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CONSTITUIÇÃO DO OBJETO EM FREUD

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(1)

a

CoNSTTTUIçÃO

DO OBJETO EM FREUDT

LUÍS MARTINHo FERRIIIRA MAIA2 Universidade Fedeml da

Pøalbø

r

TNTRODUçÃO

A

problemática da constituição do objeto é um tema que marca a evolução da

psicaná-lise na

posteridade de

Freud. Todos

os

que

se

têm

debruçado sobre a

questão

têm

afìrmado

seguir

o

caminho aberto pelo

mestre.

A

multiplicidade

e a diversidade das

formulações a respeito do assunto sugerem, porém, que ele está longe de poder receber uma interpretação unívoca.

Este trabalho é uma tentativa de equacionar alguns desses aspectos. Limita-se a

fa-zê-lo

no

contexto da ob¡a

fundado¡a. Mesmo assim, não

tem

qualquer pretençâ'o de esgotar um tema de tamanha complexidade.

Duas ordens de fatores condicionam esta busca

do originário.

Uma, metodológica,

segue a orientação prevalente na obra do

próprio

Freud. Desde a época do método

ca-tártico,

a descoberta de

um

trauma reenviava a um trauma anterior, e este a um

outro

mais

antigo,

até se

atingir o

trauma

primeiro,

aquele que

iniciou

a série e preparou o

terreno para todos os subseqüentes.

A

freqüência com que o qualÍficativo

"originário"

aparece ao

longo

da obra é bem um

indício

dessa orientação.

"'Em

psicanálise, gênese e estrutura estão ligadas"

(VERGOTE

1972,

p.25).

O

out¡o

fator é função das exigências da clínica. Não apenas o tratamento

psicanalf-tico

das crianças, mas sobretudo a problemática da psicose, forçaram a ultrapassar as

estruturas ternárias do

Édipo

na

tentativa

de

atingir

as estruturas binárias dasrelações

objetais primitivas.

Este esforço de reconstituição das primeiras relações duais t¡az a marca do

empiris-mo

e do

funcionalismo, tão

característicos

da cultura

anglo-saxônica

onde

foi

pre-dominantemente elabo¡ado. Contra esta orientação prevalente na psicanálise contem-porânea,

o

pensamento de Jacques Lacan veio propugnar

um

"¡etorno

a

Freud"

pela ênfase na questão das estruturas, numa abordagem que se

filia

ao estruturalismo

lin-güfstico de Saussure e ao etnológico de lévi-Strauss.

Da

geração francesa,

i.

e.,

da geração dos primeiros discípulos que recolheram de

I¿can os melhores frutos, Jean Laplanche vem, desde

o

Vocabuløire de lø Psychøralyse

(1961),

empreendendo seu

próprio

retorno ao

texto

freudiano.

Um "tetorno

xtbre

Freud",

posto

que

fazê,-lo

retomar o modo como ele trabalha e como é trabalhado,

para

continuar

tal

trabalho" (LAPLANCHE

1983, p. 5).

Tal

retorno é

feito

a

partir

de

uma

abordagem

que,

se

traz

a

marca

de

suas origens,

não deixou

de

tomar

certa

distância

do

dogmatismo lacaniano. ao mesmo tempo que se mantém atenta à obra de

lAprcsentado

no XVI

Colóquio

de

tìilosofia do CLE,

da

UNICAMP, rcahzado d,e 12 a 14. r 1 .84.

2O autor é membro do Círculo Psicanalítico de Pernambuco.

(2)

F

52

Luts

Martinho Fereira

Maia

uma Mclanie

Klein,

para

citar

apenas

o

exemplo mais expressivo' Não se busca o

"for-rnalismo

do significante"

nem

o

"empirismo

do significado" mas

"

o objeto, evidente-mente o objeto

interno".

Vindo

dä tradição hegeliana da escola de Jean

Hyppolite

-

sua formação básica

-Laplanche propõe-se a träbalhar Freud como Hegel trabalha os fìlósofos na HistÓrio da

Fiiosofia.

Sensivel ao

fato

de que

o

pensamento de

Freud "sob

certos aspectos apre-sc¡ta-se como

um

pensamento-filosófico, evoluindo segundo sua

própria

necessidade,

errquanto que,

por outro lado,

integra como um pensamento

ctlyt!{f99

os novos fatos

traiidos

poi

u--.u*po

de observaçãó particularmente

rico"

(LAPL.A,NCFß 1970, p. 8),

essc

autór

inspira-se

no

método htgõtiuno

pua

fazet aquele

"trabalho do

negativo" que consiste

.*

f'or.,

a obra "rachar, desmantelar-se para teencontrar suas articulações

profundas"

(LAPLANCHE

1983, p. 5).

Assim, numa

abordagem dialéfica,

convicto

de que, numa grande obra,

"contradi-ções

do

pensamento e ãontradições

do objeto

são, em

última

instância, inseparáveis un'ru,

du, outfas",

Laplanche

afiima

a neceisidade de relacionar as mudanças na obra

"ao equilíbrio

estrutural

no

qual os conceitos de inserem"

(LAPLANCFm

1970,

p'

6)

na

tentativa

de .'restituir

à

ìeoria

freudiana

uma

estrutura

parc além das diversas fìguras sucessivas nas quais ela se

traduziu" (LAPLANCHE

1970,

p'

8)'

Este trabalho pretende inscrever-se na I nha da reflexão aberta por Laplanche,

espe-cialmente

no livro de

1970

que, de algum

modo, inicia

as

"Problématiqves":

Vie et

mort

en psychørwlyse.

O

que este possa

ter

de

original

há de ser

o

natural

desenvol-vimento daquele trabalho.

2

CONSTITUIçÃO

DO OBJETO: DESCOBERTA E

IIWENçÃO

O objeto,

na obra

de

Freud, tem

uma gênese empírica: é descoberto

no mundo'

em srra oU¡etivrAade. Porém, só se

torna gbjeto

-

no sentido da

"objetalidade"

-

quando

perdidä

e recriado imaginariamente.

É

neste sentido que se pode

afrmar

que o objeto

é inventado.

Este

movimento

de descoberta, perda e invenção, implica numa temporalidade

mui'

to

peculiar, a saber, a posteridade.

Èm

certo sentido, o

objeto

é

constitufdo

na sua

fal-ta.

Ño

tempo da descoberta, o objeto

é

ob-jeto

é internalizado.

E

na an¿ílise

deste

que

ïm

objeto existiu

entre os dois tempos,

u

cide

com

o

sujeito.

Em

outras palavras,

o outro

é

um

sujeito desejoso e

constitui

a criança como

objeto

do desejo.

por

isso, o objeto inventado é diferente do objeto descoberto. Entre os dois tempos, a experiêrróia de

ter

sido objeto estabelece um ângulo de desvio que não mais permitirá que ìimplesmente se invente

o

que

tinha

sido descoberto.

A

derivação desejante nasce

d^a

impoìsibilidade

de

retornar

ao

ponto

de origem.

A

constituição do objeto é

resuita-do de um processo de derivação.

A

quesiao será assim anaiisada em

torno

de duas grandes problemaáticas: aconsti-tuição

da

sexualidade humana, posto que o objeto, em psicanálise, é

objeto

do sujeito; e

iconstituiçdo do

vieito,

umavez

que, em psicanálise,

o

sujeito advém a si mesmo

(3)

ConstituiçEo

tlo

Obieto ent

þieud

53

como

objeto. O

plano

do

trabalho repete assim a dialética

ilaprópria

coisa: pretende-se que isso seja índice da fidelidade ao sentido da obra.

Reconhece-se que, formulada dessa

fonna

paradoxal, a questão inscreve-se de saída

numa polêmica que atravessa a

História

da Filosofia: rnaterialismo vers¿¿s idealismo ou empirismo versus

formalismo.

Evitam-se

os

escolhos de

uma

tal

navegação

-

para a

qual

há,

neste Colóquio, timoneiros exímios

-

demandando a

rota

mais

tranqüila

do exame da obra.

É, no

Projeto de

1895 que

Freud

descreve pela

primeiravez

a "experiência de

satis-fação",

modelo

prototípico

da

gênese

do

objeto.

E

uma

experiência

muito

receute

aquela

de

24

dejulho de

1895, quando

o

"mistério do

sonho

foi

revelado ao Dr'.

Sigmund

Freud" (FREUD

1900a,

p.

286),

no

momento em que,

no

trem,

Freud

começa a redigir o

Proieto. Ainda

que vazado num molde antigo

-

neurofisiológico

-esse

texto

é a tentativa de

cria¡

a nova psicologia que o sonho exige. O sonho, o recal-que, os processos primários enfim.

Mas

é

na Interpretøção dos sonhos que a descrição da "experiência de satisfaçâo" ganha sua forma

dcfinitiva:

Urna mudança só pode surgir se, de uma manci¡a ou de out¡a (no caso do nenô, através do

auxílio exte¡no), pudcr ser atingida unta "cxperiência de satisfaçâo" que põe fim ao estí-mulo interno. Um componente essencial dessa cxperiência de satisfação é unla perccpçâ'o

particular (a de nutrição, em nosso exemplo) cuja imagem mnemônicn permanece associada, dal por diante, ao traço de memó¡ia da excitaçâo produzicla pela necessidade. Como

resulta-do resulta-do

elo quc é assirn estabclecido, na vez seguinte em que essa necessidade despcrtar, surgirá imediatamente um inrpulso pslquico que procuræá reinvesti¡ a imagem mnemônica da percepção e evocar cle novo a própria percepça-o, isto é, restabelccer a situação da

satis-ção original. Um ilnpulso desta espécie é

o

que chamamos dcsejo; o teapalecimento da percepção éarcalização do descjo (FRIIUD 1900,p.481).

Poder-se-á

objetar

que é

arbitrário

considerar a gênese

do objeto

como correlativa

da gênese

do

desejo.

Entretanto,

tal

correlação é sugerida mais claramente

nohoieto,

a

partir

de uma explícitação das implicações da

"experiência":

O organismo humano, nesscs cstados precoces, é incapaz de provocar esta açâo especlfica que só podc ser realizada com uma ajuda cxtcrior e ¡ro momcnto cm que a atenção de uma pessoa cxpcricnte é at¡alda pelo estado da criança. [ìsta alertou-a, mediante uma descarga

se produzindo pelas vias das mudanças internas þclos gritos da criança, por ex-e¡¡plo). A via dc descarga adquirc assim uma função sccundá¡ia de uma extrema importancia: a da corrtpreensÍo rnútua. O dcsamparo orìginal do ser humano torna-se, assim,a fonrc primeira de totlos os mot¡vos mor¿is (FREUD 1900, p. 336).

Mas é principalmente mostrando que a "experiência de satisfação" ocupa uma posi-ção nuclear na estrutura da teoria que melhor se poderá fundamentar a coextensão das gêneses do desejo e do objeto.

(4)

54

Luís

Martinho

Ferreira

Mait

3 CONSTITUIçÃO

DA

SEXUALIDADE HUMANA:

SEDUÇÃO, DESEJO

E AUTO.

EROTISMO

3.1 G

A

da gênese

feita

num terce

o

da

lo

dado n

ordem cronológica:

Aos oito anos de idade, Emnla foi duas

vezes

sendo que

lo-io

,,a primeira o propri.tátio agarrouJhe

as

Apesa¡ disso'

ioltou'lá

de novo e agora se reõrimina por

c

tivesse queri-do provocar o atentado.

öuando tinha doze anos (rouco depois da puberdadc)

.

. . entrou numa loja para cof,n-praì a6o, viu dois vendedorðs rindo juntos, e saiu correndo tomada pol uma espécie de

iã"i".lij"r

a idéia de quc os dois estavam rindo das roupas dela e que havia senticlo atração

sexual por um deles.

Emma acha-se dominada atualmente pela compulsäo de nâo poder entlar em lojas so-zinha (FRIiUD t SgS, PP. 364-5)'

de

do

(5)

Ørtstitttiçdo

do Objeto em

FleurJ

55

corre

o

risco cle ser

mal

compreendido quando, sem atenta¡ para

o

contexto da obra,

deixa-se de

ver

nele

uma

descoberta, indubitavelmente, rnas uma descoberta que é a

slntese

de

outras

duæ

descobertas. Uma descoberta na posteridade,

típica do

pensa-mento

de

Freud,

a

ponto

de I-aplanche

alrmar

que ele sempte descobre aquiJo que

tinha

descoberto.

Dialética da

construção da

teoria quç

reproduz a dialética

do

pró-prio

processo analftico no qual se descobre aquilo que fìnalmente

se sabia.

Os Zrés ensaios são, porém, atravessados pela tensão dialética entre

o

sentido das descobertas anteriores

-

onde

o

relacional é proeminente

-

e a biologização do tema

-

forma tradicional de

tratar

a questão da sexualidade. Há vários indícios dessa tensão. Se nas queixæ de sedução era

o Édipo

que Freud encontrava sem

o

reconhecer, na

edição

original

dos Zrás

envios

nâ'o há qualquer referência ao complexo nuclear. Ora,

numa perspectiva psicanalítica, a sexualidade

infantil

é inconcebível fora do contexto do

Edipo.

Por

outro lado,

a obra

tem

uma vocação polêmica ao colocar em questão o senso comum (e biológico) acerca da sexualidade.

A

Trieb não é um instinto.

Depois de

ter

descrito, dez anos antes, a experiência

prototípica

da gênese do

dese-jo,

Freud

não estabelece, naquela edição dos Trés ensaios, nenhuma relação explícita entre ela e a gênese da sexualidade humana. Como se

"libido"

-

termo sapiente

-

não fosse

a

tradução

latina

de

"desejo",

como se entre a

libido

e

o

desejo não houvesse

qualquer relação. Como se esse desejo que nasce entre umamamadae outra carecessc

de

um

status

de cientificidade que

o

tornasse digno de ingressar nos manuais de se-xologia. Por

outro lado,

a análise da sexualidade

infantil

permite vislumbrar,

subjacen-te às suas caracterlsticas, o ressurgimento do sentido das descobertas iniciais.

'Depois

de,

no primeiro

dos Tiês ensøios,

ter

desmentido

a concepçâ'o popular

-

e

também biologizante

-

da sexualidade,

pelo

estudo das perversões, Freud vai,

no

se-gundo, cuaclerizar

a sexualidade

infantil

para mostrar como, impulso por excelência,

ela se afasta da regularidade de uma sexualidade

instintiva.

"A

sexualidade

infantil

se

desenvolve apoiando-se sobre uma função fisiológica cssencial à victa

.

.

.,

não

conhe-cendo ainda

objeto

sexual

.

E

auto-erótrcø

e

seu

objetivo

é

determinado

pela

ativi-dade de vma zonu er(tgerw"

(FIìEúD

1905, p. 7 6).

O

exemplo arquetípico é

o

da oralidade:

o

chupar

(o

seio) escora-se sobre a sucção

(do leite),

isto é, o impulso (sexual) apóia-se sobre a função

(vital).

Paralelamente ao a-paziguamento da fome ap¿ìrece

o

gozo pela excitação dos lábios e da língua ao

contac-to

do mamilo e do

fluxo

de leite quente.

É fácil ver em que circunstâncias a criança expetimentou, pela primeira vcz, este prazer que busca agora tenovat. Foi a sua primeira e mais vital atividade (o ato de sugar o seio da mâe ou substitutos delc) que devc tê{a familia¡izado com este prazer. os lábios da criança, a

nosso ver, comportam-se como uma zona erógena, e sem dúvida o estfmulo do ¡norno fluxo de leite é a causa da scnsação de prazer. No inlcio, a satisfaçâo d.a zona erógena

foi

estrei-tamcnto ligada ao apaziguamento da fome.

A

atividade sexual apoiou-se, no infcio, sobre

uma função, servindo para conservar a vida da qual só se tornou independente mais tarde

.

. Mas, em breve, a necessidade de repetir a satisfaçaìo sexual separar-se-á da necessidade de nutriçâo (FREUD 1905, p. 74).

Chega-se assim à segunda característica da sexualidade

infantil,

estreitamente ligada

ao apoio:

auto-erotismo.

Freud

o

definirá

pela ausência de

objeto: "atividade

sexual

(6)

T

56

Luls Martinho

Ferreira Maia

.

.

.

que não

é

dirigida

para

outra

pessoa"

(FREtlD

1905,

p.

74).

Isso levará a duas posiçOes aparentemente

inconciliáveis:

por

um lado, com

Freud,

vai

afirmar-se a

êxisiência de

um

estado

inicial

absolutamente

"sem objeto";

etn reaçâ.o a isso, outros, como

Balint,

vão defender a existência de um

"amor

primrário de

objeto".

"Doravante,

toda

a discussão psicanalítica concernente ao

objeto

se encontra fechada nesta

alterna-tiva:

ou

ausência

total

do objeto no

indivíduo

humano, ou presença, desde o

início,

de

um objeto sexual"

(LAPLANCHE

1970,

p'

35).

uma

afirmação

do

próprio Freud,

relativa à "descoberta

do

objeto",

permite

sair desta "falsa aporia":

Constata-se assim que,

no

tempo do

"apoio"

-

"satisfação sexual ligada à absorçâo

extefno; por outro

lado, o auto-erotismo

ente à perda do objeto. Isso é comentado

h4 deúe o

inlcío, um obieto;

ttws, Por

intcio, um obieto

rul'

(LAPLANCFIE

(FRELID

1905,

p.

17).

Dez

uno,

unf.t

de

ter

descrito (nos Três ensaios) de que

modo

o

impulso sexual,

apoiando-se sobre

a

função

vital,

enxelEala isso com

pärticular

lucidez ao descrever a

lucidez, posto que o

õssencial

do

auto-erotismo deve

se

da

do objeto

conse-cutiva

à

"experiência

de

satisfação"

e

sua alucinação,

isto é,

sua

interiorização

no fantasma.

o objeto perdido

i'iÏ:ii:xi'"iffI:

reencont¡o

com

o

objeto

que se busca, a saber,

o

seio.

Evidentemen,:iitrtåiJi":;

tigüidade

flsica

entre

o leite

e

o

seio, razâo de ser da derivação de

um

ao

outlo,

se

transformou numa

diferença

de

naturezas que ìmpede

que

o

derivado retorne à sua

origem. Entrementes,

o

fantasmático estabeleceu-se com

tudo

o que de excessivo o

ca-rzcteriza, e o demoníaco fez sua aparição.

Mas

o

auto-erotismo não está apenas relacionado ao apoio. Qual a relação entre o

auto+¡otismo

e a

terceira

característica

da

sexualidade

infantil,

a

zona

erógena?

(7)

7-Ønstituiçdo

do Objeto em

Freutl

51

Balint

comenta,

com

certa

ironia,

que, depois que Abraham,

espírito

sistemático,

disclpulo fìel,

sistematizou

os

estágios

da

evolução psicossexual, nem

Freud,

nem

Ferenczi

-

o

mais

original dos

discfpulos

-

nem ninguém mais se atreveu a

criticar

uma

tal

sistematização. Como se a psicanálise, cansada

do

caos

do

processo primário,

tivesse

enfim

descoberto

um

processo que obedece claramente a uma ordenì e a uma

regularidade

-

um

processo

evolutivo,

dependente

da

maturaçã'o

do

sistema

ner-voso,

de

uma

funcionalidade transparente, mas

de

uma dialética pobre. Com efeito,

frente

às agruras da existência,

ou

se evolui

ou

se regride,

ou

se regride

ou

se evolui.

E

se alguém se cansa

de

ir

e

vir,

acaba parando,

fìxado

numa posição determinada.

Ora,

a

sistemat2ação

de

Abraham não é inteiramente arbitrária.

Ela

encontra seu

fundamento

na

biologizaçâ'o

da

temática da

sexualidade, cujos

indícios

apontamos

nos Três ensaios.

O

que há de

criticável

em

tal

sistematização não é, evidentemente,

a explicitação da ordem e da regularidade

do

fenômeno, mas

o

fato

de que,

"recalca-do"

o

contexto

relacional onde ela é descoberta, a sexualidade e, com ela, a relação

do objeto,

tendem

a

tornar-se va¡iáveis dependentes unicamente

da

maturaçâ'o do

sistema nervoso,

numa

perspectiva

de

desenvolvimento marcadamente endógena.

Como

o

prôprio

Freud

o

viu com

cfareza, desacreditada a hipótese

da

seduçâ'o,

"o

fator

de uma predisposição hereditaria parece ganhar

terreuo" (FREUD

1897 ,

p.

192).

Ora,

o

outro

é um respondente e, assim, é possível compreender que a zona erógena

é este

"ponto

particularmente exposto ao efeito marginal"

(LAPLANCHE

1970,

p.

4l)

de onde

'brota' a

sexualidade,

orifício no

invólucro corporal, zona de

trocas e dos

cuidados da mãe. Mais

importante

ainda, "estas

zonasþcalizam

os fantasmns poren-fø¡'s

e

antes

de tudo

os fantasmas moterrwis,

de sorte

que poder-se-ia

dizer

. .

.

que elas são pontos pelos quais se

infioduz

na

ciança

este corpo estrangeiro

interrn

que ë .

.

. a excitaçto sexuø|"

(LAPLANCID ß70,

p.

43).

Essa perspectiva

permite

recuperar,

em

seu

sentido estrutural,

a

primeira

teoria

da

gênese

da

sexualidade: a

teoria

da sedução. Sabe-se que, apesar de aparentemente desacreditada

(cf. FREUD

1897),

a realidade da sedução nunca

deixou

de ser perse-guida por Freud que,

na edição original dos

lrés

ensuios, afirmava que

a relação de uma criança com quem quer que seja responvívcl pclo scu cuidado proporcio-na-lhc uma fonte infindável de excitaçâo sexual e de satisfaçâo de suas zonas erógenas. Isto é especialmentc verdadeiro, já que a pessoa (lue cuida dcla, que, aiinal dc contas, em geral é sua mãe, olha-a ela mesma com sentimentos que se originarn de sua própria vida sexual: ela a acaricia, bcija-a, embala-a e muito cla¡amente a trata como um substitutivo de um objeto sexual completo. . . Ela está apenas cumprindo o seu dever de ensinar o filho a amar (FREUD 1905.pp. 1334).

Em

1909,

em

O

pequeno Hans,

Freud

desculpa a esposa acusada pelo

marido

de

ter

seduzido

o

filho: "ela tinha um

papel

a

desempenhar,

prescrito pelo destino,

e

sua posição era

difícil"

(FRELJD 1909,

p.

110).

Nas.ðy'ov¿s conferências confirma-se

a

caracterìzação da sedução materna não mais

como uma

contingência

mas

como um fato

necessiá¡io:

"o

sedutor

é

regularmente

a

mle. Aqui, a

fantasia

toca

o

chão

da

realidade,

pois

foi

realmente

a

mãe quem,

por

suas atividades concernentes à higiene c.oporal

da

criança, inevitavelmente

esti

(8)

\--I

58

Luts Mdrtinlzo Ferreira Maia

mulou

e,

talvez,

até mesnro despertou, pela

primeira

vez, sensações prazerosas nos

genitais"

(FREUD

1933,

p.

149).

4

CONSTITUIçÃO

DO SUJEITO: O NARCISISMO

A

tensão

dialética

entre

o

¡elacional

e

o

biologizante dos Tlês

ensaios, atravessa,

na

verdade,

toda

a

obra de

Freud.

Procurar-se-á situá-la

em

relação

à

problemáti-ca

do

narcisismo,

não só

porque

relações estreitas

entre

narcisismo

e

auto-ero-tismo,

mas também Porque, levantada

a

questão

do

objeto,

é inevitável que a

ques-tão

do

sujeito, que

lhe

é

correlata, se

imponha.

Além

disso, pretende-se mostrar

que

o

sujeito

advém

a

si

mesmo

como objeto,

o

que,

ern grande

parte,

determina as formas subseqüentes de escolha de objeto.

4.1

Do

impulso de auto-conservaçdo

vervs

impußo sexual a libido do ego

verils

libido

cie, soms

e gerrnen, para dar fundamento

biológico

ao conJlito psíquico

entle

o

ego defensivo e os impulsos sexuais.

O

ego, na expressão "impulsOS de

auto

conservação ou

do ego",

tende assim a ser

identificado

como

indivíduo

biológico. Que a auto-conservaçÍio possa ser identificada

à

conservação

do

ego, parece

uma tautologia. Por

outro

lado,

a

naturcza sexual do

outro

elemento do

conflito

é incontestável.

Constata-se assim

que a

busca

do

fundamento

biológico implicou

no

estabeleci mento de duæ identidades problemáticas: ego a

indivíduo,

sexual a reprodução.

nfvel psicológico

(da cllnica) ego

,ro:,J'o,uio,,o

I

conservação

do

indivíduo

sexual I sexual

:

r'eproduçâ'o

I

conservaçâo da espécie

nfvel

(da biológico teoria)

Ora, uma

das teses

dos

Três ensøios

é

que

a

sexualidade

não pode sel

simples-mente identificada

com a

reprodução.

O

advento

da

genitalidade

é tardio e

tardia

portanto

é

a

serviço

da

conservaça-o da espécie.

Por

ou-iro

lado,

na

raros

momentos a

conservação

do

indiví-duo

conflita

ie.

No

mais

da

vezes,

a

primeira harmoni

za-se

e

compactua

com a

segunda.

No

entanto,

o fato

de que haja inequívocas rela-ções

de

derivação

entre,

por um

lado,

a

sexualidade

infantil

e a sexualidade adulta,

(9)

(httstituiçño

do Obieto ent

Freutl

59 e,

por outro,

o

indivíduo biológico

e

o

ego, parece

ter

dado certa consistência à clas-sificação.

Mas

em

1914, com Pars

introduzir

o

nurcisismo, aconfece

toda

uma nova

elabo-ração teórica. Agora

necessário

admitir

que

nã'o

existe

desde

o

início, no

indi-vlduo,

uma unidade comparável ao ego". Este

últilno

exige, para se

constituir,

"uma

nova

açã'o

psíquica"

(FREUD

1914,

p.

84). Nos

impulsos, passa-se a

distingüir

a

li-bido do

ego da

libido

do objeto, o que

introduz

uma ambigüidade que parece

extrema-mente significativa neste momento da obra.

Apoiando-se sobre

o

fato

de

que Freud não negará jamais a distinção entre auto-conservação e sexual, poder-se-á, como

o

fazemLaplanche e Pontalis

(1967,

p.227),

articular

a

nova

distinção como uma

sub-divisão dos impulsos sexuais em função de

seu

objeto de

investimento. Mas, como

esses autores mesmos

o

fazem

notar,

uma expressão

como

"a

libido é

enviada

a partir

do

ego, aos

objetos"

não faz, pensar no ego como uma fonte?

O próprio

Freud,

em

1920,

afirma

que

"a

oposição entre inrpulsos sexuais e

irnpul-sos

do

ego transformou-se

em

impulsos

do

ego e impulsos orientados para

o

objeto,

uns

e

outros

de natureza

libidinosa"

(FREUD

1920,

p.

77).

Em

1923 ele interpreta

este momento como

uma

aproximação

aparente

com

a

posição

monista

de

Jung sobre os impulsos

(cf. FREUD

1923,

p.3lO).

O

investimento

libidinal do

ego embaralhou as cartas.

O

ego

não

pode mais ser

simplesmente

identificado

à

causa

da

auto-conservação. Tampouco

é

o

sujeito

dos

impulsos

auto+róticos, posto que

"não

existe desde

o início".

Este sujeito será, na evolução da teoria,

id,

em relação a um ego que não se reconlÌecerá nele.

Mas então, este narcisismo

primário

que

em

1914 fundamenta

o

ego, será

simples-mente identificado ao

auto-erotismo,

tendo como protótipo a vida

intra-uterina. Novamente

aqui

se assiste ao ressurgimento de um estado sem objeto hipoteticamente

primitivo. A

um impulso sem objeto vai corresponder um narcisismo sem sujeito.

4.2A

questño do reconhecimento du realidode

A

idéia

cle

um

narcisismo

primário normal

foi

imposta pela

tentativa

de submeter

a

concepção

da

esquizofrenia

à

hipótese

da

teoria

da

libido.

Duas características o

reclamam: a megalomania e

o

desinvestimento da realidade

(cf. FREUD

1914,

p.82).

Analisaremos alguns

textos que tratam da

questão da realidade a

partir

da tentativa

de

identificar a

Íazão

de

ser deste deslizamento

conceitual,

que

vai

determinar que

o

que era,

em

1974,

o

narcisismo

primário,

se transforme

subseqüentemente em

narcisisnlo secundiá¡io,

isto

é, que

o

narcisismo

primário

passe a ser

identificado

a um

primitivo

estado sem objeto.

Em

191 1

,

nas Formtilações sobre os dois

princlpios

do fundamento mental, a

ques-tão é assinr apresentada:

Retorno a linhas de pcnsamento já desenvolvidas noutrâ paÍe (A interpretaçlo dos xtnhos) quando srtgiro que o cstado de repouso psfquico

foi

originalmente perturbado pelas exi-gências percmptórias das necessidades interrt.rs. Quando isto aco¡rtcceu, tudo o que havia sido pensado (dcsejado)

fbi

simplesmente apresentado de maneira alucinatória,

tal

como ainda hojc acontcce com nossos pensamentos onfricos a cada noite. Foi apenas a ausência

(10)

F

6O

Luts

Msrtinho

Ferreira Maía

da

satisfaçâo esperada, i.e.,

o

desapontamento experimentado, que levou ao abandono desta tentativa de satisfação por meio da alucinaçâo. Em vez disso,

o

aparelho psfquico teve de decidír formar uma concepçâo das circunstâncias reais do mundo externo e

em-penhar*e por efetuar nelas uma alteraçâo real (FREUD

l9ll,

pp. 278-9).

Da

descrição

do

estado de desamparo

que

precede e condiciona a experiência de satisfação,

Freud

pæsa diretamente

à

alucinação

primitiva,

sem que

uma

referência

seja

feita à

experiência

da

satisfaçã'o: descreve

a

realização

de

desejo sem referên-cia ao momento da constituição do desejo.

Duas notas

de pé de

página

permitem

compreender

o

sentido

do

deslizamento

conceitual

de

que

se

falou.

A

primeira

comenta

a

analogia

com

a

vida onírica:

"o

estado de

sono

é

capaz

de

restabelecer

a

semelhança da

vida mental,

tal

como

era

antes

do

reconhecimento

da

realidade, porque

um

dos pré-requisitos

do

sono é uma

rejeição deliberada da realidade (o desejo de

dormir)"

(FREUD

l9ll,

p.278).

A

experiência de satisfação

foi

construída para explicar

o

sonho. Este, aparecendo

no

contexto

do

sono, passa a

formar

com ele

um conjunto

que se

constitui

em

mo'

delo

da vida

psíquica

primitiva,

do

narcisismo

primário

caracleizado

pela ausência

de

objeto.

Mas

o

problema é que

o

sono,

por

si só, não basta pæa explicar

o

sonho;

ele é,

antes,

uma

condição necessária.

Um

organismo

que

nunca tivesse conhecido

o acordar e a vigflia nâ'o poderia tampouco sonhar.

Freud

dá-se

conta

das objeções que a sua formulação suscita e esclarece sua

posi-ção

na

segunda

nota.

Mesmo reconhecendo que

um

organismo que funcionasse

con-forme

este modelo não

teria

nenhuma possibilidade de sobreviver,

justifica

o emprego de

tal "ficção":

"o

bebê

-

desde que se inclua

o

cuidado que recebe da mãe

-

quase

rcalua um sistema psfquico deste

tipo"

(FREUD

l9ll,

p.279).

A

nota

prossegue

com

uma

radicalização

do

modelo:

o

embrião

da

ave

em

seu

ovo,

isolado

de toda

estimulação externa

e

satisfazendo-se autisticamente,

na

con-dição

de receber

o

calor

da mÍie. Os

dois

modelos

não

cumprem sua

finalidade

de

representar uma plena suficiência autística, a não ser pela colocaçõo entre parênteses dos cuidados maternos.

Mas

aqui

um

outro

aspecto subjacente que merece explicitação.

O

sono pode

ser

efetivamente encarado

como

um bom

modelo

da

vida

psíquica

em

seus

come-ços.

O

recém-nascido dorme a

maior

parte

do tempo

e

o

estado psíquico

do

feto

no

ventre materno é

mais

próximo do

sono

do

que

de qualquer

outro

estado psíquico

primitivo.

Mas por que

qualificu

um

tal

estado de narcísico?

O

sono é nitidamente uma

funçã'o

de

auto-conservaçâ'o

que os

impulsos sexuais

vêm perturbar.

O

sonho

é, por

isso,

uma

formação

de

compromisso. Que

o

sono seja egofsta,

como de

resto todos os impulsos de auto-conservação, parece indiscutí-vel. Que possa ser erotizado

-

tal

qual as outras funções de auto-conservação

-

como

aquele

lugar em que

se sonha,

não há dúvida.

Mas

por

que atribuir-lhe

a dimensão

libidinal do

narcisismo?

Por

que

considerá-lo

uma

"regressÍio temporal

do

desenvol-vimento da

libido",

como

é

o

caso

no

Complemento metapsicológico

à

teoria

do

nnln?

Este

texto de

l9l7

vai retomar

a problemática

da

alucinaçío de

desejo e

do

es-tado

de

desamparo

numa

perspectiva

em que

se acentua

o

deslizamento conceitual

(11)

de que

se

falou.

Aqui,

a

o

precede

o

estado

de

desarnparo. Em

vez-de ser este

que

cond

é a alucinação que determina

o

desanr-paro.

Que

a

alucìnação

ß

ê

óbvio.

Difícil é

conceber

uma

aluci-nação antes de qualquer experiência com o objeto.

Øttstituiçlo

do

Objeto ent

Freud

6l

Como

nas Formulações sobre os dois

princtpios,

a alucinação

primitiva

é

apresen-tada aqui não

enquanto resultante

de uma primeira

relnção

com uûl

objeto,

mas

enquanto

motor

de uma adaptação

posterior

à realidade.

A

distinção entre

interior

c

exterior,

i.e., a

prova

da

eficácia muscular, transforma-se ern

teste

da realidade, em relação com a alucinaçâo de desejo.

Num contexto anterior (Impulsts e destinos clos impultos) atribu ímos ao organismo ainda em estado de desamparo a capacidade de efetuar uma primoira oriontaça--o no mundo por meio dc suas percepções, distinguindo

"fora"

e "dentro" de acordo cont a relação entre

essas percepções e uma ação muscular. Uma perccpção que desaparecc por mcio tlc uma ação

é

reconhecida como externa, como realidade; nos casos cm quc tal ação não tenì influência, a pcrcepção vcnr clo interior do corpo, não é real (llRIlUD

l9ll

' p. 142)'

Ora

em

Impulxts

e

destirns

não se afi¡ma que

"nos

casos em que

tal

açâo não teln

influência,

a percepção vem do

interior do

corpo,

nÍo

é

real'.

O

que se afirma é que

por um lado, scntirá estílnulos aos quais poderá subtrair-se por utna açño muscular (fuga):

èsscs estímulos são atribuldos ao mundo exterior; nìas, por outro lado, sentirá também estímulos contra os

quais

qualquer valia e que conscrviìm, apesar deSta

ação, scu caráter de

impuls

cstfmulos são o signo distintivo de um mundo interior, a prova das

neces

sos.

A

substância perocptiva do ser vivo terá assim adquirido, na

eficáci

nruscular, um ponto dc apoio para distinguir unr "dc fora" e unr "de dentro" (FREUD 191 5, pp. l4-5).

O

que Freucl descreve aqui é a distinção entre

interior

e

exterior,

fundada sobre a

prova

da

eficácia

muscular,

o

"bom critério objetivo"

que

caracteriza

o

funciona-mento

clo "ego-realidade

original"

(FRELID

1915,

p.38). O

que vem

do

interior

do

cofpo ë

real

enqùal1to sensação correlata

da

excitação

do

impulso. Não

se

trata

de alucinação mas de sensação.

Ent

A

interpretaçõo

tlos

sonhos a descrição da experiência de satisfação é precedida pela calacterização desse n.¡esmo estado de desamparo postulado

como

çondição para

ãistlngui, um

fora e um dentro. Uma confirmação dessa identidade é dada pelo

fato

de

(12)

il

62

Luis

Martinho

Feneira Muia

que, nos dois contextos, a descrição

do

estado de desamparo segue-se à diferenciação

entre

estlmulos externos e estímulos

internos

-

os impulsos. Trata-se, nos dois casos,

de dar conta do

aumento

de complexidade

que sobrevém

num

organismo

funcio-nando

segundo

um

modelo reflexo, quando

aparecem

"as

grandes necessidades do

corpo".

A

experiência de satisfação marca o momento da gênese do objeto.

Correlativamen-te,

aparece a distinção entre ego e não-ego. Mas, ao contrário do que era de se esperar, esta distinção não se fundamenta sobre a descoberta do

outro,

mas sobre o teste da

efi

cácia muscular diante da tensão.

Duas vias são assim abertas ao conhecimento, desde

o início.

Urna,

sensório-moto-ra, fundamentada sobre

um "bom

critério

objetivo";

outra,

a via do imaginário, nega,

pela alucinaçã'o, a ação específica do

outro;

nega, pela alucinação da

açlo

específica do

outro,

a impossibilidade da própria ação específica.

A

evolução da

primeira

via é bem conhecida.

Objeto

das teo¡ias cognitivas de

de-senvolvimento, ela é marcada pelo empirismo, que fundamenta a passagem

"do

ato ao

pensamento".

Na

medida em que crescem e se especificam as possibilidades de ação, crescem

e

se especificam as possibilidades

de

conhecimento.

A

ação acabará

por

se

interioriza¡

sob a

forma

de pensamento,

um

pensamento que fez, passo a passo,

o

co-nhecimento

do

real. Há nesta

via,

desde

o

início,

um

compromisso com

o

princípio

de

realidade. Os

dois

sentidos

de "princípio"

-

começo e

lei

-

confundem-se neste

momento.

Princípio

de prazer e

princípio

de realidade não podem ser compreendidos

numa

"sucessão real, na ordem

vital".

têm

sentido

"ao

nível

de

um

aparelho

psí-quico

onde Freud, desde

o infcio,

reconheceu a existência de dois tipos de processos,

de dois princípios de

funcionamcnto

mental" (LAPLANCHE e

PONTALIS

1967,

p.32e).

Não

é

portanto

esta

via,

comprometida

com a

realidade objetiva, que é

o

objeto privilegiado da psicanálise, mas essa

outra,

do imaginiário e do desejo.

Aqui,

um

pensa-mento

aparece sem que seja necessária uma

"dura

experiência

vital".

Uma tal via não

pode manter-se a não ser que haja satisfação. Sendo a criança

impotente

para

atingí-la

por

seus próprios meios, é

o outro

que

o

faz.

Na

sugestiva descrição de

Winnicott,

"desenvolve-se

no

bebê

um

fenômeno subjetivo,

fenômeno

que

denominamos seio da mãe.

A

mãe coloca

o

seio real

no

momento preciso e justamente lá onde a criança está prestes a ci,â.-lo"

(WINNICOTT

1971,

p.2l).

Se

o

desamparo

permite

tomar

contacto

com a realidade da impotência

frente

às

necessidades

do

corpo, este mesmo desamparo, expresso através dos

gritos, permite

a experiência de satisfação. Ora, a experiência de satisfação vai negar a dura

lei

da

rea-lidade

do

desamparo, que é uma lei da nøtureza. Para a criança, a experiência de

apa-ziguamento é percebida como que criada pela sua própria necessidade, o que subverte a regularidade das relações entre a origem da excitação e a eficácia da atividade

muscu-lar,

que

a

criança,

correta

e

implicitamente, tinha

apreendido como

lei

da natureza.

E

uma

nova

lei

que

surge, resultado

do

encontro de

duas ordens de determinantes:

por um lado,

a

existência de uma alucinação

primitiva

possibilitada

por

uma

memó-ria

de evocação;

por

outro

lado,

a presença e a solicitude

do outro.

É

nâ'o só

aleido

desejo , mas também a lei do outro.

O

que

Freud

descreve no Suplemento metapsicolôgico é

o

teste

dc

realidade, que

mais tarde

vai

determinar

o

abandono da realizaçlo alucinatória de desejo."^Se tttdo se

(13)

C-ortstitttiçio

do

Objcto ern

þleutl

ó3 passø bem, a criança pode efetivamente beneficiar-se da experiência de frustração,

por-que uma adaptação incornpleta à necessidade

torna

reais os objetos,

tanto

os odiados

como os amados

(WINNICOT

1971, p.

2l).

Mas, com

o

'recalcamento',

na teoria, da

experiência

de

satisfação,

a

alucinaçâ'o de desejo converte-se

no

momento

prirneiro. O

desamparo que permitia destinguir

en-tre fora

e

dentro,

e que condicionava a gênese do objeto, vai transfonnar-se no desam-paro que a alucinação

primitiva

é impotente para resolver.

A

passagern do ego-realidade

original

ao ego-prazer, da qual a experiência de satisfação

constitui

o

modelo, vai ser transposta para a passagem do ego-prazet ao ego-realidade

definitivo.

Não

se nega que

o

teste da eficácia muscular possa servir de modelo ao teste da

rea-lidade. Mas

um

teste da realidade supõe uma

outra

realidade que

justifique

o teste. O

teste

nâo faz

surgir a

realidade:

permite

discriminá-la

de uma outra.

Mas se se faz

coíncidir

a gênese

do objeto

com

o

teste da sua realidade, entâo só resta postular um

primitivo

estado sem objeto.

4.3

Gênese do sujeito enquqnto objeto de desejo

Se esta

linha

de

pensamento

é

prevalente

na obra e

marca claramente

o

último

Freud,

é possível encontrar uma outra, mais

próxima

da experiência olínica e mais fìel

à

intuição inicial

da descoberta.

É o

que se constata a

partir

da análise de Para

intro-duzir

o

nørcisismo.

Descobrimos essa outra linha de pensamento com particular evidôncia entre

.

. perversos

c homosexuais, que n¿fo escolhem seu objeto de amor ulterior sobrc o modclo da mâe, mas

sob¡e o de sua própria pessoa. Com cla¡a evidência, buscam-se a si mesmos conro objeto dc amor, aprescntando o tipo de escolha de objeto que se pode denomina¡ norcisista, É nesta

observação quc ó preciso rcconhecer

o

mais poderoso motivo que nos leva à hipótese do narcisismo (FREUD 1914, p. 93).

O

que leva

o

auto¡

à conclusão de que

"o

ser humano tem dois objetos originários de amor: ele

próprio

e a

mulher

que cuida

dele".

Contudo, pode ser estabelecida uma

diferença em

função

dos sexos: a escolha

do objeto

por

apoio

é típica

tlo

homem; a

narcísea, a mais pura e mais autêntica,

é típica

da

mulher. "Taismulheresnão

amatn,

cstritamente falando, senão a elas mesmas, tão intensanrente quanto o homem as ama.

Sua

necessiilade

não as

faz

tender

a

amar, mas

a

serem amadas"

(FREUb

1914,

p.94).

Há, porém, uma via que as leva ao pleno amor a um

objeto. "Na

criança que geram, é uma parte de seu

próprio corpo

que se thes apresenta como um

objeto

estranho, ao

qual

podem agora,

partindo do

narcisismo, dedicar

o

pleno

amor de

objeto

(FRELID

1914,p.95)".

Chega-se afinal à constatação de que

o narcisismo primário da criança é menos fácil de apreender pela observação direta do que de confi¡nlar por um racioclnio recorrente a pa¡tir de um outro ponto. Se se considera a

atitude de pais afetuosos para com os filhos, temos de reconhecer aí, a revivescência e a

(14)

64

Luís Marttnho Ferreira Maia

Se

o raciocínio

é recorrente, há que estender a todos os elementos da série o que é

erotismo.

4.4 Narcisismo e auto-erctismo

dessa falta?

erar aqui a distinçâo entre funcionamento auto-erótico e

fun-hoietò,

quando analisa o "pensamento cognitivo e

reprodu-tivo',,

Freud

o

situa

o do que de uma

descober-ta do

novo.

Trata-se

ação entre

o

registro mnê'

mico do objeto

do

d

est€s legistros são

comple-xos:

podem ser

divi

e

se

mantém

constante, e

"atributo",

a parte variável'

o

autor

propõe então o exemplo de

umobjeto

semelhante ao zujeito, o

"complexo

do

ãuto"

o quät,

pol

sua vez, divide-se em "duas pattes, uma dando uma impressÍio de

(15)

7

ConstituiçEo do Objeto ent

FYeud

65

estrutura permanente e permanecendo

um

todo

coerente, enquanto que a outra pode ser compreendida graças a uma atividade mnemônica, quer dizer, atribuída a urn

a¡rún-cio que o

próprio

corpo do sujeito lhe faz chegar"

(FREUD

1895, p. 348).

O

processo de reconhecimento visa ao estabelecimento de uma relação de

identida-de entre o apetitivo e o perceptivo e implica umiulgamento.

"A

representaçã'o

de

coisa

é

definida

pela

filosofia

como

o

conjunto

das

proprie-dades

e

dos

atributos"

(PEISSER

1975,

p.

29).

O termo "propriedade"

sugere uma

qualidade

da

coisa

que

é

independente

do

sujeito,

um

registro mais

objetivo,

A

pro-priedade

pertence à

coisa.

O termo

"atributo"

sugere uma qualidade da coisa

deter-minada pela relação do sujeito a ela. Uma qualidade

qtribulda

à coisa: um registro mais

subjetivo.

A

coisa é a abstração, no

interior

do complexo representativo, de uma coisa sem

atributos,

a coisa-em-si.

O atributo, índice

de minha relação à coisa, transforma-a em coisa-para-mim.

No

funcionamento auto-erótico, que corresponde à descrição que Freud faz. do fun-cionamento

do

ego-prazer, a coisa não pode ser

definida

pelo conjunto dos at¡ibutos, porque a coisa do desejo comporta um único

tipo

de

atributo. A

mãe não pode existir porque, enquanto

objeto unitário,

ela seria boa e mâ.

A

coisa é, neste momento, o que Melanie

Klein

denominou

"objeto parcial",

definida pela singularidade do atributo.

Isto

corresponde ao que,

trinta

anos depois,

Freud

vaí denominar

um'Julgamento

de atribuição":

"Gostaria

de

comer

isso"

ou

"gostatia de cuspí-lo

fora"

(FREUD

1925,

p.297).

Neste

tempo,

"a

mera existência de urna representação constitur? uma

garantia

da

realidade

daquilo que

era representado.

A

antítese entre

objetivo

e

sub-jetivo

não existe desde o

início"

(FREUD

1925,p.298).

Ora,

se essa antltese não existe

no

plano cognitivo é porque tampouco ela se

verifi-ca

no

plano

da experiência. Essa

loucura inicial

é sempre uma

loucura

a dois.

O

que

tüinnicott

registra com rÍìra felicidade:

Para o obseryador, a criança percebe o que a mãe lhc aprcsenta efetivamente, mas isso não

é toda a verdade. A criança percebe o seio enquanto um seio pode scr criado aqui e agora.

Nâo há troca entrc a nrat e a criança. Psicologicamente, a criança toma um seio que é parte dela mesnra c a mãe dá leite a uma criança que é parte dela mesma. IÌm psicologia, a idéia de uma troca rccíproca baseia-se numa iluúo do psicólogo (WINNICOT l9'11, p. 22).

Constata-se assim que, no

julgamento

de

atribuição,

a coisa confunde-se com o

res-pectivo at¡ibuto.

Ora, se o

atributo

é exatamente o índice da relação do sujeito à coisa,

a coisa só existe para

o

sujeito e pelo sujeito. O

próprio

sujeito não é independente da coisa que deseja.

É

como se as categorias de sujeito e de

objeto

se anulassem no

inte-rior

de uma única categoria, a de relaçâ'o.

Para o

juþamento

de atribuição, a existência é uma dimensão

implícita.

Como nâ'o

existe distinção entre

representação

e

percepçâ'o,

como não existe

distância entre o

sujeito

que percebe e

o

objeto

percebido,

tudo

o

que é

vivido,

existe ,

independente-mente de sua natureza e lugar. Do mesmo modo, não há a idéia de que algo possa

exis-tir

fora

dos

limites

perceptivos e imaginários

do sujeito.

As categorias

do

inexistente, do irreal, do ausente, não têm sentido.

Nessa época o objeto não existe antes que o construam. Numa concepção empirista,

os

objetos

estão

lá,

antes

de

todo

o

conhecimento,

e

o

conhecimento

os

descobre

(16)

!--66

Luts

Martinho

Ferreira Maia

como

um

facho que

ilumina

as trevas

do

desconhecido.

No

funcionamento

auto'eró-tico, no

ego-prazer,

o

facho

(do

desejo) cria os objetos'

Ao

mesmo tempo, é o próprio ego

que

se constrói e se reconstrói na construção dos objetos.

O objeto

concerne ao ego. Se

o

ego é

constituído

de objetos

por

oposição a objetos, trata-se de um ego que se confunde com os objetos no

interior

da relação.

Em

oposiçâ'o

a

este ego-prazer

que

cuacleriza

o

funcionam€nto

auto-erótico, o ego-realidade

definitivo

é

o

ego da palavra.

Dizer

em palavras uma coisa

permite

que

eia se

torne

constnnte, que e1a se torne independente dos atributos que sâ'o a marca da relação do sujeito à coisa. É esta constância que vai

permitir

que a coisa tenha uma plu-ralidade de atributos.

A

coisa do desejo, objeto parcial, é a coisa de um

atributo

singu-lar. Agora trata-se do registro dos objetos totais.

Os

objetos totais

são também

objetos

perdidos

na medida em

que se liberam da

onipotência

do

desejo,

o

que é correlato da liberação

do

sujeito, da dependência aos

objetos. O sujeito, como os objetos, ganhou seu

próprio

nome. As coisas do desejo per-manecem inominadas e inomináveis.

Mas entre

o

ego-prazer, pelo qual

Freud

caracte¡iza o funcionamento auto-erótico,

e

o

ego realidade

definitivo,

há que se

inseri¡

a constituição narcísea do ego, que

pef-mite

a emergência do sujeito em sua subjetividade, e , correlativamente, do objeto em sua objetividade, a qual comporta a subjetividade de uma

alteridade

desejante.

Qual a

diferença

entre

o

e1o-prazer

e o

ego

narcíseo?

O

ego-prazer preencheu o espaço

interior,

de

coisas boas.

Constituído

de representações de coisas, confunde-se

com elas.

O

ego narcíseo reuniu numa

forma, num objeto unitário

e

total,

o

atributo

das coisas (boas).

Não

se confunde mais com as coisas. Freud sugere aliás que, neste

momento

inicial

as coisas carecem de

atributo:

elas estão lá, mas desinvestidas de

libi-do.

A

neurose

vai

constituir-se

num

investimento dessas mesmas coisas, a psicose num retorno maciço ao investimento do ego.

O

palavra

do outro,

o

desejo

do õutro, permitiram

a emergência da forma unitária

do

egõ. Mas

é

preciso

não

esquecer

que

o

narcisismo

é herdeiro

da onipotência do ego-p:;azer.

Em

sua

forma

auto-erótica de alucinação

primitiva ou

em sua

forma

nar-cireã

de

desinvestimento

do

mundo, a onipotência

não

é

signo de

uma

auto-sufi-ciência biológica qualquer.

Em

sua lógica extrema ela é semPre a negação de uma per-da, e anuncia um trabalho de

luto

a começar.

s

coNclusÃo

Analisou-se

a

constituição

do

objeto na obra de Freud,

numa dupla

perspectiva:

enquanto correlata

do

desejo e, assim, da gênese da sexualidade humana e enquanto

cortelata

do narcisismo,

posto que, antes de ser sujeito e meslno antes de ser objeto

para ele

próprio,

o ego é objeto para o

outro.

A

criança começa a falar de si em terceira pessoa; a mãe começa a falar à criança, pela criança, em primeira pessoa'

Identificou-se,

em ambas as problemáticas,

uma

tensão

dialética entre uma

pers-pectiva relacional

-

mais

próxima da clínica

e da

intuição inicial

da descoberta

-

e

(17)

hnstitrtiçdo

do Obieto em

Freud

67

Frente

às formações

do

desejo,

Freud

necessita de

unr

fundamento, do originário, Uma perspectiva psicológica nãó se fundamenta a si própria.

À

falta de otttros

paraclig-mas

que þermitam realuar

essa fundamentação, ele acaba

por recorrel

ao biológico,

um

biol

co.

Na

v

foi

descoberto

lnuito

cedo por ele

próprio,

mas

o

o papel nuclear que lhe cabia: trata-se

evi-clentemente da estrutura do Édlpo. Como lembra Lacan

(1936),

a

noçio

de complexo, mais

do

que

esclarecitla, esclarece

a

de

instinto

ao articular a

pré-utaturação

do

ser humano à emergência da cultura.

E

tarefa da þosteridade de

Freud reint¡oduzir o Édipo no

lugar estrutural que lhe

é

devido

pu.a

qu* a

leorizaç-ao

do

funcionamento não se aliene nem

nunl

endogenis-mo

biologizante e

monádico,

nem

nunra relativização sociologizante que pelo social

tudo

explica, mertos o

próprio

social.

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Referências

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