O Capital no Século 21
Thomas Piketty
Jandui Tupinambás iii
Jandui Tupinambás v
Considerações
Muitos líderes mundiais – tendo em Lula um de seus expoentes – e diversos intelectuais colocam a questão da distribuição mundial de renda no centro da solução da crise que vive toda população mundial atualmente. A concentração de riquezas no século XXI – que já atingiu níveis semelhantes aos do início do século XX - com tendência a se concentrar ainda mais, poderá levar a humanidade a uma crise generalizada a ponto de comprometer todo o avanço da humanidade nos últimos 300 anos. Piketty sinaliza um caminho e dá sugestões de como poderíamos redistribuir a renda de forma que o retorno do capital não ultrapassasse a taxa de crescimento da produção – ponto central da discussão presente neste trabalho – e assim, mais que estancar a concentração de renda, voltássemos a redistribui-la sem a necessidade de passarmos por um período de sofrimentos ou guerras como foi o caso do século passado onde a renda foi redistribuída de forma mais humanitária.
Para tornar a leitura mais fácil, omiti todas as referências e pesquisas que corroboram as afirmações de Piketty. As referências podem ser acessadas em português aqui:
http://delubio.com.br/biblioteca/wp-content/uploads/2015/02/O-Capital-no-Seculo-XXI-Thomas-Piketty-2.pdf
O resumo foi feito de forma livre, mas sempre tentando ser fiel às ideias de cada tópico. O livro é dividido em Partes, Capítulos e Sessões. São 208 sessões. Cada uma ganha seu resumo. Caso o texto que você esteja lendo se encontre em formato itálico significa que você estará lendo uma opinião minha ou um cenário criado por mim para esclarecer melhor alguns conceitos importantes apresentados por Piketty.
Jandui Tupinambás vii
Sumário Introdução ... 1
1 Um Debate Sem Dados? ... 1
2 Malthus, Young e a Revolução Francesa ... 2
3 Ricardo – Princípio da Escassez ... 3
4 Karl Marx – Princípio da Acumulação Infinita ... 3
5 De Marx para Kuznets ou o Apocalipse dos Contos de Fada ... 3
6 A Curva de Kuznets: Boas Notícias em Tempos de Guerra Fria ... 4
7 Colocando a Questão da Distribuição de Volta no Coração da Análise Econômica ... 4
8 As Fontes de Dados Usadas Neste Livro ... 5
9 Os Principais Resultados Deste Estudo ... 5
10 Forças Divergentes e Convergentes ... 6
11 O fator Fundamental da Divergência: r > g ... 6
12 Os Limites Históricos e Geográficos Deste Estudo ... 7
13 A Estrutura Teórica e Conceitual... 9
14 Esboço do Livro ... 9
Capítulo 1 - Renda e Produção ... 13
15 A Divisão Capital-Trabalho no Longo Prazo: Não Tão estável ... 13
16 A Ideia de Renda Nacional ... 14
17 O Que é Capital? ... 14
18 Capital e Riqueza ... 15
19 Razão Capital / Renda ... 15
20 A Primeira Lei Fundamental do Capitalismo: α = r * β ... 16
21 Contas Nacionais: Uma Construção Social em Evolução ... 17
22 A Distribuição Global da Produção ... 17
23 De Blocos Continentais Para Blocos Regionais ... 18
24 Desigualdade Global: de 150 a 3.000 Euros por Mês ... 18
25 A Distribuição Global da Renda é Mais Desigual do Que o PIB Entre os Países ... 19
26 Quais Forças Favorecem a Convergência? ... 19
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27 O Crescimento mundial ao longo dos tempos ... 20
28 A Lei do Crescimento Cumulativo ... 21
29 Os Estágios do Crescimento Demográfico ... 22
30 Crescimento Demográfico Negativo? ... 22
31 Crescimento como um fator de Equalização ... 23
32 Os Estágios do Crescimento Econômico ... 23
33 O que Significa um Aumento de 10 vezes no Poder de Compra?... 24
34 Crescimento: Uma Diversificação do Estilo de Vida ... 24
35 O Fim do Crescimento? ... 25
36 Um Crescimento de 1% Implica em Mudanças Sociais Importantes ... 26
37 A Posteridade do Período Pós-Guerra: Entrelaçando Destinos Além-Mar ... 26
38 As Duas Curvas de Gauss do Crescimento Global ... 27
39 A Questão da Inflação ... 28
40 A Enorme Estabilidade Monetária dos Séculos XVIII e XIX ... 28
41 O Significado do Dinheiro na Literatura Clássica ... 28
42 A Perda das Relações Monetárias no Século XX ... 29
Capítulo 3 – A Metamorfose do Capital ... 31
43 A Natureza da Riqueza: da Literatura para a Realidade ... 31
44 A Metamorfose do Capital na Grã-Bretanha e França ... 31
45 A Ascensão e Queda do Capital Estrangeiro ... 32
46 Renda e Riqueza: Algumas Ordens de Grandeza ... 32
47 Riqueza Pública, Riqueza Privada ... 33
48 Riqueza Pública em uma Perspectiva Histórica ... 33
49 Grã-Bretanha: Dívida Pública e a Revitalização do Capital Privado ... 34
50 Quem Lucra com a Dívida Pública? ... 34
51 Os Altos e Baixos da Equivalência de David Ricardo ... 35
52 França: Um Capitalismo Sem Capitalistas no Período Pós-Guerra ... 36
Capítulo 4 – Da Velha Europa Para o Novo Mundo ... 36
53 Alemanha: O Capitalismo “Reno” e Propriedade Social ... 36
54 Choques do Capital no Século Vinte ... 37
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56 O Novo Mundo e o Capital Estrangeiro ... 38
57 Canadá: Propriedade da Coroa por Longo Tempo ... 39
58 O Novo e o Velho Mundo: A Importância da Escravidão ... 39
59 Capital Escravo e Capital Humano ... 39
Capítulo 5 – A História da Relação Capital / Renda ... 39
60 A Segunda Lei Fundamental do Capitalismo β = s / g ... 40
61 Uma Lei de Longo Prazo ... 40
62 O Capital Está de Volta aos Países Ricos a Partir dos Anos 70 ... 40
63 Além das Bolhas: Baixo Crescimento, Altas Taxas de Poupança ... 41
64 Os Dois Componentes da Poupança Privada ... 41
65 Bens Duráveis e Bens de Consumo ... 42
66 O Capital Expresso em Anos de Rendimento Disponível ... 42
67 A Questão das Fundações e Outras Organização de Capital ... 43
68 A Privatização das Riquezas nos Países Ricos ... 43
69 A Histórica Recuperação dos Preços dos Ativos ... 43
70 Capital Nacional e Ativo Líquido Estrangeiro nos Países Ricos ... 43
71 Como Ficará a Razão Capital / Renda no Século XXI? ... 44
72 O Mistério do Valor da Terra ... 44
Capítulo 6 – A Divisão Capital-Trabalho no Século XXI ... 44
73 Da Razão Capital / Renda Para a Divisão Capital-Trabalho ... 45
74 Fluxos de Renda: Mais Difícil de Estimar do que o Capital ... 45
75 A Noção do Retorno Puro do Capital ... 45
76 A Participação do Capital na Renda numa Perspectiva Histórica ... 45
77 O Retorno do Capital no Início do Século XXI ... 46
78 Ativos Reais e Nominais ... 46
79 O Capital é Usado Para Quê? ... 46
80 A Noção de Produtividade Marginal do Capital ... 47
81 Capital em Excesso Mata o Retorno do Capital ... 48
82 Além de Cobb-Douglas: a Questão da Estabilidade da Divisão Capital-Trabalho ... 48
83 Substituição do Capital-Trabalho no Século XXI: Elasticidade Maior do que 1 ... 49
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85 O Capital Humano é Ilusório? ... 50
86 Mudanças de Médio Prazo na Divisão Capital-Trabalho ... 50
87 De Volta para Marx e a Queda do Lucro ... 51
88 Além do Debate “Two Cambridges” ... 51
89 A Volta do Capital a um Regime de Baixo Crescimento ... 52
90 Os Caprichos da Tecnologia ... 52
Capítulo 7 – Desigualdade e Concentração: Considerações Preliminares ... 55
91 A Lição de Vautrin – Personagem de Balzac ... 55
92 A Pergunta Chave: Trabalho ou Herança? ... 55
93 Desigualdades em Relação ao Capital e Trabalho ... 56
94 Capital: Sempre Mais Desigualmente Distribuído do que o Trabalho ... 56
95 Desigualdades e Concentração: Algumas Ordens de Grandeza ... 56
96 Classes Baixa, Média e Alta ... 57
97 Luta de Classes ou Luta do 1%? ... 57
98 Desigualdades Relacionadas ao Trabalho: Desigualdade Moderada? ... 57
99 Desigualdades Relacionadas ao Capital: Desigualdade Extrema ... 58
100 A Grande Inovação: A Classe Média Patrimonial ... 58
101 Desigualdade da Renda total: Dois Mundos ... 59
102 O Problema dos Índices Sintéticos ... 59
103 O Véu Casto das Publicações Oficiais ... 60
104 De Volta às “Tabelas Sociais” e à Aritmética Política ... 60
Capítulo 8 – Dois Mundos ... 61
105 Um Caso Simples: A Redução da Desigualdade na França no Século XX ... 61
106 A História da Desigualdade: Uma História Política Caótica ... 61
107 De Uma “Sociedade de Rentistas” Para Uma “Sociedade de Gerentes” ... 61
108 O Mundo Diferente dos 10% Mais Ricos ... 62
109 Os Limites do Imposto de Renda ... 62
110 O Caos dos Anos de Entre Guerras ... 63
111 O Choque das Temporalidades ... 63
112 O Aumento da Desigualdade na França a Partir de 1980 ... 64
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114 A Explosão da Desigualdade nos EUA após 1980 ... 65
115 O Aumento da Desigualdade Causou a Crise Financeira? ... 66
116 A Ascensão dos Super Salários ... 66
117 Coabitação nos 1% Mais Ricos ... 67
Capítulo 9 – Desigualdade na Renda do Trabalho ... 69
118 Desigualdade Salarial: Uma Corrida Entre Educação e Tecnologia? ... 69
119 Os Limites do Modelo Teórico: O Papel das Instituições ... 70
120 Escalas Salariais e o Salário Mínimo ... 70
121 Como Explicar a Explosão da Desigualdade nos EUA? ... 71
122 A Ascensão do Supergestor: Um fenômeno Anglo-Saxão ... 71
123 Europa: Mais Desigual do que o “Novo Mundo” em 1900-1910 ... 73
124 Desigualdades nas Economias Emergentes: Menor do que nos EUA? ... 73
125 A Ilusão da Produtividade Marginal ... 74
126 A Decolagem dos Supergestores: Uma Força Poderosa de Divergência ... 75
Capítulo 10 – Desigualdade da Propriedade do Capital ... 75
127 Riqueza Hiperconcentrada: Europa e América ... 75
128 França: Um Observatório da Riqueza Privada ... 75
129 As Metamorfoses de Uma Sociedade Patrimonial ... 76
130 Desigualdade do Capital na Europa da “Belle Époque” ... 77
131 A Emergência da Classe Média Patrimonial ... 78
132 Desigualdade de Riqueza na América ... 79
133 Os Mecanismos da Força Divergente: r Versus g na História ... 80
134 Porque o Retorno do Capital é Maior Que a Taxa de Crescimento? ... 81
135 A Questão da Preferência Temporal ... 83
136 Existe Um Equilíbrio de Distribuição? ... 84
137 O Código Civil e a Ilusão da Revolução Francesa ... 84
138 Pareto e as Ilusões da Desigualdade Estável ... 85
139 Porque a Desigualdade de Riqueza não Retornou aos Níveis do Passado ... 86
140 Algumas Explicações Parciais: Tempo, Impostos e Crescimento ... 86
141 Século XXI: Ainda Mais Desigual Que o Século XIX? ... 87
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142 A Herança Flui a Longo Prazo ... 88
143 Fluxo Fiscal e Fluxo Econômico ... 89
144 As Três Forças: a Ilusão do Fim da Herança ... 89
145 A Mortalidade no Longo Prazo ... 90
146 A Riqueza Envelhece Com a População: o Efeito μ X m ... 91
147 Riqueza dos Mortos e Riqueza dos Vivos ... 91
148 Os Cinquentões e os Velhos de Oitenta anos: Idade e Fortuna na Belle Époque... 92
149 O Rejuvenescimento da Riqueza em Virtude da Guerra ... 92
150 Como o Fluxo de Herança Irá Evoluir no Século XXI? ... 92
151 Do Fluxo Anual de Herança Para Estoque de Riqueza Herdada ... 93
152 De Volta ao Vautrin de Balzac ... 93
153 O Dilema de Rastignac ... 94
154 A Aritmética Básica dos Rentistas e Gestores ... 94
155 A Sociedade Patrimonial Clássica: O Mundo de Balzac e Austen ... 95
156 Extrema desigualdade da riqueza: Uma Condição da Civilização Em Uma Sociedade Pobre? ... 95
157 Extremismo Meritocrático Nas Sociedades de Ricos ... 95
158 A Sociedade dos Pequenos Rentistas ... 96
159 O Rentista, Inimigo da Democracia ... 97
160 O Retorno da Riqueza Herdada: Um Fenômeno Europeu ou Global? ... 98
Capítulo 12 – Desigualdade Global da Riqueza no Século XXI ... 99
161 A Desigualdade do Retorno do Capital ... 99
162 A Evolução do Ranking da Riqueza Global ... 99
163 Do Ranking dos Milionários Para os “Relatórios da Riqueza Global” ... 100
164 – Herdeiros e Empreendedores nos Rankings da Riqueza... 101
165 – A Hierarquia Moral da Riqueza ... 101
166 – O Retorno do Capital nas Dotações Universitárias ... 102
167 – Qual é o Efeito da Inflação na Desigualdade do Retorno do Capital? ... 103
168 O Retorno Sobre os Fundos Soberanos: Capital e Política... 104
169 Os Fundos Soberanos Dominarão o Mundo? ... 104
Jandui Tupinambás xiii
171 Divergência Internacional, Divergência Oligárquica ... 105
172 Os Países Ricos na Verdade São Pobres? ... 105
Capítulo 13 – Um Estado Social Para o Século XXI ... 108
173 A Crise de 2008 e o Retorno do Estado ... 108
174 O Crescimento do Estado Social no Século XX ... 109
175 Redistribuição Moderna: Uma Lógica de Direitos ... 109
176 Modernizar o Estado Social e não o Desmantelar ... 110
177 As Instituições Educativas Possibilitam a Mobilidade Social? ... 111
178 O Futuro das Aposentadorias: as Contribuições Previdenciárias em Época de Fraco Crescimento ... 111
179 O Estado Social nos Países Pobres e Emergentes ... 112
Capítulo 14 – Repensando o Imposto de Renda Progressivo ... 113
180 A Questão da Tributação Progressiva ... 113
181 O Imposto Progressivo no Século XX: Um Efêmero Produto do Caos ... 114
182 Tributação Progressiva na Terceira República ... 114
183 Tributação Confiscatória da Alta Renda: Uma Invenção Americana ... 115
184 A Explosão dos Salários dos SuperGerentes: O Papel da Tributação ... 115
185 Repensando a Questão da Taxa Marginal Superior ... 116
Capítulo 15 – Um Imposto Global Sobre o Capital ... 117
186 Um Imposto Global Sobre o Capital: Uma Utopia Útil ... 117
187 Transparência Democrática e Financeira ... 117
188 Uma Solução Simples: Transmissão Automática de Informações Bancárias ... 118
189 Qual o Propósito de um Imposto Sobre o Capital? ... 118
190 Um Projeto para Tributação da Riqueza na Europa ... 119
191 Tributação de Capital Em Uma Perspectiva Histórica ... 119
192 Formas Alternativas de Regulação: Protecionismo e Controles de Capital ... 120
193 O Mistério da Regulação do Capital Chinês ... 121
194 A Redistribuição das Receitas do Petróleo ... 121
195 Redistribuição Pela Imigração ... 121
Capítulo 16 – A Questão do Dívida Pública ... 122
Jandui Tupinambás xiv
197 A Inflação Redistribui Riquezas? ... 123
198 Qual o Papel dos Bancos Centrais? ... 124
199 A Crise cipriota: Quando a Tributação do Capital se Junta à Regulação Bancária ... 125
200 Euro: Uma Moeda Sem Estado Para o Século XXI? ... 126
201 A Questão da Unificação da Europa... 127
202 Poder Público e Acumulação de Capital no Século XXI ... 128
203 Direito e Política ... 128
204 Mudança Climática e Capital Público ... 129
205 Transparência Econômica e Controle Democrático do Capital ... 129
206 A Contradição Central do Capitalismo: r > g ... 132
207 Por Uma Economia Política e Histórica ... 132
208 O Interesse dos Mais Pobres ... 133
Jandui Tupinambás 1
Introdução
“As distinções sociais só podem se fundamentar na utilidade comum” Artigo I, Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, França 1789
A dinâmica do capitalismo nos levará para o caminho anunciado por Karl Marx – concentração infinita do capital – ou para o caminho de Simon Kuznets – a harmonia do mercado? Esta são algumas das perguntas que este trabalho tentará responder.
Mas um aviso: as respostas aqui presentes são imperfeitas e incompletas. No entanto, se baseiam em dados históricos e comparativos muito mais extensos que os dados de qualquer outra pesquisa já realizada e numa estrutura teórica inovadora que permite compreender melhor as tendências e os mecanismos em operação.
O crescimento econômico atual e a força do conhecimento tornaram possível evitar o apocalipse marxista, mas não modificaram as estruturas profundas do capital e da desigualdade. Quando a taxa de remuneração do capital ultrapassa a taxa de crescimento da produção e da renda, como ocorreu no século XIX e parece provável que volte a ocorrer no século XXI, o capitalismo produz automaticamente desigualdades insustentáveis, arbitrárias, que ameaçam de maneira radical os valores de meritocracia sobre os quais se fundam nossas sociedades democráticas.
Existe, contudo, caminhos para reverter a tendência da concentração da riqueza e assegurar que o interesse geral da população da terra tenha prioridade sobre os interesses do capital privado sem, todavia, perder o grau de abertura econômica e repelindo retrocessos protecionistas e nacionalistas. Muitas proposições serão feitas neste sentido ao longo do livro que se apoiam em lições tiradas de experiências históricas cuja narrativa forma a trama principal deste texto.
1 Um Debate Sem Dados?
Durante muitos anos os debates políticos e intelectuais sobre a distribuição da riqueza se alicerçavam no preconceito, nos interesses de classe e na pobreza de fatos.
Mesmo sem uma estrutura teórica ou análises estatística, os escritores de suas épocas conseguiam detalhar a estrutura da riqueza, padrões de vida e níveis de fortuna dos diferentes grupos sociais revelando a estrutura profunda da desigualdade da época. Dois exemplos excelentes são Austen e Honoré de Balzac. Os dois escritores possuíam conhecimento íntimo da hierarquia da riqueza em suas sociedades – Londres e Paris,
Jandui Tupinambás 2
respectivamente. Os romancistas da época da Belle Époque desnudaram os meandros da desigualdade como nenhuma análise ou estatística seria capaz de alcançar.
A questão é importante demais para ficar na mão somente de cientistas ou filósofos. Banqueiro, operário, camponês, cada um tem uma visão distinta sobre a questão e elabora sua própria concepção do que é justo e do que não é justo. Logo, sempre haverá uma questão subjetiva sobre o tema e por isso, ele é tão delicado e sempre levará a conflitos políticos que nenhuma análise política saberia atenuar. A democracia jamais será suplantada pela república dos especialistas (ou pelos cabeças de planilha, como diria o economista e jornalista Luiz Nassif)
Mas, de qualquer forma a questão merece ser estudada de forma sistemática e metódica. Sem dados e métodos podemos dizer qualquer coisa e o seu oposto. E tudo será verdade. Ou mentira. Para alguns a desigualdade será sempre crescente e o mundo sempre injusto. Para outros, a desigualdade será sempre decrescente e a harmonia se dará de forma natural. Em meio a este diálogo de surdos, entre conservadores dogmáticos ou marxistas dogmáticos onde cada lado justifica sua preguiça de buscar dados e métodos para sustentar suas afirmações, existe um papel a ser urgentemente desempenhado por outros intelectuais com pesquisas honestas, sistemáticas e metódicas, mas nunca totalmente científica pois o tema não o é. A pesquisa metódica pode destruir os debates retóricos, conduzir melhor as políticas públicas, tornar os debates mais produtivos e racionais.
Ora, não se pode negar que os estudos sobre a desigualdade da riqueza sempre foram carentes de dados e se fundamentavam em poucos fatos sólidos, mas, sim, em muitas especulações inspiradas na ideologia. Antes de mostrar as fontes deste trabalho vamos traçar um panorama histórico das reflexões sobre esta questão tão bem contada por Austen e Balzac.
2 Malthus, Young e a Revolução Francesa
O crescimento demográfico da França, saltando de 20millhões de habitantes em 1700 para 30 milhões em 1790 motivaram análises conservadoras expressas em Malthus e Arthur Young, um agronomista inglês. Dado suas origens, as análises de ambos, além de carente de dados robustos, eram preconceituosas em muitos aspectos. Tanto para Malthus quanto para Arthur Young, dois nobres intelectuais assustados com os rumos da revolução francesa, achavam que o problema da distribuição da riqueza eram os pobres e à medida que a população crescia, mais catastrófico seria o cenário. A solução que eles propunham era afastar os plebeus das decisões políticas e conter radicalmente a expansão demográfica.
Jandui Tupinambás 3 3 Ricardo – Princípio da Escassez
Com o aumento da população, a lei da oferta e procura elevarão o preço das terras e dos aluguéis das terras. Esta era a base do pensamento de David Ricardo. Para equilibrar a desigualdade (a riqueza tende a ir para os donos da terra) ele propôs aumentar o imposto do aluguel das terras. Suas ideias teriam grande fundamento se a tecnologia e a revolução industrial não entrassem em cena algumas décadas depois. A terra seria um bem raro e por isso o nome “princípio da escassez” em que se baseia todo seu trabalho.
4 Karl Marx – Princípio da Acumulação Infinita
Piketty questiona os trabalhos de Marx.
1) Usou pouco os dados disponíveis na época para apoiar seu trabalho 2) O princípio da “acumulação infinita” não faria sentido, segundo Piketty.
Mas Marx dizia que antes do “infinito” haveria a revolução proletária. Difícil de saber quem teria razão. O passado como laboratório pouco ajuda nesta questão devido aos tropeços da humanidade com a primeira e segunda guerras mundiais.
5 De Marx para Kuznets ou o Apocalipse dos Contos de Fada
Passando dos escritores apocalípticos vamos para os escritores que tinham uma atração pelos contos de fadas. Kuznets é um representante clássico destes economistas. Segundo a sua teoria, a desigualdade deveria diminuir automaticamente nos estágios mais avançados do desenvolvimento capitalista de um país, a despeito das políticas adotadas ou das diferenças entre países, até que se estabilizasse num nível aceitável. A teoria de Kuznets foi elaborada após a segunda guerra influenciada pelos anos dourados chamados de “trinta gloriosos” na França. Da mesma forma seguiu Robert Solov que em 1956 analisou as condições que levariam uma economia a alcançar a “trajetória do crescimento equilibrado”. Tais visões eram uma antítese do que previam as teorias de David Ricardo e Karl Marx. Estas teorias dos “contos de fada” influenciaram fortemente todas as linhas conservadoras do século XX pós-guerra e ainda continuam, de certa forma, influenciando.
Apesar de Kuznets ter se precipitado em conclusões muito genéricas influenciado pelo ambiente de crescimento da época, ele fez o que Malthus, Ricardo e Marx não fizeram: se baseou em muitas fontes de dados confiáveis para fazer suas análises. Kuznets, de certa forma tinha razão: baseando em dados e estatísticas evidenciou os anos dourados do pós-guerra apesar do equívoco de afirmar que a curva descendente da desigualdade na época seria uma prova de que o sistema capitalista naturalmente levaria a uma sociedade harmoniosa.
Jandui Tupinambás 4 6 A Curva de Kuznets: Boas Notícias em Tempos de Guerra Fria
Segundo a teoria de Kuznets, a desigualdade de renda em qualquer lugar poderia ser descrita como uma curva em forma de sino. Cresce de início, tem um pico e logo em seguida entra em declínio quando os processos de industrialização e desenvolvimento começam a fluir. A ideia é simples e quase ingênua. Kuznets se precipita - apesar de ele próprio chamar a atenção para que não haja precipitação na interpretação dos dados que ele coletou durante quase todo o século XX até 1953 – ao concluir que todo capitalismo no início tende a concentrar renda pois poucos indivíduos estariam preparados para se beneficiar efetivamente dos ganhos iniciais dos processos dos novos meios de produção e mais à frente cai a concentração da riqueza pois muitos passam a ter possibilidade de beneficiar do processo.
A teoria da “curva de Kuznets” foi formulada pelos motivos errados e o fundamento que a sustenta é frágil. A queda da desigualdade de renda que se deu entre 1914 e 1945 é, na verdade, consequência das guerras mundiais e dos violentos choques econômicos e políticos que delas sobrevieram. Tem muito pouco a ver com os fatores de produção dos setores econômicos descritos por ele.
7 Colocando a Questão da Distribuição de Volta no Coração da Análise Econômica
Pensadores como Kuznets no meado do século XX atrasou o debate sobre a questão da distribuição das riquezas. Só agora estamos nos conscientizando que o crescimento mundial da economia não é harmônico e sem conflitos. O capitalismo, por mais que tenha avançado alavancando tecnologias e conhecimentos, não nos levou a um período de distribuição de riquezas e igualdades. Pelo contrário. Os economistas do século XIX se encontravam em um ambiente bem semelhante de desigualdades de riquezas como o que encontramos agora. A resposta que eles deram para a questão talvez não tenha sido tão satisfatória, mas, pelo menos, fizeram as perguntas certas. Hoje, ainda, nem as perguntas certas os economistas não se propuseram a fazer.
Não há motivo para acreditar que o crescimento tende a se equilibrar naturalmente. Temos que urgentemente resgatar as questões do século XIX. Ao longo de várias décadas o tema da distribuição foi negligenciado em parte, devido às conclusões otimistas de Kuznets e dos novos pensadores atuais atraídos pelos modelos matemáticos reducionistas conhecidos como “modelos de agente representativo”. Como a maioria das áreas do conhecimento – climatologia, medicina, nutrição... – a economia também sofre viés ideológico ao ser invadida pela plutocracia.
Para trazer a questão de volta é preciso reunir a base de dados histórica mais completa possível a fim de compreender o passado e refletir sobre as tendências futuras. Somente
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assim poderemos ter a esperança de revelar os mecanismos em operação e proporcionar um maior esclarecimento sobre o futuro.
Coincidência ou não, quando o mundo se encontrava em níveis tão desiguais quanto hoje, o homem ao fugir deste indispensável debate, acabou mergulhando em duas guerras mundiais. 8 As Fontes de Dados Usadas Neste Livro
O livro se baseia na técnica de Kuznets de análise evolutiva e histórica da renda, riqueza e desigualdade. O autor destaca que os dados eram detalhados demais para os historiadores e histórico demais para os economistas. Provavelmente Piketty e sua equipe foram os primeiros a encarar e estudar com detalhes a evolução da riqueza, renda e desigualdade desde os princípios da revolução francesa.
A fonte primária do livro é o WTID – World Top Incomes Database – o maior banco de dados histórico sobre o assunto.
WITD se concentra na renda gerada pelo capital. Diversos esforços para obter informações históricas sobre a renda vinda do trabalho foram feitos com incursões a diversos autores.
Piketty destaca a importância de se estudar a relação entre capital/renda e estimar a renda nacional anual com o total de riqueza de uma nação. Geralmente esta proporção pode variar entre 3 e 8 vezes (mais ou menos).
O atual estudo leva vantagem sobre todos os anteriores sobre desigualdade pela amplitude histórica dos dados analisados. Algo inédito nesta área.
9 Os Principais Resultados Deste Estudo
Quais conclusões que Piketty tira deste seu estudo?
Primeira conclusão: não se pode em hipótese alguma confiar em argumentos provenientes do determinismo econômico quando o assunto é distribuição da renda e riqueza. Este assunto sempre foi e será político o que o impede de ser analisado com os modelos dos plutocráticos e suas planilhas.
Segunda conclusão: toda distribuição de riqueza que ocorreu nos países desenvolvidos durante o século passado não foi por fenômenos naturais de mercado ou do capitalismo, mas antes de tudo, de políticas públicas adotadas devido às grandes guerras e os choques econômicos advindos delas.
Terceira conclusão: a dinâmica da distribuição da riqueza sempre leva a duas forças distintas. A primeira de convergência que faz com que a riqueza seja distribuída e a
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segunda força que faz com que a riqueza fique cada vez mais concentrada. E não existe nenhum fator natural para impedir os fatores divergentes de atuarem. Ou o ser humano se prepara para conter o horror do ciclo vicioso da concentração de renda ou partimos para cenários cada vez mais obscuros.
Quarta conclusão: o crescimento do capital humano e o fim da luta de classes e o início da luta de gerações.
O crescimento do capital humano seria a capacidade do trabalhador de influenciar mais e mais no meio de produção fazendo com que isto force a distribuição de riquezas. Não há evidência de que a participação do trabalho na renda nacional tenha aumentado de modo substancial ao longo dos anos. Tanto esta hipótese como a ideia do fim da luta de classes são duas grandes ilusões. O que se pode afirmar é que o capital é quase tão indispensável hoje quanto foi nos séculos XVIII e XIX e talvez se torne mais indispensável ainda no futuro.
10 Forças Divergentes e Convergentes
Existem forças de divergência e convergências relacionadas à desigualdade. À medida que o capitalismo avança, a tecnologia e o conhecimento passam a ter um papel importante na diminuição das desigualdades. Mas Piketty afirma que este movimento não é natural. Depende de fatores diversos como políticas públicas educacionais, cultura, etc. Piketty irá analisar as forças de divergência mesmo em sociedades ditas regulamentadas e mercadologicamente eficientes.
Duas curvas de desigualdades são apresentadas – são as curvas em U (figuras 1.1 e 1.2). Na primeira, mostra a evolução dos 10% dos salários mais altos em relação à renda nacional. Nota-se, como já dito, a participação menor dos “top decile” no período da 2ª. guerra mundial com uma recuperação impressionante a partir da década de 80. A segunda curva, semelhante à primeira refere-se à razão entre capital/renda na Alemanha, França e Grã-Bretanha. Também, nota-se que entre 1940 e 1980, a razão capital/renda foi menor que nas décadas subsequentes.
Destaca-se que a diferença descomunal entre os salários dos top decile sobre os trabalhadores americanos é o principal fator de divergência da desigualdade.
11 O fator Fundamental da Divergência: r > g r = retorno do capital
Jandui Tupinambás 7
Esta relação carregará a lógica de todo o livro. Quanto maior o retorno do capital em relação à taxa de crescimento maior será a desigualdade.
Se o retorno do capital excede muito a taxa de crescimento então, segue-se que a riqueza herdada crescerá mais rapidamente que a produção e a renda.
12 Os Limites Históricos e Geográficos Deste Estudo
O livro analisará a distribuição da riqueza desde o século XVII até os dias atuais. Se concentrará, principalmente por limitações de fontes de dados, aos países França, Inglaterra e Estados Unidos. Mas também, apresentará dados importantes da Alemanha, Japão e alguns países emergentes.
A França será o país com análises mais detalhadas por dois motivos:
a) Riqueza de dados históricos graças, principalmente, à revolução francesa. b) A população da França mudou muito pouco desde o século XVIII. Na revolução
francesa a população já alcançava 30 milhões de almas. Nos EUA, durante a independência, a população era ainda de 3 milhões.
A dinâmica de distribuição da riqueza se comporta de forma distinta num país que apenas dobrou sua população para um país em que a população cresceu 100 vezes! Devido a este vertiginoso crescimento populacional dos EUA, a distribuição de riqueza era mais justa até os idos de 1970 bem diferente da França onde a população apenas duplicou em 200 anos. Por isto, o estudo da França nos trará conclusões mais acertadas sobre o estudo do comportamento da distribuição da riqueza no mundo atual já que não existem países com crescimento impressionante como ocorreu com os EUA – salvo exceções em países da África.
Jandui Tupinambás 9 13 A Estrutura Teórica e Conceitual
Piketty diz que pertence à geração que assistiu à queda do muro de Berlim. Não se considera um esquerdista que nega o desastre da URSS nem um capitalista que acha que as leis de mercado tudo resolve.
Quer dar uma modesta contribuição para encontrar a melhor maneira da sociedade se organizar de forma a minimizar as desigualdades sociais. Faz uma diferenciação entre a escola econômica americana – onde terminou seu doutorado aos 25 anos – e a escola francesa. Na França, a escola econômica não goza do mesmo status que a escola dos EUA. Mas na França, não existe tentativa arrogante de tentar fazer das ciências econômicas uma verdadeira ciência. E mais que isto: uma ciência independente das outras como é comum nas universidades dos EUA.
A escola francesa sabe os limites das ciências econômicas e entende que a relação com as demais áreas – história, sociologia e política, é fundamental para a compreensão da questão das riquezas e suas desigualdades.
Ele pede a paciência dos leitores que não têm muita intimidade com matemática, mas muita preocupação e interesse pela questão da desigualdade mundial pois irá usar algumas relações matemática não muito complexas para analisar a história de uma forma diferente.
14 Esboço do Livro
O Livro é dividido em 4 partes. Parte I
Traz uma visão geral e conceitos de renda e capital Parte II
Apresenta historicamente a relação entre Capital e renda. Parte III
Disseca a estrutura da desigualdade principalmente nos EUA e Europa. Parte IV
Apresenta sugestões para efetiva regulação do Capital no Século XXI
Parte I
Capítulo I
Jandui Tupinambás 10
a) Renda Nacional b) Capital
c) Razão Capital / Renda
E fala de forma geral sobre a evolução da distribuição de renda e da produção. Capítulo II
Fala de como o crescimento populacional evoluiu juntamente com a produção industrial desde o início da revolução industrial.
Parte II
Capítulo III
Descreve sobre a metamorfose do capital a partir do século XVIII Capítulo IV
Mostra casos dos EUA e da Alemanha – evolução da desigualdade, renda e crescimento Capítulo V e VI
Estende as análises da desigualdade, renda e crescimento para todo o planeta.
Parte III
Capítulo VII
Atenta para a estrutura da desigualdade do ponto de vista do trabalho e do ponto de vista da renda via capital.
Capítulo VIII
Analisa a dinâmica histórica da desigualdade descrita no capítulo anterior tomando por base França e EUA.
Capítulo IX e X
Estende a análise para todos demais países com dados presentes no banco de dados WTID.
Capítulo XI
Estuda a influência da riqueza via herança na estrutura da desigualdade. Capítulo XII
Jandui Tupinambás 11 Parte IV
Capítulo XIII
Oferece caminhos para um “estado social” se enquadrar nas condições atuais e como este estado seria.
Capítulo XIV
Propõe novas formas de taxação progressiva do capital. Capítulo XV
Descreve mais detalhadamente como seria uma taxação progressiva do capital e outras formas de impostos.
Capítulo XVI
Destaca as questões prementes relativa aos débitos públicos atuais.
O estudo do comportamento da renda, capital e trabalho desde a revolução francesa apenas mostrou que o futuro do capital é totalmente imprevisível. O estudo do passado ajuda a clarear e entender melhor o presente para que possamos construir o futuro.
Jandui Tupinambás 12
Parte 1 - Renda e Capital
Jandui Tupinambás 13
Capítulo 1 - Renda e Produção
Acionistas de uma mina na África do Sul manda invadir uma mina. Trinta e um trabalhadores morrem.
Motivo da greve: aumento salarial.
No coração do conflito capital/trabalho está a questão: qual o percentual da produção deve ser direcionado ao trabalho e qual percentual para o Capital e lucro?
A história é repleta de rebeliões causadas pela desigualdade social: o latifundiário e o lavrador, o dono da terra e o produtor que paga o aluguel, os donos dos meios de produção e o trabalhador. Durante a revolução industrial os conflitos aumentaram talvez pela maior riqueza gerada pois a produção à medida que se tornava mais dinâmica com a participação maior do capital (máquinas e maior uso de recursos naturais) menos era usufruída pelos trabalhadores.
Será que esses tipos de conflitos serão suavizados ou serão parte importante da evolução histórica deste século?
Nas duas primeiras partes deste livro trataremos da desigualdade entre capital e trabalho e não entraremos na questão das desigualdades no campo do trabalho (um trabalhador comum e um executivo, por exemplo). Também é de fundamental importância as diferenças salariais atuais mas deixaremos isto para mais adiante.
15 A Divisão Capital-Trabalho no Longo Prazo: Não Tão estável
Tinha-se como verdade que a participação do trabalho na renda nacional sempre girou em torno de 2/3 e a participação do Capital os outros 1/3. Mas, após a possibilidade de acesso a um rico banco de dados sobre a riqueza desde o final do século XVIII, viu-se que a coisa não é bem assim.
Esta divisão sofreu mudanças principalmente com a primeira e a segunda guerra mundiais que acabou fazendo com que o capital tivesse uma menor participação no crescimento econômico do que o trabalho. Mas, a partir da década de 80 com Margareth Thatcher e Ronald Reagan, o capital começou a se recuperar e a desigualdade inicia sua curva ascendente com perspectiva de chegar em 2020 em situação pior que a “Belle Époque”.
Existe hoje uma ideia espalhada e tida como consenso de que o crescimento econômico depende quase que exclusivamente do “capital humano”. À primeira vista, isto significaria que o trabalho está, então, reivindicando uma maior participação na produção e riqueza. Mas isto não é bem assim uma vez que a participação do capital
Jandui Tupinambás 14
(excluindo o “capital humano”) no século XXI é muito pouco maior do que a participação do capital no início do século XX.
Mais uma vez é importante destacar que, diferentemente do que se pensa no mundo econômico, o capital humano não teve um peso considerável no total da renda uma vez que a participação do capital no início do século XXI é praticamente igual (um pouco superior) à sua participação no início do século XIX.
A predominância do capital sobre o trabalho na atualidade nos países ricos se deve pelo baixo crescimento populacional e de produtividade aliado a políticas que objetivamente favorecem o capital privado.
As partes I e II irão tratar da divisão capital / trabalho e da razão capital / renda. Relação esta que será o centro para entender toda a estrutura da desigualdade social.
16 A Ideia de Renda Nacional
Renda Nacional: é a soma da renda de toda população residente de um país.
Está intimamente relacionado com o conceito de PIB que mede a quantidade de bens e serviços produzidos em um dado ano no território de um país. A renda nacional é o PIB subtraindo a depreciação dos ativos que tornam esta produção possível. O valor desta depreciação é substancial e gira em torno de 10% do PIB.
A renda Nacional é, portanto, o produto interno bruto líquido somado a diferença entre a renda que um país ganha vinda do exterior e a renda que o país transfere para outros países no exterior:
Renda Nacional = PIB – 10%(depreciação) + (Renda entra do exterior – Renda sai para exterior).
Importante perceber que a diferença do segundo termo desta equação leva a desigualdades entre as nações que podem causar tensões políticas sérias. Geralmente, este segundo termo é sempre positivo nos países ricos.
Mas a questão é que a desigualdade de renda interna nos países é bem mais séria que a desigualdade entre os fluxos de renda líquida entre os países (apesar de existir também). Mas é lenda dizer que os EUA pertencem aos bancos japoneses ou que a França pertence aos fundos de pensão da Califórnia – são lendas urbanas.
17 O Que é Capital?
Produção e renda = Renda de capital + Renda do trabalho.
Jandui Tupinambás 15 Numa reflexão preliminar concluiria que capital poderia ser considerado como sendo trabalho estocado ao longo do tempo e apropriado por quem já possuía o domínio sobre as pessoas que forneciam sua força de trabalho. E como é estocado, pode ser transferido e perpetuado via herança, mas sempre manchado pelo pecado original da usurpação.
Primeiramente, quando Piketty se refere a capital ao longo do livro, ele não considera (apesar da maioria dos economistas infelizmente considerarem) o capital humano como componente do próprio capital.
Capital seria então: somatório total de ativos não humanos que podem ser apropriados e negociado no mercado.
Exemplos: residências, prédios, máquinas, infraestrutura, patentes, etc.).
Porque “capital humano” não pode ser tratado como Capital? Pelo fato de não poder ser apropriado por alguém – a não ser nos regimes escravocratas do passado – ou mesmo negociado no mercado (não permanentemente, pelo menos).
O conceito de capital, portanto, é variável na história da sociedade. Não é imutável pois reflete o estado de desenvolvimento das relações sociais de cada época.
18 Capital e Riqueza
Capital representa as riquezas acumuladas por seres humanos ao longo do tempo. Dependendo do contexto podemos excluir bens naturais do conceito de capital. A terra, os minerais e outros bens naturais são riquezas que, em determinado momento podemos considerar parte de um dado capital e em outros momentos, apenas como riqueza.
Riqueza Nacional = riqueza privada + riqueza pública.
Considerando que riqueza pública é praticamente zero na maioria dos países – ou mesmo negativa (o débito público geralmente é maior que o crédito), conclui-se que a riqueza privada é responsável por quase a totalidade da riqueza Nacional.
Capital Nacional = Riqueza Nacional = Capital doméstico + Capital exterior líquido O capital estrangeiro no total é igual a zero globalmente. Este fator da fórmula pode ser razoavelmente positivo ou negativo se considerarmos análises individuais de cada nação.
19 Razão Capital / Renda
Renda: é um fluxo. Corresponde à quantidade de bens produzidos e distribuídos em um
Jandui Tupinambás 16 Capital: é estoque. Quantidade de riqueza possuída em um dado ponto no tempo.
A forma mais útil de medir o capital em um país é dividindo o estoque de riquezas pelo fluxo anual da renda. À esta razão chamaremos de
β
.A grandeza
β
não diz nada quando se fala em desigualdade exatamente pelo fato de que as riquezas são mal distribuídas nacionalmente. Masβ
irá nos dizer a importância geral do capital para a realidade de um dado país sendo esta grandeza fundamental para o estudo das desigualdades.O objetivo principal da parte II do livro é entender porque e como
β
varia de país para país e como tem evoluído no tempo.O capital pode ser, a grosso modo, dividido em duas partes: Capital doméstico e Capital profissional (empresas particulares e governo).
20 A Primeira Lei Fundamental do Capitalismo: α = r * β
r
representa o retorno do capital eα
corresponderia a participação do capital no total da renda nacional.Um cenário hipotético para exemplificar melhor:
Imaginemos um país-ilha fictício cuja população produz sandálias de fibra de folhas de palmeiras. Para a fabricação das sandálias são necessários alguns ativos a saber: cadeira, suporte metálico para trançar as fibras, tela para bater as folhas, cestos e caixas.
O valor desses ativos equivale a 6 vezes a quantidade de sandálias que a população consegue produzir no ano. Isto significa que a quantidade de trabalho necessária para se produzir estes ativos corresponde à quantidade de trabalho necessária para se produzir 6 anos de sandálias. Se algum habitante empresta um cesto estocado que ele possuía para algum grupo de trabalhadores, no final do ano este capitalista (afinal, podemos chamá-lo assim, pois possui um cesto estocado fruto de trabalho no passado) continuará de posse do seu cesto – apesar de emprestado e receberá uma quantidade de sandálias equivalente a 5% do valor do seu cesto. E qual seria, então a participação de todo o capital na renda da ilha? Ora, é uma simples expressão tautológica:
α = r * β
α = 5% * 600% = 30%.
Isto é, todo ativo da ilha: cestos, cadeiras, etc, contribuem com 30% para formação de toda a renda produzida em 1 ano.
Jandui Tupinambás 17 Os 30% do exemplo acima coincidem com a média da participação do capital em países ricos no ano de 2010.
Apesar da fórmula ser tautológica, podemos considerá-la a primeira regra fundamental do capitalismo por envolver as três grandezas mais importantes do sistema capitalista a saber:
A razão capital / renda, a participação do capital na produção e a taxa de retorno do capital.
A fórmula fundamental nos leva à segunda lei fundamental do capitalismo: quanto maior a taxa de poupança e menor a taxa de retorno, maior será a razão capital / renda.
Isto fica lógico quando nos lembramos do exemplo das sandálias da ilha. Quanto mais cadeiras, telas, etc, um morador da ilha conseguir guardar, e quanto menor for o crescimento do total de produção de sandálias na ilha, maior será o capital em relação à produção de sandálias. 21 Contas Nacionais: Uma Construção Social em Evolução
Desde meados do século XVII já se nota tentativas tímidas de países europeus em medir suas riquezas nacionais. A partir do final da segunda guerra mundial os países passaram a medir anualmente a renda nacional – PIB ou GDP. Uma das motivações para este esforço e preocupação foram as consequências devastadoras da depressão de 1931. Conclui-se que as contas dos estados sofrem evoluções constantes. Os números nunca foram e nunca serão perfeitos. São sempre estimativas que vão melhorando com o tempo, principalmente com o advento da informática. Os dados que são oferecidos pelos governos sempre apresentam falhas que devem ser percebidas e complementadas com outras fontes e análises.
É importante destacar que os indicadores governamentais estão relacionados com médias e totais absolutos e nunca com índices que medem desigualdades sociais ou distribuição de renda entre os grupos da sociedade.
22 A Distribuição Global da Produção
No início do século XIX os índices de distribuição da produção já eram bem conhecidos. De 1900 a 1980, 70-80% da produção de bens e serviços estavam concentrados na Europa e América.
A partir de 2010, a participação do PIB dessas duas regiões declinou para 50%. E, em algum ponto deste século, talvez, a participação deva cair para 20-30%.
Jandui Tupinambás 18
Observa-se que as curvas do PIB per capita entre as regiões América/Europa e o resto do mundo estão em caminho de colisão (cacth-up da curva oriental) e é difícil de se fazer uma previsão de quando elas se colidirão, se é que isto realmente irá ocorrer no futuro dado as incertezas da economia principalmente as dificuldades de se analisar a economia da China.
23 De Blocos Continentais Para Blocos Regionais
No tópico anterior fizemos uma divisão continental. Mas, para expressar melhor a realidade dos desníveis das riquezas e PIB é melhor que separemos o mundo em regiões e não continentes. Todos os continentes possuem diferenças internas significantes. Na América são dois mundos distintos. O Norte representado por Canadá e EUA e um mundo pobre representado pelos demais que estão abaixo dos EUA até o Chile. O Norte com uma renda per capita de 40.000 Euros e o Sul com uma renda de 10.000 euros bem semelhante à média mundial.
Em 2012 a renda per capita mundial girava em torno de 760 euros / mês o que nos dá 9.120 euros / ano.
A própria Europa mostra suas desigualdades. Os países do oeste europeu, entre eles Espanha, França, Itália, Alemanha e Inglaterra, possuem renda per capita de 31.000 Euros e 410 milhões de habitantes. Os restantes do Leste (não considerando Rússia e Ucrânia) somam 130 milhões de habitantes com uma renda per capita de 16.000 Euros. África é a região mais pobre do mundo com uma renda per capta de apenas 2.000 Euros. Na Ásia, apesar do Japão sustentar uma renda per capita semelhante à dos países ricos, pouco influencia no geral da Ásia pois sua população é pequena em relação ao total da Ásia.
24 Desigualdade Global: de 150 a 3.000 Euros por Mês
A renda per capita varia de 150 a 3.000 euros por mês ao redor do mundo. A renda média mundial está entre 600-800 euros por mês – coincidindo com a renda média per capita chinesa.
Mas todo cuidado é pouco para analisar dados sobre desigualdades. A dificuldade de obtenção de dados confiáveis sobre desigualdades internas em cada país é sempre maior do que da obtenção de dados entre países.
Para se fazer análises de desigualdades entre países Piketty usa o indicador “poder de
compra por paridade”. Indicador administrado pela instituição ICP – International
Jandui Tupinambás 19
mais constante e confiável do que o fator universal de conversão das moedas dado a dependência deste último indicador às políticas econômicas de cada país.
Apesar de garantir um indicador mais estável, o ICP afirma, mesmo assim, que existe um grau de incerteza sobre o índice “poder de compra por paridade” de até 10%.
25 A Distribuição Global da Renda é Mais Desigual do Que o PIB Entre os Países
Isto fica claro quando se percebe que os fluxos de renda entre os países são discrepantes. Geralmente os países com PIB maior geram renda fora de suas fronteiras. Parte do PIB dos países mais pobres são direcionados para os países mais ricos.
De qualquer forma, a diferença desses fluxos de riquezas entre países impacta pouco. EUA e Grã-Bretanha o impacto é de 1 a 2%. No Japão e Alemanha varia de 2 a 3%. O continente que mais sofre com este desequilíbrio é a África onde o total produzido (PIB – 10% de depreciação) é 5% maior do que a renda do continente.
Antes da primeira guerra mundial, a situação era pior: os grandes da Europa detinham de 1 terço a 1 quarto da produção da África e Ásia e três quartos de todo capital industrial.
26 Quais Forças Favorecem a Convergência?
Convergência: ricos se tornando menos ricos e pobres se tornando menos pobres. Existe a teoria que diz que o investimento de países ricos nos territórios dos países pobres, apesar do lucro ser enviado de volta, pode diminuir o gap das desigualdades pois afinal, o capital investido melhora a produtividade dos países que recebem o investimento.
No entanto, esta teoria tem dois grandes problemas. Primeiro:
A convergência de produção per capita (crescimento do PIB nos países pobres graças ao investimento feito pelos países ricos) não significa convergência de renda per capita. Comparemos a taxa de retorno do capital que os países pobres devem pagar aos países ricos com a taxa de crescimento do PIB dos países ricos e pobres.
Segundo:
A ascensão dos países asiáticos nos últimos 20 anos não se deveu aos investimentos dos países ricos e sim, aos investimentos feitos por eles próprios tanto em capital físico quanto em capital humano. Da mesma forma, países pobres dominados pelos ricos,
Jandui Tupinambás 20
tanto na época da colonização quanto os países da África hoje, não tiveram e não têm atualmente perspectiva de convergências.
Resumindo, o que contribui para a convergência é a difusão do conhecimento suportado por governos legítimos e eficientes.
Capítulo 2 – Crescimento: Ilusões e Realidades
O ponto central desta sessão é a tendência de baixo crescimento do PIB de todos os países do mundo e a perspectiva seria do crescimento continuar em baixos níveis durante todo o século XXI.
Importante destacar que crescimento do PIB envolve dois componentes: a) Crescimento populacional
b) Crescimento puramente econômico
Somente o último componente envolve elevação no nível do padrão de vida da população. Os debates públicos muitas vezes desconsideram o primeiro componente pois assumem que o crescimento populacional não mais existe o que é uma falsidade, pelo contrário. Mundialmente, a população mundial cresce em torno de 1% enquanto o crescimento mundial do PIB está em 3% ou um pouco superior a isto. Logo, o crescimento per capita estaria um pouco acima de 2%.
27 O Crescimento mundial ao longo dos tempos
Antes de analisar as tendências de crescimento atuais, vamos nos debruçar no crescimento da produção mundial a partir da revolução industrial.
Observa-se que o mundo antes da revolução industrial praticamente não crescia se considerarmos que o aumento da população crescia a taxas iguais ao aumento da produção. A partir da revolução industrial inicia-se um crescimento tímido de 0.1%. É importante destacar que, diferente do que os debates costumam propagar em que afirmam que 1% de crescimento seria desprezível, na verdade, ao longo de grandes períodos no tempo, 1% é na verdade um crescimento considerável.
Jandui Tupinambás 21 28 A Lei do Crescimento Cumulativo
O crescimento populacional mundial cresceu numa média anual de 0.8% ao ano entre 1700 e 2012. Isto, portanto, dá um crescimento vertiginoso em 3 séculos de 10 vezes. De 600 milhões de habitantes em 1700 pulou para 7 bilhões em 2012. Neste ritmo, em 2300 teremos uma população girando em torno de 70 bilhões.
Portanto, é importante destacar que crescimento de produção ou de população de 1% é algo imperceptível em 1 ano, mas é o suficiente para mudar completamente a estrutura e o perfil de uma nação ou sociedade se este crescimento de 1% for constante durante 30 anos, por exemplo.
Da mesma forma podemos dizer do retorno do capital. 1% ou o mais comum, 5% ao ano pode não parecer um retorno significativo, mas ao longo de um período de 20 ou 30 anos significa um aumento assustador no capital do investidor.
A tese centra do livro é precisamente que o aparentemente gap entre o retorno do capital e a taxa de crescimento pode a longo prazo desestabilizar e causar efeitos devastadores na estrutura e dinâmica da desigualdade social.
Os valores acumulados do retorno do capital não deveriam ser usados para acumular mais capital e sim, serem usados para aumentar a produção mundial de forma que a taxa de crescimento não fique abaixo do retorno do capital. Isto deveria ser uma regra humanitária patrocinada e difundida mundialmente pela ONU.
Jandui Tupinambás 22 29 Os Estágios do Crescimento Demográfico
As taxas de crescimento populacional do planeta a partir do ano 0 até 1700 eram bem tímidas comparadas com as taxas após a revolução industrial. Estima-se que a população mundial cresceu 25% entre os anos 0 e 1000 e 50% entre os anos 1000 e 1500. De 1500 a 1700 o crescimento foi de 50% novamente. A partir de 1700 tivemos uma taxa de crescimento de 0.4% ao ano no século 18 e 0.6% no século 19. A Europa experimentou seu maior crescimento populacional no período de 1820 a 1913 que girou em torno de 0,8% ao ano. De 1913 a 2012 a taxa caiu pela metade chegando a 0.4%
Previsões da ONU indicam crescimento mundial de 0.4% de 2012 a 2030 caindo para 0.1% de 2030 a 2070. Lembrando que a América tem taxa prevista de 0% de crescimento, Ásia e Europa com índices provavelmente negativos de 0.2% e 0.1% respectivamente. A taxa geral de 0.1% de crescimento deve-se a previsão populacional da África com taxa anual de 1%.
Evidente que são apenas previsões imprecisas pois elas dependem da taxa de fertilidade, expectativa de vida e evolução das políticas socioeconômicas.
30 Crescimento Demográfico Negativo?
A tendência de reversão do crescimento populacional é bem clara quando se compara a Europa Ocidental com a América do Norte. Em 1780 a Europa Ocidental já ultrapassava 100 milhões de habitantes enquanto a América do Norte tinha quase 3 milhões. Em 2010 Europa Ocidental chegou a 410 milhões e a América já alcançou 350 milhões. A ONU prevê a América com uma população ultrapassando a Europa Ocidental já em 2050. A explicação para esta reversão não é simples. Por que a taxa de fertilidade da Europa é menor? As políticas de proteção social não podem ser a explicação uma vez que, por lá na América, elas praticamente não existem.
Talvez a explicação seja uma mistura de história e cultura. Talvez resta ainda na mente dos americanos a imagem da terra prometida onde eles ainda vislumbram um futuro sempre melhor para seus filhos. De qualquer forma, mesmo na América do Norte, a taxa de crescimento demográfico também está caindo. Muitos fenômenos podem ocorrer num futuro próximo como o aumento de imigração entre os dois continentes, a taxa de fertilidade aumentar na Europa ou mesmo a expectativa de vida na América não evoluir na mesma proporção que na Europa. Portanto, estas previsões da ONU são somente previsões.
Jandui Tupinambás 23
Outro país que reverteu a taxa de crescimento populacional foi a China que a partir de 1970 com a política de filho único conseguiu estabilizar sua taxa de fertilidade. A previsão da ONU é de que a Índia a ultrapasse já no ano de 2020.
Assim, mesmo com as previsões de reversão de crescimento populacional, não é exagero os números da ONU, pelo contrário. Mesmo com possíveis pequenas variações, a tendência de o mundo chegar a uma população de 70 bilhões em 2300 se a taxa de crescimento continuasse em 0.8% ao ano, não é uma previsão plausível. A ONU considera que a média de crescimento de 2012 até 2300 não ultrapasse 0.1% ou 0.2% ao ano. Isto nos daria uma população variando entre 9 a 13 bilhões de habitantes.
31 Crescimento como um fator de Equalização
Prever taxas de crescimento demográfico não é a tarefa central do livro, mas é um fator importante para avaliar a distribuição de riquezas.
Uma taxa de crescimento alta tende a diminuir as desigualdades uma vez que diminui o peso da herança sobre o total das riquezas e capital acumulado.
Da mesma forma, se a taxa de crescimento populacional é negativa ou mesmo se a taxa de crescimento econômico também for negativa, a influência do capital é maior. Neste cenário, caímos no problema já destacado mais no início onde a taxa de retorno do capital se torna maior que a taxa de crescimento econômico contribuindo para aumento das desigualdades.
O crescimento populacional também pode contribuir para uma maior mobilidade social resultando em diminuição das desigualdades uma vez que a transferência de pai para filho das funções exige a inclusão de novos agentes estranhos à família.
32 Os Estágios do Crescimento Econômico
A média do crescimento econômico entre 1700 e 2012 foi igual à média do crescimento populacional: 0.8%. Em três séculos, a produção mundial cresceu 10 vezes. A renda per capita em 1700 girava em torno de 70 euros e em 2012, 760 euros.
Grande parte do crescimento econômico deve-se ao século XX onde a média foi de 1.6% por ano com o século XIX ficando com 0.9% e o século XVIII com apenas 0.1%.
Medir crescimento per capita é uma tarefa bem mais complexa do que medir crescimento populacional. O poder de compra passa a ser um indicador relativo dependente dos costumes e cultura da época. A cesta básica do século XVIII por exemplo não pode ser comparada com a cesta básica atual que engloba serviços nem existentes
Jandui Tupinambás 24
à época e diversos outros produtos manufaturados que não eram essenciais ou nem mesmo existiam.
Piketty neste tópico apenas chama a atenção para se ter cuidado ao tentar comparar poder de compra de antigamente com o poder de compra das sociedades atuais.
Se a população cresceu com taxas iguais ao crescimento da produção nos 3 últimos séculos, significa que o homem não conseguiu aumentar sua produtividade neste período. Mas, importante dizer que nos dois primeiros séculos houve um retrocesso na produtividade e o século XX, graças, talvez às novas tecnologias, conseguiu reverter e recuperar este atraso.
33 O que Significa um Aumento de 10 vezes no Poder de Compra?
1. Produtos industriais manufaturados – setor secundário 2. Produtos agrícolas – setor primário
3. Serviços – setor terciário
Os preços do primeiro grupo caíram bem acima da média devido aos avanços acentuados da tecnologia na área trazendo mais produtividade ao setor.
O segundo grupo – agrícola – caiu no mesmo nível da média geral dos preços.
Apenas no grupo de serviços podemos detectar baixa produtividade em relação aos tempos mais remotos ou mesmo taxa de crescimento de produtividade próxima de zero. As mudanças de hábitos de consumo a partir da revolução industrial foram tão grandes que tentar medir e comparar o poder de compra entre gerações desde os meados do século XIX são tentativas fúteis e reducionistas.
De qualquer maneira, os avanços tecnológicos possibilitaram à boa parte da população mundial acesso a mais alimentos, serviços e produtos industriais diversos.
34 Crescimento: Uma Diversificação do Estilo de Vida
Em relação ao custo de vida relacionado com serviços, o livro lança mão de um exemplo interessante: o valor de 1 hora de trabalho de um típico trabalhador atual consegue comprar a mesma quantidade de cortes de cabelo que 1 hora de trabalho de um típico trabalhador de 100 anos atrás. O poder de compra desse tipo de serviço permaneceu inalterado.
De qualquer forma, a classificação do mercado de trabalho em primário, secundário e terciário fazia mais sentido no meio do século passado quando a divisão entre os três setores era similar (32%, 33% e 35% - primário, secundário e terciário respectivamente na França). Hoje, a divisão na França é a seguinte:
Jandui Tupinambás 25
Portanto, é imprescindível para não comprometer análises, subdividir o setor de serviços em subsetores:
Saúde e Educação – 20% ou mais
Hotéis, cafés, restaurantes, bares, Cultura e Lazer – 20%
Consultoria, projetos, TI, Financeiras, Bancos e Transportes – 20% Órgãos públicos - 10%
No caso de serviços relacionados com saúde e educação, parte são custeados via impostos e de livre utilização variando de país para país. Nos EUA e Japão, por exemplo, o custo com educação e saúde é bem menos subsidiado pelo estado em relação aos países europeus, por exemplo. Estas variações dificultam ainda mais quando se tenta fazer comparações entre padrão de vida entre os países.
O livro chama a atenção para o fato de que não existe uma concordância com relação em sumarizar os serviços públicos de saúde e educação no cômpito geral do PIB. Na visão de Piketty é claro que este valor deve ser somado. Caso não fosse, se um país opte em diminuir seus serviços de saúde e educação privatizando parte desses setores (o Brasil corre este risco com o programa “Ponte para o Futuro” do governo Michel Temer), ele automaticamente estaria aumentando artificialmente o PIB do país.
Sem sombras de dúvidas, o crescimento econômico entre 1700 e 2012 trouxe um grande avanço no padrão de vida das pessoas na ordem de 10 vezes – de 76 euros por mês para 760 euros/mês. Se considerarmos somente os países ricos, este salto foi mais que 20 vezes.
35 O Fim do Crescimento?
Será que o espetacular aumento da renda per capita entre 1700 e 2012 enfim chegou ao fim neste século XXI? Será que estamos vivenciando o início de períodos de crescimento zero por problemas tecnológicos ou ecológicos ou por ambos os motivos?
Antes de continuar, é muito importante destacar que nunca existiu na história da humanidade crescimento acima de 1.5% por períodos longos. Os analistas que reivindicam que crescimento abaixo de 3% não seria um crescimento que mereça destaque, estão enganados e esqueceram de estudar a história econômica mundial. Com estas considerações, o que poderemos dizer das futuras taxas de crescimento? De acordo com alguns economistas como Robert Gordon, a tendência das taxas de crescimento não devem ultrapassar 0.5% até 2100. Suas análises se baseiam nas ondas de inovações que ocorreram durante a história da humanidade a partir da revolução industrial. A máquina a vapor e a introdução da eletricidade nos meios de produção
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trouxeram uma ruptura revolucionário na sociedade impactando enormemente a produtividade. Já as novas ondas de avanços e inovações tecnológicas – como a introdução da informática – não tiveram o mesmo potencial de ruptura não trazendo tantas melhorias na produtividade.
Prever taxas de crescimento é tão difícil quanto prever taxa de crescimento populacional. O que será tentado neste trabalho é desenhar alguns cenários relacionados com a dinâmica da distribuição de riquezas. Para tanto, não iremos considerar previsões otimistas de crescimento de renda nem nos basear nas previsões de Robert Gordon (0.5% até 2100). Mas para termos um cenário palpável consideraremos uma taxa de crescimento do PIB na ordem de 1.2% até 2100. E mesmo assim, para isto se concretizar, teremos que ter avanços tecnológicos que permitam que fontes de energias alternativas já estejam preparadas para substituição da energia convencional dos hidrocarbonetos. E este, é apenas um cenário dentre vários possíveis.
Há controvérsias em relação aos hidrocarbonetos. Além da teoria ser fraca de que sejam uma ameaça ao meio ambiente, não se sabe exatamente qual seria o estoque de petróleo ainda não descoberto.
36 Um Crescimento de 1% Implica em Mudanças Sociais Importantes
É sempre bom destacar que prever taxas de crescimentos a longo prazo não é mais importante do que perceber que 1% de crescimento per capita anual é, na verdade, um crescimento extremamente rápido, mais rápido do que muitos economistas e debatedores espalhados pelo mundo imaginam.
Piketty descreve as mudanças profundas nos países como EUA, Japão e Europa nos últimos 30 anos onde o crescimento médio foi de 1 a 1.5% ao ano.
Uma sociedade com crescimento de 0.1 a 0.2% ao ano se reproduz e se repete sem modificações significativas em suas estruturas socioeconômicas. Já sociedades com crescimento a longo prazo de 1 a 1.5% sofrem profundas e constantes alterações. Mas estas alterações não dizem respeito a uma melhor distribuição das riquezas. Pelo contrário caso não sejam criadas instituições e políticas para conter a concentração. As forças invisíveis do mercado ou mesmo as novas tecnologias não irão de forma alguma fazer este papel distributivo.
37 A Posteridade do Período Pós-Guerra: Entrelaçando Destinos Além-Mar
Os EUA sentiram menos os impactos da primeira e segunda guerras mundiais. Diferente da Europa, principalmente a Europa Ocidental que experimentou os “30 Gloriosos – Trente Glourieses” – período de 1940 a 1970 onde viveram com um crescimento per