CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS E ECONÔMICAS
FACULDADE DE DIREITO
A REPRESENTAÇÃO DOS TRABALHADORES NO LOCAL DE
TRABALHO
ROBSON SANCHEZ CANO
RIO DE JANEIRO
2008
A REPRESENTAÇÃO DOS TRABALHADORES NO LOCAL DE
TRABALHO
Trabalho de conclusão de curso apresentado à Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.
Orientadora: Professora Dra. Sayonara Grillo Coutinho Leonardo da Silva
RIO DE JANEIRO 2008
A representação dos trabalhadores no local de trabalho. — 2008. 71 f.
Orientador: Dra. Sayonara Grillo Coutinho Leonardo da SIlva
Monografia (graduação em Direito) — Universidade Federal do Rio de Janeiro, Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas, Faculdade de Direito. Bibliografia: f. 70-71
CDD 349.2 legislação trabalhista. I. Silva, Sayonara Coutinho Grillo Leonardo da. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas. Faculdade de Direito. III. Flexibilização da legislação trabalhista diante do princípios de proteção ao trabalhador.
A REPRESENTAÇÃO DOS TRABALHADORES NO LOCAL DE
TRABALHO
Trabalho de conclusão de curso apresentado à Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como requisito parcial à obtenção do título de Bacharel em Direito.
Data de aprovação: ____/ ____/ _____
Banca Examinadora:
________________________________________________
Professora Dra. Sayonara Grillo Coutinho Leonardo da Silva – Presidente da Banca Examinadora Professora Assistente da Faculdade Nacional de Direito da Universidade Federal do Rio de Janeiro – Orientadora
________________________________________________ 2º Examinador
________________________________________________ 3º Examinador
CANO, Robson Sanchez Cano. A representação dos trabalhadores no local de trabalho. 2008, 71 f. Monografia (Graduação em Direito) — Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.
Na presente monografia, pretende-se analisar a representação dos trabalhadores no local de trabalho a partir da evolução da liberdade sindical no Brasil apresentada através de um panorama histórico compreendido entre a fase pré-corporativista, iniciada em 1888, com a abolição da escravidão, e a Constituição Federal de 1988. Para melhor compreensão do tema serão abordadas experiências internacionais a respeito da representação dos trabalhadores em seu local de trabalho. Na primeira parte, faz-se uma análise da influência corporativista no direito sindical brasileiro e da liberdade sindical do direito internacional, reservando-se a segunda parte para as principais características da representação dos trabalhadores no direito estrangeiro. Com o exame destes tópicos, passa-se, então, ao estudo específico do tema apresentado, objetivando, deste modo, a demonstração das diversas formas de representação do trabalhador no local de trabalho no Brasil. No decorrer do trabalho aqui desenvolvido, verificar-se-á que no Brasil ainda existem resquícios da influência do corporativismo e que não se vivenciou, ainda, o amadurecimento dos ideais de liberdade sindical.
CANO, Robson Sanchez Cano. A representação dos trabalhadores no local de trabalho. 2008, 71 f. Monografia (Graduação em Direito) — Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.
En la presente monografia, se pretende analizar la representación de los trabajadores em el local de trabajo, a partir de la evolución de la libertad sindical em el Brasil, presentada por medio de um panorama histórico comprendido entre la faze preésclavitud y la Constitución Federal de 1988. Para uma mejor comprensión del tema, serán abordadas experiencias internacionales a respecto de la representación de los trabajadores em su local de trabajo. En la parte, se hace un analisis de la influencia corporativista en el derecho sindical brasileño y de la libertad sindical en el derecgo internacional, reservándose la segunda parte, para las principales características de la representatión de los trabajadores en el derecho estranjero. Con el examen de estos tópicos, se pasa entonces al estudio específico del tema presentado, objetivando de este modo, la demostración de las diversas formas de representatión del trabajador en el local de trabajo en el Brasil. En el decorrer del trabajo aquí desarrollado, se verifcará que en el Brasil todavía existen residuod de la influencia corporativista y que no se vivenció, todavía, el amadurecimento de los ideales de la libertad sindical.
INTRODUÇÃO...7
1 DEMOCRACIA E LIBERDADE SINDICAL...9
1.1 Contexto histórico – evolução da liberdade sindical...9
1.1.1 Fase pré-corporativista...10
1.1.2 A influência corporativista...11
1.2 A internacionalização da liberdade sindical...15
1.2.1 A Organização Internacional do Trabalho...15
1.2.1.1 Estrutura da OIT...15
1.2.1.2 Principais normas da OIT sobre a liberdade sindical...17
1.2.2 A liberdade sindical como direito fundamental e a Declaração Internacional de Direitos Humanos...22
1.3 A liberdade e a autonomia sindical na Constituição de 88...26
1.3.1 Âmbito individual...27
1.3.2 Âmbito coletivo...28
1.4 Conclusões Parciais...30
2 REPRESENTAÇÃO DOS TRABALHADORES NO LOCAL DE TRABALHO NO DIREITO ESTRANGEIRO ...32
2.1 A representação dos trabalhadores no local de trabalho como expressão da liberdade sindical...32
2.2 A representação dos trabalhadores na ordem internacional...33
2.4.1 Espanha...40
2.4.2 Itália...45
2.5 Conclusões Parciais...49
3 REPRESENTAÇÃO DOS TRABALHADORES NO LOCAL DE TRABALHO....50
3.1 Fatores inibidores...50
3.2 Comissão de Fábrica...53
3.3 CIPA (Comissão Interna de Prevenção a Acidente)...56
3.4 Delegados sindicais...59
3.5 Participação nos Lucros ou Resultados (PLR)...63
3.6 Comissão de Conciliação Prévia (CCP)...65
3.7 Conclusões Parciais...67
CONCLUSÃO...68
Uma das principais características do direito do trabalho é a atuação nas relações trabalhista visando diminuir as distorções de poder entre empregador e empregado. A forma encontrada pelo trabalhador para, de certa forma tentar, se igualar ao outro sujeito da relação de trabalho, o empregador, foi a união em prol de um objetivo comum. Desta união, surgiu o sindicato, com a função primordial de defender os interesses dos trabalhadores perante o empregador, tratando-se de sindicato dos trabalhadores, ou no interesse dos tomadores de serviços, quando da representação dos empregadores. Porém em um sistema que estabelece o sindicato único, com heranças deixadas pela influência do corporativismo Italiano é necessário que haja uma mudança, quer pela alteração do modelo de sindicalização existente, quer pela busca de novas formas de representação do trabalhador, para que este tenha uma real defesa de seus interesses.
O presente estudo foca a segunda opção, tendo em vista a necessidade de uma efetiva representação dos trabalhadores no local de trabalho, já que a atuação muitas vezes ineficiente do sindicato em um sistema que não tem real liberdade sindical, gera um grande vazio no interior das empresas no tocante a representação dos trabalhadores. É necessário que os problemas encontrados no cotidiano do trabalhador sejam solucionados de maneira rápida e eficaz, não somente que sejam resolvidas questões de interesse geral da categoria, que também são importantíssimas, porém não as únicas.
A representação dos trabalhadores no local de trabalho, desta forma, terá a finalidade de resolver os problemas dos trabalhadores através de uma representação eficaz e do diálogo direto, da forma mais rápida possível, com o empregador. Não em detrimento do sindicato, mas agindo de forma conjunta com este, ou separadamente com certa autonomia, dependendo da forma que possa trazer mais benefícios aos trabalhadores.
Em um primeiro momento, será feita uma análise da evolução da liberdade sindical no Brasil e a influência do corporativismo na formação do direito sindical brasileiro até a Constituição de 1988. Será analisada a liberdade sindical no cenário internacional com
ênfase a Organização Internacional do Trabalho, verificando sua estrutura e as principais normas referentes à liberdade sindical
Em um segundo momento o presente trabalho tem a proposta de fazer um estudo dos principais modelos de representação dos trabalhadores no local de trabalho. Assim, será feita uma análise das experiências estrangeira, tendo como parâmetro países com industrialização avançada e democracia consolidada que tenham passado por experiências corporativista. Buscando desta forma, características que se assemelhem as do Brasil.
Por ultimo, serão abordadas as formas de representação dos trabalhadores presente na estrutura jurídica brasileira. Dentre as quais se encontram a Comissão de Fábrica, a Comissão Interna de Prevenção a Acidentes, os delegados sindicais, dentre outros.
O presente trabalho visa o estudo da representação dos trabalhadores no local de trabalho como expressão da liberdade sindical e como forma de organização dos trabalhadores em face do poder do empregador. Dessa forma, o foco principal será a liberdade e as garantias que os representantes dos trabalhadores, em suas diversas formas, detêm para exercerem a função primordial de representarem os trabalhadores sem a qualquer forma de intervenção.
Para consecução da monografia que ora se projeta, será utilizada basicamente pesquisa teórica, tanto na legislação e na doutrina brasileira, quanto na estrangeira, além do estudo das normas internacionais, especificamente da Organização Internacional do Trabalho.
1 DEMOCRACIA E LIBERDADE SINDICAL
Esse capítulo analisa o histórico da evolução da liberdade sindical no Brasil, até a Constituição de 1988, e no cenário internacional, principalmente em relação às normas da Organização Internacional do Trabalho. Divide-se em três seções. Inicia-se pelo contexto histórico – evolução da liberdade sindical no Brasil (1.1), que está dividido na analise da fase pré-corporativista (1.1.1) e na influência corporativista (1.1.2).
Após o histórico do desenvolvimento da liberdade sindical e a influência do corporativismo Italiano na legislação brasileira, estuda-se o princípio da liberdade sindical no direito internacional (1.2). Este é dividido em duas subseções: a OIT (1.2.1) e a liberdade sindical como direito fundamental e a declaração Internacional de direitos humanos (1.2.2). O item 1.2.1, referente a OIT, analisa a estrutura da OIT (1.2.1.1) e as principais normas da OIT sobre a liberdade sindical. A seção 1.3 abrange a liberdade e a autonomia sindical na constituição de 1988. Trata, em tópicos específicos, da liberdade sindical no âmbito individual (1.3.1) e no âmbito coletivo (1.3.2). A última seção contém as conclusões parciais (1.4).
1.1 Contexto histórico – evolução da liberdade sindical.
Os países industrializados e de democracia consolidada têm a liberdade sindical como um direito fundamental consagrado no ordenamento jurídico. No Brasil, porém, a evolução desse direito como garantia constitucional foi muito dificultada, seja por falta de regulamentação, pela influência do corporativismo ou pela atuação do próprio empregador e do Estado, criando obstáculos à verdadeira liberdade de atuação sindical que visa estabelecer uma maior igualdade na relação entre empregados e empregadores. Segundo
Siqueira Neto1, o desenvolvimento do direito sindical brasileiro se apresenta em três fases,
a pré-corporativista, a corporativista ou de manutenção dos traços fundamentais da influência corporativista, e a pós-Constituição de 1988.
1.1.1 Fase pré-corporativista.
A fase pré-corporativa tem seu marco inicial com a abolição da escravatura, em 1888 e segue até o Estado Novo, época na qual praticamente inexistia legislação específica relacionada aos sindicatos, apesar da existência de algumas leis que tratavam de direito individual do trabalho. Em 1891 a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil estabeleceu em seu texto, o livre direito de associação e reunião como sendo lícitos e protegidos da intervenção da polícia, salvo a necessidade de manutenção da ordem pública. Ou seja, naquele momento surge a figura jurídica da liberdade de reunião ao mesmo tempo em que a manifestação social se apresentara como “perturbação da ordem pública”2.
Neste cenário, o Brasil viveu uma primeira fase de influência liberal que reconheceu a figura do sindicato conferindo-lhe a característica de pessoa jurídica de direito privado. Os decretos de nº 979 de 1903 e o de nº 1.637 de 1907 foram as primeiras leis sindicais do Brasil. O primeiro tratou tanto do sindicato urbano quanto o rural, pois facultava aos profissionais e industriais rurais de qualquer gênero, organizarem entre si sindicatos para o estudo, custeio e defesa de seus interesses. Para se constituir o sindicato era essencial, para o exercício das prerrogativas da lei, o depósito no cartório de registro de hipotecas do distrito da sede do sindicato. Já o segundo decreto cuidou somente do sindicato urbano, deixando transparecer uma tendência que fortaleceria o empregador: a previsão de sindicatos mistos. Isto fez com que tais instrumentos tivessem pouca aplicabilidade, pois de um lado estava a concepção de perturbação da ordem pública e de outro a previsão de sindicatos mistos, ambos atacando de forma muito cruel a liberdade sindical, vez que atingiam a liberdade no momento de sua formação. Assim, as primeiras
1 NETO, José Francisco Siqueira. Liberdade Sindical e a Representação dos Trabalhadores nos Locais de
Trabalho. São Paulo: LTr, 2000, p.294.
décadas do século XX foram marcadas pelo liberalismo do Estado no âmbito das relações coletivas de trabalho, porém acompanhado de grande repressão política.
No Rio de Janeiro, em 1903, duas greves marcaram história: dos cocheiros e dos têxteis, ambas encerradas com repressão policial. Em São Paulo, desde paralisações por atrasos de pagamentos realizadas pelos tecelões em 1901, até os 20 dias de greve geral de 1907, passando pela greve geral em santos (1905), também foram inúmeros os movimentos organizados no período encerrados com violências. Naquele momento a organização dos trabalhadores ganhou visibilidade e reconhecimento mais amplo, embora enfrentasse repressão.3
Como exposto no art. 2º do decreto 979/1903: “os sindicatos se constituem livremente, sem autorização do governo...”. Esta liberdade jurídica de constituir sindicatos é completamente contrária ao período seguinte de influência corporativista.
1.1.2 A influência corporativista.
A característica principal é a intervenção do Estado na economia com o fim de proporcionar seu fortalecimento. Nas relações de trabalho, esta intervenção se faz pela negação dos conflitos entre empregado e empregador e o controle das organizações sindicais pelo Estado. De acordo com Siqueira Neto,
o sistema fascista de colaboração de classes sugere uma colaboração econômica-política mais vasta. O sindicato não pode esgotar-se em si mesmo; é na corporação que se realiza a unidade econômica nos seus mais diversos elementos – capital, trabalho e técnica.4
Na concepção corporativista mais forte e clássica, o Estado intervém na economia de forma absoluta, sendo as corporações um meio para esse controle. As corporações, por sua vez, são concebidos como organismos públicos que aglutinam todos os elementos constitutivos de uma profissão ou grupo econômico representativo dos interesses das categorias econômicas da produção.
No corporativismo5, a associação por categorias profissionais é dada através do
enquadramento sindical respectivo ditado pelo Estado, o qual cria mecanismos para intervir
3 SILVA, Sayonara Grillo Coutinho Leonardo da. Relações Coletivas de Trabalho. Configurações
Tradicionais do Brasil Contemporâneo. São Paulo: LTr, 2008. p.131.
4 NETO, José Francisco Siqueira. opus citatum. p. 301.
5 “O corporativismo se manifesta concretamente com o fortalecimento do Estado Nacional, numa lógica que
submete tudo e todos aos interesses superiores da Nação. Neste sentido, a doutrina corporativista se constitui em - mais que uma concepção de direito sindical – uma concepção global de sociedade.” (Idem, p.300)
e solucionar os conflitos, proibindo de maneira expressa os meios de autotutela, quais sejam, greve e lock-out. Para o funcionamento deste sistema é imprescindível a unicidade sindical6, pois desta forma, sua influência se dá de maneira muito mais eficaz, uma vez que
o Estado detém o controle dos sindicatos. Apesar de ir de encontro às idéias de liberdade, esse sistema é muito coerente com o fim desejado por um tipo de Estado que objetiva atuar na sociedade determinando uma política econômica a ser seguida. Desta forma, um sindicato autônomo, que representasse os interesses de seus associados e que lutasse pelo reconhecimento da existência de conflitos entre empregado e empregador, não coadunaria com um Estado autoritário.
A partir de 1930, com o advento da Revolução de Vargas, são estabelecidas novas relações entre capital e trabalho, configurando o início de um período que rompe com o liberalismo existente à época anterior, através da fixação de um controle governamental dos sindicatos, com a idéia de "paz social". Uma das principais medidas do Estado foi a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (MTIC). A partir do decreto nº. 19.770 de 1931, o Ministério passou a ter um controle sobre a formação dos sindicatos,
em vez de preservar o princípio libertal do decreto anterior, que apenas exigia o deposito dos estatutos para a regularização jurídica dos sindicatos, a nova regulamentação instituía a exigência de aprovação ministerial prévia dos estatutos sindicais, para que se processasse o reconhecimento da entidade e a aquisição de personalidade jurídica própria. 7
Com isso, temos o início efetivo do controle dos sindicatos pelo Estado, tendo em vista o contínuo controle feito pelo Ministério sobre o estatuto sindical, o que afastou de imediato a liberdade sindical. Em seu art. 2º, o decreto determinava, para efeito de reconhecimento jurídico, a remessa dos estatutos e de eventuais alterações e dos documentos constitutivos ao MTIC, para aprovação. Ressalta-se também que tal decreto instaurou o regime da unicidade legal, art. 9º do decreto, impossibilitando o reconhecimento de mais de um sindicato por categoria ferindo novamente o princípio da liberdade sindical.
6 “A unicidade corresponde à previsão normativa obrigatória de existência de um único sindicato
representativo dos correspondentes obreiros, seja por empresa, seja por profissão, seja por categoria
profissional. Trata-se da definição legal imperativa do tipo de sindicato passível de organização na sociedade , vedando-se a existência de entidades sindicais concorrentes ou de outros tipos sindicais. É, em síntese, o sistema de sindicato único, com monopólio de representação sindical dos sujeitos trabalhistas”. (DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 5ª ed. São Paulo: Ltr, 2006, p.1329)
Era determinado o número mínimo de três sindicatos para constituírem federações, bem como, o numero de cinco para constituir Confederação Nacional. O sindicato era visto como órgão de colaboração com o governo, pois de acordo com o Art. 5 do decreto:
os sindicatos que forem reconhecidos pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio serão considerados, pela colaboração dos seus representantes ou pelos representantes das suas federações e respectiva Confederação, órgãos consultivos e técnicos, no estudo e solução, pelo Governo Federal, dos problemas que, econômica e socialmente, se relacionarem com os seus interesses de classe.
Não se estabelecia a obrigatoriedade de ingresso em um sindicato. Porém, os sindicalizados gozavam de alguns privilégios, tais como: a apresentação de reclamação perante as Juntas de Conciliação e Julgamento, que só poderia ser feita por empregados sindicalizados e o gozo de férias que também só era concedido aos sindicalizados. Ambos privilégios decorriam de decretos posteriores ao 19.770/31, respectivamente, o decreto n.º 22.132/32 e o decreto n.º 23.768/34.
Em 16 de julho de 1934 foi promulgada a Constituição Federal. Demonstrando completa ruptura com o modelo anterior, decreto 19.770/31, previa a pluralidade e a autonomia sindical. O seu art.120 previa: “os sindicatos e as associações profissionais serão reconhecidos de conformidade com a lei. Parágrafo único. A lei assegurará a pluralidade sindical e a completa autonomia dos sindicatos”.
Porém, utilizando-se do poder de expedir decretos com força de lei, o governo publicou quatro dias antes da promulgação da Constituição de 1934, o decreto n.º 24.694/34, mantendo em linhas gerais os princípios e ideais do decreto n.º19.770/31. Nas palavras de Siqueira Neto, analisando o regime adotado em relação ao decreto anterior, temos:
a) a sindicalização continuou livre, podendo aderir ao sindicato o trabalhador quando bem entendesse, e dele sair quando também lhe aprouvesse;
b) no que se refere a autonomia, o seu cerceamento foi ampliado a ponto de praticamente inexistir qualquer parcela de autodeterminação administrativa; c) foi consagrada uma pluralidade mitigada em detrimento da unicidade, mas que, a rigor, não produziu efeitos concretos.8
O regime da Constituição de 1934 foi superado com a outorgada da Carta de 10 de novembro de 1937, decorrente do golpe de Estado que deu início ao Estado Novo, incorporando o corporativismo ao novo sistema constitucional. Nela, a liberdade sindical é
violada de diversas formas, como se pode perceber através da análise de alguns de seus artigos:
Art.138. A associação profissional ou sindical é livre. Somente, porém, o sindicato regularmente reconhecido pelo Estado tem o direito de representação legal dos que participarem da categoria de produção para que foi constituído, e de defender-lhes os direitos perante o Estado e a outras associações profissionais, estipular contrato coletivo de trabalho obrigatório para todos os seus associados, impor-lhes contribuições e exercer em relação a eles funções delegadas de poder público.
Percebe-se nesse artigo que a autonomia sindical foi duramente atacada ao se prever que somente o sindicato regulamente reconhecimento por parte do Estado teria o direito de praticar determinados atos, dentre os quais ter seus direitos reconhecidos.
Os meios de solução conflitos trabalhistas foram tratados no art. 139, assim como a vedação da autotutela:
Art. 139. Para dirimir os conflitos oriundos das relações entre empregadores e empregados, reguladas na legislação social, é instituída a justiça do trabalho, que será regulada em lei e à qual não se aplicam as disposições desta Constituição relativas à competência, ao recrutamento e às prerrogativas da justiça comum. A greve e o lock-out são declarados recursos anti-sociais nocivos ao trabalho e ao capital, incompatíveis com os superiores interesses da produção nacional.
Percebemos, que a Carta de 1937 promove uma ruptura na evolução da liberdade sindical que se emoldurava e se desenvolvia, ainda que timidamente, no momento em que se instaurou o Estado novo. Os artigos da Carta de 1937 sobre direito sindical foram quase uma cópia da Carta Del Lavoro, de 1927, criando-se então as condições para a consolidação do corporativismo.
O presente estudo não visa uma análise detalhista do momento do ápice estrutural do modelo corporativista brasileiro. Bastando a conclusão de que o corporativismo se caracteriza por sufocar a liberdade e apreender o sindicato como pessoa jurídica de direito público, ou, como no caso brasileiro, como pessoa jurídica de direito privado com funções delegadas de poder público. Intervindo o Estado na formação, liberação e atuação das representações dos trabalhadores, sendo a principal forma de controle a unicidade sindical a partir do enquadramento sindical e a definição da base territorial. E, em especial, observar que o corporativismo estruturou um regime sindical totalmente construído fora das empresas, sem admitir a existência de organizações nos locais de trabalho.
Antes de continuarmos com a evolução da liberdade sindical no Brasil e chegar à sua constitucionalização, precisamos fazer uma análise do cenário internacional com a finalidade de se construir um paralelo entre os acontecimentos interno e a influência externa no Brasil.
Com o fim da Segunda Guerra Mundial os princípios democráticos e de Estado de Direito dominaram os ideais das principais economias mundiais refletindo-se principalmente nos países que adotaram o sistema de sindicato de direito público como um dos modos de estruturação das sociedades autoritárias. A liberdade sindical passa a ser reconhecida internacionalmente como um direito fundamental e não mais como um problema interno de cada Estado isoladamente.
1.2 A internacionalização da liberdade sindical.
1.2.1 A Organização Internacional do Trabalho.
1.2.1.1 Estrutura da OIT.
Em 1919, devido a aprovação da parte XIII do Tratado de Versailles, foi criada a Organização Internacional do trabalho (OIT). O dogma que apenas o Estado é sujeito de Direito Internacional é quebrado a partir da estrutura tripartite adotada pela OIT, ou seja, dela fazem parte dois representantes dos Estados membros, um representante dos empregadores e um representante dos empregados. Desta forma, proporciona-se o acesso direto de pessoas mediante grupos organizados, acabando com o monopólio do Estado no que se refere à gestão das relações internacionais.
A OIT9 tem como órgãos a Conferência Internacional do Trabalho, o Conselho da
Administração e a Repartição Internacional do Trabalho. O primeiro se reúne anualmente sendo responsável pela discussão e aprovação das convenções, recomendações e
resoluções. Estas são aprovadas por maioria simples requerendo o mínimo de quorum de metade dos delegados na reunião, enquanto as duas primeiras são aprovadas com o voto de 2/3 dos delegados presentes. Segundo Arnaldo Lopes Sussekind:
as convenções são tratados multilaterais, abertos à ratificação dos Estados-membros, que, uma vez ratificadas, integram a respectiva legislação nacional; as recomendações se destinam a sugerir normas que podem ser adotadas por qualquer das fontes diretas ou autônomas do Direito do Trabalho, embora visem, basicamente, o legislador de cada um dos países vinculados à OIT; as resoluções não criam obrigações para os Estados-membros, e concernem quase sempre a questões não incluídas na ordem do dia da conferência, que não acarretam qualquer obrigação, ainda que de índole formal, para os Estados-membros, destinando-se a convidar organismos internacionais ou governos nacionais a adotarem medidas nelas preconizadas 10.
As convenções que estão sujeitas a apreciação da autoridade nacional necessitam de ratificação11 para que surtam ou não efeitos em seu território. No Brasil, a autoridade
competente para aprovar a entrada da convenção no ordenamento jurídico como lei federal é o Congresso Nacional. As convenções podem ser divididas em regulamentares, consideradas auto-aplicáveis; podem ser de princípios, precisando assim, para sua efetivação, de normas complementares; e, por fim, as proporcionais que fixam objetivos e prazos para que sejam alcançados12. No cenário internacional as convenções entram em
vigor após doze meses da data do depósito da segunda ratificação de Estados membros junto à Repartição Internacional do Trabalho. Já a vigência no âmbito nacional dos estados membros é de doze meses da data do registro da ratificação ao Diretor Geral da RIT. Uma vez ratificada, a denúncia é proibida dentro do prazo de dez anos, só podendo ser feita findo este prazo e caso não seja expressa por meio de comunicação escrita à OIT fica subentendido que o Estado deseja prorrogá-la por igual período.
A OIT controla o cumprimento das obrigações assumidas pelos Estados membros de duas formas: o controle permanente e o controle eventual.
Os Estados-membros enviam anualmente relatórios para exame da OIT, que assim faz o controle permanente, ou controle administrativo. Os relatórios versam sobre as medidas tomadas para se fazer cumprir e pôr em prática as convenções e recomendações
10 SUSSEKIND, Arnaldo. Direito Constitucional do Trabalho. 3º.ed.(ampl. e atual.). Rio de Janeiro: Renovar,
2004. p.76
11 Ratificação é “o ato internacional assim denominado pelo qual um Estado estabelece no plano internacional
o seu consentimento em obrigar-se por um tratado”, conforme define o art. 2º, 1, a, da Convenção de Viena que dispõe sobre o Direito dos Tratados.
por parte das autoridades nacionais e a análise de sua legislação e da prática relacionada aos assuntos das convenções não ratificadas e em cada recomendação internacional do trabalho.
O controle “jurisdicional” é feito a partir de reclamações à Repartição Internacional do Trabalho por entidades sindicais que são examinadas por uma comissão tripartite do Conselho de Administração ou por um Estado–membro contra outro através de queixa. Nesta, o Conselho de Administração pode designar uma comissão de inquérito que enviará um relatório aquele e aos governos dos paises referentes à queixa, publicando-se em seguida. Será submetido o relatório à Corte Internacional caso um dos Estados, no prazo de três meses, não aceite as recomendações do relatório da comissão. A decisão da Corte é inapelável.
Para avaliar as alegações feitas nas queixas sobre direito sindical e determinar em que circunstâncias se justifica o exame desta, e com característica tripartite, foi criado, em 1951, o Comitê de Liberdade Sindical do Conselho de Administração, sendo de sua competência qualquer questão relacionada à liberdade sindical.
Vista a estrutura da OIT, cabe uma análise de suas principais normas relativas à liberdade sindical.
1.2.1.2 Principais normas da OIT sobre a liberdade sindical
A afirmação do principio da liberdade sindical, como meio para o melhoramento das condições do trabalhador, está presente desde a Constituição da OIT. A convenção nº. 11 da OIT foi a primeira a abordar o tema da liberdade sindical, no entanto, não obteve muito êxito, pois somente determinava que o direito à associação seria expandido aos trabalhadores ocupados na agricultura tal como o tinham os trabalhadores das industrias.
Em nove de julho de 1948, foi aprovada a Convenção nº 87, tratando da liberdade sindical e da proteção do direito sindical, consagrando a liberdade sindical no Direito internacional como sendo um princípio basilar. A parte I da Convenção trata
especificamente da liberdade sindical. Os art. 2º e 3º trazem os principais pilares desta convenção:
Art.2: Os trabalhadores e as entidades patronais, sem distinção de qualquer espécie, têm o direito, sem autorização prévia, de constituírem organizações da sua escolha, assim como o de se filiarem nessas organizações, com a única condição de se conformarem com os estatutos destas últimas.
Observa-se que os estados não poderiam mais intervir na criação e na atividade sindical, ou seja, a fundação de entidades sindicais ou a filiação de seus associados é livre de prévia autorização estatal para tal. A convenção prossegue estatuindo o conteúdo da autonomia sindical:
Art. 3º: 1. As organizações de trabalhadores e de entidades patronais têm o direito de elaborar os seus estatutos e regulamentos administrativos, de eleger livremente os seus representantes, organizar a sua gestão e a sua atividade e formular o seu programa de ação.
2. As autoridades públicas devem abster-se de qualquer intervenção susceptível de limitar esse direito ou de entravar o seu exercício legal.
Este artigo traz a garantia da autonomia sindical relativa à administração interna de conforme orientação de seus estatutos e ao exercício das ações de acordo com a vontade e o objetivo de seus membros, sem a interferência estatal. Para evitar esta interferência foi proibida a dissolução ou a suspensão dos sindicatos por via administrativa. Às organizações de trabalhadores também foi assegurado o direito de constituírem federações e confederações com as mesmas garantias dispostas nos artigos 2, 3 e 4 supracitados. Todos os direitos e garantias têm que ser exercitados tendo em vista os demais preceitos legais.
O art. 9º da Convenção deixou a aplicação das garantias previstas nessa convenção, no âmbito das forças armadas e à polícia, à disposição da legislação nacional.
Para complementar a Convenção nº 87, confirmando o principio e as garantias da liberdade sindical, foi adotada em julho de 1949, tratando sobre a aplicação dos princípios do direito de sindicalização e de negociação coletiva, a Convenção nº 9813. Verifica-se
principalmente o direito à negociação coletiva, assim como a proteção do trabalhador perante ato que atinja sua liberdade sindical e o direito a sindicalização. O art. 1º prevê:
1. Os trabalhadores gozarão de adequada proteção contra atos de discriminação com relação a seu emprego.
2. Essa proteção aplicar-se-á especialmente a atos que visem:
13 Diversamente da Convenção nº. 87, a Convenção nº. 98 da OIT, foi ratificada pelo Brasil através do decreto
a) sujeitar o emprego de um trabalhador à condição de que não se filie a um sindicato ou deixe de ser membro de um sindicato;
b) causar a demissão de um trabalhador ou prejudicá-lo de outra maneira por sua filiação a um sindicato ou por sua participação em atividades sindicais fora das horas de trabalho ou, com o consentimento do empregador, durante o horário de trabalho.
A Convenção 98 estabelece a proteção do trabalhador perante qualquer espécie de atos que atentem contra o exercício de sua liberdade sindical. Qualquer ato contrário às garantias de liberdade sindical que prejudique o trabalhador pondo em risco seu emprego pelo fato deste ter se filiado ou não a determinado sindicato ou por ter praticado determinada atividade sindical, será visto como discriminatório e, portanto, é vedada.
Em seu Art. 2º continua a Convenção:
1. As organizações de trabalhadores e de empregadores gozarão de adequada proteção contra atos de ingerência de umas nas outras, ou por agentes ou membros de umas nas outras, na sua constituição, funcionamento e administração.
2. Serão principalmente considerados atos de ingerência, nos termos deste Artigo, promover a constituição de organizações de trabalhadores dominadas por organizações de empregadores ou manter organizações de trabalhadores com recursos financeiros ou de outra espécie, com o objetivo de sujeitar essas organizações ao controle de empregadores ou de organizações de empregadores.
Estabelece a proteção das entidades sindicais, tanto de trabalhadores quanto de empregadores, contra atos de ingerência, o que evita que se tenha um sindicato de trabalhadores financiado ou controlado por um empregador ou uma entidade patronal, de forma a criar, caso necessário, mecanismos nacionais de segurança para assegurar o respeito de tais direitos de sindicalização.
A negociação coletiva é tratada no Art. 4 e estabelece que os Estados devem adotar:
medidas apropriadas às condições nacionais serão tomadas, se necessário, para estimular e prover o pleno desenvolvimento e utilização de mecanismos de negociação voluntária entre empregadores ou organizações de empregadores e organização de trabalhadores, com o objetivo de regular, mediante acordos coletivos, termos e condição de empregos.
Em 1978 uma outra Convenção seria aprovada, a convenção nº. 15114 relativa a
proteção do direito de organização e aos processos de fixação das condições de trabalho da função pública. Nela, é assegurado ao servidor público participar da negociação das
14A convenção nº. 151 da OIT ainda não foi ratificada pelo Brasil. Porém, já foi envida uma mensagem ao
Congresso Nacional, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com o intuito de que seja ratificada. (Folha de S. Paulo
condições de trabalho. Determina a utilização da negociação ou de procedimentos específicos para solução de conflitos, tais como a conciliação, mediação e arbitragem. A própria convenção define a expressão “organização de trabalhadores da função pública”, dizendo, em seu art. 3, o seguinte:
art. 3º, para os efeitos da presente convenção, a expressão “organização de trabalhadores da função pública” designa toda a organização, qualquer que seja a sua composição, que tenha por fim promover e defender os interesses dos trabalhadores da função pública.
À essa organização de trabalhadores da função pública é garantido a proteção contra atos de discriminação que acarretem violação ao princípio da liberdade sindical, sendo autônomas e independentes, no que diz respeito a sua formação, funcionamento e administração, em relação as autoridades públicas. Isso é o que determina o art. 5º da convenção:
art. 5º, 1 - As organizações de trabalhadores da função pública devem gozar de completa independência face às autoridades públicas.
2 - As organizações de trabalhadores da função pública devem beneficiar de uma proteção adequada contra todos os atos de ingerência das autoridades públicas na sua formação, funcionamento e administração.
3 - São, designadamente, assimiladas a atos de ingerência, no sentido do presente artigo, todas as medidas tendentes a promover a criação de organizações de trabalhadores da função pública dominadas por uma autoridade pública ou a apoiar organizações de trabalhadores da função pública por meios financeiros ou quaisquer outros, com o objetivo de submeter essas organizações ao controle de uma autoridade pública.
Aos representantes das organizações de trabalhadores da função pública foi previsto que teriam certas facilidades para exercerem suas funções, porém, sem que com isso o funcionamento do serviço seja prejudicado. Para isso, serão tomadas medidas adequadas às condições nacionais, quando necessárias, com o fim de encorajar e promover a negociação direta entre representantes e autoridades públicas interessadas. Assim prevê a Convenção nº. 151 da OIT, em seus Art. 6º e 7º:
Art. 6º: 1 - Devem ser concedidas facilidades aos representantes das organizações de trabalhadores da função pública reconhecidas, de modo a permitir-lhes cumprir rápida e eficazmente as suas funções. quer durante as suas horas de trabalho, quer fora delas.
2 - A concessão dessas facilidades não deve prejudicar o funcionamento eficaz da Administração ou do serviço interessado.
3 - A natureza e a amplitude dessas facilidades devem ser fixadas de acordo com os métodos, mencionados no artigo 7.º da presente Convenção ou por quaisquer outros meios adequados;
Art. 7: Quando necessário devem ser tomadas medidas adequadas às condições nacionais para encorajar e promover o desenvolvimento e utilização dos mais amplos processos que permitam a negociação das condições de trabalho entre as autoridades públicas interessadas e as organizações de trabalhadores da função pública ou de qualquer outro processo que permita aos representantes dos trabalhadores da função pública participarem na fixação das referidas condições.
Em 1981 a OIT aprovou outra importante convenção sobre direitos sindicais. Trata-se da convenção nº. 15415 que proporcionou maior efetividade ao direito de negociação
coletiva. Trata da negociação coletiva sem mencionar outras formas de participação para definição das formas de trabalho. O termo “negociação coletiva” é conceituado no Art. 2º da convenção, bem como, os fins a serem perseguidos por tais negociações. Discorre citado artigo que:
Para efeito da presente Convenção, a expressão “negociação coletiva” compreende todas as negociações que tenham lugar entre, de uma parte, um empregador, um grupo de empregadores ou uma organização ou várias organizações de empregadores, e, de outra parte, uma ou várias organizações de trabalhadores, com o fim de: fixar as condições de trabalho e emprego; ou regular as relações entre empregadores e trabalhadores; ou regular as relações entre os empregadores ou suas organizações e uma ou várias organizações de trabalhadores, ou alcançar todos estes objetivos de uma só vez.
No caso da expressão “negociação coletiva” incluir a negociação feita por representantes dos trabalhadores, fica facultado à lei ou a prática nacional até que ponto esses representantes poderão negociar. Esse limite tem que ser observado para que não se tenha o prejuízo da organização de trabalhadores interessada.
A respeito temos o Art. 3º da convenção nº. 154 da OIT:
1. Quando a lei ou a pratica nacionais reconhecerem a existência de representantes de trabalhadores que correspondam à definição do anexo b) do artigo 3 da Convenção sobre os Representantes dos Trabalhadores, de 1971, a lei ou a prática nacionais poderão determinar até o ponto a expressão “negociação coletiva” pode igualmente se estender, no interesse da presente Convenção, às negociações com tais representantes.
2. Quando, em virtude do que dispõe o parágrafo 1 deste artigo, a expressão “negociação coletiva” incluir também as negociações com os representantes dos trabalhadores a que se refere o parágrafo mencionado, deverão ser adotadas, se necessário, medidas apropriadas para garantir que a existência destes representantes não seja utilizada em detrimento da posição das organizações de trabalhadores interessadas.
15 A convenção nº. 154 da OIT foi ratificada pelo Brasil através do decreto nº. 1256 de 29 de setembro de
É importante salientar o fato de que a convenção nº. 154 da OIT estendeu a prática da negociação coletiva aos representantes dos trabalhadores. Nesta esteira de raciocínio a representação dos trabalhadores ganha força, pois agora a negociação coletiva com a presença obrigatória do sindicato, no Brasil, não é uma regra absoluta, desde que não haja o enfraquecimento do sindicato e que não trate de matéria de competência exclusiva deste. Os representantes são legitimados à negociação coletiva, porém deverão ser adotadas medidas através de leis ou da prática nacionais impondo limites a essa atuação.
Por fim, a convenção nº. 13516 da OIT trata sobre representantes dos trabalhadores
na empresa, porém, será analisada em tópico específico, tendo em vista sua importância para o tema desta monografia. Continuaremos a evolução da liberdade sindical verificando seu reconhecimento como direito fundamental na ordem internacional.
1.2.2 A liberdade sindical como direito fundamental e a Declaração Internacional de Direitos Humanos.
Em uma visão tradicional do Direito Internacional temos o Estado como sendo o único sujeito de Direito Internacional, estando atrelado a ele o conceito de soberania17 e de
nação. Nação corresponde à consciência comum formada em razão da mesma procedência, experiência e língua, convertendo as pessoas em povo.
Deste poder incontrastável do Estado decorre como conseqüência o fato das convenções e os pactos internacionais não terem valor jurídico vinculante imediato na ordem interna. Assim sendo, só surtirão efeitos internos caso sejam incorporados aos ordenamentos jurídicos nacionais, por vontade de cada Estado. Desta forma, a dignidade da pessoa humana necessita de uma proteção muito maior do que a do âmbito interno dos estados, ela passa a ser prevista de maneira que transcende as fronteiras nacionais e o
16 A convenção nº. 135 da OIT foi ratificada pelo Brasil através do decreto nº. 131 de 22 de maio de 1991. 17 Soberania é “um poder político supremo e independente, entendendo-se por poder supremo aquele que não
está limitado por nenhum outro na ordem interna e por poder independente aquele que, na sociedade
internacional, não tem da acatar regras que não sejam voluntariamente aceitas e está em pé de igualdade com os poderes supremos dos outros povos” ( CAETANO, Marcelo. Direito Constitucional. 2.ed.Rio de Janeiro: Forense, 1987. p.169. v1. apud MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional . 16.ed. São Paulo: Atlas, 2004.p.52).
próprio Estado se compromete perante a comunidade internacional a tomar medidas para que os direitos fundamentais sejam respeitados internamente. Percebe-se, com isso, que o Estado não é mais o único sujeito de direito internacional.
Essa tutela jurídica dos direitos fundamentais em âmbito internacional está sujeita ao grau de legitimidade que tais direitos alcancem, sendo esta, condição necessária à aplicabilidade e ao cumprimento de seus preceitos por parte dos Estados nacionais.
Porém, existe uma questão relativa à aplicabilidade universal dos direitos humanos. Temos de um lado os direitos humanos individuais (direitos de primeira geração) e de outro os direitos coletivos (direitos de segunda geração). Quanto à aplicação dos direitos coletivos, à guisa de exemplo, o direito dos povos e o direito ao desenvolvimento. A critica paira na universalidade dos direitos individuais, vistos os argumentos no sentido de que esses direitos prejudicam o desenvolvimento de determinadas culturas, principalmente as diversas à ocidental. Porém, não deve prevalecer essa critica18, pois há uma ponderação na
aplicação de tais direitos no tocante à sociedade que está sendo dirigida. Portanto, seja na ordem individual, seja na ordem coletiva o exercício dos direitos humanos não é absoluto, busca-se um desenvolvimento coletivo desde que não se lese direito individual, sendo a recíproca verdadeira.
Neste sentido, deve haver uma mudança no paradigma interno no que diz respeito à aplicação das normas internacionais, os tratados. Os mecanismos de incorporação dessas normas por parte dos Estados devem permitir a aplicação de forma rápida e eficaz, ou uma ligeira adaptação do ordenamento estatal para recepcionar tal tratado, desde que faça parte do organismo internacional correspondente ou que tenha o próprio Estado firmado o tratado. O constitucionalismo é a base da nova concepção de direito internacional, fazendo com que os princípios de Estado de direito, como os civis, sociais, econômicos e políticos, sejam internacionalmente perseguidos. A aplicabilidade de alguns direitos depende, muitas vezes, das características e do contexto de determinada coletividade, como é o caso, por exemplo, dos direitos econômicos, sociais e culturais. Já o direito de liberdade é um direito subjetivo que visa sua não lesão por parte de outrem perante certo comportamento, sendo sua observância uma possibilidade de maior consenso. Essa diferença faz surgir a
separação em categorias distintas de tais direitos, porém a satisfação de um está atrelada à do outro.19
Após a Segunda Guerra Mundial é criada, a partir da carta das Nações Unidas, a Comissão de Direitos Humanos, com a finalidade de “adotar medidas de promoção do respeito e a efetividade dos direitos humanos e liberdades fundamentais” 20, fazendo surgir
no plano internacional uma nova concepção de direitos humanos a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Esta estabeleceu que o direito internacional prevalece sobre o nacional, prevendo ainda em seu texto os direitos sociais, econômicos e culturais, além do direito a uma ordem social e internacional que proporcione a efetividade das liberdades e direitos ali consagrados. Encontra-se expressamente em seu texto o direito a liberdade sindical: “Art. 23.4 Toda pessoa tem direito a fundar sindicatos e a sindicalizar-se para a defesa de seus interesses”. Fixando também seu limite aos direitos e liberdades dos demais indivíduos.
Apesar da declaração não ser dotada de efeito vinculativo relativo aos ordenamentos jurídicos dos Estados, ela teve uma grade influência como parâmetro para o desenvolvimento dos direitos humanos nos instrumentos internacionais que se seguiram, como também, no direito interno dos paises. Tem-se, então, a aprovação do Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais21 e do Pacto de Direitos Civis e
Políticos22.
O Pacto de Direitos Civis e Políticos, por sua vez, estabelece a titularidade dos direitos previstos em seu texto diretamente aos indivíduos, enquanto aquele está ligado aos Estados e a sua obrigação positiva para se fazer cumprir a proteção de tais direitos. Neste sentido, encontramos o direito a liberdade sindical como sendo uma obrigação de efeitos imediatos sem os quais não se pode falar na efetividade de tal liberdade. Para facilitar o cumprimento dessa obrigação o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e
19 Ibidem. p. 65 20 Ibidem. p. 68.
21O Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais foi ratificado pelo Brasil em 24 de abril
de 1992 e promulgado pelo decreto nº. 591/92.
22O Pacto de Direitos Civis e Políticos foi ratificado pelo Brasil em 24 de janeiro de 1992 e promulgado pelo
Culturais é amparado por informes que podem resultar em recomendações, observações ou assistência. Este pacto prevê em seu Art. 8o :
§1. Os Estados Membros no presente Pacto comprometem-se a garantir:
1. O direito de toda pessoa de fundar com outras sindicatos e de filiar-se ao sindicato de sua escolha, sujeitando-se unicamente aos estatutos da organização interessada, com o objetivo de promover e de proteger seus interesses econômicos e sociais. O exercício desse direito só poderá ser objeto das restrições previstas em lei e que sejam necessárias, em uma sociedade democrática, ao interesse da segurança nacional ou da ordem pública, ou para proteger os direitos e as liberdades alheias;
Tal artigo garante a formação de federações e confederações nacionais por parte dos sindicatos e o direito dessas de formarem ou filiarem-se a organizações internacionais. Condicionando que o exercício do direito de greve esteja de acordo com as leis de cada país. Prevê ainda restrições legais aos membros das forças armadas, da polícia ou da administração pública no que diz respeito ao exercício de tais direitos.
O direito a liberdade sindical também é previsto no pacto de direitos civis, porém com a diferença deste não mencionar restrições legais aos membros da administração pública.
Quando tratamos da liberdade sindical percebe-se que ela é um direito muito complexo que requer uma gama de garantias para o seu efetivo exercício. O Pacto de Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais são instrumentos de caráter universal e os próprios remetem-se para disposições de organismo especializado, como é o caso da Organização Internacional do Trabalho, que acabamos de analisar.
1.3 A liberdade e a autonomia sindical na Constituição de 88
A efetividade do direito à liberdade sindical do trabalhador só é realmente satisfatória quando amparada por garantias de âmbito individual e coletivo que permitam seu livre exercício. Tal direito está intimamente ligado à atuação plena dos direitos fundamentais, pois a ameaça destes atinge diretamente a liberdade sindical do trabalhador, que por sua vez, caso seja violada, incidirá nos direitos fundamentais.
As garantias constitucionais estabelecidas na Constituição de 1988 demonstram a amplitude da liberdade sindical no direito brasileiro. De um lado temos o grupo organizado que busca um fim comum e que tem determinadas garantias para isso. De outro temos a preocupação de defesa do trabalhador como indivíduo, com garantias próprias para que possa se organizar, permitindo assim o desenvolvimento de um âmbito coletivo, pois o indivíduo é pressuposto para a formação do coletivo. Como exemplo temos os atos anti-sindicais, que ao protegerem o individuo, dirigentes anti-sindicais, contra discriminação pelo empregador permitem ao sindicato, órgão coletivo, uma atuação pautada na liberdade. Portanto somente com a existência de garantias no âmbito individual e coletivo é que a liberdade sindical vai ser exercida de maneira a proporcionar a seus atores um resultado eficaz.
O texto Constitucional estabelece as principais regras a respeito da liberdade sindical. destaca-se o art. 8º no que tange a relação sindical, tanto no âmbito individual como no coletivo. Nele encontramos, como por exemplo, a liberdade sindical positiva e negativa, ou seja, o direito do trabalhador de se associar ou não ao sindicato. Temos também, como exemplo do âmbito coletivo, a vedação da criação de mais de uma organização sindical por categoria na mesma base territorial.
1.3.1 Âmbito individual
A Constituição traz em seu art. 8, inc V, que “ninguém será obrigado a filiar-se ou a manter-se filiado a sindicato”, caracterizando assim, a liberdade sindical negativa e positiva. A primeira é o direito do trabalhador de não se filiar ao sindicato, ou dele se retirar no momento em que lhe for conveniente. Essa liberdade de não aderir ou retirar-se do sindicato tem uma dupla proteção, na medida em que força o sindicato a exercer um bom trabalho para atrair o trabalhador favorecendo uma representação efetiva deste e impedindo pressões para que o trabalhador filie-se ou mantenha-se filiado ao sindicato caso não esteja satisfeito. A liberdade sindical positiva seria o direito do trabalhador de aderir a
um sindicato e nele permanecer filiado. Seria a ação sindical propriamente dita, ou seja, o direito do trabalhador de organizar sindicato.23
A Constituição, em seu art.8, inciso VIII, estabelece o direito de proteção especial aos dirigentes sindicais eleitos pelos trabalhadores: “é vedada a dispensa do empregado sindicalizado a partir do registro da candidatura a cargo de direção ou representação sindical e, se eleito, ainda que suplente, até um ano após o mandado, salvo se cometer falta grave nos termos da lei”. Trata-se de uma garantia do dirigente sindical que permite o exercício de sua atividade sem a influência patronal.
A questão atual que envolve esse tema é o número de trabalhadores membros na diretoria que terão essa proteção. O Art. 522, caput, da CLT, estabelece que a administração do sindicato será exercida por uma diretoria constituída de no máximo 7, e no mínimo 3 membros. Foi este o número, adotado pelos tribunais24, de dirigentes sindicais
que terão a proteção do art 8. VIII, da CF, mesmo violando o disposto no Art. 8º, I, da CF, que proíbe a interferência e a intervenção do poder público na organização sindical. Pois ao fixar o número de dirigentes que gozarão das prerrogativas do cargo está, evidentemente, interferindo na organização sindical. Procurou-se evitar que os sindicatos cometessem abusos contra o direito potestativo do empregador de dispensar injustificadamente seus empregados, porém o que ocorreu de fato foi uma afronta ao princípio da liberdade sindical.
A defesa dos interesses individuais e coletivos do trabalhador foi prevista pela Constituição no Art. 8º, III, dispondo que “ao sindicato cabe a defesa dos direitos e interesses coletivos ou individuais da categoria, inclusive em questões judiciais ou administrativas”. A questão paira em torno da expressão “interesses individuais da categoria”. O STF se pronunciou sobre o assunto, prevalecendo a interpretação ampla do termo, de forma a autorizar a substituição processual do sindicato para a defesa dos direitos dos trabalhadores em qualquer hipótese. Ou seja, o sindicato tem legitimidade extraordinária para defesa dos interesses individuais e coletivos dos trabalhadores.
23 DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 5ª ed. São Paulo: Ltr, 2006. p. 1304. 24 PEREIRA, Ricardo José Macedo de Britto. Op. cit. p. 129
1.3.2 Âmbito coletivo
A Constituição Federal permitiu ao sindicato ser livre e autônomo quanto a sua fundação e organização. O Art. 8, I, CF estabelece:
é livre a associação profissional ou sindical, observando o seguinte: I – a lei não poderá exigir autorização do Estado para a fundação de sindicato, ressalvado o registro no órgão competente, vedadas ao poder público a interferência e a intervenção na organização sindical.
Porém, a Constituição estabeleceu uma restrição: ela proibiu a criação de mais de um sindicato por categoria profissional ou econômica, na mesma base territorial, não podendo ser esta inferior a área de um Município. Demonstrando assim um dos resquícios da influência corporativista, qual seja, a unicidade sindical. A atuação estatal, de acordo com o STF:
se restringe à observância da norma constitucional no que diz respeito à vedação da sobreposição, na mesma base territorial, de organização sindical do mesmo grau. Interferência estatal na liberdade de organização sindical. Inexistência. O poder público, tendo em vista o preceito constitucional proibitivo, exerce mera fiscalização. ( STF – Rextr. nº 157.940- Rel. Min. Maurício Corrêa – informativo STF nº 104, p. 4.)25
A participação do sindicato na negociação coletiva passa a ser obrigatória segundo o Art. 8, VI, CF, devendo ser observado juntamente com o Art. 7º, quando trata da irredutibilidade do salário, salvo o disposto em convenção ou acordo coletivo e ao estabelecer a compensação de horários e a redução da jornada mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho. Ou seja, a interveniência sindical na negociação coletiva é indispensável nestas hipóteses.
Temos, a greve como sendo o direito de autodefesa dos trabalhadores estabelecido no Art. 9º da CF, facultando aos trabalhadores decidir sobre a oportunidade de exercê-la e sobre os interesses que devam por meio dele defender. O texto constitucional estabelece que a lei definirá limites para a greve determinando serviços ou atividades tidas como essenciais e disporá sobre o atendimento das necessidades inadiáveis da comunidade.
Por fim, encontramos na contribuição sindical mais um limite a liberdade sindical, neste caso a liberdade sindical negativa. As entidades sindicais têm como principal fonte de
renda as seguintes contribuições: a contribuição confederativa, a contribuição sindical, a contribuição assistencial e a contribuição social. Para o presente estudo interessa somente a contribuição confederativa e a contribuição sindical (antigo imposto sindical), pois são os que causam discussão a respeito da liberdade sindical negativa.
A contribuição confederativa foi prevista no Art. 8º, IV, da CF: “a assembléia geral fixará a contribuição que, em se tratando de categoria profissional, será descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representação sindical respectiva, independentemente da contribuição prevista em lei”. De acordo com a sumula nº. 666 do STF, a contribuição confederativa só é exigível dos filiados ao sindicato respectivo. Neste sentido Ricardo José Macedo de Britto Pereira faz a diferença entre a contribuição confederativa e a sindical:
A contribuição confederativa, instituída por Assembléia Geral, possui natureza distinta da contribuição sindical instituída por lei. Enquanto a última possui caráter tributário (Art. 149 da Constituição), sendo compulsória para todos os integrantes da categoria, a primeira é devida apenas para os filiados do sindicato.26
Em sentido contrário ao exposto e contrário a súmula 666 do STF, José Francisco Siqueira Neto afirma que:
Podemos dizer que a contribuição confederativa é devida por toda a categoria, e deve ser descontada compulsoriamente em folha de pagamento quando se tratar de categoria profissional, no valor ou percentual deliberado pela assembléia geral de cada representação sindical, observados os princípios da razoabilidade, da isonomia e da liberdade sindical negativa.27
Porém entendemos que a aplicação da contribuição confederativa para toda categoria, independentemente de associação, é uma posição minoritária. Discorrendo sobre contribuição confederativa, José Cláudio Monteiro de Brito Filho afirma:
É devida, apenas, pelos associados, visto que a liberdade sindical individual, prevista no Art. 8º, V, da CF/88, ao trazer a liberdade de não filiação, trouxe, também, a liberdade de não contribuição em relação às que forem objeto de deliberação interna das entidades sindicais.28
26 PEREIRA, Ricardo José Macedo de Britto. Op. cit. p.127 27 NETO, José Francisco Siqueira. Op. cit. p. 360
28 BRITO FILHO, José Cláudio Monteiro de. Direito Sindica. Análise do Modelo Brasileiro de Relações
Coletivas de Trabalho à Luz do Direito Comparado e da Doutrina da OIT – Proposta de inserção da Comissão de Empresa. 2ª ed. São Paulo: Ltr, 2007. p.130.
Em completa afronta à liberdade sindical negativa está a contribuição sindical, prevista no já citado Art. 8, IV, da CF. Esta contribuição é prevista em lei e cobrada compulsoriamente de trabalhadores e empregadores, independentemente de sua condição de associados ou não.29 Assim, é incompatível com a liberdade sindical individual de não
filiação.
A representação dos trabalhadores no local de trabalho é tratada no Art. 11 da CF. Será assegurada a eleição de um representante dos trabalhadores nas empresas com mais de duzentos empregados. Entretanto, este artigo será analisado em tópico específico no último capítulo.
1.4 Conclusões Parciais
Verificou-se nesse capítulo a influência do corporativismo italiano na formação do direito sindical brasileiro. O estudo da evolução sindical e da Constituição de 1988 permitiu a comprovar que o Brasil ainda não completou seu ciclo de democratização das relações de trabalho no âmbito coletivo. Isto fica evidente quando se analisa as regras internacionais, especificamente oriundas da OIT, e conclui-se que a aplicação de normas internacionais, relacionadas ao principio da liberdade sindical, encontra barreiras na legislação brasileira, principalmente na Constituição, que ainda mantém resquícios do corporativismo.
Neste sentido, a Carta Magna tem como uma das principais características que impede a aplicação de normas internacionais a proibição de mais de um sindicato por categoria profissional ou econômica na mesma base territorial (unicidade sindical). Como decorrência temos a não possibilidade de ratificação da Convenção nº. 87 da OIT, pois o sindicato único é um fator que não coaduna com a liberdade sindical.
2 REPRESENTAÇÃO DOS TRABALHADORES NO LOCAL DE TRABALHO NO DIREITO ESTRANGEIRO.
O presente capítulo trata da representação dos trabalhadores no local de trabalho no direito estrangeiro. Inicia-se com a abordagem da representação dos trabalhadores no local de trabalho como expressão da liberdade sindical (2.1). Em seguida temos a análise dos diversos modelos de representação dos trabalhadores no local de trabalho (2.2). A seção 2.3 faz uma referência sobre as experiências internacionais: Espanha (2.3.1) e Itália (2.3.2). Em seguida tem-se uma abordagem a respeito da representação dos trabalhadores na ordem internacional (2.4), sob o aspecto da convenção 135 a da recomendação 143, ambas da OIT. Finalizando o capítulo encontramos as conclusões parciais no item 2.5.
2.1 A representação dos trabalhadores no local de trabalho como expressão da liberdade sindical
A liberdade sindical permite a busca dos interesses dos trabalhadores a partir de um sindicato autônomo e com garantias que diminuem a diferença de poder na relação patrão e empregado. A organização através de sindicatos, entretanto, não é a única forma do trabalhador lutar pela defesa de seus objetivos, como bem exemplifica Siqueira Neto:
o trabalhador individual pode, também, perseguir o objetivo dessa defesa por meio de instrumentos organizativos diversos das estruturas oficiais do sindicato (por exemplo, por meio de coalizões mais ou menos ocasionais ou por meio de instrumentos de representação do pessoal não filiado às associações sindicais) 30.
O trabalhador só consegue ter poder para negociar com o empregador perante a união em prol de um objetivo comum. Para isso, todo instrumento que estiver disponível para diminuir a diferença de poder na relação de emprego será válido. Existem outras modalidades de representação dos trabalhadores que servem, não como forma substitutiva do sindicato, mas como mecanismos, isolados ou conjuntos a este, para promover o equilíbrio e assegurar o contrapoder dos trabalhadores.
Existem organismos para representação dos trabalhadores em áreas específicas, como é o caso das CIPAS (Comissões Internas de Prevenção a Acidentes), que atuam na prevenção de acidentes. Temos também as representações genéricas, tendo como exemplo as Comissões de Fábrica, tendo estas, no entanto, representação restrita, já que não podem atuar nos limites atribuídos à competência exclusiva do sindicato, na negociação coletiva, por exemplo, e não estão garantidas na legislação brasileira. A principal característica que afasta tais organismos dos sindicatos é o fato da necessidade do trabalhador ser associado ao sindicato para participar da vida sindical, enquanto que para as representações internas a associação é indiferente, pois visam representar a totalidade dos trabalhadores.
Entendemos que no conteúdo da liberdade sindical, estão inseridas a garantia a atuação sindical e a representação dos trabalhadores no local de trabalho, visto que o ideal
30 NETO, José Francisco Siqueira. Liberdade Sindical e a Representação dos Trabalhadores nos Locais de
da liberdade sindical é a proteção do trabalhador, não importando qual forma esta será exercida.
2.2 A representação dos trabalhadores na ordem internacional
A análise da representação dos trabalhadores no local de trabalho no cenário internacional nos remete à regulamentação da OIT (Organização Internacional do Trabalho), que aborda o tema, mais especificamente, na convenção 135 e na recomendação 143.
Para que o representante dos trabalhadores tenha liberdade para exercer suas funções sem que seja constrangido pelo empregador é necessário que ele fique protegido perante este. Segundo Arnaldo Süssekind, os representantes dos trabalhadores
devem gozar de proteção eficaz contra todas as medidas que possam prejudicá-los, quando motivados pelo exercício da representação, da filiação sindical ou da participação em atividades sindicais, desde que observadas as leis, as convenções coletivas e outras normas jurídicas. 31
A Convenção 135 trata especificamente da proteção e facilidades a serem concedidas aos representantes dos trabalhadores na empresa, fazendo com que a liberdade sindical, como direito fundamental, seja posta em prática e, como visto acima, sendo a extensão desta.
O art. 3 da Convenção traz o conceito de representantes dos trabalhadores como sendo aquelas pessoas reconhecidas como tal pela legislação ou pelas práticas nacionais, sendo eles:
a) Representantes sindicais, isto é, representantes livremente eleitos pelos sindicatos ou pelos membros dos sindicatos;
b) Representantes eleitos, isto é, representantes livremente eleitos pelos trabalhadores da empresa, em conformidade com as disposições da legislação nacional ou de convenções coletivas, e cujas funções não se estendem às atividades que são reconhecidas, nos países interessados, como dependentes das prerrogativas exclusivas dos sindicatos.
31 SUSSEKIND, Arnaldo. Direito Constitucional do Trabalho. 3º.ed.(ampl. e atual.). Rio de Janeiro: Renovar,