UM DIA DE CHUVA... O DIA DE CHUVA...

Texto

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UM DIA DE CHUVA... O DIA DE CHUVA...

Angelo Amorim

O barulho da chuva e dos trovões incomodam Rebeca. A noite fria e o silêncio fazem com que ela se aprofunde dentro de seus sentimentos. Não se sente muito bem. Chora. Chora. E chora. Perde-se entre as lágrimas e vem a sua cabeça a palavra: Morte!– “Como? ...” – questiona. E continua: “Como me matar? .... Como viver? .... Por que a dor? ... A solidão? ....” Percorre os cômodos vazios e tristes de sua casa. Chega na cozinha. Pega uma faca. Resolve dar um fim a sua vida.

Samí, pelo contrário, se diverte com os raios e sonha... imagina ser Thor, deus do raio e do trovão. Busca nos sonhos uma fuga da realidade que está ante os seus olhos. Viaja longe, percorre os caminhos mais bonitos; mas o telefone toca e ele volta a realidade. Fica triste, reage e sai da varanda na direção do som que quebra um estranho ‘silêncio’. “Quem será? Preciso conversar com alguém. ”

- Alô! Silêncio. - Alô!!!

Choro... soluço... (pãn-pãn-pãn-pãn...)

Caio não quis falar ao telefone (“homens não choram”, pensou). Algo estava errado com ele, tão durão, sério, alegre, chorando ao telefone. O vento trouxe um ar pesado e triste, sopra por todo o bairro, todas as ruas e ruelas, por todas as casas. A tristeza atingiu o coração do tão homem Caio. Muito estranho, o garanhão do bairro chorando por causa de uma mulher.

Fernanda está feliz. Escuta música. Dança. Não para espantar a tristeza, ela quer. Todas as janelas fechadas. O vento triste não entra. O telefone toca. Ela não ouve, continua a dançar. De repente, questiona-se. Do nada: “o que leva as pessoas a fazerem as coisas? ” Tenta se concentrar na dança. O telefone toca de novo. Pergunta sem fundamento em meio a uma dança. Conflito. O telefone. Silêncio. Alô! Uma voz baixa e ligeiramente triste do outro lado.

– Fernanda... sou eu, Beatriz... essa chuva está chata demais, não dá para fazer nada... então pensei: “vou ligar pra Fê e botar o papo em dia.[...] Está fazendo alguma coisa? Já estava ficando triste com essa chuva. [...] Ah! Estava dançando! Legal... [...] O quê? Vai tomar banho? [...] Está bem, mais tarde te ligo!”

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Beatriz não sabia o que fazer. Resolveu ligar para os seus amigos. O telefone tocou e ninguém atendeu na casa de Samí; deu ocupado na casa de Caio; e Daniel atendeu. Nem se lembrou de Rebeca.

– Oi, Bia! O que que manda?

– Como assim, nada!? [...] Realmente a chuva está chata, mas não é motivo para ficar sem ter o que fazer [..] Olha só, o Samí me ligou, está vindo para cá. Vamos fazer um som, conversar e tal. Estava afim de reunir a galera.

– Beleza, vou falar com a Fê. Oh! Na casa do Caio ninguém atende.

– E aquela outra amiga sua... Rebeca. Chama ela também. Vou dar um pulo na casa de Caio e falo com ele.

– Daqui a meia hora chego por aí. – Está bem então, até mais!

A distância entre as casas é pouca, moram na mesma rua. Guarda-chuva em mãos e pé na lama. Caio demora a atender, olhos vermelhos (Daniel vê e não comenta). Convite feito. Convite aceito.

As meninas chegam. Falta alguém. Rebeca não veio, não vem. O que houve? Ninguém sabe. Por algum motivo não lembraram dela.

Daniel e Samí começam tocando Guns n’ Roses, Don’tCry (não chore). Não foi uma boa pedida, nem terminaram e uma lágrima ameaçava cair dos olhos do próprio Samí. Tentaram animar tocando o bom e velho nacional (Legião Urbana – Dezesseis) e quem lacrimejou foi Caio: “... não foi o caminhão, nem a curva fatal, nem a explosão. Jhony era fera demais para vacilar assim. E o que dizem é que foi tudo por causa de um coração partido! ...” Não havia clima para tocar. Uma estranha tristeza no local. Resolveram conversar.

– Sou contra, não temos que mergulhar em nossas mágoas. Cantamos e dançamos e esquecemos o que é ruim.

– Olha, Fê... Já discordo, se mergulharmos no mar de nossas dores, conheceremos o que nos faz mal e procuraremos a solução – rebateu Samí. Todos concordavam com ele, porém, Fernanda insistiu.

– E se não conseguir voltar a margem e morrer afogado.

– Você tem medo de enfrentar suas dores, decepções, conflitos. Foge como uma covarde! – as palavras de Beatriz soaram como bronca e para evitar uma situação constrangedora, Daniel interveio.

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– Calma, meninas! Um conflito pode ser resolvido de várias maneiras. Uma delas é fugir (olhando para Bia), outra é enfrentar (olhando para Fê). Pode-se também ignorar, olhar a situação sem mudanças de comportamento.

– E nós escolhemos enfrentar... Enfrentar o quê? – jogou ao ar Samí. Um breve silêncio. Fê fez questão de quebrá-lo.

– O que leva as pessoas a fazerem as coisas? – Como assim? – quis saber Bia.

– Estava dançando e veio isso a minha cabeça. Não sei ‘como assim?’É de um modo geral. Desde o estar aqui, conversando, até o se matar; passando por todas as coisas pertencentes à vida.

– Destino! – respondeu curto e grosso, Caio. – Não acredito em destino. – deu seu parecer Bia.

– Querer íntimo e pessoal, com influências das pessoas que te cercam.

– Um caminho escrito por Deus que é seguido pelo bem entender de cada um. As palavras de Daniel sintetizavam um pouco de cada um, só que Fê não se deu por satisfeita.

– Gostaria que cada um defendesse a sua tese... Quem primeiro falou foi Caio.

– Tudo o que fazemos é seguindo um destino planejado por uma força maior que é Deus. Nada acontece por acaso, tudo tem sua razão de ser e acontecer.

– Até a gente estar aqui, hoje, conversando? – Com toda plena certeza.

– Então pra que estar aqui a pensar, se questionar, se tudo já está escrito?

– Aí perde-se a razão de viver. Tudo o que conquistarmos já estaria determinado! – Opinou Bia.

– Não é por aí. – É por onde então?

– As coisas vão de encontro ao que você quer e mais nada. Tudo o que acontece na sua vida é porque você quer e deixou que acontecesse. – Tomou a palavra Samí.

– Já acho que há um toque de Deus nas coisas que fazemos. Damos o passo, mas ele estende a mão... nem sempre a vemos.

– Não entendi muito bem, Daniel. Explique um pouco melhor...

– Foi nos dado o livre-arbítrio, temos a liberdade de seguir qualquer caminho (bom ou ruim), mas devemos arcar com suas consequências. Há um destino traçado por

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Deus para cada um de nós, muitas vezes demoramos para encontrá-lo e, quando o encontramos, descobrimos o verdadeiro sentido da vida.

– Qual o sentido da vida?

– Nós sabemos e não acreditamos!

– Nada a ver... – cortou Samí – o destino e traçado por cada um de nós, a cada momento, a cada dia, a cada menor decisão que seja. Para descobrir o verdadeiro sentido da vida devemos nosauto encontrar, conhecer a nossa essência e a vida só é sentida quando vivida.

– Acontece que a essência do homem é Deus. Silêncio. Conflitos intrapessoais, interpessoais. Depois de alguns segundos.

– Você ainda não falou, Fernanda...

– É... a culpada por tudo isso não falou!... bem... Os motivos escondidos na razão de estar aqui, não vamos saber, mas não é em vão nem por acaso. Devemos fazer valer a pena a lembrança de nossos dias e seguir com fé, na fé. É o que eu acho, é o que eu cheguei depois do que falaram.

– Sou contra. – começou a falar Bia – Não existe um Deus, não existe um destino...

– O que existe então? Equações matemáticas... físicas?

– A questão é que não há um sentido pôr a culpa ou êxito nosso em Deus... Estou em parte com o Samí, somos donos e causadores do nosso sucesso e/ou fracasso... 3ª Lei de Newton: a cada ação uma reação, de mesma intensidade e mesma direção...

– Você quer dizer que se fizermos um mal, voltará um bem? Lembre-se: sentidos contrários!...

– Foi um exemplo colocado... no entanto, o sentido que eu coloquei foi que o mal que sai de você volta para você. Daí a ideia de “sentido contrário”... obviamente se fizer o bem receberá devolta o bem. Não no mesmo momento. Há uma soma de forças em diversas situações.

– Que viagem! Aí, Bia! Vai fazer física que você será feliz. – Há uma explicação física para a felicidade?

A pergunta soou em tom irônico e todos riram, levando a um breve momento de descontração. Aquela tristeza que pairava sobre o local aos poucos ia se esvaindo e ninguém se lembrava de Rebeca. Será que quando se está bem, esquecem-se dos outros?

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E a noite prosseguiu sem grandes problemas, para eles. Bem perto dali e, ao mesmo tempo, muito longe, Rebeca encontra-se deitada no chão, com a faca na mão. Sangue, muito sangue. Não conseguiu enfrentar seus problemas. Entrou em desespero. Matou-se. Assim como seus amigos buscavam encontrar respostas, ela também tinha o mesmo interesse, no entanto, se afundou na imensidão da mente e não conseguiu voltar.

Eram 2:23h quando o telefone tocou na casa de Daniel. Espanto por parte de todos. Choro... lágrimas... soluços... choro lágrimas soluços! Uma forte tristeza pairou sobre o local, ainda chovia, bem pouco. As suas tristezas iniciais, cada qual com o seu motivo, viraram nada. A conversa sobre o destino não tinha mais motivos para ser levada à sério. Uma pergunta simples, cuja resposta, quando não encontrada, leva à loucura, à morte: “Por quê? ” Era o que todos gostariam de saber...

Um dia de chuva para ser esquecido devido a morte de uma amiga... o dia de chuva para ser lembrado devido a morte de uma amiga...

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Referências

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