UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
ESCOLA DE MÚSICA
PROGRAMA DE PÓS- GRADUAÇÃO EM MÚSICA
GUSTAVO SEAL CARVALHO
UMA COMPOSIÇÃO PARA OBOÉ E CORDAS NA BAHIA: MEMORIAL DO PROCESSO DE CRIAÇÃO DA PEÇA LAMPEJOS NOSTÁLGICOS A PARTIR DO
PROCESSO COLABORATIVO ENTRE COMPOSITOR E INTÉRPRETE
Salvador 2019
GUSTAVO SEAL CARVALHO
UMA COMPOSIÇÃO PARA OBOÉ E CORDAS NA BAHIA: MEMORIAL DO PROCESSO DE CRIAÇÃO DA PEÇA LAMPEJOS NOSTÁLGICOS A PARTIR DO
PROCESSO COLABORATIVO ENTRE COMPOSITOR E INTÉRPRETE
Trabalho de conclusão final apresentado ao Programa de Pós-Graduação Profissional em Música área Criação musical / Interpretação, Escola de Música, Universidade Federal da Bahia, como requisito para obtenção do grau de Mestre em Música. Orientador: Prof. Dr. José Mauricio Brandão
Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca da Escola de Música- UFBA C331 Carvalho, Gustavo Seal
Uma composição para oboé e cordas na Bahia: memorial do processo de criação da peça Lampejos Nostálgicos a partir do processo colaborativo entre compositor e intérprete / Gustavo Seal Carvalho.- Salvador, 2019.
99 f. : il.
Orientador: Prof. Dr. José Mauricio Brandão
Trabalho de Conclusão (mestrado profissional) – Universidade Federal da Bahia. Escola de Música, 2019.
1. Composição (Música) - Estudo e ensino. 2. Oboé - Técnica. 3. Orquestra - Instrumentos de corda. I. Brandão, José Mauricio. II. Universidade Federal da Bahia. III. Título.
Agradeço a Deus por iluminar minha vida na busca pelos melhores caminhos a seguir.
Aos meus pais pelo incentivo dado a minha carreira profissional e aos meus estudos. A minha filha pelo incentivo inicial para que eu cursasse o mestrado.
A minha esposa pelo apoio sempre presente e a compreensão quando a minha ausência para o estudo se fazia necessária.
A todos os colegas do mestrado pelas discussões em sala de aula e pela troca de experiências sempre enriquecedoras.
Aos funcionários da Escola de Música e músicos da orquestra sinfônica da UFBA, que de alguma forma direta ou indiretamente me ajudaram na conclusão do curso.
A todos os professores do mestrado que compartilharam seus conhecimentos, enriquecendo intelectualmente a todos que participaram dessa jornada.
Ao compositor Wellington Gomes, por ter aceito o trabalho proposto por mim e que deu origem a peça Lampejos Nostálgicos.
A minha coorientadora, professora Roberta Benjamim, por todas as suas orientações e sugestões durante o curso, me incentivando ao aperfeiçoamento técnico e musical.
Ao meu orientador, professor José Mauricio, pelo seu apoio e por ter contribuindo com seu conhecimento sempre de forma muito objetiva e prática na condução do trabalho.
Por fim agradeço a todos que de alguma forma me apoiaram contribuindo para a concretização desse trabalho.
Este trabalho de conclusão apresenta de forma compilada as atividades realizadas durante o curso de Mestrado Profissional em Música, na área de Criação Musical / Interpretação, pertencente ao Programa de Pós-Graduação Profissional em Música (PPGPROM) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), sob a orientação do Prof. Dr. José Mauricio Brandão. Neste compilado se encontram o memorial descritivo do curso, um artigo intitulado, análise dos níveis de motivação e satisfação dos músicos da Orquestra Sinfônica da Bahia, além dos relatórios de todas as práticas profissionais orientadas realizadas durante o curso – orquestrais e docentes – e um memorial referente ao processo de criação da peça Lampejos Nostálgicos para oboé e cordas a partir do processo colaborativo entre compositor e interprete. O material apresentado tem como função cumprir com os requisitos para a obtenção do título de Mestre em Música pela Universidade Federal da Bahia.
Palavras chave: satisfação, motivação, orquestra, processo colaborativo.
This final project presents a summary of the Professional Masters in Music Degree in Music Creation/Interpretation, at the Federal University of Bahia (PPGPROM-UFBA), advised by Prof. Dr. José Mauricio Brandão. This document contains: a descriptive memorandum; an academic paper entitled “Analysis of the levels of motivation and satisfaction of the musicians of the Bahia Symphonic Orchestra”; the reports of the professional practices realized along the program; and a report of Lampejos Nostálgicos, for
oboe and strings collaborative creation process between composer and performer. The
materials presented aims to accomplish the requirements of the Master in Music Degree at the Federal University of Bahia.
Figura 1 A e B(compassos 297-298) pg.42 Figura 2 A e B (compasso 88-90) pg.42 Figura 3 A (compasso 29-32) pg.42 Figura 3 B (compasso 29-32) pg.43 Figura 4 A e B (compassos 65-66) pg.43 Figura 5 A e B (compassos 73–74) pg.44 Figura 6 A e B (compassos 87-91) pg.44 Figura 7 A e B (compassos 80-86) pg.45 Figura 8 A e B (compassos 109-112) pg.45 Figura 9 A e B (compassos 105-108) pg.46 Figura 10 A e B (compasso 149) pg.46
Figura 11 A e B 11A (compasso 153) pg.46
Figura 12 (compasso 88-90) pg.47
Figura 13 A e B (compasso 143- 148) pg.48
1 MEMORIAL DESCRITIVO 10
2 ARTIGO – análise dos níveis de motivação e satisfação do músicos da orquestra sinfônica da Bahia 20
Resumo 20
Introdução 21
Motivação e Satisfação 22
Fatores Extrínsecos e Intrínsecos 22
A Orquestra 25
Análise dos Fatores Extrínsecos e Intrínsecos na Orquestra Sinfônica da Bahia 26
Conclusão 33
Referências Bibliográficas 35
3 MEMORIAL DO PROCESSO DE CRIAÇÃO COLABORATIVA ENTRE INTÉRPRETE E COMPOSITOR DA PEÇA LAMPEJOS NOSTÁLGICOS 36
Introdução 36
A criação colaborativa 37
O trabalho 38
Considerações sobre a peça 47
Considerações finais 49
4 ANEXO 1 – PARTITURA DE OBOÉ (SOLISTA) DE LAMPEJOS NOSTÁLGICOS DE WELLINGTON GOMES 51
5 ANEXO 2 – PARTITURA DE ORQUESTRA DE LAMPEJOS NOSTÁLGICOS DE WELLINGTON GOMES 56
2017.1 74
APÊNDICE B – Relatório da disciplina Oficina de Prática Técnico-Interpretativa 2017.2 76
APÊNDICE C – Relatório da disciplina Oficina de Prática Técnico-Interpretativa 2018.2 78
APÊNDICE D – Relatório da disciplina Recital Concerto Solístico 2018.1 80
APÊNDICE E – Relatório da disciplina Prática Orquestral 2017.1 82
APÊNDICE F – Relatório da disciplina Prática Orquestral 2017.2 86
APÊNDICE G – Relatório da disciplina Prática Orquestral 2018.1 90
APÊNDICE H – Relatório da disciplina Prática Camerística 2017.1 93
MEMORIAL DESCRITIVO
Escrever um memorial é trazer para o papel uma experiência de vida fundamentada não só em uma experiência prática, mas também reflexiva. E é nesse sentido que esse memorial se mostra, como um manancial de vivências do passado e do presente de minha vida profissional e de estudo, buscando nas reflexões desses momentos tão distintos um significado pessoal dessas experiências.
Nesse momento posso rever a trajetória de minha vida dedicada à música como etapas de aprendizado, sendo a primeira delas na minha infância quando, dos oito aos onze anos de idade, estudei piano em Salvador. Apesar de ser Recifense, o fato de ser filho de funcionário publico trazia a possibilidade de transferências para outras cidades, o que me levou a morar um tempo em Salvador quando criança. Nessa época, um acontecimento fortuito me levou a conhecer o piano, quando meus pais permitiram que uma amiga da família deixasse seu piano em nossa casa pela falta de espaço na sua residência. Assim, a oportunidade de estudar música e a admiração pelo piano me trouxe o interesse em estudar esse instrumento. Meu pai, apesar de ser homem nascido no interior do Maranhão, distante do ambiente cultural das grandes cidades, tinha uma inata admiração pela música instrumental e, em especial, a erudita, recebendo dele, assim, o meu maior incentivo. Graças a esse incentivo é que me interessei em estudar piano, cujas primeiras aulas foram dadas por uma professora de nome Amélia no bairro do Bonfim, de quem sou imensamente grato pelas minhas primeiras lições de piano.
Em toda estória do meu desenvolvimento musical os ambientes educacionais na área da música, sem sombra de dúvida, foram importantes no meu aprendizado. Entretanto, o ambiente familiar foi o que me propiciou inicialmente uma maior aproximação com a educação no mundo da música erudita. Acho importante fazer essa colocação, tendo em vista que a percepção maior desse processo se deu ao estudar sobre o conceito de Habitus de Bourdier e o entendimento do que podemos chamar de códigos de apreciação passados a mim pelo ambiente familiar, o que falarei mais adiante.
Posteriormente, após morar por um breve período em Manaus, voltei a Recife, continuando meus estudos de piano até os dezesseis anos. É desse período o conhecimento que eu tive do oboé quando, ao ouvir um disco de música erudita em que o instrumento era solista, me trouxe a curiosidade de conhecer melhor o instrumento. Em 1978 uma nova mudança de cidade, Brasília, e uma nova etapa de vida me trouxe um novo horizonte musical,
quando pude conhecer melhor o oboé, instrumento que me cativou pela sonoridade, e que era alvo do meu interesse em estudar. Assim, comecei a estudar oboé na Escola de Música de Brasília.
Poucos eram os oboés disponíveis para aprendizado na época, o que me obrigava a dividi-los com outros alunos. Somente aos dezessete anos, com a compra de um oboé pelo meu pai, é que realmente posso dizer que o meu aprendizado realmente começava naquele momento, talvez um pouco tarde dentro de um contexto europeu, mas bastante comum no nosso meio educacional, por se tratar de um instrumento de difícil aquisição e caro quando comparado a outros instrumentos.
O curso técnico da Escola de Música de Brasília certamente foi determinante na minha decisão em seguir a carreira de músico, pela estrutura educacional que possuía e ainda hoje possui, e trouxe para mim o incentivo necessário para continuar os estudos musicais. Foram quatro anos de estudos onde tive a oportunidade de conhecer matérias que até então não faziam parte da minha vida de estudante de piano, como apreciação musical, harmonia e percepção, além de atividades práticas que me foram bastante úteis posteriormente na minha vida profissional como banda, orquestra, coral e música de câmara, atividades práticas pouco comuns em uma escola pública de nível técnico naquela época.
O curso da EMB me propiciou novos horizontes e vislumbrei mais de uma possibilidade profissional, já que estudava oboé como instrumento principal com o professor Sebastião Gomes e piano como instrumento suplementar com a professora Neusa França, chegando a estudar os dois em um nível de aprendizado elevado, pouco comum de se ver normalmente, em razão do tempo despendido de dedicação que esses dois instrumentos precisam para se aperfeiçoar.
Após o término do curso de técnico instrumentista na EMB, mais de uma opção se apresentava para mim naquele momento que seria cursar oboé na Universidade Federal de Brasília ou piano na Faculdade Dulcina de Moraes, fiz os dois vestibulares tendo passado na Faculdade Dulcina de Moraes.
Ao entrar na Faculdade Dulcina de Moraes para cursar o bacharelado em piano em 1981, parecia que meu destino seria outro. Sonatas de Beethoven e estudos de Chopin faziam parte dos meus estudos de piano, sendo a dedicação a esse instrumento muito maior nessa época, entretanto continuei paralelamente meus estudos de oboé no curso de extensão da Universidade Federal de Brasília com o professor Vaclav Vineck.
Sempre gostei de tocar ambos os instrumentos, entretanto sempre tive uma visão prática da vida e, naquele momento via o oboé como um instrumento que me traria maiores possibilidades de trabalho do que o piano, o que me fez continuar a estudá-lo.
Durante as nossas vidas e, em especial na juventude, as escolhas relativas às oportunidades de estudo e trabalho que surgem são determinantes em nossas vidas. Assim, em 1982, uma nova etapa de vida se iniciou para mim quando, ao passar no concurso para a Orquestra Sinfônica da Bahia, passei a atuar como oboísta. Nesse período senti necessidade de mudar de curso, onde passei a me dedicar na graduação ao oboé na Universidade Federal da Bahia, onde fiz meus estudos com o professor de oboé Luís Moreira.
O piano, assim, voltou a ser meu segundo instrumento, agora como instrumento suplementar na graduação, tendo como professora Maria Angélica Kollreutter. Estudei piano por mais alguns anos até perceber a impossibilidade de me dedicar, ainda que medianamente a esse instrumento, tendo em vista que um oboísta necessita de um tempo a mais que a maioria dos instrumentistas de orquestra por conta da necessidade de fazer palhetas.
A condução de um ensino técnico ou superior em qualquer lugar no meu entender deve obedecer às possibilidades que a carreira oferece no momento de aprendizado, e comigo não seria diferente fosse como pianista ou oboísta. No caso em particular com o oboé, minha educação técnica foi voltada em especial para ser um músico de orquestra, e assim dei prosseguimento na minha educação no curso superior, o que para mim continuou sendo essencial, já que, ao entrar na OSBA, a minha experiência anterior em orquestra sinfônica era muito pequena.
O contato com músicos como Lindenberg Cardoso, Ernst Widmer e Smetak, na Escola de Música da UFBA na graduação, foram bastante enriquecedoras ao propiciar a reflexão sobre outros modos de se fazer música, o que me fez interessar, assim como muitos da minha geração, em estudar composição. Entretanto, meu interesse primordial era bastante pertinente às minhas necessidades do momento, ou seja, me aprimorar no instrumento que abracei com vistas à atividade orquestral. Foi nesse período também, em 1986, que entrei para a Orquestra Sinfônica da Universidade Federal da Bahia.
Durante os mais de 35 anos de atuação como oboísta na OSBA e na OSUFBA, pude exercer diversas funções e atividades, como primeiro oboé, segundo oboé e corne-inglês, além de atuar como solista e camerista em ambas as orquestras.
Entre os anos de 1990 e 1998 participei do Conjunto de Música Contemporânea Bahia Ensemble, formado por professores da Escola de Música da UFBA e músicos da
OSUFBA. Nesse período pude participar com o Conjunto de concursos nacionais de composição, incentivando novos compositores a compor para o conjunto. Participei também de festivais de música contemporânea no Rio de Janeiro e do Festival de Campos do Jordão, trabalho bastante significativo para mim pela experiência adquirida e pelo alto nível de qualidade musical alcançado pelo conjunto.
No final da década de 1990 também tive a oportunidade de participar de apresentações em conjuntos de música barroca, patrocinados pela instituição Barroco na Bahia, o que me proporcionou a possibilidade de tocar algumas cantatas de Bach juntamente com músicos alemães, atividade muito proveitosa como profissional, principalmente por se tratar de cantatas até então desconhecidas para mim.
Sempre procurei atividades que pudessem ser motivadoras no meu ambiente de trabalho, tendo em vista que o trabalho em orquestra, por vezes, pode ser limitante para aqueles que querem alargar seus horizontes como intérprete e o seu campo de atuação como músico. Assim, no final da década de 1980 comecei a participar do projeto Cameratas da OSBA, projeto que tem por finalidade levar música a lugares em que uma orquestra sinfônica, pelo seu tamanho, não teria possibilidade de tocar, como escolas, igrejas, asilos e pequenos teatros, com a intenção de divulgar a música instrumental e formar plateia.
Entre a minha formatura e o momento inicial do mestrado se passaram cerca de trinta anos e, nesse interregno, fiz alguns cursos de masterclass, voltados para oboé e música de câmara, com os professores Georg Merwein, Aurele Nicolet e Albrecht Mayer.
Ingressei em abril de 2017 no programa de Pós-graduação Profissional em Musica (PPGROM) da Universidade Federal da Bahia, com a finalidade de cursar o Mestrado profissional na área de Criação Musical - Interpretação, tendo como orientador o Prof. Dr. José Mauricio Brandão e como coorientadora a Prof. de oboé Roberta Benjamim.
Muitos podem ser os interesses de quem quer fazer um mestrado, no meu caso, particularmente, tendo em vista o pouco tempo que me resta na minha atividade profissional, tendo em vista minha aposentadoria, achei que seria interessante como realização pessoal deixar algo que fosse proveitoso para as novas gerações.
Tendo conhecimento do curso e das possibilidades de ensino dele, acreditei na possibilidade do aprendizado, não agora mais apenas como um ensino formal voltado para um interesse específico, mas também, de conhecer novas formas de pensar em relação ao que se faz atualmente na área da educação voltada para a criação e interpretação musical.
A experiência trazida pelo curso de mestrado através dos seminários semanais certamente foi uma das melhores experiências educacionais na área da música que já tive. O contato com os professores e alunos nas discussões dos temas abordados e nas trocas de ideias trouxeram, com certeza, novos modos de perceber o mundo musical em que vivemos, sendo as matérias cursadas no mestrado por mim de grande valia no processo de aprendizado e aprimoramento com vistas a um melhor desempenho no cumprimento das tarefas a que me propus realizar.
Nesse sentido, acredito que esse ensino foi muito proveitoso para mim e também para aqueles que se dispuserem a levar esses conhecimentos para as salas de aula, tendo em vista a carência em nosso país de profissionais mais gabaritados para o ensino de música nas escolas.
O início de um curso de mestrado profissional pode nos trazer dúvidas, e as discussões em sala de aula, inerentes ao artigo e ao produto final, com os professores Pedro Amorim e Lucas Robatto, foram bastante proveitosas e enriquecedoras, trazendo elementos de construção das ideias no desenvolvimento das propostas. Inicialmente interessado em trabalhar, como produto final, com o concertino de Breno Blauth para oboé e cordas, a minha proposta evoluiu para a criação de uma peça para oboé e cordas através de um processo colaborativo com o compositor e professor da escola de música da Universidade Federal da Bahia Wellington Gomes, tendo esse processo sido abordado em um memorial descritivo do trabalho.
Em qualquer atividade que façamos, acho importante que procuremos elementos que nos movam no sentido de concluir as tarefas propostas, e, no caso do produto, essa foi uma experiência extremamente motivadora, por ser um trabalho relacionado com a criatividade e objeto de uma utilização prática, alem de mostrar a importância desse tipo de trabalho como incentivo à criação de composições dentro da música erudita através da união entre teoria e prática.
Nas primeiras aulas de estudos especiais em interpretação, algumas discussões pertinentes ao curso de mestrado profissional e sua importância, quando contraposto ao ensino do mestrado acadêmico, foram colocadas. Assim, pude perceber que o conhecimento não se dá apenas pelo aprofundamento no nível acadêmico de um mestrado ou doutorado, mas também pela visão daqueles que se acercam dos elementos diários da sua atividade profissional, não apenas como observador, mas também como quem vivencia esses fatos, dando alicerce a novas formas de pensar a área musical.
Conhecer e estudar sobre Bourdier e sua visão de Habitus na matéria Estudos Especiais em interpretação também nos trouxe a consciência do quanto influenciamos, e, principalmente, como somos influenciados inconscientemente pelo meio social em que vivemos. Isso me fez repensar a relação que temos com o meio acadêmico e musical em que vivemos, e a influência social exercida nas pessoas quando falamos de gosto musical, pois, para Bourdier, o grau de instrução, o meio familiar e o nível sócio-econômico influenciam fortemente as preferências estéticas do indivíduo. Nesse particular, ficou a certeza para mim, ao contrário do pensamento corrente, de que gosto realmente se discute.
Uma experiência de campo, baseado no texto de Neuhof Público de Concerto: estrutura social, mentalidades, perfis de gosto, visando um melhor entendimento dos conceitos de habitus de Bourdier foi muito proveitosa, quando ao participar como ouvinte de dois shows de rock tive uma visão mais analítica dos espaços em que estive. Essa foi uma pesquisa como pedida para outros participantes da matéria, levada para vários estilos de música, e seus ouvintes, ficou a percepção nas aulas de que ao confrontar o momento atual, com o início da minha carreira, muitas mudanças ocorreram no mundo dos ouvintes da música erudita, e que pouco tem sido feito no sentido de entender esse público melhor, especialmente no Brasil, o que seria um alvo interessante para pesquisas aprofundadas sobre o tema.
Uma outra pesquisa, dessa vez com formulários, ainda baseada no texto de Neuhof, foi feita por mim no sentido de comparar os apreciadores de música de variados estilos em Berlim na Alemanha com os de Salvador, levando-se em consideração sexo, idade, profissão e a forma como esses ouvintes apreciam esses estilos. Como conclusão, percebemos uma quantidade expressiva de similitudes entre as duas cidades, foram analisados nove estilos de música apreciadas em Salvador e um dado interessante constatado foi o fato da musica erudita ocupar percentualmente uma posição mediana no gráfico das preferências, demonstrando assim o conceito de cultura legítima de Bourdier, ou seja, aquela cultura que goza de respeito e consideração pelo valor do que seria distinto em contraposição ao vulgar.
Ao discutirmos, mais uma vez em sala de aula, a relação desse público com a música erudita, podemos perceber que o respeito e a distinção de um grupo social, dada a uma determinada cultura, nem sempre significará uma aproximação, seja devido à incapacidade de entendimento desse grupo, ou, pelo distanciamento criado pelos detentores dessa cultura. Ao abordar essas questões, dentro da perspectiva bourdieusiana, esses estudos trouxeram a mim
sem sombra de dúvida reflexões sobre o tema, resignificando a minha relação com o universo profissional e acadêmico.
Métodos de pesquisa em execução musical foi uma matéria cujos elementos na compreensão da musica que tocamos, trouxe subsídios importantes no desenvolvimento da composição feita em colaboração com o professor Dr. Wellington Gomes. A ideia de que ao atuarmos como intérpretes também estamos criando e quais são os limites dessa interpretação incentivou questionamentos importantes em relação as possibilidades de interpretação da música que tocamos, surgidas a partir dos conceitos de intention autor, fruto da análise da intenção do autor na peça, intention obra, do estudo analítico da obra e a intention interprete, mais presente nos dias de hoje, onde o significado da obra surge no intérprete a partir do seu ponto de vista.
As aulas do professor Joel Barbosa em Estudos Especiais em Educação Musical, me levaram aos estágios iniciais de aprendizado de um aluno de instrumento, agora não mais como um aluno iniciante, mas, sim, como um aluno que precisa entender o processo de aprendizado dos diversos instrumentos ensinados em uma escola de música.
A composição e arranjo de peças para conjuntos de alunos iniciantes de cordas, sopros e percussão que em principio seria simples, se tornou para mim complexa pela limitação técnica desses alunos, assim precisei rever meus conceitos do ensino de música instrumental fruto da minha própria educação básica de oboé, tendo sido a composição escrita por mim para alunos iniciantes de cordas importante por tem propiciado a mim uma visão diferente da qual eu estava habituado como instrumentista de sopro.
O uso da improvisação e de elementos rítmicos e melódicos próprios da nossa cultura como atividade no ensino básico de instrumento também foi outro elemento importante nesse aprendizado, deixando nos alunos do curso a ideia de uma educação básica de instrumento com as peculiaridades da cultura nacional e até mesmo regional, isso trouxe a reflexão do quanto ainda temos de influência da metodologia estrangeira na educação básica de instrumento no nosso país, necessitando de um maior equilíbrio entre essa e uma nossa.
Voltar a estudar oboé no mestrado profissional com a professora e minha coorientadora Roberta Benjamim. Foi uma experiência extremamente proveitosa, trinta anos fora dos bancos escolares me fez repensar a ideia de que depois de alguns anos de trabalho, em algum momento todos de uma orquestra deveriam voltar de alguma forma a se reciclar, repensando algumas formas de tocar que aos poucos se tornam vícios afetando a parte técnica e postural, nesse sentido as disciplina Estudos Especiais em Interpretação e Preparação de
Recital/Concerto Solístico foram muito importantes pois trouxeram para mim novas formas de pensar o que já fazia a muitos anos como profissional.
Roberta ainda não tinha ainda, atuado como coorientadora no mestrado da UFBA, entretanto aceitou essa incumbência, o que foi muito bom para mim, tendo em vista a experiência que ela teve como estudante na Alemanha, além do fato de atuar como professora já a alguns anos. Participei de duas apresentações dos alunos da classe de oboé, além de um recital realizado no Museu de Arte da Bahia e uma apresentação da peça Lampejos Nostálgicos com a Orquestra Sinfônica da UFBA na reitoria dessa universidade. Tendo em vista a minha pouca experiência com compositores brasileiros procurei dar uma ênfase maior a esses compositores em peças para oboé e piano. A audição de música pertinente ao repertório escolhido e a leitura de livros e textos na internet que versavam sobre a técnica do instrumento e sobre os compositores por mim estudados, também fizeram parte do processo de aprendizado.
Um fato importante vivido por mim, e que apesar do conhecimento de muitos vale a pena ser resaltado, diz respeito as dificuldades em se encontrar material editado de musica brasileira para oboé, apesar desse não ser um problema exclusivo de oboístas, me causou admiração, pelo fato de hoje ao contrário da minha época de iniciação musical, termos muito mais estudantes de oboé e oboístas profissionais em atuação.
A atividade de prática orquestral faz parte da minha vida de músico profissional a mais de 35 anos e no caso do mestrado profissional dei continuidade a essa atividade na OSUFBA e na OSBA, aprender e ensinar fazem parte do dia a dia do músico de orquestra nas trocas de conhecimento entre os próprios músicos e entre músicos e regentes, e no meu caso tive também a possibilidade de passar um pouco do meu conhecimento aos alunos de oboé da OSUFBA que passaram a ter em sua grade curricular prática de orquestra, se o aprendizado em uma orquestra para aqueles que tem pouco acesso a ela é importante como prática, o mesmo posso dizer daqueles que detêm o conhecimento de anos, ao transmitir esse conhecimento para os iniciantes nessa prática. Dentre o repertório orquestral tocado por mim vale ressaltar a sinfonia numero três de Beethoven, considerada por muitos dentro do repertório para oboé a mais difícil das suas sinfonias do ponto de vista musical.
A atividade de música de câmara também faz parte da minha vida profissional a muitos anos, e no curso dei continuidade a essa atividade através da prática camerística. O sexteto opus lúmen tendo como formação um quinteto de sopros de madeira com a adição de percussão, o estudo dos trios barrocos de Couperin e .Zelenka e a atividade na orquestra de
câmera da OSUFBA, foram as três atividades desenvolvidas por mim no curso. Aqui destaco a apresentação do sexteto Opus Lumen, no projeto Verão com as Cameratas no Forte de São Diogo, projeto criado pela Orquestra Sinfònica da Bahia, e a apresentação com a orquestra de câmera da OSUFBA da peça Roda de Amigos de Guerra Peixe, peça brasileira para quarteto de sopros e cordas, que apesar da sua qualidade como composição ainda é pouco conhecida e tocada no nosso país.
A maior parte da minha vida profissional foi dedicada a ser músico de orquestra, e o artigo, proposto por mim no mestrado profissional, fala de satisfação e motivação no ambiente orquestral em que vivi mais tempo: a Orquestra Sinfônica da Bahia. Nesse sentido, esse artigo me trouxe reflexões importantes sobre esse mestrado e sua importância como fator motivacional na carreira de um músico de orquestra, ao desenvolver um trabalho intimamente relacionado com a atividade orquestral.
Se interpretação e criação são dois lados de uma mesma moeda, a atividade de músico de orquestra no que concerne a criação, impõem aqueles que tocam nela alguns limites que não encontramos ao atuarmos como solista em uma orquestra, nesse particular o produto final está em consonância com a proposta do artigo de enriquecimento do trabalho proposto por Herzberg, já que ao atuar como solista da peça Lampejos Nostálgicos, a ampliação do trabalho no âmbito da criação foi para mim extremamente motivadora.
Acredito ser esse um artigo importante, por dar ao músico de orquestra a possibilidade de ter uma melhor noção dos fatores que afetam a sua qualidade de vida no trabalho, a partir de uma avaliação mais clara dos fatores extrínsecos e intrínsecos na atividade profissional.
No transcorrer do curso de mestrado as atividades práticas atenderam ao meu perfil de estudante, cuja atividade profissional exercida por mim está relacionada mais ao lado prático do que acadêmico, sendo esse um fator que pode ser motivacional para muitos na criação de um produto. No meu caso serviu como incentivo à criação da peça Lampejos Nostálgicos dentro de uma proposta colaborativa com o compositor Wellington Gomes.
A apresentação da peça Lampejos Nostálgicos com a orquestra sinfônica da UFBA em 19 de Dezembro de 2018 no salão nobre da Reitoria da UFBA, foi minha última atividade prática no mestrado. Tocar com orquestra como solista assim como para muitos que exercem a profissão de músico de orquestra como eu, não é uma atividade que se exerce com certa regularidade, o que termina por vezes ocasionando no músico apreensões em relação a sua performance, entretanto, como dito no artigo por mim apresentado nesse trabalho, se a
possibilidade de novas atividades que tragam desafios e o reconhecimento são elementos motivadores para um músico de orquestra, nesse aspecto essa performance me deixou extremamente satisfeito pela acolhida do público em relação a performance e a peça apresentada. Registro os meus agradecimentos ao prof. Doutor Wellington Gomes pela composição a mim dedicada, à coorientadora Mestra Roberta Bemjamin, ao meu orientador e regente da composição Prof. Doutor José Maurício Brandão e à Orquestra Sinfônica da UFBA (OSUFBA), sem a qual não seria possível a realização desse produto final no mestrado profissional. Estendo os agradecimentos a todos os professores que de alguma forma tornaram possível a realização desse mestrado.
ANÁLISE DOS NÍVEIS DE MOTIVAÇÃO E SATISFAÇÃO DOS MÚSICOS DA ORQUESTRA SINFÔNICA DA BAHIA
Gustavo Seal Carvalho
Resumo:
Os fatores de motivação e satisfação são de importante análise num ambiente de trabalho, pois, depois de identificados podem ser implementados de forma obter resultados mais eficientes por parte de seus integrantes. Tendo por base a teoria bifatorial de Herzberg, esse trabalho tem por objetivo avaliar a influência dos fatores intrínsecos e extrínsecos nos níveis de satisfação e motivação dos músicos da Orquestra Sinfônica da Bahia, ao traçar possíveis correlações entre os fatores extrínsecos e intrínsecos na produtividade.
Palavras-chave: Motivação, Satisfação, Orquestra, músico, Herzberg.
Abstract:
Well-being and motivation factors are significant to analyze in work environment. Once indentified, they should be enforced in order to obtain more efficient results by its members. Based on Herzberg`s two-factor theory, this study aims to evaluate the influence of hygienic and motivational factors on the well-being and motivation levels of the Bahia Symphonic Orchestra musicians, by tracing possible interrelationships between extrinsic and intrinsic factors over productivity.
Key-words: Motivation, Satisfaction, Orchestra, Musician, Herzberg.
Introdução
Na vida profissional, assim como na vida pessoal, encontramos uma série de tarefas que poderão ser ou não prazerosas de executar. Independentemente do nível de prazer que temos no desenvolver dessas tarefas, quando temos presente fatores que nos incentivam a cumpri-las maior será a probabilidade em realiza-las da forma mais eficiente possível. Assim, é possível elencar vários fatores que nos levam ao cumprimento de tarefas de forma eficiente, como por exemplo, uma melhor remuneração salarial, possibilidade de ascensão profissional, status ou reconhecimento profissional.
Entretanto, na essência dessa questão ao falarmos daquilo que nos traz satisfação ou motivação, estamos falando de necessidades e que, evidentemente, são variáveis de individuo para individuo e mutáveis no decorrer do tempo. Nesse particular, não podemos despertar necessidades nos indivíduos sem dotar o ambiente de trabalho de possibilidades na sua atividade, como incentivo externo, que gerem satisfação e motivação ao processo interno do individuo.
Inúmeras são as teorias que procuram explicar o comportamento das pessoas no trabalho, tornando-se uma tarefa complexa pelos diferentes ângulos em que ela pode ser abordada, nesse aspecto segundo Bergamini (1997, p.38) em sua obra intitulada Motivação nas Organizações “não existe uma única teoria que seja capaz de desvendar todas as características próprias da psicodinâmica motivacional de uma só vez”.
Este artigo examina de forma crítica a teoria dos dois fatores de Frederick Herzberg no ambiente orquestral e avalia sua aplicabilidade e relevância na compreensão dos fatores que influenciam nos níveis de satisfação e motivação dos músicos da Orquestra Sinfônica da Bahia. Assim, serão analisados fatores de satisfação e motivação, a partir da teoria bifatorial de Frederick Herzberg, de forma aplicada ao ambiente de trabalho da Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA), alicerçadas na experiência profissional do autor nessa orquestra.
Uma orquestra sinfônica é um espaço de trabalho extremamente heterogêneo quando falamos dos diversos naipes que a compõe, e dos seus músicos, quando levamos em conta idade, sexo e formação musical. Assim, a análise dos fatores extrínsecos e intrínsecos são importantes no sentido de identificar os aspectos que mais influenciam nas condições de trabalho desses músicos.
Apesar da teoria de Herzberg não ter sido concebida para uma orquestra, o músico de orquestra, assim como funcionários de empresas de segmento diverso, também precisa lidar
com atividade que exige disciplina, com normas e regras estabelecidas para desempenho de atividades com um alto nível de interdependência. Sendo assim, a análise desses fatores dentro de um ambiente orquestral contribuirá para a reflexão daqueles que quiserem se debruçar de forma mais aprofundada sobre o tema.
Motivação e satisfação
Para melhor compreensão sobre a teoria de Helzeberg é importante termos em mente as diferenças entre satisfação e motivação. É comum o falso entendimento de que motivação e satisfação possuem o mesmo significado, apesar de próximas possuem suas particularidades.
A palavra motivação vem do latim movere que significa mover, é aquilo que nos impulsiona, nos move, com a finalidade de atingir um objetivo. Apesar da satisfação não ser geradora de motivação, a motivação poderá de alguma forma estar ligada aos níveis de satisfação que o individuo tem nas suas tarefas. Na motivação, questionamentos do trabalhador em relação as suas necessidades com o trabalho, formam um leque de fatores que o incentivam ou o movem na direção dessa realização. Nesse Sentido Bergamini:
“O termo motivação é geralmente empregado como sinônimo de forças psicológicas, desejos, impulsos, instintos, necessidades, vontade, intenção etc. todos estes termos tem em conjunto a conotação de movimento ou ação. De fato ao estudar o comportamento humano descobre-se que certa força impele as pessoas de agir, seja no sentido de buscar ou de fugir de determinadas situações.” (Bergamini 2015, pg109).
Ao contrário da motivação, a satisfação tem relação com aquilo que gera prazer ao individuo em relação a sua atividade, sendo seus efeitos de curta duração. Podemos dizer também que a motivação se relaciona à conquista de algo em que o individuo se esforça para ter, enquanto a satisfação tem a ver com a supressão de uma necessidade. Ao falarmos de motivação e satisfação no trabalho nem todas as instituições consideram esses elementos importantes, entretanto, eles podem atuar nos níveis de produtividade e no índice de rotatividade dos trabalhadores.
Fatores extrínsecos e intrínsecos
A percepção de que existem necessidades internas motivadoras do comportamento humano, incentivou pesquisadores a se dedicar ao tema na tentativa de entender melhor os
fatores pelos quais as pessoas se sentem satisfeitas ou motivadas no trabalho. Dentre as várias teorias sobre satisfação e motivação no trabalho, alvo de estudos de pesquisadores, podemos citar a teoria dos dois fatores de Helzberg que procura entender os fatores responsáveis pela satisfação ou insatisfação dos empregados no local de trabalho e que influenciam no seu desempenho profissional.
Desenvolvida em 1959, a partir de uma pesquisa baseada na atividade profissional de engenheiros e contadores da área industrial de Pittsburg nos Estados Unidos, Herzberg verificou a existência de dois fatores que influenciam na satisfação ou insatisfação do profissional no local de trabalho, que são os fatores, extrínsecos a que deu o nome de higiênicos e os intrínsecos chamados por ele de motivacionais. Os fatores extrínsecos ou higiênicos dizem respeito a questões que envolvem as condições de trabalho do funcionário e os incentivos organizacionais. Já os fatores motivacionais ou intrínsecos dizem respeito à natureza do trabalho e as atividades que se relacionam com o cargo do individuo. A partir da avaliação que fez das atividades desses profissionais, o pesquisador concluiu que os fatores extrínsecos se relacionavam com a insatisfação do trabalhador e os fatores intrínsecos com a satisfação gerada a partir dos sentimentos de motivação no trabalho.
Em seus estudos Herzberg detectou indivíduos mais propensos a valorar, de forma importante, os fatores extrínsecos, que ele definiu como pessoas que procuram manutenção, e outras que se relacionam fortemente com fatores intrínsecos e que procuram motivação. Os fatores extrínsecos se referem ao ambiente externo, estão relacionados com as condições do trabalho e se encontram fora do controle do trabalhador, refletindo o sentimento do trabalhador em relação à empresa.
Segundo Herzberg, os fatores extrínsecos apenas evitam a insatisfação do trabalhador, e a sua função básica é de prevenir a insatisfação. Para Herzberg, esses fatores são chamados de higiênicos por serem análogos aos princípios da higiene médica, ou seja, não são curativos mais preventivos. Sendo os principais fatores higiênicos:
a) Política de trabalho da instituição: Refere-se não apenas às normas formais (escritas), mas também às regras informais (não escritas) que definem as relações empregador-empregado;
b) Salário: Incluem bônus e prêmios, carro da empresa, planos de saúde e itens assemelhados que incrementam o salário;
c) Segurança: Refere-se não apenas às condições físicas de segurança, mas também à confiança que o empregado tem em relação a sua permanência na empresa;
d) Condições de Trabalho: Envolvem as características do ambiente, as instalações, as máquinas, os equipamentos e a quantidade de horas de trabalho; e) Status é identificado por itens como: natureza do cargo, autoridade, relacionamento com os outros e prestígio interno e externo;
f) Supervisão: Grau de controle que o empregado tem sobre o trabalho que executa;
g) Relações interpessoais: Interação promovida pelo contato do trabalhador com os seus colegas de trabalho, superiores, gerentes, clientes etc.
O fato de termos um ambiente de trabalho cujos fatores extrínsecos sejam bons não significa que tenhamos uma melhoria de produtividade, mas evitar-se-ão perdas na produtividade, na verdade a sua função básica é de prevenir a insatisfação. A manutenção do sentimento de satisfação sempre será menos durador do que os efeitos da motivação no individuo, pois novas necessidades em novos patamares de exigência em algum momento realimentarão os sentimentos de insatisfação. Os fatores extrínsecos apesar de não trazerem motivação ajudam a manter um clima organizacional positivo trazendo um ambiente psicológico de trabalho favorável as realizações profissionais.
Para Herzberg mitigar condições higiênicas ruins é importante no sentido de evitar demissão por parte do trabalhador, absenteísmo e baixo desempenho no trabalho, prevenindo assim resultados negativos na moral dos funcionários. Apesar da sua importância, segundo o autor, ao se referir aos fatores extrínsecos, a boa higiene é apenas o começo, e deve-se evitar uma ênfase exagerada nesse fator, que deve ser maior no fortalecimento dos motivadores.
Os fatores intrínsecos dizem respeito aos sentimentos em relação a sua atividade e estão sob o controle do trabalhador, se relacionam com sentimentos de autorrealização e crescimento profissional. Segundo Herzberg, esses fatores trazem satisfação num nível mais duradouro a partir da melhoria dos níveis de motivação no trabalhador e influenciam diretamente na produtividade do trabalhador.
O fator motivação, em qualquer atividade, é fundamental, pois propicia um maior engajamento do trabalhador com a sua atividade profissional. Para Gil (2001), a motivação é a chave do comprometimento, sendo importante pela maior facilidade que as empresas têm em encontrar pessoas competentes ao invés de comprometidas. Os fatores intrínsecos, quando presentes, trazem satisfação ao empregado, entretanto, quando ausentes, apesar de desmotivarem, não trazem insatisfação. Os fatores extrínsecos e intrínsecos são independentes e não se relacionam entre si. Um músico de orquestra, por exemplo, poderá se
sentir imensamente motivado pelo trabalho que faz, mas se sentir insatisfeito com as relações interpessoais.
Os principais fatores intrínsecos são:
a) O trabalho em si: São as tarefas realizadas no seu trabalho, que podem ou não gerar sentimentos satisfatórios;
b) Reconhecimento: Reconhecimento da capacidade de trabalho e do desempenho no cargo.
c) Possibilidade de crescimento: Sensação de estar alcançando ou ter ultrapassado os objetivos relacionados às tarefas;
d) Realização: Percepção de que o trabalho está adequado às expectativas;
e) Responsabilidade: Sentimento de responsabilidade pelo trabalho que executa, independentemente de qualquer coerção exterior;
Apesar de independentes o ideal sempre será a busca do equilíbrio entre os fatores intrínsecos ou motivacionais e extrínsecos ou higiênicos. Nesse sentido podemos estabelecer quatro combinações possíveis desses fatores:
I.Alta motivação + Alta Higiene = Condição de trabalho ideal de trabalho: os funcionários estão altamente motivados e têm poucas reclamações;
II.Alta motivação + Baixa higiene = funcionários altamente motivados, mas com muitas queixas;
III.Baixa motivação + Alta higiene = Os empregados terão poucas reclamações, mas estarão desmotivados: o emprego é visto mais como uma fonte de renda do que de prazer;
IV.Baixa motivação + Baixa higiene = os funcionários se mostrarão desinteressados em fazer o trabalho e terão mais reclamações: alta possibilidade de demissão por parte dos empregados.
A orquestra
Criada em 30 de novembro de 1982 Orquestra Sinfônica da Bahia (OSBA) é integrante dos corpos artísticos do Teatro Castro Alves, mantida pelo governo do estado e gerida pela Fundação cultural do estado da Bahia passou a adotar um novo modelo de gestão
a partir de sua publicização em 4 abril de 2017, cedidos pelo governo do estado os músicos estatutários que decidiram continuar na orquestra assinaram o termo de anuência se colocando a disposição da Organização Social. Atualmente a OSBA é composta por 41 músicos estatutários e 33 celetistas contratados pela ATCA (Associação Amigos do TCA).
Análise dos fatores extrínsecos e intrínsecos na Orquestra Sinfônica da Bahia
Numa análise dos fatores extrínsecos, o salário pode ser considerado um dos fatores mais importantes. No caso da OSBA, seus integrantes tem um salário maior do que a média da população economicamente ativa na Bahia, e, em princípio, atende às necessidades básicas dos músicos dessa orquestra.
O salário é um fator importante nas orquestras pelo atrativo que ele representa para bons músicos, aumentando assim o nível de competitividade nos concursos realizados por elas. Entretanto, compreendo que a insatisfação salarial poderá estar, em verdade, relacionada a outros fatores como a quantidade de horas trabalhadas.
Acredito que a remuneração da orquestra, apesar de condizente com os valores praticados no mercado nacional, não está dentro do nível satisfatório, já que não são observados os custos que o músico tem com o instrumento de trabalho para exercer sua profissão e as horas de estudo que são realizadas por conta própria, não se encerrando o trabalho, em verdade, nos horários anunciados.
A questão salarial, vista apenas como um elemento que pode evitar apenas a insatisfação, é um ponto que, na compreensão da teoria de Herzberg, é passível de discussão. Acredito que uma melhoria no nível salarial possa trazer motivação desde que se relacione ao fator produtividade ou recompensa por alguma atividade específica.
As condições de trabalho certamente se encontram entre as necessidades mais básicas de qualquer trabalhador. Nas entrevistas feitas por Helzberg com engenheiros e contadores da área industrial de Pittsburg, as histórias desses trabalhadores relatavam as condições físicas do trabalho, a quantidade do trabalho, ou as instalações disponíveis para fazer o trabalho. Numa percepção pessoal sobre o ambiente de trabalho de uma orquestra, noto que um ambiente acústico insatisfatório pode ser gerador de stress, por não permitir ao músico se expressar da forma idealizada por ele. Tratando de forma mais especifica sobre a OSBA, se torna um agravante o fato de que os ensaios ocorrem em um ambiente com proporções e acústica diferentes do ambiente final de apresentação, no qual o tempo para
adaptação é pequeno, geralmente ocorrendo um ou dois ensaios no ambiente, podendo gerar insatisfação para os músicos da orquestra nesse momento de adaptação.
Compreendo que bons relacionamentos interpessoais são extremamente importantes no que diz respeito à satisfação do músico. Entretanto, quando não ocorrem bons relacionamentos, se tornam um dos problemas de mais difícil solução no ambiente de trabalho de uma orquestra sinfônica. Considero que, por falarmos pouco enquanto ensaiamos, os conflitos sejam menores do que em outras atividades coletivas, mas isso não quer dizer evidentemente que não existam.
Pelo fato do músico não ter influência na escolha dos seus colegas de naipe, um relacionamento harmonioso entre estes pode ser apenas um fator de sorte. Muitos dirão que o mesmo pode ser encontrado em outras profissões, entretanto, a interdependência que se tem na busca de uma unidade interpretativa com a música, além do envolvimento emocional com ela, torna uma relação conflituosa extremamente desgastante para quem toca. Helzberg em obra intitulada The Motivation to Work (2017) definiu em seus estudos três tipos de categoria nas relações interpessoais no trabalho que são: as Relações interpessoais com os superiores, as interpessoais com os subordinados e as interpessoais com os parceiros.
Independente das relações que se estabelecem dentro de uma orquestra, observo que, numa relação conflituosa pela falta de diálogo entre músicos de um naipe ou de diferentes naipes, e até mesmo com o regente, podem ter um peso maior nos ensaios, pelas discordâncias que podem surgir de conceitos musicais e sonoros, trazendo não só insatisfação, mas também influindo no fator motivacional para o trabalho, pela perda de engajamento dentro de uma mesma proposta.
A falta de estabilidade no emprego, como é o caso dos músicos celetistas da OSBA, é um encorajamento a um nível maior de rotatividade no trabalho, podendo tornar as relações interpessoais menos duradouras e, consequentemente, mais impessoais. A transitoriedade dos empregos nos dias de hoje é um mal com o qual precisaremos aprender a conviver, o que nos faz reportar às relações na modernidade liquida de Bauman, onde o trabalho nos dias de hoje muitas vezes adquire uma visão de curto prazo.
Para Bauman (2008), mais do que um domicilio compartilhado onde nos inclinamos a nos dar ao trabalho de elaborar regras aceitáveis de interação, o local de trabalho se torna transitório, podendo ser deixado, a qualquer momento, se os confortos oferecidos não são entregues ou se forem considerados ruins.
No meu entender, as mudanças administrativas que algumas orquestras têm feito, no sentido de se adaptar às novas realidades no mundo do trabalho, enfraqueceu o fator segurança, incentivando esse profissional a mudar de emprego quando aspectos de sua vida profissional lhes são insatisfatórios.
Para Herzberg, uma atenção excessiva aos fatores extrínsecos pode servir como compensação à falta dos fatores intrínsecos, entretanto, para um músico que trabalha em uma orquestra sinfônica, assim como para qualquer outro trabalhador, mesmo que os fatores extrínsecos sejam muito bons, pode ser inevitável que a rotina diária no exercício da sua função torne o ambiente de trabalho monótono, tirando-lhe a motivação. Nesse sentido, Herzberg (1968) fala da importância do enriquecimento do trabalho através de elementos que tragam desafios e responsabilidades, e, dentro desse propósito, está a ampliação das possibilidades de trabalho com tarefas que complementem essas atividades.
Na OSBA existe um sistema hierárquico de funções fixas. Entretanto, por várias vezes, devido às contingências, pela falta de suporte financeiro, fui convidado a exercer funções diversas da contratada, a desempenhar o primeiro oboé e corne inglês, o que, na maioria das vezes, foi motivador pelo desafio do que me foi proposto.
Dentro da perspectiva apresentada, duas coisas, no meu entender, devem ser salientadas: a primeira é que as regras devem ser claras, para que ele em algum momento não venha a se sentir menosprezado, e que ele deva ser sempre convidado e não obrigado a fazer o que foi determinado para ele.
Atividades que tragam diversificação ou aumentem o grau de dificuldade no trabalho, como propõe Herzberg, podem ser extremamente estimulantes para um músico de orquestra, e, como exemplo, posso citar o projeto cameratas da OSBA, instituído pelo governo do Estado da Bahia, incentivando músicos de diversos naipes e funções a levarem música instrumental a lugares onde uma orquestra não teria estrutura para se apresentar, como escolas e pequenos teatros.
O enriquecimento do trabalho é de extrema importância e pode ocorrer de diversas formas, mas, antes de tudo, é necessário dizer que estamos falando de individualidades. Ainda que não seja regra, um músico que toque na última estante das cordas pode ter plena consciência das suas limitações, e perceber não ter a mínima vocação para ser um spalla, mas se sentir plenamente satisfeito em contribuir para o trabalho, e ter um músico da primeira estante profundamente insatisfeito pelas limitações que o conjunto traz para aquilo que ele gostaria de fazer em termos de expressão musical.
Oferecer ao músico possibilidades de se expressar, seja como solista, camerista, professor, ou mesmo colaborar na área administrativa, se assim for do desejo dele, é fazer com que se aumentem as chances de satisfação profissional dos músicos de uma orquestra sinfônica, obedecendo, claro, ao sistema de administração dessas orquestras e dentro das suas possibilidades, dentro desse aspecto a que me referi, podemos incluir também a possibilidade de crescimento profissional que, segundo Helzberg, diz respeito ao fato do indivíduo crescer não apenas em termos funcionais na instituição, mas também avançar ao aprender novas habilidades ou adquirir uma nova perspectiva profissional. (Helzberg, 2017)
Quando falamos em motivação em orquestra, uma das coisas mais interessantes e que é perceptível na minha atuação profissional, e muito pouco discutida diz respeito aos elementos que trazem motivação dentro do repertório que tocamos. Como muitas orquestras sinfônicas, a OSBA possui uma comissão artística responsável pela programação do repertório. Entretanto, apesar de ser proposta por uma comissão de músicos, uma determinada peça ou o próprio repertório de um concerto nem sempre trará o mesmo prazer motivador para todos que tocam, seja pela não identificação com a peça, ou, por ela estar no limiar da sua capacidade técnica.
Dificilmente chegaremos a um consenso em relação à programação ideal em uma orquestra, mas seria sempre bom termos uma avaliação anual por parte dos músicos, para que aspectos intrínsecos estejam mais presentes.
Problemas relacionados aos fatores extrínsecos, em princípio, são de fácil solução quando contamos com uma boa estrutura material e administrativa, coisas que nem sempre temos a mão. É muito comum os administradores de uma orquestra se deterem nesses fatores como função básica do desenvolvimento da satisfação dos seus músicos. Entretanto, ainda que sejam importantes, outros fatores apresentados por Herzberg, considerados cruciais para melhoria no nível de satisfação dos trabalhadores, são os fatores intrínsecos.
Referente à atividade exercida pelo trabalhador, seus deveres e tarefas relacionados com o cargo, os fatores intrínsecos trazem aumento de produtividade. Entre os seus aspectos mais importantes temos o reconhecimento, a ascensão profissional e a capacidade de expressar, de forma plena, suas habilidades pessoais.
Ao influenciar esse processo produtivo através da motivação, o trabalhador se sente mais satisfeito e interessado em colaborar com a instituição. No caso de uma orquestra sinfônica, cuja interdependência é grande entre os seus músicos, esses fatores com certeza contribuem para um ambiente mais produtivo.
Ao falarmos de produtividade relacionada à motivação, essa é uma questão por vezes complexa dentro de um ambiente orquestral, já que o músico trabalha com um produto que pode ser mensurado apenas de forma subjetiva por quem avalia, sendo essa uma das críticas relativas à teoria bifatorial. Segundo Robbins (2005), Herzberg não levou em conta os níveis de subjetividade, cujas interpretações nas avaliações podem ser diferentes.
Um músico de orquestra poderá passar anos na mesma função, no mesmo local de trabalho, ao lado das mesmas pessoas em uma atividade, como dito anteriormente, que busca primordialmente uma unidade interpretativa e que tem, na verdade, muito mais a ver com eficiência do que com criatividade, e, ainda assim, não reclamar do que ele se predispôs a fazer. Entretanto, se anular em função do coletivo a longo prazo, nem sempre traz satisfação a um músico que estudou para tocar na prova de um concurso individualmente, demonstrando capacidade técnica e musical. Incentivar, através do trabalho, a realização desse músico, deve ser parte da filosofia de trabalho de uma orquestra nos tempos atuais, segundo Carla Faria Morrone e Ana Magnólia Mendes, em obra intitulada A resignificação do sofrimento psíquico no trabalho informal “A realização é um sentimento de gratificação, orgulho e identificação com um trabalho que atende às necessidades profissionais.”.
Estar atento a essas necessidades profissionais em um grupo de trabalho tão grande e heterogêneo pode não ser tarefa das mais fáceis, mas não é impossível. Nos últimos trinta anos em que toquei na OSBA, pude perceber modificações na forma como o trabalho foi sendo desenvolvido ao longo dos anos. É interessante notar como muitas das dificuldades, enfrentadas pela orquestra, estimulou mudanças nas atividades, originadas na necessidade de adaptação as novas realidades vigentes, o que, de certa forma, trouxe uma dinâmica mais enriquecedora para os músicos envolvidos. Apesar das dificuldades conjunturais estimularem a criatividade, trazendo novas responsabilidades no trabalho, é importante que se pense de forma consciente nas necessidades de enriquecimento do trabalho dos músicos na orquestra.
Atuando na OSBA há mais de 30 anos, pessoalmente percebo um certo desgaste emocional daqueles que estão nesse mesmo período de tempo, devido a variabilidade das condições de trabalho, sendo essa uma questão que nos remete ao fator segurança. Atualmente apesar da administração da OSBA ter sido publicizada, os receios dos que nela trabalham se dá pelo fato de ser um modelo de gestão ainda muito recente, trazendo insegurança quanto ao futuro da instituição.
A proposta de trabalho da OSBA se volta especificamente para o público, onde o entretenimento cultural, por vezes, pode adquirir caráter preponderante, por ser administrada
por uma Organização Social desde 2017 uma quantidade maior e crescente de público se faz necessária, no sentido de justificar os aportes financeiros governamentais, assim como, para incentivar a iniciativa privada a investir nos projetos da orquestra.
Ao sair do controle da administração estatal e, tendo um orçamento próprio e inicial de R$ 9 milhões, a OSBA, sem dúvida nenhuma, dá um passo à frente no sentido de resolver um dos maiores problemas, num ponto de vista próprio, que é a exigência no contrato de gestão da manutenção de um corpo mínimo de músicos na orquestra. Por outro lado, a falta de estabilidade e de estímulos à carreira poderá gerar uma rotatividade de músicos prejudicial à qualidade pretendida no trabalho. Na verdade, a forma como as condições de trabalho na orquestra são colocadas para esse músico, influencia, sobremaneira, na forma como esse músico se relaciona com ela.
Na OSBA as funções são bem definidas, mas, atualmente, com dois tipos de contrato, estatutário, que são os músicos que foram cedidos pelo Estado, e os celetistas, contratados pela O.S. No ano de 2017 os músicos com regime estatutário que ingressaram no novo modelo de gestão continuaram dentro do mesmo regime de trabalho, enquanto os novos músicos contratados pela OS passaram a ser regidos pela CLT, como consequência existem políticas salariais diferentes, o que poderá gerar no futuro, algum tipo de insatisfação entre os músicos, especialmente os celetistas , que no decorrer de suas atividades podem adquirir problemas como LER (Lesão por Esforço Repetitivo), pois, uma aposentadoria precoce significará uma perda salarial maior por não possuir integralidade como os servidores estatutários.
Trabalhar em uma orquestra sinfônica, assim como em uma empresa, é estar constantemente em ajuste, especialmente em um país onde novas realidades se apresentam a cada momento. Entretanto, nas últimas décadas, quando o ritmo tecnológico impôs mudanças rápidas nas relações sociais, muitas orquestras, em especial aquelas que necessitam de patrocínio para se manter, precisaram de muitos ajustes na sua forma de administrar os recursos humanos e financeiros disponíveis para trabalhar de forma a inovar e reformular os conceitos aplicáveis as apresentações. Nesse sentido Bertero comenta:
“Se empresas podem perecer porque se apegam a produtos, mercados, tecnologias, formatos organizacionais e modos de gestão que não mais funcionam, orquestras igualmente padecem exatamente dos mesmos riscos.” (Bertero, 2001)
A grande dificuldade na velocidade que se operam essas mudanças, numa percepção pessoal, tem sido equilibrar a necessidade individual de trabalho dos músicos com a necessidade de manutenção dessas orquestras. Muitas orquestras pelo mundo, na luta pela sobrevivência, têm realizado apresentações em locais menos convencionais, com a utilização de amplificação e aparatos cênicos, além da execução de repertório fora da música erudita na procura de público e patrocínio.
A OSBA, por exemplo, nos últimos quatro anos, pela necessidade em ter uma maior visibilidade na programação cultural, se viu, por vezes, na necessidade de apresentar um repertório mais popular, ou concertos em formatos menos convencionais, no intuito de atrair uma parcela de público pouco habituada a ouvir música erudita. A análise aqui não recai sobre a proposta em si, mas no quanto os músicos dessa orquestra estão dispostos a ceder para poder manter o que de fato foram preparados para desempenhar. Sendo necessária uma discussão da organização com os músicos, de forma clara e sem preconceitos, sobre o papel a ser desempenhado por eles na orquestra em longo prazo, explicitando de forma clara a sua filosofia de trabalho.
Reconhecimento sem dúvida é um fator importante para aqueles que trabalham no mundo das artes e em nível elevado pode trazer um aumento do status, elevando assim o nível de motivação, para Helzberg esse reconhecimento pode vir de várias formas, como de quem gerencia ou administra o trabalho, de um colega de profissão ou do público, a OSBA nos últimos anos presenciou um aumento desse reconhecimento em Salvador através do aumento do seu público. Entretanto, creio que precisamos relativizar essa questão ao levarmos em conta que um aumento desse reconhecimento trará proporcionalmente um aumento de produtividade.
Na década de 90 Allmendinger J, Hackman J. Richard e Lehman E V, no artigo Vida e Trabalho em Orquestra Sinfônica em pesquisas feitas com orquestras da Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido colocam como exemplo de orquestras de alto desempenho aquelas que estão em cidades médias, de poucos recursos financeiros, de jovens mal pagos, mas musicalmente envolvidos, cujo diretor passa um tempo considerável com seus músicos. Entretanto, considera que as melhores orquestras tendem a ser aquelas que possuem bons recursos financeiros e materiais, músicos soberbos e um diretor de música a desafiar os músicos da orquestra musicalmente, estando disposto a enfrentar com eles os desafios.
Apesar de essas orquestras estarem em um ambiente social e cultural distantes da nossa realidade, são elementos interessantes a considerar tendo em vista, em primeiro lugar,
da importância dos fatores intrínsecos e, de forma mais ampla, do equilíbrio dos fatores extrínsecos e intrínsecos como meta para aquelas que desejam um maior nível de produtividade em uma orquestra.
A teoria de Herzberg com certeza não pode explicar, por si só, os motivos que trazem a satisfação do trabalhador. Se partirmos do pressuposto que a própria escolha do trabalhador, em relação ao trabalho que ele abraçou, pode não estar exatamente dentro do seu ideal de trabalho, o mesmo poderá não se sentir plenamente integrado à proposta de trabalho. Outras teorias complementares a essa, e dignas de estudo, podem trazer mais contribuições ao tema. Entretanto, a teoria de Herzberg certamente traz elementos de discussão interessantes à reflexão daqueles que trabalham em uma orquestra sinfônica.
Conclusão
Os fatores extrínsecos e intrínsecos, propostos por Herzberg são importantes quando falamos em uma melhor qualidade de vida no trabalho e devem ser elencados de forma especifica numa análise de cada ambiente de trabalho.
No presente artigo o ambiente de trabalho analisado foi o da Orquestra Sinfônica da Bahia. Como foi possível observar, pela teoria de Herzberg, um investimento apenas nos fatores motivadores ou apenas nos fatores higiênicos não é suficiente para ter músicos motivados e satisfeitos. Para motivar e satisfazer os funcionários, a organização precisa combinar efetivamente os fatores de extrínsecos e intrínsecos de forma a atender às necessidades dos músicos.
Direcionar o olhar de forma especifica aos fatores intrínsecos e extrínsecos é importante para ter músicos atuando da melhor forma possível, com eficiência. Assim, é relevante a participação dos integrantes da orquestra nas decisões sobre a organização, uma participação em que são consideradas suas questões e que ocorram um retorno sobre as mesmas, demonstrando ao músico como seu papel é relevante, se fazendo sentir motivado, e suas questões ouvidas por reconhecer também a importância de um bom ambiente de trabalho. Nesse sentido, se faz necessária uma maior aproximação da administração da orquestra com os músicos da orquestra, no sentido de resolver problemas e dirimir dúvidas de forma rápida não postergando soluções que afetarão a disposição de trabalho dos músicos.