PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Vitória Rosa Neal Boldrin
A Sustentabilidade nos Relatórios da Administração Caso Itaú Unibanco 2009 a 2013
Mestrado em Ciências Contábeis e Financeiras
São Paulo
VITÓRIA ROSA NEAL BOLDRIN
A Sustentabilidade nos Relatórios da Administração Caso Itaú Unibanco 2009 a 2013
Mestrado em Ciências Contábeis e Financeiras
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Ciências Contábeis e Financeiras sob a orientação do Professor Doutor Antonio Robles Junior.
São Paulo
Banca Examinadora
_______________________________________________
Prof. Dr. Antonio Robles Junior Orientador
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP
_______________________________________________
Prof. Dr. José Roberto Kassai Universidade de São Paulo – USP/FEA
________________________________________________
Prof. Dr. Valério Vitor Bonelli
“Isto sabemos.
Todas as coisas estão ligadas
como o sangue
que une uma família...
Tudo o que acontece com a Terra,
acontece com os filhos e filhas da Terra.
O Homem não tece a teia da vida;
ele é apenas um fio.
Tudo o que faz à teia,
ele faz a si mesmo.”
- Ted Perry (inspirado pelo Chefe Seattle).
DEDICATÓRIA
À minha mãe (in memoriam), entusiasta da felicidade e conquistas de seus filhos.
Tudo que acontecia com seus filhos, acontecia com ela...
AGRADECIMENTOS
Muitos me ajudaram no processo de estudos e conclusão deste trabalho. Agradeço a cada um que se envolveu direta ou indiretamente, com a certeza de que sozinha não teria sido possível e ainda assim, se possível fosse, a celebração não faria sentido.
Agradeço ao Adeildo Paulino, a primeira motivação para o desafio.
Agradeço meu marido e minha filha, pela compreensão e respeito à minha vontade de persistir neste desafio.
Agradeço ao meu pai que, mesmo em um momento tão difícil, entendeu e respeitou meu distanciamento.
Agradeço à minha família, que mesmo privada da minha companhia, continuou me provendo de carinho.
Agradeço à minha querida amiga Raquel, por fazer tudo parecer simples.
Agradeço às amigas que me deram ânimo para seguir em frente – Arlete, Regina Casagrandi, Maria Lúcia e Iaara.
Agradeço à Yeda, pelas animadas discussões sobre conceitos contábeis.
Agradeço meu orientador, professor Dr. Antonio Robles Junior, pelas orientações e por entender meus momentos de dificuldades.
Agradeço ao professor Dr. Roberto Fernandes dos Santos, pela compreensão e por sempre ajudar a encontrar uma alternativa.
RESUMO
Esse estudo objetivou analisar os relatórios de sustentabilidade do Itaú Unibanco no período de 2009 a 2013 e se as informações contidas nesses relatórios são suficientes para assegurar a relevância do tema sustentabilidade na empresa e se o relato integrado, primeiro a ser divulgado pela empresa, manteve conformidade com a Estrutura proposta pelo IIRC – International Integrated Reporting Council. Os dados analisados e utilizados nesse estudo foram extraídos de vasta pesquisa bibliográfica sobre o tema e do site oficial da empresa objeto dessa pesquisa. Observou-se que as informações dos relatórios de 2009 a 2013 asseguram a relevância do tema na empresa e que o primeiro relato integrado do Itaú Unibanco está em conformidade com a Estrutura.
ABSTRACT
The present study aimed to analyze the sustainability reports of Itaú Unibanco for the period of 2009 to 2013 and whether the reported information was sufficient to assure the relevance of the subject sustainability in the company. It also aimed to analyze whether the integrated reporting, the first one to be published by the company, was in comformity with the Framework proposed by IIRC – International Integrated Reporting Council. Data analyzed and used for this study were drawn from extensive litterature research on the topic and from the official website of the company object of this research. It was observed that the information from the 2009 to 2013 reports assured the relevance of the subject in the company object of this research and the comformity between the Itaú Unibanco and the Framework was confirmed.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1: Modelo Stakeholder...23
Figura 2: Processo de geração de valor...51
Figura 3: Estrutura acionária do Grupo Itaú Unibanco ...72
Figura 4: Itaú Unibanco- Modelo de negócios...93
Figura 5: Entenda como funciona um banco...94
LISTA DE QUADROS
Quadro 1: Distribuição de empresas participantes no Programa Piloto, por país de origem...47 Quadro 2: Distribuição de investidores participantes no Programa Piloto, por
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
A4S Accounting for Sustainability Project
ADCE Associação dos Dirigentes Cristãos de Empresas
Anbima Associação Brasileira das Entidades de Mercado
Financeiro e de Capitais
API Análise do Perfil do Investidor
BACEN / BCB Banco Central do Brasil
BM&FBovespa Bolsa de Valores, Mercadorias e Futuros
BNDES Banco Nacional de Desenvolvimento
Bovespa Bolsa de Valores de São Paulo
CERES Coalition for Environmentaly Responsible Economies
CMN Conselho Monetário Nacional
CNSP Conselho Nacional de Seguros Privados
CO2 Dióxido de Carbono
CPC Comitê de Pronunciamentos Contábeis
CSR Corporate Social Responsibility
CVM Comissão de Valores Mobiliários
DDA Débito Direto Autorizado
DJSI Dow Jones Sustainability Index (Índice Dow Jones de Sustentabilidade)
DVA Demonstração do Valor Agregado
EP Equador Principles (Princípios do Equador)
ESG Environmental, Social and Corporate Governance
FEA/USP Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo
FEBRABAN Federação Brasileira de Bancos
FSC Forest Stewardship Council
GEE Gases Efeito Estufa
GRI Global Reporting Initiative
IBASE Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas . IBGC Instituto Brasileiro de Governança Corporativa
IBGE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IBOVESPA Índice Bovespa
ICO2 Índice Carbono Eficiente
IFRS International Financial Reporting Standards (Normas Internacionais de Contabilidade)
IIRC International Integrated Reporting Council (Conselho Internacional de Relato Integrado)
IR Integrated Reporting (Relato Integrado)
ISE Índice de Sustentabilidade Empresarial
LIBRAS Linguagem Brasileira de Sinais
ONU Organização das Nações Unidas
Oscip Organização da Sociedade Civil de Interesse Público
PAB Posto de Atendimento Bancário
PIB Produto Interno Bruto
PR Patrimônio de Referência
PRE Patrimônio de Referência Exigido
PRI Princípios para o Investimento Responsável
PSI Princípios para Sustentabilidade em Seguros
RSE Responsabilidade Social Empresarial
SFN Sistema Financeiro Nacional
SUSEP Superintendência de Seguros Privados
TBL Triple Bottom Line
Unep – FI United Nations Environment Programme Finance Initiative UNEP / PNUMA United Nations Environment Program / Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente
SEC Securities and Exchange Commission
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 14
OBJETIVO DA PESQUISA ... 18
1. FUNDAMENTAÇÃO ... 20
1.1. Responsabilidade Social ... 20
1.2. Sustentabilidade e Desenvolvimento Sustentável. ... 26
1.3. Os Relatos Corporativos e a Sustentabilidade. ... 34
1.4. Balanço Social ... 35
1.5. Relatório de Sustentabilidade ... 37
1.6. GRI – Global Reporting Iniciative ... 39
1.7. IIRC e Relato Integrado ... 44
1.8. O Setor Financeiro e a Sustentabilidade. ... 55
2. PESQUISA ... 69
2.1. Método da Pesquisa ... 69
3. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ... 71
3.1. O Itaú Unibanco ... 71
3.2. Relatórios Itaú Unibanco de Sustentabilidade - Análise de Conteúdo. ... 77
3.3. Análise Comparativa e de Conformidade do Relato Integrado Itaú Unibanco com a versão 1.0 da Estrutura de Relato Integrado ... 88
3.4. Contribuições e Sugestões para que as Empresas possam Implementar o Relato Integrado ... 106
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 108
INTRODUÇÃO
Sustentabilidade é um tema que, nas últimas cinco décadas, tem despertado o interesse crescente de pesquisadores, empresários, governantes e da sociedade em geral.
O foco da questão sobre a sustentabilidade está na esperança de que a humanidade não seja condenada à extinção, se souber cuidar da biocapacidade dos ecossistemas dos quais depende. (VEIGA, 2010 p. 36).
Até o final dos anos 70, o termo ‘sustentável’ era usado em algumas comunidades científicas, em alusão à manutenção de alguns ecossistemas, mesmo sofrendo agressão humana recorrente. (VEIGA, 2010 p. 11).
Atualmente, o conceito de sustentabilidade tem sido associado a uma ampla gama de atividades relacionadas ao uso de recursos, incluindo os naturais, humanos e financeiros, implicando em continuidade e habilidade de prosseguir com essas atividades indefinidamente. (TODOROV; MARINOVA, 2010 p. 1).
Neste contexto, falar em sustentabilidade é falar na perenidade da vida das pessoas e dos negócios. Muitas iniciativas foram lançadas para estudar as questões de sustentabilidade e para sensibilizar empresas e a população em geral sobre os riscos envolvidos.
O movimento em torno da ideia de sustentabilidade foi inicialmente articulado por ambientalistas, pela preocupação com a degradação de recursos naturais, mas a interdependência entre questões ambientais, sociais e econômicas ampliaram a agenda da sustentabilidade. A degradação ambiental se apresenta como um empecilho para o desenvolvimento econômico e para a qualidade de vida; esta, por sua vez, especialmente quanto à saúde, educação e segurança, também se mostra prejudicial ao sistema econômico e à qualidade ambiental. (DUARTE, 2013 p.41).
pessoas, representantes de 113 países e de 400 entidades não governamentais. A segunda Conferência ocorreu no Rio de Janeiro, em 1992 e reuniu em torno de 22 mil pessoas nos eventos oficiais. A terceira Conferência, a RIO+20, foi realizada em 2012, também no Rio de Janeiro e reuniu 110 mil pessoas nos eventos oficiais e mais de um milhão de pessoas nos eventos paralelos. No início, essas reuniões eram restritas a grupos ambientalistas e depois tornaram-se foco de discussões de políticas públicas e de empresas. (CARVALHO; KASSAI, 2013).
A participação das empresas neste processo de transformação é imperativa. Elkington (2012), um dos precursores da disseminação da ideia de associar os impactos econômico, social e ambiental (três pilares) ao lucro das empresas (Triple Bottom Line), alerta que recusar o desafio imposto pelos três pilares é correr o risco de extinção. E não se refere apenas a grandes corporações, considerando que estas serão forçadas a repassar a pressão, por meio da cadeia de fornecimento, para seus grandes e pequenos fornecedores e prestadores de serviços. Estas mudanças vêm de uma profunda reformulação das expectativas da sociedade e, por consequência, daqueles que servem aos mercados local e global.
Algumas mudanças culturais deverão ocorrer nesta transição para o caminho da sustentabilidade e dentre elas, a revolução da transparência. Este processo, que está sendo impulsionado pela aproximação de novos sistemas de valor e de tecnologia da informação, implica em maior demanda dos
stakeholders por informações sobre a situação dos negócios e sobre o que
Segundo Favaretto (2014), 37% das empresas brasileiras listadas na BM&FBovespa1 produzem relatórios de sustentabilidade. Considerando empresas que, embora não elaborem documentos específicos sobre o tema, mas reportam ações ambientais, sociais e de governança (ESG), resulta numa participação de 44,6%. Segundo a Bolsa, três empresas brasileiras – Itaú Unibanco, Fíbria e Natura – tomaram a iniciativa de publicar o relato integrado, ou seja, “um único balanço que combine as informações financeiras e não financeiras”. A partir desta atualização de relatórios, a BM&FBovespa passará a usar a sigla EESG (Economic, Environmental, Social and Governance).
Neste cenário, onde mais de 50% das empresas abertas ainda não relatam suas ações (ou suas não ações) visando ao desenvolvimento sustentável, evidencia-se que ainda há necessidade de grande esforço para se consolidar a cultura da sustentabilidade no Brasil.
As instituições financeiras exercem um papel catalisador neste processo, considerando-se que podem contribuir na mitigação de riscos ambientais e sociais quando analisam responsavelmente as concessões de créditos ou o direcionamento de investimentos.
Por outro lado, muitas instituições e organizações, nacionais e internacionais, estão empenhadas com responsabilidade no objetivo de disseminar o assunto sustentabilidade como parte integrante e natural da estratégia das organizações e da sociedade como um todo.
Um debate recente evidenciou a necessidade de se integrar o pensamento sustentável à estratégia das empresas. Elegeu-se como caminho adequado a integração entre os relatórios contábeis e de sustentabilidade, ou seja, o caminho do relato integrado. Esta iniciativa teve como patrono o Príncipe de Gales.
A importância da integração entre relatórios contábeis e de sustentabilidade foi tema da Conferência das Nações Unidas para o
1 Dados da pesquisa atualizados até 31 de maio. Total de 437 empresas listadas na BM&FBovespa.
Desenvolvimento Sustentável, a Rio + 20, em junho de 2012. (CARVALHO; KASSAI, 2013).
O IIRC - International Integrated Reporting Council - conselho composto por membros de diversos países e com precedentes de engajamento em ações de sustentabilidade e governança, lançou em 2013 a primeira Estrutura de Relato Integrado, que deve ser a pedra fundamental para a transformação da mudança de paradigmas na gestão de sustentabilidade nas empresas.
OBJETIVO DA PESQUISA
Tradicionalmente, os bancos atuam como agentes intermediadores de recursos, na função de transformar recursos financeiros em produtos para os clientes.
Antes de a agenda da sustentabilidade entrar no mundo corporativo, a boa gestão bancária preconizava administração dos riscos de crédito e de mercado; os resultados econômicos eram os únicos parâmetros de decisão.
Os bancos estão lentamente mudando a forma de avaliar seus negócios e de se relacionar com a sociedade; o sucesso empresarial passa também a ser associado à legitimidade do negócio, que não mais se resume à conformidade com a legislação, mas depende de como os bancos se relacionam com outras esferas da sociedade. A reputação é cada vez mais um ativo a ser valorizado e preservado para que garantam a estabilidade de seus negócios e capacidade de influenciar no desenvolvimento das regras de funcionamento dos mercados. (MAGALHÃES, 2010, p. 15).
Todas as crises financeiras foram em parte provocadas por falhas de informação. A transparência no mercado financeiro assume grande importância neste contexto e para Magalhães (2010 p. 29), a transparência das operações financeiras se refere à possibilidade de mapear as conexões pelas quais fluem os recursos financeiros e, mais recentemente, seus impactos sobre a natureza e a qualidade de vida das pessoas.
As informações devem ser disponibilizadas de maneira a possibilitar ao usuário uma avaliação sobre como o tema é tratado pela organização.
As questões problema então consideradas nesta pesquisa são:
O tema sustentabilidade é tratado de forma relevante pelo conglomerado Itaú Unibanco?
O conteúdo dos relatórios do Itaú Unibanco apresentou evolução qualitativa?
É possível perceber por meio dos relatórios um avanço da organização no tratamento de temas como governança, e nas dimensões econômica social e ambiental?
O Relato Integrado, primeiro publicado pela organização, está em conformidade com a versão 1.0 da Estrutura do Relato Integrado do IIRC - International Integrated Reporting Council?
O período de abrangência da pesquisa foram os exercícios de 2009 (ano da consolidação efetiva dos bancos Itaú e Unibanco) a 2013.
1. FUNDAMENTAÇÃO
Este capítulo apresenta conceitos identificados na literatura, e que são importantes para o entendimento do tema focal desta pesquisa. À análise da relevância do tema sustentabilidade nos relatórios do Itaú Unibanco, deve preceder a fundamentação sobre responsabilidade social, sustentabilidade e desenvolvimento sustentável erelatos corporativos de sustentabilidade.
1.1. Responsabilidade Social
A Hierarquia das Necessidades, do psicólogo humanista Abraham Maslow, declara que a auto-realização é um estado buscado por todos os seres humanos, depois que tenhamos satisfeito as necessidades mais básicas de sobrevivência, de gratificação e da socialização.
Parece bastante razoável afirmar que, conforme evoluímos e nos tornamos seres mais conscientes, torna-se necessário que as nossas empresas façam o mesmo. Conforme as pessoas prosseguem no caminho da auto-realização, as várias iniciativas, as instituições e as empresas em que os seres humanos se reúnem para produzir resultados deverão mudar drasticamente para não perecer. (RENESH, 2008, p. 114).
No Brasil de 1960, o censo do IBGE retratava uma população com um índice de analfabetismo de 39,6%; apenas 13,1% dos domicílios particulares possuíam rede de esgoto e 10,7% possuíam fossa séptica. Passados 50 anos, no censo de 2010, o índice de analfabetismo caiu, mas ainda num patamar de 9,6%; 55,5% dos domicílios eram contemplados com redes de esgoto e 11,6% com fossa séptica, indicando que mais de 40 milhões de brasileiros ainda não teriam acesso ao saneamento básico. Transcorreu meio século com muitas mudanças, mas ainda evidencia-se a desigualdade que permeia a sociedade e a dificuldade do Estado em atender às demandas sociais.
Como grandes centros de poder econômico e político, as empresas interferem diretamente na dinâmica social. Assim, ao assumir causas sociais, estariam devolvendo à sociedade parte dos recursos humanos, naturais, financeiros que consumiram para a alavancagem do lucro de sua atividade.
Outros autores também focam a responsabilidade social como uma resposta às falhas do Estado, dentre eles:
Freitas (2000, p. 10 apud FREGONESI, 2009 p.21), para quem a sociedade presencia um “movimento de revalorização do papel das empresas” [...]. As organizações modernas encontram espaço para se posicionar como referencial que propõe uma “forma de vida de sucesso e uma missão nobre a realizar”:
[...] O Estado - falido e desacreditado - deve se restringir a oferecer as condições necessárias de infra-estrutura e deixar que as empresas se ocupem do que garante o emprego, a competitividade dos mercados e a potência da nação neste mundo globalizado. Investidas como o novo polo da legitimação social e como o lugar que pode responder pelo esfacelamento dos vínculos sociais e pelas questões identitárias, as organizações modernas – com ênfase nas grandes empresas – constroem para e de si uma auto-imagem grandiosa, que vai enraizar-se num imaginário próprio, que é repassado não apenas para os seus membros internos mas também para a sociedade no seu conjunto.
Passador e Ferraz (2007 p. 9, apud FREGONESI, 2009 p. 21), que defendem a descentralização do Estado e colocam a necessidade de inovar as políticas públicas de melhoria social, promovendo o desenvolvimento local com participação da comunidade – sociedade civil e mercado:
As políticas, principalmente da última década, de liberalizar, privatizar, flexibilizar as relações de trabalho e diminuir cada vez mais a presença do Estado na sociedade acabaram por impor uma revisão urgente da teoria e da prática do desenvolvimento econômico. [...] Nesta linha, passa-se a pensar na idéia de desenvolvimento local, ou seja, na regionalização das políticas sociais sendo que, a função do Estado não é mais a de resolver os problemas da população, mas estimular e incentivar as comunidades a se mobilizarem para que elas desenvolvam suas potencialidades e vocações e a partir daí, resolvam os seus problemas.
promover um discurso politicamente correto, pautado na ética, implementando ações sociais que pudessem significar ganhos em condições de qualidade de vida e trabalho para a classe trabalhadora ou, simplesmente, pudessem se tornar um mero discurso de marketing empresarial desvinculado de uma prática socialmente responsável.
O investimento na área social tornou-se então estratégico para as empresas, que ao serem reconhecidas como socialmente responsáveis, tendem a ter sua imagem valorizada, podem aumentar a motivação de seus funcionários, com consequentes ganhos de produtividade, bem como melhorar a percepção do consumidor em relação aos seus produtos. (RICO, 2004 p.75).
Rico (2004 p.73) aborda que na compreensão dos institutos, fundações, associações empresariais que vêm buscando assumir uma gestão socialmente responsável nos negócios, a responsabilidade social empresarial é uma forma de conduzir as ações organizacionais pautada em valores éticos, integrando todos os protagonistas de suas relações, promovendo a igualdade de oportunidades e a inclusão social no país. As empresas, adotando um comportamento socialmente responsável, são poderosos agentes de mudança ao assumirem parcerias com o Estado e a sociedade civil, na construção de um mundo economicamente mais próspero e socialmente mais justo.
A definição de responsabilidade social da empresa (RSE) não é objetiva, e muito se tem discorrido sobre suas abordagens na academia.
Marrewijik (2003, apud CINTRA, 2011 p.22), propõe uma separação em três abordagens, cada uma incluindo e transcendendo as anteriores, com o foco em para quem é voltada a responsabilidade da organização: 1) abordagem do shareholder; 2) abordagem do stakeholder; 3) abordagem da sociedade.
empresa é para com seus acionistas (shareholders), agindo no interesse deles na busca de lucros crescentes, embora respeitando as regras básicas da sociedade, contidas na lei, na ética e nos bons costumes.
Na abordagem dos stakeholders, a organização precisa balancear os múltiplos interesses de qualquer indivíduo ou grupo que pode afetar ou ser afetado pela consecução dos objetivos da empresa (FREEMAN, 1984). Nesta abordagem, toda a cadeia de relações da empresa deve ser considerada além de seus próprios acionistas. Embora os acionistas sejam apontados como possuindo interesses específicos e, por vezes, conflitantes aos dos demais
stakeholders, é consenso que a atenção aos diversos componente da cadeia e
a outros atores acrescentados à rede de partes interessadas, é necessária ao sucesso do negócio. (CINTRA, 2011 p. 24).
Donaldson e Preston (1995 p. 68, 69) ilustram na Figura 1 o modelo
stakeholder como uma relação bilateral entre pessoas ou grupos com interesse
legítimo envolvidas no negócio e que buscam obter benefícios, sem que haja prioridade de uns sobre os outros.
Figura 1 Modelo Stakeholder
Fonte: DONALDON; PRESTON, 1995 p. 69
Na terceira abordagem, a da sociedade, as empresas são responsáveis pela sociedade como um todo e operam por consenso público para servir construtivamente às necessidades da sociedade. Marrewijik (2003,
Empresa
aaa Associações
Comerciais
Grupos Políticos Governo
Investidores
Empregados
Fornecedores Clientes
apud CINTRA, 2011 p.27). Esta abordagem é marginal, pois o paradigma econômico ainda prepondera e direciona o sentido da sociedade (CINTRA, 2011 p. 28).
Segundo Garriga e Melé (2004 p.65), a maioria das teorias de RSE é focada em quatro aspectos principais: (1) encontrar objetivos que produzam lucro no longo prazo, (2) usando o poder do negócio de um modo responsável, (3), integrando demandas sociais e (4) contribuindo para uma boa sociedade através de ações eticamente corretas. (tradução livre2).
Para o Instituto Ethos3, Responsabilidade Social Empresarial é a forma de gestão que se define pelo compromisso público de implementação de processos produtivos, comerciais e gerenciais baseados em relações éticas, transparentes e solidárias da empresa com todos os públicos afetados pelas suas atividades e pelo estabelecimento de metas empresariais compatíveis com a sustentabilidade da sociedade, preservando recursos ambientais e culturais para gerações futuras, respeitando a diversidade e promovendo a igualdade. (INSTITUTO ETHOS, 2000). Em termos práticos, implementar a RSE é cuidar da qualidade dos relacionamentos da empresa com os seus diversos públicos e dos impactos econômicos, sociais, ambientais e culturais de suas atividades.
[...] é preciso entender o conceito de responsabilidade social como o compromisso de cada um com a qualidade de vida, com a preservação da natureza e com uma sociedade mais justa. E conclui que não se pode esperar das empresas soluções mágicas para resolver os graves problemas sociais da humanidade, mas reconhece a relevância do papel das empresas em ações de transformação, por serem estas, talvez, as principais responsáveis pelo funcionamento de toda a cadeia de relacionamentos de uma sociedade. (Grajew, 2000, apud LIMA, 2005 p. 42).
2
Most of current CSR theories are focused on four main aspects: (1) meeting objectives that produce long-term profits, (2) using
business Power in a responsible way, (3) integrating social demands and (4) contributing to a good society by doing what is
ethically correct. (GARRIGA; MELÉ, 2004 p. 65). 3
No Brasil, foi lançada em 2004 uma norma certificável de sistema de gestão e responsabilidade social – ABNT NBR 16001. Esta norma foi atualizada em julho de 2012, baseada na diretriz internacional ISO 26000, primeira norma internacional sobre responsabilidade social, publicada em novembro de 2010, e não certificável.
A ABNT (2012) define responsabilidade social como a responsabilidade de uma organização pelos impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente, por meio de um comportamento ético e transparente que: contribua para o desenvolvimento sustentável, inclusive a saúde e o bem estar da sociedade; leve em consideração as expectativas das partes interessadas; esteja em conformidade com a legislação aplicável e seja consistente com as normas internacionais de comportamento; e esteja integrada em toda a organização e seja praticada em suas relações.
Com o pressuposto da transparência, as ações de Responsabilidade Social Empresarial demandam divulgação e prestação de contas, tornando conhecidas informações relevantes para com os envolvidos na cadeia de stakeholders. Este é o significado atribuído a accountability, que não tem um termo correspondente na língua portuguesa, sendo de maneira simplificada, considerado como ‘a obrigação de prestar contas’ e segundo Sinclair (1995, apud CINTRA, 2011 p. 29), envolve um relacionamento no qual se requer das pessoas se explicarem e se responsabilizarem por suas ações.
Esta nomenclatura será também adotada nesta pesquisa; nos itens 1.4 e 1.5 deste capítulo serão tratados conceitos de Balanço Social e de Relatório de Sustentabilidade, esclarecendo a diferenciação.
1.2. Sustentabilidade e Desenvolvimento Sustentável.
O adjetivo sustentável se aplicava, originalmente, à ecologia. Até final dos anos 1970, era usado por algumas comunidades científicas para designar a condição de um ecossistema não perder sua resiliência4, ou seja, sua capacidade de absorver tensões ambientais sem alterar seu estado ecológico. (VEIGA, 2011 p.11).
Segundo Veiga (2010 p. 190), há indícios de que a expressão ‘desenvolvimento sustentável’ tenha tido empregada fora do contexto científico pela primeira vez em agosto de 1979, no Simpósio das Nações Unidas sobre as Interrelações entre Recurso, Ambiente e Desenvolvimento, realizado em Estocolmo, no texto apresentado por W. Burger: ‘A busca dos padrões sustentáveis de desenvolvimento’. A ideia começou realmente a se firmar a partir de 1987, quando ao apresentar do relatório ‘Nosso futuro comum’ à Assembleia Geral da ONU, Gro Harlem Brundtland, presidente da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, caracterizou desenvolvimento sustentável como um “conceito político”, um “conceito amplo para o progresso econômico e social”.
Em 1983, a ONU cria a Comissão Mundial sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento como um organismo independente5. Em 1987, a comissão sob a presidência de Gro Harlem Brundtland, primeira-ministra da Noruega, materializa um dos documentos mais importantes do nosso tempo – o relatório Nosso Futuro Comum, responsável pelas primeiras conceituações oficiais, formais e sistematizadas sobre o desenvolvimento sustentável – ideia-mestra
do relatório.” (TINOCO; KRAEMER, 2011 p.114).
4
“Conceito oriundo da física: propriedade de alguns materiais de, quando exigidos ou submetidos a estresse, acumular energia em que ocorra ruptura. Atualmente o termo também é muito utilizado para caracterizar pessoas que são capazes de lidar com problemas sob pressão ou estresse.” (VEIGA, 2011 p.
11).
5 A comissão foi criada em 1983, após uma avaliação dos 10 anos da Conferência da ONU sobre o meio
O relatório ‘Nosso Futuro Comum’, também conhecido como ‘Relatório Brundtland’, definiu desenvolvimento sustentável como “[...] aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às suas próprias necessidades.” (Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, 1991 p.46).
Elkington (2012) considera ‘Nosso futuro comum’ como um dos livros mais importantes do final do século 20, colocando o desenvolvimento sustentável firmemente na agenda política internacional. Os objetivos principais observados pela comissão Brundtland incluíam:
[...] reativar o crescimento econômico, mas em uma nova forma
(“menos material e mais energia, porém, mais equitativo em seus
impactos”); atendimento das necessidades vitais de empregos, alimentos, energia, água e saneamento; garantia de um nível sustentável de população; conservação e aumento da base de recursos naturais; reorientação tecnológica e do gerenciamento de risco; e fusão das considerações ecológicas e econômicas nas tomadas de decisão). (ELKINGTON 2012 p. 92).
Segundo Veiga (2010 p.114,189), a expressão desenvolvimento sustentável acabou se legitimando para negar a incompatibilidade entre crescimento contínuo e a conservação do meio ambiente. Reforça a possibilidade de conciliação desses dois objetivos, isto é, crescer sem destruir. Atenuou o temor gerado pela polarização “crescimento econômico” versus “preservação ambiental”.
A definição de desenvolvimento sustentável do Relatório Brundtland, uma das mais difundidas e aceitas, encontra alguns críticos.
Veiga (2010) cita Amartya Sen6 prêmio Nobel de Economia em 1998, que questiona se o conceito proposto é suficientemente abrangente, considerando-se que além das cruciais “necessidades” enfatizadas no documento, as pessoas têm valores, como a capacidade de pensar, avaliar, agir, participar. Avaliar as gerações atuais e futuras apenas em termos de necessidades é fazer uma ideia muito insuficiente da humanidade. VEIGA (2010 p. 166).
Para Steinbuka e Wolff (2007, apud Fragalli, 2014 p. 26) a definição ‘necessidades do presente sem comprometer necessidades de gerações futuras’ é uma noção notoriamente difícil de ser transformada em ação operacional.
Romeiro (2013) aponta a imprecisão desta definição, pela falta de conceituação de ‘necessidades’, e de para quantas gerações se pretende garantir estas necessidades. Considerando ainda que o estoque de átomos é finito e os recursos são finitos, levanta algumas indagações. Como a definição diferenciaria necessidades de desejos? Atualmente, 75% da energia do Planeta é consumida por menos de 50% da população; qual seria então o padrão de medida para as ‘necessidades’?
Elkington (2012 p. 92) cita a definição de Herman Daly7, economista do Banco Mundial, como alternativa aos que buscam uma definição mais precisa. “Uma sociedade sustentável precisa atender a três condições: suas taxas de utilização de recursos renováveis não devem exceder suas taxas de regeneração; suas taxas de uso de recursos não renováveis não devem exceder a taxa pela qual a renovação sustentável dos substitutos é desenvolvida; suas taxas de emissão de poluentes não devem exceder a capacidade de assimilação do meio ambiente.
6SEN, Amartya. “Por que é necessário preservar a coruja-pintada”.
Folha de S. Paulo. 14 mar.2004, caderno Mais! p. 16-18
Segundo Barbieri e Cajazeira (2012, p. 65 - 69), o movimento do desenvolvimento sustentável baseia-se na percepção de que a capacidade da Terra não poderá ser ultrapassada sem que ocorram grandes catástrofes sociais e ambientais, e que problemas ambientais gravíssimos como o aquecimento global, destruição da camada de ozônio, poluição de rios e oceanos, extinção acelerada de espécies vivas, já sinalizam que limites aceitáveis foram ultrapassados. Acrescentam ainda os problemas sociais, como a pobreza, assentamentos urbanos desprovidos de infraestruturas mínimas, violência urbana, tráfico de drogas, epidemias globalizadas. A solução para estes problemas globais só pode ser viabilizada com a participação de todas as nações, governos e sociedade civil, cada uma na sua abrangência, e que as empresas cumprem papel central neste processo de recuperação e condução para o desenvolvimento sustentável, pois muitos problemas socioambientais foram produzidos e estimulados pelas suas atividades.
Os debates sobre sustentabilidade se iniciaram na vertente ambiental, numa tentativa de harmonizar o pilar financeiro com o pensamento emergente do pilar ambiental e evoluíram para o terceiro elemento, da justiça social. Sustentabilidade transcende o simples desafio de “esverdeamento”, tornando os negócios mais eficientes e reduzindo custos. Questões e igualdade social e o conceito de igualdade entre as gerações já estavam na agenda de sustentabilidade do Relatório Brundtland. (ELKINGTON, 2012 p.108).
No âmbito das organizações em geral, a contribuição para o desenvolvimento sustentável consiste em três dimensões: a econômica, a social e a ambiental. Barbieri e Cajazeira (2012 p. 67) chamam atenção para o fato de que estas três dimensões concentram o que é mais específico da atuação das organizações, mas não implica em perda ou abandono de outras possíveis dimensões.
sustentabilidade. ‘Bottom line’ faz alusão ao resultado líquido da demonstração de resultado do exercício. Adotou o termo em 1997, no livro de sua autoria
‘Cannibals With Forks: The Triple Bottom Line of 21st Century Business’, onde
ressalta que uma gestão empresarial que se pretendesse sustentável deveria considerar, obrigatoriamente, de forma integrada, as dimensões sociais, econômicas e ambientais do negócio. TBL passou a ser amplamente usado como referência para sustentabilidade.
Segundo Savitz (2007), o Triple Bottom Line é uma maneira muito eficaz de captar a conexão de sustentabilidade e lucratividade, ou seja, de como as empresas podem tornar-se mais lucrativas, agindo de forma adequada. A partir desta observação, é possível então se pensar na sustentabilidade como oportunidades de negócios.
O título do livro foi inspirado por uma citação do poeta polonês Stanislaw Lec, que certa feita indagou se seria considerado progresso um canibal usar garfo. Elkington teria estendido a analogia para o capitalismo corporativo, que também chamou de canibalismo corporativo (no sentido de que em economias capitalistas crescentes, é natural que corporações devorem as concorrentes). E respondeu com um “sim”; isto é, mudanças em ferramentas e atitudes fariam o capitalismo mais ‘civilizado’, ou melhor, um capitalismo sustentável. O garfo representa os três pilares da sustentabilidade: prosperidade econômica, qualidade ambiental e justiça social. (ELKINGTON, 2012 p.25).
Elkington (2012) pondera que um conceito chave em relação às três dimensões da sustentabilidade é o da externalidade, especialmente relevante em relação aos custos ambientais e sociais. São os custos não registrados na contabilidade. Barbieri e Cajazeira (2012 p. 73) definem externalidade como “um fenômeno externo ao mercado e que não afeta o seu funcionamento”. As externalidades ocorrem quando a empresa provoca impactos em pessoas não envolvidas em suas transações.
Elkington (2012 p. 114) cita como um exemplo de externalidade na linha do pilar econômico, a decisão de uma empresa em localizar uma fábrica de alta tecnologia em uma região relativamente não desenvolvida, com impacto pelo deslocamento de pessoal qualificado, e/ou impacto de preços na comunidade local.
A dimensão social da sustentabilidade refere-se à possibilidade de cada indivíduo e também da coletividade ter suas necessidades referentes à alimentação, saúde, educação e de cidadania atendidos. SCANDELARI (2011 p.90).
Em termos sociais, a empresa deve satisfazer aos requisitos de proporcionar as melhores condições de trabalho aos seus empregados, procurando contemplar a diversidade cultural existente na sociedade em que atua, além de propiciar oportunidade aos deficientes de modo geral. Além disso, seus dirigentes devem participar ativamente das atividades socioculturais de expressão da comunidade que vive no entorno da unidade produtiva. Dias, (2006, p. 40 apud SCANDELARI, 2011 p. 90).
A linha do pilar social está centrada na confiança dos stakeholders, no enriquecimento das relações humanas. O capital social envolve o capital humano na forma de saúde, habilidades e educação do pessoal interno; deve abranger também medidas mais amplas de saúde da sociedade e do potencial de criação de riqueza. (BARBIERI; CAJAZEIRA, 2012 p. 74).
A linha do pilar ambiental envolve os recursos naturais e se aplica a bens e a serviços ambientais. Os bens referem-se às fontes de matérias primas e em geral são classificados como renováveis ou não renováveis. No entanto, uma fonte pode deixar de ser renovável, caso sua taxa de exploração supere sua taxa de renovação. Esta classificação, portanto, não é absoluta. Os serviços ambientais envolvem bens intangíveis proporcionados pela natureza, como a polinização, a circulação do ar, e outros, que mantém a vitalidade dos ecossistemas. (BARBIERI; CAJAZEIRA, 2012 p. 73).
Sustentabilidade ambiental é um processo decorrente da conservação, proteção e redução do consumo de recursos naturais (água, solo, energia, dentre outros) e do manejo adequado de resíduos, efluentes e substâncias tóxicas, de forma a minimizar o seu impacto sobre a terra. (SCANDELARI,
2011 p. 93).
O modelo TBL pressupõe que uma empresa sustentável oriente suas atividades e gestão baseada no tripé econômico social e ambiental e busque alcançar seus objetivos atendendo, simultaneamente os critérios de equidade social, prudência ecológica e eficiência econômica.
Para Savitz (2007, p.5, 42), a gestão da empresa deve gerar valor nestas três dimensões e abrange a redução de custos, melhoria da produtividade, eliminação de desperdícios desnecessários e garantia de acesso a fontes de capital a custos mais baixos. Ele considera a ecoeficiência componente básico da sustentabilidade, e a define como a redução de quantidade de recursos utilizados para produção de bens e serviços, aumentando o lucro da empresa e ao mesmo tempo reduzindo o impacto ambiental; e chama atenção para o fato de que poluição gera desperdício.
Um desafio que se evidencia neste contexto, além de boas práticas de gestão financeira e econômica, é o enfrentamento de limitações e problemas ambientais e sociais, de modo a garantir a continuidade com resultados consistentes.
Barbieri e Cajazeira (2012 p. 73) apontam que há divergências a respeito de como considerar a sustentabilidade dos recursos naturais. Numa linha, considerada ‘sustentabilidade fraca’, o capital natural não difere das demais formas de capital, o econômico e o social, sendo considerados perfeitamente substituíveis entre si e o importante é a manutenção e ampliação do montante total de capital, independente de quais sejam seus componentes; na outra linha, considerada ‘sustentabilidade forte’, as formas de capital são complementares, e uma não pode substituir a outra.
Na linha batizada de sustentabilidade fraca, Solow (1993, apud VEIGA 2010, p.122, 23), considera que a natureza jamais constituirá sério obstáculo à expansão. O progresso científico tecnológico sempre conseguirá alternativa a qualquer elemento da biosfera que se torne limitante ao processo produtivo, reequilibrando seus três ingredientes fundamentais: trabalho humano, capital produzido e recursos naturais. Apesar deste otimismo tecnológico, defende que a humanidade precisa evitar tudo o que possa ocorrer em detrimento de seus descendentes, sejam eles os diretos ou os mais distantes, o que significa, em seu ponto de vista, a preservação da capacidade produtiva para um futuro indefinido, pela ilimitada substituição dos recursos não renováveis.
Hawken, Lovins e Lovins (2009, p.55), atribuem ao desperdício, devido à natureza perdulária dos processos industriais atuais, a deterioração do meio ambiente natural, além da dissolução de sociedades civis e da falta da vontade pública necessária para promover o bem estar. O uso excessivo de recursos para tornar pouquíssima gente mais produtiva é uma fórmula industrial cada vez mais cara e já não serve para o presente e nem para o futuro.
que não configuram nas demonstrações financeiras das empresas, têm sido incorporadas aos seus controles gerenciais e divulgadas por iniciativas voluntárias e de responsabilidade social.
A perda dos serviços do capital natural já está impondo altos custos ao crescimento do capital econômico. A economia não vai funcionar como um guia confiável enquanto o capital natural não figurar nas folhas de balanços das empresas, dos países e do mundo. (HAWKEN; LOVINS e LOVINS, 2009, p. 57).
1.3. Os Relatos Corporativos e a Sustentabilidade.
O movimento que impulsiona empresas a ações de responsabilidade social e sustentabilidade também se reflete nos relatórios corporativos.
Até aproximadamente os anos 80, os relatórios corporativos continham substancialmente informações financeiras e retratavam basicamente os bens tangíveis. A partir dos anos 80, com o advento da “era da informação”, maior atenção passou a ser dada aos intangíveis e as empresas começaram a incursionar pelo tema da sustentabilidade e a divulgar, além de seus relatórios contábil-financeiros, seus relatórios de sustentabilidade. (CARVALHO, 2013).
Um desafio para a elaboração dos relatórios corporativos é a consistência entre as informações que se apresentam nos relatórios contábeis (obrigatórios) e nos relatórios sociais ou de sustentabilidade (em geral de iniciativa voluntária).
Carvalho (2013) aponta para situações em que os relatórios de sustentabilidade apresentam uma situação positiva sobre determinados temas, mas o relatório financeiro contradiz com provisões de contingências sobre o mesmo tema (por exemplo, na área trabalhista).
fazendo seu dinheiro, não só quanto dinheiro ela está fazendo.” (BAKKER, 2013).
As dimensões básicas da sustentabilidade – econômica, social e ambiental devem ser consideradas interrelacionadas nas ações para a busca do desenvolvimento sustentável e, por consequência, na forma como essas ações são reportadas nos relatórios corporativos. Diversas organizações têm se mobilizado para propor modelos de relatórios e indicadores adequados para avaliação da sustentabilidade nas empresas. Nos capítulos 1.6 e 1.7 serão apresentadas algumas dessas iniciativas
Mais recentemente, um debate sobre a necessidade de os relatórios corporativos refletirem, numa mensagem integrada e coerente, o processo de geração de valor nas empresas, e de como a sustentabilidade está inserida neste processo, resultou numa nova forma de divulgação dos relatórios corporativos: o relato integrado, que será apresentado no capítulo 1.7.
1.4. Balanço Social
O objetivo do balanço social empresarial é tornar pública a responsabilidade social da empresa, evidenciando suas ações para com a sociedade.
Balanço Social é um instrumento de gestão e de informação que visa evidenciar, de forma mais transparente possível, informações financeiras, econômicas, ambientais e sociais, do desempenho das entidades, aos mais diferenciados usuários, seus parceiros sociais. (TINOCO; KRAEMER, 2011 p.12).
O Balanço Social tem sido, com raras exceções8, de iniciativa voluntária. Também não há padrão para a forma de apresentação, tampouco quanto às informações que devem ser divulgadas e como.
Entende-se que as informações de natureza social e ambiental vão além das informações monetárias, comumente encontradas nas tradicionais demonstrações contábeis, e devem envolver tanto informações quantitativas quanto qualitativas e, em alguns casos, fogem das especialidades dos contabilistas, os quais devem recorrer a profissionais qualificados, porém sem se eximir da responsabilidade pela veracidade e qualidade da informação prestada. (MACHADO, 2010 p.32).
Quatro vertentes, pelo menos, norteiam um balanço social: demonstração do valor adicionado, balanço de recursos humanos, balanço ambiental e benefícios e contribuições à sociedade em geral. Para caracterizar um demonstrativo como um balanço social, estas vertentes podem se apresentar isoladamente ou em conjunto. (IUDÍCIBUS; MARTINS; GELBCKE, 2007, apud MACHADO, 2010 p.38).
A demonstração do valor adicionado (DVA), como descrita no CPC 09, deve proporcionar aos usuários das demonstrações contábeis informações relativas à riqueza criada pela entidade em determinado período e a forma como tais riquezas foram distribuídas. Minimamente, deve ser detalhada em:
(a) pessoal e encargos;
(b) impostos, taxas e contribuições; (c) juros e aluguéis;
(d) juros sobre o capital próprio (JCP) e dividendos; (e) lucros retidos/prejuízos do exercício.
Cabe destacar que a DVA é obrigatória para companhias abertas, conforme artigo 176, da Lei nº 6.404/76, alterado pela Lei nº 11.638/07.
O balanço de recursos humanos deve divulgar informações acerca do corpo de funcionários da empresa, quantificando dados monetários e não
8
monetários, tais como: remuneração, benefícios concedidos, rotatividade da mão de obra, nível de escolaridade, treinamento, além da divulgação de condições de trabalho, como por exemplo, de segurança.
O balanço ambiental reflete a conduta da empresa em relação à gestão ambiental. Segundo Robles e Bonelli (2012, p. 44), a gestão ambiental consiste em um conjunto de medidas e procedimentos definidos e adequadamente aplicados que visam a reduzir e controlar os impactos introduzidos por um empreendimento sobre o meio ambiente. Bonelli in ROBLES (2003, p. 131, 133) acrescenta que a conscientização ambiental dos dirigentes de uma empresa orienta suas prioridades estratégicas, e o meio ambiente é visto como uma oportunidade de negócios; a qualidade ambiental é parte inseparável da qualidade total das empresas que pretendem se manter competitivas num mercado exigente e globalizado.
Para Machado (2010 p.38), o balanço ambiental deve demonstrar a postura da empresa com os recursos naturais, evidenciando gastos com a preservação e proteção do meio ambiente, investimentos em equipamentos e tecnologia para preservação do mesmo.
Segundo Tinoco e Kraemer (2011 p.144), a contabilidade ambiental deve evidenciar e espelhar a relação das empresas e da Nação com o meio ambiente, destacando as ações ambientais que decorrem das atividades operacionais das empresas, ao reconhecerem a existência de compromissos com o meio ambiente.
Quanto à vertente de benefícios e contribuições à sociedade em geral, usualmente são divulgadas informações quanto a doações para bens sociais e culturais, tais como escolas, creches, hospitais, centros culturais, esportivos, dentre outros, refletindo o lado filantrópico e a interação da empresa com a comunidade.
1.5. Relatório de Sustentabilidade
relatórios cujo objetivo é descrever os impactos econômicos, ambientais e sociais (triple bottom line) de uma organização, como o relatório de responsabilidade social empresarial, o balanço social, etc. (GRI, 2006).
O relatório de sustentabilidade deve então basear-se no tripé econômico, social e ambiental para sua caracterização. Para o balanço social, por sua vez, como mencionado no item 1.4 basta que se apresente uma dentre as vertentes recursos humanos, ambiental, relações com a sociedade ou valor adicionado. Nota-se então que um relatório de sustentabilidade pode ser caracterizado como um balanço social, porém nem todo balanço social pode ser caracterizado como um relatório de sustentabilidade (MACHADO, 2010 p.43).
No Brasil há diversas referências para divulgação de balanço ou de indicadores sociais, como o modelo IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas), os indicadores Ethos (para negócios sustentáveis e responsáveis), dentre outros. No entanto, o modelo GRI (Global Reporting Initiative) tem se destacado com número relevante de empresas com publicações aderentes a este padrão.
A KPMG realiza uma pesquisa, desde 1993, na qual divulga uma visão geral da tendência de relatórios de responsabilidade empresarial, gerando subsídios para empresários e gestores, além de investidores, estudantes, agências de rating e profissionais interessados em sustentabilidade, quer para o aprimoramento de seus relatos de responsabilidade empresarial, quer para uma análise crítica de interessados no assunto. Em 2013 divulgou a oitava pesquisa, cobrindo 4.100 empresas, em 41 países. (KPMG, 2013).
O Itaú Unibanco S/A, objeto desta pesquisa, segue diretrizes da GRI na apresentação de seu relatório de sustentabilidade.
1.6. GRI – Global Reporting Iniciative
A GRI - Global Reporting Iniciative é uma organização não governamental, fundada em 1997, em Boston, pela CERES (Coalition for Environmentaly Responsible Economies) e pelo Instituto Tellus, organizações norte americanas sem fins lucrativos.
Inicialmente era um departamento da CERES. Em 1998 foi estabelecido um Comitê Diretor, multi-stakeholder, com um mandato para desenvolver as diretrizes da GRI, com escopo social, econômico e de governança.
A primeira versão das Diretrizes GRI (Guidelines GRI) foi lançada no ano 2000. No ano seguinte, por recomendação do Comitê Diretor, GRI tornou-se uma instituição independente da CERES.
A segunda versão de Guidelines GRI – G2 foi divulgada em 2002, em Johannesburg, durante a World Summit on Sustainable Development. GRI foi uma das referências para divulgação de relatórios de sustentabilidade. Nesta ocasião, a UNEP (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente) convidou países membros da ONU para sediar a GRI. Desde então GRI é uma organização formalmente designada como colaboradora da UNEP, e sediada em Amsterdã, Holanda. A GRI conta também com representantes regionais, em diversos países: Austrália, Brasil, China, Índia, África do Sul e Estados Unidos, chamados Pontos Focais (Focal Points). É uma rede mundial de cerca de 30.000 pessoas.
Em 2006 foi lançada a terceira versão do Guidelines GRI – G3. Foi desenvolvida com o apoio de mais de 3.000 especialistas das áreas de negócios, sociedade civil e da área trabalhista. Em 2011 foi publicada uma revisão, a versão G3.1, expandindo orientações em relação a direitos humanos, impactos na comunidade local e gênero (human rights, local
Em maio 2013, GRI divulgou a quarta versão de Guidelines – G4. Nesta versão, é dado maior foco em materialidade. Ainda que materialidade não seja um assunto novo, a versão 4.0 do GRI demanda explicitamente esforços na análise da materialidade – impactos, riscos e oportunidades, para a divulgação dos temas referentes à sustentabilidade.
A missão da GRI é fazer com que a prática de relatórios de sustentabilidade se torne padrão, fornecendo orientação e suporte para as organizações. A visão da GRI é uma economia global sustentável onde organizações possam medir seus desempenhos e impactos econômicos, ambientais, sociais bem como os relacionados à governança, de uma maneira responsável e transparente. (GRI 2012 - Pontos de Partida).
As informações divulgadas a seguir foram extraídas das Diretrizes
(Guidelines) GRI - G3 (GRI 2006), G3.1 (GRI 2011) e G4 (GRI 2013).
A estrutura de relatórios da GRI foi delineada com o objetivo de servir como um modelo amplamente aceito para a elaboração de relatórios sobre o desempenho econômico, ambiental e social de uma organização. Foi concebida para ser utilizada por organizações de qualquer porte, setor ou localidade. Um relatório de sustentabilidade baseado nas Diretrizes da GRI, entre outros propósitos, pode ser usado como:
padrão de referência (benchmarking) e avaliação do
desempenho e sustentabilidade com respeito a leis, normas, códigos, padrões de desempenho e iniciativas voluntárias;
demonstração de como a organização influencia e é influenciada
por expectativas de desenvolvimento sustentável;
comparação de desempenho dentro da organização e entre
organizações diferentes ao longo do tempo.
estabelecer metas, aferir desempenho e gerir mudanças com vistas a tornar suas operações mais sustentáveis.
Os relatórios são organizados seguindo certos princípios, visando à garantia da qualidade das informações relatadas e ao estabelecimento do limite do relatório. Os princípios estão organizados em dois grupos: princípios para determinar quais temas e indicadores a organização deverá relatar e princípios para assegurar a qualidade e a adequada apresentação das informações relatadas.
Princípios para a definição do conteúdo do relatório:
inclusão dos stakeholders: a organização deve identificar seus
stakeholders e explicar no relatório que medidas foram tomadas em resposta às suas expectativas e interesses pertinentes;
contexto da sustentabilidade: o relatório deve apresentar o
desempenho da organização no contexto mais amplo da sustentabilidade, focando como a organização contribui ou pretende contribuir no futuro para a melhora ou deterioração das condições econômicas, ambientais e sociais, no âmbito local, regional ou global;
materialidade: o relatório deve abordar aspectos que reflitam os
impactos econômicos, ambientais e sociais significativos da organização; ou que possam influenciar, substancialmente, as avaliações e decisões de stakeholders. A materialidade é o limiar a partir do qual os ‘aspectos’ tornam-se suficientemente expressivos para serem relatados;
abrangência / completude: a cobertura dos temas e indicadores
relevantes, assim como a definição do limite do relatório, deverão ser suficientes para refletir os impactos econômicos, ambientais e sociais significativos e permitir que os stakeholders avaliem o desempenho da organização no período analisado – escopo, limite e tempo.
equilíbrio: o relatório deve refletir aspectos positivos e negativos do desempenho da organização, de modo a permitir uma avaliação equilibrada do desempenho geral;
comparabilidade: as questões e informações devem ser selecionadas,
compiladas e relatadas de forma consistente, de modo a permitir aos
stakeholders analisar mudanças no desempenho da organização ao
longo do tempo e subsidiar análises sobre outras organizações;
exatidão: as informações devem ser suficientemente precisas e
detalhadas para que os stakeholders avaliem o desempenho da organização;
periodicidade / tempestividade: o relatório é publicado regularmente e
as informações são disponibilizadas a tempo para que os stakeholders tomem decisões fundamentadas;
clareza: as informações devem estar disponíveis de uma forma que
sejam compreensíveis e acessíveis aos stakeholders que fizerem uso do relatório;
confiabilidade: as informações e processos usados na preparação do
relatório devem ser coletados, registrados, compilados, analisados e divulgados de forma que o mesmo possa ser revisado e que seja estabelecida a qualidade e materialidade das informações.
O conteúdo básico para compor um relatório GRI deve conter informações que forneçam o contexto geral para a compreensão do desempenho organizacional, incluindo sua estratégia, perfil e governança; informações sobre a gestão; e indicadores de desempenho, passíveis de comparação.
será indicada a obrigatoriedade ou a faculdade de resposta, por tipo de adesão.
Para a GRI, o Desempenho Econômico tem por objetivo retratar o fluxo de capital entre as diversas partes interessadas e os principais impactos econômicos da organização sobre a sociedade. Considera o aspecto financeiro fundamental para compreender uma organização e a sua própria sustentabilidade, contudo esta informação é habitualmente disponibilizada nas demonstrações financeiras das instituições.
Na dimensão ambiental são analisados os impactos da organização sobre ecossistemas, terra, ar e água. Os indicadores abrangem o desempenho relacionado a insumos (como material, energia, água) e a produção (emissões, efluentes, resíduos), além dos impactos de seus produtos e serviços.
A dimensão social se refere aos impactos da organização nos sistemas sociais nos quais ela opera. Baseia-se em normas internacionalmente reconhecidas, tais como Declaração dos Direitos Humanos, Declaração da Organização Internacional do Trabalho, e outras. Busca também informações sobre riscos associados a suborno, corrupção, influência indevida na elaboração de políticas públicas e práticas de monopólio.
Os indicadores setoriais são referentes a impactos dos produtos e serviços disponibilizados pela organização.
As diretrizes GRI preveem duas opções para a elaboração dos relatórios de sustentabilidade: a ‘Essencial’ e a ‘Abrangente’. As opções não têm relação com a qualidade do relatório ou com o desempenho da organização. Elas refletem a conformidade do relatório de sustentabilidade da organização com as Diretrizes escolhidas.
organização deve comunicar seu desempenho de forma mais ampla, relatando todos os indicadores referentes aos aspectos materiais identificados. Ainda, para ambas as opções, pode haver conteúdo padrão específico para o setor de atuação da organização.
Nas versões 3 e 3.1 o sistema GRI de relatórios contempla três níveis de estrutura: C, B e A, para atender às necessidades de relatores iniciantes, intermediários e avançados. Na versão 4 esta classificação foi descontinuada. Enquanto nas versões 3 e 3.1 o relatório é assinalado com um sinal “+” caso seja assegurado por uma entidade externa que não a própria empresa, na versão 4 a indicação de aderência deve ser atribuída para cada aspecto individualmente, caso a organização opte pela validação de uma entidade externa.
A GRI solicita ao usuário de suas Diretrizes que lhe envie uma notificação sobre a publicação do relatório. A organização pode também solicitar à GRI que examine seu nível de aplicação autodeclarado.
O Itaú Unibanco, objeto desta pesquisa, divulgou os relatórios na opção abrangente até 2012 e na opção essencial em 2013. Adotou as diretrizes 3.0 (2009 e 2010) e 3.1 (2011 e 2012), no nível A+ e as diretrizes 4.0 em 2013.
1.7. IIRC e Relato Integrado
Com o objetivo de desenvolver sistemas de relatórios e de tomada de decisão capazes de responder aos desafios de sustentabilidade do século 219, o Príncipe de Gales - His Royal Highness The Prince of Wales - lançou em 2004 o Projeto do Príncipe de Gales para a Sustentabilidade - The Prince´s Accounting for Sustainability Project – (A4S). O projeto A4S trabalha com empresas, investidores, governos, a classe contábil, acadêmicos e a sociedade civil para construir um consenso internacional sobre a necessidade de uma
9 “Estamos lutando para enfrentar desafios do século 21 com, na melhor das hipóteses,
estrutura integrada de relatórios corporativos que seja aceita de modo geral, e também para desenvolver diretrizes e ferramentas básicas para incluir sustentabilidade nos processos de tomada de decisão. (CARVALHO; KASSAI, 2013 p. 11).
Desenvolver uma sistemática de pensamento integrado, tendo a sustentabilidade como parte integrante da estratégia das empresas, direciona as linhas de trabalho do A4S. Muitas empresas apresentam um discurso alinhado com esta prática em seus relatórios de sustentabilidade, porém nem sempre o discurso e a prática são coerentes, sendo possível verificar nos relatórios financeiros passivos exigíveis e contingências não compatíveis com as ações socioambientais relatadas nos demais relatórios.
Carvalho (2013 p.60) pondera que várias razões podem contribuir para este desalinhamento entre os relatórios corporativos, destacando como uma das principais o “mal do silo dentro da empresa”, ou seja, estruturas departamentais verticalizadas, sem comunicação lateral umas com as outras, ficando os diversos relatórios na responsabilidade de departamentos diferentes e que não dialogam entre si.
Em setembro de 2009, considerando a criação de uma estrutura de relatório integrado como essencial para ajudar a transição para uma economia sustentável, o Príncipe de Gales iniciou um movimento internacional visando a integrar os relatórios corporativos de forma a estarem alinhados em uma mensagem única e coerente entre si. Este movimento resultou na criação do International Integrated Reporting Council (IIRC) - Conselho Internacional de Relato Integrado, anunciada em 02 de agosto de 2010 pelo The Prince’s Accounting for Sustainability Project (A4S), em conjunto com o Global Reporting Initiative (GRI).
prospectiva quanto retrospectivamente, para atender às demandas de um modelo econômico emergente e mais sustentável. (CARVALHO; KASSSAI, 2013 p.10).
O IIRC é um grupo pluridisciplinar e multinacional e reúne representantes da sociedade civil, dos setores empresarial, de contabilidade, de investimentos em ações, de regulação, ONGs (organizações não governamentais), OIGs (organizações intergovernamentais) e normatizadores.
Na primeira reunião oficial do IIRC, realizada em Londres, o Brasil estava representado por Nelson Carvalho (FEA/USP), Roberto Pedote (Natura) e Maria Helena Santana (na época presidente da CVM e do Comitê Executivo da IOSCO – International Organization of Securities Commissions). (CARVALHO; KASSSAI, 2013 p.10). Atualmente, representam o Brasil no conselho: Nelson Carvalho (FEA/USP), Roberto Pedote (Natura), Marco Geovanne (PREVI) e Sandra Guerra (IBGC). (IIRC, 2014a).
No Brasil foi criada uma comissão – Comissão Brasileira de Acompanhamento do Relato Integrado, coordenada por Vania Borgerth, assessora da presidência do BNDES – com objetivo de desenvolver um plano de implementação do Relato Integrado no país. Cinco grupos de trabalho atuam nesta comissão: GT1 Exposure Draft, GT2 Comunicação com as partes interessadas, GT3 Empresas pilotos, GT4 relação com investidores e GT5
Road show (CARVALHO; KASSSAI, 2013 p.10).
BNDES, BRF S.A., CCR S.A., CPFL Energia, Fíbria Celulose S.A., Grupo Segurador Banco do Brasil e MAPFRE, Itaú Unibanco, Natura, Petrobras, Via Gutenberg e Votorantim Industrial. (IIRC 2014b).
De abril a julho de 2013 o IIRC submeteu a minuta da estrutura conceitual do Relato Integrado a uma consulta pública - The Consultation Draft of the International <IR> Framework (CD) - que reuniu comentários e sugestões de 359 participantes de diversos países e que foram analisados para a formulação da versão 1.0 da Estrutura do Relato Integrado, lançada em Dezembro de 2013. (IIRC, 2014c).
A Estrutura tem como objetivo estabelecer Princípios Básicos e Elementos de Conteúdo que guiem o conteúdo geral de um relato integrado e explicar os conceitos fundamentais que os sustentam. Um Relato Integrado deve ser elaborado de acordo com a Estrutura. (IR, 2014 p.4).
Nesta primeira versão (IR, 2014 p.2), o Relato Integrado foi apresentado com os objetivos de:
Quadro 1 Quadro 2
País Quantidade de
empresas País
Quantidade de investidores
Brasil 12 Reino Unido 8
Reino Unido 12 Austrália 6
Holanda 10 Estados Unidos 5
Estados Unidos 8 França 3
Itália 8 Holanda 3
África do Sul 7 África do sul 2
Espanha 7 Alemanha 2
Alemanha 6 Japão 2
Austrália 5 União Européia 1
Japão 4 Noruega 1
Russia 4 Singapura 1
Canadá 3 Suécia 1
França 3 Suiça 1
Índia 2 Baseado em IIRC 2014b
Singapura 2
Turquia 2
Bélgica 1
Chile 1
China 1
Coréia do Sul 1
Dinamarca 1
Nova Zelândia 1
Paquistão 1
Sri Lanka 1
Suécia 1
Suiça 1
Ba s ea do em IIRC 2014b
Distribuição de Empresas participantes no Programa Piloto, por País de Origem