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RECICLAGEM DA PARTIDA

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Academic year: 2021

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INTRODUÇÃO

No livro Xadrez Operacional estou propondo a substitui-ção da tradicional doutrina "estratégia & tática", que hoje ex-plicaria todo o fenômeno da competição enxadrística, pela doutrina trinitária "estratégia, operações & tática". Penso que com o novo método o aficionado poderá ter melhor visi-bilidade dos processos que ainda hoje não lhe estão claros.

O primeiro passo nessa direção foi consolidar os quatro níveis de atuação do jogador no xadrez de competição:

Nível de Planejamento da Carreira Enxadrística Nível de Planejamento da Disputa de Torneio Nível de Planejamento da Condução da Partida Nível de Desenvolvimento do Plano de Jogo

CONCEITO DE RECICLAGEM

Ciclo estratégico, a interpretação operacional do plano de jogo, é "uma ordem meditada de ações para lograr determi-nado objetivo" (Kasparov 1990, p. 61).

O processo da reciclagem estratégica da partida é a substi-tuição, definitiva ou temporária, de um ciclo por outro que mais se aproxime do seu resultado esportivo.

Em última instância, a reciclagem da partida é a operacio-nalização do seu resultado esportivo prefixado, pelo próprio jogador, ao nível de disputa do torneio.

REPRESENTAÇÃO GRÁFICA DA RECICLAGEM OOOOO

Fig. 1

A figura 1 representa uma partida concluída após cinco ci-clos. Por exemplo, da esquerda para a direita: (a) ciclo da posição inicial; (b) maioria de peões na ala de dama; (c) peão passado; (d) promoção do peão passado com vantagem mate-rial; e (e) ataque de mate. Resultado final: vitória.

Se aproximarmos da fig. 1, aumentando-a 10 vezes, vere-mos apenas os dois ciclos da representação abaixo:

10x

OO

Fig. 2

Grosso modo ainda vemos dois ciclos, mas se aumentamos para "20 x" teremos a surpresa mostrada na fig. 3:

20x

O

·

Fig. 3

Nesta sintonia fina o primeiro ciclo permanece por estar presente rodando sobre o tabuleiro como "operações"; mas

o segundo desapareceu porque era uma expectativa no futuro da partida. Em tempo real restou um "ponto" a certa distân-cia do ciclo: é o objetivo estratégico alvo das operações; e a distância entre o ciclo e o ponto a decisão tática!

A passagem de um ciclo a outro depende de uma decisão tática. Em determinado momento das operações (o círculo da representação) o jogador detecta a decisão do plano de jogo como conquista de seu objetivo (representado pelo "ponto" na fig. 3). A distância que separa o ciclo do ponto é percorri-do pelo cálculo de variantes ou solução analítica (tática) razão pela qual é possível visualizar a "posição pós-variante" (Ro-manowsky 1971, p. 167) e julgar se o "ponto" (objetivo es-tratégico) será realmente conquistado e se vale a pena essa conquista! Aprovado pelo raciocínio estratégico, esse "pon-to" (objetivo intermediário) é conquistado e se transforma no novo ciclo perfazendo a reciclagem da partida (fig. 2).

Quando a partida chegar ao "ciclo final" de sua existência (o 5.º ciclo na fig. 1) ainda teremos o "ponto" da fig. 3 mas agora representando um valor numérico (1-0, 1/2 ou 0-1), ou seja, o resultado esportivo da partida.

FLUXOGRAMA: "TORNEIO-PARTIDA-PLANO" O fluxograma é outro recurso gráfico para facilitar a com-preensão da dinâmica operacional da partida:

1-Torneio

9-Resultado Esportivo



8-Objetivo Final



2-Resultado Esportivo 5-Desenvolvimento



6-Decisão Tática

 

CICLO ESTRATÉGICO



3-Partida



4- Plano



7-Objetivo Intermediário

Descrição sumária:

a) fluxograma do torneio (1): do passo 1 ao 9, ao passo 1 (sistema fechado com "feedback").

b) fluxograma da partida (3): do passo 3 ao 8 (sistema aberto, retilíneo e finito).

c) fluxograma do plano (4): do passo 4 ao 7, ao passo 4 (sistema fechado com "feedback").

Descrição factual:

a- Atuando ao nível de "planejamento da disputa de tor-neio" (1) o jogador fixa um "resultado esportivo da partida" (2) para ser conseguido, pelo próprio jogador, atuando agora ao nível de "planejamento da condução da partida" (3).

b- Ao nível de "planejamento da condução da partida" (3) o jogador elabora seu "plano de jogo" (4) colimado no "resultado esportivo da partida" (2) retro-fixado ao nível de "planejamento da disputa de torneio" (1) e agora visto como o "objetivo final" da partida (8) e passa trabalhar seu

RECICLAGEM DA PARTIDA

Henrique Marinho

[email protected]

(2)

"desenvolvimento" (5) até o momento de sua exposição a uma "decisão tática" (6).

c- A "decisão tática" (6) pode resultar na conquista do "objetivo intermediário" (7) com retro-alimentação ("fee-dback") do "nível de desenvolvimento do plano de jogo" (4) e reinício do processo de conquista do novo objetivo estraté-gico e assim estabelecendo a denominada "reciclagem estra-tégica da partida".

d- A "decisão tática" (6) também pode resultar na con-quista do "objetivo final" (8) da partida que, por sua vez, tra-duz um "resultado esportivo da partida" (9), que pode ou não coincidir com o "resultado esportivo da partida" (2) re-tro-fixado, mas que de todas as formas atua na retro-alimen-tação ("feedback") do nível de "planejamento da disputa de torneio" (1).

BOTVINNIK, M. - SHAROV, P. LENINGRADO 1928 1.º CICLO: Estratégia da posição inicial





















D1: Posição inicial  "Brancas evitam a Variante Merano possível após 5.c3. A 5...dxc4 responderiam favoravelmente com 6.xc4. Então qual o in-conveniente da jogada 5.bd2? Pelo visto iguala as possibili-dades 5...c5. As negras desenvolvem imediatamente o cavalo por c6 e obtém um jogo excelente incrementando a pressão sobre o centro" (Botvinnik 1990, p. 78).

5...        





















D2: Posição crítica após 13..c5

O dagrama D2 é a posição crítica de plano "estratégia da posição inicial" cuja meta é a obtenção do objetivo interme-diário "maioria de peões na ala de dama".

 Decisão tática com a obtenção de "maioria de peões na ala de dama".

2.º CICLO: Maioria de peões na ala de dama





















D3: Após 14...Bxc5, maioria de peões na ala de dama. Sabemos pela experiência que da maioria de peões pode resultar, de modo natural, pelo menos um "peão passado". Nesta reflexão jogam dois temas estratégicos: "maioria de peões na ala de dama" no presente da posição e "peão passa-do"em uma posição no futuro da partida. Com isto podemos dizer que o plano de jogo das brancas resulta da combinação dos dados posicionais encontrados no presente da partida ("maioria de peões na ala de damas") projetando um objetivo ("peão passado") a ser conquistado no futuro da partida.

Destas considerações podemos definir (provisorimente!) duas importantes estruturas da competição enxadrística:

Estratégia: a arte de detectar e combinar os dados da posição num objetivo meta do plano de jogo.

Plano de jogo: "uma ordem meditada de ações para lograr determinado objetivo" (Kasparov).

Segue agora o desenvolvimento do plano de jogo "maioria de peões na ala de dama" em busca de um peão passado.

  Neste momento é atingida a posição crítica do plano de jogo "maioria de peões na ala de dama" na qual Botvnnik detecta o momento de sua decisão tática!





















(3)

 Decisão tática do plano "maioria de peões na ala de dama" que, numa reciclagem em série da partida, conquista seu objetivo intermediário, peão passado. 3.º CICLO: Peão passado





















D5: Peão passado

O diagrama D5 com o "peão passado" é a posição pós-va-riante antevista por Botvinnik ainda no diagrama D4, concre-tizada pela sequência forçada de lances (variante) na efetiva conquista do objetivo intermediário (peão passado) alvo do plano de jogo "maioria de peões na ala de dama".

Ao final dessa variante ocorre a mudança de planos de jogo na partida, neste caso do plano "maioria de peões na ala de dama" para o plano "peão passado", que significa uma "reci-clagem estratégica da partida" ou "reci"reci-clagem da partida", a "mudança de plano de jogo pela conquista de um objetivo in-termediário" (Marinho 2004, p. 296).

O novo plano de jogo ("peão passado") também tem obje-tivo a conquistar: "sua promoção"! Seu desenvolvimento consiste em levá-lo à 8.ª casa, geralmente promovendo-o a dama. Mas poderá ser impedido a custa de uma peça adversá-ria, em ambos os casos resultará uma vantagem material!

Neste momento destaco os dois conceitos relacionados à funcionalidade de qualquer plano:

a) "desenvolvimento do plano de jogo" (raciocínio ope-racional); e

b) "decisão tática do plano de jogo" (raciocínio tático). Com isto consegui separar com grande nitidez o raciocínio operacional ("operações") do raciocínio tático ("tática") de-monstrando assim a presença de minha doutrina trinitária "estratégia, operações & tática". Em consequência foi possí-vel definir com grande precisão estas duas categorias do raci-ocínio enxadrístico:

Operações (arte operacional ou nível operacional) é "a arte de desenvolver o plano de jogo expondo-o a seu mo-mento de decisão" (Marinho 1979); e

Tática é "a arte de detectar, e pelo cálculo, decidir o plano de jogo" (Marinho 1979).

  Para haver a promoção do peão passa-do na casa-c8 é necessário que a linha exterior de comunica-ções do peão-c5 esteja livre!

A busca direta desse objetivo limitado dificilmente será conseguido pois irão estimular resistências negras cada vez maiores! O correto é o emprego do "método indireto" (Li-ddell Hart 1967, p. 34) aproveitando a atual e grave

descoordenação das peças negras: avançando sobre elas, como se fez no lance do texto 22.e4, que ataca a a8, uma captura de peça ou ganho da qualidade produziria uma verda-deira reciclagem da partida para um novo plano que pode-mos denominar "vantagem material".

Este é um ponto importante no estudo das reciclagens da partida: a passagem da "maioria de peões" para o "peão pas-sado" deu-se pela "reciclagem em série" da partida, cuja ca-racterística é o plano original, "maioria de peões", desapare-cer da partida dando lugar ao novo, "peão passado".

Com o método indireto (lance 22.e4), se conseguida a citada "vantagem material" (pela reciprocidade de ação), dar-se-ia uma "reciclagem em paralelo" da partida na qual o plano original, "peão passado", permaneceria na partida e seu objetivo intermediário, a "promoção", mantida como objetivo alternativo, um verdadeiro potencial de situação.

Nesta partida a descoordenação das peças negras é tão gra-ve que o simples desenvolvimento indireto do plano peão passado acaba por gerar uma vantagem material numa reci-clagem em paralelo da partida. Isto não elimina todavia a possibilidade de se voltar ao plano em paralelo, "promoção do peão passado", que agora associado à "vantagem materi-al", poderá assim chegar a uma "supervantagem" que force o abandono imediato!

Tecnicamente, a conduta de Botvinnik pela reciclagem em paralelo, se não resultar, vai lhe permitir retornar ao plano "peão passado" ainda em aberto cujo objetivo intermediário é, como vimos, a sua "promoção".

Neste momento, percebemos que na reciclagem em para-lelo tem grande importância a "reciprocidade de ação" (Aron 1986, p. 157) porque nesse tiroteio "a partir de certo ponto o plano cede lugar ao comando" (id. p. 413): o lento posicio-nalismo na promoção, agora sob o impacto do agito da reci-procidade de ação, pode levar a novas lutas, por conta dessa dialética, a situações decisórias inesperadas, como na partida.

 Posição crítica de reciclagem em paralelo gerada pela reciprocidade de ação no desenvolvimento do plano peão passado.





















D6: Posição crítica após 24...c7

Estes últimos lances, a sequência de ataque-defesa entre as peças, define a reciprocidade de ação na disputa pela iniciati-va, muito característico do desenvolvimento contemporâneo do plano de jogo.

Esse complexo, na sua conjuntura, forma um momento especial em que "o plano [pensamento estratégico] cede

(4)

lugar ao comando" [pensamento operacional e tático], levan-do a deslevan-dobramentos surpreendentes e desfavoráveis ao pos-suidor de maior déficit na coordenação das peças. E por esta via, a iniciativa e a coordenação das peças ("enxadrística da posição") se congregam na operacionalização do plano de jogo numa formação sistêmica de grande densidade.

 Decisão tática e obtenção de "vantagem material" pelo ganho da qualidade numa reciclagem em paraelo da partida que se originou da reciprocidade de ação do desenvolvimento do plano "peão passado". Permanece intocada a possibilidade de continuação do desenvolvimento desse plano "peão passado" deixando muito clara a natureza paralela da reciclagem que redundou nessa vantagem material da qualidade.

4.º CICLO: Peão passado + vantagem material





















D7: Nova posição crítica após 28.xc7

 Tudo acontece muito rapidamente e um lance e já estamos em nova posição critica do plano "peão passado + vantagem material". A decisão tática ocorre para a obtenção da "ofensiva final" com reciclagem em série da partida. 5.º CICLO: Ofensiva final





















D8: Nova posição crítica após 28...b2

 Abandonam diante da desvantagem materi-al (qumateri-alidade), posicionmateri-al (peão passado) e da ameaça d8 que, no conjunto, caracteriza a letal "supervantagem"!

Em resumo: há reciclagem em série e em paralelo, esta muito relacionada com a reciprocidade de ação.

FLOHR, S. - BOTVINNIK, M. 6.ª PARTIDA, MATCH, LENINGRADO 1933 1.º CICLO: Estratégia da posição inicial

Desenvolvimento da posição inicial























D9: Posição crítica da estratégia da posição incial Decisão tática da posição incial (reciclagem em série)

 A variante "6.a3 xc3+ 7.xc3" é a decisão tática de um plano de jogo elaborado nos termos da estratégia da posição inicial muito difícil de ser compreen-dida ou mesmo deduzida sem informações dos jogadores.

Conjecturando: quais seriam as razões de Botvinnik nesta partida em ceder o par de bispos? Seria por conta de alguma novidade teórica que Flohr acabou evitando?

Do ponto de vista branco, 4.c2 seguido de 7.xc3 es-tão diretamente relacionados com a queses-tão do par de bis-pos, evitando-se a dobra dos peões para melhor tirar provei-to da correlção bispo contra cavalo.

Enfatizando, a estratégia inicial, projetada na posição inici-al, a interface torneio-partida, é muito complexa pela forte influência da teoria das aberturas. São destes pontos de vista que considero finalizado o primeiro ciclo estratégico partida. 2.º CICLO: Par de bispos

Desenvolvimento do par de bispos

          





















(5)

Decisão tática do par de bispos (reciclagem em paralelo)



3.º CICLO: Maioria qualitativa Desenvolvimento da maioria qualitativa

                      





















D11: Posição crítica da maioria qualitativas Decisão tática da maioria qualitativa (reciclagem em série)



4.º CICLO: Peão passado apoiado Desenvolvimento do peão passado apoiado

 





















D12: Posição crítica peão passado apoiado

Decisão tática do peão passado apoiado (reciclagem em série)



5.CICLO: Peão passado lateral

Ofensiva final com par de bispos e peão passado lateral

                      





















D13: Posição final do abandono

BIBLIOGRAFIA

ARON, R.; Pensar a Guerra, Clausewitz, Volume 1; Editora Universidade de Brasília; Brasília 1986.

BOTVINNIK, M.; Partidas Selectas (1); Ediciones Eseuve; Madrid 1990.

KASPAROV, G.; 24 Lecciones de Ajedrez; Editorial Hispano Europea; Barcelona 1990.

LIDDELL HART, B.; As Grandes Guerras da História; Ibrasa; São Paulo 1967. Nota: o grande debate sobre o "método indireto" (ou "estrategia de ação indireta") é feito no Ca-pítulo XIX (p. 403 e seg.).

MARINHO, H.; Maiorias Qualitativas nas Defesas Índias; Ibra-sa; São Paulo 2004.

MARINHO, H.; Textos Esparsos: Manuscritos, Datilografados & Digitalizados; Campinas 1958-1960, 1961-1966, 1976-1979; Piracicaba 1967; Foz do Iguaçu 1985-1999; Curi-tiba 1968-1975, 1980-1984, 2000-2011.

NIMZOWITSCH, A.; Meu Sistema; Editora Solis; São Paulo 2007.

ROMANOWSKY, P.; Combinaciones en el Medio Juego; Edici-ones Martinez Roca; Barcelona 1971.

oOo

Palestra oferecida à memória de meu pai Rui de Andrade Marinho que, vivo, completaria hoje 98 anos.

Referências

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