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Texto 7 - Reforma Agrária

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Academic year: 2021

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CESED No. 07 FACISA

CURSO DE DIREITO

DISCIPLINA: Direito Agrário

PROFESSOR: Mário Vinícius Carneiro

A REFORMA AGRÁRIA E OS MOVIMENTOS SOCIAIS NO BRASIL

Embora fatos tenham dado motivo para o surgimento do que seria, no futuro, denominado de Direito Agrário, inicialmente as disposições nas legislações mais antigas, como o Código de Hamurabi, trataram mais sobre limites nos campos ou prejuízos por animais às plantações de outrem. Entretanto não houve, a priori, uma legislação que tratasse sobre a posse da terra.

O tema, porém, não passou sem despertar interesses. Os filósofos pré-socráticos, por exemplo, teceram considerações sobre o assunto, servindo de base para o entendimento do grego Demóstenes, quando este levantou questionamento relativo ao direito de propriedade da mudança na titularidade da terra.

Com o advento da Lei das XII Tábuas. Em 450 a.C., surgiram ali determinações referentes ao direito de propriedade rural. Contudo, não havia condições para que ali se reconhecesse um “Código Agrário”. Para muitos doutrinadores, as três primeiras leis que podem representar o primeiro experimentado pela humanidade foram a Lex Licinia Agraria (367 a.C.), Lex Sempronia Agraria (133 a.C.) e a Lex Julia Agraria Campana (61 d.C.). Tratando especificamente da segunda lei, foi idealizada pelos irmãos Tibério e Caio Graco, ambos Tribunos da Plebe, com o intuito de acabar com os latifúndios em Roma. Assim, cada proprietário era limitado a ter a área correspondente (atualmente) a 125 ha., acrescida da metade desta por cada filho maior de 25 anos que estivesse sob a pater potestas. Contudo, as determinações por eles baixadas encontraram resistência entre os patrícios, que formava a elite romana, e ambos acabaram assassinados.

Durante a Idade Média, a tradição platônica adotada pelo Cristianismo limitava o direito de propriedade com base no bem comum e no direito do indivíduo a uma vida digna. Entretanto, o que pôde ser observado foi a terra cair nas mãos tanto do domínio estatal como dos senhores feudais, situação que continuou com a Revolução Francesa, que consagrou a noção liberal do direito de propriedade, através da “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”, posteriormente levada para o Código Napoleônico, em 1804.

A idéia de função social da propriedade só voltou à cena com o Positivismo de Augusto Comte, quando afirma que a propriedade não poderia ter o caráter sagrado, uma vez que

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possuía o caráter social. Mais tarde, Jhering afirmou que a propriedade observada pela objetividade dos interesses juridicamente protegidos, dando assim maior suporte teórico à idéia de função social da propriedade.

Esta idéia foi absorvida por países do “Civil Law” como do “Common Law”. Além disso, a encíclica Rerum Novarum transportou as noções de interesse e função social para o meio das reflexões da Igreja Católica. Mais tarde, a mesma idéia passa a integrar a Constituição de Weimar, em 1919. Embora tenham ocorrido tentativas isoladas em meados do século XIX, foi a partir desta data que começa o processo de Reforma Agrária nos moldes que conhecemos hoje.

A importância deste instituto é exatamente para solucionar o desequilíbrio da estrutura fundiária, promovendo a melhor distribuição de terra, mediante modificação no regime de sua posse e uso, a fim de atender aos princípios de justiça social e ao aumento da produtividade.

A Reforma Agrária pode ser classificada sob três aspectos: quanto ao tipo, quanto à propriedade privada e quanto à sua acepção.

Quanto ao tipo, poderá ser a Reforma Agrária Legal, quando fundamentada em lei amplamente discutida antes da sua promulgação, fundamentada em princípios democráticos e o proprietário receberá justa indenização. Por outro lado, poderá ser uma Reforma Agrária Revolucionária ou Violenta, que é aquela implementada por meio da força, sem que o proprietário tenha sequer o direito a qualquer indenização e a propriedade da terra lhe é retirado mediante confisco.

No que se refere à Reforma Agrária quanto à propriedade privada, temos:

a) As que eliminam a propriedade da terra, como a realizada pela antiga URSS, quando a terra foi nacionalizada.

b) A solução marxista-liberal, como a verificada na China em 1950. Na oportunidade, o governo chinês adotou dois métodos: o simples confisco da terra e a desapropriação mediante indenização em dinheiro.

c) As que asseguram o direito à propriedade da terra, mas os proprietários não podem dispor delas à suas vontades. O Estado administra e as entrega em arrendamento a p0equenos exploradores, pagando o aluguel aos grandes proprietários. Foi o que ocorreu, por exemplo, no Egito, na década de 60 do século passado.

d) As que mantêm intacta a propriedade privada. Neste caso, acontece a aquisição da propriedade por parte do Estado e, posteriormente, esta é vendida aos trabalhadores menos abonados. Em resumo, há a redistribuição da terra, mas esta continua na mão de particulares. Foi o que ocorreu na França, após a I Guerra Mundial.

Finalmente, quanto à sua acepção, a Reforma Agrária pode acontecer sob o método marxista-leninista ou sob o método liberal. No primeiro caso, temos aquela realizada pelo confisco da propriedade, enquanto que o segundo significa dizer que a Reforma Agrária é

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realizada mediante desapropriação com justa indenização em dinheiro, num quantum de indenização medido por diversas técnicas.

Embora o movimento pela Reforma Agrária no Brasil tenha tomado impulso na década de 50 do século passado, conforme veremos adiante, é preciso esclarecer que foram vários os movimentos sociais rurais verificados em nossa história que tiveram motivos de ordem agrária. Somente a título de ilustração, vejamos alguns ocorridos após a abdicação de D. Pedro I, em 1831, até os primeiros anos da Proclamação da República:

a) Revolução Farroupilha: comandada pelo caudilho Bento Gonçalves entre 1835 a 1845f, foi desencadeada em reação à pesada taxação imposta ao charque e ao couro produzido pelos gaúchos.

b) Sabinada: ocorrida uma Bahia em 1837-1838, foi liderada pelo médico Francisco Sabino, que além de criticar a supremacia dos produtores de tabaco e dos senhores de engenho, protestava contra a transferência de rendas para o Rio de Janeiro.

c) Balaiada: aconteceu no Maranhão (1838-1841), tendo posteriormente se expandido para as províncias do Piauí e Ceará. Foi liderada por Manuel dos Anjos “Balaio” e Cosme, ex-escravo. Contou com a presença de camponeses, artesãos, negros e mestiços, que lutaram contra o domínio dos fazendeiros e proprietários.

d) Cabanagem: revolta de caráter popular, ocorrida de 1835 a 1840 no Estado do Grão-Pará. Foi feita pelos cabanos, habitantes das margens dos rios, desconsiderados e excluídos dos meios de produção da província.

e) Guerra de Canudos: resultante do movimento acontecido na Bahia, sendo liderado pelo beato Antônio Conselheiro. Estando também presente o aspecto místico, os rebeldes se instalaram em uma fazenda de gado abandonada às margens do rio Vaza-Barris e, ali, fundaram um arraial, onde conseguiram reunir trinta mil pessoas. Entre a população, ficou estabelecida a posse coletiva da terra, dos produtos agrícolas e dos rebanhos existentes. Os conflitos com os fazendeiros da região e as idéias monarquistas acabaram por provocar a reação do governo republicano, que enviou quatro expedições militares entre 1896 e 1897, quando todos os habitantes de Canudos foram mortos e o arraial destruído e incendiado.

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Porém, a idéia de Reforma Agrária em nosso País, nos moldes em que é concebida atualmente, somente apareceu com o movimento tenentista da década de 20 do século passado, influenciada pelas notícias do movimento agrário que chegavam da Europa. A Coluna Prestes, que percorreu o território nacional por 25.000 km entre os anos de 1924-1927, enfrentando as tropas legalistas, a incluiu entre as suas proposições na luta contra o Governo Federal.

Em 1945, a legislação vigente acabou por fazer a idéia ficar esquecida, uma vez que determinava que as desapropriações deveriam ser feitas mediante pagamento à vista e em dinheiro.

Em 1954, surgiu o fato decisivo para a ascensão dos movimentos pelo ideal da reforma agrária no Brasil. Os trabalhadores do Engenho Galiléia fundaram a Sociedade Agrícola e Pecuária dos Trabalhadores de Pernambuco, constituindo-se assim a primeira liga camponesa a ser criada com o objetivo de lutar pela posse da terra e pela reforma agrária. A seguir, o movimento difundiu-se pelo Nordeste, sendo liderado pelo deputado socialista Francisco Julião, sob o incentivo do governador Miguel Arraes.

Em 1961, realizou-se em Belo Horizonte o I Congresso Nacional de Lavradores e Trabalhadores Agrícolas, que reivindicou a reforma agrária, a aplicação da legislação trabalhista no campo e direito de livre organização dos camponeses. No ano seguinte, foi aprovado o Estatuto do Trabalhador Rural, que levaria muitas ligas a se transformarem em sindicatos rurais. Assim, foi criado um Conselho Nacional com a finalidade de estimular a sindicalização dos trabalhadores agrícolas, fazendo surgir centenas de novos sindicatos, federações estaduais e a Confederação Nacional de Trabalhadores na Agricultura – CONTAG.

O Nordeste brasileiro transformou-se, então, numa área de constantes conflitos rurais, principalmente nos Estados da Paraíba, Pernambuco e Alagoas, onde as Ligas Camponesas desenvolveram um trabalho de mobilização e conscientização política das massas pela Reforma Agrária. Com o golpe militar de 1964, houve intensa repressão ao movimento, sendo os seus líderes presos, torturados e até mortos. Os políticos que apoiaram as Ligas foram presos pelos militares e posteriormente exilados, como nos casos de Francisco Julião e Miguel Arraes.

Quando o regime militar estava prestes a completar 15 anos, em 1978 surgiu o movimento operário no ABC Paulista, que passou a realizar greves nas indústrias metalúrgicas, atitude proibida pelo governo militar da época. Concomitantemente, surgiu o algo similar no campo, que retomou a bandeira da luta pela Reforma Agrária: o Movimento dos Sem Terras, ou simplesmente, MST.

As razões para o nascimento do movimento têm como raízes a luta histórica pela Reforma Agrária e o acesso dos trabalhadores aos seus direitos. O desenvolvimento do capitalismo, os governos militares apoiados pelo capital estrangeiro, forneceram crédito rural subsidiado para as grandes empresas e, como conseqüência, vários trabalhadores rurais, meeiros, arrendatários, foram excluídos da oportunidade de trabalhar a terra, para dela tirar o sustento de sua família.

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A construção de barragens, a falta de incentivo da política agrícola, também contribuiu para o agravamento da situação, que eclodiu nas ocupações de latifúndios, em princípio no Rio Grande do Sul, com o apoio da Pastoral da Terra da Igreja Católica. Em seguida, as ocupações começaram em Santa Catarina, São Paulo, Paraná e foram ganhando espaço, até que, em 1984, consolidou-se com o primeiro encontro “Movimento dos Trabalhadores Sem Terra”, com este nome e com articulação, projetos e diretrizes próprias.

A organização do grupo cresceu com o tempo, sendo demonstrado inclusive nas questões jurídicas. Atualmente, podemos citar o grande número de leis com o objetivo de promover a melhor distribuição de terras, as alterações do ITR, regulamentação dos requisitos ao cumprimento da função social da propriedade, além do maior número de assentamentos realizados embora, ainda esbarre-se em algumas forças conservadoras.

Como decorrência das lutas do MST, entre 1980 e 2000 houve a distribuição de 22 milhões de hectares de terras a 618.000 famílias, e, do início de 1995 a te o ano 2000, foram implementados 3736 projetos de assentamentos rurais, num investimento de cerca de 11 bilhões de reais. Mesmo assim, o Censo Agropecuário revela que a concentração fundiária continua a ser o traço dominante do campo brasileiro. Num extremo a metade dos estabelecimentos tem menos de 10 hectares e ocupam apenas 2,4 da área agropecuária total. Por outro lado, 1% dos estabelecimentos tem mais de 1.000 hectares e ocupam 42% da área agropecuária, sendo a grande maioria do latifúndio não é explorada. De acordo ainda com o mesmo censo, existem no Brasil mais de 4 milhões de trabalhadores rurais sem terras.

Finalmente, é preciso lembrar que o problema da violência, da tensão social e do temor no campo ainda persiste, provocando o surgimento de inúmeros conflitos, muitos com derramamento de sangue e a ocorrência de mortes, principalmente na região do Pontal do Paranapanema, e no extremo oeste do paulista, e na região Norte, no Estado do Pará.

Referências

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