Processo
57369/18.1YIPRT.L1-2
Data do documento
8 de outubro de 2020
Relator
Carlos Castelo Branco
TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE LISBOA | CÍVEL
Acórdão
DESCRITORES
Declarações de parte > Indeferimento > Responsabilidade tributária
SUMÁRIO
I) Constituem pressupostos de admissibilidade da prestação das declarações de parte, em conformidade com o disposto no artigo 466.º do CPC, os seguintes:
a) Requerimento da parte que as pretende prestar;
b) Formulado até ao início da fase das alegações orais na audiência de discussão e julgamento em 1ª. instância; e
c) Que as declarações se reportem a factos em que a parte tenha intervindo pessoalmente ou de que tenha conhecimento direto.
II) O juiz pode rejeitar o requerimento para produção de declarações de parte em caso de inadmissibilidade legal, o que ocorrerá quando os factos sobre os quais tal meio de prova é requerido se encontram plenamente provados (por documento ou por outro meio de prova com força probatória plena) ou beneficiem de prova pleníssima.
III) Às declarações de parte aplica-se o artigo 452.º, n.º 2, do CPC, por força do disposto no n.º 2 do artigo 466.º do mesmo Código, pelo que, o requerente de tal meio de prova deve indicar no requerimento, de forma discriminada, os factos sobre os quais pretende que incidam as suas declarações.
IV) A falta de tal indicação não deve determinar, desde logo, o indeferimento liminar do requerimento, mas antes, o convite pelo Tribunal ao requerente desse meio de prova, no sentido do suprimento dessa falta de indicação.
V) Não encontra cobertura legal no mencionado artigo 466.º do CPC, o despacho que indefere a pretensão tempestiva do réu no sentido de prestar declarações de parte, com a invocação de que, atenta a prova documental e testemunhal produzidas, se considerava esclarecido e era desnecessária a produção de tal meio de prova.
VI) Inexistindo norma que dispense tributação, em conformidade com o princípio geral de tributação ínsito no artigo 1.º, n.º 1, do RCP, deve ser apurada a responsabilidade tributária decorrente da instância gerada e do facto de se ter desenvolvido actividade jurisdicional relevante para efeitos de custas, dos eventuais encargos assumidos e das custas de parte que poderá ter determinado.
VII) Se no momento em que é proferido acórdão não é possível afirmar que o desfecho da apelação de decisão interlocutória, ainda que revogando o decidido em 1ª instância, se reflecte negativamente na esfera das partes, em termos do seu decaimento e não é possível determinar que o proveito do recurso é encontrado relativamente a qualquer delas, impõe-se relegar a decisão sobre a responsabilidade tributária inerente à instância do presente recurso para aquela que decida sobre a responsabilidade tributária da decisão final.
TEXTO INTEGRAL
Acordam na 2.ª Secção do Tribunal da Relação de Lisboa:
1. Relatório:
LUÍS MIGUEL FERREIRA LOPES, LDA., identificada nos autos, requereu providência de injunção contra JP…, também identificado nos autos, peticionando o pagamento pelo requerido, em razão de contrato de empreitada, da quantia de € 10.205,39, acrescida de juros de mora de € 70,46 e da taxa de justiça paga de € 102,00.
Alegou, em suma, que tem por objeto a construção e restauro de edifícios e no exercício da sua atividade, forneceu e prestou diversos serviços ao requerido, originando a factura n.º …/…, emitida em …/04/2018, no valor de €5.651,95, vencida nessa mesma data e a factura n.º …/…, emitida em …/04/2018, no valor de €7.366,40, vencida nessa mesma data, mas que, das faturas vencidas o requerido liquidou apenas € 2.812,96, sendo devedor da quantia de €10.205,39 e respetivos juros de mora.
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O requerido deduziu oposição invocando, em suma, que nada deve, sendo a sua mulher arquiteta de interiores e no âmbito das suas funções conheceu a requerente com que trabalhava com alguma regularidade e pela confiança estabelecida, o requerido pediu à requerente um orçamento “folgado” para apresentar ao seu Banco e conseguir obter um financiamento bancário/crédito para obras de apartamento de 60 m2, na Rua …, … A … Esquerdo em Oeiras, que tinha comprado para remodelar e posteriormente vender. Na sequência, a autora no dia 17/05/2017, elaborou o Orçamento com a Ref. …-2017 –… – …, no valor total de 26.420,50 €, que deveria estar ligeiramente acima do custo total da obra, incluindo mão de obra e materiais, conforme combinado. O referido orçamento foi aceite pelo R. depois de ouvida a mulher R. que tem muita experiência neste tipo de remodelações, e o contrato de empreitada foi então celebrado com base neste orçamento após aprovação do Banco a que o R. recorreu para se financiar tendo sido acordado que o R. comprava e escolhia os materiais, como veio a acontecer. Já a mão de obra foi paga na totalidade do seguinte modo: no dia 22/11/2017 € 2.500,00; no dia 28/12/2017 € 2.000,00; no dia 05/01/2017 € 4.500,00; Total de mão de obra: € 9.000,00 + € 2.812,96 = € 11.812,96. O pagamento da quantia de 2.812,96 €, resulta de um crédito que a mulher do R. tinha sobre a A. e que resulta do Recibo n.º 2018/… emitido pela A. em …/04/2018. A A. recebeu os montantes descritos e somente em Abril de
2018, emitiu as facturas que agora vem reclamar e a que sabe não ter direito. Concluiu pela improcedência da ação e sua absolvição do pedido, bem como, na condenação da requerente como litigante de má fé. *
Notificada para o efeito, a requerente ainda se pronunciou dizendo que os serviços foram prestados, as facturas emitidas e entregues ao Réu, que nunca até ao momento as tinha posto em causa, não juntando o réu os comprovativos do pagamento que invocou, concluindo que deve improceder a excepção e ser o réu condenado como litigante de má fé.
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Após os articulados, em 14-03-2019 e 08-05-2019 teve lugar audiência de julgamento e e, em 17-03-2020, foi proferida decisão a julgar procedente a ação e a condenar o requerido a pagar à autora € 10.377,85, acrescida de juros de mora legais vincendos, até efectivo pagamento e improcedente o pedido de condenação em litigância de má fé formulado.
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Não se conformando com a referida decisão, dela apela o réu, formulando as seguintes conclusões: “- A prova produzida em audiência não permite dar como assentes os factos alegados pela ora Requerida; - Com efeito, não poderiam ser considerados como provados os factos identificados em d) e e) na douta Sentença;
- Na medida em que o ora Requerente não liquidou apenas a quantia de € 2.812,96, mas sim a quantia de € 11.812,96 junto da Requerida;
- Que, acrescendo aos montantes pagos pelos materiais da obra, que ficaram da sua responsabilidade, totalizaram a quantia de € 23.322,67, despendida pelo Requerente;
- Tendo este valor sido pago na totalidade pelo Requerente, conforme se fez ver da documentação apresentada em Tribunal e pelo depoimento das testemunhas;
- Conforme se retirou igualmente do depoimento das testemunhas, fora orçamentado pela Requerida o valor de cerca de 22 mil euros pela realização da obra;
- Tendo as partes acordado que os materiais seriam adquiridos pelo dono da obra, ora Requerente, que pagaria à empreiteira, ora Requerida, a mão-de-obra prestada;
- Como se viu, o Requerente teve um gasto com a obra superior ao orçamentado, uma vez que despendeu a quantia de € 23.322,67 com a aquisição de materiais junto dos fornecedores e com o pagamento da mão-deobra junto da Requerida;
- Donde se conclui não haver margem para pagamentos adicionais, que foram posteriormente pedidos pela Requerida, que alegava a eles ter direito;
- Concluindo-se pois, inevitavelmente, que houve dupla faturação por parte da Requerida, uma vez que exigiu o pagamento ao Requerente de materiais, descurando que havia sido este a adquiri-los!;
- Termos em que deveriam ter sido dados como provados os factos alegados pelo Requerente aquando da oposição e referidos no presente requerimento;
- Na medida em que este fez prova cabal dos mesmos, com a apresentação de prova documental e testemunhal na audiência de julgamento;
declarações sobre os factos em causa, que se considera essencial para a descoberta da verdade;
- Desconhecendo-se a razão pela qual o douto Tribunal a quo afastou a essa produção de prova para formar a sua convicção;
- Tendo optado por valorar alegadas propostas proferidas pela cônjuge do Requerente enquanto confissões de dívida, olvidando que esta não figurava como parte na ação;
- Termos em que não poderiam tais propostas configurar como confissão de dívida, tampouco ser utilizadas pelo douto Tribunal para formar a sua convicção nesse sentido;
- Não se aceitando portanto outra solução que não a revogação da sentença condenatória e a emissão de uma sentença absolutória do Réu”.
*
A autora não contra-alegou. *
2. Questões a decidir:
Sendo o objecto do recurso balizado pelas conclusões do apelante, nos termos preceituados pelos artigos 635º, nº 4, e 639º, nº 1, do CPC - sem prejuízo das questões de que o tribunal deva conhecer oficiosamente e apenas estando adstrito a conhecer das questões suscitadas que sejam relevantes para conhecimento do objeto do recurso - , as questões a decidir, relativamente ao recurso interposto, são:
a) Se o Tribunal recorrido poderia ter indeferido o pedido do réu para prestação de declarações de parte? b) Impugnação da matéria de facto - Admissibilidade
Apreciação: Se os factos provados em d) e e) devem ser considerados como não provados e se devem ser dados como provados os factos alegados pelo réu na oposição?
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3. Enquadramento de facto: *
A DECISÃO RECORRIDA CONSIDEROU COMO PROVADA A SEGUINTE FACTUALIDADE:
a)-A Requerente é uma sociedade comercial que tem por objecto a construção e restauro de edifícios; b)-No exercício da respectiva actividade, a Requerente forneceu e prestou diversos serviços ao Requerido; c)-Originando a factura n.º 2018/…, emitida em …/04/2018, no valor de €5.651,95, vencida nessa mesma data e a factura n.º 2018/…, emitida em …/04/2018, no valor de €7.366,40, vencida nessa mesma data, d)-Vencidas as facturas o Requerido liquidou apenas a quantia de €2.812,96,
e)-Em divida:€ 10.377,85
f)-A mulher do R. é Arquitecta de interiores;
h)-No âmbito das suas funções conheceu a Requerente com que trabalhava com alguma regularidade; i)-Por via da confiança entretanto estabelecida, o R. pediu à A. um Orçamento “folgado” para apresentar ao seu Banco e por essa via conseguir obter um financiamento bancário /crédito para obras de um pequeno apartamento de 60 m2, na Rua …, … A … Esquerdo em Oeiras, que tinha comprado para remodelar e posteriormente vender;
j)-Na sequência do referido pedido, a A. no dia 17/05/2017, elaborou o Orçamento com a Ref.: …-2017 –… – …, no valor total de 26.420,50 €
l)O R. comprou alguns materiais.
m)- Os trabalhos facturados respeitam a fornecimentos de materiais de construção civil e serralharias estores, pladur, canalização, mão de obra de pedreiro, ladrilhador, pinturas.
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A DECISÃO RECORRIDA CONSIDEROU COMO NÃO PROVADA A SEGUINTE FACTUALIDADE:
Pois garantiu ao R. por diversas vezes e em diversas circunstância[s], que o Orçamento que elaborou tinha uma margem de “folga” e que o total de mão de obra a aplicar em obra, não ultrapassaria nunca os 10.000,00 €.
Por aqui já se vê, que a A. recebeu os montantes descritos em 11º e somente em Abril de 2018, emitiu as facturas que agora vem reclamar e a que sabe não ter direito.
De facto, esta acção resulta da confiança em demasia que foi dado ao sócio e gerente da A., que sabendo da mais valia que o R. conseguiu na venda do apartamento depois das obras (num jantar que teve em casa do R.), não se conformou com o Orçamento que elaborou e tentou cobrar mais do aquilo que foi acordado e é devido;
Já a mão de obra foi paga na totalidade do seguinte modo: -No dia 22/11/2017 € 2.500,00;
-No dia 28/12/2017 € 2.000,00; - No dia 05/01/2017 € 4.500,00;
Total de mão de obra: € 9.000,00 + € 2.812,96 = € 11.812,96.
O pagamento da quantia de 2.812,96 €, resulta de um crédito que a mulher do R. tinha sobre a A. e que resulta do Recibo n.º 2018/… emitido pela A. em …/04/2018.
Pois garantiu ao R. por diversas vezes e em diversas circunstancias que o orçamento que elaborou tinha uma margem de folga e que o total de mão de obra a aplicar em obra não ultrapassaria nunca os €10.000,00.
*
4. Enquadramento jurídico: *
a) Se o Tribunal recorrido poderia ter indeferido o pedido do réu para prestação de declarações de parte? Da ata da sessão de julgamento de 14-03-2019 consta, nomeadamente, que:
“Declarada aberta a audiência, pelas 14:10h, por atraso da Ilustre Mandatária da Autora e após tentativa de conciliação de cuja frustração foi a Mmª Juiz informada, pela Ilustre Mandatária da Autora foi requerida a junção de 15 documentos e a inquirição de 3 testemunhas.
Dada a palavra ao Ilustre Mandatário do Réu, pelo mesmo foi dito nada ter a opor, não prescindindo do prazo de vista.
Após, pelo mesmo foi requerida a junção de 7 documentos, a inquirição de 1 testemunha e as declarações de parte do Réu, nos termos do artº 466º, nº 1, do CPC.
Dada a palavra à Ilustre Mandatária da Autora, pela mesma foi dito nada ter a opor, prescindindo do prazo de vista.
Após, pela Mmª. Juiz foi proferido o seguinte: DESPACHO
Uma vez que o Réu não prescinde do prazo legal de vista a fim de se pronunciar quanto aos documentos ora juntos pela Autora, suspende-se a presente sessão de audiência final e em concertação de agendas, para a sua continuação designa-se o dia 08 de maio de 2019, pelas 13:30 horas.
Quanto às declarações de parte requeridas pelo Réu, o Tribunal, após a audição de toda a prova testemunhal, se pronunciará, pela sua eventual necessidade (…)”.
Na referida sessão de julgamento de 08-05-2019, após a produção da prova testemunhal, foi proferido o seguinte despacho:
“Face à produção de prova testemunhal produzida em audiência de julgamento e à prova documental constante dos autos o Tribunal não considera necessária a tomada de declarações de parte do réu, considerando-se desde já esclarecido, pelo que se indefere a mesma”.
No presente recurso de apelação, o recorrente alegou, entre outras questões, designadamente, o seguinte: “(…) IV – DA PROVA INATENDIDA PELO TRIBUNAL
48. Sem prejuízo do que foi referido acerca da desconsideração da prova produzida em audiência e da prova apresentada pelas partes, cumpre dizer que ao Requerente não foram dadas todas as oportunidades de contar a sua versão dos factos.
49. Com efeito, foi requerido pelo ora Requerente a prestação de declarações de parte sobre os factos que interveio pessoalmente, em audiência de julgamento.
50. Tendo tal decisão sido protelada para o final da produção de prova, apenas para ser indeferida pelo douto Tribunal.
51. Com a justificação de que teria sido produzida toda a prova necessária para a descoberta da verdade material.
52. Ora, com o devido respeito, o Requerente não poderá aceita essa justificação, na medida em que considera que a verdade material não foi alcançada.
53. Termos em que considera essencial que a sua prestação de esclarecimentos seja aceite, de forma a relatar a sua versão dos factos (…)”.
Efetivamente, conforme decorre da gravação da audiência de julgamento, tendo sido requerida a prestação de declarações de parte pelo réu, o Tribunal assinalou quer na sessão de 14-03-2019, quer na sessão de 08-05-2019 que apenas se pronunciaria sobre a referida pretensão após a audição da prova testemunhal, o que fez (cfr. a gravação da sessão de 08-05-2019, ao tempo 1.59.33 - muito embora, no início desta última sessão tenha referenciado que o réu teria que se ausentar da sala por ter sido requerida a prestação de declarações de parte e o tribunal ainda não ter, então, emitido decisão sobre tal pretensão). O Tribunal veio a indeferir – cfr. a acta e gravação da aludida sessão de julgamento de 08-05-2019 - a prestação de declarações de parte do réu, por entender que, face à prova testemunhal e documental produzidas, tal prestação não era “necessária”, considerando-se o Tribunal “esclarecido”.
A questão que ora cumpre apreciar é a de saber se a decisão de indeferimento não merece reparo ou se, ao invés, a mesma deverá ser revogada como pretende o réu.
teve ocasião de enfrentar a questão que ora se coloca, reproduzindo-se pela sua atinência com a problemática a decidir, as considerações então expendidas:
“(…) A questão que se coloca, e importa decidir, traduz-se em saber se se impunha ou não ao tribunal a quo que tivesse ouvido o R. marido em declarações de parte, na sequência do sobredito requerimento que para o efeito lhe foi dirigido pela sua mandatária no final da produção da prova testemunhal e antes de dar inicio à fase das alegações orais (…).
[D]ispõe o artº 466º do nCPC que:
“1- As partes podem requerer, até ao início das alegações orais em 1.ª instância, a prestação de declarações sobre factos em que tenham intervindo pessoalmente ou de que tenham conhecimento direto. 2- Às declarações das partes aplica-se o disposto no artigo 417.º e ainda, com as necessárias adaptações, o estabelecido na secção anterior.
3- O tribunal aprecia livremente as declarações das partes, salvo se as mesmas constituírem confissão.” (sublinhado nosso).
Com a entrada em vigor do atual CPC introduziu-se, através referido normativo, no nosso ordenamento jurídico-processual um novo meio de prova: as declarações de parte.
Com tal visou-se responder a uma cada vez significativa corrente de opinião que se vinha densificando no sentido de considerar e valorizar o depoimento de parte, ainda que sem caráter confessório, e de livre apreciação pelo tribunal, desde que o mesmo viesse a revelar um efeito útil para a descoberta da verdade material.
Esse novo meio de prova que a lei adjetiva veio consagrar, constitui uma homenagem ao direito à prova (com eco constitucional) – pois que em muitos casos pode ser difícil ou mesmo impossível demonstrar certos factos por via diversa da do próprio relato das partes -, e ao princípio/finalidade da descoberta da verdade - pois que muitas das vezes as partes terão conhecimento privilegiado dos factos que alegam ou presenciaram. (Cfr. Lebre de Freitas e Isabel Alexandre in “Código de Processo Civil, Anotado, Vol. 2º, Almedina, 3ª ed., pág. 307.”).
Dissertando sobre esse novo meio de prova (no estudo denominado “As malquistas declarações de parte”, disponível em http://julgar.pt/asmalquistas-declaracoes-de-parte/) Luís Filipe Pires de Sousa escreve a dada altura “(…) Em caso de dúvida sobre a relevância final da prova, atento o direito constitucional à prova (analisado infra) e as consequências gravosas da eventual procedência de recurso sobre o despacho que rejeite o meio de prova (…) deverá ser adotado o princípio pró-admissão da prova ou princípio de inclusão (…).
(...). Daqui se infere que o nosso paradigma se consubstancia numa tutela reforçada do direito à prova. Assim, o direito constitucional à prova e a sua regulação no processo civil opõem-se a que o juiz possa dispensar a produção de um meio de prova por entender que o enunciado fáctico em causa já está suficientemente provado.
(...) Por outro lado, não cabe ao juiz antecipar - no decurso da audiência – a explicitação de qual a convicção formada quanto à (in)suficiência da prova sobre os enunciados fácticos em discussão. A convicção que existe nesta fase é – por natureza e definição -provisória, sempre sujeita a revisão face à ponderação mais refletida e abrangente que será feita após a conclusão do julgamento. A audiência
insere-se no contexto de descobrimento da prova e a subinsere-sequente decisão escrita ancora-insere-se no contexto de justificação da prova que se regem por paradigmas diversos.
(...) Feito todo este excurso, concluímos que o juiz não pode rejeitar o requerimento de prestação de declarações de parte pela simples razão de entender que o mesmo é desnecessário face à prova já produzida.
(...) O que o juiz pode fazer é rejeitar a prestação de declarações de parte por inadmissibilidade legal, o que pode ocorrer em duas situações:
(i)- quando os factos sobre que a parte se proponha prestar declarações já estejam plenamente provados por documento ou por outro meio de prova com força probatória plena (Art. 393.2. do Código Civil, por analogia);
(ii)- quando os factos sobre que a parte se proponha prestar declarações beneficiem de prova pleníssima, designadamente os casos de presunções legais inilidíveis, casos em que não é admissível prova em contrário. (sublinhado nosso).
Na mesma linha foi, a propósito desse mesmo meio de prova, o Ac. da RL de 29/04/2014 (sumariado in “CJ, Ano XXXIX/2014, T2- 325”), ao concluir, de forma em que nos revemos, que (…) “Se tal meio prova ganha particular interesse em matérias do foro íntimo ou pessoal dos litigantes, não presenciadas por terceiros e, à partida de mais difícil demonstração, também é certo que a lei não restringe a sua admissão esses casos, antes estabelecendo como requisito de admissibilidade, no que respeita à incidência, que as declarações de parte respeitem a factos em que o litigante interveio pessoalmente ou de que teve conhecimento direto. Estamos no âmbito mais amplo do direito que assiste à parte de provar os factos por si alegados e que sustentam a sua pretensão, ou mesmo até de fazer a contra prova dos factos contra si invocados, no quadro do direito de acesso aos tribunais e à tutela jurisdicional efetiva (artº. 20º da CRP), pelo que, nessa medida, é a cada uma das partes que incumbe eleger os meios de prova adequados à demonstração com que está onerada ou que, de algum modo, convém à prossecução dos seus interesses. Tal não significando que não devam impor-se certas limitações aos meios de prova utilizáveis em cada caso, mas essas limitações devem mostrar-se materialmente justificadas e respeitadoras do princípio da proporcionalidade. Pelo que assim sendo, a menos que seja evidente a redundância em sentido favorável à parte requerente, será sempre temerário justificar a recusa de um meio de prova com a invocação de o tribunal já estar convencido de uma certa versão dos factos. Donde estando em causa um meio de prova ao alcance dos litigantes que a lei expressamente consagra (…) não se vislumbra razão bastante para a sua recusa, desde que nada permita concluir pela sua inutilidade.” (sublinhado nosso).
No mesmo sentido vai ainda o recente acórdão da RL de 08/02/2018 (proc. 1193/13.2TVLSB-A.L1-6, disponível em dgsi.pt) ao concluir, estar “vedado ao juiz a rejeição do requerimento para prestação de declarações de parte por (…) que é desnecessário face à prova já produzida” e que “tal rejeição só é possível em situações de inadmissibilidade legal, designadamente quando os factos indicados no requerimento já estejam plenamente provados por documentos ou por outro meio de prova com força obrigatória plena.” (sublinhado nosso). Meio de prova esse que, como ressalta do que se deixou exarado, não se confunde com a prova confessória adveniente do próprio depoimento de parte, estando, ao contrário daquele, sujeito à livre à apreciação do tribunal – salvo se dessas declarações configurarem em si
uma confissão do declarante (nº 3 do citado artº 466º). E percebe-se que assim seja, pois que não pode desconsiderar-se que essas declarações são prestadas por uma parte diretamente interessada no desfecho da ação, e daí que se imponha ao julgador algum cuidado na análise crítica e valoração dessas declarações, as quais, no seu final, - e como meio legítimo de prova que são e com a força probatória que é idêntica àquelas outras provas igualmente sujeitas à livre apreciação do tribunal –, tanto poderão merecer do julgador muita, como pouca ou nenhuma credibilidade. (Cfr. nesse sentido, e por todos, Ac. da RG de 02/05/2016, in “proc. 2745/15.1T8VNF-A.G1, disponível em dgsi.pt).
Como decorre do citado artº. 466º, nº.1 do CPC, são pressupostos legais da admissibilidade da prestação das declarações de parte: a) que elas sejam requeridas pela própria parte (ao contrário do que sucede com o depoimento de parte); b) que sejam requeridas até ao início da fase das alegações orais na audiência de discussão e julgamento em 1ª. instância; c) que elas se reportem a factos em que a parte tenha intervindo pessoalmente ou de que tenha conhecimento direto.
Por força da decorrência daquele último requisito, em conjugação com o nº.2 daquele preceito legal e o 452º, nº.2 do mesmo diploma legal (donde decorre, nomeadamente, ser aplicáveis, com as devidas adaptações, as regras procedimentais referentes aos depoimentos de parte), o requerente deve indicar ainda no seu respetivo requerimento os factos sobre os quais devem incidir as suas declarações, sendo certo que vem constituindo entendimento, que se vem afirmando prevalecente, de que a falta de tal indicação não deve determinar, desde logo, o indeferimento liminar do requerimento mas antes o convite ao suprimento dessa deficiência ou omissão. (Cfr., por todos, Ac. da RG de 07/01/2016, in “CJ Ano XLI/2016, T1- 251” e Ac. da RL de 21/12/2015, in “proc. 4059/15.8T8LSB-4, disponível em dgsi.pt).”.
Efetivamente, a respeito desta última questão, a jurisprudência tem-se perfilhado, uniformemente, no sentido de que sendo requerida a prestação de declarações de parte, relativamente às quais não seja concretizado o respetivo objeto, o Tribunal não deve, sem mais, proceder ao indeferimento da pretensão assim formulada, mas, antes, convidar a parte a completar o respetivo requerimento. Neste sentido, podem citar-se, entre outros, os seguintes arestos:
- Acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 18-12-2013 (Pº 114/09.1TBETR-A.P1, rel. RODRIGUES PIRES): “(…) a parte ao requerer a sua prestação de declarações deve indicar, discriminadamente, os factos sobre os quais há-de recair (art. 452º, nº 2 aplicável por força do art. 466º, nº 2 ambos do Novo Código do Processo Civil). Não tendo feito tal indicação, deve o juiz convidar a parte a fazê-la”;
- Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 21-12-2015 (Pº 4059/15.8T8LSB-4, rel. LEOPOLDO SOARES): “A não indicação discriminada – por parte do requerente - dos factos sobre os quais solicita a prestação de declarações de parte , visto que a lei não estabelece directamente a respectiva cominação , face ao disposto nos artigos 3º, nº 3º, parte final e 6º , nº 1º do NCPC, deve determinar o seu convite a , em prazo a fixar pelo Tribunal ( em princípio de dez dias ) , observar o disposto no nº 3º do artigo 452º , ex vi do nº 2º do artigo 466º ambos do NCPC , com a advertência expressa de que , não se o não fizer, a solicitada prestação de declarações de parte será , necessariamente , indeferida”;
- Acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães de 10-01-2019 (Pº 2998/17.0T8BRG-B.G1, rel. VERA SOTTOMAYOR): “O Código de Processo Civil de 2013 introduziu, com o seu artigo 466.º, as declarações de parte, como um novo e autónomo meio de prova, que tendo carácter inovador, ao lado da prova por
confissão, com esta não se confunde, o qual pode ser requerido, pela própria parte, até ao início das alegações orais em 1ª instância. A parte ao requerer a sua prestação de declarações deve indicar, discriminadamente, os factos sobre os quais há-de recair (art. 452º, nº 2 aplicável por força do art. 466º, nº 2 ambos do Novo Código do Processo Civil). Não tendo feito tal indicação ou tendo-a feito de modo deficiente, deve o juiz convidar a parte a fazê-la”;
- Acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 21-11-2019 (Pº 29903/15.6T8PRT-F.P1, rel. JOÃO VENADE): “I - No requerimento em que se peçam declarações de parte, têm de ser discriminados os factos a que se irão reportar, podendo tal discriminação ser genérica em relação ao respetivo articulado. II - Caso a parte não o faça, deve ser convidada pelo tribunal a fazê-lo com a cominação de, não aceitando o convite, não serem admitidas tais declarações”;
- Acórdão do Tribunal da Relação de Guimarães de 17-12-2019 (Pº 3345/18.2T8BCL-A.G1, rel. MARIA LEONOR CHAVES DOS SANTOS BARROSO): “I- Compete às partes discriminar a matéria factual objecto do depoimento e das declarações de partes, por si requeridas. II- Se após convite de aperfeiçoamento, a parte continua a não observar o ónus de discriminação, o requerimento probatório deve ser rejeitado”; e
- Acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 06-02-2020 (Pº 3144/12.2TBPRD-Q.P1, rel. PAULO DUARTE TEIXEIRA): “A exigência legal de discriminação dos factos a que o depoimento de parte deve ser prestado exige uma actividade real e efectiva que distinga entre os factos que não interessam à parte ou não são passíveis de confissão e aqueles que são objecto desse depoimento. Não discrimina esses factos a menção dos arts 1 a 96 quando os restantes artigos do articulado são apenas 3 e correspondem ao pedido, transcrição de um aresto e conclusões. Deve o tribunal convidar a parte a corrigir esse lapso. Caso a parte decida não aceitar esse convite terá de suportar as consequências do incumprimento desse ónus com a rejeição desse meio de prova”.
Este meio de prova – a prestação de declarações de parte - instituído no art. 466.º do CPC, vigorando no processo civil português desde 2013 veio responder a uma corrente que se vinha densificando no sentido de considerar e valorizar o depoimento de parte, ainda que sem carácter confessório, e de livre apreciação pelo tribunal, desde que este viesse a revelar um efeito útil para a descoberta da verdade.
Este meio de prova tem particular acuidade em matérias do foro íntimo ou pessoal dos litigantes, não presenciadas por terceiros e, nessa medida, de mais difícil demonstração. Contudo, a lei não restringe a admissão deste meio de prova – declarações de parte – a estes casos, antes estabelecendo como requisito de admissibilidade, no que respeita à incidência, apenas que as declarações da parte respeitem a factos em que o litigante interveio pessoalmente ou de que teve conhecimento directo.
Conforme se conclui no Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra de 05-11-2019 (Pº 2012/15.0T8CBR.C1, rel. ANTÓNIO CARVALHO MARTINS), no âmbito da prova por declarações de parte “estamos no âmbito mais amplo do direito que assiste à parte de provar os factos por si alegados e que sustentam a sua pretensão, ou mesmo de fazer a contraprova dos factos contra si invocados, no quadro do direito de acesso aos tribunais e à tutela jurisdicional efectiva (art. 20.° da CRP), pelo que, nessa medida, é a cada uma das partes que incumbe eleger os meios de prova adequados à demonstração com que está onerada ou que, de algum modo, convém à prossecução dos seus interesses”.
parte, o que fez ao abrigo do disposto no artigo 466.º do CPC e tal requerimento foi feito em sede da primeira sessão da audiência de julgamento, ou seja, antes do início da fase das alegações orais na audiência de discussão e julgamento em 1ª instância.
Relativamente aos demais pressupostos de admissibilidade da prestação de declarações de parte, não resulta evidenciado dos autos que tenha sido concretizada a matéria sobre a qual se pretendia a prestação das declarações de parte.
De todo o modo, como se viu, previamente ao indeferimento de tal pretensão, caberia ao Tribunal convidar o réu a indicar quais os factos sobre os quais o réu pretendia prestar declarações e, de acordo com tal requerimento, apreciar se os factos indicados respeitavam, ou não, a factos em que a parte tivesse intervindo pessoalmente ou de que tivesse conhecimento direto.
Contudo, o Tribunal não procedendo desse modo, veio a indeferir a pretensão do réu com o fundamento de que, atenta a prova documental e testemunhal produzidas, se considerava esclarecido, não considerando pertinente a prestação das declarações de parte requeridas.
Ora, como se decidiu no mencionado Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra de 05-06-2018 (Pº 1817/08.3TBPBL.C1, rel. ISAÍAS PÁDUA), “a tomada das requeridas declarações de parte só pode ser recusada pelo tribunal quando os factos indicados no requerimento já estejam plenamente provados por documentos ou por outro meio de prova com força obrigatória plena. Ao tribunal a quo está vedado recusar essa diligência de prova, em audiência de julgamento, com o fundamento de já se considerar suficientemente esclarecido sobre os factos em discussão e a considerar, assim, inútil”.
Na realidade, o Tribunal a quo não poderia recusar a realização da diligência de prova em questão – a prestação de declarações de parte do réu - com o fundamento da sua desnecessidade, por já se considerar suficientemente esclarecido.
Na verdade, não se afigura que o juiz possa antecipar no decurso da audiência de discussão e julgamento a formação da sua convicção, alicerçada na prova já produzida, declarando-a, ainda que sem transmita o seu sentido às partes e com essa invocação venha a dispensar a prestação de declarações de parte.
É que, como se referiu no mencionado Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra de 05-06-2018, “a convicção que exista nessa fase será – por natureza e definição – provisória, sempre sujeita a revisão face à ponderação mais refletida e abrangente que será feita após a conclusão do julgamento.
Na verdade, constituindo as declarações de parte um meio de prova legalmente previsto - com a força probatória idêntica àquela outra que, tal como ela, está sujeita livre apreciação do julgador (vg. Prova testemunhal) - só no final de toda a produção de prova (vg. aquando da elaboração da sentença final – cfr. artº. 607º, nºs. 4 e 5, do CPC), e após ponderação refletida e conjugada sobre toda ela, é que o tribunal está em condições de formar conscientemente a sua convicção definitiva sobre os enunciados fácticos em discussão. E nessa equação ponderativa e formativa da convicção não se podem excluir os tribunais de recurso da Relação sempre que, como sucede no caso dos autos, sejam chamados a pronunciar-se sobre a decisão da matéria de facto proferida pelo tribunal a quo, os quais devem ter ao seu dispor todos de prova produzidos ou a produzir.
E nessa ponderação de prova o tribunal, aquando da apreciação e decisão da matéria de facto, tanto pode atribuir às declarações de parte muita, como pouca ou nenhuma relevância para o efeito, numa análise
crítica das mesmas que, pelas razões que supra se deixaram expendidas, dever ser feita no caso sempre com particular cuidado”.
Assim, atendendo ao que ficou expresso, não poderia o Tribunal recorrido ter recusado, nos termos e com os fundamentos expressos no despacho proferido em 08-05-2019, a prestação de declarações de parte requerida e almejada pelo réu.
Antes, uma vez formulado tal requerimento e na falta de indicação do respetivo objeto, deveria o réu ter sido convidado a aperfeiçoar uma tal pretensão, o que, contudo, não sucedeu.
Pode, pois, responder-se negativamente à questão formulada, no sentido de que o Tribunal a quo não poderia ter indeferido, como o fez e sem mais, a pretensão expressa pelo réu no sentido de prestar declarações ao abrigo do disposto no artigo 466.º do CPC.
E, nesta medida, impõe-se revogar o referido despacho, ora objeto de impugnação, que indeferiu, com esse fundamento, a prestação desse meio de prova e, consequentemente, a sentença final, datada de 17-03-2020, proferida nos autos, determinando-se seja o réu convidado a esclarecer a matéria sobre que pretende sejam prestadas as declarações de parte, seguindo-se os ulteriores termos processuais que forem pertinentes à causa.
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b) Impugnação da matéria de facto – Admissibilidade
Apreciação: Se os factos provados em d) e e) devem ser considerados como não provados e se devem ser dados como provados os factos alegados pelo réu na oposição?
Alegou ainda o apelante que os factos provados em d) e e) não deveriam ter sido dados como provados e que deveriam ter sido dados como provados os factos que alegou na oposição, nos termos da alegação que desenvolveu (cfr. artigos 18.º a 47.º e 54.º a 61.º).
O conhecimento da admissibilidade da impugnação da matéria de facto deduzida e a sua apreciação nos moldes invocados pelo apelante pressuporia que não obtivesse provimento a questão antes conhecida, atinente à prestação de declarações de parte requeridas pelo réu.
A falta de convite à completude do requerimento do réu inquina a completude da produção probatória e o julgamento realizado, determinando a revogação do despacho que indeferiu tal meio de prova e a anulação da sentença proferida, determinando-se seja o réu convidado a esclarecer a matéria sobre que pretende sejam prestadas as declarações de parte, seguindo-se os ulteriores termos processuais que ao caso couberem, com ulterior prolação de nova decisão final.
A mencionada anulação determina a procedência do recurso, ficando prejudicada a apreciação das demais questões supra elencadas e que integravam o seu objeto.
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No artigo 527.º, n.º 1, do CPC estipula-se que: “A decisão que julgue a acção ou algum dos seus incidentes ou recursos condena em custas a parte que a elas houver dado causa ou, não havendo vencimento da acção, quem do processo tirou proveito”.
As custas processuais abrangem a taxa de justiça, os encargos e as custas de parte (cfr. artigo 529.º, n.º 1, do CPC).
os custos do seu funcionamento no âmbito do Orçamento Geral do Estado (assim, José Lebre de Freitas e Isabel Alexandre, Código de Processo Civil Anotado, volume 2°, 3.ª ed., p. 418).
A taxa de justiça corresponde ao montante pecuniário devido pelo impulso processual de cada interveniente – cfr. artigo 529.º, n.º 2, do CPC – representando a contrapartida do serviço judicial desenvolvido, sendo fixada, de acordo com o disposto no mencionado artigo 529.º, em função do valor e complexidade da causa, nos termos constantes do Regulamento das Custas Processuais, e paga, em regra, integralmente e de uma só vez, no início do processo, por cada parte ou sujeito processual.
As custas em sentido amplo abrangem a taxa de justiça, os encargos e as custas de parte - cf. art. 529°, n. ° 1 do CPC -, sendo que a primeira corresponde ao montante devido pelo impulso processual de cada interveniente e é fixado em função do valor e complexidade da causa (cf. n.° 2 do art. 529°), ou seja, nos termos do Regulamento das Custas Processuais (RCP), conforme o disposto nos seus artigos 5.° a 7.°, 11. °,13.° a 15.° e das tabelas I e II anexas.
Daqui se retira que o impulso processual do interessado constitui o elemento que implica o pagamento da taxa de justiça e corresponde à prática do acto de processo que dá origem a núcleos relevantes de dinâmicas processuais como a acção, a execução, o incidente, o procedimento cautelar e o recurso (cfr. Salvador da Costa, As Custas Processuais - Análise e Comentário, 7.ª edição, p. 15).
Nos termos do artigo 529.°, n.° 3, do CPC, os encargos são as despesas resultantes da condução do processo correspondentes às diligências requeridas pelas partes ou ordenadas pelo juiz, cujo regime consta essencialmente dos artigos 16.° a 20.°, 23.° e 24.° do aludido Regulamento.
E, de acordo com o disposto no art.° 530.°, n.° 4 do CPC, as custas de parte compreendem o que cada parte haja despendido com o processo e tenha direito a ser compensada em virtude da condenação da parte contrária nos termos do Regulamento, cujo regime consta essencialmente dos seus artigos 25.°, 26.° e 30.° a 33.° e da Portaria n.° 419-A/2009, de 17 de Abril.
A conjugação do disposto no art.° 527.°, n.°s. 1 e 2 com o n.° 6 do art.° 607.° e no n.° 2 do artigo 663.° do CPC permite aferir que a responsabilidade pelo pagamento dos encargos e das custas de parte assenta no critério do vencimento ou decaimento na causa, ou, não havendo vencimento, no critério do proveito, mas tal não sucede quanto à taxa de justiça, cuja responsabilidade pelo seu pagamento decorre automaticamente do respectivo impulso processual.
De acordo com o estatuído no n.° 2 do art. 527.º do CPC, o critério de distribuição da responsabilidade pelas custas assenta no princípio da causalidade e, apenas subsidiariamente, no da vantagem ou proveito processual.
Entende-se que dá causa às custas do processo a parte vencida, na proporção em que o for. A condenação em custas rege-se pelos aludidos princípios da causalidade e da sucumbência, temperados pelo princípio da proporcionalidade, na vertente da proibição de excesso e da justa medida (cfr. Ferreira de Almeida, Direito Processual Civil, Volume II, 2015, p. 359).
“Dá causa à acção, incidente ou recurso quem perde. Quanto à acção, perde-a o réu quando é condenado no pedido; perde-a o autor quando o réu é absolvido do pedido ou da instância. Quanto aos incidentes, paralelamente, é parte vencida aquela contra a qual a decisão é proferida: se o incidente for julgado procedente, paga as custas o requerido; se for rejeitado ou julgado improcedente, paga-as o requerente.
No caso dos recursos, as custas ficam por conta do recorrido ou do recorrente, conforme o recurso obtenha ou não provimento (…)” (cfr. José Lebre de Freitas e Isabel Alexandre; Código de Processo Civil Anotado, volume 2.º, 3.ª ed., p. 419).
Assim, deve pagar as custas a parte que não tem razão, litiga sem fundamento ou exerce no processo uma actividade injustificada, pelo que interessa apurar o teor do dispositivo da decisão em confronto com a posição assumida por cada um dos litigantes.
O princípio da causalidade continua a funcionar em sede de recurso, devendo a parte neste vencida ser condenada no pagamento das custas, ainda que não tenha contra-alegado, tendo presente, contudo, a especificidade acima apontada quanto à constituição da obrigação de pagamento da taxa de justiça, pelo que tal condenação envolve apenas as custas de parte e, em alguns casos, os encargos (cfr. Salvador da Costa, ob. cit., pp. 8-9).
Nos casos em que não haja vencedor nem vencido, onde, por isso, não pode funcionar o princípio da causalidade consubstanciado no da sucumbência, rege o princípio subsidiário do proveito processual, de acordo com o qual pagará as custas do processo quem deste beneficiou.
Como tal, sempre que haja um vencido, com perda de causa, é sobre ele que deve recair, na precisa medida desse decaimento, a responsabilidade pela dívida de custas. Fica vencido quem na causa não viu os seus interesses satisfeitos; se tais interesses ficam totalmente postergados, o vencimento é total; se os interesses são parcialmente satisfeitos, o vencimento é parcial.
“"Vencidos" são todos os que não obtenham na causa satisfação total ou parcial dos seus interesses, ficando, pois, a seu cargo, a responsabilidade total ou parcial pelas custas” (assim, o acórdão do Supremo Tribunal de Justiça de 08-10-1997, P.º 97S079, rel. MATOS CANAS).
Quando não haja uma parte vencida, se também não existir uma outra vencedora, será responsável pelas custas aquele (ou aqueles) cuja esfera se mostrar favorecida, e também na sua exacta medida, em face do teor da decisão.
Conforme se referiu no acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 22-01-2019 (P.º Proc. 45824/18.8YIPRT-A.L1 7ª Secção, rel. MICAELA SOUSA), “existindo um vencedor, por princípio e natureza, não lhe pode ser imputada a responsabilidade pela obrigação do pagamento das custas por ser de afastar, naturalmente, a causalidade. Ou seja, por regra, o vencedor é aquele que obteve ganho de causa. Ainda que este ganho de causa implique necessariamente um proveito, não é este proveito que releva quando se recorre ao respectivo princípio subsidiário, pois que, tal como resulta do n.° 1 do art. 527°, n.° 1 do CPC, apenas não havendo vencimento é que funciona o critério subsidiário do proveito.
Mas havendo um vencedor e não se encontrando uma parte vencida, esta não pode ser condenada no pagamento de custas porque não se verifica a causalidade (não deu causa à acção ou ao recurso), mas também aquele não o pode ser precisamente por ter havido vencimento (o que afasta o critério do proveito).
Nestas situações, impõe-se encontrar uma outra solução.
Será apenas quando perante a resolução do litígio não se descortine nem um vencido, nem um vencedor, que a responsabilidade tributária terá de assentar então no critério do proveito, isto é, em função das vantagens obtidas”.
No caso dos autos, o recorrente/apelante obterá “ganho de causa”, relativamente à pretensão recursória que trouxe a juízo, ou seja, logrou obter a revogação do despacho que indeferiu a prestação de declarações de parte e a sentença subsequente.
Contudo, a autora/recorrida não deu causa ao recurso, não tendo, como se viu, tido vencimento.
A autora que não contra-alegou é alheia à sorte do recurso, não lhe podendo ser oposto o critério da causalidade.
Assim, de acordo com o exposto, o critério da causalidade, não se mostra operante relativamente a qualquer das partes.
Mas, então, dever-se-á lançar mão do critério da vantagem ou proveito processual?
Salvador da Costa, aponta um caminho (no texto “Segmento decisório “sem custas” - Acórdão da Relação de Guimarães de 31.10.2018, no texto “Dispensa de pagamento do remanescente da taxa de justiça na globalidade do processo - Acórdão da Relação de Évora de 14.03.2019 (Jurisprudência 2019 (56))”, disponíveis no Blog do Instituto Português do Processo Civil – IPPC, em https://blogippc.blogspot.com/), relativamente a situação semelhante, embora no âmbito de procedimento cautelar de arresto – decidido sem audiência da parte contrária – em que a requerida não teve intervenção nem no procedimento, nem no recurso do despacho que indeferiu liminarmente a petição cautelar, concluindo o seguinte:
“(…) recebido pela secretaria o requerimento da sociedade A para a implementação do procedimento cautelar de arresto contra B, a instância iniciou-se, mas não produziu efeitos em relação à última, porque para aquele procedimento não foi citada, visto que a pretensão da primeira foi liminarmente indeferida, a que logo se seguiu o processado do recurso.
Em consequência, a sociedade B não pôde intervir no procedimento cautelar de arresto, nem antes ou depois da prolação do despacho de indeferimento liminar da petição inicial, nem na face do recurso de apelação daquele despacho.
Os critérios de fixação da responsabilidade das partes e dos sujeitos processuais pelo pagamento das custas processuais constam essencialmente do disposto no artigo 527.º do mencionado Código.
O seu n.º 1 estabelece, além do mais que aqui não releva, que na decisão que julgue o recurso deve condenar-se no pagamento das custas a parte que lhes tiver dado causa ou, não havendo vencimento, a parte que dela tirou proveito.
Em conexão face ao disposto no n.º 1 daquele artigo, estabelece o seu n.º 2, em jeito de presunção, dever entender-se ter dado causa às custas processuais a parte vencida, na respetiva proporção.
Decorre destas normas que a responsabilidade pelo pagamento das custas processuais assenta em dois princípios fundamentais: o da causalidade, que é o principal, e o do proveito, este de função subsidiária. As referidas normas de responsabilidade pelo pagamento de custas estão conexionadas com o disposto no n.º 6 do artigo 607.º do mesmo Código, do qual decorre que, no final do acórdão, o coletivo de juízes do tribunal ad quem deve condenar os responsáveis no pagamento das custas processuais, estabelecendo a proporção da concernente responsabilidade, naturalmente se for caso disso.
Uma vez que a sociedade B não interveio na instância do procedimento cautelar, incluindo a fase de recurso, neste não podia ser considerada parte vencida, pelo que nele não podia ser condenada no pagamento das custas.
Com efeito, como a sociedade A teve êxito no recurso da decisão de indeferimento liminar do requerimento de implementação do procedimento cautelar de arresto, não pode funcionar o princípio da causalidade, pressuposto da condenação da parte vencida no pagamento de custas, a que se reportam os n.ºs 1 e 2 do artigo 527.º daquele Código.
Temos, pois, que, no recurso ajuizado não há parte vencida, seja do lado ativo, seja do lado passivo, mas há uma parte, a sociedade A, que do recurso tirou proveito, na medida em que, por virtude da sua procedência, logrou o prosseguimento dos termos normais do procedimento cautelar de arresto.
Em consequência, ex vi do referido princípio do proveito, a que se reporta o n.º 1 do artigo 527.º daquele Código, a responsabilidade pelo pagamento de custas do recurso impende sobre a sociedade A, se, porventura, não houver razões de facto e ou de direito que a isso obstem.
Reitera-se que o conceito de custas em sentido amplo envolve as vertentes da taxa de justiça, dos encargos e das custas de parte, conforme decorre do n.º 1 do artigo 529.º do aludido Código.
Mas a sociedade A procedeu ao pagamento da taxa de justiça relativa ao recurso aquando da apresentação em juízo do requerimento para a sua implementação, com as respetivas alegações, nos termos dos artigos 529.º, n.º 2, 530.º, n.º 1, daquele Código, e 7.º, n.º 2, e 14.º, n.º 1, do Regulamento das Custas Processuais.
Isso significa que a sociedade A já cumpriu a sua obrigação de pagamento da taxa de justiça relativa ao recurso, pelo que não há fundamento legal para a condenar no seu pagamento nessa sede.
Quanto aos encargos, segunda vertente do conceito de custas lato sensu, resulta do n.º 3 do artigo 529.º do referido Código que os do processo envolvem as despesas atinentes a diligências requeridas pelas partes ou ordenadas pelo juiz, ou pelo coletivo de juízes, conforme os casos.
Ora, decorre da fase processual do recurso em causa que neste não foram realizadas diligências que tivessem implicado a realização de alguma despesa suscetível de qualificação como encargo processual. Em consequência, inexiste fundamento legal para a condenação da sociedade A, no recurso, no pagamento de qualquer quantia a título de encargos.
Resta a análise da terceira vertente do conceito de custas lato sensu, ou seja, as custas de parte que, nos termos do n.º 4 do artigo 529.º daquele Código, compreendem o que cada parte tenha despendido com o processo e tenha direito a ser compensada nos termos dos artigos 25.º e 26.º do Regulamento das Custas Processuais.
Conforme resulta do disposto nos artigos 533.º, n.º 2, daquele Código, e 26.º, n.º 3, do mencionado Regulamento, as custas de parte, a crédito da parte vencedora na ação e ou no recurso, e a débito da parte vencida, na respetiva proporção, abrangem as taxas de justiça, os encargos suportados pelas partes e o dispêndio com honorários pagos a mandatário judicial e as despesas por este realizadas.
Como a sociedade B não interveio no recurso, não é credora de custas de parte em relação à sociedade A, pelo que esta não é responsável por qualquer pagamento a esse título.
(…) Com base no exposto, formulam-se as seguintes conclusões:
1.ª – O segmento “sem custas”, constante da parte final do acórdão da Relação, está afetado de nulidade por falta absoluta de fundamentação;
principal da causalidade e, não havendo vencimento, no critério subsidiário do proveito;
3.ª – Como se trata de um recurso do despacho de indeferimento liminar da petição inicial relativa ao procedimento cautelar de arresto, em que a requerida B não pôde intervir, só a recorrente A, com base no critério do proveito, podia ser condenada no pagamento das custas, se a tal nada obstasse.
4.ª – Uma vez que a recorrente A pagou previamente a taxa de justiça relativa ao recurso, e este não envolveu encargos, e a requerida B nele não interveio, a primeira não é responsável pelo pagamento de custas.
5.ª – O segmento do acórdão da Relação “sem custas” corresponde ao derivado dos factos e da lei”. Em textos ulteriores, o mesmo Autor desenvolve semelhante posição (vejam-se, por exemplo, no mesmo local, os textos intitulados “Condenação do pagamento de custas da parte vencida a final - Acórdão do Tribunal Relação da Relação de Évora de 2.10.2018 -(publicado em Jurisprudência 2018 (160))”, “Segmento decisório “sem custas” - Acórdão da Relação de Guimarães de 31.10.2018”, “Custas a final pela parte vencida - Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 11.12.2018”, “Custas pela parte vencida a final face aos princípios da causalidade e do proveito - Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 10.1.2019 (Publicado em Jurisprudência 2019 (3))” e “Custas do recurso conforme for devido a final - Acórdão da Relação do Porto de 10.1.2019 (publicado em Jurisprudência 2019 (38))”.
Considera o referido Autor que o critério do proveito será operante se, porventura, não houver razões de facto e ou de direito que a isso obstem.
Ora, não nos parece que a fixação de responsabilidade decorrente do disposto no artigo 527.º do CPC, exigida por via do disposto no artigo 607.º, n.º 4, do CPC, possa resumir-se a uma decisão que verifique uma ausência de responsabilidade (“sem custas”).
Se, por exemplo, os autos de recurso tivessem originado, nesta fase – ainda que sem intervenção dos réus-encargos, por hipótese, decorrentes de uma perícia oficiosamente determinada pelo Tribunal (v.g. perícia com vista a determinar os elementos que foram submetidos no requerimento inicial, etc.) – a decisão “sem custas” seria incompreensível.
Não se pode, de facto, olvidar a prescrição geral de tributação processual – não afastada por qualquer norma de isenção tributária – constante do artigo 1.º, n.º 1, do RCP e do seguinte teor: “Todos os processos estão sujeitos a custas, nos termos fixados pelo presente Regulamento”.
Na realidade, não havendo isenção tributária, o recurso em questão está sujeito a tributação, aspecto que é preliminar face à determinação da responsabilidade das partes relativamente a custas.
Assim, parece-nos claro que, inexistindo norma que dispense tributação, deve ser apurada a responsabilidade tributária decorrente da instância gerada e do facto de ter desenvolvido actividade jurisdicional relevante para efeitos de custas, dos eventuais encargos assumidos e das custas de parte que poderá ter determinado.
Reiterando a necessidade de consideração dos critérios tributários da causalidade e do proveito – em detrimento de uma solução que isente de tributação o recurso – certo é que, no caso, não se compreenderia – verifica-se, como se disse supra, que o critério do vencimento não é prestável e, do mesmo modo, afigura-se que seria patente a injustiça da decisão (assinalando-se que todos os encargos de uma instância recursória ganhadora ficariam, incompreensivelmente, a cargo daquele que ganhou o
recurso!) que, sem mais, determinasse que tais eventuais encargos ficassem a cargo do recorrente, porque teria tirado proveito do recurso.
E, de semelhante modo, também é patente que o “proveito” do recurso não é, por ora, encontrado na esfera da autora, pois, a revogação da decisão não lhe é favorável (implicando o prosseguimento dos autos).
No caso dos autos, no momento em que é proferida a presente decisão não é possível afirmar que o desfecho da apelação, ainda que revogando o decidido em 1ª instância, se reflecte negativamente na esfera da autora.
A causalidade e o proveito não são, neste concreto ponto, congruentes e, como se viu, não parece que a questão se possa resumir a uma decisão enunciativa de uma não responsabilização tributária de qualquer das partes.
Quid iuris?
“Não obstante esta situação, seguro é que se impõe a tributação em custas, mesmo num caso como o dos autos, atento o estatuído no art. 1° do RCP e, bem assim, a ausência de qualquer isenção prevista na lei (cf. art. 4° do RCP)” (assim, o citado acórdão Tribunal da Relação de Lisboa de 22-01-2019 (P.º Proc. 45824/18.8YIPRT-A.L1 7ª Secção, rel. MICAELA SOUSA).
Como referem Abrantes Geraldes, Paulo Pimenta e Luís Pires de Sousa (Código de Processo Civil Anotado, vol. I, Almedina, Coimbra, 2018, p. 579, nota 4) “salvo quando exista alguma isenção objetiva (artigo 4.º, nº 2, do RCP), todas as ações (incluindo incidentes ou recursos) implicam o pagamento de custas (art. 1.º do RCP)”.
Seria ilegal a decisão que reconhecesse uma isenção tributária não prevista na lei.
Na situação em apreço, porque se está perante uma decisão interlocutória – não tendo, como se viu, sentido uma decisão que sublinhe a ausência de responsabilização por custas e, igualmente, sendo, para além de injusto, prematuro, recorrer à situação extrema de responsabilizar a autora, ou os réus, pelas custas – e ponderando o sentido do comando normativo constante dos n.ºs. 1 e 2 do artigo 527.º do CPC, afigura-se que a decisão que se impõe é a de relegar a decisão sobre a responsabilidade tributária inerente à instância do presente recurso para aquela que decida sobre a responsabilidade tributária da decisão final. Ou seja: O critério da causalidade (tal como enunciado na previsão contida no n.º 2 do artigo 527.º do CPC) adquirirá, relativamente a esta instância interlocutória, plena operatividade quando for conhecida a parte vencida da causa principal, a parte vencida da decisão nuclear e final do processo, podendo encontrar-se, nesse momento, aquele a quem deva ser imposta a obrigação de custas - no sentido de que se enquadra no iter processual que conduzirá a uma decisão final sobre o mérito do litígio (da acção e, eventualmente, da reconvenção) – e que permite patentear, ainda que em ulterior momento, a quem é imputável a instância recursória julgada.
Parece-nos, pois, ter plena aplicação a jurisprudência vertida no acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 11-01-2011 (processo n.º 277/08.3TBSRQ-F.L1-7, rel. LUÍS LAMEIRAS), onde, em situação similar, se concluiu nos seguintes termos:
“(…) [T]odo o processo tem um objectivo primordial, que é o da obtenção de uma regulação jurídica, declarada ou efectiva, de interesses de direito material; e que é o caminho para se lá chegar que tem um
custo, em parte representado pelas custas a pagar.
Este núcleo duro de custas tem sempre um responsável final; alguém que se volve em sujeito passivo das custas por se reconhecer que, à luz de tudo, deve ser ele a suportar o encargo; seja por ser vencido; seja pelo proveito obtido; seja, em derradeiro critério, por ser aquele que desencadeou o funcionamento da máquina judiciária. Por isso, e em todo o caso, o artigo 659º, nº 3 [correspondendo ao actual artigo 607.º, n.º 3] (…) exige (…) que se defina, com expressividade e clareza, quem são os responsáveis pelas custas e qual a relativa proporção da dívida.
Ora, do nosso ponto de vista, faz sentido que, na falta de uma outra referência juridicamente atendível, seja a esta derradeira distribuição que venha a aderir toda a restante responsabilidade a que, entretanto, não houvera oportunidade, ou possibilidade, de encontrar ajustado devedor. A autonomia tributária, que porventura houvesse, cede na parte da repartição de responsabilidade; e a quem seja onerado pelo custo global e final da acção acrescerá, na mesma proporção, por se entender que a essa principal responsabilidade devem ter adesão aquelas outras conexas ou meramente instrumentais, a dívida de custas gerada pelo acto ou termo a que antes se não conseguiu conhecer responsável.
A dívida interlocutória de custas adere, nesta óptica, à dívida final, referente à contrapartida global do “pacote” de serviço de justiça prestado; nascendo a respectiva obrigação na esfera daquele que, a final, venha a ser reconhecido como o devedor das principais custas da acção. É o que comummente se chama de dívida de custas pela parte que seja vencida a final (…)”.
Sobre casos de condenação das partes no pagamento das custas devidas a final, admitindo a figura, na vigência do RCP, vd., para além do citado acórdão do Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa de 11-01-2011, entre outros, o acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 12-04-2010 (proc. 1057/09.4TBVFR-A.P1, rel. ANA PAULA AMORIM), o acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 18-10-2012 (Processo 2625/11.0TBGDM.P1, rel. TELES DE MENEZES), o acórdão do Tribunal da Relação do Porto de 19-03-2015 (Processo 5150/10.2TBVNG-C.P1 rel. LEONEL SERÔDIO), o acórdão do Tribunal Central Administrativo Sul de 16-12-2015 (Processo 12356/15, rel. CATARINA JARMELA), o acórdão do Tribunal da Relação de Évora (Processo 969/17.6T8PTM.E1, rel. PAULA DO PAÇO) e o acórdão do Tribunal da Relação de Évora de 10-10-2019 (Processo n.º 1582/12.0TBCTX-A.E1, rel. PAULO AMARAL).
Conclui-se, pois, que a responsabilidade tributária inerente à instância do presente recurso deverá ser relegada para a parte que seja vencida a final.
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5. Decisão:
Em face do exposto, acordam os Juízes desta 2.ª Secção Cível, na procedência da apelação, em revogar o despacho que indeferiu a prestação de declarações de parte do réu - prolatado em 08-05-2019 - e, consequentemente, a sentença final datada de 17-03-2020, determinando-se seja o réu convidado a esclarecer a matéria sobre que pretende sejam prestadas as declarações de parte, seguindo-se os ulteriores termos processuais que ao caso couberem, ficando prejudicada a apreciação das demais questões suscitadas.
Custas pela parte vencida a final. Notifique e registe.
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Lisboa, 8 de outubro de 2020. Carlos Castelo Branco
Lúcia Celeste da Fonseca Sousa Magda Espinho Geraldes