O retorno da Pangea
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(2) 90. O retorno da Pangea. 1.. INTRODUÇÃO Cientistas concluíram que existiu há 200 milhões de anos um único e imenso continente - pangea1 - e, em virtude de movimentos no interior da Terra houve deslocamentos que originaram os atuais continentes. Essa teoria defendida por Alfred Wegener, em 1912, só foi aceita pela comunidade científica nos anos 60 quando, pelo avanço científico-tecnológico, foi capaz de ser comprovada. Hoje, vivenciamos um retorno desse supercontinente, por óbvio que por razões distintas. Justifica-se tal assertiva pelo desaparecimento das fronteiras, das dificuldades impostas pelos acidentes geográficos naturais de outrora, da distância entre os países em razão das águas que os separam, etc. propiciadas pelo conhecimento e informação. O crescente avanço tecnológico, principalmente no último quartel do século XX, diminuiu distâncias, relativizou as seculares noções de tempo e espaço, aproximou e integrou mercados; assim, o fluxo de informações e capitais é a expressão máxima da nova face do capitalismo (HARVEY, 1994). O fenômeno responsável, por tal aproximação dos continentes, é a chamada globalização, embora alguns acreditem se tratar de algo novo é, tão antigo, que remonta aos nossos ancestrais. O fenômeno que se convencionou chamar de globalização, e que se desenvolve com especial intensidade nos dias atuais, a rigor não constitui algo inteiramente novo. Sua origem pode ser encontrada nos movimentos migratórios que os seres humanos foram obrigados a empreender ao longo da luta pela sobrevivência [...] A ancianidade desse périplo planetário é confirmada pela extraordinária dispersão geográfica do Homo sapiens, ancestral do homem moderno. (LEWANDOWSKI, 2004, p. 05).. A globalização tem sido explicada pela crescente integração dos mercados, dos transportes e dos meios de comunicação e sua nuance econômica é, sem dúvida, a mais poderosa; mas sua complexidade vai muito além da expansão dos mercados. É, acima de tudo, resultado de uma revolução científica e tecnológica, marcada indelevelmente pela quebra de paradigmas e pela relativização de conceitos e direitos decorrentes da própria evolução.. 1. Pangea significa toda a Terra.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102.
(3) Maria Teresa Fernandes Corrêa. Ao lado das faces econômica e tecnológica surgem os conflitos resultantes das demandas ambientais, narcotráfico, terrorismo, fundamentalismos, monopólios, patentes, propriedade intelectual, telecomunicações, bioética, etc. Também as desigualdades se tornam visíveis, mas há o aspecto volitivo de alguns agentes propugnando pela inserção dos excluídos, como forma de acelerar o desaparecimento dessas e, ao mesmo tempo, o surgimento de uma aldeia global. O aprofundamento das desigualdades não impede o mundo atual de caminhar rapidamente no sentido de sua unificação. Conseqüência simultânea do livrecomércio, da prática da divisão internacional do trabalho, do desenvolvimento das comunicações (circulação de pessoas, de bens e produtos culturais), o mundo todo se torna o quadro de referência econômico, técnico, cultural e político. Esta tendência parece irreversível e irresistível. (LEBIEZ apud IANNI, 2005, p. 49).. Os agentes internacionais que emergem desse processo, como as organizações não-governamentais, as empresas transnacionais, os blocos regionais questionam e esmaecem a figura do Estado-Nação.. 2.. O ESTADO E SEUS MODELOS DE ATUAÇÃO. O Estado, como agente organizador das mutações sociais, possui múltiplas formatações e, por isso, ainda não se encontrou uma definição perfeita e compatível com sua natureza racional, decorrente do instinto gregário do homem. Ao longo dos séculos, teóricos dos mais variados matizes ideológicas, buscaram sua gênese, por vezes explicando-o como resultado da força (física, intelectual ou psicológica); contrário sensu há os que acreditam ser o resultado de um pacto entre os cidadãos. A concepção de Estado Moderno nasce com as monarquias nacionais européias, surgidas nos séculos XV e XVI com a formatação absolutista, em que pese a necessidade da centralização do poder político, face a fragmentação política oriunda dos feudos, das corporações de ofício e da Igreja Católica. Nos séculos XVII e XVIII, em Inglaterra e França respectivamente, surge o Estado Liberal como premissa do sistema capitalista, a fim de assegurar o livre-comércio e a acumulação de capital da burguesia, que estava alijada dos direitos políticoeconômicos. No Estado Liberal prevaleceram as doutrinas do “Laissez-faire, laissez-passer” e do “État Gendarme”, ou seja, o papel do Estado se apresentava reduzido e sua interven-. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102. 91.
(4) 92. O retorno da Pangea. ção se dava apenas, em casos de conflitos, uma vez que o individualismo era reinante (MARCUSE, 1999). Nesse compasso, a sociedade era a grande responsável pela realização dos fins, que as castas sociais hegemônicas (mormente, a burguesia industrial) determinavam e a informação era detida por poucos. As chamadas revoluções burguesas desfraldaram as bandeiras dos direitos fundamentais, tais como a igualdade dos homens perante a lei, os direitos à vida, à liberdade, à propriedade e, ainda, a separação dos poderes e a representação política, como limitadores do poder do governante. Embora a informação já fosse mais propagada, ainda não alcançava a todos ficando restrito aos grupos de interesse e com uma imensa carga ideológica, com o objetivo de perpetuação dos anseios da classe dominante. A decadência do Estado Liberal tem seus motivos, no próprio sistema e assim; Os direitos fundamentais formalmente reconhecidos ficaram onde se queria deixá-los; na letra da lei sem força para se promoverem à ação vital da sociedade e do Estado. O Estado Social, que se seguiu ao Estado Liberal, pretendeu superar exatamente esse limite de realização do humano que a convivência política requer e que a justifica: da idéia de Justiça Social ao ideal de Justiça Social, e desse ideal à concretização de condições políticas, econômicas e jurídicas que garantissem a ‘realização’ dos direitos fundamentais havidos na base desse modelo de Estado. (ROCHA, 1994, p. 16).. Além da inoperância dos direitos fundamentais apregoados pela sociedade burguesa, as reivindicações operárias, a transformação da indústria individual em coletiva, o aparecimento de oligopólios também são apontados como fatores determinantes para o surgimento de um outro tipo de Estado. Nesta senda, o Estado Social buscou assegurar a efetividade dos direitos fundamentais e, para tanto, o Estado deveria imiscuir-se na sociedade e na economia2, regulando estoques, definindo políticas salariais e sociais, oferecendo serviços considerados essenciais a sobrevivência e dignidade de seus cidadãos, etc. Mas, também, o Estado Social entrou em falência, pois o sistema de serviços chancelados por ele se tornou oneroso e incapaz de atender as demandas sociais; ademais, os problemas econômicos dos países em desenvolvimento, como a inflação, a dívida externa e a excessiva intervenção nas empresas privadas resultaram na crise do Estado do Bem-Estar. 2 Após a Depressão de 1929, nos Estados Unidos, as teorias de John Maynard Keynes encontraram solo fértil e pode ser resumida na intervenção do Estado na economia, a fim de organizá-la e regulá-la conforme as demandas sociais.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102.
(5) Maria Teresa Fernandes Corrêa. Resultado das transformações políticas e econômicas engendradas na década de 80, a Nova Administração Pública passou a questionar a intervenção econômica dos governos e a eficácia de suas ações através das políticas públicas (FERLIE, 1999). Diante dos endividamentos dos Estados, com o escopo de fornecer aos seus cidadãos os chamados serviços sociais, diversos teóricos passaram a defender o retorno do Estado mínimo. Isso porque, conforme Marcuse (1999, p. 76) “o poder tecnológico tende à concentração do poder econômico”; ou seja, o surgimento de grandes empresas e novas ferramentas gerenciais vão exigir, um novo tipo de sociedade e um novo tipo de Estado. Surge, então, o Estado Neoliberal em que a premissa maior é a pouca intervenção na economia, passando de agente executor para regulador. A busca da estabilidade econômica, o fortalecimento das empresas privadas e a não distinção entre capital nacional e estrangeiro são as tônicas desse modelo de Estado. Mas, de acordo com Castells (2001, p. 178) “nem a tecnologia nem a administração poderia ter desenvolvido a economia global sozinha”, ou seja, países e organizações internacionais, como o Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial e Organização Mundial do Comércio foram os grandes protagonistas desse novo modelo de Estado. Perceptível é a vulnerabilidade dos Estados periféricos frente às economias centrais, ao forjarem as flexibilizações em suas legislações a fim de se tornarem integrantes da economia globalizada, como alvo de um desenvolvimento econômicosocial. Explicável, porque na visão de Aguillar (1999, p. 271) “a economia global agora é uma rede de segmentos econômicos interconectados que, juntos, têm um papel decisivo na economia de cada país - e de muitas pessoas”. Surge, então, a necessidade de os países se integrarem, através de tecnologias informacionais e novos modelos de gestão, a fim de competirem por mercados, matérias-primas, mão-de-obra e não soçobrarem diante dos países ricos.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102. 93.
(6) 94. O retorno da Pangea. A máquina estatal se transforma em uma empresa, com a busca de eficiência e planejamento de metas para a obtenção de resultados e lucros, a fim de sobreviver num mundo globalizado e manter sua soberania. Os negócios privados ou públicos são ditados pela velocidade de um modem ou pelo número de cadastros em um banco de dados e o cidadão assume o papel de consumidor, cliente ou investidor. Retorna ele ao Estado de Polícia da era da teleinformática. É o Estado Polícia de Rede: o Estado cujo paradigma será um programa da rede informatizada e não um documento político constitucional. (ROCHA, 1994, p. 17).. Assim, comuns são as notícias do Estado brasileiro investindo em inovações tecnológicas, cadastros multifinalitários, em softwares de gerenciamento financeiro e de pessoal, além de propagar a chamada inclusão digital, todos com a finalidade de aproximar-se tecnologicamente aos países ricos. Não obstante, o Brasil esteja no limbo, ou seja, possui políticas públicas características de um Estado do Bem-Estar e outras de matizes de um Estado Neoliberal; é notório um cristalino e franco caminho ao modelo de um Estado globalizado onde o acesso à informação se torna premente para o desenvolvimento econômico-social. Destarte, a hodierna concepção de Estado perpassa pela necessidade de disciplinar-se o comportamento humano sociedade, com o objetivo indelével da coexistência pacífica e do desenvolvimento. Assim, o Estado se apresenta como o grande agente capaz de alterar as condições macroeconômicas e sociais a fim de atender as necessidades dos diversos setores. O papel do Estado hoje é cristalino quanto ao impacto que exerce na vida dos seus cidadãos, bem como no desenvolvimento econômico, embora na propugnada ausência esteja, cada vez mais, presente; essa ausência-presença é percebida através das regulamentações interventoras e, que não se apresenta como um fato novo. O Estado é a instância de representação dos distintos grupos sociais e deve agir como o organizador das transformações que a sociedade exige; ao exercer a condução das políticas econômicas deve ser primordial a preocupação com o desenvolvimento econômico, de maneira igualitária em todo o território. Desde seu surgimento, o Estado intervém na vida econômica, mas é de repetir que, somente no século XX, que essa intervenção assumirá um papel fundamental no que tange ao desenvolvimento.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102.
(7) Maria Teresa Fernandes Corrêa. Ademais, “não há um modelo jurídico de políticas sociais distinto do modelo de políticas públicas econômicas” (BUCCI, 2006, p. 05), correspondendo ao paradigma do Estado intervencionista. O constitucionalismo moderno exige que os Estados criem diplomas legais, a fim de que haja uma interação com a sociedade na persecução dos objetivos propostos. As políticas públicas ganharam relevância nas sociedades e no seu desenvolvimento, tanto que qualquer teoria geral de política deve ter embasamento nas relações entre Estado, política, economia e sociedade; dessa forma pesquisadores das mais variadas áreas do conhecimento têm feito contribuições ao seu estudo. No longo processo de maturação do Estado, somente no século XX é que emerge a preocupação com as políticas públicas de inclusão. Nos Estados Unidos, a ciência política começou a estudar as políticas públicas já no início dos anos 50, sob o rótulo de policy science, ao passo que na Europa, particularmente na Alemanha, a preocupação com determinados campos de políticas só a partir do início dos anos 70, quando com a ascensão da socialdemocracia o planejamento e as políticas setoriais foram estendidos significativamente. Já no Brasil, estudos sobre políticas públicas foram realizados só recentemente, o que dificulta em razão da parca doutrina. O Estado na persecução de seus objetivos, impostos pela Lei Fundamental, age através das chamadas políticas públicas. Mas nem tudo o que a lei chama de política é política pública. Em seu sentido estrito a public policy não se resume em um único conceito, sua definição varia conforme a análise de seu processo de formulação. [...] a política pública é definida como um programa ou quadro de ação governamental, porque consiste num conjunto de medidas articuladas (coordenadas), cujo escopo é dar impulso, isto é, movimentar a máquina do governo, no sentido de realizar algum objetivo de ordem pública ou, na ótica dos juristas, concretizar um direito. (BUCCI, 2006, p. 14). Assim, a política pública tem status de ação estratégica, ou seja, possui elementos que caracterizam as ações necessárias e possíveis para, num futuro próximo, realizar os objetivos a que se propõe. O planejamento é o suporte necessário às políticas públicas, visto que podem ser caracterizadas como microplanos em que o Poder Público realiza objetivos determinados a fim de obter resultados.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102. 95.
(8) 96. O retorno da Pangea. A importância da estrutura e organização dos Estados tem sido fundamental para a consolidação da cidadania, pois influenciam e modelam não só os processos econômicos como também os agentes hegemônicos e as classes sociais a que se destinam. A análise das políticas públicas implementadas, seu sucesso ou fracasso, conduzem ao ataque e/ou diminuição dos problemas sociais decorrentes das desigualdades existentes sendo, portanto, de importância vital para a sociedade. Mas, o Estado nem sempre leva em consideração as características peculiares dos territórios para a implementação das políticas públicas; mister é a análise eficiente para a aplicação de uma estratégia capaz de dirimir as desigualdades. A presença de um Estado forte, com legitimidade política e capaz de impor a lei é condição sine qua non para um desenvolvimento econômico. Le caractère régulateur de l’espace politique (étatique) s’analyse donc selon trois aspects: l’idéologique (représentation technocratique du social); - le pratique (instrumental, moyen d’action); - le tactique-stratégique (aspect principal: subordination des ressources d’um territoire à des objectifs politiques)3. (LEFEBVRE, 1978, p. 311).. O aspecto ideológico pode ser explicado pela presença de técnicos, nos órgãos governamentais, que sejam capazes de identificar e pontuar os territórios carentes de desenvolvimento e, conscientes das peculiariedades, possam planejar as ações coerentes e necessárias para alavancar a economia local. Na realidade, é perceptível a adoção de modelos prontos, no nefasto hábito de acreditar que as ações utilizadas, com sucesso, em outros territórios atendem as necessidades dos demais. Sem levar em consideração os agentes envolvidos, a cultura, a educação, os aspectos geográficos, etc. Quanto à prática, as políticas públicas devem ser engendradas de forma extensiva, ou seja, criar mecanismos de avaliação das metas e objetivos propostos. Corrente é a criação de políticas públicas embasadas no imediatismo, sem a preocupação a longo prazo, com o fito político-partidário. Por último, a tática-estratégica, ou seja, a prevalência dos objetivos políticos do Estado, como promotor do bem-estar e do pleno desenvolvimento econômico-social.. 3 O caráter regulador do espaço político (estatal) se anlisa portanto de acordo com três aspectos: o ideológico (representação tecnocrática do social); - a prática (instrumental, meios de ação); - a tática-estratégica (aspecto principal: subordinação dos recursos de um território aos objetivos políticos). (Tradução da Autora).. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102.
(9) Maria Teresa Fernandes Corrêa. Mas a sujeição do território aos interesses eleitorais acabam por macular seu desenvolvimento. Em verdade, as políticas públicas de inclusão ao serem implementadas devem buscar a perenidade e, ao serem avaliadas buscar os ajustes necessários para sua mantença, ultrapassando as ideologias partidárias.. 3.. A SOCIEDADE INFORMACIONAL NO ESTADO BRASILEIRO É corrente que a informação gera conhecimento e esse, por sua vez, reduz as incertezas diante das tomadas de decisão, pelos agentes formuladores de políticas. Tanto é verdade, que a informação é considerada por diversos autores como condição sine qua non para o desenvolvimento econômico-social. Pertinente, pois, o poder da informação; Hoje passamos da produção de artigos empacotados para o empacotamento de informações. Antigamente invadíamos os mercados estrangeiros com mercadorias. Hoje invadimos culturas inteiras com pacotes de informações, entretenimentos e idéias. Em vista da instantaneidade dos novos meios de imagem e de som, até o jornal é lento. (MCLUHAN apud IANNI, 2005, p. 47).. Por óbvio que a informação adquire importância distinta para os diversos setores da sociedade; para os empresários tem o escopo de ser competitivo diante de seus concorrentes, com o oferecimento de novos produtos e serviços, na dinamização, comercialização e distribuição dos mesmos. O Estado utiliza-a como fonte para a identificação e análise das demandas sociais, a fim de elaborar e promover políticas públicas para minimizar as desigualdades existentes, em seu território; além de denotar a transparência exigida, hoje, pela sociedade. De outra banda, a circulação da informação traz à sociedade civil a possibilidade de desenvolvimento criativo e intelectual, além da disseminação de seus direitos e deveres para com seus pares e com o Estado. O acesso à informação dá aos homens a internalização de suas capacidades e competências, o joga no mundo do conhecimento, o prepara para os desafios inerentes diante da competitividade que o diferenciará, importa em decidir os rumos a tomar. No contexto de um mundo globalizado, o Brasil, reconheceu a importância da informação como geradora de desenvolvimento somente em 1996.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102. 97.
(10) 98. O retorno da Pangea. Após ampla discussão no âmbito do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia, em 2000, resultou o Livro Verde que reúne diretrizes e ações para a promoção do uso das novas tecnologias informacionais, em todos os setores da sociedade. O Programa Sociedade da Informação tenta preencher a lacuna desenhada, em nosso país, decorrente da negligência estatal em relação às técnicas informacionais como vetor para o desenvolvimento, advindo como objetivo primeiro a inclusão digital de todos, sem exceção; embora autores considerem que o Estado não se mostre capaz para tal enfrentamento. Dessa forma, os desafios que se apresentam são inúmeros, pois se faz necessário dirimir o atraso e isolamento tecnológico, dos quais os brasileiros foram vitimados. Sendo que o maior deles, salvo melhor juízo, é fazer com que o brasileiro comum4 tenha acesso às novas tecnologias. O cerne do programa governamental é fazer com que o maior número de brasileiros tenham acesso à internet e, assim à informação, mas emerge uma questão fundamental: o Brasil, conforme estatísticas de organizações intergovernamentais, está entre os países que possuem índices alarmantes de analfabetos e também dos chamados analfabetos funcionais. Portanto, não se terá uma sociedade informacional brasileira sem antes combater o analfabetismo em todas as suas formas; a educação de qualidade ainda é o caminho para o desenvolvimento. Não obstante a existência de projetos de Alfabetização, seus resultados são tímidos, pois também os professores da rede pública de ensino necessitam conhecer o “mundo digital” e apreender a metamorfose que o processo ensino-aprendizagem sofreu e sofre, com as inovações tecnológicas. Ademais, como incluir o brasileiro assalariado? Em que a aquisição de um computador é considerado artigo supérfluo, mesmo diante do programa “computador para todos”? E ainda, como se dará o acesso à internet? A linha telefônica, mesmo com o desaparecimento da assinatura básica mensal, perde em custo/benefício para o aparelho celular pré-pago.. 4. Na expressão “brasileiro comum”, a autora quer expressar aqueles que se encontram fora do meio acadêmicocientífico e os que não pertencem à classe média.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102.
(11) Maria Teresa Fernandes Corrêa. Não basta equipar as escolas públicas com laboratórios de informática, em que há uma dúzia de computadores para um universo de trezentos discentes e apregoar que os alunos estão num franco processo de inclusão digital. Falar em educação de qualidade, enquanto não há nas escolas projetores multimídia, quadros digitais e outras tecnologias educacionais é estar aquém de uma formação escolar competitiva e compatível aos países ricos. E, como “garimpar” as informações fidedignas? É de nosso conhecimento a gama de informações disponíveis na rede mundial de computadores, bem como a existência e os constantes crimes virtuais; como controlar os que utilizam a rede para divulgar mensagens de racismo, os sítios de pedofilia ou, ainda, os que ensinam a montar bombas? São exemplos de questões prementes que a novel sociedade informacional precisa discutir. O acesso à informação deve estimular, enriquecer a formação intelectual do cidadão e, enquanto houver na rede mundial dados que desconsiderem princípios éticos, distorções dos fatos reais, veiculação de mensagens de ódio e racismo, não há como se atingir um desenvolvimento pleno. Os números são animadores, mas ainda ficam a mercê do ideal propugnado pelo Livro Verde (BRASIL, 2000), em que a alfabetização digital é apontada como a grande alavanca da economia. Em pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, quanto ao acesso à internet, realizado em 2005, se denota que apenas “21% das pessoas acessaram a internet de algum lugar” (p. 35) e que, [...] o nível de instrução dos usuários da internet foi acentuadamente mais elevado que o das pessoas que não utilizaram a rede. O número médio de anos de estudo dos usuários da internet foi de 10,7 anos, enquanto o das pessoas que não utilizaram esta rede ficou em 5,6 anos. (p. 36).. Parece, pois, estar longe a democratização, tanto em seu aspecto aquisitivo, intelectual quanto de celeridade nos processos informacionais. A capacitação tecnológica dos recursos humanos, mormente no setor público, deve ser contínua e eficiente; mas não nos moldes hoje adotados, em que o cidadão uti-. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102. 99.
(12) 100. O retorno da Pangea. liza um sítio eletrônico para aquisição de certidões ou agendamentos5 quaisquer, que depois precisam ser validados por meio telefônico ou pessoalmente. Por outro lado, o acesso aos sítios eletrônicos de alguns órgãos governamentais dão a possível mostra de poder que os incluídos digitais podem exercer e a prova factual foi atestada no sítio do Senado Federal, em dezembro de 2007. Milhões de correios eletrônicos foram enviados aos Senadores da República, pelos brasileiros, a fim de demonstrar seu descontentamento com a incidência da CPMF6 e, que acabou por resultar em sua não aprovação. É de repetir, que a democratização relacionada à informação está longe de atingir sua plenitude, em nosso país, enquanto houver atitudes despóticas como a veiculada, em matéria da Zero Hora de 06/02/2008: Já a Presidência da República decidiu excluir do Portal da Transparência, da Controladoria-Geral da União (CGU), as informações sobre gastos com alimentação das residências oficiais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva bancados com cartões corporativos. (p. 06).. 4.. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante das diversas concepções de Estado, no iter da humanidade é presente a sedimentação do sistema capitalista, como força motriz das sociedades, mesmo quando o Estado assume posições interventoras. Nesta senda, O Estado, ao atuar como agente de implementação de políticas públicas, enriquece suas funções de integração e de modernização e de legitimação capitalista. Essa atuação, contudo, não conduz à substituição do sistema capitalista por outro. Pois é justamente a fim de impedir tal substituição - seja pela via da transição para o socialismo, seja mediante a superação do capitalismo - que o Estado é chamado a atuar sobre e no domínio econômico. (GRAU, 1991, p. 61).. A política neoliberal, adotada por vários países, é o braço político do capitalismo globalizado e impinge a esses países novas atitudes com vistas à inserção num mercado competitivo, no qual a informação se apresenta como vital para sobrevivência. A convergência tecnológica, resultante do processo de globalização, elimina os limites impostos pelas demarcações de fronteiras oriundas de Tratados, na socieda-. 5. Aqui a autora se refere ao sítio do INSS, em que a burocratização e a demora ainda é presente. De outra banda, há que se referenciar a iniciativa da Justiça Federal, quanto ao e-proc, ou seja, os processos eletrônicos, em que a celeridade e o abandono do processo físico é a grande tônica e merece aplauso dos operadores do Direito. 6 Não se pode afirmar que a rejeição da Emenda Constitucional, pelos Senadores, foi por respeito aos mais nobres ditames políticos, mas é fato que o recebimento diário de milhares de correios eletrônicos fizeram com que conhecessem de perto a opinião de seus eleitores diante da imagem desgastada, por escândalos, daquela casa legislativa.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102.
(13) Maria Teresa Fernandes Corrêa. de internacional e aproxima, paulatinamente, homens de diversas culturas e os brasileiros, embora de forma tímida, se posicionam nesse contexto. O investimento em tecnologia e ciência deve ser a pauta, em países emergentes, através de políticas públicas a fim de compor o grupo seleto de países em que a qualidade de vida de seus cidadãos está atrelada ao resultado do conhecimento produzido. A crescente transposição para uma sociedade informacional resulta no retorno à pangea alterando as relações espaço-tempo, em virtude da melhoria dos sistemas de comunicação e do acesso imediato às informações. Por outro lado, a informação se tornou insumo para planejar e decidir e, por isso, deve estar disponível a todos, decorrendo o direito de uso e não de propriedade (MASUDA, 1996). Deve partir do Estado, ações que objetivem a sinergia entre informação e conhecimento, a fim de ser competitivo e eficiente; mas deve começar pela transparência de seus órgãos governamentais. O povo brasileiro somente atingirá sua entrada na sociedade global, quando for detentor de informações relevantes e, quando o próprio governo, em todos os três poderes, for cristalino em suas atitudes. A existência de políticas públicas brasileiras referentes à informação e à inclusão digital são, em primeira instância, extremamente salutares, mas acabam por forjar a existência de uma sociedade excludente e desigual, pois alguns dos problemas seculares parecem ter sido “deletados” da agenda política, como o analfabetismo, a reforma agrária, a saúde pública, a segurança, etc. Necessário, pois, o enfrentamento de antigas questões para que a tão propagandeada inclusão digital seja democrática e igualitária e dessa decorra o fortalecimento de sua capacidade interna de gerar o conhecimento e a tecnologia.. REFERÊNCIAS AGUILLAR, Fernando Herren. Direito econômico e globalização. In: SUNFELD, Carlos Ari; VIEIRA, Oscar Vilhena (Coord). Direito global. São Paulo: Max Limonad, 1999, 309 p. BRASIL. Ministério da Ciência e Tecnologia. Sociedade da Informação no Brasil: Livro Verde. Brasília: Ministério da Ciência e Tecnologia, 2000. Disponível em: <http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/18940.html>. Acesso em 02 dez. 2007, 231 p.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102. 101.
(14) 102. O retorno da Pangea. BUCCI, Maria Paula Dallari (Org). Políticas Públicas: reflexões sobre o conceito jurídico. São Paulo: Saraiva, 2006, 310 p. CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede - a era da informação: economia, sociedade e cultura. v. 1. São Paulo: Paz e Terra, 2001, 698 p. FERLIE, Ewan. et. al. A nova administração pública em ação. Brasília: UNB/ENAP, 1999, 468 p. HARVEY, David. A condição pós-moderna. São Paulo: Ed. Loyola, 1994, 349 p. GRAU, Eros Roberto. A ordem econômica na Constituição de 1988 (interpretação e crítica). São Paulo: Revista dos Tribunais, 1991, 392 p. IANNI, Octavio. A Sociedade Global. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, 196 p. IBGE. Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio - Acesso à Internet e posse de telefone móvel celular para uso pessoal, 2005. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 2007. Disponível em: <www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/acessoainternet/internet.pdf>. Acesso em 02 jan. 2008. LEFEBVRE, Henri. De l’État 4. Les Contradictions de l’État Moderne. Paris: Union Générale d’Editions, 1978, 467 p. LEWANDOWSKI. E. R. Globalização, regionalização e soberania. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2004, 344 p. MARCUSE, Hebert. Tecnologia, guerra e fascismo. São Paulo: Editora da Unesp, 1999, 372 p. MASUDA, Yoneji. A sociedade da informação como sociedade pós-industrial. Tradução de Kival Chaves Weber e Angela Melim. Rio de Janeiro: IPEA, Brasília, Distrito Federal: PNUD, 1996, 210 p. ROCHA, Cármen Lúcia Antunes. Princípios Constitucionais da Administração Pública. Belo Horizonte: Del Rey, 1994, 308 p. ZERO HORA. Ano 44, n. 15.498, edição de 06 jan. 2008.. Revista de Direito • Vol. XI, Nº. 14, Ano 2008 • p. 89-102.
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