributária sobre uma operação futura ainda não realizada, mas que se presume vai ocorrer, o ICMS-ST é calculado sobre uma base estimada.
Esse mecanismo foi analisado pelo Pleno do STF em 2002, quando decidiu que o fato gerador presumido do ICMS-ST era definitivo, dando ensejo à restituição do ICMS ao contribuinte apenas na hipótese de sua não realização, sem possibilidade de ressarcimento caso o valor real da operação fosse menor do que o presumido.
Essa questão foi novamente apreciada pelo STF em 2016, com efeito de repercussão geral, ocasião em que decidiu que é também devida a restituição do ICMS-ST recolhido a maior quando a operação final se concretizar por um valor inferior ao presumido. A nova visão do STF definiu que a restituição do excesso é devida toda vez que o fato gerador presumido não se concretizar empiricamente da forma como antecipadamente tributado.
O aspecto principal que motivou a alteração jurisprudencial foi o de que o ICMS-ST pago antecipadamente pelo contribuinte substituto é provisório, e não definitivo como antes entendia aquela corte, ou seja, só com a realização da real operação de venda é que o fato gerador do ICMS se concretiza definitivamente, procedendo-se, nesse momento, à aferição entre a base ficta utilizada para o regime de substituição e a base real.
Diante da atual posição do STF acerca da natureza antecipatória do regime de substituição, não se pode admitir que a cadeia de repercussão econômica do tributo se encerre na figura do substituto, como assinala o julgamento da 2ª Turma do STJ. Ao contrário, a tributação indireta, própria do ICMS, como tributo plurifásico que é, se mantém no regime do ST e só se exaure no último impulso da mercadoria, qual seja, a venda para o consumidor final.
O ônus do ICMS-ST recai sobre o substituído. Tanto isso é verdade que a Lei Complementar nº 87/96 (que instituiu o ICMS) previu, em seu artigo 10, que é assegurado ao substituído o direito à restituição do imposto pago por força da substituição se o fato gerador presumido não se realizar. Essa realidade legislativa foi realçada com a decisão do STF ao entender que se a operação real ocorrer por valor inferior à estimada no regime do ST também caberá a restituição.
O contribuinte substituído não recolhe valores ao Estado porque o substituto o fez em seu lugar, mas suporta o ônus tributário decorrente. A primeira operação gera o recolhimento provisório ao Estado. A cadeia de circulação e repercussão jurídica do ICMS, como tributo plurifásico que é, continua aberta até a próxima venda ao consumidor final, quando, então se conhece o valor real da operação e a carga incidente.
O fato de o imposto não ser destacado no documento fiscal de saída da mercadoria não significa dizer que não incidiu na operação. O que ocorreu foi a antecipação do recolhimento pelo substituto tributário tomando-se como termo uma base presumida e precária. E daí surge o direito de o contribuinte substituído ressarcir-se do ICMS-ST quando a base usada para recolhimento for maior do que o valor real da efetiva saída. Por outro lado, as unidades federadas também já estão regulando a cobrança do complemento do tributo quando o valor de saída for maior do que a base presumida.
Em razão de tudo isso, estando o substituído sujeito ao PIS e à Cofins, o ônus do ICMS é suportado por ele e é incluído implicitamente no cômputo de sua receita bruta, sujeita a essas contribuições. Em suma, no momento da saída da mercadoria é que fica configurado o fato gerador do ICMS e, por conseguinte, a sua incidência, independentemente de ter havido ou não destaque do imposto na nota fiscal de saída. Portanto, o ICMS-ST, com exceção da parcela que for objeto de ressarcimento, deve ser excluído da base de cálculo destas exações em face da inconstitucionalidade de sua inclusão decidida pelo STF em março de 2017, com efeito de repercussão geral.
Espera-se que esses aspectos venham a ser considerados pelo STJ em futuros recursos — especialmente no julgamento do EREsp 1428247, que pretende uniformizar o entendimento
daquela corte sobre o tema —, conduzindo à consolidação da jurisprudência em favor desse direito do contribuinte substituído com base nas lições do STF, que já negou a existência de repercussão geral sobre o tema.
Marcio Abbondanza Morad é especialista em Direito Tributário pela USP e sócio na RVC Advocacia e Consultoria Tributária e Empresarial.
Sergio Carrer é sócio no escritório RVC Advocacia e Consultoria Tributária e Empresarial.
https://www.conjur.com.br/2021-abr-05/opiniao-icms-st-base-calculo-pis-cofins
Relatório do Insper analisa órgãos de julgamento tributário
de outros países
Fonte: Consultor Jurídico
Data: 06/04/2021
Um estudo preliminar promovido pelo Núcleo de Tributação do Insper analisa a composição dos órgãos de julgamento tributário de sete países e os compara com o Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) brasileiro. O relatório "Contencioso administrativo tributário federal: uma análise comparativa entre Brasil e sete países" foi concluído no último mês de março. A pesquisa mostra, por exemplo, que o órgão de julgamento tributário alemão escolhe seus integrantes por meio de uma comissão composta por ministros e membros do Parlamento. Já nos EUA, o processo de seleção conta com participação do Executivo, que faz a nomeação, e do Legislativo, responsável por sabatinar os indicados. Também são analisados Argentina, Espanha, França, Itália e Portugal.
Segundo os autores do trabalho, o objetivo é contribuir com o debate sobre a estrutura e o funcionamento do formato existente no Brasil, bem como sobre a extinção do voto de qualidade. O relatório também traz informações sobre a participação dos contribuintes na elaboração de normas tributárias. As principais fontes usadas pelos autores foram a legislação e os sites dos próprios órgãos de cada país, além de publicações especializadas em contencioso tributário das jurisdições
analisadas.
https://www.conjur.com.br/2021-abr-06/relatorio-insper-analisa-tribunais-tributarios-outros-paises
A capitalização composta de juros na jurisprudência
brasileira
Fonte: Consultor Jurídico
Por: Gledson Campos, Luis Ambrósio e Lucas Carneiro
Data: 07/04/2021
A discussão acerca da possibilidade de cobrança de juros sobre juros (também chamada de capitalização composta de juros ou de anatocismo) não é nova no Direito. De fato, ela tem sido tópico de análise pela doutrina e objeto de diversas decisões judiciais, com enormes impactos nas práticas financeiro-comerciais cotidianas. Por isso, é importante esclarecer o que a jurisprudência tem entendido sobre a prática.
Como uma regra geral, o ordenamento jurídico brasileiro veda a capitalização de juros, conforme expresso na denominada Lei da Usura (Decreto nº 22.626/1933). Nos termos do artigo 4º da referida norma, "é proibido contar juros dos juros: esta proibição não compreende a acumulação de juros vencidos aos saldos líquidos em conta corrente de ano a ano". No mesmo sentido, segue a Súmula 121 do Supremo Tribunal Federal, que disciplina que "é vedada a capitalização de juros, ainda que expressamente convencionada".
A leitura isolada do decreto e da súmula do STF tem levado à repetição do (quase) mantra de que o anatocismo seria integralmente vedado pelo ordenamento jurídico brasileiro, sendo autorizada única e exclusivamente a cobrança simples de juros. Contudo, é preciso ter cuidado com essa afirmação, uma vez que há importantes exceções a essa regra que podem impactar sobremaneira negociações financeiro-comerciais.
sumulados) de que as disposições da Lei da Usura não são aplicáveis a instituições que integram o Sistema Financeiro Nacional (Súmula 596/STF) e de que a legislação sobre cédulas de crédito rural, comercial e industrial admite a capitalização de juros (Súmula 93/STJ). Ambas as súmulas são decorrentes da MP 2.170-36/2001.
O artigo 5º dessa primeira norma regulamenta que "nas operações realizadas pelas instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional, é admissível a capitalização de juros com periodicidade inferior a um ano". Portanto, a partir desse entendimento sumulado, tem-se decidido que não há vedação à prática de anatocismo por instituições como bancos, caixas econômicas e cooperativas de crédito, por exemplo.
O entendimento de que as limitações de juros previstas na Lei da Usura não são aplicáveis a instituições que integram o Sistema Financeiro Nacional (SFN) tem sido amplamente aceito pelos tribunais de segunda instância. Por exemplo, há diversos julgados do Tribunal de Justiça de São Paulo que seguem no sentido de afirmar que "as regras da Lei de Usura não se aplicam às taxas de juros cobradas nas operações realizadas pelas pessoas jurídicas componentes do SFN".
Cumpre esclarecer que a inexistência de vedação à prática de anatocismo não significa que não haja limitações a essa espécie de capitalização. Na verdade, há diversos requisitos a essa prática, como, por exemplo, a necessidade de que a pactuação da cobrança de juros sobre juros esteja expressa no contrato e que a metodologia de cálculo seja bastante clara, bem como o de que inexista abusividade na taxa pactuada (ou seja, se os juros destoarem demais da taxa média praticada pelo mercado para a operação específica) em situações que envolvam relação de consumo.
O objetivo aqui não é apontar todas as hipóteses em que o ordenamento jurídico brasileiro autoriza a prática da capitalização composta de juros. Na realidade, o verdadeiro intuito da análise é combater o entendimento quase dogmático de que a prática de anatocismo não é aceita pela jurisprudência, alertando que qualquer operação financeira em que haja a cobrança de juros exige uma análise detalhada, a fim de se evitar futuras surpresas relativas à sua capitalização.
Gledson Campos é sócio do Trench Rossi Watanabe. Luis Ambrósio é sócio do Trench Rossi Watanabe. Lucas Carneiro é associado do Trench Rossi Watanabe.
Senado vota PEC que impede cobrança de impostos sobre
vacinas
Fonte: Consultor Jurídico
Data: 08/04/2021
O Senado deve votar nesta quinta-feira (8/4) a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que institui imunidade tributária por cinco anos para vacinas. A PEC 4/2021, do senador Otto Alencar (PSD-BA), foi batizada de PEC Major Olimpio em homenagem ao senador que morreu em março, vítima de Covid-19. A Emenda, se aprovada, proíbe que a União, Estados, Distrito Federal e municípios cobrem impostos sobre armazenamento, comercialização, transporte e qualquer serviço relacionado à aplicação dos imunizantes. Ainda com relação ao coronavírus, o Plenário também votará o Projeto de Lei 939/2021 que impede o reajuste anual de medicamentos enquanto durara a pandemia. O PL veda somente ajustes futuros e não permite reembolso de pagamentos já ocorridos.
Na pauta do Senado também consta o Projeto de Decreto Legislativo (PDL) 55/2021 que interrompe o decreto presidencial que facilitava o acesso à armas de fogo. Além disso, será votado um projeto da Frente Parlamentar pelo Desarmamento. O Plenário analisará, depois de terminar as votações, três acordos internacionais: um com a Guatemala, sobre serviços de transporte aéreo (PDL 76/2020), e dois com a República Dominicana, sobre serviços aéreos (PDL 77/2020) e isenção de vistos de turismo e negócios (PDL 78/2020).
Confira a agenda completa:
1) PEC 4/2021 — relator: senador Antonio Anastasia (Autoria: senador Otto Alencar e outros)
Prevê a imunidade tributária para vacinas humanas no prazo de cinco anos.
(Autoria: senador Lasier Martins)
Veda o reajuste anual de medicamentos durante Emergência em Saúde Pública de Importância Nacional.
3) PDL 55/2021 — relator: senador Marcos do Val (Autoria: senador Paulo Rocha)
Susta o Decreto 10.630, de 12 de fevereiro de 2021, que altera o Decreto nº 9.847, de 25 de junho de 2019, que regulamenta a Lei nº 10.826, de 22 de dezembro de 2003, para dispor sobre a aquisição, o cadastro, o registro, o porte e a comercialização de armas de fogo e de munição e sobre o Sistema Nacional de Armas e o Sistema de Gerenciamento Militar de Armas.
4) PRS 12/2021 — relator: senador Paulo Rocha (Autoria: senadora Eliziane Gama)
Cria a Frente Parlamentar pelo Desarmamento.
5) PDL 76/2020 — relator: senador Esperidião Amin (Autoria: Câmara dos Deputados)
Aprova o texto do Acordo sobre Serviços de Transporte Aéreo entre o Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da República da Guatemala.
6) PDL 77/2020 — relator: senador Esperidião Amin (Autoria: Câmara dos Deputados)
Aprova o texto do Acordo de Serviços Aéreos entre a República Federativa do Brasil e a República Dominicana.
7) PDL 78/2020 — relator: senador Esperidião Amin (Autoria: Câmara dos Deputados)
Aprova o texto do Acordo entre a República Federativa do Brasil e a República Dominicana sobre Isenção de Vistos de Turismo e Negócios. Com informações da assessoria de imprensa do Senado.
https://www.conjur.com.br/2021-abr-08/senado-vota-pec-impede-cobranca-impostos-vacinas
MP pede que TCU impeça Caixa de vender participação no
Banco Pan
Fonte: Consultor Jurídico
Data: 08/04/2021
O subprocurador-Geral do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União, Lucas Rocha Furtado, pediu nesta quinta-feira (8/4) que a corte barre a venda da participação da Caixa Econômica Federal no Banco Pan até que sejam apuradas eventuais irregularidades no processo de desestatização. A Caixa Participações vendeu ao BTG Pactual, por R$ 3,7 bilhões, toda a sua participação no Banco Pan. Isso equivale a 26,8% do capital social do Pan.
"É de conhecimento público a intenção do atual governo em 'privatizar tudo' – na linguagem do atual ministro da Economia. A par de qualquer posição política ou vantagem econômica nesse processo de desestatização, não estou a questionar a escolha do governo na privatização. Porém, o modus operandi desse processo necessita ocorrer sob o manto da legislação", diz Furtado na representação enviada ao TCU.
Em 2019, o Supremo Tribunal Federal decidiu que a alienação do controle acionário de empresas públicas e sociedades de economia mista exige autorização legislativa e licitação. A ordem não se aplica, no entanto, à alienação do controle de subsidiárias, o que acontece na venda do Banco Pan. Para Furtado, a Caixa estaria burlando a decisão ao vender o seu controle meio de
uma subsidiária.
"Esse controle se faz necessário ante os fortes indícios de que a Caixa Econômica Federal vem se valendo de uma verdadeira manobra, para alienar seus ativos (e subsidiárias) sem se submeter à autorização legislativa e ao procedimento licitatório na vigência de uma medida provisória. Essa manobra representa claro e evidente desvirtuamento do que foi decidido pelo Supremo Tribunal Federal acerca da matéria", diz Furtado.
https://www.conjur.com.br/2021-abr-08/mp-tcu-impeca-caixa-vender-participacao-pan
O advento do Sistema de Pagamentos Brasileiro
SPB é conquista que deixou o Brasil alinhado com o que havia de mais moderno em matéria de regulamentação sistêmica
Fonte: JOTA
Por: Otavio Yazbek
Data: 1º/04/2021
A reforma do Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB), baseada na Lei nº 10.214/2001, é, por mais de um motivo, um dos maiores marcos da regulação financeira brasileira. Tive a oportunidade de acompanhar diversas etapas da implementação do SPB, como advogado e depois como Diretor de Regulação da antiga BM&F, que criou três clearings.
Durante o período em que estive na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), de 2009 a 2013, acompanhei as discussões sobre a matéria nos fóruns globais pós-crise. O SPB é, unanimemente, uma conquista, que deixou o Brasil alinhado com o que havia de mais moderno em matéria de regulamentação sistêmica. O presente artigo explorará algumas características do regime então criado.
A importância da regulação dos sistemas de pagamentos é clara. Sistema de pagamentos é o conjunto de institutos relacionados à transferência de recursos entre os agentes econômicos. De um modo geral, esses sistemas envolvem diferentes níveis, mas o importante a destacar, aqui, é que, não raro, as movimentações se refletem em transferências interbancárias, em um sistema complexo.
Quando um banco passa por problemas de liquidez ou de solvência, ele pode interromper transferências devidas para terceiros. Além dos problemas tópicos, tais interrupções podem gerar efeitos mais graves, de ordem sistêmica – instituições que deveriam receber recursos, por qualquer motivo, podem, também, tornar-se ilíquidas, o que faria com que uma crise inicialmente isolada se alastrasse. Daí a necessidade de mecanismos de proteção próprios, que se juntam aos outros instrumentos de regulação sistêmica (como regimes especiais de insolvência e regras de redesconto/acesso a liquidez, por exemplo), em uma verdadeira rede de proteção do sistema financeiro.
Por muito tempo, o asunto recebeu menos atenção do que deveria. Apenas no início da década de 1990 o Committee on Payment and Settlement Systems do Bank for International Settlements começou a tratar da matéria, com a publicação dos Core Principles for Systemically Important Payment Systems, que são periodicamente revistos. De um modo geral, esses core principles tratam da base legal adequada para o sistema de pagamentos (a chamada “sound legal basis”); dos riscos com que se defrontam as instituições financeiras; e também sobre as regras, procedimentos e mecanismos para a criação dos sistemas de pagamentos, para a instituição de salvaguardas e de regimes de contingências, dentre outros.
No Brasil, as discussões para a reformulação do modelo vigente se iniciaram a partir da reestruturação do SFN que se tornou necessária após estabilização financeira de fins da década de 1990. Até então, o Banco Central do Brasil (BCB) efetivamente assumia os riscos das atividades bancárias, promovendo a transferência de reservas entre bancos mesmo quando a instituição que dera a ordem para tal não dispunha de fundos. Com isso, evitava-se o alastramento dos efeitos de um problema isolado.
O preço a pagar por isso, porém, era elevado. Ante a certeza de que o BCB atuaria, as instituições operavam por longos períodos com a conta Reservas Bancárias negativa. Em caso de liquidação, era o BCB que, por haver dado aquele crédito, assumia as perdas. Uma parte da “conta” era, então, sempre paga pela sociedade.
Tal diagnóstico foi a base para a decisão do que, à época, foi informalmente chamado de “fechamento das Reservas Bancárias”, quando se passou a vedar movimentações para as quais
não houvesse recursos disponíveis. Ante a prática até então adotada, porém, uma medida assim restritiva poderia promover um imenso enxugamento da liquidez do mercado brasileiro. Uma das formas de se enfrentar esse problema passava pela valorização das câmaras de registro, compensação e liquidação de operações (as chamadas clearinghouses), que permitiriam que diversas operações se liquidassem de maneira compensada. Para isso se impunha uma nova base legal.
Essa base foi dada pela Lei nº 10.214/2001. A partir da implementação do disposto nesse diploma, as reservas bancárias passariam a ser transferidas em tempo real, por intermédio do Sistema de Transferência de Reservas (STR), pelo seu valor bruto (a liquidação bruta em tempo real, ou “LBTR”), apenas sendo efetuadas se houvesse a correspondente disponibilidade de valores. Esta é a regra geral.
Porém, determinadas operações poderiam ser liquidadas por intermédio das clearings. Neste segundo caso, a liquidação das operações passaria a se dar por valores líquidos compensados (no mecanismo que é referido, na literatura especializada, como “LDL”, ou de liquidação diferida por valores líquidos, objeto de compensação).
Quando submetidas a uma clearing, todas as operações passam a ter, como contraparte, não a contraparte original, mas a respectiva câmara – que será a credora ou a devedora dos valores líquidos. Nas câmaras, ocorre o que o art. 3º da Lei nº 10.214/2001 chama de “compensação multilateral de operações” – as exposições de um determinado agente em relação aos demais, que com ele operam, são (i) efetivamente assumidas perante a câmara e (ii) vão sendo compensadas entre si, daí decorrendo uma única posição líquida.
Os sistemas de liquidação assim constituídos funcionam como verdadeiros jogos de soma zero, recebendo valores ou ativos dos participantes que estejam “liquidamente devedores” e transferindo estes aos participantes “liquidamente credores”. Tal sistema apóia-se em diversas salvaguardas, como, por exemplo: o condicionamento de um pagamento à entrega da respectiva contraprestação pelo participante que o deve receber; o estabelecimento de horários e de outros mecanismos para a caracterização segura de inadimplementos; o depósito de garantias pelos participantes; a possibilidade de recurso a fundos mutualizados, dentre outros.
São justamente essas salvaguardas que se apoiam na Lei nº 10.214/2001 (e, de forma mais detalhada, na Resolução CMN nº 2.882/2001 e na Circular BCB nº 3.057/2001). Na sequência, trataremos de algumas delas.
intervenção, falência ou liquidação extrajudicial, a que seja submetido qualquer participante, não afetarão o adimplemento de suas obrigações, assumidas no âmbito das câmaras ou prestadores de serviços de compensação e de liquidação, que serão ultimadas e liquidadas pela câmara ou prestador de serviços, na forma de seus regulamentos”.
O parágrafo único do mesmo dispositivo destaca, ainda, que “o produto da realização das garantias prestadas pelo participante submetido aos regimes de que trata o caput, assim como os títulos, valores mobiliários e quaisquer outros seus ativos, objeto de compensação ou liquidação, serão destinados à liquidação das obrigações assumidas no âmbito das câmaras ou prestadores de serviços”.
A partir de tais disposições se pôde excepcionar, também, a regra geral dos procedimentos concursais, então estabelecida pelo Decreto-Lei nº 7.661/1945, que também se aplicava aos regimes estabelecidos pela Lei nº 6.024/1974. Os valores compensados passaram a ser protegidos, sem se poder novamente desmembrá-los e evitando-se, ainda, outros efeitos do processo falimentar, como a obrigação de devolução das garantias à massa falida e de subseqüente habilitação perante esta para que, apenas em um segundo momento, se possa receber o crédito existente.
Permitiu-se, desta maneira, não apenas que o sistema funcionasse de maneira adequada mesmo em caso de quebra de algum participante, mas também que a liquidação das operações se desse sem maiores atrasos, paralelamente a quaisquer outras medidas de cunho concursal tomadas. Posteriormente, a Lei no 11.101/2005 incorporou, em seus artigos 193 e 194, tais exceções, reduzindo em muito a possibilidade de questionamentos.
Outro importante mecanismo é o regime que se criou para a segregação entre os patrimônios da clearing e da entidade que a administra e entre os patrimônios de diferentes clearings administradas pela mesma entidade. A Lei nº 10.214/2001 prevê, em seu art. 5o, que as pessoas jurídicas que administram mais de uma clearing ficam obrigadas a constituir, para cada sistema, um patrimônio segregado, excepcionando a disciplina típica do patrimônio como universalidade de bens pertencentes a uma única pessoa e como garantidor, a rigor, das obrigações por ela assumidas.
Foi com base nesse regime que foram criados alguns sistemas de liquidação de operações, abrangendo transferências interbancárias comuns (a CIP), operações à vista e com derivativos nos mercados de bolsa (hoje sob a CBLC), operações de câmbio interbancário à vista (também sob a CBLC) e com títulos públicos (que teve suas atividades encerradas).
Em uma experiência inovadora, se oferece também, no Brasil, a liquidação de operações realizadas com derivativos no mercado de balcão. Mesmo em casos em que não se apresentavam riscos propriamente sistêmicos, como ocorre com as movimentações de cartão de crédito, se têm optado por constituir tais mecanismos.
Da implementação do modelo para cá houve, evidentemente, aprimoramentos. Com a crise de 2008, foi importante tratar da possibilidade de acesso das clearings e de participantes que não sejam detentores de conta de reservas bancárias (como as sociedades corretoras) aos mecanismos de assistência de liquidez do BCB. Da mesma maneira, a infraestrutura então criada permitia inovações: foi sobre ela que se deram outros importantes passos, como a regulamentação dos arranjos e meios de pagamento (em especial a partir da Lei nº 12.865/2013).
Otavio Yazbek – Sócio de Yazbek Advogados. Professor do Insper. Ex-diretor da CVM (2009-2013). https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/regulacao-financeira/advento-sistema-pagamentos- brasileiro-01042021?utm_campaign=jota_info__ultimas_noticias__destaques__01042021&utm_medium=em ail&utm_source=RD+Station
Os limites do consequencialismo
A incompatibilidade do argumento financeiro da Fazenda Pública com a modulação de efeitos em matéria tributária
Fonte: JOTA
Data: 1º/04/2021
O crescente dinamismo das relações sociais e econômicas tem imposto desafios cada vez maiores aos aplicadores do Direito, não raramente, faltando respostas satisfatórias do ordenamento jurídico, à luz da dogmática jurídica, às novas demandas apresentadas. Surge, nesse contexto, a proposta de uma atividade judicante não limitada à subsunção do fato à norma, mas de construção de decisões válidas por meio da retórica[1], em que a identificação da decisão correta à controvérsia apresentada dependeria, inclusive, da avaliação das consequências jurídicas dela
decorrentes[2].
Porém, é preciso avaliar os riscos ao sistema jurídico de se afastar da subsunção para se prevenir consequências jurídicas. Em primeiro lugar, a utilização desse recurso sem atenção a limites mínimos, esvazia a segurança jurídica ao limitar a previsibilidade em relação à norma. Além disso, é preciso se ponderar a carência de recursos adequados e suficientes à disposição do aplicador do Direito para projetar e avaliar os mais diversos efeitos de todas as decisões que poderia adotar em dada situação[3].
A necessidade da crítica se confirma especialmente no contexto em que o consequencialismo tem sido aplicado pelos Tribunais pátrios: i) a partir de argumentos que não se conectam com os propósitos perseguidos pelo ordenamento e; ii) sem a demonstração criteriosa da consequência indicada como contrária a esses propósitos.
O argumento financeiro consequencialista, por exemplo, tem sido reiteradamente utilizado pela Fazenda Pública para se pleitear a modulação dos efeitos de decisões do Supremo Tribunal Federal que porventura invalidem cobranças tributárias, baseando-se em supostas perdas arrecadatórias[4]. Porém, é preciso registrar que o argumento consequencialista visa a mitigar consequências que desafiam o próprio objetivo delineado na norma positivada. No âmbito do Direito Tributário, estaria limitado pelas garantias individuais e limitações ao poder de tributar[5], plexo normativo em que se funda relação tributária.
Nesse contexto, é o caso de se questionar, em primeiro lugar, se poderia o ente tributante, detentor dos instrumentos para se constituir e alterar tributos, valer-se de argumentos consequencialistas para manter cobranças declaradamente inválidas[6]. Especificamente, para fins de modulação dos efeitos em matéria tributária, é preciso se identificar, sem perder de vista os citados valores constitucionais, os principais objetivos perseguidos pela norma, consubstanciada no art. 27 da Lei nº 9.868/1999: de se preservar a segurança jurídica e o excepcional interesse social[7].
A formação da segurança jurídica no âmbito tributário deve ser compreendida a partir da confiança depositada pelos contribuintes nas autoridades administrativas no processo de concretização da norma tributária. O maior problema se encontra na aplicação do excepcional interesse social. Este não se confunde com o interesse arrecadatório do Estado, ainda que a arrecadação seja instrumento de realização de políticas públicas. O legislador estabeleceu uma consequência imediata a ser preservada, consistente no excepcional interesse social, desdobrado nos direitos sociais, não tendo estabelecido a proteção mediata da arrecadação para eventual realização de política pública.
Por outro lado, admitindo-se a confusão dos conceitos de interesse social e interesse arrecadatório do Estado, é preciso avaliar a qualidade do argumento levado pelas Fazenda Públicas. José Maria Arruda de Andrade expõe a fragilidade dos argumentos financeiros consequencialistas utilizados no pedido de modulação de efeitos formulado nos autos do Recurso Extraordinário nº 574.076/PR[8], em que foi declarada inconstitucional a inclusão do ICMS na base de cálculo do PIS/COFINS. Tathiane Piscitelli[9] vai além, demonstrando, através de minucioso estudo, a impropriedade, ou, no mínimo, a falta de clareza quanto aos riscos fiscais alardeados pela União Federal naquela ação.
Como se pode perceber, admitida a premissa de que o consequencialismo pode pautar as decisões judiciais, à Fazenda Pública não socorreria o argumento financeiro para fins de modulação dos efeitos em matéria tributária, porque não é compatível ao caráter protetivo da Constituição aos contribuintes e, ainda que o fosse, não poderia ser suscitado sem a demonstração cabal dos referidos impactos, o que não se tem observado.
https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/pauta-fiscal/argumento-financeiro-fazenda-publica-
materia-tributaria-pauta-fiscal-01042021?utm_campaign=jota_info__ultimas_noticias__destaques__01042021&utm_medium=em ail&utm_source=RD+Station
Portaria RFB nº 10/2021 e as limitações ao aproveitamento de
créditos tributários
Portaria é mais um ato normativo a ressaltar a importância de que o contribuinte tenha conhecimento dos caminhos
Fonte: JOTA
Por: Clairton Kubassewski Gama
Data: 1º/04/2021
Através da Portaria RFB nº 10, de 19/02/2021, publicada em 1º de março, a Receita Federal criou uma equipe de auditoria encarregada de analisar pedidos de compensação de
créditos decorrentes de ações judiciais em que fora determinada a exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da Cofins, com competência, inclusive, para realizar o lançamento de tributos e multas eventualmente apurados quando da análise das declarações de compensação. Como já foi amplamente divulgado, em março de 2017, no julgamento do Recurso Extraordinário nº 574.706, o Supremo Tribunal Federal (STF) fixou o Tema nº 69 da Repercussão Geral com a tese de que “o ICMS não compõe a base de cálculo para a incidência do PIS e da Cofins”.
Em decorrência da fixação dessa tese pelo STF, as ações individuais ajuizadas pelos contribuintes estão sendo julgadas procedentes pelas instâncias ordinárias, para determinar justamente a exclusão do imposto estadual da base de cálculo das referidas contribuições. Com o trânsito em julgado destas ações individuais, os contribuintes passam a buscar a concretização de seu direito creditório, ou seja, o ressarcimento dos valores indevidamente recolhidos.
E o caminho quase sempre eleito pelos contribuintes para tanto é o da compensação administrativa, com fundamento na Lei nº 9.430/1966. Contudo, conforme prevê a Instrução Normativa (IN) RFB nº 1.717/2017, principalmente em seu art. 100, antes de o contribuinte utilizar o crédito para compensação, é necessário realizar um procedimento prévio de habilitação deste crédito.
E, nos termos do art. 74, § 3º, VII, da Lei 9.430/1996, antes da conclusão do procedimento prévio o contribuinte fica impedido de apresentar a declaração de compensação. Inclusive, conforme previsto nos arts. 75, § 1º, e 76, XIV, da referida IN RFB nº 1.717/2017, caso o contribuinte apresente a declaração de compensação antes da conclusão do procedimento prévio, a declaração será considerada como não declarada e o contribuinte estará sujeito à aplicação de multa de 75%.
Interessante observar que a mencionada previsão do art. 74, § 3º, VII, da Lei 9.430/1996, no sentido de vedar a apresentação da declaração de compensação antes da conclusão do procedimento prévio, somente veio ao ordenamento jurídico em 2018, através da Lei nº 13.670/2018. Quer dizer, tal procedimento prévio somente passou a ser exigido após o julgamento pelo STF do Recurso Extraordinário nº 574.706, o que já aponta para uma tentativa de retardar o aproveitamento dos créditos decorrentes de tal julgamento.
Outrossim, é importante destacar que não há previsão de interrupção do prazo prescricional para aproveitamento do crédito enquanto este procedimento administrativo prévio não é concluído pelo Fisco. Contudo, a mencionada IN RFB nº 1.717/2017 prevê em seu art. 100, § 3º, o prazo de trinta dias para que seja concluído o referido procedimento.
Assim, diante do risco pela ausência de suspensão ou interrupção do prazo prescricional para aproveitamento do crédito, e havendo previsão específica de prazo para conclusão do procedimento prévio, caso descumprido tal prazo pelo Fisco, é perfeitamente viável (e recomendável) aos contribuintes que busquem o Judiciário, por exemplo, por meio do manejo de Mandado de Segurança visando a proteção de seus direitos.
Agora, através da mencionada Portaria RFB nº 10, percebe-se uma nova tentativa de retardar, ou até de desestimular, o aproveitamento dos créditos oriundos da exclusão do ICMS da base de cálculo do PIS e da Cofins. É que, com a criação da equipe de auditoria prevista em tal Portaria, avizinha-se a possibilidade de que toda e qualquer apresentação de declaração de compensação referente a tais créditos dê ensejo a um procedimento fiscal.
Tal perspectiva é ainda ressaltada pelo disposto no art. 4º da indigitada Portaria, que possibilita a expedição de Termo de Distribuição do Procedimento Fiscal (TDPF) em decorrência das atividades de fiscalização da equipe de auditoria. E sendo instaurando procedimento administrativo para verificação das declarações de compensação pela equipe de auditoria, mediante expedição do TDPF, volta-se para a situação de impossibilidade de utilização dos créditos, sob pena de as compensações serem consideradas não declaradas e de aplicação da multa de 75%.
E também nessa situação há novamente o risco pela ausência de previsão quanto à interrupção do prazo prescricional para aproveitamento do crédito. Risco agravado aqui, aliás, pois inexiste previsão expressa de prazo para o Fisco concluir este procedimento. Quer dizer, o contribuinte corre o risco de seu crédito ficar indeterminada e indefinidamente sob procedimento fiscal de auditoria, período durante o qual sequer o prazo de prescrição para compensação será interrompido. Em última instância, corre o risco de ver seu direito de crédito ser extinto enquanto aguarda a conclusão da auditoria.
Porém, é possível sustentar o total descabimento de um procedimento administrativo a ser instaurado para verificar a liquidez e certeza de crédito que é decorrente de decisão judicial transitada em julgado. Ademais, via de regra as decisões que determinam a instauração do procedimento fiscal sequer são devidamente fundamentadas, contrariando, assim, o disposto no art. 50 da Lei nº 9.784/1999 e, consequentemente, eivando o ato de nulidade.
Ainda, pode-se sustentar que tal procedimento, na prática, caracteriza a aplicação de uma penalização ao contribuinte. Com efeito, não se trata de simples procedimento de fiscalização, pois para tanto o Fisco já dispõe do prazo de cinco anos para homologação da declaração de compensação. Trata-se, de fato, de uma limitação ao direito creditório do contribuinte, já
reconhecido por decisão judicial definitiva.
Em suma, esta nova Portaria da Receita Federal do Brasil é mais um ato normativo tributário a ressaltar a importância de que o contribuinte tenha conhecimento dos caminhos, tanto administrativos, quanto judiciais, disponíveis para melhor preservar e garantir seus direitos.
Clairton Kubassewski Gama – Mestrando em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Especialista em Direito Tributário pelo Instituto Brasileiro de Estudos Tributários - IBET. Advogado no Kubaszwski Gama Advogados Associados. E-mail: [email protected].
https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/contribuinte-tributario-portaria-stf-01042021?utm_campaign=jota_info__ultimas_noticias__destaques__01042021&utm_medium=em ail&utm_source=RD+Station
A base de cálculo do PIS e da Cofins, Machado de Assis e a
eterna contradição humana
STF chancelou o entendimento de que o ICMS não compõe a base de cálculo do PIS e da Cofins
Fonte: JOTA
Por: Adolpho Bergamini
Data: 05/04/2021
Em “A Igreja do Diabo”, Machado de Assis conta a história sobre a genial ideia do Tinhoso. Cansado de tentar corromper a humanidade na surdina, o Diabo resolveu criar sua própria igreja, cuja doutrina incentivaria a consumação de qualquer pecado. Os homens não mais se sentiriam culpados em cometê-los e o Coisa Ruim finalmente triunfaria.
Foi, então, ter com Deus para falar a Ele sobre sua ideia e, a bem da verdade, para desafiá-lo também. Mas o Divino não se opôs e permitiu a criação desta nova doutrina, que em pouco tempo já reunia uma infinidade de fiéis.
Mas o Diabo notou que as pessoas começaram a realizar caridades e todo tipo de bondade de modo velado. Perguntou a Deus o que estaria acontecendo, afinal, os humanos poderiam cometer os pecados que sempre sonharam sem qualquer recriminação, mas escondidos estavam realizando as bondades que antes se recusavam a fazer. E Deus, onisciente e triunfante, respondeu: “É a eterna contradição humana”.
Cerca de milhares de anos depois deste confronto, em 2017 o Supremo Tribunal Federal (STF) chancelou o entendimento de que o ICMS não compõe a base de cálculo do PIS e da Cofins (RE 574.706). Em suma, a Corte sustentou que a base de cálculo das contribuições – a receita – deve ser entendida como sendo aquela que gera riqueza nova ao contribuinte, que lhe aumente o patrimônio e, portanto, que expresse capacidade contributiva. Nesse contexto, o ICMS não pode integrar a receita tributável porque ele, o ICMS, não é valor que se agrega ao patrimônio do contribuinte porque será repassado ao Estado. Nessa visão, o imposto é, portanto, um valor que apenas transita pelo patrimônio do contribuinte, mas que, de modo algum, integrará o seu resultado.
Pessoalmente tenho certas reservas a esse entendimento, já que, segundo o artigo 13, §1º, da Lei Complementar nº 87/96, o ICMS é, sim, resultado do contribuinte. Afinal, pelo fato de o ICMS ser incorporado ao valor da operação e, por outro lado, se numa operação de venda o valor da operação é uma receita, então nada mais óbvio do que se entender que o ICMS deve compor a base de cálculo do PIS e da Cofins.
Entretanto, essa tese foi vencida no STF, onde vingou o entendimento de que o ICMS não compõe a base de cálculo das contribuições porque não representa nova riqueza ao contribuinte e será repassado ao Estado em momento oportuno. Disso não há dúvidas.
Ocorre que outras teses chamadas filhotes começaram a chegar ao STF, por exemplo, a tese de que o ICMS não pode compor a base de cálculo da CPRB (RE nº 1.187.264). O argumento defendido pelos contribuintes é o mesmo: o imposto não pode compor a base de cálculo da CPRB – receita – porque não representa riqueza nova integrada ao patrimônio do contribuinte, é valor transitório em sua contabilidade e, portanto, não expressa capacidade contributiva.
Entretanto, segundo fora decido pelo STF, o ICMS deve, sim, integrar a base de cálculo da CPRB porque, neste caso, a cobrança das contribuições previdenciárias sobre a receita configura benefício fiscal facultativo. Segundo a Corte, regra geral, tais contribuições são devidas sobre a folha de salários, mas, a União permitiu, por via de veiculação de benefício fiscal que fossem cobradas mediante um percentual sobre a receita para desonerar o custo da folha.
Há, aí, duas impropriedades. Primeiro, por algum tempo a cobrança da contribuição previdenciária sobre a folha de salários foi obrigatória. Ou seja, a incidência de uma alíquota ad valorem sobre a receita bruta auferida era de rigor, não havendo ao contribuinte outra opção senão esta.
Segundo, mesmo que a CPRB seja um benefício fiscal, uma alternativa menos gravosa à incidência sobre a folha de salários, o conceito do que venha a ser receita não pode ser modificado. Um tributo incidente sobre receita ou um benefício fiscal incidente sobre receita são, a rigor, obrigações tributárias incidentes sobre um único conceito – receitas. Não há modificação do aventado conceito pelo fato de haver, ou não, a configuração de um benefício fiscal, a não ser que a lei venha a dispor expressamente sobre a base de cálculo, o que não ocorreu com a CPRB.
Outras teses filhotes logo entrarão em pauta, como, por exemplo, a inclusão, ou não, do ICMS na base de cálculo do IRPJ e da CSLL calculados segundo o regime do lucro presumido, que, ao fim e ao cabo, são percentuais aplicados sobre a receita bruta, aí incluído o ICMS. As perspectivas não são animadoras, é bem possível que o STF venha a frustrar os anseios dos contribuintes e dizer que o ICMS faz parte da base de cálculo do lucro presumido.
Estamos assistindo ao desenrolar de julgamentos divergentes, discrepâncias não suficientemente fundamentadas pelo STF. “É a eterna contradição humana”, disse Ele. Mas, nesse caso, até mesmo o Tinhoso diria que a contradição foi longe demais.
Adolpho Bergamini – Advogado e Professor. Mestrando em Direito Tributário pela FGV/SP. Ex-Conselheiro do CARF. Juiz do Tribunal de Impostos e Taxas (TIT) de São Paulo.
https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/a-base-de-calculo-do-pis-e-da-cofins-machado-de-
assis-e-a-eterna-contradicao-humana-05042021?utm_campaign=jota_info__ultimas_noticias__destaques__05042021&utm_medium=em ail&utm_source=RD+Station
Autonomia do Banco Central e Constituição
Autonomia legal do BC vai muito além da fixação de mandatos para seus dirigentes
Por: Flavio José Roman, Marcel Mascarenhas Dos Santos e Marcelo Madureira Prates
Data: 06/04/2021
Em 24 de fevereiro de 2021, foi editada a Lei Complementar nº 179, segundo a qual o Banco Central do Brasil passa a ser “autarquia de natureza especial caracterizada pela ausência de vinculação a Ministério, de tutela ou de subordinação hierárquica, pela autonomia técnica, operacional, administrativa e financeira, pela investidura a termo de seus dirigentes e pela estabilidade durante seus mandatos” (art. 6º).
O advento da chamada Lei da Autonomia foi precedido de mais de 30 anos de discussões no Parlamento brasileiro, tendo o longo percurso legislativo começado com o projeto de lei apresentado pelo então senador Itamar Franco em 1989.[1] Nada obstante, seguindo o roteiro que já se tornou hábito em nosso contexto de judicialização[2], a Lei da Autonomia foi quase que imediatamente impugnada por meio de ação direta de inconstitucionalidade.[3]
O principal argumento da ação direta é o suposto vício de iniciativa na aprovação do projeto de lei complementar (PLP nº 19, de 2019, de origem do Senado Federal), defendendo-se que a matéria tratada seria reservada à iniciativa do Chefe do Poder Executivo, nos termos do art. 61, § 1º, inciso II, alíneas “c” e “e”, da Constituição.[4]
Argumentam os autores que o reconhecimento legal da autonomia do Banco Central, mediante o estabelecimento de nomeação a termo de seus dirigentes, é matéria reservada a lei de iniciativa do Presidente da República, uma vez que o assunto trata de mera organização administrativa.
A intenção deste breve ensaio é demonstrar que a autonomia legal do Banco Central vai muito além da fixação de mandatos para seus dirigentes. A autonomia consagrada na Lei Complementar nº 179, de 2021, representa, em verdade, a concretização de um programa constitucional de defesa da estabilidade do valor de compra da moeda e da instituição responsável por manter essa estabilidade.
Abordar esse tema exige discutir previamente o que se deve entender por autonomia de um banco central e compreender em que termos o Banco Central brasileiro foi concebido pela Constituição. Enfim, em que termos o poder constituinte concebeu a criação de um órgão encarregado de exercer com exclusividade a competência da União para emitir moeda (art. 164).
A autonomia das autarquias em geral é compreendida como diretamente vinculada ao estabelecimento de mandatos para os seus dirigentes. As autarquias são tidas como especiais justamente em razão do mandato a termo de seus dirigentes: “a única particularidade marcante do tal regime especial é a nomeação pelo Presidente da República, sob aprovação do Senado, dos dirigentes da autarquia, com garantia, em prol destes, de mandato a prazo certo.”[5]
A legislação de gestão das agências reguladoras confirma essa ideia ao estabelecer que a natureza especial “é caracterizada pela ausência de tutela ou de subordinação hierárquica, pela autonomia funcional, decisória, administrativa e financeira e pela investidura a termo de seus dirigentes e estabilidade durante os mandatos” (art. 3º, caput, da Lei nº 13.848, de 25 de junho de 2019). Essa disposição legal, aliás, tem termos bastante próximos à previsão do já referido art. 6º da Lei Complementar nº 179, de 2021.
A rigidez dos mandatos, porém, não deve levar à percepção equivocada de que ela extirpa qualquer hipótese de controle do Poder Executivo sobre os mandatos desses dirigentes. Com efeito, o estabelecimento dos mandatos, no contexto constitucional brasileiro, pressupõe necessariamente, segundo a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal, hipóteses em que a exoneração ou a destituição dos dirigentes contenha a participação ativa da chefia do Executivo, sob pena de inconstitucionalidade.[6] Bem por isso, tanto a Lei nº 9.986, de 18 de julho de 2000, art. 9º, que dispõe sobre a gestão de recursos humanos nas agências reguladoras, quanto a Lei Complementar nº 179, de 2021, art. 5º, contemplam hipóteses específicas de perda de mandato ou exoneração.
Não obstante o relevo dado aos mandatos a termo, a autonomia dos bancos centrais não está vinculada apenas à estabilidade dos mandatos. A autonomia de um banco central pode ser apurada em diversos aspectos: independência operacional, compreendida como a possibilidade de escolha dos instrumentos para gestão da moeda; autonomia finalística, entendida como discricionariedade para a definição dos meios e fins da política monetária; e, ainda, como autonomia política, que abrange a proteção tanto em relação à influência do governo central na gestão da moeda, como em relação a eventual influência do setor privado.
Finalmente, a autonomia deve ser encarada também sob o aspecto financeiro, a limitar, de um lado, o uso do poder monetário para realizar operações fiscais e, de outro, a possibilitar a utilização pelo banco central dos recursos necessários para cumprir o objetivo final da política de gestão da moeda, que é a estabilidade de seu poder de compra.[7]
Daí a conclusão de que não há relação direta e exclusiva entre rigidez de mandatos e autonomia. Jairo Saddi, por exemplo, aponta cinco condições para o estabelecimento de um banco
central autônomo: (i) limitação de objetivos e funções, (ii) especificidade e precisão de metas, (iii) base estatutária para autonomia, (iv) garantias institucionais do Executivo e (v) nomeação da diretoria do banco central.[8]
A rigidez dos mandatos dos dirigentes é, pois, condição necessária, mas não suficiente da autonomia formal de bancos centrais. É preciso apurar na Constituição se o seu texto traz outros aspectos que ensejam ou mesmo requerem a autonomia do Banco Central.
Nesse ponto, o primeiro e certamente o mais relevante dos dispositivos é o art. 164 da Constituição. Logo na cabeça do dispositivo é possível vislumbrar um dos aspectos de autonomia diretamente assegurado ao Banco Central pela Constituição: a competência para, com exclusividade, emitir moeda. Na sequência, surge talvez o ponto culminante da autonomia do Banco Central: a proibição de funcionar como agente financiador do Estado. Com efeito, o § 1º do art. 164 da Constituição estabelece que o Banco Central não pode conceder, seja direta ou indiretamente, empréstimos ao Tesouro Nacional e a qualquer outra entidade que não seja instituição financeira.[9]
Ainda no art. 164, já no seu § 2º, a Constituição, estabelecendo diretamente a autonomia sob aspecto financeiro, confere ao Banco Central a prerrogativa de operar “com títulos de emissão do Tesouro Nacional com o objetivo de regular a oferta de moeda e a taxa de juros.” Por aí se entrevê que as reuniões do Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) são realizadas sob o manto de uma disposição constitucional específica. O estabelecimento da meta da taxa básica de juros a ser perseguida nas operações de mercado aberto – comprando e vendendo títulos públicos federais – é, assim, a concreção ou a execução material de uma diretriz constitucional.
Apesar do estabelecimento de alguns pressupostos específicos, o constituinte não concedeu mandato a termo aos dirigentes do Banco Central. A discussão sobre o tema revela ainda mais complexidade quando se soma ao fato de que os dirigentes do Banco Central são os únicos dirigentes de autarquia referidos expressamente pelo art. 52, inciso III, no qual estão listados os agentes públicos cuja escolha deve ser previamente aprovada pelo Senado Federal.
Afinal, parece um tanto despropositado estabelecer a necessidade de aprovação prévia para a nomeação e permitir a destituição desses dirigentes diretamente pelo Presidente da República e a qualquer tempo. Veja-se, inclusive, que, com exceção do governador de território[10], todos os demais agentes públicos referenciados no art. 52, inciso III, são dotados de mandato, hipótese do Procurador-Geral da República, ou de vitaliciedade, nas hipóteses de magistrados do Judiciário e ministros do Tribunal de Contas da União.