UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA PRISCILLA DINAH COSTA LOURENÇO
DIREITO À EDUCAÇÃO E O ATENDIMENTO MUNICIPAL:
A EDUCAÇÃO BÁSICA NA REDE MUNICIPAL DE FLORIANÓPOLIS PÓS LDB/96
Tubarão 2011
PRISCILLA DINAH COSTA LOURENÇO
DIREITO À EDUCAÇÃO E O ATENDIMENTO MUNICIPAL:
A EDUCAÇÃO BÁSICA NA REDE MUNICIPAL DE FLORIANÓPOLIS PÓS LDB/96
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Licenciatura em Pedagogia, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Licenciada em Pedagogia.
Orientador: Prof. Marcos Edgar Bassi, Dr.
Tubarão 2011
PRISCILLA DINAH COSTA LOURENÇO
DIREITO À EDUCAÇÃO E O ATENDIMENTO MUNICIPAL:
A EDUCAÇÃO BÁSICA NA REDE MUNICIPAL DE FLORIANÓPOLIS PÓS LDB/96
Este Trabalho de Conclusão de Curso foi julgado adequado à obtenção do título de Licenciada em Pedagogia e aprovado em sua forma final pelo Curso de Pedagogia, da Universidade do Sul de Santa Catarina.
Tubarão, ______ de julho de 2011.
Orientador: Prof. Marcos Edgar Bassi, Dr. Universidade do Sul de Santa Catarina
Profª. Nádia Sandrini, Msc Universidade do Sul de Santa Catarina
Profª. Rosinete Cardoso, Esp. Universidade do Sul de Santa Catarina
Para Cristiane Rech, que transforma minha dura caminhada num lindo passeio de domingo sob o sol.
AGRADECIMENTOS
Agradeço à todos aqueles que estiveram comigo desde o primeiro impulso de querer transformar o mundo, a partir do meu. A estes eu chamo de “família”.
Aos meus pais, José e Graça por contribuirem, e muito, na formação da minha personalidade.
À minha irmã Grazi e ao meu cunhado Felipe por tornarem a família bem mais divertida depois de tantos desastres.
À Cristiane, por fazer da minha vida algo bem menos complicada e muito mais interessante.
À Erin, Pri e Clara, por terem me mostrado o caminho da luta por uma sociedade igualitária e por uma Educação de qualidade para todos.
Aos meus irmãos de fé, Sil, Magali, Nora, Roberta, Diego, Preta, Dani, Uendi, Fê e Cláudinha, por estarem sempre ao meu lado em todos os momentos, se não na presença, mas no coração.
Aos queridos professores, Lú, Maris, Roberto, Rosa Sarinha, Léia, Tânia, Rô, Rosinete, André e Malu, que me ensinam e inspiram dentro e fora da sala de aula.
Aos queridos professores precursores dos ensinamentos e inspirações: Fernanda Tristão, Olinda Evangelista, Reinaldo Matias Fleuri, Wilson Schmidt, Justina Sponchiado e Jefferson Dantas.
Aos queridos amigos do NUPEFE (Núcleo de Pesquisa em Financiamento da Educação), Phelipe, Rúbia, Andréia, Gisele, Jéssica, Valdir e Nádia, por caminharmos juntos desbravando os mistérios dos números e planilhas.
À Greice por assessorar a todos nós em meio a tanta loucura.
E por último o agradecimento mais especial desta lista, pois sem ele este trabalho não teria nascido: ao Professor Marcos Edgar Bassi, que vem todos os dias lapidando meu conhecimento e trabalho, norteando meus passos, puxando a orelha quando me “desnorteio”, esclarecendo dúvidas (e não são poucas), sendo amigo, professor e muitas vezes (mesmo que não perceba), pai de todos nós do NUPEFE.
“Quero continuar chateando, incomodando e fustigando os que, contemporâneos meus ou não, defendam a permanência das desigualdades.” (Paulo Freire).
RESUMO
O Direito à Educação no Brasil construiu-se ao longo dos três últimos séculos de forma gradativa e lenta, bem como, a obrigação do Estado em cumprir com este direito. A partir deste olhar, o presente trabalho pretendeu colaborar com a investigação do cumprimento do Direito à educação, examinando o comportamento no atendimento da Educação Básica realizado pelas redes públicas estadual, federal e municipal e pela rede privada, em suas diferentes etapas e modalidades de ensino no âmbito do município de Florianópolis entre 1996 e 2009. A pesquisa de natureza bibliográfica e quantitativa descritiva constituiu-se a partir de uma análise documental da legislação sobre o Direito à Educação e a política de fundos no financiamento da educação, através das Constituições brasileiras e autores relacionados ao tema. E a investigação deu-se através de análise quantitativa dos dados relativos ao atendimento da educação básica obtidos nos censos escolares (microdados) disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Nacionais (Inep), nos anos de 1996 à 2009. Por meio deste estudo verificou-se a evolução das matrículas na Educação Básica em direção ao cumprimento da legislação no que diz respeito a atuação das redes públicas (federal, estadual e municipal) nas competências que foram a elas designadas pelo Art. 211 da Constituição brasileira de 1988. Esta tendência em função das competências caracteriza uma política indutora no processo de municipalização, visto que, o financiamento da educação desde 1998 está ligado diretamente a política de fundos (Fundef e Fundeb), que distribui os recursos capturados através de matrículas.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Quadro 1 – Alteração no Inciso I do Artigo 208 da CF/88. ... 19
Quadro 2 – Ampliação da obrigatoriedade do ensino nos últimos 50 anos. ... 20
Figura 1 – Distribuição da população brasileira em 2000. ... 27
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 – Movimentação das matrículas da Educação Infantil entre 1996 e 2009. ... 31 Gráfico 2 – Movimentação das matrículas do Ensino Fundamental entre 1996 e 2009. ... 33 Gráfico 3 – Movimentação das matrículas do Ensino Médio entre 1996 e 2009. ... 35
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 - Evolução das matrículas da Educação Básica por nível de ensino no município de Florianópolis entre 1996 e 2009. ... 26 Tabela 2 – Total de matrículas da Educação Infantil por dependência
administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009. ... 28 Tabela 3 – Total de matrículas do Ensino Fundamental por dependência
administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009. ... 32 Tabela 4 – Total de matrículas do Ensino Médio por dependência administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009. ... 34 Tabela 5 – Total de matrículas da educação de Jovens e Adultos do Ensino
Fundamental por dependência administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009. ... 35 Tabela 6 – Total de matrículas da educação de Jovens e Adultos do Ensino Médio por dependência administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009. .. 37 Tabela 7 – Total de matrículas das Classes de alfabetização por dependência
administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009. ... 38 Tabela 8 – Total de matrículas da educação Especial por dependência
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO ... 11
2 O DIREITO À EDUCAÇÃO ... 14
2.1 BREVE RECONSTITUIÇÃO HISTÓRICA SOBRE O DIREITO À EDUCAÇÃO NAS CONSTITUIÇÕES ANTERIORES A DE 1988 ... 14
2.2 O DIREITO À EDUCAÇÃO E A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988 ... 18
2.3 DESCENTRALIZAÇÃO E MUNICIPALIZAÇÃO DO ENSINO ... 22
3 MATRÍCULAS E POLÍTICA DE FUNDOS NA EDUCAÇÃO BÁSICA NO ÂMBITO DO MUNICÍPIO ... 25
3.1 EVOLUÇÃO DAS MATRÍCULAS POR NÍVEL DE ENSINO E DEPENDÊNCIA ADMINISTRATIVA NO MUNICÍPIO DE FLORIANÓPOLIS... 25
3.1.1 Matrículas da Educação Infantil ... 28
3.1.2 Matrículas do Ensino Fundamental ... 31
3.1.3 Total de matrículas do Ensino Médio ... 33
3.1.4 Total de matrículas da Educação de Jovens e Adultos do Ensino Fundamental ... 35
3.1.5 Total de matrículas da Educação de Jovens e Adultos do Ensino Médio ... 36
3.1.6 Total de matrículas das Classes de Alfabetização ... 37
3.1.7 Total de matrículas da Educação Especial ... 38
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 41
1 INTRODUÇÃO
O presente trabalho de conclusão de curso do curso de Pedagogia é o momento culminante da formação docente. Esta oportunidade ímpar oportunizou a ampliação dos meus dedicados ao financiamento da reunidos desde o segundo semestre de 2009, através de pesquisas de iniciação científica.
Esse trabalho pretende examinar o atendimento de Educação Básica realizado pelas redes públicas estadual, federal e municipal e pela rede privada de Educação Básica no âmbito do município de Florianópolis entre 1996 e 2009. Mais especificamente, é examinado o comportamento do atendimento das diferentes etapas e modalidades da Educação Básica como Educação Infantil, Ensino Fundamental, Ensino Médio, Educação de Jovens e Adultos, Classes de Alfabetização e Educação Especial.
O estudo requereu a reflexão sobre a concretização do Direito à Educação por intermédio da análise do atendimento público e privado em Florianópolis, conforme estabelecido na Constituição Federal de 1988 (art. 208) e alterações legais posteriores. E pelo comportamento da rede municipal de ensino no âmbito das suas competências estabelecidas para os municípios no Art. 211, por meio da análise evolução das matrículas da Educação Básica (entre os anos de 1996 e 2009).
Este Trabalho de Conclusão de Curso constitui-se em um subprojeto da pesquisa de amplitude nacional intitulada Remuneração de professores de escolas públicas da educação básica: configurações, impactos, impasses e perspectivas (CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS EM POLÍTICAS PÚBLICAS DE EDUCAÇÃO, 2008), coordenada em Santa Catarina pelo professor Marcos Edgar Bassi, orientador deste trabalho.
A pesquisa nacional contempla 11 estados brasileiros (MG, MS, MT, PA, PB, PI, PR, RN, RR, SC e SP). Em Santa Catarina a pesquisa nacional vem sendo desenvolvida pelo Programa de Pós-Graduação em Educação/Mestrado da Unisul, cujo objetivo é levantar e analisar as repercussões de políticas públicas voltadas à valorização e remuneração do magistério entre 1996 e 2010. O presente trabalho cumpre com uma das necessidades da pesquisa nacional, que consiste na análise dos dados educacionais na Capital do Estado, como forma de constituir o contexto local para o exame da remuneração do magistério propriamente dito.
Na maior parte desse período entrou em vigência uma política de fundos contábeis nos estados e municípios brasileiros, como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério-Fundef, em vigência, entre 1998 e 2006, e o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação-Fundeb, em vigência a partir de 2007 que alterou a trajetória dos recursos financeiros destinados a educação conforme previstos nas Constituição, Art. 212, e por consequência repercutiu na gestão e no andamento do atendimento público da Educação Básica em todo o país.
Para vincular o financiamento à concretização do Direito à Educação, apesar do financiamento da educação já se encontrar previsto na Constituição Federal de 1988 foi necessário a implementação de alteração na aplicação dos recursos de modo a garantir o cumprimento do Direito à Educação. O problema é que inicialmente com o Fundef, apenas o Ensino Fundamental foi priorizado, entre 1998 e 2006. Somente a partir de 2007 é que toda a educação básica começou efetivamente a ser contemplada com a implantação do Fundeb
Pode-se dizer, portanto, que a implantação dos fundos e seu efeito sobre os recursos financeiros teve como objetivo o atendimento do Direito à Educação pelo Estado brasileiro.
No contexto do período examinado observa-se o crescimento significativo do atendimento municipal no Brasil. E várias medidas/legislações foram implementadas ampliando ou tocando no direito educacional.
Esta pesquisa será de natureza bibliográfica e quantitativa descritiva conforme a definição de Fábio Rauen (2002). Desse modo é elaborada uma análise documental da legislação sobre Direito à Educação e da política de fundos no financiamento da educação.
A investigação se dará através da coleta de dados e estatísticas educacionais sobre matrículas nos microdados, que estão disponíveis nos Censos Escolares do período (1996 à 2009), realizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), elaborando tabelas comparativas entre os anos supracitados para análise do comportamento do atendimento da Educação Básica.
Ao analisar as matrículas a pesquisa contribui com a contextualização do atendimento de Educação Básica realizado pela prefeitura de Florianópolis.
constituirá uma matriz cruzando as matrículas da Educação Básica, para a formação de uma série histórica por nível de ensino e esfera de governo. A pesquisa nacional elaborou instrumentos de coleta de dados e o grupo de pesquisa da Universidade do Paraná ficou responsável pela extração e distribuição dos microdados do Censo Escolar, através de downloads buscando os dados estatísticos específicos solicitados pelo instrumento.
A exposição está organizada em três capítulos além desta introdução. No capítulo 2 é descrito o Direito à Educação em todas as Constituições brasileiras, desde a de 1824 à de1988, bem como as Leis de Diretrizes e bases da Educação Nacional de 1961, 1971 e 1996. No capítulo 3 serão apresentadas as análises das tendências de matrículas da Educação Básica das redes públicas e privada do município de Florianópolis entre 1996 e 2009. E por último as considerações finais.
2 O DIREITO À EDUCAÇÃO
O presente capítulo dedica-se a descrição do Direito à Educação nas Constituições brasileiras e nas Leis 4.024/61, 5.692/71 e 9.394/96 Leis de Diretrizes e Bases da Educação nacional.
A primeira seção faz um apanhado geral do Direito à Educação nas legislações anteriores a de 1988 a qual, nessa especificidade será abordada na segunda seção.
2.1 BREVE RECONSTITUIÇÃO HISTÓRICA SOBRE O DIREITO À EDUCAÇÃO NAS CONSTITUIÇÕES ANTERIORES A DE 1988
O Direito à Educação nem sempre foi um direito para todos, muito embora seja citado mesmo que superficialmente, como na Constituição de 1824. Este Direito foi construído ao longo dos séculos XIX, XX e início do século XXI de maneira gradativa e lenta, como também a obrigação do Estado no cumprimento destes direitos.
A primeira Constituição de 1824 foi outorgada por Dom Pedro I (período imperial) num período seguinte a Independência do Brasil. Esta Constituição apontou para uma sutil preocupação com a educação, registrada em dois parágrafos do Artigo 179 estabelecendo a gratuidade da instrução primária à todos os cidadãos (art. 179, § 32). Embora a maioria da população brasileira na época fosse analfabeta, desse montante, a maior parte era constituída por escravos. Afirmando o processo de exclusão da escola, pois a educação estava “garantida” apenas aqueles considerados naquele período cidadãos de direito. (OLIVEIRA, 2007).
O Ato Adicional de 1834 entendia que a instrução elementar da população deveria ser “responsabilidade estadual, [prevendo] a escolarização primária gratuita e obrigatória e/ou a gratuidade em seu texto. [...] torna-se hegemônica a idéia de se garantir a gratuidade e a obrigatoriedade do ensino primário, o Ensino Fundamental de então”. (OLIVEIRA, 2007, p. 18). Contudo as províncias, que na época correspondiam aos atuais governos estaduais não dispunham de fontes de receita
para esta responsabilidade com a educação, o que tornou sem efeito o cumprimento da obrigatoriedade.
O Brasil foi um dos primeiros países a inserir a gratuidade da educação na sua legislação. Muito embora não tenha se efetivado na prática o ensino gratuito em diversas províncias. (VIEIRA, 2007). Segundo Zichia (2008, p. 53),
O fato do ensino obrigatório ser adotado, amplamente, por países considerados desenvolvidos, não significa a legitimidade da medida., além de não garantir uma maior racionalidade na organização do ensino. Além disso, precisava-se ponderar que essa questão, ainda aberta em muitos países ocidentais, assumia um caráter essencialmente político.
A primeira Constituição republicana foi a de 1891 introduzindo a laicidade no ensino público, separando a igreja do estado (art. 72, § 6º), bem como, a determinação de competências nas esferas de governo. Atribuiu ao Congresso Nacional pelo (Artigo 34, Inciso 30) a competência de legislar sobre o ensino superior, e todos os serviços que forem limitados a União. E deliberar aos governos locais o agir livremente sobre a criação de instituições de ensino superior e secundário, com o fornecimento de “instrução primária e secundária no Distrito Federal”. (Art. 35, incisos 2º, 3º, e 4º). (VIEIRA, 2007).
O começo da história nacional de luta por uma educação pública de qualidade para todos começou efetivamente com o Manifesto dos Pioneiros da Educação em 1932. Causando impactos sobre a construção da Constituição de 1934 quando, pela primeira vez é dedicado na Carta Magna um título inteiro a Educação e Cultura constituído de 10 Artigos (entre os Artigos 148 e 158). No Artigo 148 é definida a participação do Poder Público no desenvolvimento e manutenção do ensino: “animar o desenvolvimento das ciências, das artes, das letras e da cultura em geral, proteger os objetos de interesse histórico e o patrimônio artístico do País, bem como prestar assistência ao trabalhador intelectual”. O Artigo 149 dispõe sobre a Educação como direito de todos e dever da família e dos “Poderes Públicos” para o desenvolvimento da economia do país e cidadania. Já no Artigo 150 surge a primeira menção da construção do Plano Nacional da Educação – PNE como competência da União. (BRASIL, 1934).
Segundo Evaldo Vieira, neste aspecto caberia:
[...] à União "traçar as diretrizes da educação nacional" (art. 5º, XIX), "fixar o plano nacional de educação, compreensivo do ensino de todos os graus e ramos, comuns e especializados, organizar e manter" os sistemas
educativos dos Territórios e manter o ensino secundário e superior no Distrito Federal (art. 150), assim como exercer "ação supletiva na obra educativa em todo o País" (art. 150, "d" e "e"). (VIEIRA, 2007, p. 296-297).
Outro ponto importante desta Constituição inserido no Artigo 156 é a descrição da aplicação de recursos entre as esferas de governo. “A União e os Municípios aplicarão nunca menos de dez por cento, e os Estados e o Distrito Federal nunca menos de vinte por cento, da renda resultante dos impostos na manutenção e no desenvolvimento dos sistemas educativos”. (BRASIL, 1934). O Artigo 157 e os Parágrafos 1º e 2º detalham as taxas e impostos destinados à obras educativas, sendo a primeira Constituição a determinar fontes de recursos financeiros do Estado brasileiro para o cumprimento da garantia do Direito à Educação então estabelecido.
Art 157 - A União, os Estados e o Distrito Federal reservarão uma parte dos seus patrimônios territoriais para a formação dos respectivos fundos de educação.
§ 1º - As sobras das dotações orçamentárias acrescidas das doações, percentagens sobre o produto de vendas de terras públicas, taxas especiais e outros recursos financeiros, constituirão, na União, nos Estados e nos Municípios, esses fundos especiais, que serão aplicados exclusivamente em obras educativas, determinadas em lei.
§ 2º - Parte dos mesmos fundos se aplicará em auxílios a alunos necessitados, mediante fornecimento gratuito de material escolar, bolsas de estudo, assistência alimentar, dentária e médica, e para vilegiaturas. (BRASIL, 1934).
Finalmente, no Artigo 158 encontram-se especificações sobre o ingresso dos professores do magistério: “a isenção de impostos para a profissão de professor (art. 113, inciso 36) e a exigência de concurso público como forma de ingresso ao magistério oficial (art. 158)”. (VIEIRA, 2007, p. 297).
A Constituição de 1934 foi um marco não só para a ampliação do Direito à Educação, como também, imprime condições para efetivá-lo.
Uma retrocesso ao Direito à Educação acontece na Constituição de 1937, outorgada pelo governo ditatorial do Estado Novo de Getúlio Vargas, em relação a Constituição de 1934, com a restrição do Direito. Em lugar da obrigação do Estado na garantia da educação para todos a legislação priorizou o Ensino Vocacional e Profissional, destinados a população de baixa renda. Foi mantida a gratuidade do ensino primário para os desfavorecidos, desde que no ato da matrícula fosse comprovada a baixa renda, pois daqueles que não comprovassem a “escassez de recursos” seria exigida uma contribuição mensal para o “caixa escolar”, disposto no
Artigo 130. O que colocou a obrigação do Estado em segundo plano. (BRASIL,1937).
Em 1946, Eurico Gaspar Dutra com um assume a Presidência da República e instaura uma Nova Constituição retomando aspectos da Constituição de 1934 deixados para trás na Constituição de 1937, como o dever da família e do estado na educação (Art.166). O Artigo 168, Parágrafo I destina-se a obrigatoriedade do ensino primário em língua nacional. No Parágrafo 2º é mantida a gratuidade do ensino primário desde que comprovado a falta de recursos. O Parágrafo 3º introduz a obrigatoriedade de financiamento do ensino primário nas: “empresas industriais, comerciais e agrícolas, em que trabalhem mais de cem pessoas, são obrigadas a manter ensino primário gratuito para os seus servidores e os filhos destes”. (BRASIL, 1946).
No período de vigência da Constituição de 1946, entre em cena a promulgação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB. Com a Lei 4.024/1961 é definida as obrigações do Estado para com o Direito à Educação. (BRASIL, 1961).
Art. 2º A educação é direito de todos e será dada no lar e na escola.
Parágrafo único. À família cabe escolher o gênero da educação que deve dar aos seus filhos.
Art. 3º O Direito à Educação é assegurado:
I – pela obrigação do poder público e pela liberdade de iniciativa particular de ministrarem o ensino em todos os graus, na forma de lei em vigor; II – pela obrigação do Estafo de fornecer recursos indispensáveis para que a família e, na falta desta, os demais membros da sociedade se desobriguem dos encargos da educação, quando provada a insuficiência de meios, de modo que sejam asseguradas iguais oportunidades a todos. (BRASIL, 1961).
Em 1964 Novo golpe de estado acordado pelos militares revoga as garantias do Direito à Educação.
Na Constituição de 1967 outorgada pelos militares, o destaque fica por conta da não fixação dos percentuais das receitas na “aplicação obrigatória e estabeleceu-se, ainda, que a gratuidade do ensino ulterior ao primário seria substituída, sempre que possível, pela concessão de bolsas de estudo, cujo reembolso seria exigido no caso do ensino superior”. (TEIXEIRA, 2008, p. 161).
Apesar do retrocesso no Direito à Educação, a Lei 5.692, de 1971 ampliou a obrigatoriedade do Ensino Fundamental de quatro para oito anos, em relação às Leis de Diretrizes e Bases de 1961 (Lei 4.024). Este último determinava
que “O ensino primário [seria] ministrado, no mínimo, em quatro séries anuais”, e o Artigo 20 da Lei 5.692/1971 define que “O ensino de 1º grau será obrigatório dos 7 aos 14 anos, cabendo aos Municípios promover, anualmente, o levantamento da população que alcance a idade escolar e proceder à sua chamada para matrícula”. (BRASIL, 1961; 1971).
2.2 O DIREITO À EDUCAÇÃO E A CONSTITUIÇÃO FEDERAL DE 1988
A ditadura militar e a suspensão dos direitos durou até o início dos anos de 1980. Essa foi uma década de luta política e social pela redemocratização e de retomada das eleições diretas, primeiro, para governadores (1982), depois, para prefeitos (1985), e, por fim, para presidente da república. No que diz respeito ao Direito à Educação, o ponto alto ocorre com a promulgação da nova Constituição em 1988.
A Constituição Federal de 1988 é sem dúvida a Carta Magna que mais enfatiza o Direito à Educação, dedicando uma seção inteira para educação distribuídos em nove Artigos (Art. 205 à Art. 214) concedendo “[...] amplos direitos, confirmando e ampliando o interesse social pela educação”. (VIEIRA, 2001, p. 14).E apresenta um diferencial entre as outras Constituições: a explicitação do Direito à Educação no Artigo 6º do Capítulo II dedicado aos Direitos Sociais. “Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. (BRASIL, 1988).
O Art. 205 define a competência do Estado para com a Educação: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, [...]”, e reafirma a sua gratuidade no Art. 206, “IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais”. (grifos da autora). Esta gratuidade abrange todo o atendimento público, desde a Educação Infantil, até o Ensino Superior.
A obrigação do Estado e o detalhamento do Direito à Educação são especificados no Art. 208.
Art. 208. O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:
I - Ensino Fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;
II - progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao Ensino Médio; III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;
IV - atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade;
V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;
VI - oferta de ensino noturno regular, adequada às condições do educando; VII - atendimento ao educando, no Ensino Fundamental, através de programas suplementares de material didático escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde. (BRASIL, 1988).
Os incisos deste Artigo foram reformulados posteriormente à sua promulgação em 1988 pelas Emendas Constitucionais n. 14 em 1996, n. 53 em 2006 e n. 59 em 2009, ampliando de modo geral o alcance do direito específico.
O texto do Inciso I do Art. 208 tratava da obrigatoriedade do Ensino Fundamental inclusive para aqueles que não tiveram, por exemplo, acesso na idade própria, mas foi substituído pela Emenda Constitucional n. 14 incluindo a garantia de acesso e sua oferta gratuita para os que não tiveram acesso em idade própria. E foi novamente modificado pela Emenda Constitucional n. 59 incluindo no texto a garantia da “educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria”. (BRASIL, 1988; 1996a, 2009).
CF/88 EC/14 EC/59
I - Ensino Fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;
I - Ensino Fundamental, obrigatório e gratuito, assegurada, inclusive, sua oferta gratuita para todos os que a ele não tiveram acesso na idade própria;
I - educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria;
Quadro 1 – Alteração no Inciso I do Artigo 208 da CF/88. Fonte – Brasil, 1998; 1996a; 2009.
O quadro seguinte apresenta a ampliação da obrigatoriedade do ensino nos últimos 50 anos.
Legislação Obrigatoriedade
(anos) Abrangência
Lei 4.024/1961 4 Ensino Primário
Lei 5.692/1971 8 Primeiro Grau
Lei 9.394/1996 8 Ensino Fundamental
Lei 11.274/2006 9 Ensino Fundamental de 9 anos
E.C 59/2009 13* Educação Básica
*A Emenda Constitucional 59/2009 amplia a obrigatoriedade do Ensino Fundamental, para Educação básica que atinge desde a Educação Infantil ao Ensino Médio.
Quadro 2 – Ampliação da obrigatoriedade do ensino nos últimos 50 anos. Fonte: Elaborada pela autora da pesquisa, Tubarão/SC, 2011.
O texto do Inciso II que determinava a “progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao Ensino Médio” foi substituído pela “progressiva universalização do Ensino Médio gratuito”. A Emenda Constitucional 14, no Art. 5º, que altera o Art. 60 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, determinando aos Estados, Municípios e Distrito Federal, que nos dez primeiros anos da Emenda destinassem não menos que 60% dos seus recursos (referentes ao Art. 212 da Constituição Federal) “[...] à manutenção e ao desenvolvimento do Ensino Fundamental, com o objetivo de assegurar a universalização de seu atendimento e a remuneração condigna do magistério”. (BRASIL, 1996a).
As questões de acessibilidade também são discutidas no Art. 208, no Inciso III, trazendo a indicação de uma educação especializada aos alunos com necessidades especiais que estejam matriculados “preferencialmente na rede regular de ensino.” (BRASIL, 1988). A LDB apresenta a proposta de reforçar a obrigação do Estado no cumprimento das políticas públicas de acesso referentes ao Direito à Educação da clientela com necessidades especiais. Discutidas entre os Artigos 58 e 60. (BRASIL, 1996b).
O Inciso IV, que tratava do “atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero à seis anos de idade” foi substituído através da Emenda Constitucional 53 por “Educação Infantil, em creche e pré escola às crianças até 5 (cinco) anos de idade”, denotando a troca do caráter assistencialista destinado às crianças, pela ênfase ao tratamento da infância como direito. (BRASIL, 2006a).
Os Incisos V, VI e VII, de certa forma acabam trazendo os mesmos teores no que se refere à importância na qualidade da educação. O Inciso V traz o “acesso aos mais elevados tipos de ensino, pesquisa e criação” (ensino superior), o inciso VI a oferta da Educação de Jovens e adultos, e por fim, o Inciso VII o atendimento do Ensino Fundamental em relação aos suportes didáticos como, “programas
suplementares de material didático escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde”. (BRASIL, 1988).
O Art. 210 apresenta indicações com relação a preocupação às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Básica definindo que, “Serão fixados conteúdos mínimos para o Ensino Fundamental, de maneira a assegurar formação básica comum e respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais”. (BRASIL, 1988).
O Art. 2131 que trata dos “recursos públicos serão destinados às escolas públicas, podendo ser dirigidos a escolas comunitárias, confessionais ou filantrópicas, definidas em lei” apresenta restrições no financiamento: o recebimento de recursos públicos desde que estas instituições comprovem não ter como objetivo o lucro, e, no caso de encerramento das atividades, a entrega do seu patrimônio a outras instituições de mesmo caráter ou ao Poder Público. E a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB de 1996 traz mais duas restrições em relação ao recebimento dos recursos: “que prestem contas ao Poder Público dos recursos recebidos e que não distribuam resultados, dividendos, bonificações, participações ou parcela de seu patrimônio, sob nenhuma forma de pretexto”. (PINTO; ADRIÃO, 2006, p. 28).
Dentre as especificações sobre os recursos destinados pelo poder público às instituições comunitárias, confessionais ou filantrópicas, ainda existem restrições para o uso desses recursos: a destinação de bolsas de estudos ao Ensino Médio e fundamental na ausência de vagas na rede pública para alunos que residem na localidade obrigando o Poder Público a investir na expansão dessas vagas. E às universidades a garantia de investimento no ensino, pesquisa e extensão. (BRASIL, 1988).
Já o Art. 214 Estabelece para o Estado e a União a implementação do Plano Nacional de Educação que define metas, estratégias e objetivos por um período de 10 anos com o objetivo de assegurar a manutenção e o desenvolvimento do ensino para o cumprimento do Direito à Educação.
1
2.3 DESCENTRALIZAÇÃO E MUNICIPALIZAÇÃO DO ENSINO
O dever do Estado para com o Direito à Educação, especificamente no que se refere às etapas da Educação Básica, foi fortemente impactado por alterações na sistemática do seu financiamento estabelecida na CF/88 por meio das Emendas Constitucionais 14 e 53 já mencionadas.
A Emenda Constitucional nº 14/96 redefiniu as competências educacionais dos estados e municípios, quando deu prioridade ao financiamento do Ensino Fundamental, e determinou a criação em cada estado e Distrito Federal o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef).
Para que isso se efetivasse também foi alterado o Art. 211 que contempla as competências e prioridades de atuação das três esferas de governo. Desde então, os municípios passaram a ser responsáveis pela Educação Infantil e pelo Ensino Fundamental (Parágrafo 2°). Os Estados e o Distrito Federal pelo Ensino Fundamental e Médio (Parágrafo 3°). (BRASIL, 1996a). E a União teve as suas responsabilidades melhor esclarecidas no que se refere ao sistema de ensino sob sua responsabilidade e na prestação de assistência técnica e financeira aos estados e municípios.
A Emenda Constitucional nº 14 também determinou a criação de um fundo contábil em cada unidade da federação, que passou a capturar e redistribuir grande parte dos recursos gerados pela vinculação constitucional em beneficio prioritário do Ensino Fundamental. Esse fundo contábil estadual conhecido como Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério (Fundef) foi regulamentados pela Lei 9.424. (BRASIL, 2010).
Segundo Lisete Regina Gomes Arelaro (1999, p. 28),
[...] a pretensão com a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério era grandiosa e seus quatro principais objetivos podem ser resumidos em promover 1) a justiça social, 2) uma política nacional de equidade, 3) a efetiva descentralização e a melhoria da qualidade da educação e 4) a valorização do magistério público.
O Fundef capturava 15% da receita das principais transferências de impostos da União para os estados e municípios e dos estados para os municípios,
e a redistribuía aos mesmos estados e municípios apenas proporcionalmente a sua responsabilidade com relação a matrícula do Ensino Fundamental.
Diante da responsabilidade de atuação dos Estados e Municípios, redefinidos pela EC/14, e o fato de que os recursos obtidos pelos fundos só voltaria em função de matrículas do Ensino Fundamental, os municípios tiveram a necessidade de obter mais recursos, visto que a Educação Infantil não tinha cobertura através do Fundef. O que caracterizou o aumento de matrículas no Ensino Fundamental acelerando o processo de municipalização.
Na medida em que os municípios procuraram recuperar a receita capturada pelo fundo via ampliação das matrículas no Ensino Fundamental, ocorreu um processo de municipalização do Ensino Fundamental, e em decorrência a transferência de recursos financeiros dos estados para os municípios. Principalmente nos municípios mais pobres como forma de receber novas fontes de recursos. (ARELARO, 2007).
A União “deveria"2
participar do Fundef complementando financeiramente os fundos estaduais que não alcançassem o valor por aluno/ano definido nacionalmente. Essa complementação deveria ser equivalente a 30% referentes aos 18% da receita de impostos do governo federal para o orçamento da educação. O não cumprimento pela União da Lei, no que se refere ao estabelecimento do valor aluno/ano ao longo do período de vigência do Fundef, afetou negativamente os cofres de estados e municípios das regiões Norte e Nordeste, que não receberam recursos federais para complementar os seus valores por aluno/ano inferiores aos dos fundos estaduais das outras três regiões brasileiras. (BASSI, 2009, p. 103).
O Parágrafo 4º do Artigo 211, que antes estabelecia a definição das formas de colaboração na organização de seus sistemas de ensino entre Estados e Municípios incluído pela EC/14 de 1996, foi alterada pela EC/59 em 2009, agora estabelecendo o regime de colaboração entre as três esferas (federal, estadual e municipal) no intuito de “assegurar a universalização do ensino obrigatório”. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 59, de 2009).
De qualquer forma,
O estabelecimento do número de alunos atendidos, como principal critério para a distribuição de recursos pode ser interessante, mas ele seria mais
2 “A União não complementou os fundos como deveria, o que conservou baixo o valor aluno e
conseqüente se aparecesse combinado com o disposto no Artigo 10, da LDB, na busca de formas de colaboração entre as esferas públicas, possibilitando não só propostas de municipalização de ensino mais responsáveis, mas Planos de Educação mais adequados. (ARELARO, 2007, p. 14).
Em 2007, com a substituição do Fundef pelo Fundo de Manutenção e desenvolvimento da educação básica e valorização dos profissionais da educação (Fundeb) a organização se modifica. (BRASIL, 2006a; 2007). O Fundo agora financia todas as modalidades da Educação Básica, o que inclui a Educação Infantil, e o Ensino Médio e suas modalidades muito embora com o mesmo sistema de distribuição, apenas acrescentando novos impostos na captura de recursos. Sendo que “a captura de recursos aumenta, assim como também aumenta o número de matrículas consideradas para recebimento da receita do Fundeb para redistribuição desses recursos.” (LOURENÇO, 2010, p. 8).
O Parágrafo 5º do Artigo 211, que reforça o atendimento prioritário a Educação Básica indicada no texto como ensino regular vem ao encontro da substituição do Fundef pelo Fundeb, que passa a ampliar a cobertura de recursos para a Educação Básica em 2007. (BRASIL, 2007).
O Fundeb passou a redistribuir os recursos para as matrículas de todos os níveis e modalidades da educação básica, atendida pelo governo estadual e municipal estritamente de acordo com as competências estabelecidas no artigo 211 da Constituição. Possibilitando que recursos do financiamento fossem redirecionados também para a Educação Infantil nos municípios e Ensino Médio no estado, além do financiamento do Ensino Fundamental.
3 MATRÍCULAS E POLÍTICA DE FUNDOS NA EDUCAÇÃO BÁSICA NO ÂMBITO DO MUNICÍPIO
Neste capítulo serão apresentadas as análises das tendências de matrículas da educação básica das redes públicas (federal, estadual e municipal) e privada no município de Florianópolis, utilizando dados extraídos dos Censos Escolares realizados pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Anísio Teixeira (Inep) entre 1996 e 2009.
O Censo Escolar é uma “pesquisa declaratória, que levanta informações estatístico-educacionais sobre as diferentes etapas e modalidades” de ensino em suas dependências administrativas, aferidas anualmente. (BRASIL, 2008, p. 4).
O capítulo também trará uma análise dos impactos da política de fundos, observada especificamente na movimentação das matrículas da rede pública estadual e municipal decorrente dos efeitos causados pelo financiamento da educação básica no município de Florianópolis.
3.1 EVOLUÇÃO DAS MATRÍCULAS POR NÍVEL DE ENSINO E DEPENDÊNCIA ADMINISTRATIVA NO MUNICÍPIO DE FLORIANÓPOLIS
O processo de evolução das matrículas em Florianópolis nos seus níveis de ensino entre os anos de 1996 e 2009 apresentadas na Tabela 1, demonstra uma variação descendente e significativa no montante em todos os níveis de ensino. No ano de 1996 os números correspondem a 103.875 mil matrículas, já, em 2009, o número reduz para 87.109, uma perda de 16,2%. A partir de 2007 essa mudança é aparente. Isso se deve ao novo modelo operacional e metodológico na coleta de dados do Censo escolar que neste ano atinge melhor precisão na coleta de dados através da implementação do sistema Educacenso3.
3
O Educacenso é um sistema informatizado de levantamento de informações que utiliza ferramentas
web na coleta, organização, transmissão e disseminação dos dados dos cadastros de escolas,
turmas, alunos e docentes de todos os estabelecimentos que oferecem qualquer uma das etapas e modalidades da educação básica. (BRASIL, 2007, p. 5).
Este novo sistema de coleta de dados alterou a data prevista de coleta para a última semana do mês de maio, a fim de ter maior precisão no fluxo regular de matrículas no ano letivo da realização do censo.
Tabela 1 - Evolução das matrículas da Educação Básica por nível de ensino no município de Florianópolis entre 1996 e 2009.
Ano Ed. Infantil Ens. Fund. Ens. Médio EJA Classes de Alfab. Ed. Esp. Total
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº % Nº 1996 12.792 12,32 58.936 56,74 21.127 20,34 10.476 10,09 516 0,50 28 0,03 103.871 1997 11.308 11,16 59.060 58,31 21.991 21,71 6.619 6,54 1.768 1,75 539 0,53 101.285 1998 3.015 3,28 58.384 63,61 22.225 24,21 6.832 7,44 919 1,00 411 0,45 91.786 1999 12.807 12,38 57.815 55,89 23.343 22,57 8.060 7,79 863 0,83 548 0,53 103.436 2000 13.827 13,58 57.087 56,08 22.447 22,05 6.941 6,82 700 0,69 785 0,77 101.788 2001 14.506 14,20 56.646 55,45 22.102 21,64 8.228 8,05 44 0,04 628 0,61 102.154 2002 15.192 15,10 55.549 55,22 20.445 20,33 8.843 8,79 49 0,05 510 0,51 100.588 2003 14.846 14,90 54.680 54,89 21.197 21,28 6.844 6,87 1.326 1,33 728 0,73 99.621 2004 16.463 15,74 54.093 51,73 24.109 23,06 9.354 8,95 0 - 546 0,52 104.565 2005 16.214 16,12 53.557 53,26 24.199 24,06 5.974 5,94 0 - 622 0,62 100.566 2006 16.024 16,48 52.865 54,36 20.587 21,17 7.245 7,45 0 - 532 0,55 97.253 2007 12.412 14,86 45.914 54,96 14.943 17,89 9.604 11,50 0 - 662 0,79 83.535 2008 13.196 14,91 49.549 55,98 15.965 18,04 9.355 10,57 0 - 443 0,50 88.508 2009 12.654 14,53 49.746 57,11 16.554 19,00 8.150 9,36 0 - 5 0,01 87.109
Outro fator que caracteriza esta queda acentuada se deve ao processo de inversão demográfica da população brasileira (afetando também a população de Florianópolis), particularmente nos grupos de idade de 0 a 4 anos e de 5 a 9 e 10 a 14 anos que ingressam no sistema de ensino (figuras 1 e 2). Na síntese de indicadores sociais do IBGE, esta inversão é evidente entre os anos de 2000 e 2010. A população infantil e adolescente brasileira aparenta considerável redução nos dez anos de observação4. (BRASIL, 2009).
Figura 1 – Distribuição da população de Florianópolis em 2000. Fonte: Brasil, 2011.
Figura 2 – Distribuição da população de Florianópolis em 2010. Fonte: Brasil, 2011.
Os programas de correção de fluxo escolar incentivados desde a
4 Não foi possível cruzar os grupos de idade populacional com os grupos de idade de matrículas, por não
LDB/1996, também agregam valores na queda de matrículas. Esses programas têm por intuito combater o fracasso escolar diretamente ligado aos índices de repetência (provocando elevada idade/série dos alunos), ingresso tardio e abandono temporário, diminuindo assim o processo de exclusão da/na escola. (BRASIL, 2000). A correção de fluxo tende a equilibrar a idade do aluno em ano/série que ele freqüenta, por exemplo, alunos de 06 anos no 1º ano do Ensino Fundamental, 07 anos, no 2º ano e assim sucessivamente.
3.1.1 Matrículas da Educação Infantil
A matrícula da Educação Infantil é atendida pela rede pública (federal, estadual, municipal) e rede privada. O atendimento de Educação Infantil é composto por atendimento à creches e pré-escolas. (Tabela 2).
A soma dessas matrículas manteve-se crescente de 1996 a 2006, passando de 12.702 para 16.024. Em 2007, ocorre uma abrupta redução para 12.412 matrículas voltando a crescer ligeiramente nos anos seguintes. Essa redução se deve a dois fatores: primeiro pelo cumprimento, a partir de 2006, da legislação que tornou obrigatória a matrícula das crianças de 06 anos de idade no 1º ano do Ensino Fundamental (e dispondo sobre a duração de 9 anos), até então matriculadas no último estágio da pré-escola, ou ainda não matriculadas, pela Lei 11.274/06. (BRASIL, 2006b). E, em seguida, em 2007, pela entrada em vigor do Educacenso, a nova metodologia de coleta de dados educacionais pelo INEP, que eliminou dos registros a “[...] duplicidade de matrículas em algumas cidades e regiões”. (BRASIL, 2008).
Tabela 2 – Total de matrículas da Educação Infantil por dependência administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009.
(continua)
ANO FEDERAL ESTADUAL MUNICIPAL PRIVADA TOTAL
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº
1996 180 1,41 2.105 16,46 3.646 28,50 6.861 53,64 12.702
(conclusão)
ANO
FEDERAL ESTADUAL MUNICIPAL PRIVADA TOTAL
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº 1998* 110 3,65 281 9,32 1.170 38,81 1.454 48,23 3.015 1999 284 2,22 2.164 16,90 5.360 41,85 4.999 39,03 12.807 2000 275 1,99 2.156 15,59 5.554 40,17 5.842 42,25 13.827 2001 280 1,93 1.969 13,57 6.107 42,10 6.150 42,40 14.506 2002 283 1,86 1.966 12,94 6.796 44,73 6.147 40,46 15.192 2003 278 1,87 1.917 12,91 7.002 47,16 5.649 38,75 14.846 2004 279 1,69 1.892 11,49 7.686 46,69 6.606 40,13 16.463 2005 274 1,69 2.062 12,72 7.574 46,71 6.304 38,88 16.214 2006 274 1,71 1.878 11,72 7.563 47,20 6.309 39,37 16.024 2007 276 2,22 1.498 12,07 6.557 52,83 4.081 32,88 12.412 2008 267 2,02 584 4,43 7.226 54,76 5.119 38,79 13.196 2009 273 2,16 160 1,26 7.316 57,82 4.905 38,76 12.654
Fonte: Censo escolar, 1997-2010, elaborada pela autora, 2011.
*Nota: apesar dos dados de 1998 não corresponderem ao comportamento das matrículas dos outros anos da série histórica forma mantido na tabela 2 e no gráfico 1 por se tratarem de dados oficiais e não alterarem as curvas de tendência das matrículas.
A rede federal por fim, manteve um atendimento pouco expressivo ao longo do período, em torno de 280 matrículas, uma média de 2% do atendimento total. O atendimento federal concentrou-se em um único estabelecimento de ensino: o Núcleo de Desenvolvimento Infantil, inserido no Campus da Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC, caracterizado como colégio de aplicação. Tem sua dependência administrativa o âmbito federal, por integrar-se ao sistema federal de ensino garantido pela LDB/96 Art.16.
O atendimento da rede privada, que em 1996 atendia perto de 54% de toda a Educação Infantil oscilou significativamente no período, porém foi perdendo matrículas e participação, a ponto de, em 2009 reduzir seu atendimento para 4.905 matrículas, o que representou 38,76% do total. Uma queda de 14,88% no número de matrículas.
A rede municipal por sua vez ampliou substancialmente seu atendimento superando o atendimento privado. No primeiro ano da série aquela era responsável por 28,5% do atendimento total. Progressivamente foi ampliando seu atendimento chegando praticamente a dobrar o número de matrículas, ficando responsável, em 2009, por 57,82% de todas as matrículas da Educação Infantil. Nos dois últimos
anos a rede municipal absorve a maior parte das matrículas da rede estadual.
O atendimento da rede estadual oscila em torno de 2.000 matrículas entre 1996 e 2006. Sua participação relativa no total das matrículas reduz-se de 21% em 1997 para 11,7% nesse período em função do crescimento da rede municipal. A partir de 2007 a rede estadual, ao transferir matrículas para a rede municipal, reduz sua participação para apenas 1,26%.
Essa transferência de matrículas da dependência administrativa estadual para a municipal foi induzida pela a mudança na política de fundos (Fundef para Fundeb), caracterizada, como política indutora do processo de municipalização do ensino, devido à definição de competências apresentadas no Art. 211 da Constituição definidas pela Emenda Constitucional nº 14/96.
§ 2º Os Municípios atuarão prioritariamente no Ensino Fundamental e na Educação Infantil.
§ 3º Os Estados e o Distrito Federal atuarão prioritariamente no Ensino Fundamental e médio. (BRASIL, 1996, grifo nosso).
O primeiro Fundef funcionou entre 1996 e 2006 e destinado a manutenção do Ensino Fundamental. No Fundeb, funcionando desde 2007, é ampliada a captura de receitas, mas destina-se não apenas para o Ensino Fundamental, e sim, para toda a Educação Básica de acordo com as competências designadas no Art. 211 para as três esferas de governo. Deste modo, este mecanismo induz os estados a promoverem a municipalização da Educação Infantil, uma vez que não receberá recursos do Fundeb para as matrículas deste nível de ensino. (DAVIES, 2006).
O gráfico 1 sintetiza a análise reunindo as curvas de tendência das redes privada municipal e estadual, no qual pode ser observado o crescimento significativo da rede municipal.
Gráfico 1 – Movimentação das matrículas da Educação Infantil entre 1996 e 2009. *Nota: apesar dos dados de 1998 não corresponderem ao comportamento das matrículas dos outros anos da série histórica foram mantidos na tabela 2 e no gráfico 1 por se tratarem de dados oficiais e não alterarem as curvas de tendência das matrículas.
Fonte: Censo Escolar 1996-2009, elaborado pela autora, 2011.
3.1.2 Matrículas do Ensino Fundamental
No Ensino Fundamental, a soma do atendimento realizado pelas quatro redes revela uma constante diminuição do número de matrículas a partir de 1998 até 2007, quando aparentemente estabiliza em torno de 49.500 matrículas. Essa tendência se deve basicamente a diminuição da população brasileira nos últimos dez anos dos grupos de idade de ingresso no Ensino Fundamental, conforme apresentados nas pirâmides populacionais apresentados na página 27. Também estão associadas a implantação de programas de correção de fluxo que diminuíram a distorção série/idade dos alunos e especificamente a modificações metodológicas (Educacenso) na captura de informações do censo escolar a partir de 2007.
As matrículas federais atendidas no colégio de aplicação, também concentrado na Universidade Federal de Santa Catarina-UFSC, assim como as matrículas federais na Educação Infantil, mantiveram-se em torno da 600 matrículas,
pouco mais de 1% do atendimento total.
Quanto às matrículas da rede privada, estas apresentam no período pesquisado uma oscilação praticamente estável em torno 25 e 29%, representando mais ou menos 1/4 das matrículas totais do município de Florianópolis no Ensino Fundamental.
Tabela 3 – Total de matrículas do Ensino Fundamental por dependência administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009.
ANO
FEDERAL ESTADUAL MUNICIPAL PRIVADA TOTAL
Nº % Nº % Nº % Nº % Nº 1996 657 1,11 29.620 50,26 11.887 20,17 16.768 28,45 58.932 1997 619 1,05 29.635 50,18 12.324 20,87 16.482 27,91 59.060 1998 613 1,05 29.693 50,86 12.887 22,07 15.191 26,02 58.384 1999 615 1,06 28.753 49,73 13.127 22,71 15.320 26,50 57.815 2000 626 1,10 28.594 50,09 13.311 23,32 14.556 25,50 57.087 2001 628 1,11 27.053 47,76 14.746 24,87 14.900 26,30 56.646 2002 0 0,00 26.108 47,00 14.635 26,35 14.806 26,65 55.549 2003 610 1,12 24.734 45,23 14.858 27,17 14.478 26,48 54.680 2004 623 1,15 24.565 45,41 15.062 27,84 13.843 25,59 54.093 2005 614 1,15 23.863 44,56 15.237 28,45 13.843 25,85 53.557 2006 599 1,13 23.506 44,46 15.936 30,14 12.824 24,26 52.865 2007 612 1,33 21.100 45,96 15.930 34,70 8.272 18,02 45.914 2008 644 1,30 20.763 41,90 15.461 31,20 12.681 25,59 49.549 2009 651 1,31 20.315 40,84 15.198 30,55 13.582 27,30 49.746
Fonte: Censo escolar, 1996-2009, elaborada pela autora, 2011.
No que concerne às matrículas do Ensino Fundamental relacionadas as dependências administrativas estatuais e municipais, estas apontam para a queda nas matrículas estaduais e um aumento nas matrículas municipais (gráfico 2). No ano de 1996 as matrículas estaduais totalizavam 29.620. Já no ano de 2009 as matrículas desta rede tinham no seu total 20.315, uma redução na participação de
50,26% para 40,84%. As matrículas municipais por sua vez, apresentaram um crescimento de 11.887 em 1996, para 15.936 em 2006, mantém-se no ano em torno desse número no ano seguinte e, a partir de então começam a diminuir possivelmente como efeito da inversão populacional.
Gráfico 2 – Movimentação das matrículas do Ensino Fundamental entre 1996 e 2009. Fonte: Censo Escolar 1996-2009, elaborado pela autora, 2011.
O crescimento da rede municipal corresponde a redução da rede estadual, evidenciando o processo de municipalização de ensino provocado pelo Fundef até 2006. Este processo de municipalização do Ensino Fundamental, assim como, na Educação Infantil, se deve ao funcionamento dos fundos contábeis no financiamento da educação em relação a captura de receitas e a distribuição em forma de matrículas tanto no Fundef, quanto no Fundeb.
3.1.3 Total de matrículas do Ensino Médio
No Ensino Médio não há oferta de matrículas municipais. As matrículas são ofertadas pelas redes federal estadual e privada. Na soma total o Ensino Médio oscila, mas mantém tendência crescente até 2005, atingindo 24.199. A partir de então sofre quedas sucessivas e importantes no atendimento. Não foi possível no
exíguo período do estudo identificar os fatores para tal comportamento.
Tabela 4 – Total de matrículas do Ensino Médio por dependência administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009.
ANO
FEDERAL ESTADUAL PRIVADA TOTAL
Nº % Nº % Nº % Nº 1996 2.809 13,30 10.445 49,44 7.973 37,27 21.127 1997 3.075 13,98 11.187 50,87 7.729 35,15 21.991 1998 1.763 7,93 12.523 56,35 7.939 35,72 22.225 1999 2.863 12,26 12.735 54,56 7.745 33,18 23.343 2000 2.511 11,19 12.708 56,61 7.228 32,20 22.447 2001 2.322 10,51 12.569 56,87 7.211 32,63 22.102 2002 1.947 8,70 13.422 59,94 7.023 31,36 20.445 2003 1.442 6,80 12.954 61,11 6.801 32,08 21.197 2004 1.054 4,37 16.294 67,58 6.761 28,04 24.109 2005 1.041 4,30 16.419 67,85 6.739 27,85 24.199 2006 870 4,23 13.088 63,57 6.629 32,20 20.587 2007 748 5,01 10.796 72,25 3.399 22.75 14.943 2008 507 3,18 10.068 63,06 5.390 33.76 15.965 2009 910 5,50 9.870 59,62 5.774 34.88 16.554
Fonte: Censo escolar (microdados), 1996-2009, elaborada pela autora, 2011.
A rede estadual decorrente da responsabilidade do Ensino Médio estabelecida na Constituição Federal de 1988 (Art. 211 parágrafo 3°) realiza o atendimento majoritário. Porém após um crescimento continuo até 2005, quando alcança 16.499 matrículas perto de 70% do atendimento total, recua ao menor patamar em 2009, para menos de 10.000 matrículas, mas mantendo ainda 60% do total do atendimento no Ensino Médio.
A rede privada no período oscilou e manteve-se em torno dos 35%.
Neste nível de ensino é apresentada na tabela 4 uma queda significativa na dependência administrativa federal, em 7,8%, e menor na privada, 2,39%.
Gráfico 3 – Movimentação das matrículas do Ensino Médio entre 1996 e 2009. Fonte: Censo Escolar 1996-2009, elaborado pela autora, 2011.
3.1.4 Total de matrículas da Educação de Jovens e Adultos do Ensino Fundamental
A tabela 5 apresenta o total de matrículas do EJA no Ensino Fundamental. Nesta modalidade não há atendimento da esfera federal.
Tabela 5 – Total de matrículas da educação de Jovens e Adultos do Ensino Fundamental por dependência administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009.
(continua)
ANO ESTADUAL MUNICIPAL PRIVADA TOTAL
Nº % Nº % Nº % Nº
1996 2.900 51,95 0 0 2.682 48,05 5.582
1997 1.877 46,94 675 16,88 1.447 63,18 3.999
1998 2.014 59,34 0 0 1.380 40,66 6.832
(conclusão)
ANO ESTADUAL MUNICIPAL PRIVADA TOTAL
Nº % Nº % ANO Nº % 2000 1.897 43,78 1,866 43,06 570 13,15 4.333 2001 2.834 66,11 399 9,31 1.054 24,59 4.287 2002 1.100 25,20 1.004 23,00 2.261 51,80 4.365 2003 625 17,00 2.285 62,14 767 20,86 3.677 2004 1.472 29,67 2.877 57,98 613 12,35 4.962 2005 1.154 34,18 1,601 47,42 621 18,39 3.376 2006 1.404 45,67 1.248 40,60 422 13,73 3.376 2007 2.481 54,24 1.615 35,31 478 10,45 4.574 2008 2.034 51,25 1.619 40,79 316 7,96 3.969 2009 1.700 49,64 1.469 42, 89 256 7,47 3.425
Fonte: Censo escolar, 1996-2009, elaborada pela autora, 2011.
Apesar da grande oscilação em torno das 4.000 matrículas não é possível uma tendência clara no comportamento dessa modalidade de EJA. Apenas a partir de 2007 parece se firmarem as tendências de redução do atendimento estadual e privado. E crescimento do municipal, o que indica também a incidência do processo de municipalização.
3.1.5 Total de matrículas da Educação de Jovens e Adultos do Ensino Médio
O comportamento das matrículas de EJA médio é semelhante o da modalidade de Ensino Fundamental tomando os três últimos anos, nota-se uma tendência de diminuição da rede estadual e crescimento da rede privada. Não há atendimento municipal nessa modalidade e apenas a partir de 2004 a rede federal começa a oferecer um pequeno número de matrículas.
Tabela 6 – Total de matrículas da educação de Jovens e Adultos do Ensino Médio por dependência administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009.
ANO FEDERAL ESTADUAL PRIVADA TOTAL
Nº % Nº % Nº % Nº 1996 0 0 1.309 26,75 3.585 73,25 4.894 1997 0 0 803 30,65 1.817 69,35 2.620 1998 0 0 1.120 32,58 2.318 67,42 3.438 1999 0 0 947 26,73 2.596 73,27 3.543 2000 0 0 1.151 44,13 1.457 55,87 2.608 2001 0 0 1.560 39,58 2.381 60,42 2.381 2002 0 0 1.379 30,79 3.099 69,21 4.478 2003 0 0 0 0 3.167 100 3.167 2004 30 0,68 1.409 32,08 2.953 67,24 4.392 2005 53 2,04 97 3.73 2.448 94,23 2.598 2006 78 1,87 2.541 60,92 1.552 37,21 4.171 2007 0 0 4.261 84,71 769 15,29 5.030 2008 147 2,73 3.674 68,21 1.565 29,06 29,06 2009 100 2,12 3.127 66,18 1.498 31,70 1.498
Fonte: Censo escolar, 1996-2009, elaborada pela autora, 2011.
3.1.6 Total de matrículas das Classes de Alfabetização
As classes de alfabetização segundo a definição do INEP (2011) corresponde a um “conjunto de alunos que são reunidos em sala de aula para aprendizagem da leitura e da escrita, durante um semestre ou um ano letivo. As classes de alfabetização formalmente não pertencem nem à pré-escola nem ao Ensino Fundamental”. Não estão previstas na legislação educacional que organiza o sistema de ensino. Pode-se dizer que as classes de alfabetização revelaram a incapacidade e as deficiências dos sistemas de ensino público e privado em alfabetizar as crianças que deveriam ingressar no Ensino Fundamental na idade adequada, e assim contribuíram junto com a prática da repetência para aumentar a
distorção série/idade. A vinculação da matrícula do Ensino Fundamental a um valor aluno/ano a partir de 1998 com a implantação do Fundef fez com que rapidamente desaparecesse esse tipo de atendimento. É por esse motivo que na rede estadual e municipal essas matrículas deixam de ser registradas a partir de 1999, provavelmente porque foram incorporadas ao Ensino Fundamental. A rede privada ainda manteve esse tipo de atendimento até 2006.
Tabela 7 – Total de matrículas das Classes de alfabetização por dependência administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009.
ESTADUAL MUNICIPAL PRIVADA TOTAL
ANO Nº % Nº % Nº % Nº 1996 22 4,26 24 4,65 470 91,09 516 1997 476 26,92 247 13,97 1.045 59,11 1.768 1998 127 13,82 48 5,22 744 80,96 919 1999 0 0 0 0 863 100 863 2000 0 0 0 0 700 100 700 2001 0 0 0 0 44 100 44 2002 0 0 0 0 49 100 49 2003 0 0 0 0 1.326 100 1.326
Fonte: Censo escolar, 1996-2009, elaborada pela autora, 2011.
3.1.7 Total de matrículas da Educação Especial
Na Educação Especial há uma oscilação significativa nas matrículas dos anos pesquisados (1996-2009), com a oferta variante na rede estadual, e apenas em 1998 é ofertada na rede municipal.
Tabela 8 – Total de matrículas da educação Especial por dependência administrativa no município de Florianópolis entre 1996 e 2009.
ANO ESTADUAL MUNICIPAL PRIVADA TOTAL
Nº % Nº % Nº % Nº 1996 4 14,29 0 0 24 85,71 28 1997 125 23,19 92 17,07 322 59,74 539 1998 92 22,38 0 0 319 77,62 411 1999 0 0 0 0 548 100 548 2000 0 0 0 0 786 100 786 2001 0 0 0 0 628 100 628 2002 0 0 0 0 510 100 510 2003 58 7,97 0 0 670 92,03 728 2004 10 1,83 0 0 536 98,17 546 2005 30 4,82 0 0 592 95,18 622 2006 0 0 0 0 151 100 151 2007 76 11,48 0 0 586 88,52 662 2008 49 11,06 0 0 394 88,94 443 2009 5 100 0 0 0 0 5
Fonte: Censo escolar, 1996-2009, elaborada pela autora, 2011.
A rede privada é quem oferta em o grande percentual de matrículas para a Educação Especial, referidas as matrículas a Associação de pais e amigos dos excepcionais (APAE). E em 2009 deixam de ser computadas por se tratarem de matrículas assistenciais e não de matrículas efetivamente da rede regular de ensino, garantidas através do Art. 208 da Constituição, parágrafo III que estabelece o “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino”. (BRASIL, 1988). E a partir dos anos de 1990 cria-se políticas nacionais de inclusão legitimando o Direito à Educação ao alunos com necessidades especiais.
1994 Declaração de Salamanca: Princípios, Política e Prática em Educação Especial proclamada na Conferência Mundial de Educação Especial sobre Necessidades Educacionais Especiais;
1988 Constituição Federal (Art. 208, III): estabelece o “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente
na rede regular de ensino”. (BRASIL, 1988).
1996 Lei 9.394 de dispões sobre as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. (BRASIL, 1996b);
1998 Parâmetros Curriculares Nacionais (Adaptações Curriculares) do MEC. (BRASIL, 1998);
1999 Decreto N.º 3.298 regulamenta a Lei n.º 7.853/89 dispõe sobre a Política Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. (BRASIL, 1999);
2000 Lei N.º 10.048 estabelece a prioridade de atendimento às pessoas com deficiência e determina que os veículos de transporte coletivo. (BRASIL, 2000);
2001 Plano Nacional de Educação. (BRASIL, 2001b);
2001 Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. (BRASIL, 2001c);
2001 Decreto n.º 3.956, que reconhece o texto da Convenção Interamericana para a "Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Pessoa Portadora de Deficiência" (Convenção da Guatemala). (BRASIL, 2001a); 2004 Decreto nº 5.296 que estabelece normas gerais e critérios básicos para