CAPÍTULO I – INTRODUÇÃO
O presente Trabalho insere-se no âmbito do Trabalho Cie ntifico, exigido pelo Instituto Superior de Educação, ISE, para a obtenção do grau de licenciatura em ensino de Biologia e enquadra-se também na pesquisa do Instit uto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário, INIDA, em curso.
É sempre um desafio para o estudante a escolha do tema. A praga Spinotarsus
caboverdus constitui um factor determinante no desenvolvimento da agricultura em Santo
Antão, visto que desde o seu aparecimento a agricultura em Santo Antão tem sido seriamente prejudicada. Isto, constitui a motivação no que concerne a escolha do tema “Reprodução de milpés Spinotarsus caboverdus (Diplopoda, Odontopygidae) em diferentes tipos de solos”, juntando assim, o desejo e a vontade de conhecer melhor e dar o nosso contributo, a aquele que tem mostrado resistência às várias tentativas para o seu combate.
Alguns investigadores como Kleer (1989), testou o efeito de ingestão e de contacto de insecticidas através de iscos; Neves et al. (1990), testaram a eficácia com nemátodos
Rhabditis necronema importados da Austrália; Brito (1994) e Nascimento (2005) realizaram
testes de eficácia com vários fungos patogénicos.
O objectivo principal do nosso trabalho, consiste em avaliar o impacto directo entre o tipo de solo e a reprodução do S. caboverdus. Assim sendo, a nossa pergunta de pesquisa é a seguinte:
“ Será que existe alguma influência no tipo de solo na reprodução do S. caboverdus? Entretanto, constitue m ainda objectivos deste trabalho, em termos mais específicos: 1. Identificar os factores que influenciam a postura de ovos de S. caboverdus;
2. Contribuir para o esclarecimento de aspectos relacionados com a biologia de S. caboverdus; 3. Fornecer elementos que permitem o controlo integrado de S. caboverdus;
Por ser um trabalho de índole científico pressupõe a utilização de métodos e técnicas cie ntíficas, que nos auxiliaram na recolha e no tratamento dos dados. Assim sendo, o percurso metodológico adoptado para a elaboração do nosso trabalho de pesquisa baseou-se numa perspectiva teórica e na elaboração de um componente prático, o que nos impôs a adoptar as seguintes metodologias:
1ª Fase – Pesquisa bibliográfica que é essencialmente para a fundamentação teórica do trabalho ;
2ª Fase – Realização da componente prática do nosso trabalho que iniciou com recolha de amostras de solos no campo que decorreu durante 14 semanas de Julho á Outubro de 2007 no laboratório do INIDA na Vila da Ribeira Grande em Santo Antão.
Tabela nº1 – Origem das amostras de solos
As amostras de solos foram colectadas entre treze e dezoito de Julho de 2007, nas ilhas de Santiago, na localidade de São Jorge dos Órgãos e Santo Antão, nas localidades de Afonso Martinho, Lajedos e Ribeira da Cruz, onde se recolheu amostra nos dois lados da ribeira ma is concretamente em Chã Branca e em Ponta de Parede (fig1).
Variante Propriedade Coordenadas Presença de milpés Presença de outros artrópodes Tipos de irrigação São Jorge dos Órgãos -Santiago INIDA - Ministério Agricultura morango N15º- 03mn12.7s H023º36mn16, 2s Elevação 320m Sem milpés Gota - gota Ribeira da Cruz 1- Chã Branca Privada Bananeira N 17º - 06mn 26,9s H O 25º 14mn 47,3s Elevação: 284m Com milpés (densidade média) Alagamento Ribeira da Cruz 2 - Ponta de Parede Privada Bananeira N 17º - 06mn 39,4s H O 25º 40mn 34,05s Elevação: 310m Sem milpés Sapos, Formigas bicho conta Alagamento Lajedos Centro Pecuário de Lajedos mangueira N 17º -1mn 25,0s H O 25º 10mn 14,0s Elevação: 402m Com milpés (densidade fraca) Alagamento Afonso Martinho Centro Agrícola Batata comum N 17º -10mn 47,15s H O 25º 4mn 43,7s Elevação: 57m Com milpés (densidade elevada) Gota - gota
Figura 1 - Localização dos locais da recolha de amostras de solo na ilha de Santo Antão
Em relação a ilha de Santo Antão, usamos um critério de escolha das localidades para amostra que baseou na presença forte, média e nula de milpés. Essas recolhas não consistiam apenas nas amostras de solos, mas também com ajuda de um GPS Etrex registamos a localização dos locais onde recolhemos as amostras. Registamos também outras informações relevantes sobre o estudo que podem ser consultadas na tabela nº 1.
A amostra de solo de S. Jorge dos Órgãos foi recolhida numa parcela de terreno de ensaios do INIDA onde se tinha cultivado o morangueiro (Fragaria sp.). È importante salientar que em S. Jorge dos Órgãos nunca houve a presença de milpés.
O solo de Afonso Martinho foi recolhido numa parcela de terreno de ensaios do Ministério do Ambiente e Agricultura onde se tinha cultivado a mancara (Arachis hypogaea). Em Afonso Martinho existe uma forte presença de milpés que provocam estragos.
Em Lajedos a recolha da amostra do solo foi feito numa parcela de terreno também pertencente ao Ministério do Ambiente e Agricultura e na altura o terreno encontrava ocupado pela mangueira (Manguifera indica), os milpés existente nessa zona, não provocam estragos.
A amostra do solo de Ponta de Parede foi recolhida numa propriedade privada ocupado pela cultura de bananeira (Musa sp.). É de realçar que nesta variante (localidade) não há presença de milpés, apesar de serem introduzidos constantemente através de água de rega e de material vegetal, eles não sobrevivem nesse local. Por ultimo, em Chã Branca, num terreno (propriedade privada), ocupado pela cultura de bananeira (Musa sp.) recolhemos a amostra, com presença de milpés.
O tipo de rega usado nas parcelas de S. Jorge dos Órgãos e Afonso Martinho foi gota-a-gota, enquanto em Lajedos, Ponta Parede e Chã Branca a técnica foi o alagamento. As amostras de S.caboverdus (fig.19) foram recolhidas com a ajuda de iscos (fig.18) numa parcela de terreno privado, ocupado pela cultura da bananeira.
No laboratório com ajuda de um crivo de três milímetros de diâmetro (peneira com rede de três mm, é um coador) crivamos os solos com o objectivo de facilitar a fêmea na formação da cápsula que protege o ovo. Cada amostra de solo foi colocada individualmente em caixas de criação (fig.20) devidamente identificada, onde se utilizou quatro repetições.
Em cada caixa foram colocados dez fêmeas e dez machos de S. caboverdus, alimentados com casca de banana. Essa casca era substituída com uma frequência de dois vezes por semana, antes que mostrasse vestígios de podridão (presença de fungos) e qua ndo já se encontrava ressequida.
Para manter a humidade do solo colocamos nas caixas uma camada de papel higiénico, a qual era humedecida duas vezes por semana com água destilada.
As leituras foram feitas duas vezes por semana onde os factores avaliados foram a mortalidade de adultos, o número de ovos postos, presença de outros artrópodes e o peso da cápsula, que foi avaliado com uma balança tipo OHAUS A200 (ficha de seguimento no anexo). Quando começamos a observar a postura de ovos preparamos placas de Petri, com amostra de solo retirada das respectivas caixas de criação para serem colocados os ovos. Obs: Foi assumido a expressão ovos mas o que nós observamos foram cápsulas.
Durante as leituras dos dados das amostras os materiais (fig. 21) como, por exemplo a pinça, espátula, placas de Petri usados numa repetição de cada variante eram desinfectados com álcool 96%, ao ser usado numa outra amostra com o objectivo de não deixar passar contaminação, caso existisse.
A temperatura mantida no laboratório era de 23-28º C e uma humidade relativa de 35-71%.
As análises físico química dos solos foram feitas no LASAP.
O processamento e tratamento de dados recolhidos, para a fundamentação prática baseiam no programa computacional Excel bem como a ajuda do programa estatístico SPSS 15.0. Os resultados foram apresentados em forma de tabelas, gráficos acompanhadas das respectivas análises e conclusões.
Desta forma estruturamos o nosso trabalho em quatro capítulos, assim organizados:
No Capítulo I apresentamos a contextualização da problemática do S. caboverdus, os motivos da escolha do tema, definimos os objectivos desta pesquisa, formulamos a pergunta de partida, traçamos a metodologia adoptada. No Capítulo II abordamos o enquadramento teórico e conceptual onde descrevemos a caracterização geral da Ilha de Santo Antão, a localização geografia, demografia, clima, solos e regime de cultura. Ainda neste capítulo descrevemos a problemática dos milpés em Santo Antão onde referimos a sua introdução e expansão na Ilha, sua identificação e descrição, por ultimo descrevemos os factores que afectam a sua reprodução e as culturas atacadas. No Capítulo III descrevemos e analisamos as informações obtidas a partir dos dados recolhidos. No último Capítulo IV apresentamos algumas conclusões e recomendações.
Consta ainda do nosso trabalho uma bibliografia e um anexo com fotografias e a ficha utilizada durante o levantamento dos dados laboratoriais.
Durante a realização da componente laboratorial encontramos alguns constrangimentos tais como:
A alimentação prevista para os milpés era a batata comum nacional, mas por que nesta época havia escassez da mesma, então optamos por uma alimentação a base de casca de banana madura que é um meio propício para o desenvolvimento de microrganismos. Esses microrganismos como por exemplo os fungos levam ao apodrecimento rápido da banana. A sua presença pode dificultar as leituras dos dados (localização dos ovos e dos juvenis).
Um outro constrangimento foi uma invasão de formigas nas caixas que foi logo controlado com armadilhas de mel misturado com confidor (imidacloprid). Foi observado a presença de ácaros em todas as variantes após 5 semanas do início do ensaio.
CAPÍTULO
II
- CARACTERIZAÇÃO
GERAL,
FUNDAMENTO TEÓRICO E CONCEPTUAL
1- CARACTERIZAÇÃO GERAL DA ILHA DE SANTO ANTÃO
1.1- Localização Geográfica
A ilha de Santo Antão está situada no extremo ocidental, no grupo das ilhas que formam o Barlavento Caboverdiano. Relativamente a superfície é a segunda maior ilha da Republica de Cabo Verde, com uma superfície de 779 km2.
O comprimento máximo é de 43 km entre a ponta Tumba, a Nordeste, e a ponta Camarina, a Sudoeste, sendo a largura máxima de 24 km entre a Ponta das Areias, a Noroeste e a Ponta do Cais dos Fortes, a Sudoeste (Bebiano 1932, citado por Mota Gomes, 1991).
Morfologicamente, a ilha estrutura-se a partir de uma grande dorsal central que a percorre de Este a Oeste com altitudes superiores aos 1000 m, situando-se a maior cota no Topo de Coroa com 1979 m. Desta cordilheira central partem, maioritariamente as grandes ribeiras em sentido norte-sul, que vão até a costa. Estas ribeiras, impressionantes barrancos de bordes praticamente verticais, com paredes muito altos, são o resultado de escavações por uma intensa erosão hídrica ao longo das eras geológicas. Trata-se do elemento mais singular
da paisagem da ilha pela sua espectacularidade natural (Pano Nacional para o Ambiente, 1999).
A ilha de Santo Antão apresenta caracterís ticas próprias que a diferencia das restantes ilhas do país, sendo, portanto chamada ilha das montanhas. Apresenta também um contraste paisagístico muito marcante oferecendo, a norte, belíssimas paisagens verdejantes de pinheiros e cedros, em contraste com a desértica aridez a sul da ilha. A beleza imponente dos vales, descendo as ravinas nas montanhas em direcção ao mar proporcionando panorâmicas de grande impacto e beleza.
1.2- Demografia ou divisão administrativa
A ilha de Santo Antão conheceu ao longo da sua história, flutuações demográficas importantes, que estão relacionadas com os factores de natureza ambiental, como secas prolongadas e fome.
A evolução demográfica da ilha, caracteriza-se por um crescimento inicial muito rápido e por uma relativa estagnação a partir dos anos 40. Nesta década, o seu crescimento inverte-se chegando a perder 21% da sua população, motivada pela fome como consequência da seca que assolava o país. (Plano de Acção para o Ambiente, 1999)
Segundo o censo de 2004, a sua população residente era de 47484 habitantes distribuídas pelos três Concelhos: Porto Novo, Ribeira Grande e Paúl.
A ilha tem uma população essencialmente rural onde os habitantes têm na agricultura os principais meios de subsistência. As famílias que não praticam a agricultura são pelo facto de não possuírem terra.
1.3
-
ClimaO seu clima é resultante de uma conjugação de factores que sujeita a ilha dos quais se destacam a influência Saheliana e a um regime de ventos alísios que na altitude, graduam espaços de microclima que vão desde a acentuada aridez até forte amenidade de um clima sub húmido, com temperatura indo até aos 10ºC positivos na montanha nos meses mais frios,
Janeiro e Fevereiro (Plano de Acção para Ambiente, 1999; II PDSA, 1999; Campinha, 2005). É muito seco no sul, fresco na parte central e húmido na região norte.
Segundo Azevedo 1932, citado por Miranda, 2005, o clima é definido em duas estações: A estação seca ou “o tempo das brisas” que vai de Dezembro á Junho, e a estação das chuvas ou “o tempo das águas” que vai de Agosto á Outubro.
O clima de Santo Antão, graças ao seu relevo pronunciado principalmente nas vertentes Norte a Nordeste, as precipitações pode ser considerados significativas. As precipitações médias anuais podem atingir valores de 700 mm nas zonas mais elevadas do Nordeste, que é o caso da zona de Pico da Cruz, mas decrescem gradualmente nas vertentes Oeste atingindo valores inferiores a 100 mm na costa Sudoeste.
Este valor é muito superior a média nacional e é uma das ilhas mais húmidas do país (Plano de Acção para o Ambiente, 1999).
1.4
-
SolosO solo constitui o meio no qual a planta desenvolve e esta destinada a satisfazer uma parte das necessidades da planta. É o suporte da planta e é igualmente o seu reservatório alimentar.
A qualidade do solo tem uma influência significativa no desenvolvimento da agricultura. Os solos da ilha de Santo Antão são de uma maneira geral pouco desenvolvidos e com alto índice de pedregosidade (25-80%) como consequência da interacção de diversos factores nomeadamente topográficos, climáticos e vegetação (Mota, 2005).
Em muitos casos a velocidade de erosão é igual ou superior aos fenómenos que conduzem a formação dos solos. Contudo, as áreas de características planálticas e de relevo suave com superfície geológico original encontram-se solos relativamente profundos (ribeiras).
A textura dos solos variam de argilosa á arenosa e a fertilidade, pela incorporação de matéria orgânica, é geralmente boa como consequência da origem vulcânico basáltico dos mesmos. (Plano Acção para o Ambiente, 1999).
Os solos podem ser divididos em duas categorias distintas: solos cultiváveis e solos não cultiváveis (Mota, 2005).
A maior parte dos solos na ilha de Santo Antão não é cultivável devido a existência de grande quantidade de rochas nuas e de enormes zonas áridas.
1.5-Regime de cultura
Segundo Neves (1998), cerca de 6021ha são cultivados na ilha dos quais 857ha são ocupados por culturas no regime de regadio enquanto 5164ha são ocupados por culturas no regime de sequeiro.
A ocupação das terras é caracterizada por um lado pela predominância do milho no sequeiro e da cana sacarina no regadio e por outro lado por um sistema de associação de várias culturas.
No regime de sequeiro, feito nas zonas altas cultiva-se o milho, o feijão Congo, batata comum, batata-doce e mandioca. Essas três últimas culturas são praticadas principalmente nas zonas húmidas e sub- húmidas de altitude.
No regime de regadio, feito nos vales e nas ribeiras encontram-se quase todas as culturas, mas com diferente representatividade em termos de área.
Nota-se que as principais culturas são a cana sacarina, bananeira, batata comum e batata-doce, mandioca, as ma is diversas hortícolas. Neves, (1998).
As técnicas de rega aplicadas em Santo Antão são a rega por alagamento ou tradicional usado nas culturas de bananeira, mandioca, cana-de-açúcar e rega por micro-irrigação na sua componente gota-a-gota usado nas culturas hortícolas.
A micro irrigação apresenta vantagem na sua utilização uma vez que apresenta um menor índice de consume de água e diminui a propagação dos milpés (Nascimento, 2008). Segundo o Censo de 2004, em Santo Antão a técnica predominante de rega continua a ser o alagamento.
A fertilização dos solos é feita essencialmente pela utilização da adubação orgânica e o uso de adubos é de pouca expressão.
As actividades económicas da Ilha são, a pesca, a extracção do pozolana (lama vulcânica usado no fabrico de cimento) e a agricultura. O turismo também começa a ser encarado como uma actividade de lucro. (Guia dos Circuitos Turístico de Cabo Verde, 2007) A agricultura é o principal ramo de actividade, o principal meio de subsistência com uma maior destaque para a produção de aguardente.
É uma das principais ilhas agrícolas de Cabo Verde, mas as pragas com realce para os milpés limitam a sua produção.
2-
PROBLEMÁTICA DOS MILPÉS EM SANTO ANTÃO
2.1-Introdução e expansão do S. caboverdus em Santo Antão.
O S. caboverdus é um miriápode pertencente à família dos Odontopygidae (ordem dos Spirostreptidae) classe Diplopoda.
Os primeiros indivíduos de S.caboverdus foram detectados nos anos 1969/1970 no Vale da Ribeira Grande na localidade de Santa Bá rbara onde se cultivava cana sacarina (Saccharum officinarum) e bananeira (Musa sp.), (Neves, 1998). Nestas culturas não foram registados estragos. Os estragos começaram a ser notórios quando a praga atingiu as zonas onde se cultivavam batata-doce (Ipomoea batatas) e batata comum (Solanum tuberosum) (Neves, 1998).
A espécie foi introduzida numa época em que as ligações frequentes eram essencialmente entre Angola, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe o que leva a crer que é esta a verdadeira origem da espécie, introduzida por via marítima através do transporte de material vegetal (Neves, 1998).
Segundo (Neves, 2008) comunicação verbal, existe uma incerteza na verdadeira origem da espécie em Cabo Verde e que também, existe explicações controvérsias no tocante a esta matéria.
No entanto, o mesmo entrevistado refere a uma afirmação dada por testemunhos, de que se trata de uma espécie introduzida que não causava danos nas culturas, mas que ao longo do tempo sofreu mutações que lhe permitiu transformar numa espécie única e daninha.
Segundo Neves, essas transformações não são mutações porque para isso seria resultado de muito mais anos. Ele acredita que a referida espécie veio de zonas húmidas com muita matéria orgânica e que chegando em Santo Antão adaptou às condições locais em termos de alimentação e que desde 1975 se transformou numa das maiores pragas da agricultura em Santo Antão.
A característica montanhosa da ilha com seu clima húmido está especialmente adaptada para a preservação das espécies durante a época da seca (Nascimento et al, 2002).
Esse miriápode apresenta características de um organismo introduzido do exterior, devido a ausência de inimigos naturais, o que justifica em parte a sua explosão populacional e o pronunc iado carácter de praga em Cabo Verde (Brito, 1993).
Actualmente está presente em quase toda a ilha. Excepto no Vale de Figueiras, e Ribeira Alta no Concelho da Ribeira Grande e os vales de Alto Mira, Martiene, Tarrafal de Monte Trigo e Monte Trigo no Concelho do Porto Novo (Neves, 1998). A rápida disseminação da espécie deve-se ao transporte das zonas infestadas de materiais de propagação como tubérculos, raízes, restos das colheitas e a própria água de canais de irrigação teve importância no processo de disseminação (Neves, 1998).
Devido as consequências graves, que têm a propagação dos milpés, Santo Antão está sujeita a uma quarentena vegetal com o objectivo de impedir a sua difusão pelas outras ilhas.
2.2- Identificação e Descrição da espécie
A espécie foi descrita e classificada em 1987 pelo taxionomista Belga, DOUTOR Pierrard que lhe atribuiu o nome científico Spinotarsus caboverdus por ser uma espécie única que faz estragos às culturas encontradas em Cabo Verde (Neves, 1998).
2.2.1- Alguns Aspectos Morfológicos e de desenvolvimento
Esses milpés são animais de forma cilíndrica e estreita com cerca de 30mm de comprimento e 1,2mm de largura, sendo os adultos com um número elevado de diplosegmentos (Barbosa, 1993).
Segundo Nascimento, os adultos atingem 47mm de comprimento e uma media de 67 diplosegmentos. São animais que possuem características mínimas que nos permite diferenciar o macho da fêmea. As fêmeas possuem em média 127 pares de patas enquanto que os machos possuem só 125. Isto deve-se ao facto que o primeiro e segundo par de patas do sétimo segmento do macho ser transformados em gonópodes (órgãos reprodutivos).
Fig. nº 2 - Localização dos gonópodes do S. caboverdus macho Fonte: foto feito pela a autora
Quando adulto a cor é normalmente um castanho-escuro, mas pode variar de um castanho claro até preto. A parte ventral é clara creme á bege. Na transição da parte dorsal para a parte ventral existe uma linha estreita, que é mais escura do que a cor das restantes partes (Barbosa, 1993).
Fig.nº3 – S. caboverdus adulto Fonte: foto feito pela autora
Os machos adultos, podem ser reconhecidos pela presença de órgãos reprodutivos (gonópodes) no sétimo anel do corpo que é mais grosso (Nascimento, 2003).
Além dos órgãos sexuais, o sexo pode ser distinguido na forma da cabeça dos machos que é mais comprida do que a das fêmeas. Essa configuração é importante para a identificação da espécie (Barbosa, 1993).
Na fêmea a vulva (órgão copulatório feminino) situa-se entre o II e o III diplosegmentos.
Os jovens são mais claros. As suas tonalidades variam entre branco e castanho claro (Monteiro, 2006).
O S. caboverdus tal como os outros Diplopoda é higrófilo. Passa a maior parte do tempo debaixo de aglomerados de folhas secas caídas (manta morta), de culturas rastejantes, sob pedras e de um modo geral, nos sítios onde existem grandes quantidades de matéria orgânica em decomposição (Barbosa, 1993).
Essas condições são preferidas por outros seres como por exemplo o de-conta. O bicho-de-conta é uma espécie que pertence a ordem Isopoda. É um animal que prefere solos húmidos com muita matéria orgânica. Geralmente a sua presença é um indicador da existência de condições propício para o desenvolvimento de milpés.
Segundo Neves, (1998) a espécie evita durante o dia os terrenos arenosos e descobertos onde o aquecimento é rápido e a temperatura atinge valores elevados enquanto que durante a noite é activa circulando em quase todos os sítios como por exemplo nas habitações.
Durante a noite e nas horas mais frescas circula-se normalmente sendo estas, as alturas mais propícias para ataques as culturas. A exposição directa ao sol pode, porém, rapidamente conduzir a morte dos milpés razão pela qual preferem zonas húmidas (Barbosa, 1993)
Segundo Nascimento, 2008 comunicação verbal INIDA, o tegumento da praga perde muita água por isso evite exposição á luz solar.
Segundo Barbosa, (1993) o número de estádios a partir do ovo até a maturidade é superior a dez não devendo ultrapassar os catorze ou no máximo os quinze.
Todos os Diplopoda passam por períodos de crise denominados de muda (passagem de um estádio para outro). O milpés durante este período deixa de se movimentar, enrola-se em espiral e pára de se alimentar. Cada muda dura cerca de 3-4 dias, ao fim dos quais volta a adquirir a sua mobilidade normal. Passa a alimentar-se normalmente, surge novo tegumento, aumenta de dimensões do corpo e da cabeça, adquire novos segmentos com e sem patas, novos antenas e aumenta o número de ocelos (Barbosa, 1993)
Nas zonas de cultura do regadio, eles enterram no solo debaixo de pedra, folhas de árvores, nas proximidades das raízes de árvores a procura de humidade conveniente.
2.2.2- Reprodução
A reprodução é ovípara e as fêmeas preferem solos com uma certa humidade, com boa percentagem de matéria orgânica e de argila para as suas posturas (Neves, 1998).
Tendo em conta que os milpés atingem a maior parte do seu ciclo de vida sobre o solo, os acasalamentos são observados na superfície do solo durante toda a estação húmida e sobre o solo húmido mesmo durante a estação seca (Monteiro, 2006).
O processo da reprodução da espécie S. caboverdus começa com o contacto directo entre machos e fêmeas de uma forma acidental e pode ocorrer a cópula (Nascimento, 2003). Durante o acasalamento o macho enrola em espiral a volta da fêmea de um modo muito específico. O processo de copulação decorre em 40minutos. A fêmea pode copular várias vezes com intervalo de tempo muito pequeno (Nascimento, 2002). A postura ocorre no solo a uma profundidade de 8cm, onde a fêmea deposita o ovo de cor clara, com 0,8mm de comprimento e 0,6mm de largura de uma forma individual. Esse ovo é protegido pela fêmea por uma cápsula feita de partículas de terra fina que adquire o formato do ovo no qual a larva completa após a eclosão o terceiro estádio (Nascimento, 2003).
È de salientar que essa cápsula é trabalhada com uma perfeição o que nos permite distingui- la de outras partículas do solo de igual tamanho.
Fig nº4 - Ovo de S.c dentro de uma cápsula Fignº5-Cápsulas de ovos de S.c após a saída juvenil
Fonte: Nascimento
O desenvolvimento do embrião dura no máximo 22 dias á uma temperatura de 20-23ºC. O desenvolvimento dentro do ovo dura três semanas. Os estádios juvenis de I a III permanecem dentro da cápsula alimentando-se da gémea e de partículas de terra (Nascimento, 2003).
Após esta fase já é notório o pupóide, um ser ainda bastante frágil, imóvel mas já com vestígios de uma certa diferenciação pela cutícula embrionária, com suas antenas estruturadas, perna emparelhada (Nascimento, 2002).
Não efectuam diapausa eles reproduzem durante todo o ano mesmo durante a estação seca porque a fêmea põe os ovos em locais com condições propícios para completar o estádio III até a saída do juvenil da cápsula. O ciclo de vida da espécie dura aproximadamente 15 meses. (Nascimento, 2003)
2.2.3- Factores que influe nciam a reprodução
São vários os factores que influenciam a reprodução entre os quais o solo, a chuva, plantações não substituídas com frequências, a irrigação tradicional, a Temperatura, humidade (Barbosa, 1993; Neves, 1998; Nascimento 2005).
Segundo Nascimento (2005), o ciclo de vida do S.caboverdus é adaptado a parâmetros ambientais como a chuva. Possuem uma maior postura após a chuva devida que os ovos e os primeiros estádios larvais preferem a terra com alta humidade, destaca-se aqui a humidade relativa como um dos factores que influência a reprodução.
As posturas são feitas preferencialmente em solos com uma certa humidade, com boa percentagem de matéria orgânica e de argila (Neves, 1998).
A reprodução ocorre no solo. O milpés aproveita no seu processo de reprodução as plantações que não são substituídas com frequência, como é o caso da bananeira, para depositarem os seus ovos (Nascimento, 2003).
Neste caso a cultura da bananeira funciona como um refúgio antes das primeiras chuvas. Para protegerem o ovo precisa de terra fina para fazerem a cápsula.
De um modo geral os Diplopoda não toleram temperaturas e humidades extremas pelo que estes factores limitam a sua propagação e aumento populacional (Barbosa, 1993).
Para a espécie S. caboverdus a uma temperatura até 30ºC, com uma humidade de 75% é favorável, óptimo para a reprodução e desenvolvimento (Nascimento, 2005).
Nos verões quentes só sobrevivem os adultos uma vez que o tegumento dos juvenis é muito sensível fácil de desidratar (Monteiro, 2006).
2.4-Culturas atacados e impacto económico
Segundo Nascimento (2003), a espécie pertence a esses muitos raros milpés no mundo que atacam e prejudicam as culturas agrícolas e constitui até os dias de hoje uma das maiores pragas das culturas praticadas em Santo Antão. A ilha de Santo Antão foi nas décadas de 70/80 o principal produtor de batata comum a nível nacional.
Hoje viu esta produção reduzida a mais de 90% (Neves, 1998). É a cultura mais severamente afectada pelo milpés. A praga penetra nos tubérculos, de inicio apenas superficialmente mas, no final da cultura perfurando-os por completo, (Anónimo, 1990 Manual das Pragas das Culturas Hortícolas, da Batata-Doce e da Mandioca, INIDA)
Fig nº 7 - Estragos provocados por milpés Fig nº 8- Estragos provocados por milpés na batata Na batata – doce comum com pormenores da parte frontal da cabeça Fonte: Foto feita pela autora Fonte: Neves
As outras culturas são também atacadas assim como culturas de, batata-doce (Ipomoea
batatas) cenoura (Daucus carota), couve, repolho (Brassica olleracea), tomate (Lycopersicon esculentum), abóboras (nos órgãos florais e na altura da frutificação), estacas de mandioca
(Manihot esculenta ) na altura de plantação (entram nas estacadas que acabam por secar antes de formarem raízes, destruição das zonas de inserção radicular e dos rebentos), milho (Zea mays) e feijões ( Phaseolus sp.) na altura de germinação, as jovens plântulas, alface (Lactuca
sativa), alho (Allium sativum), cebola (Allium sepa).
Fig nº 9 - Estragos nas estacas de mandioca Fig nº 10 - Tomate com estragos
As frutas também são destruídas assim que caem sobre o solo, é o caso da manga, banana, papaia (Carica papaya). Embora somos testemunhos que já houve casos em que encontramos milpés na papaia ainda na própria árvore (Paris, 1995 observação própria).
Fig nº 11 - Acumulação de milpés na papaia Fig nº 12 - Acumulação de milpés na manga Fonte: Mandl Fonte: Nascimento
Fig nº 13 - Estragos em morangos Fonte: Neves
Atacam quase todas as frutas e folhas que entram em contacto com o solo.
A única cultura em que os estragos são pouco notórios é a cana-de-açúcar ( Saccharum
officinrum) daí a razão pela qual é a mais cultivada na ilha, cerca de 60% das culturas feitas
em Santo Antão (Neves, 1998).
CAPÍTULO III - APRESENTAÇÃO E ANÁLISES DOS
RESULTADOS
A resolução da componente prática teve como principal objectivo analisar o comportamento dos milpés durante a reprodução em solos com textura diferentes. Essa análise foi feita através da leitura de gráficos e tabelas.
A tabela nº 2 apresenta algumas características das amostras de solo utilizadas no ensaio.
Tabela nº 2 - Aná lises das amostras de solo
Variante pH Matéria orgânica %
Areia% Limo% Argila% Textura
Ponta de Parede 8,2 5,05 43 47 9 Limoso
Chã Branca 8,2 4,48 28 45 28 Franco-argilo-limoso Lajedos 8,6 5,77 Não analisado Não analisado Não analisado Não analisado
Afonso Martinho 7,8 1,8 5 27 68 Argiloso
S. Jorge dos Órgãos 7,9 2,7 15 34 49 Argilo-limoso Fonte: LASAP (adaptado)
O solo de S. Jorge dos Órgãos possui uma textura argilo- limoso ligeiramente básico, enquanto o solo de Afonso Martinho possui uma textura argilosa, com um valor de pH ligeiramente básico (7.8) e com pouca percentagem de matéria orgânica (1,8).
Em Lajedos destaca-se a pozolana (lama vulcânica básica que foi alvo de meteriorização, utilizada no fabrico de cimento), com um valor de matéria orgânica mais alto (5,77%) que as outras amostras, e um valor de pH básico (8,6).
A amostra do solo de Ponta de Parede possui uma textura limoso com um valor de pH pouco básico (8,2). Apresenta 5,05% de matéria orgânica.
A amostra de solo de Chã Branca apresenta textura franco-argilo- limoso, um pH ligeiramente básico e com boa percentagem de matéria orgânica (5,55%).
Os resultados obtidos foram analisados a partir de ANOVA (Tabela nº 3)
Tabela nº3 – Análise de ANOVA
518395,2 4 129598,805 10,151 ,000 5553932 435 12767,659 6072327 439 ,845 4 ,211 14,419 ,000 3,855 263 ,015 4,700 267 278,229 4 69,557 5,612 ,000 5379,402 434 12,395 5657,631 438 7,286 4 1,822 9,102 ,000 87,057 435 ,200 94,343 439 13,195 4 3,299 35,185 ,000 40,784 435 ,094 53,980 439 4,932 4 1,233 15,123 ,000 35,466 435 ,082 40,398 439 34,496 4 8,624 3E+029 ,000 ,000 435 ,000 34,496 439 845,486 4 211,372 3E+031 ,000 ,000 435 ,000 845,486 439 Between Groups Within Groups Total Between Groups Within Groups Total Between Groups Within Groups Total Between Groups Within Groups Total Between Groups Within Groups Total Between Groups Within Groups Total Between Groups Within Groups Total Between Groups Within Groups Total número de ovos postos
por variante
Peso de uma cápsula (g)
Nº eclosões Presença de fungo branco Presença de fungo amarelo Presença de bicho-de-conta pH do solo Matéria orgânica (%) Sum of
Foi identificada uma diferença significativa (p <0,01) entre as variáveis analisadas, tais como: total de ovos postos, peso de uma cápsula, presença de fungos brancos, amarelo, presença de bicho-de-conta, o pH do solo e a quantidade de matéria orgânica.
1- Total de ovos postos
A figura nº 14 apresenta os resultados da análise do total de ovos de S.caboverdus postos nos diferentes tipos de solos.
0 200 400 600 800 1000 1200 1400 956 1022 884 1214 1334
Fig nº14-Total de ovos postos de S. caboverdus durante dez semanas de leitura em condições de laboratório (23 a 28°C e 35 a 71% de HR)
Segundo a fig.nº14, podemos verificar que, o total de ovos postos durante 10 semanas foi maior (1334) na amostra de solo com textura limoso seguido da amostra com textura argilo- limoso com 1214 ovos. Apesar de em Ponta de Parede (textura limoso) não haver o de milpés, no ensaio laboratorial foi a variante onde se observou o valor máximo de ovos postos. No laboratório não foi observado nenhum factor biótico que pode influenciar o desenvolvimento de milpés nesta variante.
Na pozolana foi verificado o valor mais baixo com 884 ovos.
2- Média Total de ovos postos
No tocante ao tema em estudo o número de ovos postos é uma variável estatístico muito importante na reprodução do milpés. Foi analisada a média de ovos postos por variante a qual passaremos a analisar através da tabela nº4.
Da análise da tabela nº4 podemos constatar que houve diferenças significativas entre o total de ovos postos em solos com texturas diferentes, segundo o teste de Duncan (P <0,05). Nas amostras de solos com textura limoso e argilo- limoso a média do número de ovos foi estatisticamente maior.
Segundo Neves (1998), as fêmeas optam para as suas posturas, em solos com boa percentagem de argila porém os nossos resultados obtidos em solos de Ponta de Parede (limoso) mostram o contrário porque possui apenas 9% de argila e foi onde se registou o maior número de ovos postos.
Houve uma diferença significativa do número médio de ovos em relação quantidade de matéria orgânica (Duncan p<0,05)
Os resultados obtidos demonstram a possibilidade de reprodução de mil pés em zonas livres da sua presença, destacando-se o maior número de ovos produzidos nestas áreas. (fig.14). Duncan a 88 159,20 88 165,43 88 183,11 88 222,27 88 248,41 ,188 ,126 Textura Argiloso Pozolana Franco-argilo-limoso Argilo-limoso Limoso Sig. N 1 2
Subset for alpha = .05
Means for groups in homogeneous subsets are displayed. Uses Harmonic Mean Sample Size = 88,000.
a.
Tabela nº 4 – Média do total de ovos postos de S.caboverdus por variante durante 10 semanas em condições de laboratório (23 a 28°C e 35 a 71% de HR)
Tabela nº 5- Relação entre o número médio de ovos de S. caboverdus e a quantidade de matéria orgânica em (%) Duncana 88 159,20 88 165,43 88 183,11 88 222,27 88 248,41 ,188 ,126 Matéria orgânica (%) 1,80 5,77 4,48 2,70 4,05 Sig. N 1 2
Subset for alpha = .05
Means for groups in homogeneous subsets are displayed. Uses Harmonic Mean Sample Size = 88,000. a.
Segundo Neves, (1998) as posturas são preferencialmente feitas em solos com muita matéria orgânica. Os resultados mostram que em Chã Branca (franco-argilo- limoso) possui uma boa percentagem de matéria orgânica (4,48) em relação as outras amostras mas foi uma das duas amostras onde se registou uma menor postura. Enquanto que em S. Jorge (argilo-limoso) a postura foi elevada, apesar de possuir uma percentagem de matéria orgânica menor (2,7) (tabela 5).
Supomos que a existência de grande quantidade de matéria orgânica em Lajedos (pozolana) (5,77) seja a causa do fraco registo de estragos nas culturas feitas nesta variante.
3-Máximo de ovos postos por variante
A figura nº 15 é relativo ao valor máximo de ovos postos por variante no espaço de três a quatro dias. 0 20 40 60 80 100 120 140 160 87 67 96 79 144
Analisando o valor máximo de ovos postos constatamos que o solo com textura limoso (Ponta de Parede) o valor foi maior, enquanto o solo com textura franco-argilo-limoso (Chã Branca) o valor é o mais baixo.
Apesar de em Ponta de Parede não haver desenvolvimento de milpés, no ensaio laboratorial foi a variante onde se observou o valor máximo de postura.
4-Análise da média do peso de uma cápsula
O peso da cápsula constitui uma variável importante no estudo da influência do tipo de solo na reprodução dos milpés.
Fig. nº 15 – Valor máximo de ovos de S.caboverdus postos num intervalo de três a quatro dias de leitura (23 a 28°C e 35 a 71% de HR)
Tabela nº 6 – Relação da textura com o peso de uma cápsula (g) de ovos de S. caboverdus em condições de laboratório (23 a 28ºC e 35 a 71% de H. R) Duncana,b 45 ,6735 52 ,6748 55 ,7094 59 ,7900 57 ,8040 ,151 ,551 Texturacodific Pozolana Franco-argilo-limoso Limoso Argilo-limoso Argiloso Sig. N 1 2
Subset for alpha = .05
Means for groups in homogeneous subsets are displayed. Uses Harmonic Mean Sample Size = 53,119. a.
The group sizes are unequal. The harmonic mean of the group sizes is used. Type I error levels are not guaranteed.
b.
Analisando o peso médio da cápsula na tabela nº 6 constatamos:
Ø Houve diferenças significativas entre o peso de uma cápsula em solos com texturas diferentes, segundo o teste de Duncan (P <0,05).
Ø Nas amostras de solos com texturas argilo-limoso e argiloso o peso de uma cápsula foi maior (0,79g e 0,8040g respectivamente);
Ø Este facto pode ser explicado devido a percentagem de argila ser maior nestes tipos de solos (68% e 49% respectivamente) indicando que o tipo de solo influência no peso da cápsula;
Ø Em Lajedos, o peso médio da cápsula foi significativamente menor, facto explicado pela presença de cápsulas vazias, sem ovos dentro.
Tabela nº7 - Presença de bicho-de-conta nas diferentes variantes em condições de laboratório (23 a 28ºC e 35 a 71% de HR).
Presença de bicho de conta
Duncana,b 59 ,00 55 ,02 45 ,04 57 ,21 52 ,27 ,466 ,303 Texturacodific Argilo-limoso Limoso Pozolana Argiloso Franco-argilo-limoso Sig. N 1 2
Subset for alpha = .05
Means for groups in homogeneous subsets are displayed. Uses Harmonic Mean Sample Size = 53,119. a.
The group sizes are unequal. The harmonic mean of the group sizes is used. Type I error levels are not guaranteed.
b.
Foi observado em diversas caixas a presença do artrópode. Analisando a sua presença no nosso estudo, o teste de Duncan agrupou os solos com textura Argiloso e franco-argilo-limoso (Afonso Martinho e Chã Branca), variantes onde se notou uma maior presença de bicho-de-conta. Nas mesmas amostras foi também observado a presença de maior número de ovos de milpés (fig. nº14). Este facto pode explicar que os referidos artrópodes preferem o mesmo nicho ecológico.
O valor do pH e a quantidade de matéria orgânica mostrou ter influência no bicho-de-conta.
5-Número de Juvenis
Houve eclosões de ovos depois de 6 semanas com uma média de 58,3 (± 29,63). Foi na variante com textura limoso onde se verificou o valor máximo (304) de juvenis e o mínimo observado foi na variante com textura franco-argilo- limoso com 165.
A figura nº 16 representa o número de juvenis observados nas placas de Petri após seis semanas de ensaio. Esses juvenis possuíam as mesmas condições laboratoriais que os adultos.
fig. nº 16 - Número de juvenis observados em diferentes tipos de solo após 6 semanas do ensaio (23 a 28ºC e 35 a 71% de HR).
Da análise do número de juvenis podemos afirmar, através da figura nº 16 que na variante com textura limoso houve maior percentagem de juvenis seguido da variante com textura argilo- limoso. Embora não existe a presença de milpés nestas variantes, elas demonstraram um maior nível de reprodução. A amostra de solo com textura limoso demonstrou que não trouxe consigo o possível factor biótico que impede o desenvolvimento de milpés localmente.
6-Influência do valor de pH na reprodução de S.caboverdus
Durante o nosso ensaio analisamos também a influência do valor do pH nas posturas de ovos do S.caboverdus nas diferentes variantes.
165 236 294 304 167 0 50 100 150 200 250 300 350 Franco-argilo-limoso Argiloso Argilo-limoso Limoso Pozo lana
Tabela nº 8 - Influência do pH no número médio de ovos postos de S. caboverdus por variante durante 10 semanas em condições de laboratório (23 a 28ºC e 35 a 71% de HR)
Da análise da tabela nº 8 podemos constatar que houve diferenças significativa s do número de ovos postos ao longo do ensaio em relação ao pH dos solos avaliadas.
O teste de Duncan (p <0,05) mostra a diferença de quantidade de ovos postos em diferentes valores de pH por variante. Agrupou os solos com valor de pH 8.2 (Limoso e Franco-argilo- limoso) com o solo com pH 7.9 (Argilo- limoso) e é onde se verificou o maior número de ovos postos (Tabela nº 8).
Nas amostras de solos com pH 7,8 e 8,6 a média do número de ovos foi estatisticamente menor do que as outras amostras.
7-Presença de outros seres por caixa
Foi observado em diversas caixas a presença do bicho-de-conta, um animal que prefere solos húmidos com muita matéria orgânica. Geralmente a sua presença é um indicador da existência de condições propício para o desenvolvimento de milpés. Fungos amarelos e branco (fig17), ácaros brancos e vermelho, formigas e centopeias também foram registadas.
O maior índice de ocorrência de fungo branco ocorreu nas amostras de textura argilo- limoso e franco-argilo- limoso (tabela 9).
Duncan a,b 88 159,20 88 165,43 176 215,76 88 222,27 ,701 ,688 pH do solo 7,8 8,6 8,2 7,9 Sig. N 1 2
Subset for alpha = .05
Means for groups in homogeneous subsets are displayed. Uses Harmonic Mean Sample Size = 100,571. a.
The group sizes are unequal. The harmonic mean of the group sizes is used. Type I error levels are not guaranteed.
Houve correlação negativa entre a presença do fungo branco e o pH do solo . Este fungo prefe re um valor de pH menos básico (Pearson, -0,182; P< 0,01).
Fig. nº 17 - Adulto de S.caboverdus, morto, infectado por um fungo branco
8-Relação entre as texturas dos solos com o fungo branco e o amarelo
Tabela nº 9- Influência da textura na presença do fungo com micélio branco em condições de laboratório (23 a 28ºC e 35 a 71% de HR)
O teste de Duncan mostra a diferença entre a presença de fungos com micélio de cor amarelo e branco nas amostras de solo com texturas diferentes. Na variante Lajedos ( pozolana) não se registou a presença dos fungos, admitimos que a pozolana não apresenta condições propícios para o seu desenvolvimento.
Duncana 88 ,16 88 ,17 88 ,33 88 ,42 ,42 88 ,48 ,866 ,178 ,400 Textura Pozolana Limoso Argiloso Franco-argilo-limoso Argilo-limoso Sig. N 1 2 3
Subset for alpha = .05
Means for groups in homogeneous subsets are displayed. Uses Harmonic Mean Sample Size = 88,000. a.
Na variante com textura argilo- limoso ( S. Jorge dos Órgãos) notou-se uma presença muita fraca do fungo com micelio amarelo (tabela 10) enquanto que o branco registou uma maior incidência do que as outras variantes (tabela nº9).
Tabela nº10 - Influência da textura na presença do fungo com micélio amarelo em condições de laboratório (23 a 28ºC e 35 a 71% de HR) Duncan a 88 ,00 88 ,00 88 ,08 88 ,17 88 ,47 ,104 1,000 1,000 Textura Argilo-limoso Pozolana Argiloso Limoso Franco-argilo-limoso Sig. N 1 2 3
Subset for alpha = .05
Means for groups in homogeneous s ubsets are displayed. Uses Harmonic Mean Sample Size = 88,000. a.
CAPÍTULO IV – CONCLUSÃO E RECOMENDAÇÕES
CONCLUSÃO
Ao longo do trabalho chegou-se à algumas conclusões, tendo sempre em linha de conta os objectivos que se pretendia atingir. Assim, neste capítulo vamos sintetizar algumas conclusões de carácter geral, com o objectivo de dar uma visão de toda a problemática dos milpés em Santo Antão.
É de realçar o bom desempenho da metodologia seguido neste trabalho. Esta consistiu em analisar a reprodução dos milpés em diferentes tipos de solo.
Trabalhar o tema em estudo foi, antes de mais, muito marcante e de muita importância na medida em que este miriápode constitui uma enigma para a agricultura em Santo Antão há quase quarenta anos.
Após a elaboração deste trabalho, a partir de pesquisas bibliográficas e análises de dados recolhidos durante a elaboração da componente pratica, obtivemos resultados provados e chegamos às seguintes conclusões:
v Constatamos que existe influência do tipo de solo na reprodução do milpés a nível do número de ovos postos e do peso da cápsula.
v Identificamos factores bióticos tais como fungos brancos e amarelos e abióticos tais como textura do solo, o valor de pH, a quantidade de matéria orgânica que influenciam na postura de ovos de S. caboverdus.
v Verificamos também aspectos biológicos da espécie S. caboverdus, observando uma particularidade no processo da postura, em que a fêmea em condições ainda não identificadas, constrói cápsulas mas não deposita o ovo dentro.
v Constatamos um elemento de controlo integrado deste miriápode, as culturas mais atacadas devem ser colocadas em solos com quantidade de pozolana expressivo. v Foi também confirmada a possibilidade de reprodução de milpés em solos sem
ocorrência natural do diplopoda.
A conclusão do nosso trabalho não significa necessariamente, o término do processo de investigação.
RECOMENDAÇÕES
A título de recomendações, propomos o seguinte:
v Promover formação, divulgando resultados das investigações obtidas, nas diferentes camadas principalmente os agric ultores, de forma a saberem como controlar a praga, uma vez que falar de luta que deveria ser desde o passado é ainda algo para o futuro que esperamos ser próximo.
v Demonstrar os órgãos competentes de forma a consciencializarem da existência do problema que mudou o rumo dos agricultores Santantoneses e da ilha, chamando atenção de que o problema é dos caboverdeanos e não dos Santantoneses.
v Uma vez que existem culturas onde os estragos atingem os 90%, recomendamos a disponibilização de subsídios aos agricultores.
v Formar as populações e os Recursos Humanos disponíveis no Ministério da Agricultura e do Ambiente e incentiva- los de forma a minimizar a propagação deste miriápode.
v Equipar devidamente o laboratório na vila da Ribeira Grande com meios e materiais adequados, de modo a facilitar os técnicos nas suas investigações e criar condições para ter um investigador residente na própria ilha.
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