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PARQUE ARQUEOLÓGICO DO MORRO DA QUEIMADA, OURO PRETO, MG, BRASIL.

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Academic year: 2021

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PARQUE ARQUEOLÓGICO DO MORRO DA QUEIMADA,

OURO PRETO, MG, BRASIL.

Benedito Tadeu de Oliveira

Fundação Oswaldo Cruz – Fiocruz Minas.

Av. Augusto de Lima, 1715 - Barro Preto - Belo Horizonte/M.G - CEP: 30.190-002 [email protected]

RESUMO

O Parque Arqueológico do Morro da Queimada a ser implantado na vertente sul da Serra de Ouro Preto, limita-se com os antigos arraiais do Morro da Queimada, São João, Santana e São Sebastião, local de significativos valores culturais e ambientais. A região é moldura da cidade, Patrimônio Cultural da Humanidade, e constitui um sítio de excepcional beleza natural e paisagística; de onde se tem uma visão privilegiada do centro histórico de Ouro Preto e do Pico do Itacolomi, que orientou os bandeirantes no final século XVII e ainda hoje personaliza a região. O Morro da Queimada é um sítio arqueológico de inestimável valor, dotado de rara beleza natural, e um Lugar de Memória por abrigar testemunhos materiais das primeiras tipologias arquitetônicas de Minas Gerais. Guarda preciosos registros da exploração de ouro do início do século XVIII e vestígios remanescentes de um dos mais dramáticos momentos da história do Brasil Colônia; a Sedição de Vila Rica de 1720. É também o berço da mineração no Brasil que propiciou as primeiras manifestações artísticas genuinamente nacionais, dando também origem a um centro irradiador das ideias de liberdade e do início da construção do ideal da nacionalidade brasileira. O projeto de implantação do parque arqueológico do Morro da Queimada que atende a uma recomendação da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura ? UNESCO foi desenvolvido ao longo dos últimos anos por uma equipe interdisciplinar constituída de profissionais das melhores instituições públicas da região: Prefeitura Municipal de Ouro Preto - PMOP, Instituto Federal de Minas Gerais IFET/MG, Paróquia do Pilar, Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP, Universidade Federal de Minas Gerais ? UFMG, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional ? IPHAN, Fundação Gorceix - GORCEIX e Fundação Oswaldo Cruz - FIOCRUZ. Segundo Ruggero Martines, consultor internacional do projeto, "a implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queima da representa, no panorama internacional das iniciativas similares, um caso particularmente avançado, exemplar sob muitos aspectos, dos quais se podem deduzir muitos pontos passíveis de serem empregados em realizações futuras". O projeto de implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada tem por potencial associar a melhoria da qualidade de vida via empreendimento cultural, com a proteção do patrimônio e do meio ambiente, preservando a paisagem cultural da cidade histórica de Ouro Preto.

Palavras-chave: Patrimônio Histórico. Arqueológico. Paisagístico. Cultural.

1. Introdução

Em Ouro Preto, segundo Sylvio de Vasconcellos, as construções casam-se perfeitamente com a topografia local, acentuando-lhe os contornos, as cores e as formas dos telhados, confundindo-se com o próprio solo, suas cumeeiras, afeiçoando-se a espigões ou alteando os naturais outeiros. (Vasconcellos,1977). Com a alteração da relação harmoniosa entre natureza e arquitetura, pode-se considerar que Ouro Preto vem sofrendo um processo sistemático e permanente que combina expansão urbana com descaracterização da sua paisagem histórica e cultural. Nas últimas décadas a cidade vem passando por um processo de crescimento desordenado, com a ocupação de encostas e áreas de risco geológico,

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favelizando morros, invadindo áreas verdes e sítios arqueológicos. Esse processo, além de deteriorar a qualidade de vida na cidade, descaracteriza o conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico de Ouro Preto, Monumento Nacional desde 1933, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN em 1938 e declarado Patrimônio Cultural da Humanidade em 1980 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura - Unesco.

Exemplo dessa degradação contínua da paisagem cultural em Ouro Preto é a ocupação da encosta que funciona como pano de fundo da Igreja de São Francisco de Assis, obra prima do Mestre Aleijadinho. A degradação dessa encosta, motivada pela sua ocupação desordenada, desobedece ao tombamento em vigor e descaracteriza o entorno da Igreja, caracterizando-se como uma forma de intervenção negativa e indireta no templo tombado isoladamente pelo IPHAN.

Mas, se todas as paisagens podem por princípio ser culturais, que paisagens devem ser objeto de proteção e de um processo de gestão que impeça sua descaracterização, sem restringir sua evolução? (Torelly, 2008). Em Ouro Preto entende-se por paisagem cultural a ser preservada o conjunto único composto pelo rico acervo arquitetônico e urbanístico e toda a moldura paisagística do seu entorno, tombados pelo IPHAN, motivo pelo qual esse conjunto teve reconhecido o seu valor universal como marco da criação humana.

A missão de técnicos do Centro de Patrimônio Mundial que a Unesco enviou a Ouro Preto em abril de 2003 levantou os problemas existentes e identificou as medidas necessárias para deter a alarmante deterioração do patrimônio cultural e ambiental da cidade. Uma das medidas identificadas nesse sentido foi a preservação do sítio arqueológico do Morro da Queimada.

Nas últimas décadas, o Morro da Queimada passou por um processo de dilapidação, e a falta de proteção dos seus documentos arqueológicos é o caso mais grave de abandono do patrimônio cultural de Ouro Preto.

O projeto de implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada conta com o apoio de diversas instituições governamentais e não governamentais, e abrange não só as dimensões científica, cultural e turística, mas também a dimensão social.

Esse empreendimento poderá servir ainda como protótipo para a intervenção urbana em área de ocupação de morro, traço característico da história das cidades brasileiras, constituindo uma iniciativa ímpar no gênero.

2. Breve histórico

Observador atento, D. Pedro II, por ocasião de uma de suas visitas a Ouro Preto, fez no seu diário na segunda-feira, 18 de abril de 1881, a seguinte anotação: antes de chegar a esta cidade passei pela antiga Vila Rica, muralhas arruinadas que me lembram Pompéia.

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(Bediaga,1999) O ilustre Imperador se referiu às ruínas do antigo Arraial do Morro da Queimada e as identificou com a antiga cidade italiana de Pompéia, soterrada pelo vulcão Vesúvio em 79 D.C. e hoje um parque arqueológico conhecido em todo mundo.

O sítio arqueológico do Morro da Queimada também tem origem trágica. Conhecido ainda como Morro do Paschoal, foi um dos primeiros a surgir na antiga Vila Rica, contudo foi destruído em 1720, após a revolta liderada por Felipe dos Santos. A Sedição de Vila Rica teve início em 25 de junho de 1720, em oposição aos aumentos dos impostos pela Coroa Portuguesa, por meio da proibição da circulação de ouro em pó e a implantação das casas de fundição na então capitania de São Paulo e de Minas Gerais.

Os principais chefes da sublevação foram Pascoal da Silva Guimarães, Sebastião da Veiga Cabral, Dr. Manuel Mosqueira da Rosa e seu filho Frei Vicente Botelho e ainda Frei Francisco do Monte Alverne. Felipe dos Santos, segundo o historiador Diogo de Vasconcelos, foi o único sedicioso verdadeiramente popular. (Vasconcelos,1974). O levante durou em torno de dezoito dias. Em 16 de julho, o Conde de Assumar entrou em Vila Rica por volta das onze horas da manhã, à frente de mil e quinhentos homens. O morro, onde residiam quase todos os conjurados, foi incendiado e ficou sendo chamado de Morro da Queimada. Felipe dos Santos, que havia conseguido fugir e tentado resistir no arraial de Cachoeira do Campo, foi preso em flagrante e julgado. Segundo Diogo de Vasconcelos, em 19 ou 20 de julho ele foi enforcado e depois amarrado à cauda de um cavalo para ser arrastado e despedaçado. Os demais líderes do motim foram transferidos para o Rio de Janeiro e ali condenados ao exílio em Lisboa, Portugal.

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As principais conseqüências da Sedição de 1720 foram o adiamento por quatro anos da instalação das casas de fundição em Minas Gerais e a divisão da Capitania de São Paulo e Minas Gerais em duas unidades administrativas

3. O processo de degradação

O Morro da Queimada é um sítio arqueológico que abriga preciosos registros da exploração de ouro e testemunhos materiais das primeiras tipologias arquitetônicas das cidades surgidas em Minas Gerais no início do século XVIII e ainda vestígios da Sedição de Vila Rica. Existem no local, além das ruínas das edificações da época, abrigos escavados na rocha, grandes galerias, bocas das antigas minas de ouro e sarilhos para suas ventilações. São encontrados ainda nesse sítio arqueológico mundéus, que são construções feitas para a lavagem do ouro, pequenos açudes, segmentos de canais de captação de água, além de sistemas hidráulicos com canais utilizados para o transporte de água e de lama aurífera. Nas últimas décadas, o Morro da Queimada passou por um processo de dilapidação. Na ocupação desordenada, por um lado as ruínas foram desmontadas para aproveitamento das pedras antigas como material de construção e, por outro, as estruturas remanescentes foram sendo utilizadas como base das novas construções.

Após a recomendação da Unesco, o IPHAN constituiu os seguintes grupos de trabalho: pesquisa histórica, regularização fundiária, habitação, implantação física e relação com a comunidade (Ecomuseu).

4. O projeto

O projeto de implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada foi aprovado pelo CNIC/MinC (processo nº 0140.013659/05-54, salic nº 05 7586) e publicado no Diário Oficial da União, seção 1, nº 244, página 39, em 21 de dezembro de 2005. Os anos 2006 e 2007 foram dedicados à captação de recursos que está sob a responsabilidade do Museu de Arte Sacra do Carmo /Paróquia do Pilar, tendo obtido patrocínios da Caixa Econômica Federal, do Programa Petrobrás Cultural e da Novelis do Brasil S/A. A partir de 2008 foram feitas as primeiras contratações de profissionais e de empresas, portanto somente a partir desse ano é que o projeto ganhou velocidade e avançou nas diversas áreas de atuação.

4.1 Pesquisa Histórica

Foi feito um levantamento histórico de fontes manuscritas, bibliográficas e iconográficas sobre o sítio arqueológico Morro da Queimada, e as informações foram coletadas pelo grupo de pesquisa histórica a partir de fevereiro de 2008.

Através do levantamento bibliográfico foi possível detectar alguns fatores importantes para o entendimento do Morro da Queimada como Lugar de Memória.

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A partir do contato com a historiografia sobre a Sedição de Vila Rica de 1720, foi possível verificar a incorporação de temas relacionais ao levante (pessoas e lugares) no campo simbólico da memória nacional. O levantamento primário possibilitou também a detecção de atividades econômicas paralelas à mineração, mas igualmente relevantes para a compreensão da dinâmica histórica de Ouro Preto. Um estudo sobre as atividades mercantis em Vila Rica contribuirá, sem dúvida, para o entendimento da dinâmica histórica não só do Morro da Queimada, mas também da municipalidade em geral, apontando fatores fundamentais para a compreensão das estruturas políticas, econômicas e sociais da antiga Vila Rica.

O levantamento inicial das fontes primárias revelou o grande potencial dos registros fiscais para a compreensão da ocupação do Morro da Queimada, seja a partir da atividade mineradora, seja em decorrência do comércio. A análise dos registros fiscais (lançamento da capitação, entrada de ouro na Real Casa de Fundição, receita do quinto do ouro e da capitação etc.) possibilitou traçar a dinâmica da ocupação do espaço em questão e sua importância relativa aos diversos centros mineradores e comerciais que constituíram a malha urbana de Ouro Preto.

Os resultados preliminares da pesquisa histórica podem ser sintetizados da seguinte forma: 2. Obra irregular no sítio arqueológico do Morro da Queimada. Arquivo IPHAN.

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- leitura crítica do recorte da historiografia que privilegia e constrói a representação dos heróis brasileiros, em especial a partir da narrativa da Sedição de 1720 e da Inconfidência Mineira. Retomada da tese de Sylvio de Vasconcellos que acena para a importância do estudo do comércio em Ouro Preto. Amplo levantamento de bibliografia e de fontes relacionadas com temas e áreas de conhecimento a serem aprofundados pela pesquisa histórica;

- busca a partir dos aspectos materiais, tais como geologia e materiais, e técnicas usadas na mineração e nas edificações os dados necessários para esboçar um quadro do espaço do Morro da Queimada ao longo de três séculos de história.

A pesquisa histórica desse espaço que não tinha sido objeto de qualquer estudo histórico específico deu subsídios para o projeto de implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada (Lopes, 2008).

4.2 Regularização fundiária

A ocupação irregular do sítio arqueológico do Morro da Queimada é conseqüência da falta de opção para construir moradias que por sua vez é fruto da ausência de planejamento urbano na cidade de Ouro Preto. Algumas habitações do Morro da Queimada, embora construídas há vários anos, estavam dentro do perímetro de delimitação do parque. A definição das primeiras ações rumo à regularização fundiária foi feita em conjunto com a comunidade local, o que possibilitou a resolução do problema das moradias localizadas dentro da área delimitada para a criação do parque. Decidiu-se que as famílias que viviam nessas moradias seriam relocadas. Em consenso com os moradores, ficou definido que o deslocamento seria feito o mais próximo possível de suas antigas residências e, preferencialmente, no próprio bairro. A Associação de Moradores do Morro da Queimada desempenhou um papel importante, o de fazer a interlocução dos técnicos com a comunidade.

Nas reuniões com a comunidade, os técnicos da PMOP prestaram esclarecimentos de como seria feito o processo da regularização fundiária. Os imóveis localizados na área delimitada para a criação do parque foram vistoriados pelos técnicos, com o acompanhamento de membros da Associação de Moradores do Morro da Queimada. Nas vistorias os moradores foram entrevistados, o que possibilitou a elaboração de um relatório de vistoria individual para cada imóvel. Com base nesse relatório, foi feita a avaliação imobiliária. Após a elaboração do levantamento imobiliário e do relatório social de cada família, os moradores foram indenizados e no início do ano de 2006 os imóveis foram demolidos. As 19 famílias indenizadas tiveram a opção de comprar outro imóvel, ou utilizar a indenização para outros fins.

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4.3 Habitação

Os projetos de adequação das habitações compradas pelos moradores ou de construção de novas habitações em lotes adquiridos pelas famílias indenizadas foram acompanhados pelo IPHAN e aprovados pela PMOP. Os projetos com maior ou menor gravidade não puderam ser enquadrados plenamente às normas vigentes para construções na cidade. O desenvolvimento desses projetos a partir de fevereiro de 2006 foi feito por meio do Programa de Arquitetura Pública da Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), que firmou um acordo de cooperação técnica com o IPHAN. Os levantamentos topográficos foram fornecidos pela PMOP e pelo então Centro Federal de Ensino Tecnológico de Ouro Preto (CEFET-OP), hoje Instituto Federal de Educação (IFE). A interlocução entre a equipe que desenvolveu os projetos arquitetônicos, a PMOP e as famílias indenizadas foi feita pela Associação dos Moradores do Morro da Queimada, em várias reuniões realizadas para esclarecimentos, orientações e discussão dos programas. Coube à Associação dos Moradores a priorização dos casos a serem atendidos.

4.4. Implantação

4.4.1. Levantamento topográfico

O levantamento topográfico do Morro da Queimada compreende uma área urbana de 125,25ha situada na Serra de Ouro Preto. É limitada ao norte pela Rua Rio Piracicaba, que liga o Morro de São Sebastião ao Morro de São João, e se confronta nesta região com o

3. Caminhada pelo sítio arqueológico do Morro da Queimada promovida pela Câmara Municipal de Vereadores. Arquivo CMV.

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Parque Municipal da Cachoeira das Andorinhas, a oeste pela Ladeira João de Paiva, que liga a Praça Tiradentes ao Morro de São Sebastião, a leste pelas Ruas 15 de Agosto, Serra Negra e 24 de Junho e a sul pela Rua Conselheiro Quintilhano.

A área apresenta uma topografia muito acidentada, tendo altitudes que variam de 1.133m a 1.463m, é composta por terreno com ocupação residencial principalmente no seu entorno a sul e a leste, sendo essa ocupação desordenada. A região central compõe-se predominantemente por vegetação rasteira e afloramentos rochosos, com topografia escarpada e tipologia caracterizada por vestígios de atividades antrópicas relativas à mineração. As trilhas e as tubulações irregulares de água cortam o sítio em diversos sentidos, observando-se a existência na região central de uma grande quantidade de ruínas e de galerias de mineração. Cavidades profundas de sarilhos são também freqüentes e extremamente perigosas para pessoas desavisadas.

Os trabalhos foram realizados em março de 2008 pela Andinna, Serviços e Sistemas de Informação e envolveu as seguintes ações: implantação de marcos geodésicos de apoio para execução de cadastro; levantamento topográfico de todo o perímetro do parque, incluindo as ruas adjacentes, trilhas principais e caminhos internos; hortoretificação de imagem QuickBird 2007, que servirá de apoio aos trabalhos de implantação do parque e aos levantamentos de campo; levantamentos de pontos para controle altimétrico, das ruínas e dos cursos d’água; confecção de hortofotocarta; de modelo digital de terreno e de mapa topográfico da região georeferenciado em UTM SIGRAS 2000.

4.4.2. Iniciativas preliminares

O projeto de implantação contemplou, em um primeiro momento, ações de identificação, proteção e consolidação estrutural das ruínas e vestígios arqueológicos remanescentes e ao mesmo tempo providencia a recuperação dos mananciais e nascentes, o conveniente tratamento de dejetos e resíduos produzidos pela exploração abusiva de quartzito e pela antiga ocupação bem como erradicação de ações predatórias, além de garantir a eficiente proteção, vigilância e segurança do conjunto.

Todas as informações provenientes dos grupos de trabalho foram reunidas e articuladas de modo a fornecer uma ampla visão do estado atual do conjunto, relacionando seus problemas, características, vocações e potencialidades, com o intuito de fornecer indicações e alternativas para a elaboração dos projetos de intervenções físicas prioritários. As análises consideraram tanto os aspectos ambientais, construtivos e estruturais do complexo quanto os seus valores históricos, culturais e paisagísticos, em seus detalhes, em sua totalidade e em sua relação com o entorno, tendo os seguintes objetivos: a criação de muros, cercas e alambrados; de acessos, caminhos, passarelas e trilhas interpretativas; a implantação das edificações necessárias ao desenvolvimento das atividades previstas, além de espaços de

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apoio; a consolidação, a restauração e o agenciamento das ruínas; a proposição de obras emergenciais e medidas de proteção.

4.4.3. Conceitos e diretrizes para as intervenções.

Por se tratarem de intervenções a serem feitas em um sítio portador de excepcionais valores de natureza histórica, cultural, paisagística e ambiental, que também participa ativamente da conformação da própria cidade de Ouro Preto, elas atenderam a critérios e premissas que tenham por objetivo a conservação e a potencialização desses valores.

Assim, após discussões e reflexões referendadas pelos conceitos e procedimentos operativos adotados pela produção arquitetônica contemporânea, foram definidas como diretrizes principais: a consolidação dos percursos e lugares já existentes, evitando novas alterações no complexo, o emprego de soluções sustentáveis na construção das edificações e a adoção de linguagens e tratamentos que demonstrem a contemporaneidade do empreendimento, mas que, ao mesmo tempo, façam referência à arquitetura tradicional da região.

4.4.4. Identificação de acessos, percursos e pontos focais.

Em conformidade com tais diretrizes, foram identificados os principais pontos de acesso à área, os caminhos e as trilhas já existentes, de modo a confirmar as escolhas feitas ao longo do tempo e a minimizar os impactos ambientais.

Foram então selecionados os locais mais adequados, do ponto de vista ambiental e paisagístico, para a implantação das edificações. Esses pontos, além de estarem

relacionados com as estruturas e arranjos atuais, situam-se próximo aos limites propostos do Parque e dos acessos previstos, fato que irá facilitar a implantação dos diversos sistemas de instalações prediais requeridos pelo programa, além de permitir o melhor controle do conjunto e liberar as áreas centrais, onde se encontram a maior parte dos vestígios arqueológicos e da vegetação original.

Para assegurar a sustentabilidade do empreendimento e minimizar os impactos ao ambiente natural e à conformação paisagística existente, foram definidas áreas situadas a um

conveniente afastamento das cumeadas do morro e das ruínas. Na escolha foram

consideradas áreas que apresentassem os seguintes requisitos: distância satisfatória dos topos de morro, topografia favorável, predominância de superfícies não vegetadas, existência de boas condições de ventilação e insolação, pouca visibilidade a partir dos pontos focais notáveis, estruturadores da paisagem natural e edificada existente em seu entorno imediato.

4.4.5. Definição do programa, setorização e fluxos.

Etapa referente ao levantamento e à caracterização dos usos previstos, com a definição e o dimensionamento de suas respectivas necessidades ambientais, espaciais e construtivas, a setorização e o agrupamento dos usos de acordo com suas afinidades e a definição de suas

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conexões e interligações. Para tanto foram consideradas as análises de empreendimentos similares, as especificidades do complexo em tela e seus valores, as sugestões e demandas encaminhadas pelas demais equipes envolvidas e, principalmente, as demandas e necessidades relacionadas pela comunidade local, consolidadas a partir dos diversos encontros, reuniões e apresentações realizadas ao longo dos últimos anos. As edificações novas, a serem implantadas nos lugares que apresentam as condições mais adequadas, do ponto de vista da conservação e potencialização dos valores do Parque, serão limitadas ao mínimo necessário: estacionamento e acesso principal; portaria com recepção, guarda-volumes, loja e banheiros para os visitantes; centro de convivência, com o setor administrativo, depósitos, área de exposições, auditório, anfiteatro e cafeteria; centro de estudos, com laboratórios, reserva técnica e espaços de apoio; centro comunitário, com salas de reuniões, ecomuseu e salas multimeios. O programa prevê também equipamentos urbanos, como quadras poliesportivas, para a comunidade que vive no entorno do Parque.

4.4.6. Estudos arquitetônicos e tratamento das trilhas interpretativas.

As edificações serão implantadas junto aos acessos e aos limites do Parque, de modo a estabelecer locais de transição entre os diversos bairros limítrofes e a área protegida. Construídas em áreas de baixa declividade e sobre plataformas elevadas, dispensam

4. Implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada. Arquivo Museu de Arte Sacra do Carmo /Paróquia do Pilar. Desenho, Raphael F. Asthon e Mariana Pedrosa.

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movimentos de terra. O emprego de estruturas metálicas e de elementos construtivos pré-fabricados reduzirá ao mínimo a produção de rejeitos, da mesma forma que a utilização de gabiões, feitos com os rejeitos das antigas pedreiras, na construção das paredes reciclará materiais locais. As coberturas verdes, que receberão painéis para a captação de energia solar, além de proporcionar conforto e isolamento, servirão para recompor as superfícies vegetadas e coletar as águas da chuva. As trilhas e caminhos existentes serão dotados de melhores condições de acessibilidade e segurança, por meio de pequenas intervenções em seus pontos críticos, da colocação de pavimentação permeável, da implantação de guarda-corpos e da criação de mirantes e de pontos de contemplação.

4.4.7. Caracterização das edificações: implantação, volumetria, imagem.

As edificações novas deverão consolidar os pontos focais do complexo, constituindo elementos referenciais nos novos arranjos paisagísticos. Articulando e interligando esses lugares, deverão ser recondicionados e tratados os caminhos existentes, implantando trilhas interpretativas que possibilitarão a apreensão gradativa dos valores existentes no Parque e sua fruição, ao longo das quais serão instalados mirantes, áreas de descanso e convívio, dotadas com elementos de sinalização, comunicação visual e mobiliário.

A solução da arquitetura de todas as edificações deverá ser sustentável, despojada, transparente e entremeada com os elementos naturais. Embora devam assumir aspectos expressivos e tecnológicos próprios das linguagens contemporâneas, farão também referência às características tipológicas e construtivas tradicionais. Em todos os edifícios serão usados os mesmos princípios compositivos, o mesmo sistema estrutural e os mesmos materiais construtivos, fatores que deverão garantir a necessária unidade arquitetônica, a identidade do complexo, bem como o sentido de pertinência de cada elemento ao conjunto edificado. Contudo, cada uma das edificações receberá tratamentos, soluções espaciais e ambientações diversas, de maneira a assegurar sua distinção e caráter próprios mais coerentes com a sua localização e destinação.

4.4.8. Especificações gerais, pré-dimensionamento e indicações para os projetos complementares

Foram definidos o sistema estrutural, com elementos em aço tubular; as vedações, com o emprego de vidro temperado e gabiões feitos com o reaproveitamento dos rejeitos de pedra existentes; as coberturas com terraços vegetados; os pisos em materiais locais, quartzito polido e as indicações para o desenvolvimento dos demais projetos necessários, conforme descrito no memorial específico e nos documentos gráficos enviados. (Meniconi, 2008).

4.5. Relação com a comunidade

Inicialmente foi criado em 2004 um grupo de trabalho para atuar como um braço do projeto, tendo como objetivo envolver a comunidade na implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada.

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Posteriormente foi criado o Ecomuseu, a fim de promover também o desenvolvimento comunitário do entorno do parque e garantir a sua sustentabilidade. Em 2007 foi implantado o Ecomuseu da Serra de Ouro Preto, um Museu Comunitário ligado à UFOP, que realiza um inventário participativo e diversas oficinas de arte-educação para a comunidade. Ele atua hoje de forma independente e apoia o projeto de implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada.

5. Divulgação

A partir de 2005 o projeto de implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada começou ser divulgado na mídia impressa e televisada, em palestras sobre patrimônio histórico e em congressos internacionais.

A primeira divulgação do trabalho em eventos científicos ocorreu no Simpósio Internacional Estudos do Patrimônio Histórico, realizado em Antalya na Turquia entre os dias 17 e 21 de setembro de 2007. Esse evento que foi organizado pela Universidade Técnica de Yeldiz de Istambul teve o apoio de diversas entidades internacionais, dentre elas do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (ICOMOS). No ano seguinte o projeto de implantação do Parque foi apresentado e publicado na VI Conferência Internacional “Análises Estruturais das Construções Históricas”, realizada em Bath, Reino Unido, entre os dias 2 e 4 de julho de 2008. Em 2009 foi apresentado e publicado no Terceiro Congresso Internacional sobre Construções Históricas, realizado entre os dias 20 e 24 de maio em Cottbus, Alemanha. Foi ainda apresentado e publicado respectivamente nos seguintes eventos: I Congresso Internacional da RETEVITRUVIO realizado em Bari, Itália entre os dias 2 e 6 de maio de 2011 e no Fórum Internacional Arquitetura, Educacão e Sociedade realizado em Barcelona, Espanha entre os dias 23 e 25 de maio de 2012..

Por fim em 2014 foi apresentado e exposto na Conferencia Internacional de Patrimônio Cultural – Euromed realizada entre os dias 3 a 8 de novembro de 2014, em Lemessos, Chipre

No Brasil a primeira divulgação ocorreu no IV Encontro Nacional do Ministério Público na Defesa do Patrimônio Cultural, realizado entre 11 e 13 de março de 2009 em Ouro Preto, MG.

Em 03 de novembro de 2009 foi lançado na Câmara Municipal de Vereadores de Ouro Preto o site http://www.fiocruz.br/morrodaqueimada/index.php, que pretende dar uma ampla visão do Morro da Queimada, através da divulgação de um rico material constituído de textos, desenhos, cartografia e iconografia. O site está divulgando também o trabalho do Ecomuseu da Serra de Ouro Preto, o desenvolvimento do projeto de implantação do parque arqueológico; os trabalhos em curso bem como aqueles já desenvolvidos pelos grupos de

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trabalho multidisciplinares: pesquisa histórica, regularização fundiária, habitação, projeto de implantação.

6. Conclusão

A implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada trará um impacto positivo em Ouro Preto, dando origem a diversas ações de valorização do seu patrimônio cultural e ambiental, dentre as quais destacam-se:

- Associação entre a preservação do patrimônio histórico e arqueológico ao desenvolvimento, educacional e cultural urbano local, nas seguintes ações: proteção e ordenamento das ruínas das primeiras edificações de Ouro Preto; ampliação das pesquisas históricas por meio da criação de programas de escavações arqueológicas, possibilitando um conhecimento mais amplo sobre a cultura material e a história da mineração da época; ampliação dos conhecimentos sobre a atividade mineradora e dinâmica social dos primórdios da colonização de Ouro Preto e das Minas Gerais; criação de um museu arqueológico das cidades surgidas durante o ciclo do ouro e preservação da memória de Felipe dos Santos e da Sedição de Vila Rica de 1720.

- O projeto de implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada valoriza a paisagem cultural da cidade de Ouro Preto, por meio da proteção de parte significativa da moldura paisagística do conjunto arquitetônico e urbanístico tombados pelo IPHAN.

- O projeto destina ao sítio arqueológico do Morro da Queimada, que está inserido no perímetro tombado pelo IPHAN, sua função social como parque de uso público voltado para a pesquisa e a visitação e o reintrega na vida cotidiana de Ouro Preto de forma permanente e irreversível. A implantação do Parque poderá funcionar como vetor de requalificação urbana dos bairros vizinhos.

- O projeto vai propiciar a Ouro Preto um amplo benefício turístico, econômico e social, resultando em melhorias efetivas à população local por meio das seguintes ações: criação de um portal interativo que disseminará as informações sobre o processo de criação do parque e os resultados das oficinas, criando um elo de ligação entre técnicos, instituições e a comunidade no processamento da informação e na valorização do bem cultural por meio de associação ao telecentro da região; criação de uma opção diferenciada de turismo fora do circuito tradicional, contribuindo para uma permanência maior dos turistas na cidade e gerando mais postos de trabalho em Ouro Preto; melhoria da qualidade de vida e inclusão social das comunidades vizinhas, por meio da geração de emprego e renda, bem como de formas para garantir a futura sustentabilidade econômica do empreendimento e contribuindo para o início da consolidação do Parque Municipal e da Área de Proteção Ambiental (APA Cachoeira das Andorinhas), preservando e recuperando os diversos recursos naturais existentes.

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O Morro da Queimada é um sítio dotado de rara beleza natural e um Lugar de Memória não só por estar intimamente ligado ao “mito” de Felipe dos Santos e da Sedição de Vila Rica de 1720, mas também por ser o local onde teve o início a mineração no Brasil, que propiciou as primeiras manifestações artísticas genuinamente nacionais, dando também origem a um centro irradiador de liberdade que é berço da nacionalidade brasileira.

O projeto de implantação do Parque Arqueológico do Morro da Queimada é um dos mais importantes em curso na cidade, já que o sítio arqueológico do Morro da Queimada está para Ouro Preto assim como a Acrópole está para Atenas e o Palatino e os antigos fóruns estão para Roma. A implantação do Parque dará um impulso favorável à recuperação do patrimônio cultural e ambiental da cidade, iniciando onde tudo começou: no Arraial de Ouro Podre que foi de mestre Paschoal (Meirelles, 1989, p.55).

Agradecimentos

: Caixa Econômica Federal, Programa Petrobras Cultural e Novelis do

Brasil S/A pela oportunidade de divulgar, valorizar e conservar esse valioso patrimônio cultural.

Dedicação: ao Cônego José Feliciano da Costa Simões (18-12-1932/20-01-2009). In

memoriam.

Referências bibliográficas

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Referências

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