Mandado de Segurança n. 5218513.28.2017.8.09.0000 Comarca de Goiânia
Impetrante: Eduardo Isaak de Oliveira Castro e outros Impetrado: Governador do Estado de Goiás
Relator: Desembargador Carlos Alberto França
D E C I S Ã O P R E L I M I N A R
Trata-se de mandado de segurança, com pedido de liminar, impetrado por Eduardo Isaak de Oliveira Castro, Adrielle Aparecida Rodrigues da Silva, Edson Martins da Silva, Hélio da Costa Muniz Filho, Juliana Ribeiro Ferrante, Mayara Gontijo Cirineu, Leonardo Rodrigues Ribeiro e Wallisson dos Santos Souza contra ato acoimado ilegal atribuído ao Governador do Estado de Goiás, Marconi Ferreira Perillo Júnior, com fulcro no artigo 5º, LXIX, da Constituição Federal, e Lei n. 12.016/09.
Em sua exordial, alertam, inicialmente, que o impetrante Eduardo Isaak de O l i v e i r a C a s t r o h a v i a i n g r e s s a d o c o m o m a n d a d o d e s e g u r a n ç a n . º 5172500.68.2017.8.09.0000, extinto sem resolução de mérito por esta Corte de Justiça, o qual acolheu pedido de desistência formulado com fulcro nos artigos 485, inciso VIII, do Código de Processo Civil, e 175, inciso XV, do Regimento Interno deste egrégio Tribunal de Justiça.
Nada obstante, o mesmo impetrante houve por bem impetrar novo mandado de segurança, em litisconsórcio com Adrielle Aparecida Rodrigues da Silva, Edson Martins da Silva, Hélio da Costa Muniz Filho, Juliana Ribeiro Ferrante, Mayara Gontijo Cirineu, Leonardo Rodrigues Ribeiro e Wallisson dos Santos Souza, cuja distribuição se faz por dependência, em obediência à regra insculpida no artigo 286, inciso II, do Código de Processo Civil, sob pena de violação ao princípio do juiz natural.
Após tecerem considerações sobre a tempestividade do presente mandamus, ressaltando que ato coator praticado pelo Governador do Estado de Goiás se deu no dia 12/04/2017 e consubstancia-se nas nomeações e posse dos impetrantes em classe diversa da qual concorreram no concurso público da SEAP – Superintendência Executiva de Administração Penitenciária para provimento do Cargo de Agente de Segurança Prisional de 3ª Classe.
Com efeito, relatam que se inscreveram e foram aprovados dentro do número de vagas ofertadas em certame realizado para o provimento do cargo de Agente de Segurança Prisional de 3ª Classe, cujo subsídio inicial é de R$ 2.847,23 (dois mil, oitocentos e quarenta e sete reais e vinte e três centavos), conforme consta do Edital n. 001/2014, que lançou o concurso público da SEAP – Superintendência Executiva de Administração Penitenciária.
impetrantes pediram demissão de seus antigos empregos, visando o ingresso no serviço público, porém, ao serem convocados para posse no cargo, verificaram que foram nomeados para cargo diverso daquele que consta do edital do certame, reduzindo em quase 50% (cinquenta por cento) os subsídios previstos em edital.
Alegam que as consequências das referidas nomeações errôneas são drásticas, pois, além de terem que permanecer por 04 (quatro) anos em classe diversa daquela em que foram aprovados, recebem subsídio reduzido no mesmo intervalo de tempo e ainda aumentam 04 (quatro) anos o tempo de serviço para se aposentarem no topo da carreira.
Aduzem que o ato coator viola frontalmente os princípios constitucionais da razoabilidade, moralidade, motivação, legalidade, impessoalidade, eficiência, proibição de retrocesso social e vinculação ao instrumento convocatório.
Transcrevem o decreto de nomeação e enfatizam que foram nomeados na classe inicial do cargo, criada após a finalização do concurso, por força da Lei n. 19.502/2016, de 11 de abril de 2017.
Narram que, no ano de 2014, o Estado de Goiás lançou o concurso público regido pelo Edital n. 001/2014, ofertando 305 vagas e 156 cadastros de reserva para 3ª classe da carreira de agente penitenciário, com subsídio inicial de R$ 2.847,23 (dois mil, oitocentos e quarenta e sete reais e vinte e três centavos), sob a égide da Lei n. 18.300/2013, e, concomitantemente, deflagrou o processo seletivo simplificado n. 002/2015, visando a contratação de 1.625 vigilantes temporários, cujo salário ofertado foi de R$ 1.500,00 (mil e quinhentos reais), em clara violação à regra do concurso público.
Bradam que, em razão de tais fatos, o Ministério Público do Estado de Goiás ajuizou a Ação Civil Pública, de protocolo n. 0391327.46, para que fossem ampliadas as vagas originalmente ofertadas no certame em análise, pedido deferido pela magistrada condutora do feito em sede liminar, o que ensejou a ampliação do cadastro de reserva.
Alegam que o Estado de Goiás protelou a homologação do resultado final do concurso para “ganhar tempo suficiente para a elaboração e aprovação da lei 19.502/2016, que subdividiu a 3° Classe da carreira de agentes penitenciários que contava com 991 vagas, em uma nova classe, a qual entrou em vigor 3 meses após a finalização do concurso, em 22/11/2016.”
Discorrem sobre os efeitos concretos da Lei n. 19.502/2016 e defendem se tratar de norma inconstitucional, por ter sido criada como verdadeira burla ao princípio do concurso público.
Explanam que o impetrado nomeou os candidatos aprovados na 3ª classe prevista no edital do certame na classe inicial prevista na referida legislação, Lei n. 19.502/2016, esgotando quase que a totalidade das vagas disponíveis pra ingresso na carreira de agente penitenciário.
Explicitam que tais fatos acabaram por criar uma verdadeira lacuna na 3ª classe da carreira, agravando a situação do sistema prisional em relação ao efetivo disponível.
Explanam ser “patente a imoralidade da autoridade coatora ao reduzir as vagas na classe de ingresso na carreira, deixando ociosas 460 vagas na terceira classe, justamente neste momento de crise do sistema prisional por falta de servidores.”
direitos adquiridos daqueles que foram contemplados com a decisão judicial nela proferida, reiterando, ainda, que a nova lei pretende justificar a impossibilidade de contratação de servidores efetivos em detrimento da mão de obra precária.
Reiteram que os efeitos decorrentes da Lei n. 19.502/2016 implicam patente violação ao princípio da proibição de retrocesso social, irredutibilidade de vencimentos, razoabilidade e vinculação ao instrumento convocatório, além de afrontar os princípios constitucionais da administração pública, legalidade, impessoalidade, eficiência, moralidade e publicidade.
Colacionam entendimento doutrinário e jurisprudencial para corroborar a tese esposada.
Salientam que no Estado de Goiás a homologação dos concurso é ato vinculado e tem prazo máximo de 60 (sessenta) dias, conforme consta da previsão contida na Lei n. 10.460/88, o que demonstra clara violação da autoridade coatora à referida norma.
Ponderam que, de acordo com o cronograma previsto no edital, a homologação do certame deveria ocorrer até a data máxima de 26/09/2016, mas, “coincidentemente, em 03/10/2016 a autoridade coatora encaminhou o projeto à assembleia legislativa, onde subdividiu a então 3° Classe que contava com 991 vagas, em uma nova classe inicial com apenas 531 vagas, reduzindo inclusive o valor do subsídio para R$ 1.500,00 (Hum mil e Quinhentos reais), conforme lei 19.502/2016, que vigorou a partir 22/11/2016.”
Dessarte, entendem que o Poder Judiciário deve conferir efetividade ao texto da Lei n. 10.460/1998, para compelir a autoridade impetrada a convalidar a homologação do concurso para a data limite legal nela estabelecida, “retroagindo os efeitos da homologação do resultado final para o dia 26/09/2016, data anterior à criação da nova lei que reduziu o subsídio da carreira, assim se prestando a pretensão jurisdicional e sua tutela, isto com intuito de preservar a segurança jurídica e o ato jurídico perfeito.”.
Adunam que, ao criar estas novas vagas, houve evidente afronta aos princípios da publicidade e boa-fé objetiva.
Asseveram que possuem direito líquido e certo de tomar posse no cargo de Agente Prisional de 3ª classe, percebendo, por conseguinte, subsídio mensal no valor de R$ 2.847,23 (dois mil, oitocentos e quarenta e sete reais e vinte e três centavos).
Argumentam que resta cabalmente comprovado nos autos a inconstitucionalidade da Lei n. 19.502/2016, devendo ser aplicado ao caso em comento a Lei n. 18.300/2013, por ser a que rege o concurso público para o qual foram aprovados.
Sustentam estarem devidamente preenchidos os requisitos para concessão da medida liminar no presente mandado de segurança, quais sejam, fumus boni iuris e periculum in mora.
Por fim, pugnam pela concessão do provimento liminar, para determinar que a autoridade acoimada de coatora faça a nomeação dos impetrantes no cargo de Agente de Segurança Prisional de 3ª Classe, sob pena de multa diária no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais).
efetivo exercício.
Guia de custas iniciais devidamente recolhida. Éo relatório. Decido.
Como relatado, cuida-se de mandado de segurança, com pedido de liminar, impetrado por Eduardo Isaak de Oliveira Castro, Adrielle Aparecida Rodrigues da Silva, Edson Martins da Silva, Hélio da Costa Muniz Filho, Juliana Ribeiro Ferrante, Mayara Gontijo Cirineu, Leonardo Rodrigues Ribeiro e Wallisson dos Santos Souza contra ato acoimado ilegal atribuído ao Governador do Estado de Goiás, com fulcro no artigo 5º, LXIX, da Constituição Federal, e Lei n. 12.016/09.
Os impetrantes buscam, liminarmente, a concessão de ordem mandamental para que seja o impetrado competido a nomeá-lo na 3ª Classe para o cargo de Agente de Segurança Prisional, sob pena de multa diária no valor de R$ 5.000,00 (cinco mil reais).
Éconsabido que, para a concessão liminar da segurança, necessária se faz a presença concomitante de dois requisitos, quais sejam, o fumus boni iuris – caracterizado pela relevância dos motivos em que se assenta o pedido exordial – e o periculum in mora –, representando o risco de ineficácia do tardio reconhecimento do direito do impetrante na decisão de mérito.
Na hipótese, em cognição inicial, própria do estágio em que se encontra o feito, antevejo a presença de elementos suficientes a respaldar a pretensão de concessão de liminar.
Com efeito, nos termos do artigo 7º, § 2º, da Lei do Mandado de Segurança, “não será concedida medida liminar que tenha por objeto a compensação de créditos tributários, a entrega de mercadorias e bens provenientes do exterior, a reclassificação ou equiparação de servidores públicos e a concessão de aumento ou a extensão de vantagens ou pagamento de qualquer natureza”.
No caso em tela a pretensão autoral é a nomeação e posse na 3ª Classe do cargo de Agente de Segurança Prisional, nos termos do item 2.1.3 do Edital n. 001/2014, que lançou o concurso público da SEAP – Superintendência Executiva de Administração Penitenciária.
Tendo restando comprovada a aprovação dos impetrantes em todas as etapas do certame, para o cargo de Agente Prisional de 3ª Classe, cuja remuneração prevista é no valor de R$ 2.847,23 (dois mil, oitocentos e quarenta e sete reais e vinte e três centavos), único cargo constante do edital do certame, mostra-se questionável a alteração de classe e a redução de subsídio, sob pena de violação ao princípio da vinculação obrigatória ao edital.
Notifique-se a autoridade acoimada de coatora para cumprir esta decisão e para que preste, no prazo de dez (10) dias, as informações que julgar necessárias, remetendo-se-lhe a segunda via da impetração.
Cadastre-se o Estado de Goiás como litisconsorte passivo.
Outrossim, de acordo com a redação do inciso II do artigo 7º da Lei nº 12.016/2009, determino a intimação da Procuradoria-Geral do Estado de Goiás para que defenda o ato impugnado, no mesmo prazo previsto para a autoridade coatora prestar informações.
Após, colha-se a manifestação da douta Procuradoria-Geral de Justiça. Intimem-se e cumpra-se.
Goiânia, 27 de julho de 2017.
Des. CARLOS ALBERTO FRANÇA R E L A T O R