PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Angela Pintor dos Reis
Comunicação, violência e reconhecimento na civilização
mediática avançada: a comunicação em tempo real como
lógica problematizadora das relações intersubjetivas
na vida social dromocratizada
DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
Angela Pintor dos Reis
Comunicação, violência e reconhecimento na civilização
mediática avançada: a comunicação em tempo real como
lógica problematizadora das relações intersubjetivas
na vida social dromocratizada
DOUTORADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA
Tese apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Doutora em Comunicação e Semiótica, sob orientação do Prof. Dr. Eugênio Rondini Trivinho.
BANCA EXAMINADORA
AGRADECIMENTO
A acolhida do reconhecimento na constituição dos alicerces da presente Tese foi fato inesperado. O Projeto de Pesquisa que vigorou até o segundo semestre de 2012, um ano após o início do período de Doutoramento no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, previa o estudo das formas de violência emergentes a partir da incorporação da velocidade pelo sujeito no contexto da lógica comunicacional da dromocracia. Enquanto o Projeto de Pesquisa era trabalhado sob tal diretriz, dedicava-me à leitura de Luta por reconhecimento: a gramática dos conflitos sociais, resultado da Tese de Livre-Docência de Axel Honneth, um dos mais importantes pensadores da teoria social na atualidade, sugerida a mim por Eugênio Rondini Trivinho, que, generosamente, orientou minha pesquisa de Mestrado, concluída em maio de 2010, e, meses depois, aceitou-me para mais um período de orientação, de quatro anos, que se encerra com a defesa desta Tese de Doutorado.
Passados quatro anos de pesquisa, é inevitável a consciência de que a proficuidade desta Tese deve-se ao acolhimento da preocupação com o reconhecimento no arco da reflexão realizada. Fato de tal importância também ocorreu durante a pesquisa de Mestrado, quando, em outras condições, tomei conhecimento da teoria do imaginário de Cornelius Castoriadis, durante a disciplina Teorias Críticas da Comunicação, oferecida pelo professor Trivinho no PEPGCOS/PUC-SP, no segundo semestre de 2008. As teorias do reconhecimento e do imaginário, conforme concebidas pelos referidos autores, mudaram, radicalmente, minha percepção sobre a existência humana e sobre a alteridade. Isso confirma minha convicção de que a experiência de pesquisa pode ser, de maneira inconsciente, provocada por nós para rearranjar sentimentos e formas-pensamento que, imemorialmente, nos constituem e incomodam.
Cada estado da alma tende a se adaptar a um exterior correspondente ao seu caráter específico ou a transformar esse exterior numa visão
adequada à sua natureza. Existe uma correspondência íntima, em todos os estados profundos e grandiosos, entre o plano subjetivo e o plano objetivo. Seria absurdo conceber um entusiasmo desbordante num ambiente raso e cerrado; mesmo se isso ocorresse, seria o resultado de uma excessiva plenitude que subjetivaria todo o ambiente. O olho humano vê no exterior o que de fato o atormenta no interior. E isso, na maior parte das vezes, devido a uma posição subjetiva sem a qual os estados da alma e as experiências intensas não podem se realizar plenamente.
RESUMO
A presente pesquisa está dedicada às formas pelas quais os fenômenos da comunicação e da velocidade fomentam conjuntamente modalidades sutis de violência que acabam por inviabilizar a experiência do reconhecimento em relações intersubjetivas (articuladas ou não tecnologicamente) na civilização mediática avançada. Coerente com esse recorte, o objetivo geral da pesquisa foi o de investigar como essas formas de violência compõem-se como capital incorporado pelo sujeito e apresentam-se incrustadas na dinâmica do reconhecimento, comprometendo a sua efetivação na vida social sob condições dromocratizadas (isto é, marcadas pela aceleração em todos os setores de atuação humana). A relevância do estudo radica no tratamento da referida lógica comunicacional como habitus e, por essa razão, como complexo de mediações entre sujeitos, do qual participam configurações da violência não comumente estudadas, ressoantes no reconhecimento como experiência constitutiva do indivíduo. O principal problema de pesquisa consiste em saber, especificamente, como as violências dimanantes da lógica do tempo real comprometem as condições para o reconhecimento nesse contexto dromocrático de relações intersubjetivas. Esse problema implica a hipótese básica de que tais formas sutis de violência articulam-se no percurso de um sujeito que se autoelabora ao processar representações simbólicas de si e do outro, aprofundando irreversivelmente as condições de inviabilização do reconhecimento como experiência intersubjetiva. O quadro teórico de referência assenta-se nos seguintes eixos temáticos e respectivos autores: [1] fundamentos social-históricos da civilização mediática avançada e da dromocracia, conforme Trivinho e Virilio; [2] conceitos de violência e de suas formas de manifestação, concebidos por Michaud, Dadoun, Crettiez, Pontara, Bourdieu e Passeron, e Trivinho; [3] definição de sujeito em Lacan; e [4] princípios do reconhecimento em Honneth, Taylor, Lévinas, Derrida e Lacan. Em virtude do caráter teórico da pesquisa, projeta-se o tratamento reflexivo do material bibliográfico com remissão a situações práticas e emblemáticas que fundamentam a materialidade das violências imanentes à lógica da comunicação em tempo real, que intensificam a precariedade do reconhecimento na vida social acelerada. Estima-se que os resultados alcançados perfaçam uma proposta epistemológica crítica do modus operandi do tempo real, considerado na Tese como fator sociocultural problematizador das relações em que sujeito e alteridade encontram-se irremediavelmente envolvidos.
ABSTRACT
This research examines the ways in which the phenomena of communication and speed jointly instigate subtle forms of violence that ultimately thwart the recognition of experience in intersubjective relations (technologically articulated or not) in the advanced mediatic civilization. Consistent with this demarcation, the overall objective of the research was to investigate how these forms of violence are composed as capital assimilated by the individual and how they appear embedded in the dynamics of recognition, compromising its effectiveness in social life under dromocracized conditions (i.e., marked by acceleration in all the sectors of human activity). The relevance of this study lies in the treatment of the aforementioned communication logic as a habitus and therefore as a complex of mediations between individuals, in which certain forms of violence not commonly studied participate, affecting recognition as a constitutive experience of the individual. The main research problem consists in understanding specifically how the violence arising from real-time logic jeopardizes the conditions for recognition in this dromocratic context of intersubjective relationships. This problem implies the basic assumption that such subtle forms of violence are articulated in the life of an individual who self-elaborates upon processing symbolic representations of himself and of the other, irreversibly deepening the conditions of impracticability of recognition as an intersubjective experience. The theoretical framework is based on the following thematic research lines and authors: [1] socio-historical foundations of advanced mediatic civilization and of dromocracy, according to Trivinho and Virilio; [2] concepts of violence and its manifestations, outlined by Michaud, Dadoun, Crettiez, Pontara, Bourdieu and Passeron, and Trivinho; [3] definition of the individual in Lacan; and [4] principles of recognition in Honneth, Taylor, Levinas, Derrida and Lacan. Given the theoretical nature of this research, the bibliographic material is reflectively analyzed, focusing on practical and emblematic situations that underlie the materiality of violence inherent to the logic of real-time communication, which enhances the precariousness of recognition in accelerated social life. It is believed that the findings of this research constitute a proposed epistemological critique of the modus operandi of real time, considered in the Thesis as a problematizing sociocultural factor of relationships in which individual and alterity are irremediably involved.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 9
1 A CONFIGURAÇÃO COMUNICACIONAL DA DROMOCRACIA ... 19
1.1 A velocidade como eixo vetorial dromocratizador da vida social ... 41
1.2 A comunicação em tempo real como lógica operadora da dromocracia na atualidade ... 59
2 COMUNICAÇÃO, VELOCIDADE E VIOLÊNCIA ... 68
Comunicação e violência como forças atuadas na vida social dromocratizada: visibilidade mediática e invisibilidade social ... 78
3 VELOCIDADE E SUAS REPERCUSSÕES COMO VIOLÊNCIA NA DINÂMICA DO RECONHECIMENTO NA VIDA SOCIAL DROMOCRATIZADA ... 90
3.1 Bases teórico-epistemológicas do reconhecimento ... 93
3.1.1 O reconhecimento como ação moral ... 95
3.1.2 O reconhecimento como aceitação da identidade... 112
3.1.3 O reconhecimento como recebimento e acolhimento de outrem ... 124
3.2 Formas de violência na dinâmica do reconhecimento na vida social dromocratizada ... 137
3.3 A oclusão das condições de moralização do reconhecimento na aceleração da vida social ... 152
4 A EXPERIÊNCIA DO RECONHECIMENTO NA CONFIGURAÇÃO TRANSPOLÍTICA DO SOCIAL ... 160
CONCLUSÃO ... 181
INTRODUÇÃO
A discussão central desta Pesquisa de Doutorado assenta-se no entendimento de que a configuração da civilização mediática avançada, nos termos em que esta é definida por Trivinho (2007a, Capítulo 2 da Parte III, especialmente p. 286-287) – como modelo civilizatório articulado por relações de dependência entre instâncias sociais, culturais, políticas e econômicas e os media (tanto de massa quanto interativos), na função de motor prioritário do modo capitalista de produção em sua fase atual – engendra formas de violência reproduzidas tacitamente pelos sujeitos, as quais problematizam o reconhecimento na vida social dromocratizada, com ou sem mediação tecnológica.
Compreende-se, com Trivinho (ibidem), que a configuração da civilização mediática avançada expressa seu eixo articulatório na lógica da comunicação em tempo real equivalente ao próprio modus operandi do capitalismo tardio. Pode-se dizer que esse feito do capital (o fenômeno da comunicação em tempo real) remonta ao empreendimento iniciado na Revolução Industrial, para o alcance de níveis superiores de produtividade da indústria, por meio de estratégias, instrumentos administrativos e ferramentais, além de procedimentos processuais, todos concebidos para extrair resultados ótimos da relação entre tempo e espaço – vale dizer, tempo de produção e circulação de mercadorias, para sua transformação em dinheiro, e presença do capital na maior extensão territorial possível. O sucesso desse projeto dependeu, essencialmente, de investimentos econômicos e intelectuais que promovessem a passagem do uso dos instrumentos técnicos para os tecnológicos, para que estes, incluindo as telecomunicações, viabilizassem a superação da barreira representada pela conjunção tempo-espaço, necessária para o deslanche do empreendimento capitalista (cf. HARVEY, 2005; MANDEL, 1982). A comunicação em tempo real comparece, assim, no processo histórico desse desenvolvimento como ponto alto de uma cadeia de invenções do capital, com vistas a assegurar sua conservação, que, idealmente, transcorre no modus operandi social, cultural e econômico, organizado na forma de rede de relações aceleradas entre sujeitos, instituições e corporações empresariais, entre elas os media.
imperativo da superação do espaço pelo tempo. Trata-se, antes de tudo, de extrair produtividade das relações entre sujeitos, objetos, procedimentos (que são, afinal, conjuntos de atos, em que se implicam sujeitos em ação) e infraestrutura de instituições políticas e econômicas. Essa produtividade, para ser satisfatoriamente alcançada, depende da velocidade, na forma da aceleração de corpo e mente, bem como dos instrumentos de produção, em suas relações com a realidade imediata, subjetiva e objetal. A velocidade como vetor de referência do sujeito em sua relação com o espaço otimiza aspectos funcionais da sociedade dromocratizada e provoca efeitos tais como a redução de custos na remuneração de indivíduos, o que cria a possibilidade de distribuição de mais tarefas a um número menor de responsáveis por sua execução; o encurtamento do ciclo de circulação de produtos comercializáveis, com sua transformação mais rápida em dinheiro; e a produção de um excesso de informações nas formas de linguagem, imagem e toda a sorte de produtos simbólicos para consumo generalizado, que ficam virtualmente apinhados no temário sociocultural produzido pelos media, constituindo “agenda mental” de urgência recorrente para o sujeito. Enfim, a velocidade foi assimilada como vetor de produtividade de corpo e mente em sua relação com o ambiente, os objetos e a alteridade, elementos muitas vezes colocados em condições de igualdade na rede de relações práticas e subjetivas.
É nessa configuração sociocultural que se constitui a dromocracia, denominada por Virilio (1996)1, grosso modo, o regime de uma civilização que elegeu a velocidade como valor fundamental para seu desenvolvimento, em processo de conquista crescente do território mediante uso de meios técnicos e tecnológicos. A lógica de fundo do regime dromocrático é a da prevalência do tempo sobre o espaço na ação que busca o assenhoreamento produtivo do ambiente pelo ente humano, o que implica dominação de tudo o que nele habita – natureza, objetos e o próprio sujeito. Nessas condições, a velocidade qualifica a ação que visa à dominação do espaço e dos elementos que o constituem, e essa ação cumpre o mandato da racionalidade técnica como projeto de uma sociedade que vê na dominação a razão de sua existência (cf. MARCUSE, 1998, p. 132).
Historicamente, a dromocracia configura-se, primeiro, com a conquista do espaço marítimo e depois progride para o domínio do espaço terrestre, do espaço aéreo e, por
1 O termo grego dromos– correspondente à ação do movimento e da corrida – é utilizado por Virilio (1996)
para o desenvolvimento de um método interpretativo – a dromologia – de uma sociedade que assume do
campo bélico formas de pensamento e de ação. Esse tipo de sociedade “mantém [...] umbilicais ligações com
último, do espaço eletromagnético, na forma de comunicação em tempo real (cf. TRIVINHO, 2007a, p. 50-58). No século XX, a formação dromocrática do social confunde-se ou coincide, mais intensamente, com o próprio projeto do capital, fato, a rigor, verificado desde a Revolução Industrial. A dromocracia constitui-se, assim, com características de época e manifesta-se concretamente por meio de um elemento vetorial: a velocidade como componente inserto em uma unidade técnica, tecnológica ou metabólica, que a move e arrasta sobre o território, para superá-lo. É fundamental observar que, quando em ação, o elemento vetorial modula a atividade perceptiva em relação ao território e a tudo o que nele se encontra, pelo fato de a percepção estar mediada pelo movimento do corpo-mente dromocratizado. Isto é, a depender da aceleração do deslocamento, um corpo passa por outro ou por um objeto com atenção perceptiva comprometida ou, no mínimo, reprogramada.
Na medida em que a lógica da comunicação em tempo real, na forma da velocidade tecnológica realizada, é assimilada como valor social, vigendo como capital incorporado, ela passa a radicar no habitus, no sentido em que este é definido por Bourdieu (1983, 2001, 2011), como armação sociocultural relacional, que organiza as práticas sociais e a percepção dos sujeitos a respeito delas, e colabora, assim, para sua consequente naturalização. O habitus pode ser entendido como complexo que medeia as relações intersubjetivas e, nesse contexto, a velocidade – como elemento que o compõe – é tacitamente assimilada e reproduzida na vida social dromocratizada. A velocidade assimilada nessas condições contribui sobremaneira para que o sujeito desenvolva um sentimento permanente de urgência e uma orientação no espaço de modo similar ao próprio vetor velocidade. Esse modo de agir modula a atividade perceptiva do sujeito sobre si próprio e sobre outrem. Mediada pelo valor velocidade, a percepção passa a operar ritmada pela interrupção, pelo acidente, sendo dificultoso ao sujeito demorar-se em relação a si próprio e a outrem (VIRILIO, 1993a, 1993b, 1996, 2000, 2007, 2009), em contextos mediados tecnologicamente ou não, por influência de toda uma lógica social diuturnamente reproduzida.
Com base nessa compreensão, a lógica da comunicação em tempo real corresponde, na presente Tese, a um modus operandi do corpo-mente, originado pela incorporação da aceleração.2 Vale dizer que o tempo real processa-se como tempo que passa na relação presencial, porém, assimilado à aceleração do tempo tecnológico. Nessas condições, as reverberações dessa modalidade temporal constituem formas de violência típicas do modelo
civilizatório em questão e são silenciosamente disseminadas na vida social, modulando as relações intersubjetivas nas quais se processa o reconhecimento como experiência fundamental para o sujeito, pelo fato de este constituir-se – se e somente se – na relação com a alteridade. A condição existencial dromocratizada significa o enredamento do sujeito e de outrem em uma trama social que debilita, potencial ou efetivamente, as condições para o reconhecimento, qualificado como experiência intersubjetiva na qual a alteridade é considerada absoluta em sua expressão, isto é, como existente humano constituído na relação com o sujeito e, nesta condição, está exposta em sua miséria e sofrimento e à espera de ser acolhida, o que exclui mediações por padrões de relação marcados pelo rechaço apriorístico, nas formas de reprimenda, contestação, rejeição, indiferença, segregação ou exclusão – em última instância, morte.
A conceituação do reconhecimento na presente pesquisa constrói-se com base em três fontes teóricas, conjugadas no decorrer da Tese, a saber, [1] a epistemologia desenvolvida por Honneth (2003, 2011), para quem o reconhecimento é um ato moral de valorização da pessoa, demonstrado pela dedicação de respeito a ela; [2] o entendimento de Lévinas (1988a, 1988b, 2010) sobre a relação de comprometimento entre sujeito e outrem, efetivado pelo fenômeno do rosto como aparição da alteridade e exposição de sua nudez e pobreza essencial; e [3] a compreensão de Derrida (2003) sobre a hospitalidade absoluta e incondicional oferecida ao estrangeiro. Dessa urdidura conceitual, sobressai a apreensão do reconhecimento como experiência de comunicação com o outro, articulada por contexto e por fatores constitutivos do habitus, inelidivelmente presentes nas relações intersubjetivas na vida social. Em síntese, o reconhecimento contém um problema de mediação, no qual se circunscreve outro problema, o da relação ótima entre o tempo e o espaço, não no sentido produtivista, mas como proporções tais entre uma e outra coordenada para que seja possível aos sujeitos em interação processar psiquicamente o reconhecimento. Na configuração da vida social acelerada, assimilada à lógica da comunicação em tempo real, a questão é saber como o reconhecimento resta comprometido.
A debilitação do reconhecimento pela dinâmica da aceleração da vida social é, em termos práticos, decorrência da reprodução das seguintes formas de violência imanentes à lógica da comunicação em tempo real: [1] a indiferença (voluntária ou involuntária) à alteridade, pela dificuldade ou impossibilidade de o sujeito percebê-la e considerá-la; [2] o alheamento do sujeito em relação à alteridade, manifestado como distração, dispersão ou
enquadrada na lógica do rendimento do corpo, do qual o social instituído sempre deseja resultado ótimo na relação entre tempo e espaço. Essas formas de violência têm em comum o fato de independerem da intencionalidade. Na vida social, o reconhecimento não é, necessariamente, problematizado como ato moral – como ocorre nas condições das lutas sociais, em que se baseia a teoria do reconhecimento de Honneth (2003) –, por duas razões principais: primeiro, porque, muitas vezes, o seu contrário, o não-reconhecimento, ocorre sob o concurso de ações fortuitas, instantâneas, “automatizadas”, desencadeadas pelo sujeito conforme a lógica da comunicação em tempo real, a saber, na frequência da aceleração, uma vez que é agido por ela; e, em segundo lugar, porque o fundo moral do reconhecimento pode estar assimilado pelo sujeito de tal maneira que a experiência torna-se intuitiva, sem vir à consciência como problema a ser enfrentado na relação com outrem. Em outras palavras, o reconhecimento conserva sua motivação moral, mas esta nem sempre é percebida como problema por quem esteja implicado na experiência.
As práticas elencadas acima se configuram como violência na dinâmica do reconhecimento pelas seguintes razões: [1] a velocidade é imperativo totalitário, do qual não se pode escapar (cf. TRIVINHO, 2007a, p. 95); [2] a velocidade articula uma violência estrutural (cf. GALTUNG, 2004 apud CRETTIEZ, 2011, p. 13), por ser vetor social que sistematiza um modelo civilizatório; [3] e, com tal estatuto, a velocidade condiciona a instituição de uma cultura da invisibilidade do sujeito, configurada como condição existencial em que ele é sistematicamente privado da atenção e da consideração por parte de outrem; ou seja, o sujeito, circunscrito à produtividade da lógica do tempo real, vê-se destituído justamente da possibilidade da experiência intersubjetiva por meio da qual ele se constrói, na medida em que é constituído na relação com a alteridade. Esta se processa na sociabilidade (cf. SIMMEL, 1983, p. 165-169) e se configura como o outro com o qual o sujeito está em relação.3
Diante do contexto apresentado, esta pesquisa analisa o modo pelo qual a dromocracia comunicacional articulatória da civilização mediática avançada – mais especificamente, o seu modo de operação como lógica da comunicação em tempo real –
3 Conforme Simmel (1983, p. 169), a sociabilidade é uma forma de sociação, qualificada por relações nas quais
engendra formas típicas de violência, capazes de comprometer a experiência do reconhecimento na vida social acelerada. Como visto, entende-se que as formas de violência em questão são efeito da reprodução da velocidade como capital social incorporado pelos sujeitos. Essas formas de violência comparecem na dinâmica do reconhecimento na medida em que formam o habitus como complexo de mediações.
O objetivo geral da pesquisa foi o de evidenciar como as formas de violência inerentes à configuração da civilização mediática avançada, e que emergem da comunicação em tempo real como lógica incorporada pelos sujeitos, comparecem embutidas na dinâmica do reconhecimento na vida social dromocratizada, prejudicando a efetivação dessa experiência.
Os objetivos específicos são [1] apontar o modo pelo qual a lógica da comunicação em tempo real colabora para a oclusão de condições que caracterizam o reconhecimento como experiência de natureza moral na vida social; e [2] identificar como a lógica da comunicação em tempo real contribui para a formação de um autorreconhecimento, no sentido de uma experiência por meio da qual o sujeito concede a si próprio a afirmação de sua autoestima como recurso que lhe resta na configuração transpolítica do social, constituída em razão do enfraquecimento do poder simbólico da autoridade, personificada pelo Estado, pelas instituições políticas e por sua função normatizadora do social4, e pela relativização da importância da alteridade.
A relevância do estudo reside na crítica da lógica da civilização mediática avançada e na compreensão da comunicação em tempo real como vetor estruturante de formas de violência não comumente estudadas, largamente presentes na sociabilidade e inextricavelmente atuantes na dinâmica do reconhecimento. A violência como objeto de estudo é analisada, em geral, como ação de dominação explícita, simbolicamente identificada na sociedade – a exemplo da dominação exercida por um grupo hegemônico sobre outro, cujos direitos sociais não são reconhecidos –, ou na forma de maus-tratos práticos, violação e tortura. A violência também é estudada como força que promove sofrimento psíquico e como castração, no sentido psicanalítico do termo, resultante da produção de uma significação do mundo, pronta e acabada, pelo adulto para a criança no processo de introdução da linguagem. A violência é ainda analisada como fenômeno de natureza invisível reproduzido nas relações familiares, étnicas e de gênero. Especificamente quanto à caracterização da violência invisível, cabe destacar o trabalho de Trivinho (2007a),
sobre a violência imanente à técnica e à civilização mediática avançada, que colabora para a denegação do corpo e da alteridade.
Com base nessas referências, considera-se que a presente Tese tem o potencial de expandir a compreensão da lógica comunicacional na atualidade e de suas repercussões em formas de violência típicas do modelo civilizatório em questão, dimanadas na sociabilidade mediada pela velocidade, contexto no qual se insere o reconhecimento como experiência fundamental para o sujeito. Em última instância, o conhecimento construído no processo de pesquisa destina-se a contribuir para a compreensão das relações do sujeito com o modus operandi da comunicação em tempo real como lógica de época de uma civilização inextricavelmente articulada aos media.
O principal problema de pesquisa consiste em saber por quais razões as formas de violência engendradas pela lógica articulatória da civilização mediática avançada e incorporadas pelo sujeito comprometem a realização do reconhecimento na vida social, nas condições em que as relações intersubjetivas são ou não tecnologicamente mediadas.
Os problemas secundários estão especificados em duas questões. A primeira interroga sobre as condições nas quais o contexto dromocratizado contribui para o adormecimento moral da experiência do reconhecimento; a segunda está dedicada a saber em que medida é possível considerar o reconhecimento como experiência independente da relação do sujeito com a alteridade, quando ambos estão circunscritos em uma configuração transpolítica do social. Transpolítica, nesse caso, refere-se a uma configuração sociocultural e política imanente ao terceiro espírito do capitalismo (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009), de natureza informacional, tecnológica e comunicacional, movido por valores ancorados na velocidade tais como mobilidade, flexibilidade, autonomia e disponibilidade, que animam um modo de vida em rede (ibidem, 130). Nessa configuração, a constituição de justiça e reconhecimento resta problematizada porque faltam circunstâncias para essas qualidades relacionais efetivarem-se.5
A hipótese básica considera que as formas de violência engendradas pela lógica da comunicação em tempo real articulam-se no percurso de um sujeito que se autoelabora no processamento de representações simbólicas de si e do outro, e aprofundam, de modo irreversível, a inviabilização do reconhecimento de ambos como modalidade de experiência inelidível da subjetividade.
A hipótese secundária prevê que o reconhecimento é experiência que pode prescindir da consciência moral, no sentido de ser previamente refletida e problematizada, quando processada na vida social em contextos subordinados à lógica da comunicação em tempo real.
A contextualização de época do objeto de estudo será perfilada nas relações entre a civilização mediática avançada, seu modus operandi constituído na forma de comunicação em tempo real e a configuração social-histórica da dromocracia comunicacional, com base nas obras de Trivinho (2000, 2007a, 2007b, 2008, 2010) e Virilio (1993a, 1993b, 1996, 2000, 2007, 2009). Ambos analisam criticamente o atual modelo civilizatório ocidental, especificamente seu modus operandi dromocrático comunicacional, e apontam para a vigência de uma entropia que se caracteriza pelo imperativo de destruição e reciclagem contínuas do espaço e de tudo o que por meio dele se manifesta, material e simbolicamente. Essa contextualização confere lastro à caracterização das violências engendradas pela lógica da comunicação em tempo real e implicadas na dinâmica do reconhecimento na vida social dromocratizada.
A dimensão do estudo vinculada à caracterização da violência e de suas formas de manifestação parte da síntese de perspectivas sobre a violência, desenvolvidas por Michaud (1989), Crettiez (2011), Dadoun (1998), Pontara (2013), Bourdieu e Passeron (2010), e Trivinho (2007a), para caracterizar uma violência invisível, difusa na vida social e fundada na morte simbólica do sujeito e/ou da alteridade.
Para a compreensão do modo de reprodução tácita das violências em estudo na dinâmica do reconhecimento, são utilizados o conceito de habitus em Boudieu (1983, 2001, 2011) e o conceito de sujeito em Lacan (1979, 1992, 1998, 1999), entendido como quem se constitui nas relações com o ambiente sociocultural e com a alteridade. Esta é concebida como o outro eu com o qual o sujeito estabelece relação dual. No percurso dessa relação, encontra-se o reconhecimento como experiência de comunicação, modulada com o concurso de condições de contexto.
conceito no qual estão contidos o sujeito, a alteridade, a comunicação, a violência e as relações de todos esses elementos com condições de contexto.
Em virtude de seu caráter teórico, a pesquisa desenvolveu-se mediante tratamento reflexivo do material bibliográfico selecionado a partir de conceitos-chave previamente definidos, conforme teorizados nas áreas de Comunicação, Ciências Sociais e Filosofia, que melhor atenderam à necessidade de elucidação do objeto de estudo, à construção de respostas para os problemas de pesquisa e à verificação das hipóteses enunciadas. No percurso argumentativo da Tese, há remissão a situações práticas que fundamentam a materialidade das violências imanentes à lógica da comunicação em tempo real e sua participação na dinâmica do reconhecimento processado na sociabilidade dromocratizada.
O primeiro capítulo está dedicado à configuração da dromocracia comunicacional, captada como arranjo sociocultural pertinente ao modo de produção capitalista, e que acompanha seu desenvolvimento histórico desde a formação comercial. O objetivo é encontrar fundamentos históricos, socioeconômicos e culturais que confirmem relações umbilicais entre a lógica da comunicação em tempo real como motor da dromocracia comunicacional e a formação do terceiro espírito do capitalismo, qualificado por Boltanski e Chiapello (2009) como de natureza informacional, comunicacional e tecnológica. Nessa configuração, discute-se a posição do sujeito na vida social acelerada, mediada por media de massa e interativos.
O segundo capítulo sistematiza os modos de compreensão da violência, tendo em vista a demonstração de suas manifestações imanentes às práticas comunicacionais mediáticas na atualidade, entre as quais figuram as situadas entre comunicação e velocidade. Em outras palavras, a lógica da comunicação em tempo como uma das maneiras de a velocidade expressar-se no corpo-subjetividade engendra conformações sutis de violência, reproduzidas cotidianamente e de modo espraiado, que propiciam a constituição de situações desfavoráveis ao reconhecimento como experiência intersubjetiva na vida social, uma vez que esta é mediada pela velocidade.
formas de violência fomentadas na vida social dromocratizada: a indiferença, o alheamento e a reificação.
O quarto e último capítulo analisa as condições para o reconhecimento na configuração transpolítica do social, que favorece a emergência de um modo de relação mediado por qualidades como liberação, mobilidade, flexibilidade e capacidade rizomática, que, em última análise, dizem respeito a uma maneira de se viver desvencilhada do outro. A alteridade pode estar reprogramada nesse contexto, com sua importância relativizada. Nessa formação sociocultural e política, há condições para a constituição do autorreconhecimento como alternativa à experiência de ser desejado pelo desejo do outro e de ser aceito e recebido como outro absoluto, uma vez que a concretização do reconhecimento, nesses termos tradicionais, exige que sujeito e alteridade estejam predispostos a essa forma de conhecimento e envolvidos em contexto favorável à experiência.6
6 Cabe registrar que parte do conhecimento abrigado na Tese foi publicado ao longo do processo de pesquisa,
1 A CONFIGURAÇÃO COMUNICACIONAL DA DROMOCRACIA
A configuração do modus operandi dromocrático da civilização ocidental no século XX, com características eminentemente tecnológicas e comunicacionais, em especial no que diz respeito à comunicação a distância e ao que se convencionou denominar “tempo real”, corresponde à forma avançada das modalidades de comunicação imbricadas na dinâmica do capitalismo, desde suas formações comercial e industrial.
Os registros históricos sobre o desenvolvimento do capitalismo descrevem práticas comerciais, precocemente internacionalizadas no século XII, como fomentadoras de uma das primeiras configurações da comunicação a distância, que se concretizava, de modo condensado, nas cidades medievais como centros comerciais e bancários, de circulação de pessoas e local do progresso técnico.1 Mutatis mutandis, pode-se dizer que as relações mercantis aglutinadas em formações citadinas se valiam da comunicação a distância –
considerada, evidentemente, conforme os padrões da época –, para assegurar o bom funcionamento dos fluxos comerciais e políticos em âmbito internacional, que expressavam a constituição primordial do capitalismo como sistema de produção assentado na economia de mercado e no lucro. No caso, por comunicação a distância considera-se um conjunto de práticas relacionais que buscavam, diuturnamente, a superação das barreiras do tempo e do espaço para obter resultados na forma de negócios realizados e de rendimentos auferidos. A comunicação a distância antecipava em seu esquema o impulso da lógica do tempo real tecnológico, que se concretizaria apenas no século XX. Essa modalidade temporal, independentemente da mediação tecnológica à qual está associada na atualidade, busca maneiras de encurtar distâncias e alcançar simultaneidade entre fato, informação, recepção e ação relacionada ao fato do qual se tem conhecimento.
Como afirma Braudel (2009, p. 79-83), a vivacidade das cidades na Europa medieval é em grande parte incentivada pela circulação de excedentes da produção agrícola, destinados ao comércio internacional que se utiliza de um conjunto viário constituído por estradas e rotas marítimas, ligando países e continentes. Na medida em que a atividade produtiva e comercial se desenvolvia, configuravam-se praças comerciais com a função de
1 Braudel (2009, p. 45-46) defende a ideia de que o capitalismo constituiu-se no século XIII, em razão da
polos de negócio interligados internacionalmente, para a comercialização de matérias-primas e produtos manufaturados. A economia local e doméstica aos poucos se constituía em economia de mercado.
Arruda correlaciona a ocorrência das primeiras formações do capitalismo comercial com o modo pelo qual elas se desenvolvem apoiadas na infraestrutura viária e comunicacional, que assegura a aceleração das trocas mercantis:
Produtos orientais – especiarias, principalmente – começaram a ser importados e distribuídos a partir dos portos da Itália. Os saques efetuados nas cidades muçulmanas colocaram numerosas moedas em circulação. Para explorar esse comércio foram organizadas grandes companhias que possuíam numerosos donos
(“acionistas”) e barcos. Várias rotas comerciais foram desenvolvidas: a do
Mediterrâneo ligava as cidades italianas a Constantinopla e a outros portos do litoral oriental desse mar; a da Champagne ligava a Itália a Flandres, de onde partia a rota do Mar do Norte, rumo a Constantinopla. Formou-se, assim, um anel de comércio, que se desenvolveu rapidamente. Rotas secundárias se ligam às principais, formando verdadeiros nós de trânsito onde paravam os comerciantes para trocar e vender seus produtos. Assim surgiram as feiras medievais, que eram de caráter temporário; pouco a pouco elas foram se prolongando e estabilizando, acabando por se tornar centros permanentes de trocas, cidades. (1974, p. 12, grifo do autor).
No cenário descrito por Arruda, a aceleração da vida social configurava-se, desde então, circunscrita às condições de época, como efeito da imbricação de fatores tais como trocas comerciais entre produtores locais e comerciantes que controlavam negócios internacionais; desenvolvimento dos meios de transporte, associado à expansão das vias de circulação de pessoas e mercadorias; e, ainda, aumento de complexidade da conjuntura social, econômica, política e cultural, que se aglutinava na cidade. Há toda uma proliferação de eventos com os quais os indivíduos tinham de lidar – o crescimento da quantidade e variedade de mercadorias; a intensificação do tráfego de pessoas com o consequente intercâmbio de produtos culturais; o surgimento de “empresas”, acompanhado da regulação necessária para o ordenamento das relações mercantis; e o trânsito de indivíduos nas cidades, nos âmbitos local e internacional, e entre essas e o campo. A rede que “costura”
essas relações e confere fluidez e bom andamento a elas corresponde ao que se compreende
específica de organização e produção de sentido do social, como será visto no decorrer deste capítulo.
No contexto das cidades como formações mercantis e espaço de fluxo de pessoas e mercadorias, a percepção do tempo tende a modificar-se aos poucos, passando de um tempo intuitivamente vivido e atuado para um tempo objetificado, percebido como elemento material a ser administrado, quantificado e controlado, para que os indivíduos deem conta da quantidade crescente de demandas em determinada quantidade de tempo. Como explica Simmel (1973, p. 12), a consciência do indivíduo no contexto rural (de onde provinham comerciantes e trabalhadores que constituíam as cidades) elaborava-se com base em um ritmo de vida relativamente lento, habitual e uniforme. Esse ambiente alterou-se fundamentalmente na conjuntura da cidade – e mais tarde da metrópole – como arranjo complexo que exigiu da consciência esforço para se relacionar com “a rápida convergência de imagens em mudança, a descontinuidade aguda contida na apreensão com uma única
vista de olhos e o inesperado de impressões súbitas” (ibidem, p. 12).
Embora a situação à qual Simmel se refere seja própria das metrópoles, caracterizadas como tais mais propriamente a partir do século XVIII, considera-se que a mudança na percepção do tempo está presente já na formação das cidades constituídas no capitalismo comercial. O móbil da percepção do tempo, no caso em análise, está na relação do sujeito com a quantidade, variedade e velocidade dos estímulos desencadeados pelo pensamento e pela ação, produtores de ideias e demandas dirigidas a ele próprio (o sujeito) e com as quais precisa se ocupar. Com o aumento da quantidade de fatos sociais, culturais, econômicos e políticos, e a depender do modo como o sujeito posiciona-se e relaciona-se com eles, a percepção do tempo atuado pelo corpo-mente pode modificar-se, progredindo da percepção do tempo lento para o tempo acelerado. Este se constitui, assim, como fato social valorizado na medida em que dada sociedade desenvolve um modus operandi, nos âmbitos social, cultural, econômico e político, dependente da velocidade, na forma de aceleração, para produzir resultados que signifiquem êxito de um projeto de vida coletivo.
mercado consumidor.2 Como afirma Braudel (2009, p. 119), Veneza, Bruges, Antuérpia, Gênova, Amsterdam e Londres eram cidades comerciais, industriais e financeiras eminentemente prósperas nos séculos XV e XVI. No século XV, Veneza contava com 100 mil habitantes, número que se elevou a 160 mil no século XVII. Em 1500, o conjunto das Províncias Unidas, formado pelos Estados da Holanda, Zelândia, Utrecht, Gueldre, Overyssel, Frísia e Gröningen, totalizava um milhão de habitantes, número que se elevou a dois milhões em 1650. Essa reunião de Estados detinha, em 1669, cerca de seis mil embarcações (ibidem, p. 116-119; 167-172).
O navio já nascia “capitalista” (ibidem, p. 113), uma vez que as mercadorias eram embarcadas mediante operação de crédito. Além disso, tinham a aerodinâmica projetada para produzir determinado resultado em relação à capacidade de carga e ao enfrentamento das exigências da viagem, o que implicava a superação de dificuldades impostas pelas condições climáticas do trajeto e pela distância entre os pontos de partida e de chegada. Há de se considerar também o desenvolvimento de instrumentos de navegação que tornaram as viagens mais seguras e exitosas. Por fim, os navios constituíam-se em suporte sine qua non para a ação combinada de comercialização e exploração das riquezas naturais e do próprio ente humano como força de trabalho. Exemplo desse tipo de prática é a produtividade das expedições portuguesas no século XV, conforme relata Braudel:
[...] com a ocupação da Madeira em 1420, a redescoberta dos Açores em 1430, a descoberta das Ilhas de Cabo Verde em 1455, de Fernando Pó e São Tomé em 1471, constituiu-se um espaço econômico coerente em que o essencial é a exploração do marfim, da malagueta (a falsa pimenta), do ouro em pó (conforme os anos entre 13.000 e 14.000 onças) e do comércio de escravos (um milhar por ano, em meados do século XV, logo mais de 3.000). [...] Quanto aos escravos, que chegam ao mercado português, fornecem às casas ricas o inevitável criado negro, permitindo a instalação de grandes domínios no vazio do Alentejo, despovoado desde o fim da Reconquista, e o desenvolvimento de plantações açucareiras na Madeira onde, desde 1460, a cana substitui o trigo. (Ibidem, p. 125).
Na relação entre expansão de domínio territorial e extração de produtividade, o navio é elemento indispensável para a ação combinada entre produtores de matéria-prima e de mercadorias manufaturadas, empresários do setor de transportes, banqueiros e intermediários financeiros, comerciantes e Estado. A importância desse meio de transporte
2 Braudel (2009) apresenta um cenário detalhado sobre as intensas atividades econômicas entre Ocidente e
na produtividade do capital foi renovada no século XVIII, período de emergência da Revolução Industrial, com as embarcações a vapor que reduziam o tempo de deslocamento de pessoas e mercadorias, fator fundamental na comunicação a distância e potencialmente presente na lógica do tempo real mediado pela tecnologia, estando essas duas modalidades comunicacionais virtualmente incrustadas na dinâmica do capitalismo e na operação da infraestrutura logística, que concretiza a máxima redução das distâncias entre os pontos de início e de fim dos ciclos de produção e circulação de mercadorias. Ashton ([1995], p. 104) afirma que as melhorias na malha de comunicação na Inglaterra, na passagem do século XVIII para o XIX, constituída por rodovias, pontes, canais e ferrovias, foram implementadas por empresas e indivíduos, principalmente detentores de terras, interessados em desenvolver o comércio e elevar o lucro. O investimento na infraestrutura viária era fundamental (e continua sendo) para a própria realização do capital, como conta o autor:
Em 1759, o duque [Francis Egerton, segundo duque de Bridgewarter, dono de minas de carvão], cansado da sociedade de Londres e desiludido de amores, deu realização ao projecto, concebido por seu pai, de fazer um canal desde as suas minas de carvão em Worsley até à progressiva cidade de Manchéster, a algumas milhas de distância. Era uma obra de consideráveis dificuldades, uma vez que obrigava que a navegação fosse até junto das minas e, por outro lado, que se levantasse um aqueduto, em Barton, sobre o rio Irwell. Mas a perícia de James Brindley [...], um construtor de moinhos analfabeto que estava ao serviço do duque, transpôs todos os obstáculos; e no Verão de 1761 o carvão estava a ser distribuído em Manchéster por metade do custo, no transporte, que até então se pagava por estrada. Quando a Guerra dos Setes Anos acabou, em 1763, e a taxa de juro baixou, o duque concebeu a empresa mais ambiciosa de estender o seu canal até Runcorn, na embocadura do Mersey, de modo a formar uma via de comunicação eficaz entre a região têxtil do Sudeste de Lancashire e Liverpul. (Ibidem, p. 104-105).
Junto à navegação, as ferrovias e a locomotiva a vapor dinamizaram significativamente as relações comerciais internacionais, a circulação de pessoas e a relação entre tempo e espaço no século XIX. Nesse período, muito já havia ocorrido na Europa, principalmente na Inglaterra, em relação ao desenvolvimento do capitalismo e seus reflexos sociais. Ashton descreve o seguinte cenário, assente nos meios de comunicação desenvolvidos pelo capitalismo comercial e industrial, na forma de infraestrutura logística:
de comunicação teve uma influência civilizadora nas populações das regiões cerâmicas e outras áreas do interior [da Inglaterra]. (ASHTON, [1995], p. 107).
O aparecimento da locomotiva a vapor nesse contexto ocorre em paralelo ao surgimento do telégrafo e a inúmeras outras inovações, não apenas na indústria e nos transportes, mas também na agricultura, na tecelagem, na mineração, na área financeira e nas comunicações, setores implicados no movimento expansionista das atividades produtivas e do comércio na Europa, especialmente na Inglaterra, no século XIX. A constituição dos bancos, as modalidades de crédito para o longo e curto prazos, os seguros e as emissões de ações operavam conjuntamente com a imprensa, os correios, o telégrafo e o telefone, formando uma malha de mediações entre indústria, comércio e sociedade. Tratava-se, em última instância, de necessidades e interesses articulados ao modo de uma rede de comunicação a distância, que operava com a meta de suplantar dificuldades impostas pelo espaço geográfico e pela duração temporal.
Nesse empreendimento residia o tempo real tecnológico como forma futura e acabada da experiência de superação dupla – da distância geográfica e da diferença de tempo entre o fato e sua consumação como informação. Ao fim de tudo, o que reside nesse projeto é a coincidência entre fato e ato, correspondendo este à ultimação da conquista do que se passa em determinado contexto, local, regional ou internacional. Em outras palavras, busca-se a posbusca-se e manipulação do que busca-se configura no espaço e no tempo, resultando no próprio domínio dessas coordenadas. Esse projeto visionário pauta-se no desejo de libertação de todo e qualquer tipo de amarra que dificulte a mobilidade e agilidade do sujeito para sua própria realização, nas formas de progresso intelectual, prevalência da razão, vivência da empiria e experimentação de possibilidades de relação com o mundo, conforme o típico espírito iluminista (cf. CASSIRER, 1992, p. 19-61). A comunicação a distância e o tempo real tecnologicamente mediado, nessa conjuntura, correspondiam à quintessência desse projeto no que diz respeito à possibilidade de uma relação excitada com outrem e com o mundo.
demandassem menos trabalhadores ou que permitissem a substituição de homens adultos por mulheres e crianças como coadjuvantes dos maquinários; [2] expandissem o rendimento do solo, com aumento da extensão territorial cultivável e com técnicas de plantio e adubagem capazes de elevar a produção de alimentos na mesma quantidade de área plantada; [3] diversificassem e refinassem produtos manufaturados, a exemplo dos têxteis, para aumento do valor econômico da produção e conquista de consumidores com maior poder aquisitivo; [4] melhorassem a produtividade de máquinas empregadas na produção de matéria-prima destinada à fabricação de novos produtos com mais valor agregado; [5] eliminassem os atritos mecânicos das máquinas, para que elas trabalhassem com mais velocidade; [6] e, por fim, que aperfeiçoassem o escoamento de mercadorias, nos âmbitos regional e internacional, sendo necessário, para isso, o melhoramento conjugado das estradas, das ferrovias e dos meios de transporte.
Contrário a uma leitura eminentemente econômica do período de transição do capitalismo comercial para o industrial, Braudel (2009, p. 517) afirma que a conjuntura da Revolução Industrial “implica tudo, sociedade, economia, estruturas políticas, opinião pública e tudo o mais”, não sendo possível apreendê-la com explicações estritamente economicistas. Os comerciantes e industriais acumulavam negócios no setor financeiro, como donos de bancos e de empresas seguradoras, também controlavam negócios no setor de transportes e participavam da vida política, ocupando posições em instâncias legislativas e governamentais (ibidem, p. 550-565). As inovações na indústria interferiam na ordem familiar ao criarem condições para o desaparecimento de atividades manufatureiras, para o favorecimento do trabalho infantil em detrimento do trabalho dos adultos e para o consequente desemprego (ibidem, p. 550-553).
A lógica produtivista das inovações industriais, o desenvolvimento conjugado das ferrovias e do telégrafo, a iluminação das vias públicas e a expansão populacional das cidades engendraram uma nova relação do sujeito com o espaço e o tempo. No conto O homem da multidão, publicado em 1840, Edgar Allan Poe (1993) retrata a agitação nas ruas de Londres, como se vê no caso emblemático narrado neste trecho:
Além do intenso movimento de passantes – concentrados nas ruas da cidade em consequência do aumento de contingentes de trabalhadores originários do campo e das condições precárias do transporte público, que obrigava os indivíduos a longas caminhadas (BRESCIANI, 2004) –, a multidão a que Poe se referiu expressava-se de modo agitado e acelerado, muito provavelmente reproduzindo a relação de corpo e mente com a velocidade, com processos produtivos e procedimentos mecânicos assimilados do ambiente de produção. O que se vê através da cena descrita por Poe é a incorporação da velocidade e dos movimentos precisos e repetitivos do ambiente industrial ganhando o espaço público e constituindo a cidade, no que diz respeito ao modo como é apropriada pelo sujeito e consolida-se a partir dessa relação. Isso sugere que sujeito e contexto (ou, no caso em análise, a cidade) elaboram-se mutuamente, incluindo o fato de, no ambiente, também atuarem indivíduos com poder de instituir determinado modus operandi sociocultural, como ocorre com a elite que concentra a propriedade dos meios de produção, de comercialização de bens e de serviços bancários (da qual também participam aqueles que ocupam posições no poder público).
A atmosfera frenética que envolvia, já no final do século XIX e início do século XX, o sujeito da metrópole, confundido com as atividades do capitalismo industrial, foi retratada nas obras Formas únicas de continuidade no espaço (Figura 1) e Visões simultâneas (Figura 2), produzidas em 1913 e 1911 por Umberto Boccioni, pintor e escultor do Futurismo, movimento que se expressou na literatura, na música, nas artes plásticas, no cinema e no teatro, pregando a quebra da tradição e exaltando inovações nos campos da ciência e da técnica, como a velocidade, a eletricidade e a guerra. Os artistas ligados a esse movimento elogiavam a metrópole originária do desenvolvimento industrial, com seu dinamismo e simultaneidade de fatos, resultantes da circulação veloz de mercadorias, informações e notícias, com a colaboração, também, dos meios de comunicação de massa.
ambiente produtivo industrial. Em Visões simultâneas, o sujeito é apresentado como se estivesse confundido com a metrópole e atomizado na relação com a simultaneidade de estímulos, demandas e ações nas quais o corpo está implicado na aceleração da vida social.
Figura 1 – Formas únicas de continuidade no espaço
Fonte: Acervo do MAC on-line
Figura 2 – Visões simultâneas
A própria dinâmica da metrópole no século XIX requeria (como ocorre ainda hoje) comportamento calculado, cronometrado e ao mesmo tempo versátil, acelerado e indiferente para com os transeuntes. Simmel faz a seguinte observação a respeito das exigências que recaem sobre o habitante da metrópole e quanto à maneira tão específica como ele reage a isso:
Os relacionamentos e afazeres do metropolitano típico são habitualmente tão variados e complexos que, sem a mais estrita pontualidade nos compromissos e serviços, toda a estrutura se romperia e cairia num caos inextrincável. Acima de tudo, esta necessidade é criada pela agregação de tantas pessoas com interesses tão diferenciados, que devem integrar suas relações e atividades em um organismo altamente complexo. [...] Assim, a técnica da vida metropolitana é inimaginável sem a mais pontual integração de todas as atividades e relações mútuas em um calendário estável e impessoal. (Idem, 1973, p. 14-15).
A multidão à qual Poe estava atento expressava-se em linha com as observações de Simmel sobre o habitante da metrópole, conforme o escritor e poeta descreveu:
A grande maioria dos que passavam tinha uma atitude satisfeita e eficiente, e parecia só pensar em abrir caminho na torrente. Tinham as sobrancelhas franzidas e moviam os olhos com rapidez; quando esbarrados por outros passantes, não expressavam nenhum sinal de impaciência, apenas ajeitavam a roupa e seguiam se apressando. Outros, de uma classe também numerosa, tinham movimentos agitados, o rosto vermelho e falavam e gesticulavam sozinhos, como que se sentindo solitários exatamente por causa da densidade do agrupamento à sua volta. Quando impedidas de prosseguir, estas pessoas paravam repentinamente de murmurejar, mas redobravam suas mímicas e esperavam, com um sorriso ausente e exagerado nos lábios, que passassem aqueles que os interrompiam. (POE, 1993, p. 14-15).
O ensimesmamento e a impessoalidade dos passantes ou dos habitantes da metrópole podem ser equiparados ao que Simmel denomina comportamento blasé, espécie de indiferença não intencional que o sujeito desenvolve, por duas razões principais: [1] assimilação de propriedades racionais desenvolvidas na relação com objetos, processos e procedimentos automatizadores do corpo, e [2] necessidade de proteção da mente contra sua saturação com estímulos produzidos, em escala sempre crescente, por um modo de vida assentado em mediações técnicas e informacionais. Simmel compreende que a atitude blasé
racionalmente mediada (SIMMEL, 1973, p. 17). O sujeito que se encontra nessa situação está continuamente exposto à tensão, o que favorece a atitude blasé, resultado da mente exaurida e sem condições de reagir positivamente a outrem, percebendo-o como alguém a quem se deve dedicar tempo (ibidem).
A indiferença, na situação considerada acima, à medida que medeia a sociabilidade, compromete experiências que dependem da atenção, a exemplo do que ocorre com o reconhecimento, por meio do qual sujeito e alteridade elaboram-se socialmente quando são percebidos e considerados um pelo outro como distintos em meio à massa disforme de indivíduos3. O reconhecimento, embora não se confunda com a percepção a respeito de outrem,4 também não pode prescindir do ato de consciência em relação à alteridade. Ambas as experiências processam-se sobre coordenadas de tempo e de espaço e modulam-se a partir delas, com a possibilidade de estarem comprometidas, a depender do modo como a relação entre tempo e espaço ganha forma. Engels descreve as condições desfavoráveis para a concretização do reconhecimento no âmbito da racionalização da existência e da aceleração da vida social, que se configuravam nas ruas de Londres no século XIX, associadas à proletarização da população economicamente menos favorecida e à assimilação social do modus operandi produtivista do capitalismo de então. O excerto abaixo expõe o que Engels vê no fluxo dos passantes, especificamente na postura que assumem uns em relação aos outros, totalmente circunscrita ao aproveitamento econômico do tempo e do espaço, conforme segue:
Esses milhares de indivíduos, de todos os lugares e de todas as classes, que se apressam e se empurram, não serão todos eles seres humanos com as mesmas
qualidades e capacidades e com o mesmo desejo de serem felizes? E não deverão
todos eles, enfim, procurar a felicidade pelos mesmos caminhos e com os mesmos
meios? Entretanto, essas pessoas se cruzam como se nada tivessem em comum, como se nada tivessem a realizar uma com a outra e entre elas só existe o tácito acordo pelo qual cada uma só utiliza uma parte do passeio para que as duas correntes da multidão que caminham em direções opostas não impeçam seu movimento mútuo – e ninguém pensa em conceder ao outro sequer um olhar. Essa indiferença brutal, esse insensível isolamento de cada um no terreno de seu interesse pessoal é tanto mais repugnante e chocante quanto maior é o número desses indivíduos confinados nesse espaço limitado; e mesmo que saibamos que esse isolamento do indivíduo, esse mesquinho egoísmo, constitui em toda a parte o princípio fundamental da nossa sociedade moderna, em lugar nenhum ele se manifesta de modo tão impudente e claro como na confusão da grande cidade. (2010, p. 68, grifos do autor).
3 As relações entre aceleração da vida social – fenômeno típico das metrópoles – e reconhecimento são
analisadas no Capítulo 3.
A invisibilidade de outrem como fenômeno típico da metrópole, produzido na relação do sujeito com o modo de vida pautado pela razão, pela técnica e pelo condicionamento de corpo e mente ao modus operandi produtivista do capital, também pode vigorar em ambientes fechados de produção, nos quais o sujeito, em interação com processos e objetos, tem a percepção modulada pela automatização que circunscreve o pensamento e os movimentos, como é possível observar na passagem abaixo, do romance O desaparecido ou Amerika, de Franz Kafka, escrito entre 1912 e 1914 e publicado em 1983, que expõe a situação do homem moderno:
No salão de telefones, para onde quer que se dirigisse o olhar abriam-se e fechavam-se as portas das cabines telefônicas, e aquele tilintar confundia os sentidos. O tio abriu a porta mais próxima e sob uma faiscante luz elétrica viu-se um funcionário, indiferente ao barulho das portas, com a cabeça encaixada numa tira de aço que lhe apertava os fones contra as orelhas. Sobre uma mesinha pousava o braço direito, como se lhe fosse particularmente pesado, e apenas os dedos que seguravam o lápis faziam movimentos inumanamente regulares e velozes. Era muito lacônico ao microfone, e várias vezes percebia-se que ele tinha algo a objetar ao interlocutor, pretendendo fazer perguntas mais precisas; mas antes que pudesse realizar sua intenção, certas palavras que ouvia obrigavam-no a baixar os olhos e escrever. Ele não era obrigado a falar, como explicou o tio a Karl em voz baixa, pois os mesmos comunicados que aquele homem anotava eram simultaneamente registrados por dois outros funcionários e depois comparados, de forma que na medida do possível erros fossem evitados. No mesmo instante em que o tio e Karl tinham saído pela porta, um estagiário se esgueirou para dentro, saindo com um papel coberto de anotações feitas no entretempo. No meio da sala havia um movimento permanente de pessoas que corriam de um lado para o outro. Ninguém cumprimentava, os cumprimentos haviam sido abolidos, cada qual ia seguindo os passos de quem o precedia, olhando para o chão sobre o qual pretendia avançar da maneira mais rápida possível, ou então, capturando com olhadelas para os papéis que tinha em mãos o que na certa eram apenas palavras ou números isolados e que esvoaçavam com seu passo apressado. (KAFKA, 2012, p. 50).
O excerto reflete imagens de indivíduos absortos em comportamentos automatizados, sem condições de perceber outrem, ou de abrir-se para recebê-lo com gestos ou linguagem, como algo que se distingue em meio a objetos e movimentos mecânicos do corpo-mente. Também mostra o sujeito elaborando-se na relação com o ambiente, desenvolvendo um comportamento com características correlatas às dos elementos com os quais se relaciona. Essas características, ao modo de propriedades do sujeito, estendem-se às relações com outrem.
orientada para o controle, a mecanização e a padronização de processos e operações. Nessa condição, o sujeito reificado torna-se invisível socialmente por duas razões principais: [1] porque se encontra instrumentalizado ao atuar como meio para o capital obter resultados; e
[2] porque “desapareceu” do contexto social como alguém provido de singularidades próprias do ente humano tais como consciência, imaginação, sensibilidade, empatia e capacidade criativa, para citar algumas propriedades que permitem diferenciar humanos de coisas e animais. Na reificação como condição existencial, conforme Honneth (2008, p. 75), o sujeito, em sua relação com o mundo, desconsidera o outro como o semelhante, no sentido de este corresponder à condição de ente humano e ser considerado como tal. A reificação do sujeito, nesses termos, configura um modo de invisibilidade social como experiência contrária ao reconhecimento ou impeditiva deste.5
O enraizamento, pelo sujeito, da mentalidade de época – calcada na razão, no apreço pela empiria e pela técnica, e no cultivo da relação econômica com as coisas, os indivíduos e o mundo – processa-se no próprio vínculo entre corpo-mente e modus operandi do ambiente socioeconômico. E, assim, o sujeito vive um paradoxo: segue em sua existência como projeto aberto, nos termos definidos por Sartre (1997, p. 623), ao elaborar-se na interação inextricável não apenas com outros sujeitos, mas também com processos, objetos e suas funcionalidades, e ao mesmo tempo fecha-se por circunscrever-se ao modo de vida assimilado à lógica do capital, que busca a produtividade e, com isso, constrange e sacrifica a larga expressividade do corpo (entenda-se, comprime o sujeito que consiste, afinal, na própria expressão de si) como modo aberto de se existir.
Nessa dinâmica de contradições, o sujeito, na relação com outrem, com objetos técnicos e contexto, corporificando a natureza aberta que lhe corresponde, cria formas de expressão que prolongam sua presença no horizonte. A comunicação em suas modalidades técnica e tecnológica – mediática a distância e/ou em tempo real – são formas de inovação que correspondem a esse modo aberto e projetivo de o sujeito existir. No impulso de sua existência, ele cria formas de relação, conformadas e/ou não-conformadas com restrições de tempo e de espaço, porque ele próprio (o sujeito) é aberto ao horizonte, transcendente, potencialmente disposto à superação de limites temporais e espaciais. A partir desse entendimento, imprensa escrita, telégrafo, telefone, correios, meios de transporte, pontes e vias terrestres, férreas e marítimas são as primeiras formas técnicas e tecnológicas vocacionadas ao processamento da comunicação – independentemente de uma categorização
mediática – no percurso histórico do capitalismo na civilização ocidental. Essas invenções contêm, virtualmente, em movimento aos saltos desde o capitalismo industrial, a comunicação em tempo real como esboço sutil de um empreendimento dedicado à projeção do sujeito em direção a outrem e ao mundo.
(Há que se considerar, nessa reflexão, que o regozijo com a pujança de uma existência aberta ao horizonte e a outrem pode diferenciar-se de um sujeito a outro, a depender das condições de contexto em que a vida transcorre e da compreensão sobre o significado da vida e do viver. O proveito que o sujeito extrai da condição de projeto aberto que lhe corresponde pode estar associado à sua situação de vida, em perspectivas econômica, política, social e cultural, conforme a conjuntura de época. Em relação a isso e no que diz respeito à comunicação mediática em tempo real como invenções da civilização ocidental, as iniciativas que resultaram na criação de recursos mediáticos, desde livros, panfletos, jornais, telégrafo, telefone e rádio até formas mais avançadas como a televisão, o telefone celular e os computadores com capacidade de rede – todas como expressão da possibilidade de abertura do sujeito a outrem e ao mundo –, foram lideradas por indivíduos que pertenciam à elite econômica, política e intelectual das sociedades nas quais foram gestadas. Do mesmo modo como o sujeito, ao viver sua natureza aberta e projetada ao horizonte, cria formas de comunicação transcendentes ao que considera limitante, em termos de tempo e de espaço, para a expressão de si, ele pode agir em nome da conservação de sua condição e posição em dada sociedade e, assim, as formas de comunicação criadas por ele, interpretadas como correspondentes à sua transcendência como ente humano, também podem ser consideradas limitantes, por resultarem na expressão de uma mentalidade voltada para si própria, para galgar barreiras impeditivas de um projeto conservador.)