Francisco Rui Cadima
O
dispositivo
comunicacional moderno caracterizado por inte grar trsparmetros
fundamentais na suaconstituio,
a saber: per-formatividade,logotcnica
e instrumentalidade. Este , essencialmente, o modelo da era
"analgica",
o quesignifica
que atecnologia pul
veriza e contamina a
prpria
ordempoltica
e as suas fronteiras.Mais em
particular,
agrande diferena
entre a autarcia salazarista e apoca
deinstitucionalizao
doregime
democrtico no est tanto nareformulao
dosparmetros
que caracterizam odispositivo
comunicacional,
est sobretudo na forma como os "actores"polticos
assumem o seuprotagonismo
meditico. Noprimeiro
caso, a instrumentalizao
integrada
comoparadigma,
nosegundo
caso o paradigma
recusado emteoria,
maspraticado
de formaenvergonhada.
Paradoxalmente,
quanto maispoderoso
se torna o sistema decomunicao,
isto, quanto
mais evolui para a matricialidade e para ociberespao,
ouseja,
para sistemas interactivos decomunicao
- em1 Texto baseado na
investigao desenvolvida no mbito da tese de doutoramento
"O Sistema Poltico e a Informao Televisiva em Portugal ao Tempo de Salazar e
Caetano (1957-1974)", defendida na FCSH em 1993. Posteriormente editada, o
essencial da tese encontra-se em duas obras, a saber: Salazar. Caetano e a Televi
so Portuguesa, Lisboa, Presena, 1996, e O Fenmeno Televisivo, Lisboa, Crcu
lo de Leitores, 1996. O texto que aqui se apresenta recorre, fundamentalmente, a estas duas obras. Ainda com temticas afins, refira-se uma outra obra do autor:
Histria e Crtica da Comunicao, Lisboa, Sculo XXI, 1996.
Revistada Faculdade de Cincias Sociais eHumanas, n." 10, Lisboa, Edies Colibri, 1997,
ruptura com os tradicionais fluxos de
comunicao
unvocos -, maisse evidencia a necessidade do campo
poltico
recorrer notoriedademeditica como forma de salvar o ser
pela aparncia.
Alain Touraine2 dizia-o muito claramente: de
facto,
existe comoque uma
inaptido
essencial dos actorespolticos
para se distanciaremdeste campo de
representao
- sinal evidente de que,afinal,
a inflao
dacomunicao
poltica
no campo dos media sobretudo sintomade uma crise de
perda
derepresentatividade
desses mesmos actorespolticos,
crise, enfim,
dapoltica
comorepresentao:
"Se a comunicao
poltica adquire
umaimportncia
crescente, porque apoltica
noimpe
mais nenhumprincpio
deintegrao,
deunifica
o,
aoconjunto
dasexperincias
sociais e que a vidapblica
extravasa portodos os lados a
aco
poltica
".Como refiro no meu livro O Fenmeno
Televisivo,
a mise enscne da
representao
poltica,
os rituaispolticos,
simblicos,
dopoder
dominante,
que se consagram emespectculo
televisivo,
sobretudo nas
dramaturgias
j
banalizadas dostelejornais.
Trata-se, nofundo,
de umaliturgia
simblica, por vezes inclusivamente considerada uma
mstica,
que se tem vindo a radicar nos sistemas de comunicao
televisiva-imagem,
dealguma
forma,
dos ritos de soberania das sociedadestradicionais,
que tinham porobjectivo
final aperpetuao
no
poder
desses mesmos actores. Verifica-se assim umaespcie
deentronizao publicitria
do corpopoltico
e dos seusprotagonistas,
sendo o "animal
poltico"
reciclado e metamorfoseado em homoloquens,
em actor comunicante. Este trabalho contm em si tambm os sinais de umprocedimento
poltico
deauto-legitimao,
procurando deste modo o corpo
poltico
fundar nessa mise en scne a perpetuao
de uma soberania. Nofundo,
o Estado no existe seno "emacto" de
representao,
depublicness,
como se diziaj
na IdadeMdia em
relao
ao corpopoltico
- e nojurdico
- do rei.Mas
vejamos
ento mais emparticular
os casos de Salazar eCaetano.
Quando
comearam as emissesregulares
de televiso(7/3/1957),
nopropriamente
Salazar,
mas Marcello Caetano-qual
delfim determinado a recuperar o tempo
perdido, grande adepto
da"personalizao
dopoder",
seguramentej
consciente dos efeitospolticos
do novomedia,
e sobretudo crente nopredomnio
dos facto res irracionais naformao
daopinio pblica
- achava-a"fortemente
Alam Touraine, "Communication politique et crise de reprsentativit", Hermes,
n 4- Le nouvel
corruptvel
e presafcil
de aventureiros e charlates"(1971:125)
-,logo
seapresentou
a falar aopas,
como recordou: "Fui oprimeiro
membro do Governo a utilizar a TV paraexpor
ao Pas, em Junho de1957,
problemas
de interessegeral.
No oculto quesegui
osprimeiros
passos da RadiotelevisoPortuguesa
comprofundo
interesse e entusiasmo at. No
imaginava
que, anosdepois,
comoChefe
do Governo, ela me seria de tanta utilidade para o estabelecimento
de uma corrente de
comunicao
entre mim e o povoportugus.
Mas sabia, desde o incio, que era o instrumento ideal para um Governose tornar
popular...
se o merecesse"(Caetano,
1977:472).
O afastamento de Salazar do meio televisivo no se
explica
spelas
suasmltiplas
fobias detecnologia,
inovao, pblico, publici
dade, etc, mas, aparentemente,pelo
seu desconhecimento das virtualidades instrumentais do novo media
-para alm do mais no era pro
priamente
umorador,
o quej
vinha,
alis, dos tempos da Coimbra3.Repare-se
que no ano de1958,
j
com emissesregulares
em Portugal,
em entrevista aoFigaro
(de
2 e 3 de Setembro de58), Salazar,
numa visopassadista, repetindo definies
que remontavam aos anosVeja-se a resposta de Rolo Preto e Joo Medina (Salazar e os Fascistas,
Bertrand, 1978, p. 160), quando este lhe pergunta "E o Salazar estudante, como
era?": - "(...) Tinhafama de monrquico (...) mas depressa
passou a ser apenas
catlico (...) Cunha Leal era um dos grandes inimigos dele; tinha uma enorme
facilidade defalar, uma 'verve'... Coisa que Salazar no tinha - e isto foi uma
coisaquetalvezprejudicasse Salazarnoseu destino: queele no era orador. De
modoque no podia fazerum Parlamento em que tivesse que intervirpessoalmen
te. A primeira coisa que fez, uma vez chefe indiscutvel, foi um Parlamento
peranteo qualos ministros no so responsveis. Lia os discursos dele, discursos
escritos... E nisso era completo: nofaltava uma vrgula". E um dos bigrafos oficiais de Salazar, Lus Teixeira, in "Perfil de Salazar" (Secretariado de Propa ganda Nacional, Lisboa, 1939), citado por Antnio de Figueiredo (1976:35), dizia dele: "(...) cresceu na sombra e estudou no isolamento". O prprio Antnio Ferro,
no incio dos anos 30, aquando da realizao das entrevistas publicadas no Dirio
de Notcias, e antes de entrar para o automvel (o "gabinete ambulante") de
Salazar, quando este estava ainda no Ministrio da Finanas, perguntava-se:
"Como ir receher-me, no meu estranho gabinete ambulante, esse homem que no
recebe ningum, quefoge ao contacto dos outros homens, queparece medir todas
as suas palavras, gestos e atitudes, que vejo debruado constantemente, sobre a
carta de Portugal, sobre a planta da Ptria, com uma rgua, um esquadro e um
compasso?' (Ferro, 1978:73). Jornais estrangeiros descobriram-lhe tambm facetas desconhecidas, como o New Daily, de Londres, citado pelo telejornal de
29/4/1960: "O homem que nunca consentiu quefosse emitido um selo com a sua
30,
sprimeiras
circulares daDireco
dosServios
deCensura4,
privilegia,
ainda no final dos anos50,
aimprensa
face aos outros media"(...)
aimprensa,
principal
meio, a rdio e ateleviso,
defor
mao
daopinio pblica
(...)".
Ou ainda:"(...)
aimprensa,
com assuas irms mais novas - a rdio e a televiso
(...)"5.
,
alis,
opinio
frequente
no ter tido aprpria imprensa
umpapel
determinante napoltica
oficial salazarista6. Ao contrrio deMarcello,
Salazar noparecia
dargrande importncia
aos media como instrumento para aboa
consecuo
de umapoltica.
O seu modo de governar no retiro deS.
Bento,
algo
misantropo,
asctico mesmo, era sem dvidarefractrio ao
desempenho
meditico. Oprprio
Marcello Caetano oreconhecia:
"(...)
naquele
homem a Poltica tinha-se constitudo emmisso. Entrara na
poltica
comopodia
teringressado
numa OrdemReligiosa
austera"(1974:
580). Quase
o mesmo haviadito, afinal,
ainda nos anos 30, Antnio Ferro
(1978:
65),
naintroduo
ao seulivro sobre Salazar: "Os que no se
resignam
aos pensamentos claros e desinteressados em vo procuravam na vida resumida e restrita doDr.
Salazar,
as razes ocultas e subterrneas das suasmedidas,
dosseus
possveis
favoritismos.
Masnada,
absolutamente nada.Difcil
conceber maior
isolamento,
maiorindiferena pelas
coisas terrenas,pelos
prazeres do mundo. O Dr. Oliveira Salazar era umexemplo
de um ascetismo raro, talveznico,
na clareira dos homenspblicos
da nossapoca
e da nossa terra".Da,
defacto,
no ter havido umaproveitamento
de carcter declaradamentepropagandstico,
de umaideologia
- doregime
e do seu ditador -, atravs do culto daimagem
ou, num mbito maisgeral,
mesmo do culto dapersonalidade,
porexemplo,
como aconteceunoutros
regimes
totalitrios. Ou apenas e to s de umapresena
assdua,
pr-determinada,
nos meios decomunicao,
e,nomeada-4 Cf. nomeadamente
acircular imprensada Direco dos Servios de Censura, de
28/8/1931, citada por F.P. Balsemo (1971:81-184).
5 Cf. discurso
pronunciado na sede da Unio Nacional em 1 de Julho de 1958.
Discursose Notas Polticas, Vol. V,
pp. 485 e segs. Nestemesmo discurso Salazar
ironiza com "o valor informativo da imprensa" contando uma histria sobre uma
noticia que o tinha dado como ausente de Coimbra, no tendo ele sado da
cidade...
5 Cf. Arons de
Carvalho, A Censura e as Leis de Imprensa, p. 103. Arons de
Carvalho ata Alfredo Barroso,
que no Repblica de 7 de Fevereiro de 1972,
escrevia: "Salazar no considerava a Imprensa um instrumento essencial, nem
mesmo importante de execuoda sua
mente,
claro,
na televiso. Eleprprio
- Salazar-inclusive,
deixava-oantever
j
em 1933aquando
dainaugurao
do Secretariado daPropaganda
Nacional: "O Secretariado no um instrumento doGoverno, mas um instrumento de governo no mais alto
significado
que a
expresso
pode
ter. No se vai certamente evitar, com talentendido
pudor,
toda areferncia pessoal elogiosa,
toda a homenagem
prestada
aos que seafirmam
pelo
trabalho,
pela
dedicao,
pelo
desinteresse com que servem a causa
pblica.
Mas no esse oobjectivo
que prossegue o Secretariado daPropaganda
Nacional. Aque se destina ento? Vamos abstrair de
servios
idnticos noutrospases,
dos exaltados nacionalismos que osdominam,
dos teatraisefeitos
a tirar no tablado internacional. Tratemos do nosso casocomezinho.
(...)".
E em 1939 voltaria adizer,
significativamente:
"(...)
Uma
publicidade
desaforada, estpida
umas vezes, outrasinteligen
tssima e
internacional,
esquadrinha
asatitudes,
d sentido s coisasindiferentes,
perverte asintenes
mais puras, desvirtua o pensamento mais
lcido,
aula
paixes,
espalha
o dio,lana
o terror, suscitaproblemas
elana solues
que so outros tantosproblemas"1
.Teria sido em vo, portanto, a tentativa de Marcelo alertar
Salazar
aquando
da assinatura do Tratado de Roma, em 1957: "Sr.Professor-
vem aa sociedade de consumo...", ter-lhe-ia dito8, ao queele,
aparentemente, noligou grande importncia.
Era semdvida,
como disse Mrio Soares(1990:11),
"umpoltico representativo
dopas
rural,imvel, atrasado,
provinciano
quePortugal foi,
emgrande
parte durante o seu consulado e devido sua
aco".
Mesmoprofissionais
como Vasco Tevs, queprivaram
com Salazaraquando
da
realizao
degravaes
para aRTP,
confirmam que o ditador confessava a sua franca
ignorncia
sobreaquelas mquinas
de "tirar oretrato"...
Da, tambm,
olanamento
da"operao
TV" ter assumido"foros
de actoconspirativo"9.
Mas atranquilidade
no deixaria dereinar no
pas.
O "exlio universitrio" deCaetano,
que noperodo
de1955-58 era tido nos meios oficiais por
"liberal",
seno mesmo como "homem deesquerda"
(...),
tal como eleprprio
o disse(1974:522)
-"Em 1957 eu era
porm,
para as classespossidentes
e para a direita7 Cf. discurso na Assembleia Nacional cm 22/5/39, Discurso e Notas Polticas, Vol.
III, pp. 140-141. 8 Ver
designadamente Vicente Jorge Silva, "24 anos de RTP: a histria de uma
servido", Expresso, 7 de Maro de 1 98 1.
9 V.J.S.,
monrquica,
pura esimplesmente
ochefe
daesquerda
doregime,
acusando-se o Presidente CraveiroLopes
de comungar nas mesmasideias e de cobrir a minha
aco"
- teriasossegado
os ultras-e, mais
tarde, em
1960,
adestituio
de Camilo deMendona
daRTP,
substitudo por Lus
Athayde
-que
j
vinha exercendo asfunes
deadministrador por parte do Estado desde o ano anterior -, sero mar
cos de uma nova fase na ento breve histria da televiso em Portu
gal,
como veremos. Marcello era tido nopas, segundo
outros, "comoo nico representante da modernidade no
regime"
(Valente,
1990:163).
Nos dez anos que seseguiriam
"oregime
apodreceu
lentamente e o
pas
entrou em crise larvar queexplodiria
sob Marcelo"(op.
cit.:164).
No seria
pois
de estranhar o aparentemente sbito "enamoramento" de Marcello Caetano
pela
televiso. No esqueamos que eletinha efectivamente teorizado sobre a
opinio pblica
no Estadomoderno. Para Caetano
(1971: 119),
os governantes nopoderiam
jamais
deixar de dar contas do que"pensam,
projectam
ou fazem": "A cenaparlamentar,
inventada no tempo em que o convvio socialdecorria em conversas de salo,
foi
suplantada
nestapoca
deeliminao
das distncias e defacilidade
decomunicaes"...
Marcello Caetano
explicitava
assim, claramente,
ou mesmovisionaria-mente, para o sistema
poltico portugus,
a suaconcepo
militaristada televiso.
Mal a televiso comea,
j
Marcello Caetano estava nos crans,concretamente a 5 de lunho de 1957, no tinham ainda
passados
doismeses
aps
aprimeira
das emissesregulares10.
O tema que levouA revista Rdio &Televiso, de 8 de Junho de 1956, chegava mesmo a teorizarem
torno daperformance do ministro da Presidncia, expondo todo um receiturio de
representao: "Na televiso como na rdio nodeve ter-se apreocupao que se
est a falar solenemente ao mundo inteiro, deve ter-se em vista que se est a
conversarcom cinco pessoas reunidas numa sala, em ambiente defamlia. Donde
o despropsito do tom solene, da voz enftica, da pronncia pretensiosa e do ar
doutoral. Donde, a necessidade de uma grande dose de simplicidade, que mante
nha o orador e ouvintes ligados por um fluido de simpatia e de
familiaridade
gerador de um clima de receptividade psicolgica do auditrio. Por exemplo:
como ofez o ProfessorDoutor Marcelo Caetano.
"Quando um locutor de televiso quiser saber de
que maneira h-de desempe
nhasse modelarmente da suafuno (...). Quando um entrevistador de televiso
tiver dvidas acerca do modo como ser vivo sem deixar de ser
equilibrado
ediscreto (...). Quando um comentador de assuntos culturais ou desportivos sentir
os modos e a voz impregnados de um tom doutoral, mais prprio
Marcello a falar
pela
primeira
vez, expressamente, aopas,
atravs daRdio e da Televiso, era, sem dvida, um tema lateral aos
desgnios
do
regime.
Tratava-se do 10. aniversrio do auxlio americanoEuropa
- concretamente, do PlanoMarshall,
"um dosacontecimentos
marcantes da era
contempornea", segundo
oprprio
MarcelloCaetano. O ministro da Presidncia
aproveitaria
ento asituao
paraapresentar
opas,
com toda anaturalidade,
alis,
perfeitamente
integrado
no contexto do mundoocidental,
e com umasituao
de talmodo favorvel, que nem sequer tinha necessitado de
especial
auxlionorte-americano: "Em
Portugal,
subtrados como estivemos aosefei
tos directos do cataclismo, mal nos
apercebemos
dagrandeza
dodesastre. Mesmo assim muitas pessoas haver que recordam as cir
cunstncias
difceis
desse comeo de ano de 1947 em quefoi
necessrio recorrer
importao
degneros
alimentcios parasuprimir
asfaltas
resultantes dopssimo
anoagrcola.
Mas emPortugal
haviareservas de ouro com que pagar essas compras ao
estrangeiro.
Noresto da
Europa,
no."Dir-se-ia,
pois,
que nestaprimeira
fase das emissesregulares
-quecorrespondiam
de factopermanncia
de Caetano no governo deSalazar,
era o Ministro da Presidncia quem representava oregime
nocran televisivo. O que no quer dizer que a
refraco
aodesempenho
meditico de uma
figura poltica,
como, porexemplo,
Salazar odemonstrou em
relao
TV - ouque a ausncia de um dos
protago
nistas do campo de
dominao
-,seja
sinnimo de uma ausncia dosdispositivos
polticos
e das suasestratgias
deinstrumentalizao
dosistema de
comunicao pblica
dominante.Neste processo
ritualista,
a excluso do indivduo sobretudo devida ao controlo total do universo dainformao
televisivapelos
actores
polticos
epelo
mbito institucional - o indivduo, na sua singularidade,
o"privado",
o"particular",
no criamnotcia,
no sonotcia. Ao nvel dos actores, homens de Estado e
protagonistas
polticos,
h como que umapersonalizao
dashierarquias
e no umaexpresso
dasingularidade,
damultiplicidade
- a estrutura e o escalonamento
hierrquico
e institucional que se manifestam constantemente. Esta
prtica, perfeitamente
instituda desde osprincpios
dateleviso,
designadamente
nosmonoplios
de Estado, mas tambmdogmas do quepara enunciarfutilidades comezinhas,
far
bem em se lembrar domodo como se comportam perante o microfone e as cmaras, homens, alias
profundamente doutorais, como por exemplo o Professor Doutor Marcelo
nas redes
privadas,
veio sublinhar atendncia,
expressa nosprprios
alinhamentos, para um
progressivo
afastamento do sistemapoltico
darespectiva
sociedade civil e das suasfiguras
dealteridade,
o que, emltima instncia, manifesta no s a
incapacidade
do sistemapoltico--televisivo para
interpretar
oconjunto
daexperincia
social,
como ainda, e emconsequncia,
a recusa, ou a inabilidade do Estado em seidentificar com o
conjunto
dos cidados e dos seusdireitos,
liberdades egarantias.
O seu contrato de visibilidade/credibilidade seu modelode
representao.
Ehoje
ainda,
emgrande
parte, assim.Doravante, como alis defende
Touraine,
oEstado-Nao
gereinteresses que no se identificam em definitivo com os da comunidade
em
geral, representando
uma democracia mais aclamativa do que participativa,
afastando-se por isso radicalmente dosdesgnios
emancipadores
que haviam contribudo para a suaemergncia.
Sendo o cran televisivo,designadamente
na sua fasemonopolista,
o interface deste modelo, ele tambm aconcretizao
dessaabstrao
dominante.Sob o ponto de vista da
performance
dos diferentes actorespolticos
bvio que asfiguras pblicas
se definemhoje
maispelo
seu
desempenho
meditico,
nagesto
dos conflitos menores, do quepor uma ordem de
exigncia
face ao interessepblico
da comunidade(veja-se
aquesto
ambiental,
opacifismo,
osubdesenvolvimento,
ascarncias
sociais, etc).
Uma talgesto
assenta por isso numprincpio
de
seleco
do acontecimentopoltico, estereotipado
e modulado querpela seleco poltico-televisiva,
neutralizante daactualidade,
querpelo
efeito-srie dopseudo-acontecimento
(as
presenas dirias dasfiguras
maisrepresentativas
dos governos e do Estado), determinandopor sua vez um efeito censurante que
interpreta
opoder
dominante deforma servil e a sociedade civil de forma
"hostil",
fundamentalmentepor omisso.
No
fundo,
amediatizao
dacomunicao poltica
em televisocriou de facto o homem
poltico
formatado,
atravs de umajustamen
to dosdispositivos
decomunicao
especificidade
dodesempenho
televisivo da
figura pblica.
E nestacomplexa
mutao,
onde todos osactores de
apropriao
dos media por parte do campopoltico
sojogados,
emerge fundamentalmente o deslocamento deprticas
tradicionais de
representao
poltica
para o campo domarketing,
da imagem
corporativa
e daprpria publicidade.
Uma
primeira aproximao
aos doisgrandes
perodos
da histriarecente portuguesa - salazarismo
e caetanismo - e s suas
relaes
monoplio
de Estado - a televiso-permite-nos
concluir,
aps
a concretizao
dainvestigao emprica
em que seprocedeu
anlise descritiva dos
telejornais
daRTP,
que o modo de dar a ver, atravs damquina
televisiva,
a realidadeportuguesa
nos anos1957-1974,
foimais marcadamente
instrumentalizado,
eobjecto
depropaganda
doregime,
ao tempo de Marcello Caetano do que com Salazar.Isto,
muito embora todo o
perodo
imediatamenteposterior
ao incio daguerra
colonial,
designadamente
o "consulado Mrias", fosse substancialmente mais radical e mesmo mais marcadamente doutrinrio e
militante nos seus comentrios e editoriais que os
primeiros
anos deinformao
televisiva conduzida por ManuelFigueira, perodo
em que o texto deopinio
tem de facto umaexpresso
reduzida.Embora se tratando de dois
grandes perodos
aolongo
dosquais
o controlepoltico
dainformao
televisiva - edesignadamente
daedio
principal
dotelejornal
- foi circunscrito de modo idntido sgrandes estratgias
censurantes epersecutrias
doregime
e ao seudesgnio
poltico
global,
a verdade que aotempo
de MarcelloCaetano a RTP
explcita
e assumidamente um "instrumento" de umaaco
poltica propagandstica
no domnio deinformao
televisiva, aqual,
defacto,
sobretudo apartir
de meados dos anos60,
temj
umimpacto
significativo
no campo dos media noplano
nacional,
querpela
cobertura daRTP,
querpela
audinciaatingida1
'.
Ao
invs,
o salazarismo coloca-se inicialmente numaposio
defensiva e expectante face ao desenvolvimento de um novo e
pode
roso meio decomunicao
como ateleviso,
provavelmente
temendo uma maisampla publicidade
s coisas da vida e do mundo-para
depois,
na sua faseterminal,
aps
o incio da guerra colonial,portan
to, ter uma
estratgia
maisagressiva
e instrumentalizadora no domnioda
informao
televisiva.De uma forma
geral,
o instrumentoestratgico
que acabou poracompanhar
todo o consulado salazarista no mbito dacomunicao
Porexemplo, em 1968 - ano-charneiraentre salazarismo e marcelismo
- o nmero
de aparelhos de televiso registados oficialmente em Portugal era de 305 623. No
entanto, a audincia potencial, calculada com base no total da populao nacional
habitandonas zonasde cobertura da RTP era de cercade 7 milhes de portugueses
(taxa superior a 90%). Segundo dados da prpria RTP a audincia mdia diria em
1968 foi de cerca de 1 milho de telespectadores/dia (cf. Anurio da RTP de 1968,
pp. 247-269). A relao entre televisores registados e audincia assim extrema
mente aleatria. Veja-se por exemplo que em 1964 a rea de cobertura era de
apenas 57,6%, o que correspondia a 71,5% da populao total do Pas. No entanto,
o nmero de televisores registados em 1964 erade apenas 150.319.
social,
e que de certa forma estabeleceu os limites deactuao
nocampo dos media - com bvias extenses tambm televiso - foi
o
imobilismo informativo do modelo
protocolar
eoficioso,
quando
no mesmooficial,
determinadopelas
estruturas censrias epersecutrias
do
regime.
Voltando
especificamente
nova era editorialista marcadapela
entrada de Ramiro Valado, um aspecto h a destacar desde
logo
noque concerne
argumentao
e modelo enunciativo. Os editoriais deManuel Maria
Mrias,
so, porexcelncia,
textos assumidamentepolemistas,
escritos naprimeira
pessoa, onde o culto dapersonalidade
de Salazar no
,
por assimdizer,
uma obsesso(at
pelas
caractersticas
prprias,
mediticas,
doditador),
eonde,
tambm, em regra, soreduzidas as referncias
estratgia poltica
comorigem
- e enuncia da - ou do seugabinete,
oupelo prprio
Salazar.E, de facto, com Marcello Caetano assiste-se desde
logo
a umainverso de fundo nesta
estratgia.
Oseditoriais,
emgrande
parte,passam a ser
redigidos
com oenfoque
na terceira pessoa, nas suasactividades e na sua
agenda
poltica,
no seu pensamento, nas entrevistas que d, nos livros que
publica,
nos factospolticos
quecria,
ou at na recorrnciaprpria
RTP para melhorchegar
aos portugueses,cumprindo
assim,alis,
o desiderato que haviaimputado
aomeio,
essa
espcie
deprtese
instrumental do novopoder.
E claro que nesteparticular
as conversas em famlia seriam decisivas para a reformulao
daestratgia
deinstrumentalizao
da televiso.Repare-se
ainda que at os editoriais apropsito
das datas doregime,
s raramenteexcluem as
declaraes polticas
de Marcello Caetano,registadas
apropsito
desses mesmospseudo-acontecimentos.
Excepcionalmente, quando
odispositivo
dainformao
diria (ostrs blocos
dirios)
se mostravainsuficente,
do ponto de vistapropa-gandstico,
paradivulgar
e promover asviagens
do lder, ou os seusdiscursos,
as reunies da UnioNacional,
etc, ainformao
optavaou
pelas
"edies especiais"
oupelas
repeties
e remontagens. Nocaso das reportagens da visita de Marcello Caetano a
frica,
esseefeito
repetidor adquiria
a dimenso e oregisto
claro doespectculo
propagandstico.
Essa era,afinal,
afrmula,
por excelncia, paraValado mostrar que a
confiana
que em si tinha sidodepositada
ono havia sido em vo. E em todo o
perodo seguinte
continuariaigual
a siprprio.
que desde 1957 se
procedia
seleco,
anlise eproduo
da informao
destinada aostelejornais.
Com Salazar essaestratgia
foiganhando
corpo, tendo-se radicalizadoaps
o incio da guerra colonial,
designadamente
no consulado Mrias. Com MarcelloCaetano,
efundamentalmente por
interposio
de RamiroValado,
pblica
e notria umaaco
agora deliberadamente instrumental dainformao
televisiva tornando agesto
dasprticas
e dos discursos numaaco
burocrtica depropaganda,
sendo conferido aosprotagonistas
dosistema
poltico
monopartidrio
- masdesignadamente
aoprprio
Marcello Caetano(como
dantes nunca havia acontecido comSalazar)
- o estatuto de
dirigente inquestionvel
e depersonalidade
"acima doacontecimento". O tratamento televisivo da sua
aco
poltica,
constantemente presente nos TJ's,
requeria
assim total submisso a umalgica hierarquizada,
em que opanegrico
do lder carismtico representava, de forma
assumida,
uma nova modalidade de subservinciavontade do
Prncipe.
A
televiso,
designadamente
ainformao
televisiva, foiexplici
tamente para Marcello Caetano o que o Secretariado daPropaganda
Nacional,
mais do que aprpria
televiso,
havia sido em tempos paraSalazar - um instrumento.
Mas,
implicitamente,
de facto, aRTP,
naera
ps-Manuel Figueira,
foi tambm fortemente instrumentalizadaatravs das
cumplicidades geradas
noprprio
sistemapoltico--televisivo. A subservincia ao programa de Marcello Caetano, de ins
trumentalizao
dateleviso,
era,alis,
claramentejustificado
porRamiro Valado:
"
evidente que a RTP no ser veculo, de nenhu mamaneira,
dum programa queseja
contrrio aosprincpios funda
mentais que regem a
Nao
portuguesa. Isto , est aberta a tudo oque est dentro da
Constituio,
mas no colabora na existncia dequalquer fenmeno
revolucionrio oupr-r
evolucionrio. Isto ,evidentemente,
uma certeza absoluta que as pessoas devem ter no seuesprito.
Ns no queremos destruir estruturas, mas contribuirpara asua
renovao
de acordo com a linha deaco
indicada claramentepelo
Presidente MarcelloCaetano"12.
A coerncia instrumental e
monolgica
do modelo informativo, a sua estrutura deagenciamento
protocolar
eoficioso,
e algica
deproduo
- constante - depseudo-acontecimentos
emeta--acontecimentos,
valorizando as diferentes modalidades deenuncia-12 Entrevista de Ramiro Valado
a Vera Lagoa. Revista Rdio e Televiso, de 21 de
o
propagandsticas,
caracterizavamassim,
em linhasgerais,
a estratgia,
o modo deproduo
e asprticas
editoriais dos blocos noticio sos daRTP,
desde o seu incio at ao 25 de Abril de 1974. E da mesma forma que o sistema demonopartidarismo poltico
se subordi nava aoEstado,
assim omonoplio
dainformao
televisiva e a suaestrutura
protocolar
-o
aparelho ideolgico
domonologismo
discursivo do sistema - se subordinavam, na sua
prtica,
ao sistemapoltico
eaco
dos seusprotagonistas
e da autarcia emgeral.
Umaprtica
que se diria
"imprescindvel"
para amanuteno
e aperpetuao
daestrutura
poltica
doregime,
para a sualegitimao,
e para a constanteinculcao
no corpo social - atravs dodispositivo
televisivo - deuma ideia obstinada e
intransigente
paraPortugal.
E isso funcionavasobretudo nas aberturas do TI atravs de uma
espiral
de redundnciasque encenava, por assim
dizer,
a irreversibilidade de umaduplicao
do mundo que era, em ltima
instncia,
uma amnsia do tempo.Ao tempo de Ramiro Valado so de facto diversos os documen
tos que nos
permitem
uma melhorcompreenso
da forma como todoeste sistema
instrumental-propagandstico,
criador do consenso, haviasido
gerado. Veja-se
o caso do Conselho deProgramas
da RTP, que acerta altura se
debrua,
exactamente, emexclusivo,
sobre otelejornal.
Na sua 45a reunio, de 7 de Janeiro de
1971,
da ordem do dia constava, de facto, apenas a
apreciao
do TJ. O entopresidente
do Conselho de
Programas,
Pedro GeraldesCardoso,
procedia
nessa mesmareunio leitura de um relatrio sobre o
servio
noticioso da RTP.Ramiro
Valado,
comentando as suasobservaes,
enquadrava
aquesto,
do ponto de vistapoltico,
doseguinte
modo:"(...)
Entende--se
superiormente
que o Teleiornalpode
contribuir, dada a suaexcepcional
difuso,
para quesejam
atingidos
osobjectivos
doGoverno da
Nao".
Maisfrente, revelando,
sobre um caso concre to, todo um programapropagandstico,
referiria:"(...)
A RTP est aadoptar
o sistemade,
parapoder
informar
opblico
porforma
susceptvel
de lhedespertar
mais interesse, apresentardocumentriosfilmados
dasgrandes
obras que seinauguram
em momentodiferido
eanterior ao das transmisses das reportagens das
respectivas
sessesinaugurais
durante asquais
nem sempre existe apossibilidade
dedocumentar os
espectadores
com os pormenores de ordem tcnica ouesttica que estes, muito
naturalmente,
maisapreciam"
. Valado,13 Cf. "Projecto de Acta
alis,
no esconde aimodstia,
eprefere
mesmo evitar adesconfiana
alheia de
qualquer
incoerncia da suaprtica.
Na anlise que posteriormente fez desses anos em que reinou como
quis
- e soube - naRTP, entre 1969 e
1974,
dizia: "Eu tinhapoderes
absolutos na RTP eposso mesmo dizer que nunca nenhum
presidente
mandou tanto comoeu. O
prprio Prof.
Marcello Caetano evitavainterferir
no meutrabalho"14...
O mesmodizer,
interferia.Alis,
como confessava na mesmaentrevista,
no lhe interessavam muito aspresses
dos ministros, ou do
governador
civil deLisboa,
Afonso Marchueta-que, nas suas
palavras,
"telefonava
sempre a saber o nome doreprter
destacadopara cobrir as suas
visitas"15-,
a nica coisa que lhe interessava era aopinio
do Presidente do Conselho.E Marcello Caetano no
perdia
as "boas" ocasies para intervir...Um tanto
descomplexadamente,
Marcello evidenciava nas mensagenspor si enviadas ao
presidente
do Conselho deAdministrao
daRTP,
de certa
forma,
umadespudorada inteno
de controle deste meio por parte do Governo a quepresidia.
Em carta datada de 28/12/1970 nopodia
ser mais claro: "Conto com oapoio
fiel,
dedicado einteligente
dos
amigos,
sobretudodaqueles
a quem estoconfiadas
posies--chave,
como sucedeconsigo.
A televiso nos tempos correntes uminstrumento essencial de
aco
poltica
e ns nopodemos
hesitar na suautilizao
- nem em vedaraos adversrios da ordem social essa arma de
propaganda.
Sei que est atento, mas nos tempos que corremtoda a
vigilncia
pouca, toda ainteligncia
eargcia
naaco
so7/1/1971, (A Poltica de Informao ... pp. 240-242). Nesta reunio participariam
o presidente do Conselho de Programas, Pedro Geraldes Cardoso, e respectivos
vogais (Monsenhor Moreira das Neves, Escultor Antnio Duarte, Fernando Guedes da Silva, Nuno Matias Ferreira, Armando Rocha e Lus Filipe de Oliveira e Castro). Presentes tambm estiveram o Director Geral da RTP, Matos Correia,
Miguel de Arajo e o Chefe do GECP,Jos Cabral Tavares de Carvalho, para alm de Ramiro Valado, presidente do CA.
4 "Sou anti-democrtico", entrevista de Ramiro Valado a Rocha Vieira, Tal e Qual de 1 de Novembro de 1985.
5 Na entrevista a Rocha Vieira, Ramiro Valado afirmava de Afonso Marchueta,
governador civil de Lisboa: "Era umajia de pessoa, mas adorava aparecer na
TV. Se, por exemplo, ia visitar Loures, no sossegava enquanto no tivesse a
certeza que a TV ia l. Telefonava-me a avisar, telefonava ao Miguel Arajo,
directorde Programas, telefonava ao Jos Mensurado, o meu homem de confian
a no Telejornal, e (imaginem!) exigia saber o nome do reprter que iriafazero
trabalho, a quem, por ltimo, telefonava igualmente. Gostava a srio da propa
insuficientes:
h quepr
emjogo
todas as nossasfaculdades
decombate"16.
Numa outra
situao,
a 3 de Abril de 1972,dirigindo-se
mais uma vez a Valado, Marcellorepetiria
o seu "nos tempos que vo correndo o controlo
efectivo
da TV essencial para o Governo"11. Aindaque atravs de
correspondncia
privada,
neste caso notrio que oregime,
certamente por estar defendidopela complexa mquina
dacensura, no tinha
qualquer
receio deexplicitar
os seusdesgnios
e o seupensamento
relativamentecomunicao
social,
e emparticular
emrelao
televiso.A
lgica
consensual e dissuasora que marcou toda a histria dainformao
televisiva emPortugal
aolongo
de 17 anos de Salazar aCaetano -, ancorou concretamente na natureza tcnica, instrumental e
performativa
dodispositivo
historico-cultural televisivo,especfico
desse
perodo.
Taldispositivo
consagra no s uma ordem do mundobaseada na
gesto
burocrtica epoltica
dopseudo-acontecimento
edos
meta-acontecimentos,
como noprincpio
dissuasor. Produz tambm os seus
mega-efeitos
dereal,
fragmentando
erecompondo
a imagem social, remitificando a
"prosa
do mundo" atravs de um modelosubmisso ao
regime
deauto-celebrao
do sistema e da classepoltica
"unionista".
Na leitura do "seu" mundo, o
dispositivo
tecno-discursivo perseguiu
sempre umalgica performativa
indutora de um horizonte deacontecimento assente no
protocolo
e naagenda
de Estado, no desempenho
poltico-meditico
carismtico,
na catstrofe e nofait-divers.
Lgica
criadora tambm dos consensossociais,
que, por acrscimo,obliterava a
emergncia
dassingularidades,
dassubjectividades
dissidentes,
impondo
assim aglobalizao
do seu pequeno universopolti
co como matriz estruturante historico-cultural.
Tratar-se-ia,
nofundo,
no de umregisto,
ou de uma dimensoespectacular,
alimentada poruma cenadialogai,
conflitual, mas, antes, insufladapelo princpio
dadramaturgia monolgica,
no sentido dapalavra
exclusiva einquestionvel,
muito embora se tratasse de umprocesso
dialgico
na medida em que aargumentao
sempre destinada a
algum...
Mas era, defacto,
pela inscrio
de um contratomodelizador e
dissuasor,
de umregime
de verdade adstrito ao modelo5 Cf. A Poltica de
Informao no Redime Fascista, Comisso do Livro Negro,
Lisboa, 1980, p. 239
17
politico
autocrtico etotalitrio,
actuando emparalelo
e de formaconcertada com o
conjunto
damquina
censurante epersecutria
-que era instituda uma actualidade transformada em histria
imediata,
viso do mundo esta que
transpunha
omonoplio
televisivo para umadimenso de
televiso-Estado,
que sereflectia,
em termos do campo darecepo,
na inevitabilidade de o destinatrio ser o receptor finalde uma
palavra
sem resposta.Todo este trabalho das estruturas
propagandsticas, policiais
ecensrias do
regime,
era no entanto dado comalgum
sofisma atravsde um
pretenso
saberdidctico,
pedaggico
-o consulado salazarista era visto
pelos responsveis pela
informao
como o "mestrado deSalazar",
equanto
a Caetanochegava-se
ao limite de alcandorar a"venerando"
figura
ao estatuto de"supremo inspirador"
da RTP... Mais nopretendia
este discurso moralista senolegitimar
atravs dopretenso didactismo a
figura paternal
do"pedagogo",
mimando acompetncia, procurando
criar asimulao
do consenso que emltima instncia
permitiria
"aatribuio
de umpoder
ao enunciador ea
imposio
de um dever ao enunciatrio"]S. Esse era sem dvida odiscurso instrumental do campo autocrtico, da
"autoridade",
umlugar
deprovocao
e desimulao
que marcava adissuaso,
o consenso,
enfim,
o silncio.Repare-se
que noplano
interaccional(Nel,
1990:154)
a argumentao
umapresso
exercida sobre o destinatrio para o convencer(fazer crer)
e o levar aagir
(fazer fazer).
Este,
por assim dizer, oprincpio
deorganizao
de umaestratgia
e de uma "conduta"comunicacional que era articulada com a coerncia do
dispositivo
tecno-discursivo por forma a
gerir
a eficcia do modelono-contradi-trio,
monolgico, cuja
finalidade era,pois, conseguir
atravs desse processo enviezado deseduo
e dedistoro
doreal,
a adeso daopinio pblica
aosdesgnios
da autarcia e do sistemamonopartid-rio. No
fundo,
provocar asubordinao
dasprticas
dojornalismo
sprticas
dapropaganda
e manter asestratgias
demanipulao
como o eixo fundamental da rede reticular do sistemapoltico
e da sua perpetuao,
aolongo
dos consulados de Salazar e Caetano.Atravs de um reduzido sistema de sries e
formaes
discursi vashomogneas,
ancoradas fundamentalmente naproblemtica
ultramarina,
nosinimigos
daptria
e nomonopartidarismo,
era definida uma
lgica
criadora de consensos e dehomogeneizao
dascon-Nol Nel, LeDbal tlvis, Paris, Armand Colin, 1990, p. 192.
dutas. No
todo,
areduo
da diversidadeunidade,
algica
consensual, o carcter
performativo
domedia,
e o contrato de visibilidadeque estabelece o seu
dispositivo
tecnodiscursivo, compem
e integram uma
complexa
rede temtica e discursivavinculante,
queimpe
uma ordem simblica, dissuasora. Dapoder
falar-se naradicao
de um contratoglobal
delegitimao
de ordempoltica
e de umquadro
cultural normativo.
Estratgia
que finalmente se concretiza atravs dospseudo--acontecimentos e da sua
performatividade.
Instala-se assim uma novaordem remitificadora do
mundo,
efeito de real que foiproduto
de umaestrutura e de um
regime,
teve uma intencionalidadepoltica
- foi dado como sendo a "raridade" da matrianoticiosa,
embora no passede um discurso
manifesto,
que apenasreprime
a totalidade de elementos que
poderiam inquietar
acoeso dojogo
depoder.
Sem
dvida,
pois,
que a TV foi()
um dosdispositivos
fundado res da ordem securizante doEstado-providncia
e daperpetuao
da sua classepoltica
em crise derepresentatividade.
Apredominncia
e ainflao
do sistemapoltico
noconjunto
dasprticas,
discursos - ecategorias
- nainformao
televisiva de facto sobretudo um sintomado dfice de
legitimao
do sistemapoltico
querpela
sua macrocefalia,
e inevitvel alheamento do "mundo da vida", querpela
sua poucasensibilidade,
ou mesmopela incapacidade
maisgenrica
deintegrar
aexperincia
social. O que dado a ver nodispositivo
inscreve-se naordem do discurso
protocolar,
dofait-divers
e do meta-acontecimento.De forma recorrente,
repetida,
atravs tambm de um efeito-srie quejoga
como factor denaturalizao,
como iluso naturalista, comosries de actualidade-sintoma onde o
acontecimento-problema
ou ojornalismo investigativo
so mtodos eprticas
no reconhecidas.A histria da
informao
televisiva emPortugal
entre 1957 e1974 modelar nesse aspecto,
sobretudo,
claro,pelo
carcter totalitrio do
regime
e da suamquina
censurante. Masprticas
democrticas, por assim
dizer,
como no caso francs, ao tempo de De Gaulle,por
exemplo,
no alteram substancialmente ospressupostos
em causa.Da que a ordem
securizante,
algica
consensual dodispositivo
televisivo,
seja
em boa parteproduzida
tambmpela
aco
dos lderes carismticos e do "bomdesempenho"
televisivo. Mas uma ordem-e uma viso do mundo - sobretudo fundada sobre
a redundncia e a
excluso,
sobre oesquecimento,
viso da histria colonizadapela
estratgia
discursiva delegitimao
da razo de Estado e doprotago
radica efectivamente na crise do
poltico.
O contrato de visibilidadeque deriva da
instrumentalizao
dodispositivo
televisivopela
ordempoltica impe
assim asopacidades
e osegredo
do social e doacon-tecimento-problema
para deixaremergir
aperformance
dopoltico.
No caso, mais do que numa
govemamentalizao,
a "lei" deste siste maconfigurou-se
noprotagonismo
dashierarquias
e das suasdiscur-sividades, enquanto
estratgia
depropaganda.
Instrumento, portanto, de
comunicao.
A TV cumpre, dealgum
modo,
merc do seudispositivo
de visibilidadeespecfico,
umafuno
precisa
-ftica,
identitria, vinculante.Fragmenta
erecompe
oplano
do real num novo universo simblico.Assim,
noplano signi
ficante do sistema de
comunicao,
ilude airrupo
daespontaneida
de do real atravs de um olhar
pretensamente
transparente-quando
noprotocolar
sobre o acontecimento.Trata-se,
finalmente,
de um"verismo" das
aparncias
e darepresentao
- histrica epoltica
-como
identificao
e no comoquestionamento.
De
facto,
aelaborao
dainformao
audiovisualpotencial
mente desrestica em confronto com a realidade
manifesta,
fechando--se por isso num universo deabstrao
das modalidadespolticas
deenunciao
do realpropriamente
dito.Emerge
assim uma viso compsita
do mundo queproduz
a suaprpria
"ordem domundo",
ou quemima o
real,
seja
atravs de umaconcepo
publicitria
do divertimento,
seja
atravs datransmutao
do real emespectculo, seja
atravs dos efeitos de real dramatizados em
directo,
seja
ainda por umaremitologizao,
transposta,
em ltima instncia, em nova"cultura do
quotidiano".
O
plano
simblicopermanecer
assim como ogarante
dapereni
dade do statu quo
poltico
e da sua conduta. Nesseaspecto
a televisocontribui de forma clara para a
degradao
da virtude civil.Poder-se--ia ainda dizer que o sistema
monolgico
produzido
tambm noquadro
damquina
deorganizao
que ateleviso,
opera exactamente no interior da
funo
estratgica
dodispositivo,
querdizer,
opera por efeitos de
dominao
e deintegrao
social que se organi zam emespectculo
da verdade e delegitimao poltica.
No fundo,organizam
oprprio dispositivo
televisivo por forma aintegrar
defacto,
noplano
tecnodiscusivo einstrumental,
umregime
de visibilidade e um contrato de credibilidade.
finalmente claro que a dimenso
tecnodiscursiva
damquina
jurdico-administrativo
que tinha comoestratgia
fundamental asubordinao
da virtude civil aosimperativos
do sistemapoltico
monopartidrio,
como meio para a suaperpetuao
enquantoregime
epara a sua
auto-celebrao.
Desseponto
devista,
a RTPfoi, assim,
aolongo
desses dezassete anos deinformao
televisiva,
umaparelho
-tcnico e discursivo - e um
instrumento,
determinantepara a
legiti
mao
e alongevidade
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