Programa de Pós-Graduação em Enfermagem - Mestrado
Departamento de Enfermagem
PARTEJAR - A ENFERMEIRA
E A HUMANIZAÇÃO DO CUIDADO DE ENFERMAGEM
Isolda Pereira da Silveira
Fortaleza
2003
PARTEJAR - A ENFERMEIRA E A HUMANIZAÇÃO DO
CUIDADO DE ENFERMAGEM
Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Enfermagem do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Mestre em Enfermagem.
Linha de pesquisa - Assistência participativa de Enfermagem Clínico-Cirúrgica em Situação Saúde Doença
Orientadora:
Profa Dr1 Ana Fátima Carvalho Fernandes
Fortaleza
2003
S588p
Silveira, Isolda Pereira da
Partejar: a enfermeira e a humanização do cuidado de enfermagem. / Isolda Pereira da Silveira. ~ Fortaleza, 2003.
84f.
Orientador: Prof.£! Dr? Ana Fátima Carvalho Fernandes. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal do Ceará. Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem.
1. Parto 2, Cuidados de Enfermagem 3. Enfermeiras Obstétricas 4. Enfermeiras. I Fernandes, Ana Fátima Carvalho (orient.) II Título.
PARTEJAR - A ENFERMEIRA E A
HUMANIZAÇÃO DO CUIDADO DE ENFERMAGEM
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará como requisito para a obtenção do título de Mestre em Enfermagem.
A DEUS, fonte divina de luz sabedoria, e amor por ter me guiado e iluminado nesta caminhada infiltrando meu ser de energias.
Às minhas filhas Marília e Silvia pelo incentivo, amor, carinho, apoio e felicidade de compartilhar com elas mais uma etapa vencida.
Aos meus netos queridos Gabriela, Lucas e Júlia por compreenderem os momentos de ausência que me privaram de suas presenças carinhosas.
Aos meus pais por terem sido um grande sustentáculo de amor, dedicação, estímulo e apoio na minha vida (//? memorían).
Ao Paulo, meu marido (in memorían) que sempre me incentivou na minha caminhada profissional.
À Prof.a Dr.a e orientadora Ana Fátima Carvalho Fernandes, por sua amizade e por ter acreditado e confiado em mim, e por estar sempre de bem com a vida, estimulando sempre meu crescimento.
À Prof.a Dr,a Maria Grasiela Teixeira Barroso, pelo carinho, disponibilidade e força estimuladora durante toda a caminhada do mestrado.
Aos professores do curso de mestrado que me transmitiram durante todas as aulas, saberes e novos conhecimentos.
As colegas enfermeiras que se dispuseram a participar da pesquisa, com bom humor, alegria e amizade.
À Diretora de Enfermagem da Maternidade Escola Assis Chateaubriand - MEAC, Ivoneide Oliveira, pelo apoio e por ter possibilitado o meu afastamento para que eu seguisse esta trajetória.
Ao Prof. Dr. Francisco Manuelito Lima de Almeida. Diretor da Maternidade Escola Assis Chateaubriand - MEAC, pelo apoio e por permitir a realização desta pesquisa. À amiga Ana Martins pela amizade e incentivo.
À minha amiga Antônia, pela amizade, por caminharmos juntas durante todo o curso de mestrado, neste desafio de mais uma etapa na nossa vida profissional.
Às parturiente mesmo indiretamente nos mostraram, na singeleza de suas vidas, ensinamentos e lições de vida.
À Mary Anne pela sua disponibilidade, sempre pronta a atender minhas solicitações independente de hora e dia e pelo seu bom humor, e amizade.
À todos que, direta ou indiretamente, contribuíram na realização deste estudo, o meu muito obrigada.
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2 - REVISÃO DE LITERATURA... 16
2.1 A Gravidez e o Parto... 16
2.2 O ato de partejar... 23
3 CAMINHO METODOLÓGICO... 28
3.1 A Teoria de Paterson e Zderad... 28
3.2 A importância dos Conceitos no Ato de Partejar... 31
3.3 Tipo de Pesquisa... 37
3.4 Caracterização dos Sujeitos do Estudo... 38
3.5 Cenário da Pesquisa... 38
3.6 Coleta de Dados: ... 40
3.7 Análise dos Dados... 41
3.8 Aspectos Éticos... 42
3.9 Entrada no Campo... 42
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS... 45
4.1 Cenários... 46
4.2 Unidade Temática: O Cuidado Humanizado no Partejar... 53
4.2.1 Categoria: Cuidado individualizado... 53
4.2.2 Categoria: Apoio emocional ... 56
4.2.3 Categoria: O envolvimento dos profissionais durante o 59 trabalho de partejar... 4.2.4 Categoria: Necessidade de segurança no partejar... 60
4.2.5 Categoria: Preocupação da enfermeira quanto á 63 equipe de profissionais e a prática do cuidado humanizado... 4.2.6 Categoria: Cuidado humanizado recompensador... 65
4.2.7 Categoria: Falta se sensibilização quanto ao cuidado 66 humanizado... 5 IMPLICACÓES DO ESTUDO PARA A PRÁTICA PROPOSTA... 69
6 PERSPECTIVAS PARA A HUMANIZAÇÃO DA PRÁTICA DOS 73
CUIDADOS DE ENFERMAGEM ~ PROPOSTA... REFERÊNCIAS...
82 ANEXOS...
Objedvou-se neste estudo, investigar o cuidado de enfermagem prestado à parturiente na percepção da enfermeira durante o partejar, no enfoque humanístico. Os sujeitos deste estudo foram cinco enfermeiras que trabalham no Centro de Parto Normal (CPN), nos turnos da manhã, tarde e noite. A coleta de dados ocorreu nos meses de julho e agosto de 2002 tendo como cenário para o desenvolvimento do estudo o CPN de uma maternidade pública federal, com capacidade de 205 leitos. Optou-se pela observação livre e entrevista com uso de gravador. Os dados analisados foram apoiados em Bardin (1977), na operacionalização da temática e das categorias, fundamentados à luz da teoria humanística de Paterson e Zderad (1988). Dos resultados foi possível vislumbrar que o cuidado humanizado no partejar é compreendido a partir das seguintes categorias: cuidado individualizado, apoio
emocional, o envolvimento dos profissionais durante o partejar, necessidade de segurança no partejar, preocupação da enfermeira quanto ao cuidado humanizado, cuidado humanizado recompensador, desconhecimento do cuidado humanizado.
Concluiu-se que as enfermeiras reconhecem ser necessária a reestruturação do serviço e mudanças de atitudes diante do partejar. Sugere-se a preparação da enfermeira para o fortalecimento do cuidado de enfermagem humanizado à parturiente e a presença autêntica da enfermeira no partejar.
Palavras Chave: Parto, Cuidados de enfermagem, Enfermeiras obstétricas, Enfermeira.
The aim of this study is to investigate the nursing care for parturient women baseei on the nurses’ perceptions under humanitarian views. Five nurses, who work during morning, eveníng and night shifts ai the Normal Delivery Unit, were the basis of this study. The data was collected during the months of Juíy and August of 2002 at a public federal maternity with 205 beds. It was conducted opened observation and recorded interviews for data collection. Data analysis was supported by Bardin’s (1977) framework and also Paterson and Zderad's (1988) humanistic theory. The results showed that the humanised care during birth is understood in the following categorias: individual care, emotional support, professional evolvement during birth, feeling secure during birth, nurse’s concern for humanised care, rewarding humanized care, unknowledge of humanised care. We concluded that nurses find necessary to reorganise the Service and change the atíitude before birth. We suggested better professional care to empower the nursing humanised care for parturient women and make the nurse's assistance be genuine.
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Nestas últimas décadas, percebe-se que os profissionais enfermeiros sentiram a necessidade de melhorar suas práticas do cuidado em relação à parturiente. Essas práticas têm sido incentivadas e propagadas através da Organização Mundial de Saúde (OMS) como preocupação constante na assistência ao parto e nascimento, dando origem ao surgimento de recomendações relativas à assistência à humanização do parto. Estas recomendações dão ênfase à valorização a mulher ao receber cuidados, desde o pré-natal, envolvendo fatores de ordem social, emocional e técnico- científico utilizando ainda métodos naturais não farmacológicos que auxiliam durante todo o processo de parturir para o alívio da dor. A atenção dispensada à parturiente durante o parto representa um ato indispensável, como também direito fundamental da mulher grávida (BRASIL, 2001).
Segundo Brüggemann (2001, p. 42), na obstetrícia, a primeira atitude
humanística é compreender o nascimento como um processo e não apenas como um evento. Assim, o cuidado humanizado desenvolvido pelo enfermeiro deve ser iniciado
desde o pré-natal e continuar durante o ato de partejar.
É relevante o pensamento de Waldow (1999, p. 202) quando comenta que a
cuidadora deve ser capaz de entenderas necessidades do outro. Este fato nos leva a crer que as necessidades demonstradas podem, de alguma maneira, ser respeitadas e satisfeitas dentro do processo de cuidar no ato de partejar.
Neste contexto, Osava (2003, p.10) afirma que o papel da enfermeira na humanização do parto visa a promoção do ser humano, em sua cidadania e dignidade. Isso é, ser solidária e respeitar o processo fisiológico do parto.
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Com base em vários autores (ZIEGEL, 1995; LARGURA, 1998; SABATINO, 1998) demonstrou-se que o respeito pelo processo fisiológico do parto é responsabilidade do cuidador, devendo estar atento na ação de partejar, estabelecendo o elo entre parturiente e cuidado. É o momento do encontro, de estar presente, do diálogo, quando a enfermeira se posiciona frente ao ser parturiente para caminharem juntas, em direção a único objetivo: humanizar o parto e o nascimento.
É muito importante o resgate natural do parto e nascimento e para tal, a Rede Nacional de Humanização do Parto (REHUNA), criada em 17 de outubro de 1993, desenvolve um trabalho de conscientização e de assistência à humanização do parto, com propostas de reaver o nascimento como evento existencial e sócio cultural crítico, com profundas e amplas repercussões pessoais, revalorizar o nascimento, aliar conhecimentos técnico e científico sistematizado e comprovado a práticas humanizadas de assistência a partos e nascimentos, recuperando a naturalidade do parto e do nascimento.
Eventos em prol da humanização do parto e nascimento, têm destaque ultimamente. No ano 2000, Fortaleza serviu de palco para a Conferência Internacional para o Parto e Nascimento, onde foram discutidos assuntos relevantes da assistência obsíétrica, contando com a participação de profissionais de saúde do mundo inteiro.
Várias estratégias para melhorar o cuidado da parturiente vêm sendo investigadas e discutidas em outros países. Um relato pela internet .intitulado Por um
parto mais humanizado chamou-nos atenção pelo enfoque humanístico ao parto e
nascimento, no qual, segundo Gil (2001), a matrona (enfermeira obstetra) tem papel importante durante todo o desenrolar do processo de parturição.
Segundo Tyrrel (2001), várias instituições adotaram o modelo de humanização na assistência obstétrica, no Brasil: Hospital Sofia Feldman, conveniado com o Sistema Único de Saúde (SUS), e Casa de Parto Dr. David Capistrano (onde a assistência ao parto normal e a sua realização é da competência da enfermeira obstetra), em Belo Horizonte; Maternidade Leila Diniz e Casa de Parto Nove Luas (Rio
de Janeiro); Casa de Parto de Sapopemba (São Paulo). Na Universidade Federal do Ceará (UFC), encontra-se em fase de implantação o Polo de Capacitação, a ser cognominado Dr. David Capístrano, CE.
Conforme Osava (1997), o serviço pioneiro de casas de parto no Ceará aconteceu nos anos de 1975 a 1985, tendo como idealizador o professor e médico obstetra, Galba Araújo, com apoio da Universidade Federal do Ceará, através da Matemidade-Escola Assis Chateaubriand (MEAC).
Contamos ainda com a Associação Brasileira de Enfermeiros Obstetras (ABENFO), que está na luta pela assistência mais humanizada á mulher, contribuindo para a abertura de espaços aos enfermeiros obstetras.
O nosso interesse pelo estudo da temática surgiu em consideração à sua relevância desde a fase de graduação em uma maternidade pública, onde houve maior identificação com a obstetrícia, ao prestarmos cuidados de enfermagem às parturientes.
Naquela ocasião, os primeiros ensaios para a humanização do parto já eram observados, desenvolvendo várias atividades ligadas à humanização do parto natural, entre as quais podemos citar: a permanência do bebê junto à mãe, após o nascimento ainda ligados pelo cordão umbilical, o aleitamento materno imediato e as orientações às mães no alojamento conjunto.
Logo após a graduação, já fazendo parte do corpo de enfermeiras da referida maternidade, sentíamos que estar junto com a parturiente em trabalho de parto era o momento de maior realização profissional. Acreditamos ser pelo fato de a enfermeira prestar um cuidado mais direcionado e de poder ajudar a mulher em uma etapa da vida tão importante: a de tornar-se mãe e também satisfazer as suas necessidades básicas naquele momento de tanta expectativa.
Na mesma ocasião, trabalhando no Ambulatório de Pré-Natal do Núcleo de Assistência Materno-lnfantil (NAMI) da Universidade de Fortaleza (UNIFOR), fazendo
consultas de enfermagem às gestantes, sentimos a importância de informar às mulheres o que se relaciona com a gestação e o parto.
A permanência de sete anos na referida Universidade, na disciplina Enfermagem Materno-lnfantil, do curso de graduação em Enfermagem, aumentou a nossa experiência, unindo a teoria e a prática.
Por ocasião de uma transferência para Belém do Pará, trabalhamos no ambulatório de Pré-Natal da Santa Casa de Misericórdia e participamos como professora, de cursos e aulas na graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Pará. De volta a Fortaleza, após quatro anos, continuamos na MEAC, surgindo a oportunidade de participarmos de seminários sobre Parto Humanizado, pela Agência de Cooperação Internacional do Japão (JICA), em 1997. A partir daí, foram realizados vários seminários em cidades do interior do Ceará, e em maternidades públicas federais e municipais de Fortaleza. Em junho de 1998, participamos, pela Secretaria de Saúde do Estado do Ceará e JICA, de um curso com duração de sessenta dias sobre a Saúde Materna e a Humanização do Parto e Nascimento, no Japão; antes de nos dirigir às instituições para realizar a prática, participamos de um curso sobre orientação preliminar de História, Educação, Economia, Cultura Japonesa e Curso intensivo de Língua Japonesa. Na prática, observamos a realidade de lá, em relação à assistência á saúde da mulher e do bebê, em hospitais de grande e médio porte e casas de parto. No Japão, o parto é encarado com muita naturalidade e a maioria dos nascimentos são por partos normais, sendo a cesárea, o último recurso. Existem inúmeras casas de parto, locais com ótima infra-estrutura, destacando-se o atendimento humanizado ao parto normal. As midwives são profissionais com formação universitária, cursam obstetrícia durante 4 anos, acompanham a mulher em idade reprodutiva, realizam pré- natal e partos normais nas suas próprias casas de parto e em hospitais, dentro de uma filosofia voltada para a humanização ao parto e ao nascimento. A ambientação e o acolhimento da parturiente e dos componentes familiares são detalhes que se completam no atendimento ao pré-natal, Várias enfermeiras tiveram essa mesma experiência, tanto no Japão como em vários centros de parto normal (CPN) no Brasil.
parturiente é cuidada com humanização e com carinho, respeitando cada momento do processo de parturição, compreendido do pré-naíal ao parto, nascimento e puerpério,
Essa oportunidade de aprendizado levou-nos a repassar os conhecimentos adquiridos no curso realizado no Japão, com realização de alguns seminários dentro da nossa unidade de trabalho, com a finalidade de sensibilizar enfermeiros e auxiliares de enfermagem.
Em 1999, trabalhamos como docente da Universidade Estadual do Ceará, no Curso de Especialização em Enfermagem Obstétrica, como professora-visítante, acompanhando os alunos do curso de especialização, na prática e teoria, sensibilizando os alunos para o cuidado humanizado com as parturientes, formando multiplicadores em outros serviços.
Muitas são as dificuldades para implantar o sistema de cuidados ao parto natural, como a infra-estrutura apropriada e a sensibilização dos profissionais para um parto menos mecânico e mais humanizado.
Durante anos de experiência profissional, observamos o comportamento das mulheres em trabalho de parto. Percebemos que poderiamos ajudá-las, desenvolvendo atividades voltadas ao equilíbrio emocional e físico, durante o período do trabalho de parto e parto, no ato de partejar. O acolhimento dessas mulheres poderia ser de uma maneira que satisfizesse as suas necessidades. A experiência de dar à luz é para a mulher uma recordação única, que fica registrada para sempre em sua memória. E, por compreender a complexidade do cuidado de enfermagem humanizado, elegemos como objeto de estudo o ato de partejar no processo de cuidar realizado pelo enfermeiro.
Consideramos relevante o tema escolhido, pelo farto de esta autora ser enfermeira obstetra e acreditar no que faz e, principalmente, no que poderá trazer mudanças para as (os) enfermeiros (as) obstetras em relação ao cuidado com habilidade e competência, modificando procedimentos rotineiros, atitudes e palavras,
levando em consideração as singularidades de cada mulher com maneiras prazerosas e afetivas de estar com, vivenciar e poder ser útil durante todo o decurso da parturição.
É importante ressaltar estudos de outros autores relacionados com esta temática. Simões (1998), em O Ser parturiente, um enfoque vivencial, Oliveira (2001) com a obra A Melodia da Humanização, Silveira (1999) com o trabalho: Parto Ativo:
assistência de Enfermagem. Estas autoras descrevem a vivência do processo de parturição, convergindo para a assistência humanizada, mostrando a importância de desenvolvermos trabalhos desta natureza.
Durante a nossa experiência como enfermeira obstetra, sempre observando e permanecendo ao lado da mulher no período do parto, realizamos investigações sobre a melhor maneira de cuidar da mulher hospitalizada em trabalho de parto, dentre as quais destacamos, Refletindo sobre o Cuidado de Enfermagem à Luz de Collière, onde a tônica é a reflexão do cuidado no ato de partejar (SILVEIRA; LEITÃO, 2001).
Observamos a importância da equipe de enfermagem em ser direcionada para o cuidado durante o parto e nascimento, que satisfaça a mulher, estimulando-a para que tenha um parto participativo, não passivo, com segurança, seguindo a própria fisiologia de seu corpo, diminuindo, desta maneira, os partos fórceps e abdominais.
Diante da importância dos fatos expostos, sentimos a necessidade de investigar o cuidado de enfermagem prestado à parturiente na percepção da enfermeira durante o ato de partejar, no enfoque humanístico.
2 REVISÃO DE LITERATURA
2.1 A Gravidez e o Parto
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/eiwce/de.A gravidez é uma fase de experiências marcantes em razão do surgimento de mudanças físicas e emocionais. 0 corpo da mulher é alvo de alterações fisiológicas, anatômicas e, harmoniosamente, o organismo feminino inicia a obra divina, a gravidez, que, nas suas entranhas, aos poucos se desenvolve até o grande momento do nascimento. Este momento natural, espontâneo, é considerado por Centa (1996, p. 91) como o milagre da vida. A vida é gerada no útero da mulher, fruto do amor, lhe confere mais maturidade, feminilidade e plenitude.
Tedesco (1999, p. 267) refere-se à gravidez como a afirmação da
feminilidade e auto-estima. Percebe-se, via de regra, que neste estado a mulher sente- se mais mulher, mais sensível e importante pelo fato de abrigar em seu útero uma vida. É com muita expectativa que ela espera o grande momento de tornar-se mãe.
Observa-se que, quando a gestação ocorre, logo os primeiros sinais e sintomas aparecem, No início, a mulher sente-os como prováveis e só depois estes se confirmam como positivos. Por volta da 18a semana de gestação, nota-se que o útero aumentou de volume, aparecendo em destaque a barriga. Durante a gestação, todo o sistema reprodutor feminino - útero, trompas, ovários, vagina e mamas - passam por modificações para abrigar o feto que se desenvolve protegido no útero, dentro do saco amniótico.
Segundo Branden (2000, p. 35), é entre 38a a e a 40a semana de gestação,
primeiros sinais para descer. Surge, então, a necessidade de se iniciar os procedimentos de partejar.
Partejar, tem o significado de: servir de parteiro/a, adular, bajular (FERREIRA, 1999, p. 1504). Na nossa concepção, tem relacionamento com o cuidado dispensado à parturiente por todo o período do trabalho de parto, tendo como características o acolhimento da parturiente, a presença, o diálogo, o ato de ouvida e orientá-la.
No primeiro período do parto, que é denominado diíatação, a gestante apresenta sintomas característicos de parto, como as contrações uterinas de leve intensidade, que ocorrem quando o bebê começa a se adaptar ao estreito superior. Estas contrações, que podem desencadear na gestante desconforto na região lombar, ocorrem no período prodrômico do parto (REZENDE, 1992).
Verifica-se que, com a perda do tampão mucoso, as contrações uterinas tornam-se mais constantes, e, segundo Ziegel e Cranley (1998), estas contrações são involuntárias, não podendo ser controladas pela parturiente, Este é o momento indicado para encaminhar a parturiente á maternidade, para ser avaliada por um médico (a) ou uma enfermeira, ambos obstetras. Esta avaliação se realiza através de vários procedimentos técnicos, tais como, a anamnese da parturiente, verificação dos seus sinais vitais, da dinâmica uterina e da ausculta fetal e da execução das manobras de Leopold. É através destas manobras que se reconhece a posição do feto, se está do lado esquerdo ou direito da mãe, e a apresentação fetal, se cefálica ou pélvica. Constata-se, através do toque vaginal, a diíatação em centímetros e peculiaridades do colo do útero e da bolsa das águas (saco amniótico), se íntegra ou rota. A cor do líquido amniótico é de grande importância.
Ao se constatar a presença de trabalho de parto, deve-se providenciar a internação da parturiente, na maternidade, No momento em que a parturiente é internada, algumas medidas são tomadas de acordo com a rotina hospitalar, no que se refere a tricotomia, enema e acompanhante.
Havemos de destacar o que relata Brüggemann (2002, p. 23) sobre o desconhecimento do processo do parto, que faz com que as gestantes se desloquem em idas e vindas, criando um certo desconforto e preocupação, Para que isso não aconteça, as gestantes devem ser bem informadas sobre o início do trabalho de parto, evitando momentos desgastantes para a parturiente. A autora acentua que o trabalho de parto é um processo fisiológico, caracterizado, por contrações uterínas regulares e
de intensidade e frequência crescentes, eficazes para apagar o colo e dilatar a cérvix.
Desta maneira, é necessária uma avaliação dos sinais e sintomas, precisando-se de saber diferenciar adequadamente o falso trabalho de parto do trabalho de parto verdadeiro, possibilitando a internação da parturiente.
Inexiste o "momento ideal" para internar a gestante, muito embora seja desejável que a internação da parturiente seja realizada na fase ativa do parto (BRASIL, 2001).
Após a internação a parturiente é encaminhada para realizar os procedimentos convencionais de assepsia, higiene corporal e de vestir a indumentária própria da unidade hospitalar. Só então ela é conduzida ao Centro de Parto Norma! (CPN). É importante ressaltar que a realização da tricotomia atualmente não é mais rotina hospitalar, depende da opção da parturiente para que esta seja feita (BRASIL, 2001).
Atualmente, algumas instituições hospitalares vêm realizando mudanças nas sua rotinas de atendimento à gestante, com o objetivo de humanizar o parto e nascimento, durante todo o trabalho de parto. São modificações que viabilizam uma participação mais ativa da mulher e de sua família. É importante ressaltar que, em países desenvolvidos, os centros de partos normais apresentam uma atmosfera semelhante ao ambiente doméstico, em geral, aos cuidados da enfermeira obsíétrica e mostrando que a satisfação ao atendimento realizado pelas enfermeiras obstetras era maior do que o atendimento em hospital-padrão (OMS,1996). É necessário fortalecer, desenvolver um compromisso estreito entre profissional-cliente.
Concordamos com Freire (1999, p. 19), quando díz que o verdadeiro
compromisso é a solidariedade, portanto a acolhida, fato de estar presente. São
compromissos que fazem parte do cotidiano de trabalho da enfermeira no cuidado com a parturiente e com a sociedade. O cuidado de enfermagem é uma atividade diária, que visa a satisfazer as necessidades expressadas pela parturiente durante o ato de partejar. Porém, como descrevem Simões e Souza (1997, p. 174), a convivência
cotidiana e mediana de um com o outro é caracterizada pelos modos deficientes de preocupação, como deficiência e indiferença. Preocupada com a maneira deste modo de cuidar no contexto das respostas dadas as parturientes pelas cuidadoras vou já, é
assim mesmo, tem que aguentar, você tem que ser forte, etc, percebemos a
necessidade de um diálogo entre a cuidadora e a parturiente. Essa atenção para com ela visa a propiciar um envolvimento real, evitando uma visão negativa por todo o período anterior ao parto. A enfermeíra-obstetra é a profissional que está mais próxima da parturiente, portanto, a relação respeitosa com ela, procurando entender seus sentimentos, emoções, e crenças, conduzindo o parto de maneira natural e fisiológica, promovendo bem-estar físico e emocional, deve ser a tônica dos cuidados de enfermagem nos procedimentos de partejar.
Silva (1998, p, 74) refere-se ao cuidado como um processo essencial não só
para a complexidade crescente da qualidade, mas príncipalmente para a própria sobrevivência da vida no planeta. Deste modo, o fato de estar presente no cuidado à parturiente poderá trazer benefícios no contexto de nascer e de poder sobreviver saudável.
Erdman (1998) comenta sobre a criatividade e sensibilidade que o cuidador possa ter para executar a assistência de acordo com a situação. Parece haver na assistência obsíétrica um campo aberto para a realização de cuidados criativos e eficazes. Durante a primeira fase que antecede o parto, verificamos que o cuidado de enfermagem prestado á mulher através do uso de simples técnicas terapêuticas, como mudanças de posições, deambulação, massagens do períneo com o uso da bola de borracha, uso do cavalinho (cadeira de balanço em forma de cavalinho) que favorece o
balanceio pélvico e, como consequência, a descida do feto, que contribuí para favorecer o desenvolvimento do trabalho de parto natural, além da atuação da força da gravidade, que influi positivamente neste processo (CEARÁ, 2000).
Maldonado (1998) ressalta a repercussão do contexto assistencial da vivência do parto, para que esta não seja negligenciada. Mostra que, através da assistência de enfermagem bem elaborada, a parturiente pode se sentir confiante, cooperar no processo do parto e, assim, usufruir de uma série de vantagens proporcionadas por um nascimento natural,
Tanaka (2000) comenta que é de fundamental importância o papel da enfermeira obstetra com a habilidade ao partejar. O cuidado dispensado à parturiente pela enfermeira no ato de partejar precisa Ter um significado dignificante por ser um momento de grande sensibilidade e de ajuda.
Além disso, a Organização Mundial de Saúde (1996) refere ser a enfermeira a profissional certa para assistir a mulher durante o trabalho de parto e parto, por não ser intervencionista.
Concordamos com Bessa (2002), ao referir-se à necessidade de enfermeiras no centro obstétrico para que favoreça ao processo natural e fisiológico do parto. Portanto, o cuidado humanizado durante a parturição, no segundo período do parto ou de expulsão (que tem início quando a dilatação atinge dez centímetros, sendo considerada como completa), é indispensável, como o controle e a observação dos acontecimentos deste período, bem assim o comportamento da parturiente, especialmente sua aparência. As alterações que possam surgir devem ser consideradas de grande valia, subsidiando para procedimentos de partejar eficiente.
A avaliação da vitabilidade fetal, realizada através do Sonnar ou do Pinarei, tendo como parâmetros 120-160 batimentos cárdiofetais e o acompanhamento da evolução do trabalho de parto, são cuidados que, segundo Goldman (2002), contribuem para diagnosticar oportunamente intercorrências. É um cuidado indispensável e zelo à parturiente durante o ato de partejar.
Para Odent (2000), qualquer situação que estimule um disparo na liberação de hormônios da família adrenalina, também, tende a estimular o neocórtex e, como resultado, inibir o processo de parto.
Sabe-se que a parturiente em trabalho de parto precisa se sentir segura. Assim, a participação de uma acompanhante calma ao seu lado, proporciona segurança e a consequente liberação de endorfinas.
Proporcionar ambiente tranquilo, sem barulho, com poucas pessoas, torna esse momento mais prazeroso para a mãe. Deve-se respeitar a fisiologia do parto, para que não haja manobras bruscas que possam causar danos para a parturiente e para o bebê.
Balaskas (1998) assinala que um ambiente agradável, com várias opções para variar a posição do parto, e luminosidade que não deve incomodar a parturiente, são fatores primordiais para partejar durante o período de expulsão. Para Odent (2002), a serenidade de um ambiente poderá facilitar a transição da mulher em direção ao seu mundo interno.
Alguns hospitais mudaram o aspecto das salas de parto, tornando-as semelhantes ao seu ambiente doméstico e, após essa medida, se observou satisfação por parte das mulheres parturientes (BRASIL, 1996).
Consoante Colíaço (2002, p. 68), o processo de parir vai além do momento
em que a mulher dá a luz ao novo ser, É um conjunto de significados, de emoções,
sensações e acontecimentos vividos pelo casal durante este momento único e que ficará para sempre gravado nas suas mentes.
Com o nascimento, o contato bebê-mãe deve ser imediato, favorecendo aleitamento materno e fortalecendo união entre ambos (OMS, 1996 ). Importante que toda a equipe que assistiu o parto faça transcorrer este momento com naturalidade e carinho, para que mãe e filho possam nutrir-se de paz, amor e aconchego.
Após o nascimento do bebê, tem início o terceiro período do parto, quando acontece a dequitação da placenta. Esse período deve ser cuidadosamente avaliado, no sentido de se diagnosticar alguma anormalidade com a dequitação incompleta, podendo ocasionar perdas sanguíneas de volume anormal na mulher.
Rezende (1998) considera anormal o sangramento em torno de 500ml. A altura uterina e sua consistência devem ser bem acompanhadas pela enfermeira por ocasião do secundamento, uma vez que constituem dados relevantes na avaliação dos cuidados de enfermagem. É de fundamental importância observar a formação do globo de segurança de Pinnard, sendo um dado valioso, como sinal fisiológico do útero, na sua involução.
Considerada o período de Greenberg, a primeira hora após o delivramento (Rezende, 1998), é de grande importância, por ser um período em que poderão surgir complicações. Assim, a involução do útero e sua contratilidade, devem ser rigorosamente acompanhadas pela enfermeira obstetra, uma vez que a vigilância nesse período poderá detectar anormalidades.
Concordamos com Goldman (2002, p. 229), no que se refere à assistência
ativa nesse período e a vigilância ao lado da paciente surpreendem e corrigem
oportunamente quaisquer desvios do mecanismo fisiológico. Neste contexto, qualquer
complicação que possa acontecer, a enfermeira poderá detectar precocemente e tomar as medidas cabíveis para que o estado de bem-estar da puérpera não seja perturbado por intercorrências fora do mecanismo fisiológico do pós-parto imediato.
Após o nascimento, é necessário fazer uma avaliação do estado geral da puérpera, verificar seus sinais vitais e providenciar sutura perineal, se for necessário. Deve-se promover o bem-estar físico da mulher, manter a sua privacidade, providenciar alimentação e encaminhá-la ao alojamento conjunto com o seu bebê.
2.2 O ato de Partejar
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Desde o início do mundo, o ato de parir tem tido enfoque envolvendo, além do companheiro, a família. A mulher sempre esteve presente aos cuidados prestados por ocasião do parto.
Consoante Arruda (1989), o acompanhamento ao parto e pós-parto na era primitiva era realizado no domicílio por parteiras empíricas, mulheres com experiência e que gozavam de prestígio por parte da comunidade.
Já no final da Idade Média, todas as práticas e conhecimentos sobre gravidez e parto eram exclusivamente das mulheres (ZAMPIERI, 2001). Percebe-se que a participação feminina em acompanhar o parto vem de longas datas.
Atualmente, o cuidado de enfermagem ao ato de partejar ganha espaço, com a recuparação das tendências humanísticas de acompanhamento á mulher no respeito à fisiologia natural do parto.
Collière (1999, p. 235) ressalta o cuidado como um ato de reciprocidade que
somos levados a prestar a toda pessoa que, temporária ou definitivamente tem necessidade de ajuda para assumir as suas necessidades vitais. Daí, no ato de
partejar, a enfermeira deve proporcionar um ambiente aconchegante e a cliente deve ter direito á privacidade, à medidas de conforto, tais como o banho e espaço para deambular, escolher a posição que melhor lhe convier, entre outras.
Sabemos que a mulher em trabalho de parto encontra-se fragilizada, por estar longe de sua família em um ambiente totalmente desconhecido para ela. Por
conseguinte, toma-se fundamental que a enfermeira e toda a equipe entendam cada parturiente como um ser humano, que está vivendo uma experiência ímpar.
Diante disso, concordamos com Barbieri e Tsunechiro (1996), quando assinalam que a equipe multiprofissional compreende as necessidades psicossocias da parturiente. É gratifícante para a equipe multiprofissional o cuidado desvelado á mulher, garantindo-lhe calor humano e satisfação de sentir-se bem cuidada.
É garantindo o bem-estar à parturiente que a enfermeira passa a ter - um contato mais íntimo com eia. Com palavras, com toques na pele, com um olhar de acolhimento, chega-se mais próximo dela. Como tão bem ressalta Boff (1999, p. 96),
cuidar das coisas implica ter intimidade, senti-las dentro, acolhê-las, dar-lhes sossego e repouso.
A enfermeira obstétrica é um ser humano que se relaciona com outro ser humano, participando do processo de parir como um todo. O contato físico, o toque e a massagem na parturiente, proporcionam conforto e bem-estar físico (SILVEIRA et a/., 2001).
É ela que dá acolhimento à parturiente durante o trabalho de parto, minimizando o desconforto gerado pelas contrações uterinas e tornando esta experiência agradável.
Para Silveira e Leitão (2001), a enfermeira deve ter sensibilidade para compreender a grandeza do evento e servir de elo, saber usar a intuição feminina no planejamento da assistência, levando em consideração as necessidades intangíveis, muitas vezes não verbalizadas pela parturiente.
No entanto, vimos que nem todas as enfermeiras têm uma visão do parto como um processo natural. Valoriza-se muito o aspecto patológico e tecnicista e de autoritarismo, sendo comum as expressões: não faça isso, é melhor assim, determinando o que a parturiente deve fazer, pensando estar proporcionando o melhor para o seu bem-estar,
Dentro desse enfoque, Goldman (2002, p. 213) anota que o momento da
parturição é a etapa mais significativa à parturiente, ao recém-nascido e a familiares.
Neste contexto, o respeito ao processo natural e fisiológico do parto, o cuidado humanizado prestado pela enfermeira obstetra, tornam-se indispensáveis para que o nascimento seja envolvido em clima harmonioso, com qualidade, ao que se aliam os conhecimentos técnico-científicos.
De acordo com o Ministério da Saúde (MS), no Manual para Assistência
Humanizada a /Vfo/rier (2001), a mudança de atitudes se torna necessária e depende de cada profissional. Mas é necessário reconhecer que a gravidez não é um processo patológico: é preciso estar aberto a novas propostas e experiências.
Ainda neste sentido, Mello e Lima (2002) comentam a importância de mudanças na estrutura física da instituição hospitalar, como também de pessoal qualificado e envolvidos com a assistência à mulher durante os procedimentos de partejar de maneira mais abrangente e humanizada.
Nesse campo, é necessário destacar a contribuição de Zampieri (2001), quando aborda a necessidade de mudanças nas atitudes dos profissionais de saúde, na busca de minimizar as dúvidas e expectativas que acometem a mulher no trabalho de parto. Um simples gesto de amabilidade toma-se eficaz. Muitas vezes, é preciso que o profissional compreenda a parturiente e sinta que é necessário mudar.
Outrossim, cabe destacar Schirmer et aí (2002, p. 209), quando destacam que na assistência à parturiente, a consideração do seu mundo psíquico esté ligada à
percepção do processo de vida.
Tronchin e Melleiro (1998) consideram a necessidade de uma preparação e sensibilização dos profissionais que lidam com a parturiente, respeitando suas crenças, valores e suas expectativas e manifestando, através das suas atitudes, uma assistência de qualidade ao nascimento.
Como refere Tedesco (1999, p. 34), o obstetra deve representar o canal que
drena as angústias e ansiedades. Atitudes como o acolhimento, a benevolência, o
diálogo e o relacionamento representam muito para a parturiente.
Cuidar é tão vital para a humanidade hoje como foi ontem, por promover e manter a vida. Por isso, o cuidado zeloso no ato de partejar é importante e justificado pela oportunidade de valorizar a mulher como gente, como ser humano, que está vivendo um momento inesquecível de criação como parceira de Deus.
3.1 A Teoria de Paterson e Zderad
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Na tentativa de investigar o cuidado de enfermagem prestado à parturiente na percepção da enfermeira durante o partejar, elegemos como suporte a teoria humanística de Paterson e Zderad.
A teoria humanística de Enfermagem tem como autoras duas enfermeiras: Josephine G. Paterson e Loretta T. Zderad, professoras e doutoras em Enfermagem. Publicaram o livro "Humanistic Nursing," no ano de 1976, tendo como base à fenomenologia e o existencialismo. Desenvolveram a teoria humanística influenciada pelos estudos de Husserl, Buber, Marcei e Nietzshe (VALÉRIO etal.t 2000).
A Teoria Humanística é um sistema prático, desenvolvido através da interação paciente/enfermeiro, sendo as experiências vivenciadas por ambos. Preocupa-se com experiências fenomenológicas do ser humano, tendo como base o existencialismo.
Para Paterson e Zderad (1988, p. 79), a teoria e a prática da enfermagem
humanística, propõe concretamente, que as enfermeiras abordem a enfermagem consciente e deliberadamente como uma experiência existencial.
No seu cenário de trabalho, a enfermeira vive esse momento junto à parturiente, dialogando e fazendo-se presente. A enfermagem humanística requer autenticidade consigo mesma. Deve ter a convicção de que sua presença é valiosa, ter sensibilidade para poder oferecer cuidados de enfermagem que satisfaçam a parturiente, proporcionando o bem-estar e o estar-melhor.
Cardoso et al. (2000) comentam que, além de vários psicólogos, humanistas e fenomenológicos, Martin Buber teve destaque, influenciando a base teórica da enfermagem humanística nos três processos: EU-TU, EU ISSO, NÓS.
O primeiro momento é a relação EU-TU - conhecimento intuitivo, é o esfar-dentro do outro, no ritmo das experiências do outro (PATERSON e ZDERAD, 1988), É uma situação de reciprocidade entre a enfermeira e a cliente. Situando essa relação com a temática em estudo, podemos retratar a enfermeira indo ao encontro da parturiente e vice-versa; é a relação sujeito-sujeito, momento de aproximação entre enfermeira e parturiente, de identificação com ela, de comunicar- se, de ouvir suas angústias, seu medos de refletir, de sentir.
O segundo momento é a relação EU-ISSO - é a relação sujeito - objeto, que é semelhante a pessoa-objeto, existindo diferença, isto é, o objeto sempre está aberto a investigações, entretanto, uma pessoa como objeto de estudo pode ficar em silêncio ou relatar suas idéias e demonstrar os seus sentimentos
O terceiro momento é a relação NÓS - é o homem se relacionando com os outros, com a família. Paterson e Zderad (1988, p. 83) consideram que o homem
adquire identidade através da sua relação com a família, com os outros e com a comunidade. É o momento de comunhão entre a enfermeira e a parturiente, lutando por uma mesma finalidade. Permite o fenômeno de “comunidade" e de contribuição de solicitude e de comunhão com o mundo.
A enfermagem fenomenológica é uma metodologia para compreender
e descrever as situações de enfermagem. Procura a compreensão da experiência da enfermeira-cliente de maneira que a pessoa possa estar com este de maneira humana e curativa.
Segundo as teóricas Paterson e Zderad (1988), a enfermagem fenomenológica possui cinco fases à frente delineadas.
A primeira é da preparação da enfermeira para vir a conhecer. Esta
fase envolve a preparação da enfermeira para o cuidado da parturiente, isto é, suas experiências e vivências do cotidiano no cuidado com a parturiente em trabalho de
parto, estar aberta para as experiência, ser possuidora de sensibilidade e ser capaz de vivenciar o outro.
A segunda fase corresponde à enfermeira conhecer o outro intuitivamente. Nesta, acontece a relação EU-TU descrita por Buber, O conhecimento intuitivo envolve o estar-dentro do outro. A enfermeira compreende o estado de angústia da parturiente, a experiência vivida pela parturiente, na sua singularidade. A enfermeira oferece ajuda e faz-se presente.
A terceira fase está no fato de a enfermeira conhecer o outro cientificamente. A enfermeira reflete, analisa a experiência, comparando e interpretando com os conhecimento acumulados.
Na quarta fase a enfermeira sintetiza complementarmente as
realidades conhecidas. Ela consente um diálogo entre as realidades conhecidas;
compara e sintetiza as semelhanças e diferenças de situações e chega a uma visão ampliada.
A quinta fase coincide com a sucessão interna da enfermeira a partir de muitos para o paradoxal, sta fase da enfermagem fenomenológica é altamente
provável, senão absolutamente necessária. Constitui um refinamento da fase anterior. A enfermeira considera as relações entre as visões múltiplas, ampliando a sua visão angular após comparar os dados com outras realidades conhecidas; Portanto, chegando a uma proposição de condutas com finalidade do estar-melhor do outro,
A teoria humanística proporciona base para a prática da enfermagem. Na enfermagem, a teoria norteia a prática com os principais conceitos: saúde, enfermagem, ser humano, diálogo, encontro, relacionamento, presença, chamado e resposta e comunidade.
3.2. A Importância dos Conceitos no Ato de Partejar
Para dar maior embasamento científico às ações e aos cuidados de enfermagem, achamos imprescindível conhecer o significado dos conceitos.
A palavra conceito, para Ferreira (2002), vem do latim conceptu. Ação de
formular uma idéia, representação de um objeto pelo pensamento, por meio de suas características gerais. Os conceitos podem apresentar formas concretas, quando se pode ver e tocar, e abstratas os não tangíveis. Estes produzem teorias, manifestam crenças e os valores do autor.
Na concepção de Collaço (2002, p. 57), conceitos são vigas mestras da
construção teórica. Refletem a visão da realidade. Na enfermagem, os conceitos direcionam as ações e clareiam os caminhos para a prática. Favorecem uma prática mais crítica e melhoram a qualidade da pesquisa de enfermagem. Portando, os conceitos da teoria humanística de Paterson e Zderad, que nortearam o estudo, foram bastante significativos, servindo de paradigmas da enfermagem humanística. Passamos a descrevê-los a seguir.
Saúde
Para as teóricas Paterson e Zderad (1988), a saúde é entendida como um assunto de sobrevivência pessoal. É descrita como ausência de doença. A saúde é uma descoberta do significado da vida. Os seres humanos possuem um potencial para o bem-estar e para o estar-melhor. Significa ser-saudável e poder estar aberto às experiências da vida, independentemente do seu estado físico, social, espiritual, cognitivo e emocional.
A saúde faz parte da vida dos seres humanos e é um direito fundamental de todo cidadão. Alcançada através da promoção de medidas positivas que assegurem um caminho para a vida saudável a todas as pessoas. Portanto, levando em consideração o nosso trabalho com a parturiente, prestamos o cuidado de enfermagem vendo a mulher como um ser saudável e fazendo com que o momento
do trabalho de parto e parto seja harmonizado e não considerado como doença. Assim é a contribuição da enfermeira na promoção de um ambiente saudável e de um relacionamento autêntico.
Enfermagem
Enfermagem é uma experiência que tem como base o cuidado humano, Para Paterson e Zderad (1988), é uma resposta confortadora de uma pessoa para outra em uma situação de necessidade, implicando o processo do bem-estar e do
estar-melhor. As mesmas autoras descrevem ser a enfermagem uma vivência entre os seres humanos, isto é, experiência compartilhada em um “mundo de vivências reais”, tanto do que está recebendo como do que está ajudando. A enfermagem é considerada também uma transação intersubjetiva; ambos participam dos fenômenos.
A expressão Enfermagem humanística abrange os fundamentos e sentidos humanos da enfermagem, que direcionam o desenrolar desta atividade na relação com os seres humanos.
Neste sentido, Cardoso (2001, p. 52.), relata que a enfermagem
humanista está imbuída do compromisso autêntico do enfermeiro, do respeito pela escolha e intersubjetividade do ser. Portanto, é estar-ao~lado da parturiente com disponibilidade, dando apoio e ajuda durante o ato de partejar.
Consoante Laffrey e Brouse apud Pessoa (1997, p. 29), a enfermagem é Como uma ação cie vida humana,uma resposta para uma situação humana. Esta resposta é propositalmente direcionada aos cuidados para o bem-estar e estar melhor de uma pessoa com necessidades sentidas, ligadas a saúde/doença na qualidade de vida.
Para as autoras desse estudo, a enfermagem, acima de tudo é movida por amor, dedicação, envolvimento, compromisso. É ser gente com vontade de melhorar a cada dia suas potencialidades, harmonizar corpo, espírito e mente.
Ser Humano
Os seres humanos caracterizam-se como capazes, abertos a opções, possuidores de valores, com necessidade de terem informações e fazerem as próprias escolhas (PATERSON e ZDERAD, 1988). Interagem com o meio ambiente, permeando suas ações com a finalidade de uma melhor condição de vida. O ser humano tem características próprias, aceita influências e pode influenciar o outro no mundo.
Destacamos as palavras de Silva (2000, p. 62);
O ser humano existe nos níveis mental emocional e espiritual. Todos são . valiosíssimos, nenhum pode ser desprezado na busca da harmonização:
todos devem sercuidados.
No ato de partejar, a enfermeira deve caminhar junto à parturiente e a sua família, participando do nascimento, consciente de que a parturiente é um ser com cultura diferente da sua e desta forma, refletir sobre a melhor maneira de prestar um atendimento à parturiente diferenciado e com visão de mundo.
Na percepção de Boff (1999), a essência do cuidado está no ser humano, por ser o cuidado sua característica singular. No processo de parir, muitas emoções, alegrias e momentos desagradáveis podem acontecer. Por conseguinte, a enfermeira cuidadora deve se posicionar de modo a favorecer tranquilidade e respeito junto á parturiente desde sua chegada e em todo o decurso do parto.
Diálogo
É maneira de se relacionar com o outro, na qual o compartilharmento inclui receber mensagens verbais e não verbais. Para Paterson e Zderad (1988), a enfermagem é um “diálogo vivo” e implica a comunicação, o encontro entre os seres, em que existe um chamado e uma resposta com fins determinados. Fazem parte do diálogo o encontro, o relacionamento a presença, o chamado e a resposta.
Essa relação entre enfermeira e parturiente engloba as informações esclarecedoras de dúvidas, sobre o trabalho de parto, as palavras de conforto proferidas com afeto e as palavras de ânimo. No diálogo, age-se um pouco como mãe, tranquilizando as inquietações da parturiente; falando baixinho, sem atitudes bruscas e mantendo um tom de voz agradável.
Durante o ato de partejar, a parturiente sente necessidade do diálogo amoroso, constituído de bondade, generosidade, paciência, respeito, conforto e sensibilidade.
Encontro
É um encontro com seres humanos, tendo um propósito. Tanto enfermeira como paciente têm uma meta ou expectativa em mente: o estar-bem e o estar- melhor, O propósito da enfermeira é de nutrir e do paciente é de ser nutrido. No processo de partejar, é dialogar, escutar e ser empático. É receber e dar. É compartilhar e acolher a parturiente que deixou do outro lado a família; é preciso reconhecer as necessidades afetivas da parturiente, de acalanto e de abertura; a presença autêntica em corpo e espírito.
Segundo Fenili e Santos (2001, p. 31)
Todo encontro com outro ser humano é aberto e profundo, com um grau de
intimidade que, profundamente e humanisticamente, influenciam os membros no encontro.
Dessa forma, o ser humano interage com outro ser humano, ajudando o ser que está precisando de ajuda, tendo como finalidade o bem-estar e o estar-
Relacionamento
Conforme as sistematizadoras Paterson e Zderad (1988), o relacionamento é o processo de ter que fazer com o outro; significa estar com o outro. Existem duas maneiras de relacionamento: a) sujeito-objeto, que se refere a como os seres humanos usam os objetos e conhecem outros através de abstrações, conceítuações, categorização; e b) sujeito-sujeito, que compreende duas pessoas relacionando-se reciprocamente, com abertura total de pessoa a pessoa. Nesse relacionamento, dá-se o conhecimento entre as duas pessoas, enfermeira/ parturiente. Infere sentimento afetivo que norteia o trabalho de parto e proporciona confiança e segurança. Por meio deste relacionamento, a enfermeira que está acompanhando o trabalho de parto poderá interagir com a parturiente com a comunicação, sensibilidade, no processo de cuidar, tendo como princípio o fato de que a gravidez torna a mulher muito sensível e vulnerável. É de se esperar que a enfermeira leve em consideração suas crenças e valores muito significativos, como a ajuda e a invocação de Deus e dos santos, nos momentos que antecedem ao parto. Portanto, a enfermeira, ao perceber os sentimentos expressados pela parturiente, poderá prestar ajuda, dispensando cuidados humanizados visando sempre ao estar- melhor da parturiente.
Presença
É estar disponível de maneira recíproca para outra pessoa. A presença está ligada ao diálogo e deve haver abertura, receptividade, disposição e acessibilidade - um fluxo recíproco compartilhado.
No mundo da enfermagem, como no mundo em geral, os encontros humanos podem ir desde o trivial para o extremamente significativo (PATERSON e ZDERAD, 1988).
Portanto, a presença se projeta em estar aberta, compreender a parturiente e suas atitudes, estender a mão sem interferir nos seus credos e sentimentos, sabendo reconhecer e determinar os limites dos cuidados de enfermagem.
Chamado e Resposta
É compreender uma situação entre enfermeira e cliente. O cliente solicita ajuda e a enfermeira responde na intenção de ajudá-lo e atendê-lo.
De acordo com Paterson e Zderad (1988), a enfermagem ocorre em um
mundo real de homens e coisas no tempo e no espaço, É o mundo do sistema de cuidados da saúde no mundo cotidiano.
O chamado e resposta não são unicamente sequenciais, são também simultâneos. Neste diálogo vivo, tanto a parturiente como a enfermeira estão chamando e respondendo ao mesmo tempo. Está implícito o diálogo.
A enfermeira é um chamado vivo e uma resposta reflexiva de comunicação humana (PATERSON e ZDERAD, 1988). Este chamado-resposta muitas vezes poderá ajuda a descobrir um pouco mais sobre a parturiente. Dialogando com a parturiente durante o decurso do ato de partejar a enfermeira vai transmitindo confiança nas suas falas,.
Comunidade
Considera-se comunidade os membros de uma família, os estudantes de uma turma, um hospital, os funcionários de um hospital, equipe multiprofissíonal.
Consoante Paterson e Zderad (1988, p. 74), comunidade é a experiência
das pessoas que se reúnem para propósitos comuns. As pessoas trocam
experiências, através do relacionamento com outras pessoas na comunidade, culminando com o vir-a-ser.
Assim, os elementos do sistema são os seres humanos (cliente/enfermeira) reunidos em uma transação intersubjetiva (a relação,.o diálogo)
com um fim determinado (a saúde) que se dá no tempo e no espaço (ambiente), em um universo de homens e coisas (PATERSON e ZDERAD, 1988).
Considerando a importância dos conceitos, achamos pertinente refletir sobre o cuidado humanizado e o enfermeiro. O cuidado sempre está presente na natureza e no ser humano, desde o ato de nascer até o final da vida. Na opinião de Silva (1997, p. 77), o cuidado constitui-se no mais poderoso símbolo da
enfermagem. É um compromisso com a vida.
Muitos são os autores que definiram o cuidado de enfermagem, como Figueiredo, Waldow, Collière e Zagonel, dentre outros. Mas decidimos trabalhar como os conceitos de enfermagem
e
relacionamento, de Paterson e Zderad, na sua amplitude, por ser a teoria que deu suporte a esta pesquisa, voltada para a valorização do ser humano, com o respeito que todo ser humano merece.3.3 Tipo de Pesquisa
A pesquisa foi desenvolvida dentro de uma abordagem qualitativa. Consoante Haguette (2000, p. 63), os métodos qualitativos enfatizam as
especificidades de um fenômeno em termos de suas origens e de sua razão de ser.
A escolha da linha humanística apoiada na teoria de Paterson e Zderad (1988), para fundamentação dos pressupostos ocorreu em razão desta teoria proporcionar ao enfermeiro um conhecimento humanístico, para oferecer às parturientes: estímulo, participação, envolvimento efetivo na condução do trabalho de parto e parto, através dos cuidados de enfermagem, com a finalidade do bem-
estar e de estar-melhor. Justificamos a utilização dos conceitos da teoria humanística porque estes vão ao encontro do nosso cotidiano no cuidado de enfermagem ao partejar. Portanto, este referencial teórico serviu de respaldo durante o desenvolvimento da pesquisa nos momentos vividos pela autora, permitindo a sua utilização no ato de partejar.
0 estudo está inserido na linha de pesquisa Assistência Participativa em Situação de Saúde - Doença, do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Ceará-Brasil.
3.4 Caracterização dos Sujeitos do Estudo
Os sujeitos da pesquisa foram as cinco enfermeiras que dão assistência de enfermagem à parturiente no Centro de Parto Normal da Maternidade onde foi realizado o estudo.
A escala de serviço do CPN consta de 1 enfermeira no turno da tarde (6 horas) e uma enfermeira no turno da manhã (6 horas) e três na escala de noturno (12 horas).Há três enfermeiras que trabalham, em escalas de rodízio, suprindo as folgas nos sábados e domingos, manhã e tarde, perfazendo um turno de 12 horas. Há enfermeiras entre 4 e 25 anos de graduação, trabalhando na referida Instituição; e de 3 meses a 14 anos trabalhando no CPN. Observamos também que as enfermeiras componentes do estudo participaram de cursos, de oficinas de sensibilização ao parto humanizado e realizaram curso de Especialização em Enfermagem Obstétrica, nas Universidades Federal e Estadual do Ceará.
Para manter o sigilo e proteção da identidade das participantes do estudo consideramos conveniente dar nomes fictícios a cada uma das enfermeiras participantes. Optamos por nomes fictícios relacionados a princesas. Foram aceitos e passamos a nos referir a elas com esses nomes: Stéphanie, Victória, Carolíne,
Diana, Margareth.
3.5 Cenário da Pesquisa
Serviu de cenário, durante todo o desenvolvimento do estudo, o Centro de Parto Normal (CPN) de uma maternidade pública federal, cuja área construída é de 10.842,18 m2, localizada no bairro Rodolfo Teófilo, no Município de Fortaleza, Ceará,
Brasil, com capacidade total de 205 leitos, dos quais 124 destinados à obstetrícia, mantendo uma média de 20 partos normais por dia, 600 partos por mês, com uma média de 70% de partos normais.
Como reconhecimento à assistência prestada à clientela, esta maternidade recebeu o título de Hospital Amigo da Criança, conferido pela OMS e pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). Foi agraciado com o II Prêmio Galba Araújo - Menção Honrosa, no ano 2000, conferido pelo MS (MEAC, 2002).
O CPN está instalado no terceiro andar do prédio da referida Instituição, sendo composto por oito ambientes. A sala principal de entrada e recepção da parturiente é decorada com vasos de flores e plantas artificiais; logo na entrada existe uma imagem de Nossa Senhora do Bom Parto, nas paredes há baners com inscrições de: passos para o aleitamento materno, deveres da parturiente, fotos de
parturientes em várias posições de parto; há também um jogo de cadeiras e um quadro afixado na parede, onde são diariamente escritos os nomes dos componentes das equipes de plantão. Existe sistema de unificação das salas com dezoito boxes individuais, denominados de sala de PPP (pré-parto, parto e pós- parto), de acordo com o preconizado pela Organização Mundial de Saúde, Dentre estes, três boxes em uma das saias são destinados às parturientes adolescentes. As camas são utilizadas para o repouso da parturiente e como local de parir, bastando, para isso, mudar a posição do leito. Há dois banheiros com chuveiros destinados à higiene corporal das parturientes,
A ambientação é decorada com cortinas que separam cada boxe. Existem cadeiras para que as parturientes em trabalho de parto possam usar, cavalinho para balanço e bolas grandes de borracha para exercício das parturientes, beneficiando o parto. Nas paredes, há figuras e quadros que mostram as diversas posições que podem ser adotadas por elas durante o trabalho de parto e parto. Há sonorização em todos os ambientes, com músicas relaxantes e vasos com flores, que visam a quebrar a frieza do ambiente hospitalar. Para maior segurança da parturiente, existe tubulação de oxigênio em cada leito, além de sonnar Dopler para ausculta dos
batimentos cardiofetais e um aparelho de cardiotocografia. Todas as salas são climatizadas.
3.6 Coleta de Dados
A coleta de dados aconteceu no período de julho a agosto de 2002. Quanto aos métodos de coleta de dados, optamos pela observação livre, na qual o pesquisador entra em contato com a realidade que deseja conhecer (LEOPARDI, 2001, p. 193). Deve conter características, tais como, atenta, precisa, exata e completa, sucessiva e metódica, com a finalidade de conhecer com outra visão a realidade do cotidiano e do cuidado de enfermagem dispensado á parturiente, Também como instrumento, fizemos uso de um diário de campo, onde procedemos aos registros relacionados às ações da enfermeira, o relacionamento dela com a parturiente durante o trabalho de partejar.
Na segunda etapa, utilizamos a entrevista com os sujeitos, que constou de uma pergunta norteadora com a finalidade de conhecer como estão sendo dispensados os cuidados humanizados de enfermagem durante todo o trabalho de partejar. A coleta de dados foi realizada exclusivamente pela própria pesquisadora.
A técnica de entrevista - Leopardi, (2001, p. 202) diz - é a técnica em que
o investigador está presente junto ao informante e formula questões relativas ao seu problema. A entrevista é considerada como um dos acessórios básicos para coletar os dados, tendo como características básicas a intersubjetividade, a intuição e a imaginação.
Para garantir a fidedignidade das informações das entrevistadas, solicitamos a permissão para usar o gravador, por entender que este permite a reprodução das falas na íntegra.
As entrevistas aconteceram nos três turnos e a escolha dos dias das entrevistas baseou-se nas escalas de serviço das participantes.
Durante a entrevista, quando da gravação, todas as participantes da pesquisa demonstraram insegurança e um pouco de medo ao falar ao gravador. Quase sempre pediam para que parasse o gravador, e ficavam inibidas por ocasião das falas. X/ale ressaltar que a pesquisadora foi muito bem acolhida por todas as participantes do estudo.
3.7 Análise dos Dados
O método de escolha para a organização do estudo foi apoiado em Bardin (1977), a ser realizado nas três etapas seguintes: pré-análise; exploração do material; tratamento dos resultados obtidos e interpretação. Segundo o mesmo
autor, a análise de conteúdo é um instrumento de técnica de análise das
comunicações (1977, p. 31), procurando compreender o que está por trás das falas dos sujeitos.
Na primeira fase, realizamos a organização de todo o material e sistematização das idéias, a transcrição das gravações e a leitura das falas. Após releitura do material, procedemos á organização dos relatos e dos dados observados, registrando inclusive, as expressões das entrevistadas, Esta fase é denominada de leitura flutuante, em que o conteúdo vai se tornando mais claro através de sucessivas leituras (regra da exaustividade). Nesta fase, selecionamos todo o material referente aos objetivos do estudo.
A segunda fase - a exploração do material - correspondeu à identificação e operacionalização das categorias temáticas, surgidas através das falas das participantes. Foi possível vislumbrar que o cuidado de enfermagem
prestado à parturiente é visto pelas enfermeiras a partir dessas categorias: cuidado
individualizado, apoio emocional, o envolvimento. dos profissionais durante o partejar, necessidade de segurança no partejar, preocupação da enfermeira quanto à equipe de profissionais e a prática do cuidado humanizado, cuidado humanizado recompensador, falta de sensibilização quanto ao cuidado humanizado.
A terceira fase corresponde à interpretação dos resultados obtidos e à conclusão. Finalmente, procuramos fundamentar o estudo à luz da teoria humanística de Paterson e Zderad, pautada nos conceitos dos cuidados de enfermagem propostos no objetivo.
3.8 Aspectos Éticos
De acordo com as exigências formais implícitas na Resolução 196/96 sobre pesquisas que envolvem seres humanos do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde, encaminhamos este projeto para apreciação, ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará, um ofício para a Diretoria da Maternidade Escola, solicitando a permissão para realização desse estudo. As enfermeiras participantes assinaram um termo de consentimento, sendo-lhes assegurado o sigilo das informações e o anonimato.
Também, no que diz respeito aos aspectos éticos objetivando assegurar os direitos e deveres respeitantes à conclusão científica e aos cinco sujeitos da pesquisa, levamos em conta os pressupostos basilares da Bioética, configurados na supradita Resolução do CNS, que são autonomia, não-maleficência, beneficência e justiça.
3.9.Entrada no Campo
Nossa preparação para entrar em campo foi adquirida ao longo dos nossos anos de convivência com o ser parturiente no cotidiano do nosso trabalho e do cuidado de enfermagem humanizado prestado por nós.
Sentimo-nos muito à vontade em realizar nosso estudo, principalmente por trabalharmos na referida instituição e também por estarmos entre colegas. As entrevistas aconteceram quando do plantão das colegas, nos turnos manhã, tarde e noite.
perda, a separação e a morte. É através da sensibilidade do ser, a consciência autêntica e reflexão sobre experiências emotivas, que a enfermeira conhece.
Portanto, esta preparação é vivenciada pela enfermeira durante o seu cotidiano na prática dos cuidados de enfermagem e através de eventos científicos relacionados à assistência à paríuriente.
Para complementar nosso estudo, buscamos apoio na literatura relacionada à teoria humanística de Paterson e Zderad, Educação, Fenomenologia, Psicologia, auto ajuda, o que possibilitou uma gama de experiências enriquecedoras, favorecendo abertura para melhor conhecer a enfermeira, bem como estar aberta às experiências.
Para Paterson e Zderad (1979), a experiência implica respostas orais, auditivas, olfativas, visuais, táteis, cinestésicas e viscerais. Significa que, através da sensibilidade e da imersão no próprio eu, é nós possibilitando estar apta à realização da nossa pesquisa. Portanto, quanto mais ampla e variada, muito mais nossa experiência se toma fundamental para estarmos aberta às experiências e compartilharmos com o outro.
Com toda esta preparação e com muita vontade de nos relacionar com as colegas enfermeiras escolhidas para serem os sujeitos do estudo, entramos em campo com disponibilidade, aberta para observação, com uma visão de mundo, e para receber suas contribuições reais.
4 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
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0 cuidado de enfermagem nutre o ser parturiente, preserva sua dignidade e é uma interação da enfermeira com a parturiente, na qual esta espera atenção, respeito, conforto para o momento de vulnerabilidade presente no trabalho de parto.
Concordamos com Costenaro (2001, p. 38) quando relaciona atitude de cuidado como esfar-com-o-oí/fro e ser-com-o-oa/ro. O que demonstra interação, além de procedimentos rotineiros, é viver com o outro contribuindo para um partejar tranquilo, diminuindo os momentos de medo e solidão demonstrados pela parturiente.
O cuidado nos procedimentos de partejar requer solidariedade, demonstração de afeto; portanto, o atendimento à cliente deve ser feito englobando-se os fatores somáticos e emocionais, como assinala Tedesco (1999), sendo necessário que o enfermeiro cuidador tenha conscientização e respeito a esses fatores.
Assim, a observação e o acompanhamento da evolução do trabalho de parto, o estar-perto dessa mulher parturiente, demonstrando sentimentos de solidariedade, ajuda, paciência, empatia, respeito, amor ao próximo, calma, delicadeza, segurança e conforto, ajudarão consideravelmente no atendimento de suas necessidades físicas e emocionais.
Sabemos que o acompanhamento á parturiente em franco trabalho de parto exige uma série de cuidados, desde quando é internada e durante as etapas do trabalho de parto visto ser um período no qual os sentimentos afloram com maior facilidade em razão da fragilidade de seu ser. É neste contexto que a cuidadora deve