a
CoNSTTTUIçÃO
DO OBJETO EM FREUDTLUÍS MARTINHo FERRIIIRA MAIA2 Universidade Fedeml da
Pøalbø
r
TNTRODUçÃOA
problemática da constituição do objeto é um tema que marca a evolução dapsicaná-lise na
posteridade deFreud. Todos
osque
setêm
debruçado sobre aquestão
têmafìrmado
seguiro
caminho aberto pelo
mestre.A
multiplicidade
e a diversidade dasformulações a respeito do assunto sugerem, porém, que ele está longe de poder receber uma interpretação unívoca.
Este trabalho é uma tentativa de equacionar alguns desses aspectos. Limita-se a
fa-zê-lo
no
contexto da ob¡a
fundado¡a. Mesmo assim, nãotem
qualquer pretençâ'o de esgotar um tema de tamanha complexidade.Duas ordens de fatores condicionam esta busca
do originário.
Uma, metodológica,segue a orientação prevalente na obra do
próprio
Freud. Desde a época do métodoca-tártico,
a descoberta deum
trauma reenviava a um trauma anterior, e este a umoutro
maisantigo,
até seatingir o
traumaprimeiro,
aquele queiniciou
a série e preparou oterreno para todos os subseqüentes.
A
freqüência com que o qualÍficativo"originário"
aparece aolongo
da obra é bem umindício
dessa orientação."'Em
psicanálise, gênese e estrutura estão ligadas"(VERGOTE
1972,p.25).
O
out¡o
fator é função das exigências da clínica. Não apenas o tratamentopsicanalf-tico
das crianças, mas sobretudo a problemática da psicose, forçaram a ultrapassar asestruturas ternárias do
Édipo
natentativa
deatingir
as estruturas binárias dasrelaçõesobjetais primitivas.
Este esforço de reconstituição das primeiras relações duais t¡az a marca do
empiris-mo
e do
funcionalismo, tão
característicosda cultura
anglo-saxônicaonde
foi
pre-dominantemente elabo¡ado. Contra esta orientação prevalente na psicanálise contem-porânea,
o
pensamento de Jacques Lacan veio propugnarum
"¡etorno
aFreud"
pela ênfase na questão das estruturas, numa abordagem que sefilia
ao estruturalismo lin-güfstico de Saussure e ao etnológico de lévi-Strauss.Da
geração francesa,i.
e.,
da geração dos primeiros discípulos que recolheram deI¿can os melhores frutos, Jean Laplanche vem, desde
o
Vocabuløire de lø Psychøralyse(1961),
empreendendo seupróprio
retorno ao
texto
freudiano.
Um "tetorno
xtbre
Freud",
postoque
fazê,-lo"é
retomar o modo como ele trabalha e como é trabalhado,para
continuar
tal
trabalho" (LAPLANCHE
1983, p. 5).Tal
retorno éfeito
apartir
deuma
abordagemque,
se
traz
a
marca
de
suas origens,não deixou
detomar
certadistância
do
dogmatismo lacaniano. ao mesmo tempo que se mantém atenta à obra delAprcsentado
no XVI
Colóquio
de
tìilosofia do CLE,da
UNICAMP, rcahzado d,e 12 a 14. r 1 .84.2O autor é membro do Círculo Psicanalítico de Pernambuco.
F
52
LutsMartinho Fereira
Maiauma Mclanie
Klein,
paracitar
apenaso
exemplo mais expressivo' Não se busca o"for-rnalismo
do significante"
nemo
"empirismo
do significado" mas"
o objeto, evidente-mente o objetointerno".
Vindo
dä tradição hegeliana da escola de JeanHyppolite
-
sua formação básica-Laplanche propõe-se a träbalhar Freud como Hegel trabalha os fìlósofos na HistÓrio da
Fiiosofia.
Sensivel aofato
de queo
pensamento deFreud "sob
certos aspectos apre-sc¡ta-se comoum
pensamento-filosófico, evoluindo segundo suaprópria
necessidade,errquanto que,
por outro lado,
integra como um pensamentoctlyt!{f99
os novos fatostraiidos
poiu--.u*po
de observaçãó particularmenterico"
(LAPL.A,NCFß 1970, p. 8),essc
autór
inspira-seno
método htgõtiuno
pua
fazet aquele"trabalho do
negativo" que consiste.*
f'or.,
a obra "rachar, desmantelar-se para teencontrar suas articulaçõesprofundas"
(LAPLANCHE
1983, p. 5).Assim, numa
abordagem dialéfica,convicto
de que, numa grande obra, "contradi-çõesdo
pensamento e ãontradiçõesdo objeto
são, emúltima
instância, inseparáveis un'ru,du, outfas",
Laplancheafiima
a neceisidade de relacionar as mudanças na obra"ao equilíbrio
estruturalno
qual os conceitos de inserem"(LAPLANCFm
1970,p'
6)na
tentativa
de .'restituir
àìeoria
freudiana
uma
estrutura
parc além das diversas fìguras sucessivas nas quais ela setraduziu" (LAPLANCHE
1970,p'
8)'
Este trabalho pretende inscrever-se na I nha da reflexão aberta por Laplanche,
espe-cialmente
no livro de
1970
que, de algummodo, inicia
as"Problématiqves":
Vie etmort
en psychørwlyse.O
que este possater
deoriginal
há de sero
natural
desenvol-vimento daquele trabalho.
2
CONSTITUIçÃO
DO OBJETO: DESCOBERTA EIIWENçÃO
O objeto,
na obra
deFreud, tem
uma gênese empírica: é descobertono mundo'
em srra oU¡etivrAade. Porém, só setorna gbjeto
-
no sentido da"objetalidade"
-
quandoperdidä
e recriado imaginariamente.É
neste sentido que se podeafrmar
que o objetoé inventado.
Este
movimento
de descoberta, perda e invenção, implica numa temporalidademui'
to
peculiar, a saber, a posteridade.Èm
certo sentido, oobjeto
éconstitufdo
na suafal-ta.
Ño
tempo da descoberta, o objetoé
ob-jeto
é internalizado.E
na an¿ílisedeste
queïm
objeto existiu
entre os dois tempos,u
cidecom
o
sujeito.Em
outras palavras,o outro
éum
sujeito desejoso econstitui
a criança comoobjeto
do desejo.por
isso, o objeto inventado é diferente do objeto descoberto. Entre os dois tempos, a experiêrróia deter
sido objeto estabelece um ângulo de desvio que não mais permitirá que ìimplesmente se inventeo
quetinha
sido descoberto.A
derivação desejante nasced^a
impoìsibilidade
deretornar
aoponto
de origem.A
constituição do objeto éresuita-do de um processo de derivação.
A
quesiao será assim anaiisada emtorno
de duas grandes problemaáticas: aconsti-tuiçãoda
sexualidade humana, posto que o objeto, em psicanálise, éobjeto
do sujeito; eiconstituiçdo do
vieito,
umavez
que, em psicanálise,o
sujeito advém a si mesmoConstituiçEo
tlo
Obieto entþieud
53como
objeto. O
planodo
trabalho repete assim a dialéticailaprópria
coisa: pretende-se que isso seja índice da fidelidade ao sentido da obra.Reconhece-se que, formulada dessa
fonna
paradoxal, a questão inscreve-se de saídanuma polêmica que atravessa a
História
da Filosofia: rnaterialismo vers¿¿s idealismo ou empirismo versusformalismo.
Evitam-seos
escolhos deuma
tal
navegação-
para aqual
há,
neste Colóquio, timoneiros exímios-
demandando arota
maistranqüila
do exame da obra.É, no
Projeto de
1895 queFreud
descreve pelaprimeiravez
a "experiência desatis-fação",
modelo
prototípico
da
gênesedo
objeto.
E
uma
experiênciamuito
receuteaquela
de
24
dejulho de
1895, quandoo
"mistério do
sonhofoi
revelado ao Dr'.Sigmund
Freud" (FREUD
1900a,p.
286),
no
momento em que,
no
trem,
Freudcomeça a redigir o
Proieto. Ainda
que vazado num molde antigo-
neurofisiológico-esse
texto
é a tentativa decria¡
a nova psicologia que o sonho exige. O sonho, o recal-que, os processos primários enfim.Mas
é
na Interpretøção dos sonhos que a descrição da "experiência de satisfaçâo" ganha sua formadcfinitiva:
Urna mudança só pode surgir se, de uma manci¡a ou de out¡a (no caso do nenô, através do
auxílio exte¡no), pudcr ser atingida unta "cxperiência de satisfaçâo" que põe fim ao estí-mulo interno. Um componente essencial dessa cxperiência de satisfação é unla perccpçâ'o
particular (a de nutrição, em nosso exemplo) cuja imagem mnemônicn permanece associada, dal por diante, ao traço de memó¡ia da excitaçâo produzicla pela necessidade. Como
resulta-do resulta-do
elo quc é assirn estabclecido, na vez seguinte em que essa necessidade despcrtar, surgirá imediatamente um inrpulso pslquico que procuræá reinvesti¡ a imagem mnemônica da percepção e evocar cle novo a própria percepça-o, isto é, restabelccer a situação dasatis-ção original. Um ilnpulso desta espécie é
o
que chamamos dcsejo; o teapalecimento da percepção éarcalização do descjo (FRIIUD 1900,p.481).Poder-se-á
objetar
que éarbitrário
considerar a gênesedo objeto
como correlativada gênese
do
desejo.Entretanto,
tal
correlação é sugerida mais claramentenohoieto,
a
partir
de uma explícitação das implicações da"experiência":
O organismo humano, nesscs cstados precoces, é incapaz de provocar esta açâo especlfica que só podc ser realizada com uma ajuda cxtcrior e ¡ro momcnto cm que a atenção de uma pessoa cxpcricnte é at¡alda pelo estado da criança. [ìsta alertou-a, mediante uma descarga
se produzindo pelas vias das mudanças internas þclos gritos da criança, por ex-e¡¡plo). A via dc descarga adquirc assim uma função sccundá¡ia de uma extrema importancia: a da corrtpreensÍo rnútua. O dcsamparo orìginal do ser humano torna-se, assim,a fonrc primeira de totlos os mot¡vos mor¿is (FREUD 1900, p. 336).
Mas é principalmente mostrando que a "experiência de satisfação" ocupa uma posi-ção nuclear na estrutura da teoria que melhor se poderá fundamentar a coextensão das gêneses do desejo e do objeto.
54
LuísMartinho
FerreiraMait
3 CONSTITUIçÃO
DA
SEXUALIDADE HUMANA:
SEDUÇÃO, DESEJOE AUTO.
EROTISMO3.1 G
A
da gênesefeita
num terceo
da
lo
dado nordem cronológica:
Aos oito anos de idade, Emnla foi duas
vezes
sendo quelo-io
,,a primeira o propri.tátio agarrouJheas
Apesa¡ disso'ioltou'lá
de novo e agora se reõrimina porc
tivesse queri-do provocar o atentado.öuando tinha doze anos (rouco depois da puberdadc)
.
. . entrou numa loja para cof,n-praì a6o, viu dois vendedorðs rindo juntos, e saiu correndo tomada pol uma espécie deiã"i".lij"r
a idéia de quc os dois estavam rindo das roupas dela e que havia senticlo atraçãosexual por um deles.
Emma acha-se dominada atualmente pela compulsäo de nâo poder entlar em lojas so-zinha (FRIiUD t SgS, PP. 364-5)'
de
do
aà
Ørtstitttiçdo
do Objeto emFleurJ
55corre
o
risco cle sermal
compreendido quando, sem atenta¡ parao
contexto da obra,deixa-se de
ver
neleuma
descoberta, indubitavelmente, rnas uma descoberta que é aslntese
de
outrasduæ
descobertas. Uma descoberta na posteridade,típica do
pensa-mento
deFreud,
aponto
de I-aplanchealrmar
que ele sempte descobre aquiJo quejá
tinha
descoberto.Dialética da
construção dateoria quç
reproduz a dialéticado
pró-prio
processo analftico no qual se descobre aquilo que fìnalmentejá
se sabia.Os Zrés ensaios são, porém, atravessados pela tensão dialética entre
o
sentido das descobertas anteriores-
ondeo
relacional é proeminente-
e a biologização do tema-
forma tradicional detratar
a questão da sexualidade. Há vários indícios dessa tensão. Se nas queixæ de sedução erao Édipo
que Freud encontrava semo
reconhecer, naedição
original
dos Zrásenvios
nâ'o há qualquer referência ao complexo nuclear. Ora,numa perspectiva psicanalítica, a sexualidade
infantil
é inconcebível fora do contexto doEdipo.
Poroutro lado,
a obratem
uma vocação polêmica ao colocar em questão o senso comum (e biológico) acerca da sexualidade.A
Trieb não é um instinto.Depois de
ter
descrito, dez anos antes, a experiênciaprototípica
da gênese dodese-jo,
Freud
não estabelece, naquela edição dos Trés ensaios, nenhuma relação explícita entre ela e a gênese da sexualidade humana. Como se"libido"
-
termo sapiente-
não fossea
traduçãolatina
de"desejo",
como se entre alibido
eo
desejo não houvessequalquer relação. Como se esse desejo que nasce entre umamamadae outra carecessc
de
um
statusde cientificidade que
o
tornasse digno de ingressar nos manuais de se-xologia. Poroutro lado,
a análise da sexualidadeinfantil
permite vislumbrar,subjacen-te às suas caracterlsticas, o ressurgimento do sentido das descobertas iniciais.
'Depois
de,no primeiro
dos Tiês ensøios,ter
desmentidoa concepçâ'o popular
-
etambém biologizante
-
da sexualidade,pelo
estudo das perversões, Freud vai,no
se-gundo, cuaclerizar
a sexualidadeinfantil
para mostrar como, impulso por excelência,ela se afasta da regularidade de uma sexualidade
instintiva.
"A
sexualidadeinfantil
sedesenvolve apoiando-se sobre uma função fisiológica cssencial à victa
.
.
.,
nãoconhe-cendo ainda
objeto
sexual.
E
auto-erótrcøe
seuobjetivo
é
determinadopela
ativi-dade de vma zonu er(tgerw"
(FIìEúD
1905, p. 7 6).O
exemplo arquetípico éo
da oralidade:o
chupar(o
seio) escora-se sobre a sucção(do leite),
isto é, o impulso (sexual) apóia-se sobre a função(vital).
Paralelamente ao a-paziguamento da fome ap¿ìreceo
gozo pela excitação dos lábios e da língua aocontac-to
do mamilo e dofluxo
de leite quente.É fácil ver em que circunstâncias a criança expetimentou, pela primeira vcz, este prazer que busca agora tenovat. Foi a sua primeira e mais vital atividade (o ato de sugar o seio da mâe ou substitutos delc) que devc tê{a familia¡izado com este prazer. os lábios da criança, a
nosso ver, comportam-se como uma zona erógena, e sem dúvida o estfmulo do ¡norno fluxo de leite é a causa da scnsação de prazer. No inlcio, a satisfaçâo d.a zona erógena
foi
estrei-tamcnto ligada ao apaziguamento da fome.A
atividade sexual apoiou-se, no infcio, sobreuma função, servindo para conservar a vida da qual só se tornou independente mais tarde
.
. Mas, em breve, a necessidade de repetir a satisfaçaìo sexual separar-se-á da necessidade de nutriçâo (FREUD 1905, p. 74).Chega-se assim à segunda característica da sexualidade
infantil,
estreitamente ligadaao apoio:
auto-erotismo.Freud
o
definirá
pela ausência deobjeto: "atividade
sexualT
56
Luls Martinho
Ferreira Maia.
.
.
que não
é
dirigida
paraoutra
pessoa"(FREtlD
1905,p.
74).
Isso levará a duas posiçOes aparentementeinconciliáveis:
por
um lado, com
Freud,
vai
afirmar-se aêxisiência de
um
estadoinicial
absolutamente"sem objeto";
etn reaçâ.o a isso, outros, comoBalint,
vão defender a existência de um"amor
primrário deobjeto".
"Doravante,toda
a discussão psicanalítica concernente aoobjeto
se encontra fechada nestaalterna-tiva:
ou
ausênciatotal
do objeto noindivíduo
humano, ou presença, desde oinício,
deum objeto sexual"
(LAPLANCHE
1970,p'
35).uma
afirmaçãodo
próprio Freud,
relativa à "descobertado
objeto",
permite
sair desta "falsa aporia":Constata-se assim que,
no
tempo do"apoio"
-
"satisfação sexual ligada à absorçâoextefno; por outro
lado, o auto-erotismoente à perda do objeto. Isso é comentado
h4 deúe o
inlcío, um obieto;
ttws, Porintcio, um obieto
rul'
(LAPLANCFIE(FRELID
1905,p.
17).Dez
uno,
unf.t
de
ter
descrito (nos Três ensaios) de quemodo
o
impulso sexual,apoiando-se sobre
a
função
vital,
enxelEala isso compärticular
lucidez ao descrever a8ê
lucidez, posto que oõssencial
do
auto-erotismo devese
dado objeto
conse-cutiva
à
"experiência
de
satisfação"e
sua alucinação,isto é,
suainteriorização
no fantasma.o objeto perdido
i'iÏ:ii:xi'"iffI:
reencont¡o
como
objeto
que se busca, a saber,o
seio.Evidentemen,:iitrtåiJi":;
tigüidade
flsica
entre
o leite
e
o
seio, razâo de ser da derivação deum
aooutlo,
setransformou numa
diferençade
naturezas que ìmpedeque
o
derivado retorne à suaorigem. Entrementes,
o
fantasmático estabeleceu-se comtudo
o que de excessivo oca-rzcteriza, e o demoníaco fez sua aparição.
Mas
o
auto-erotismo não está apenas relacionado ao apoio. Qual a relação entre oauto+¡otismo
e a
terceira
característicada
sexualidadeinfantil,
a
zona
erógena?
7-Ønstituiçdo
do Objeto emFreutl
51Balint
comenta,com
certaironia,
que, depois que Abraham,espírito
sistemático,disclpulo fìel,
sistematizouos
estágiosda
evolução psicossexual, nemFreud,
nemFerenczi
-
o
maisoriginal dos
discfpulos-
nem ninguém mais se atreveu acriticar
umatal
sistematização. Como se a psicanálise, cansadado
caosdo
processo primário,tivesse
enfim
descobertoum
processo que obedece claramente a uma ordenì e a umaregularidade
-
um
processoevolutivo,
dependenteda
maturaçã'odo
sistemaner-voso,
deuma
funcionalidade transparente, masde
uma dialética pobre. Com efeito,frente
às agruras da existência,ou
se evoluiou
se regride,ou
se regrideou
se evolui.E
se alguém se cansade
ir
e
vir,
acaba parando,fìxado
numa posição determinada.Ora,
a
sistemat2açãode
Abraham não é inteiramente arbitrária.Ela
encontra seufundamento
na
biologizaçâ'oda
temática da
sexualidade, cujosindícios
apontamosnos Três ensaios.
O
que há decriticável
emtal
sistematização não é, evidentemente,a explicitação da ordem e da regularidade
do
fenômeno, maso
fato
de que,"recalca-do"
o
contexto
relacional onde ela é descoberta, a sexualidade e, com ela, a relaçãodo objeto,
tendem
a
tornar-se va¡iáveis dependentes unicamenteda
maturaçâ'o dosistema nervoso,
numa
perspectivade
desenvolvimento marcadamente endógena.Como
o
prôprio
Freud
o
viu com
cfareza, desacreditada a hipóteseda
seduçâ'o,"o
fator
de uma predisposição hereditaria parece ganharterreuo" (FREUD
1897 ,p.
192).Ora,
o
outro
é um respondente e, assim, é possível compreender que a zona erógenaé este
"ponto
particularmente exposto ao efeito marginal"(LAPLANCHE
1970,p.
4l)
de onde
'brota' a
sexualidade,orifício no
invólucro corporal, zona de
trocas e doscuidados da mãe. Mais
importante
ainda, "estaszonasþcalizam
os fantasmns poren-fø¡'se
antesde tudo
os fantasmas moterrwis,de sorte
que poder-se-iadizer
. .
.
que elas são pontos pelos quais seinfioduz
naciança
este corpo estrangeirointerrn
que ë ..
. a excitaçto sexuø|"(LAPLANCID ß70,
p.
43).Essa perspectiva
permite
recuperar,em
seusentido estrutural,
a
primeira
teoriada
gêneseda
sexualidade: ateoria
da sedução. Sabe-se que, apesar de aparentemente desacreditada(cf. FREUD
1897),
a realidade da sedução nuncadeixou
de ser perse-guida por Freud que,já
na edição original doslrés
ensuios, afirmava quea relação de uma criança com quem quer que seja responvívcl pclo scu cuidado proporcio-na-lhc uma fonte infindável de excitaçâo sexual e de satisfaçâo de suas zonas erógenas. Isto é especialmentc verdadeiro, já que a pessoa (lue cuida dcla, que, aiinal dc contas, em geral é sua mãe, olha-a ela mesma com sentimentos que se originarn de sua própria vida sexual: ela a acaricia, bcija-a, embala-a e muito cla¡amente a trata como um substitutivo de um objeto sexual completo. . . Ela está apenas cumprindo o seu dever de ensinar o filho a amar (FREUD 1905.pp. 1334).
Em
1909,
emO
pequeno Hans,Freud
desculpa a esposa acusada pelomarido
deter
seduzidoo
filho: "ela tinha um
papel
a
desempenhar,prescrito pelo destino,
esua posição era
difícil"
(FRELJD 1909,p.
110).Nas.ðy'ov¿s conferências confirma-se
a
caracterìzação da sedução materna não maiscomo uma
contingênciamas
como um fato
necessiá¡io:"o
sedutoré
regularmentea
mle. Aqui, a
fantasiatoca
o
chãoda
realidade,pois
foi
realmentea
mãe quem,por
suas atividades concernentes à higiene c.oporalda
criança, inevitavelmenteesti
\--I
58
Luts Mdrtinlzo Ferreira Maiamulou
e,
talvez,
até mesnro despertou, pelaprimeira
vez, sensações prazerosas nosgenitais"
(FREUD
1933,p.
149).4
CONSTITUIçÃO
DO SUJEITO: O NARCISISMOA
tensãodialética
entre
o
¡elacional
e
o
biologizante dos Tlês
ensaios, atravessa,na
verdade,toda
a
obra de
Freud.
Procurar-se-á situá-laem
relaçãoà
problemáti-ca
do
narcisismo,não só
porque
há
relações estreitasentre
narcisismoe
auto-ero-tismo,
mas também Porque, levantadaa
questãodo
objeto,
é inevitável que aques-tão
do
sujeito, que
lhe
é
correlata, seimponha.
Além
disso, pretende-se mostrarque
o
sujeito
advéma
si
mesmocomo objeto,
o
que,
ern grandeparte,
determina as formas subseqüentes de escolha de objeto.4.1
Do
impulso de auto-conservaçdovervs
impußo sexual a libido do egoverils
libidocie, soms
e gerrnen, para dar fundamentobiológico
ao conJlito psíquicoentle
o
ego defensivo e os impulsos sexuais.O
ego, na expressão "impulsOS deauto
conservação oudo ego",
tende assim a seridentificado
comoindivíduo
biológico. Que a auto-conservaçÍio possa ser identificadaà
conservaçãodo
ego, pareceuma tautologia. Por
outro
lado,
a
naturcza sexual dooutro
elemento doconflito
é incontestável.Constata-se assim
que a
buscado
fundamentobiológico implicou
no
estabeleci mento de duæ identidades problemáticas: ego aindivíduo,
sexual a reprodução.nfvel psicológico
(da cllnica) ego
,ro:,J'o,uio,,o
I
conservaçãodo
indivíduo
sexual I sexual:
r'eproduçâ'oI
conservaçâo da espécienfvel
(da biológico teoria)Ora, uma
das tesesdos
Três ensøiosé
que
a
sexualidadenão pode sel
simples-mente identificada
com a
reprodução.O
adventoda
genitalidadeé tardio e
tardiaportanto
é
a
serviçoda
conservaça-o da espécie.Por
ou-iro
lado,
na
rarosmomentos a
conservaçãodo
indiví-duo
conflita
ie.
No
maisda
vezes,a
primeira harmoni
za-see
compactuacom a
segunda.No
entanto,o fato
de que haja inequívocas rela-çõesde
derivaçãoentre,
por um
lado,
a
sexualidadeinfantil
e a sexualidade adulta,(httstituiçño
do Obieto entFreutl
59 e,por outro,
o
indivíduo biológico
eo
ego, pareceter
dado certa consistência à clas-sificação.Mas
em
1914, com Parsintroduzir
o
nurcisismo, aconfecetoda
uma novaelabo-ração teórica. Agora
"é
necessárioadmitir
que
nã'oexiste
desdeo
início, no
indi-vlduo,
uma unidade comparável ao ego". Esteúltilno
exige, para seconstituir,
"umanova
açã'opsíquica"
(FREUD
1914,p.
84). Nos
impulsos, passa-se adistingüir
ali-bido do
ego dalibido
do objeto, o queintroduz
uma ambigüidade que pareceextrema-mente significativa neste momento da obra.
Apoiando-se sobre
o
fato
de
que Freud não negará jamais a distinção entre auto-conservação e sexual, poder-se-á, comoo
fazemLaplanche e Pontalis(1967,
p.227),
articular
a
novadistinção como uma
sub-divisão dos impulsos sexuais em função deseu
objeto de
investimento. Mas, como
esses autores mesmoso
fazemnotar,
uma expressãocomo
"a
libido é
enviadaa partir
do
ego, aosobjetos"
não faz, pensar no ego como uma fonte?O próprio
Freud,em
1920,afirma
que"a
oposição entre inrpulsos sexuais eirnpul-sos
do
ego transformou-seem
impulsosdo
ego e impulsos orientados parao
objeto,uns
e
outros
de naturezalibidinosa"
(FREUD
1920,p.
77).
Em
1923 ele interpretaeste momento como
uma
aproximação
aparentecom
a
posiçãomonista
de
Jung sobre os impulsos(cf. FREUD
1923,p.3lO).
O
investimentolibidinal do
ego embaralhou as cartas.O
egonão
pode mais sersimplesmente
identificado
à
causada
auto-conservação. Tampoucoé
o
sujeito
dosimpulsos
auto+róticos, posto que
"não
existe desdeo início".
Este sujeito será, na evolução da teoria,id,
em relação a um ego que não se reconlÌecerá nele.Mas então, este narcisismo
primário
queem
1914 fundamentao
ego, serásimples-mente identificado ao
auto-erotismo,
tendo como protótipo a vida
intra-uterina. Novamenteaqui
se assiste ao ressurgimento de um estado sem objeto hipoteticamenteprimitivo. A
um impulso sem objeto vai corresponder um narcisismo sem sujeito.4.2A
questño do reconhecimento du realidodeA
idéia
cleum
narcisismoprimário normal
foi
imposta pelatentativa
de submetera
concepçãoda
esquizofreniaà
hipóteseda
teoria
da
libido.
Duas características oreclamam: a megalomania e
o
desinvestimento da realidade(cf. FREUD
1914,p.82).
Analisaremos alguns
textos que tratam da
questão da realidade apartir
da tentativade
identificar a
Íazãode
ser deste deslizamentoconceitual,
quevai
determinar queo
que era,
em
1974,
o
narcisismoprimário,
se transforme
subseqüentemente emnarcisisnlo secundiá¡io,
isto
é, queo
narcisismoprimário
passe a seridentificado
a umprimitivo
estado sem objeto.Em
191 1,
nas Formtilações sobre os doisprinclpios
do fundamento mental, aques-tão é assinr apresentada:
Retorno a linhas de pcnsamento já desenvolvidas noutrâ paÍe (A interpretaçlo dos xtnhos) quando srtgiro que o cstado de repouso psfquico
foi
originalmente perturbado pelas exi-gências percmptórias das necessidades interrt.rs. Quando isto aco¡rtcceu, tudo o que havia sido pensado (dcsejado)fbi
simplesmente apresentado de maneira alucinatória,tal
como ainda hojc acontcce com nossos pensamentos onfricos a cada noite. Foi apenas a ausênciaF
6O
LutsMsrtinho
Ferreira Maíada
satisfaçâo esperada, i.e.,o
desapontamento experimentado, que levou ao abandono desta tentativa de satisfação por meio da alucinaçâo. Em vez disso,o
aparelho psfquico teve de decidír formar uma concepçâo das circunstâncias reais do mundo externo eem-penhar*e por efetuar nelas uma alteraçâo real (FREUD
l9ll,
pp. 278-9).Da
descriçãodo
estado de desamparoque
precede e condiciona a experiência de satisfação,Freud
pæsa diretamenteà
alucinaçãoprimitiva,
sem queuma
referênciaseja
feita à
experiênciada
satisfaçã'o: descrevea
realizaçãode
desejo sem referên-cia ao momento da constituição do desejo.Duas notas
de pé de
páginapermitem
compreendero
sentido
do
deslizamentoconceitual
de
que
sefalou.
A
primeira
comentaa
analogiacom
avida onírica:
"o
estado de
sonoé
capazde
restabelecera
semelhança davida mental,
tal
como
eraantes
do
reconhecimentoda
realidade, porqueum
dos pré-requisitosdo
sono é umarejeição deliberada da realidade (o desejo de
dormir)"
(FREUD
l9ll,
p.278).
A
experiência de satisfaçãofoi
construída para explicaro
sonho. Este, aparecendono
contexto
do
sono, passa aformar
com eleum conjunto
que seconstitui
emmo'
delo
da vida
psíquicaprimitiva,
do
narcisismoprimário
caracleizado
pela ausênciade
objeto.
Maso
problema é queo
sono,por
si só, não basta pæa explicaro
sonho;ele é,
antes,uma
condição necessária.Um
organismoque
nunca tivesse conhecidoo acordar e a vigflia nâ'o poderia tampouco sonhar.
Freud
dá-seconta
das objeções que a sua formulação suscita e esclarece suaposi-ção
na
segundanota.
Mesmo reconhecendo queum
organismo que funcionassecon-forme
este modelo nãoteria
nenhuma possibilidade de sobreviver,justifica
o emprego detal "ficção":
"o
bebê-
desde que se incluao
cuidado que recebe da mãe-
quasercalua um sistema psfquico deste
tipo"
(FREUD
l9ll,
p.279).
A
nota
prosseguecom
uma
radicalizaçãodo
modelo:
o
embriãoda
aveem
seuovo,
isolado
de toda
estimulação externae
satisfazendo-se autisticamente,na
con-dição
de recebero
calor
da mÍie. Osdois
modelosnão
cumprem suafinalidade
derepresentar uma plena suficiência autística, a não ser pela colocaçõo entre parênteses dos cuidados maternos.
Mas
há
aqui
um
outro
aspecto subjacente que merece explicitação.O
sono podeser
efetivamente encaradocomo
um bom
modelo
davida
psíquicaem
seuscome-ços.
O
recém-nascido dorme amaior
partedo tempo
eo
estado psíquicodo
feto
noventre materno é
maispróximo do
sonodo
que
de qualqueroutro
estado psíquicoprimitivo.
Mas por quequalificu
umtal
estado de narcísico?O
sono é nitidamente uma
funçã'ode
auto-conservaçâ'oque os
impulsos sexuaisvêm perturbar.
O
sonho
é, por
isso,uma
formaçãode
compromisso. Queo
sono seja egofsta,como de
resto todos os impulsos de auto-conservação, parece indiscutí-vel. Que possa ser erotizado-
tal
qual as outras funções de auto-conservação-
comoaquele
lugar em que
se sonha,não há dúvida.
Maspor
que atribuir-lhe
a dimensãolibidinal do
narcisismo?Por
que
considerá-louma
"regressÍio temporaldo
desenvol-vimento da
libido",
como
é
o
casono
Complemento metapsicológicoà
teoria
donnln?
Este
texto de
l9l7
vai retomar
a problemáticada
alucinaçío de
desejo edo
es-tado
de
desamparonuma
perspectivaem que
se acentuao
deslizamento conceitualde que
sefalou.
Aqui,
a
o
precedeo
estadode
desarnparo. Emvez-de ser este
que
cond
é a alucinação que determinao
desanr-paro.
Que
a
alucìnaçãoß
ê
óbvio.
Difícil é
conceberuma
aluci-nação antes de qualquer experiência com o objeto.Øttstituiçlo
do
Objeto entFreud
6l
Como
nas Formulações sobre os doisprinctpios,
a alucinaçãoprimitiva
éapresen-tada aqui não
enquanto resultante
de uma primeira
relnçãocom uûl
objeto,
masenquanto
motor
de uma adaptaçãoposterior
à realidade.A
distinção entreinterior
cexterior,
i.e., a
provada
eficácia muscular, transforma-se ernteste
da realidade, em relação com a alucinaçâo de desejo.Num contexto anterior (Impulsts e destinos clos impultos) atribu ímos ao organismo ainda em estado de desamparo a capacidade de efetuar uma primoira oriontaça--o no mundo por meio dc suas percepções, distinguindo
"fora"
e "dentro" de acordo cont a relação entreessas percepções e uma ação muscular. Uma perccpção que desaparecc por mcio tlc uma ação
é
reconhecida como externa, como realidade; nos casos cm quc tal ação não tenì influência, a pcrcepção vcnr clo interior do corpo, não é real (llRIlUDl9ll
' p. 142)'
Ora
emImpulxts
edestirns
não se afi¡ma que"nos
casos em quetal
açâo não telninfluência,
a percepção vem dointerior do
corpo,nÍo
éreal'.
O
que se afirma é quepor um lado, scntirá estílnulos aos quais poderá subtrair-se por utna açño muscular (fuga):
èsscs estímulos são atribuldos ao mundo exterior; nìas, por outro lado, sentirá também estímulos contra os
quais
qualquer valia e que conscrviìm, apesar deStaação, scu caráter de
impuls
cstfmulos são o signo distintivo de um mundo interior, a prova dasneces
sos.A
substância perocptiva do ser vivo terá assim adquirido, naeficáci
nruscular, um ponto dc apoio para distinguir unr "dc fora" e unr "de dentro" (FREUD 191 5, pp. l4-5).O
que Freucl descreve aqui é a distinção entreinterior
eexterior,
fundada sobre aprova
da
eficácia
muscular,o
"bom critério objetivo"
que
caracterizao
funciona-mento
clo "ego-realidadeoriginal"
(FRELID
1915,p.38). O
que vemdo
interior
docofpo ë
real
enqùal1to sensação correlatada
excitaçãodo
impulso. Não
setrata
de alucinação mas de sensação.Ent
A
interpretaçõotlos
sonhos a descrição da experiência de satisfação é precedida pela calacterização desse n.¡esmo estado de desamparo postuladocomo
çondição paraãistlngui, um
fora e um dentro. Uma confirmação dessa identidade é dada pelofato
deil
62
LuisMartinho
Feneira Muiaque, nos dois contextos, a descrição
do
estado de desamparo segue-se à diferenciaçãoentre
estlmulos externos e estímulosinternos
-
os impulsos. Trata-se, nos dois casos,de dar conta do
aumentode complexidade
que sobrevémnum
organismofuncio-nando
segundoum
modelo reflexo, quando
aparecem"as
grandes necessidades docorpo".
A
experiência de satisfação marca o momento da gênese do objeto.Correlativamen-te,
aparece a distinção entre ego e não-ego. Mas, ao contrário do que era de se esperar, esta distinção não se fundamenta sobre a descoberta dooutro,
mas sobre o teste daefi
cácia muscular diante da tensão.Duas vias são assim abertas ao conhecimento, desde
o início.
Urna,sensório-moto-ra, fundamentada sobre
um "bom
critério
objetivo";
outra,
a via do imaginário, nega,pela alucinaçã'o, a ação específica do
outro;
nega, pela alucinação daaçlo
específica dooutro,
a impossibilidade da própria ação específica.A
evolução daprimeira
via é bem conhecida.Objeto
das teo¡ias cognitivas dede-senvolvimento, ela é marcada pelo empirismo, que fundamenta a passagem
"do
ato aopensamento".
Na
medida em que crescem e se especificam as possibilidades de ação, cresceme
se especificam as possibilidadesde
conhecimento.A
ação acabarápor
seinterioriza¡
sob aforma
de pensamento,um
pensamento que fez, passo a passo,o
co-nhecimento
do
real. Há nestavia,
desdeo
início,
um
compromisso como
princípio
de
realidade. Osdois
sentidosde "princípio"
-
começo elei
-
confundem-se nestemomento.
Princípio
de prazer eprincípio
de realidade não podem ser compreendidosnuma
"sucessão real, na ordemvital".
Sótêm
sentido"ao
nível
deum
aparelhopsí-quico
onde Freud, desdeo infcio,
reconheceu a existência de dois tipos de processos,de dois princípios de
funcionamcnto
mental" (LAPLANCHE e
PONTALIS
1967,p.32e).
Não
é
portanto
estavia,
comprometidacom a
realidade objetiva, que éo
objeto privilegiado da psicanálise, mas essaoutra,
do imaginiário e do desejo.Aqui,
umpensa-mento
aparece sem que seja necessária uma"dura
experiênciavital".
Uma tal via nãopode manter-se a não ser que haja satisfação. Sendo a criança
impotente
paraatingí-la
por
seus próprios meios, éo outro
queo
faz.Na
sugestiva descrição deWinnicott,
"desenvolve-seno
bebêum
fenômeno subjetivo,
fenômenoque
denominamos seio da mãe.A
mãe colocao
seio realno
momento preciso e justamente lá onde a criança está prestes a ci,â.-lo"(WINNICOTT
1971,p.2l).
Se
o
desamparopermite
tomar
contacto
com a realidade da impotênciafrente
àsnecessidades
do
corpo, este mesmo desamparo, expresso através dosgritos, permite
a experiência de satisfação. Ora, a experiência de satisfação vai negar a duralei
darea-lidade
do
desamparo, que é uma lei da nøtureza. Para a criança, a experiência deapa-ziguamento é percebida como que criada pela sua própria necessidade, o que subverte a regularidade das relações entre a origem da excitação e a eficácia da atividade
muscu-lar,
que
a
criança,correta
e
implicitamente, tinha
apreendido comolei
da natureza.E
uma
novalei
que
surge, resultadodo
encontro de
duas ordens de determinantes:por um lado,
a
existência de uma alucinaçãoprimitiva
possibilitadapor
umamemó-ria
de evocação;por
outro
lado,
a presença e a solicitudedo outro.
É
nâ'o sóaleido
desejo , mas também a lei do outro.O
queFreud
descreve no Suplemento metapsicolôgico éo
testedc
realidade, quemais tarde
vai
determinaro
abandono da realizaçlo alucinatória de desejo."^Se tttdo seC-ortstitttiçio
do
Objcto ernþleutl
ó3 passø bem, a criança pode efetivamente beneficiar-se da experiência de frustração,por-que uma adaptação incornpleta à necessidade
torna
reais os objetos,tanto
os odiadoscomo os amados
(WINNICOT
1971, p.2l).
Mas, com
o
'recalcamento',na teoria, da
experiênciade
satisfação,a
alucinaçâ'o de desejo converte-seno
momentoprirneiro. O
desamparo que permitia destinguiren-tre fora
edentro,
e que condicionava a gênese do objeto, vai transfonnar-se no desam-paro que a alucinaçãoprimitiva
é impotente para resolver.A
passagern do ego-realidadeoriginal
ao ego-prazer, da qual a experiência de satisfaçãoconstitui
o
modelo, vai ser transposta para a passagem do ego-prazet ao ego-realidadedefinitivo.
Não
se nega queo
teste da eficácia muscular possa servir de modelo ao teste darea-lidade. Mas
um
teste da realidade supõe umaoutra
realidade quejustifique
o teste. Oteste
nâo faz
surgir a
realidade:permite
discriminá-lade uma outra.
Mas se se fazcoíncidir
a gênesedo objeto
como
teste da sua realidade, entâo só resta postular umprimitivo
estado sem objeto.4.3
Gênese do sujeito enquqnto objeto de desejoSe esta
linha
de
pensamentoé
prevalentena obra e
marca claramenteo
último
Freud,
é possível encontrar uma outra, maispróxima
da experiência olínica e mais fìelà
intuição inicial
da descoberta.É o
que se constata apartir
da análise de Para intro-duziro
nørcisismo.Descobrimos essa outra linha de pensamento com particular evidôncia entre
.
. perversosc homosexuais, que n¿fo escolhem seu objeto de amor ulterior sobrc o modclo da mâe, mas
sob¡e o de sua própria pessoa. Com cla¡a evidência, buscam-se a si mesmos conro objeto dc amor, aprescntando o tipo de escolha de objeto que se pode denomina¡ norcisista, É nesta
observação quc ó preciso rcconhecer
o
mais poderoso motivo que nos leva à hipótese do narcisismo (FREUD 1914, p. 93).O
que levao
auto¡
à conclusão de que"o
ser humano tem dois objetos originários de amor: elepróprio
e amulher
que cuidadele".
Contudo, pode ser estabelecida umadiferença em
função
dos sexos: a escolhado objeto
por
apoioé típica
tlo
homem; anarcísea, a mais pura e mais autêntica,
é típica
damulher. "Taismulheresnão
amatn,cstritamente falando, senão a elas mesmas, tão intensanrente quanto o homem as ama.
Sua
necessiiladenão as
faz
tender
a
amar, mas
a
serem amadas"(FREUb
1914,p.94).
Há, porém, uma via que as leva ao pleno amor a um
objeto. "Na
criança que geram, é uma parte de seupróprio corpo
que se thes apresenta como umobjeto
estranho, aoqual
podem agora,partindo do
narcisismo, dedicaro
pleno
amor deobjeto
(FRELID1914,p.95)".
Chega-se afinal à constatação de que
o narcisismo primário da criança é menos fácil de apreender pela observação direta do que de confi¡nlar por um racioclnio recorrente a pa¡tir de um outro ponto. Se se considera a
atitude de pais afetuosos para com os filhos, temos de reconhecer aí, a revivescência e a
64
Luís Marttnho Ferreira MaiaSe
o raciocínio
é recorrente, há que estender a todos os elementos da série o que éerotismo.
4.4 Narcisismo e auto-erctismo
dessa falta?
erar aqui a distinçâo entre funcionamento auto-erótico e
fun-hoietò,
quando analisa o "pensamento cognitivo ereprodu-tivo',,
Freud
o
situa
o do que de umadescober-ta do
novo.
Trata-se
ação entreo
registro mnê'mico do objeto
dod
est€s legistros sãocomple-xos:
podem ser
divi
e
semantém
constante, e"atributo",
a parte variável'o
autor
propõe então o exemplo deumobjeto
semelhante ao zujeito, o"complexo
doãuto"
o quät,pol
sua vez, divide-se em "duas pattes, uma dando uma impressÍio de7
ConstituiçEo do Objeto ent
FYeud
65estrutura permanente e permanecendo
um
todo
coerente, enquanto que a outra pode ser compreendida graças a uma atividade mnemônica, quer dizer, atribuída a urna¡rún-cio que o
próprio
corpo do sujeito lhe faz chegar"(FREUD
1895, p. 348).O
processo de reconhecimento visa ao estabelecimento de uma relação deidentida-de entre o apetitivo e o perceptivo e implica umiulgamento.
"A
representaçã'ode
coisaé
definida
pelafilosofia
comoo
conjunto
dasproprie-dades
e
dosatributos"
(PEISSER
1975,p.
29).O termo "propriedade"
sugere umaqualidade
da
coisaque
é
independentedo
sujeito,um
registro maisobjetivo,
A
pro-priedadepertence à
coisa.O termo
"atributo"
sugere uma qualidade da coisadeter-minada pela relação do sujeito a ela. Uma qualidade
qtribulda
à coisa: um registro maissubjetivo.
A
coisa é a abstração, nointerior
do complexo representativo, de uma coisa sematributos,
a coisa-em-si.O atributo, índice
de minha relação à coisa, transforma-a em coisa-para-mim.No
funcionamento auto-erótico, que corresponde à descrição que Freud faz. do fun-cionamentodo
ego-prazer, a coisa não pode serdefinida
pelo conjunto dos at¡ibutos, porque a coisa do desejo comporta um únicotipo
deatributo. A
mãe não pode existir porque, enquantoobjeto unitário,
ela seria boa e mâ.A
coisa é, neste momento, o que MelanieKlein
denominou"objeto parcial",
definida pela singularidade do atributo.Isto
corresponde ao que,trinta
anos depois,Freud
vaí denominarum'Julgamento
de atribuição":
"Gostaria
de
comer
isso"
ou
"gostatia de cuspí-lo
fora"
(FREUD
1925,p.297).
Nestetempo,
"a
mera existência de urna representação constitur? umagarantia
da
realidadedaquilo que
era representado.A
antítese entreobjetivo
esub-jetivo
não existe desde oinício"
(FREUD
1925,p.298).
Ora,
se essa antltese não existeno
plano cognitivo é porque tampouco ela se verifi-cano
plano
da experiência. Essaloucura inicial
é sempre umaloucura
a dois.O
quetüinnicott
registra com rÍìra felicidade:Para o obseryador, a criança percebe o que a mãe lhc aprcsenta efetivamente, mas isso não
é toda a verdade. A criança percebe o seio enquanto um seio pode scr criado aqui e agora.
Nâo há troca entrc a nrat e a criança. Psicologicamente, a criança toma um seio que é parte dela mesnra c a mãe dá leite a uma criança que é parte dela mesma. IÌm psicologia, a idéia de uma troca rccíproca baseia-se numa iluúo do psicólogo (WINNICOT l9'11, p. 22).
Constata-se assim que, no
julgamento
deatribuição,
a coisa confunde-se com ores-pectivo at¡ibuto.
Ora, se oatributo
é exatamente o índice da relação do sujeito à coisa,a coisa só existe para
o
sujeito e pelo sujeito. Opróprio
sujeito não é independente da coisa que deseja.É
como se as categorias de sujeito e deobjeto
se anulassem nointe-rior
de uma única categoria, a de relaçâ'o.Para o
juþamento
de atribuição, a existência é uma dimensãoimplícita.
Como nâ'oexiste distinção entre
representaçãoe
percepçâ'o,como não existe
distância entre osujeito
que percebe eo
objeto
percebido,tudo
o
que évivido,
existe ,independente-mente de sua natureza e lugar. Do mesmo modo, não há a idéia de que algo possa
exis-tir
fora
doslimites
perceptivos e imagináriosdo sujeito.
As categoriasdo
inexistente, do irreal, do ausente, não têm sentido.Nessa época o objeto não existe antes que o construam. Numa concepção empirista,
os
objetos
estãolá,
antesde
todo
o
conhecimento,e
o
conhecimentoos
descobre!--66
LutsMartinho
Ferreira Maiacomo
um
facho queilumina
as trevasdo
desconhecido.No
funcionamentoauto'eró-tico, no
ego-prazer,o
facho(do
desejo) cria os objetos'Ao
mesmo tempo, é o próprio egoque
se constrói e se reconstrói na construção dos objetos.O objeto
concerne ao ego. Seo
ego éconstituído
de objetospor
oposição a objetos, trata-se de um ego que se confunde com os objetos nointerior
da relação.Em
oposiçâ'oa
este ego-prazerque
cuacleriza
o
funcionam€nto
auto-erótico, o ego-realidadedefinitivo
éo
ego da palavra.Dizer
em palavras uma coisapermite
queeia se
torne
constnnte, que e1a se torne independente dos atributos que sâ'o a marca da relação do sujeito à coisa. É esta constância que vaipermitir
que a coisa tenha uma plu-ralidade de atributos.A
coisa do desejo, objeto parcial, é a coisa de umatributo
singu-lar. Agora trata-se do registro dos objetos totais.
Os
objetos totais
são tambémobjetos
perdidosna medida em
que se liberam daonipotência
do
desejo,o
que é correlato da liberaçãodo
sujeito, da dependência aosobjetos. O sujeito, como os objetos, ganhou seu
próprio
nome. As coisas do desejo per-manecem inominadas e inomináveis.Mas entre
o
ego-prazer, pelo qualFreud
caracte¡iza o funcionamento auto-erótico,e
o
ego realidadedefinitivo,
há que seinseri¡
a constituição narcísea do ego, quepef-mite
a emergência do sujeito em sua subjetividade, e , correlativamente, do objeto em sua objetividade, a qual comporta a subjetividade de umaalteridade
desejante.Qual a
diferençaentre
o
e1o-prazere o
egonarcíseo?
O
ego-prazer preencheu o espaçointerior,
de
coisas boas.Constituído
de representações de coisas, confunde-secom elas.
O
ego narcíseo reuniu numaforma, num objeto unitário
etotal,
oatributo
das coisas (boas).Não
se confunde mais com as coisas. Freud sugere aliás que, nestemomento
inicial
as coisas carecem deatributo:
elas estão lá, mas desinvestidas delibi-do.
A
neurosevai
constituir-senum
investimento dessas mesmas coisas, a psicose num retorno maciço ao investimento do ego.O
palavrado outro,
o
desejodo õutro, permitiram
a emergência da forma unitáriado
egõ. Masé
precisonão
esquecerque
o
narcisismoé herdeiro
da onipotência do ego-p:;azer.Em
suaforma
auto-erótica de alucinaçãoprimitiva ou
em suaforma
nar-cireã
de
desinvestimentodo
mundo, a onipotência
nãoé
signo deuma
auto-sufi-ciência biológica qualquer.
Em
sua lógica extrema ela é semPre a negação de uma per-da, e anuncia um trabalho deluto
a começar.s
coNclusÃo
Analisou-se
a
constituição
do
objeto na obra de Freud,
numa dupla
perspectiva:enquanto correlata
do
desejo e, assim, da gênese da sexualidade humana e enquantocortelata
do narcisismo,
posto que, antes de ser sujeito e meslno antes de ser objetopara ele
próprio,
o ego é objeto para ooutro.
A
criança começa a falar de si em terceira pessoa; a mãe começa a falar à criança, pela criança, em primeira pessoa'Identificou-se,
em ambas as problemáticas,uma
tensãodialética entre uma
pers-pectiva relacional
-
maispróxima da clínica
e daintuição inicial
da descoberta-
ehnstitrtiçdo
do Obieto emFreud
67Frente
às formaçõesdo
desejo,Freud
necessita deunr
fundamento, do originário, Uma perspectiva psicológica nãó se fundamenta a si própria.À
falta de otttrosparaclig-mas
que þermitam realuar
essa fundamentação, ele acabapor recorrel
ao biológico,um
biol
co.Na
v
foi
descobertolnuito
cedo por elepróprio,
mas
só
o
o papel nuclear que lhe cabia: trata-seevi-clentemente da estrutura do Édlpo. Como lembra Lacan
(1936),
anoçio
de complexo, maisdo
que
esclarecitla, esclarecea
de
instinto
ao articular a
pré-utaturaçãodo
ser humano à emergência da cultura.E
tarefa da þosteridade deFreud reint¡oduzir o Édipo no
lugar estrutural que lheé
devido
pu.aqu* a
leorizaç-aodo
funcionamento não se aliene nemnunl
endogenis-mo
biologizante e
monádico,nem
nunra relativização sociologizante que pelo socialtudo
explica, mertos opróprio
social.LISTA
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