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Academic year: 2021

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Revista Eletrônica do Mestrado Acadêmico de História da Universidade Estadual do Ceará

Fortaleza, v. 2, n. 4 – julho - dezembro, 2014.

ISSN: 2318-8294

Universidade Estadual do Ceará – UECE

Reitor: Prof. Dr. José Jackson Coelho Sampaio

Vice-Reitor: Prof. Ms. Hidelbrando dos Santos Soares

Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa – PROPGPq

Prof. Dr. Jerffeson Teixeira de Souza

Centro de Humanidades – CH

Diretor: Prof. Dr. Eduardo Jorge Oliveira Triandópilis

Mestrado Acadêmico em História e Culturas - MAHIS

Coordenador: Prof. Dr. Altemar da Costa Muniz

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ENDEREÇO POSTAL

Revista História e Culturas Mestrado Acadêmico em História Centro de Humanidade

Universidade Estadual do Ceará

Av. Paranjana, 1700, Campus do Itaperi Fortaleza/CE/Brasil - CEP: 60714-903 CONTATO PRINCIPAL

Dra. Lucili Grangeiro Cortez Telefone: (85) 3101.9611

E-mail: [email protected]

CONTATO PARA SUPORTE TÉCNICO Dr. Altemar da Costa Muniz

Telefone: (85) 3101.9611

E-mail: [email protected]

Informações sobre a Capa Artista: Samuel Richards (1853-1893)

Acervo: Instituto de Artes de Detroit (Michigan) - USA

COMITÊ EDITORIAL

Prof. Dr.ª Lucili Grangeiro Cortez. Universidade Estadual do Ceará – UECE Prof. Dr. Altemar da Costa Muniz, Universidade Estadual do Ceará – UECE Profa. Dr. Gleudson Passos Cardoso. Universidade Estadual do Ceará - UECE Ana Paula Bezerra – Mestranda/MAHIS

Camila Mota Farias – Mestranda/MAHIS Rafaela Gomes Lima – Mestranda/MAHIS

CONSELHO EDITORIAL

Alessandro Portelli (Universitá di Roma) Carlos Guilherme Mota (Unicamp) Dilene Nascimento (Fiocruz) Durval Muniz (UFRN) Eduardo França (UFMG)

Ennio Sanzi (Universitá Degli Studi di Messina)

Francisco Gonzalez (Universidade Castilla de la Mancha) Gerrie Casey (Indiana University)

Giselle Venâncio (UFF) João Pinto Furtado (UFMG)

John D. French - Duke University (EEUU) Klaus Hilbert (PUC-RS)

Marieta Moraes (UFRJ) Miguel Arias (UFPR)

Paul Mishler (Indiana University)

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CONSELHO CONSULTIVO

Adriana Facina (UFF)

Almir Diniz de Carvalho Júnior (UFAM) Clarindo Barbosa (UFCG)

Eurelino Coelho (UEFS) Felipe Magalhães (UFRRJ) Francisco Alcides (UFPI) Gerson Ledezman (UNILA) Gilmar de Carvalho (UFC) Gisafran Jucá (UECE) James Roberto Silva (UFAM) Josenildo Pereira (UFMA)

Marcos César Borges Da Silveira (UFAM) Raimundo Barroso (UFPB)

EDITOR GERENTE Dra.Lucili Grangeiro Cortez Telefone: (85) 3101.9611

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Sumário

Editorial...

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Artigos

I. A LEPRA ENTRE CIÊNCIA E A IMPRENSA

Rudolf Virchow e a lepra: legados de um divulgador da ciência... Reinaldo Guilherme Bechler e Demétrio Delizocoiv

10 “Para o Bem Estar, Saúde e Segurança do Povo”: as ações do jornal o nordeste na batalha contra a lepra no Ceará (1922-1928)... Francisca Gabriela Pinheiro

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II. LOUCURA: SABERES MÉDICOS E ESCRITA LITERÁRIA

O Saber Médico e as Ações do Governo para as Crianças Pobres na Cidade de Teresina-PI na virada do séc. XIX para o XX... Felipe da Cunha Lopes

61 A Loucura Entre Três Fontes Históricas: Philippe Pinel, Francisco Montezuma e Gustavo Barroso... Cláudia Freitas de Oliveira

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III. AÇÕES E INTERVENÇÕES NO CAMPO DA SAÚDE PÚBLICA

Em Tempos de Seca: as intervenções higiênicas e as questões de saúde em Fortaleza (1877-1879)... Ana Karine Martins Garcia

110 A Conformação de uma Agenda de Saúde Pública no Ceará (1920 - 1930)... Zilda Maria Menezes Lima

129 Sujeitos Inominados e Lugares Sigilosos: a constituição dos alcoólicos anônimos na cidade de Fortaleza... Raul Max Lucas Da Costa

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IV. CÓLERA, VARÍOLA E HIV: PERSPECTIVAS HISTÓRICAS

“Cada Cidadão Valido Representa uma Parte da Riqueza do Estado”: noções de biopolítica e os sentidos da profilaxia na obra Varíola e Vacinação, de Rodolfo Teófilo... André Brayan Lima Correia

166 A Doença Como uma Construção: o caso da cólera no Ceará... Dhenis Silva Maciel

188 Histórias de Consciência e Luta de Pessoas que Vivem com HIV/VIH no Nordeste Brasileiro... Roberto Kennedy Gomes Franco

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EDITORIAL

Sabe-se hoje que o campo da História da Saúde e das Doenças possui, reconhecidamente, seu lugar no âmbito da Historiografia local, nacional e internacional. Assim, em parte por entender a importância deste campo nas pesquisas históricas atuais, em parte por ter como baliza as questões do seu tempo, a Revista História e Culturas do Mestrado Acadêmico em História – MAHIS dedica este número ao debate que vários pesquisadores no Ceará, no Piauí e em Santa Catarina, por exemplo, vêm travando acerca dessa temática.

Esta coletânea propõe-se a apresentar dez artigos em que são discutidos vários temas que estabelecem diálogos com este campo de estudos. São textos que podem ser referenciados no âmbito da história da ciência e da medicina, das ações em saúde pública, no sentido de oferecer combate às doenças do corpo e da mente em espaços específicos, bem como das práticas executadas pelos poderes e saberes com o intuito de afastar os elementos ditos indesejáveis dos núcleos urbanos.

Desse modo, estabelecemos uma divisão dos artigos em quatro blocos temáticos: I - A Lepra entre Ciência e Imprensa; II - Loucura: Saberes Médicos e Escrita Literária; III - Ações e Intervenções no Campo da Saúde Pública; IV- Cólera, Varíola e HIV: Perspectivas Históricas, cujo objetivo foi agrupar temáticas afins em eixos específicos.

O primeiro bloco temático inicia-se com o artigo de Reinaldo Bechler e Demétrio Delizocoiv que abordam uma faceta ainda não suficientemente explorada do médico alemão Rudolf Virchow, considerado uma das figuras científicas mais controversas do século XIX. Seu legado como cientista e pesquisador é notado em várias áreas do conhecimento humano, fazendo de sua figura um visitado objeto de estudo acadêmico, atrelado, sobretudo ao surgimento da Medicina Social. Neste artigo, porém, Bechler e Delizocoiv abordam uma faceta ainda pouco conhecida do trabalho de Virchow: a de divulgador de ciência, pautando-se em fontes primárias ainda inéditas em

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literatura não-alemã. Para os autores, Virchow era um homem que já se preocupava, em

meados da década de 1840, em divulgar suas pesquisas em jornais de grande circulação, percebendo já, a importância de registrar e comunicar os avanços da ciência de sua época e ter seu nome vinculado a esses avanços no entendimento que tal divulgação, seria um predicado salutar a suas pretensões de homem vanguardista.

O artigo de Francisca Gabriela Pinheiro tem por objetivo realizar uma análise das ações do Jornal O Nordeste – periódico católico cearense que circulou praticamente em todo o século XX, na batalha contra a lepra no Ceará. O citado jornal foi um dos principais pilares do combate à doença na cidade, na medida em que, a partir de 1922, questionou fortemente as autoridades competentes acerca da tomada de medidas efetivas para o combate ao grande mal. Como ilustração dessa luta, aponta a autora, a participação fundamental da folha católica na edificação do Leprosário cearense Antônio Diogo, a primeira instituição de isolamento para leprosos no estado. A autora destaca ainda, como o referido periódico trouxe para suas páginas, o uso de um conjunto de metáforas relacionadas à lepra, em que foi possível identificar duas ideias centrais exploradas de modo concomitante: o medo e a caridade. Ambas, bem urdidas, despertaram na população tanto a caridade, quanto o medo. O intento final era legitimar a necessidade da construção de um espaço de isolamento compulsório para estes enfermos com o fim de afasta-los da convivência com a população sã.

O segundo bloco temático abre-se com o texto de Felipe Cunha que tem por objetivo, comparar as estratégias de controle social, relacionadas à infância pobre na cidade de Teresina, no estado do Piauí e encetadas pelo poder público na passagem do século XIX para o XX, a partir das ideias apresentadas na Tese de Doutoramento do médico piauiense Antônio Ribeiro Gonçalves, defendida no ano de 1902, na Faculdade de Medicina da Bahia. Tal tese aborda a problemática do “menor delinquente” com base em questões apresentadas pela psiquiatria. Segundo o autor, as teorias disseminadas na tese do médico e práticas exercitadas pelos poderes públicos na cidade, convergiram no sentido de criminalizar as crianças advindas das camadas mais pobres, justificando as desigualdades sociais então existentes, através de medidas que se apresentavam como naturalmente justas.

O artigo de Cláudia Freitas de Oliveira articula três discursos produzidos por dois médicos, o francês Philipe Pinel e o brasileiro, Francisco Montezuma, e por um

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literato, o cearense Gustavo Barroso acerca de uma mesma temática – a loucura –

porém com olhares distintos. Um dos objetivos centrais da autora foi estabelecer cruzamentos entre fontes históricas cujas perspectivas são diversas, na medida em que os dois primeiros apresentam teor científico, enquanto o terceiro possui cunho ensaísta. Contudo, eles convergem e inserem-se em semelhante ideário de mundo moderno, racional e civilizador no qual os loucos foram reduzidos à condição de exclusão e marginalização social posto que, na formação de uma identidade nacional e burguesa, eles representavam corpos improdutivos, inadequados e inaptos a uma sociedade que se abria notadamente para os avanços burgueses. Assim, a autora investiga as concepções e apropriações de saberes e as representações social e culturalmente construídas em torno da loucura durante o século XIX.

O terceiro bloco temático inicia-se com o artigo de Ana Karine Martins Garcia, no qual a autora analisa a política intervencionista do governo cearense no campo da saúde no momento em que a província foi assolada por uma grave seca cuja duração foi de 1877 a 1879. O artigo objetiva problematizar como as medidas governamentais afetaram a vida e o cotidiano de milhares de pessoas. A autora observa a intensificação no processo das intervenções higiênicas e médicas na cidade de Fortaleza, nesse período, sobretudo nos espaços denominados de abarracamentos, concluindo que os princípios e ações apregoados pelos médicos e higienistas não visavam apenas o impedimento das propagações das doenças mas, sobretudo, contribuíam para a modificação de hábitos e costumes da população sertaneja frente a nova realidade instituída.

O texto de Zilda Maria Menezes Lima aponta a constituição mínima de um aparato estatal na área da saúde no Ceará, a partir da segunda década do século XX. Para a autora, o Código Sanitário de 1920, efetivamente, deu maior poder ao governo federal para intervir nos estados bem como para exigir que estes dessem o seu “quinhão” nessa “batalha saneadora”. Em poucos meses, onze estados haviam firmado acordos com o governo federal para a criação de postos de profilaxia. Sete, eram das regiões norte e nordeste e dentre esses o Ceará. Zilda Lima indaga, no entanto, em que medida esse “esforço saneador” foi encampado pelos poderes locais? A instauração dos postos de profilaxia representou alguma alteração no quadro da saúde pública no Ceará? Questiona se há pertinência em se falar de ações de saúde pública efetivamente ou se seria mais correto um entendimento acerca da conformação de uma agenda de saúde

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pública no Ceará nas primeiras décadas do XX. A autora problematiza os primeiros

anos do século XX no que tange as questões referentes à saúde pública e informa que tais questões encontravam-se inseridas no âmbito da filantropia e/ou nos auxílios emergenciais do governo federal em momentos de calamidade. Acredita que do ponto de vista político, as oligarquias encasteladas nos cargos de mando no Estado, não priorizaram ações de higiene ou estabeleceram efetivamente uma agenda de saúde pública em período anterior à década de 1920.

O artigo de Raul Max Lucas da Costa tematiza a histórica da Irmandade

Alcoólicos Anônimos (AA), em Fortaleza durante o século XX, a partir da análise de diversificada documentação visando a reflexão acerca da formação histórica dos primeiros grupos e instituições que trabalharam com os alcoólicos anônimos. Quais eram as concepções terapêuticas instituídas pela Irmandade e quais eram as diferenças dos seus procedimentos adotados em relação aos métodos tradicionais são algumas das problematizações propostas pelo autor. Para isso, ele parte do diálogo com os preceitos psicológicos, médicos e espirituais e enfoca o relato da história individual e da memória coletiva da Irmandade. Constata ainda existir uma relação estreita entre os rumos da Higiene Mental, da Eugenia e dos Alcoólicos Anônimos, sobretudo nas décadas de 1950 e 1960 a partir da referência constante dos saberes psicológicos e psicanalíticos.

O quarto bloco temático, abre-se com o artigo de André Brayan Lima Correia no qual procura estabelecer alguns níveis de compreensão acerca da noção foucaltiana de biopolítica passível de percepção na obra “Varíola e Vacinação”, de Rodolfo Teófilo. Nesse sentido, busca aplicar o conceito à ideia de profilaxia muito presente também nessa obra. Desse modo, busca o autor compreender como o discurso de Rodolfo Teófilo aproxima-se do caráter biopolítico, em face às cobranças que fazia ao Estado na perspectiva de que este levasse em conta as críticas apontadas por ele em relação à má gestão pública da saúde no Ceará. Nesse sentido, pretende demonstrar que a situação de Fortaleza no final do século XIX e início do XX, com relação à saúde da população e as práticas profiláticas, pode ser vista com base no discurso do farmacêutico e intelectual Rodolfo Teófilo na citada obra, certos aspectos da noção de bipolítica, pois a sua experiência com a vacinação contra a varíola no final do século XIX, deu-lhe as ferramentas para promover a crítica aos poderes instituídos no estado do Ceará, principalmente no que tange ao aspecto sanitário.

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O artigo de Dhenis Silva Maciel inicia-se com a reflexão a respeito da

concepção de doença, tradicionalmente atrelada ao campo restritivo da biologia, e redimensiona-a para o universo da cultura, entendendo-a como construção histórica. Em seguida, analisa quadros de cólera que assolaram o Ceará e províncias vizinhas, em dois períodos específicos: 1855 e 1862. Seus objetivos centrais foram investigar acerca das representações construídas em torno da cólera, por diferentes sujeitos históricos e problematizar a doença não apenas como dado de teor físico, mas como uma experiência cultural.

O artigo de Roberto Kennedy Gomes Franco objetiva analisar historicamente a gênese da consciência política dos ativistas da RNP+ (Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS) e sua luta contra o VIH/HIV, a partir do surgimento de vários núcleos da rede no Brasil. Destaca que a evolução epidemiológica da infecção pelo VIH/HIV tem, consideravelmente, maior incidência junto às camadas com menos renda socioeconômica e com baixos níveis de instrução formal. As bases de interpretação do autor fundamentam-se em princípios dialéticos e nas concepções de consciência em si e consciência para si, no sentido de historicizar a formação de uma consciência e luta Anti-Sida da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/AIDS.

A partir dos dez artigos, a Revista História e Culturas - Dossiê História da Saúde e das Doenças pretende contribuir para o fortalecimento desse campo de pesquisa que deixou de ser um objeto incipiente ao ofício do historiador para se consolidar na academia. Boa leitura.

Organizadoras Zilda Maria Menezes Lima (UECE) Cláudia Freitas de Oliveira (IFCE)

Referências

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