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A ortografia no tempo

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Academic year: 2021

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A ortografia no tempo

Todas as línguas mudam com o passar do tempo, embora geralmente não nos demos conta disso. Essa dificuldade em perceber as mudanças se deve ao fato de elas ocorrem muito lentamente, além de não atingirem todos os aspectos da língua. Deste modo, algumas formas mais antigas são mantidas, ao passo que outras acabam se modificando (cf. Faraco, 1991, Cap.2). Uma forma de perceber isto é através da comparação de escritas, ou seja, da análise da grafia de textos mais antigos.

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Vejamos um trecho do romance Helena (1876), de Machado de Assis, numa edição publicada em 1929:

Como se pode ver, muitas palavras conservam a grafia que já tinham em 1929, ao passo que outras tiveram sua grafia alterada. Essas mudanças ocorreram principalmente por conta das reformas ortográficas de 1943 e 1971.

Estacio buscou animal-a, mas a voz morreu-lhe ás primeiras expressões, e elle saiu. Melchior acompanhou-o.

- Uma cousa poderia talvez salval-a, disse affiicto o moço; era o presença do pae. Vou mandal-o procurar por toda a parte. Havemos de achal-o; é preciso que o achemos.

Melchior approvou a idéa do mancebo; e não lhe disse que o remedio viria talvez tarde, se viesse. Estacio ordenou as cousas para a seguinte manhã. Voltaram á alcova da enferma. Esta fechara os olhos, como se dormisse. Houve então entre aquellas quatro paredes meia hora de silencio, interrompido apenas, de quando em quando, pelos movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de posição. No fim desse tempo, abriu os olhos e murmurou algumas palavras. Chegou o medico, viu-a e desenganou a familia.

Enquanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena tivesse os soccorros espirituaes, Estacio saiu dalli; para ir, longe, desabafar o desespero; desceu á chacara, vagou por ella delirante, a soluçar como uma creança, ora abraçado a uma arvore, ora ajoelhado e pedindo a Deus a vida de Helena. O coração do moço não conhecia o fervor religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levara, e elle resou, resou sósinho, sem hypocrisia nem duvida. Mendonça veiu achal-o nessa lucta derradeira entre a realidade e a esperança. Não o consolou; não tinha consolações que distribuir, porque tambem a dôr lhe devastara o coração. Nos braços um do outro, choraram o mesmo bem que se lhes ia embora.

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Deste modo, as diferenças encontradas no trecho extraído da obra Helena (publicada em 1929) ficam bastante evidentes quando se coteja esse texto com uma edição mais recente, de 2003:63

Estácio buscou animá-la, mas a voz morreu-lhe às primeiras expressões, e ele saiu. Melchior acompanhou-o.

- Uma cousa poderia talvez salvá-la, disse aflito o moço; era a presença do pai. Vou mandá-lo procurar por toda a parte. Havemos de achá-lo; é preciso que o achemos.

Melchior aprovou a idéia do mancebo; e não lhe disse que o remédio viria talvez tarde, se viesse. Estácio ordenou as cousas para a seguinte manhã. Voltaram à alcova da enferma. Esta fechara os olhos, como se dormisse. Houve então entre aquelas quatro paredes meia hora de silêncio, interrompido apenas, de quando em quando, pelos movimentos que a doente fazia, como a querer mudar de posição. No fim desse tempo, abriu os olhos e murmurou algumas palavras. Chegou o médico, viu-a e desenganou a família.

Enquanto Melchior dava as ordens precisas para que Helena tivesse os socorros espirituais, Estácio saiu dali; para ir, longe, desabafar o desespero; desceu à chácara, vagou por ela delirante, a soluçar como uma criança, ora abraçado a uma árvore, ora ajoelhado e pedindo a Deus a vida de Helena. O coração do moço não conhecia o fervor religioso; mas a imagem da morte deu-lhe o que a vida lhe levara, e ele rezou, rezou sozinho, sem hipocrisia nem dúvida. Mendonça veio achá-lo nessa luta derradeira entre a realidade e a esperança. Não o consolou; não tinha consolações que distribuir, porque também a dor lhe devastara o coração. Nos braços um do outro, choraram o mesmo bem que se lhes ia embora.

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Sobre as mudanças encontradas nessas duas versões de Helena, vejamos algumas delas através do seguinte quadro comparativo:

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medico médico arvore árvore duvida dúvida familia família Estacio Estácio remedio remédio silencio silêncio elle ele ella ela aqquelas aquelas soccorros socorros dalli dali approvou aprovou pae pai espirituaes espirituais hypocrisia hipocrisia animal-a animá-la salval-a salvá-la achal-o achá-lo mandal-o mandá-lo As proparoxítonas passaram a ser acentuadas na sua antepenúltima sílaba. E as paroxítonas terminadas em ditongo crescente receberam acento na penúltima sílaba.

Houve o suprimento das

consoantes que antes eram dobradas. MUDANÇA ORTOGRÁFICA

O ditongo “ae” passou a ser escrito “ai”.

O “y” (assim como o “k” e o “w”) deixou de pertencer ao nosso alfabeto. Deste modo, substituiu-se o “y” por “i”.

Houve uma mudança na

forma como é feita a hifenização do pronome pessoal do caso oblíquo.

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O que se pode concluir ao comparar essas duas edições é que, ao reeditar um texto antigo, faz-se uma adaptação ortográfica, de acordo com as normas vigentes na época em que o texto é novamente publicado. Desta forma, escrever “sósinho”, por exemplo, é considerado errado nos dias de hoje, mas estava absolutamente correto em 1929, como podemos ver no trecho extraído da obra de Machado de Assis editada nessa época. Analogamente, como também podemos observar no trecho em questão, escrever “rezou” com “s” era corretíssimo.

No entanto, como saber qual é a forma correta de escrever uma determinada palavra? Será que simplesmente decorar regras resolve? Embora muito provavelmente a maioria das nossas dúvidas não sejam relativas às mudanças que a grafia das palavras sofreu de uma reforma ortográfica e outra, olhar para elas ajuda a entender a arbitrariedade de algumas formas ortográficas. Assim, por exemplo, como saber se determinada palavra se escreve com “s” ou com “z”? Observando os trechos extraídos das duas diferentes edições de Helena, encontramos as mudanças: resou > rezou. Com base nisto, alguém poderia perguntar: por que o mesmo não aconteceu com formas parecidas, como “pesou”, “casou”, entre outros, e continuamos escrevendo-as com “s”?

O fato é que a ortografia, como vimos, é altamente convencional, no sentido de que não é uma cópia de como se fala. Por isso, a única forma de aprender a escrever corretamente é a prática constante, seja de leitura, seja de escrita. Entretanto, mesmo quem escreve e lê muito sempre terá alguma dúvida com relação à grafia de determinadas palavras. O processo de aprendizagem da ortografia, longe de limitar-se ao período de alfabetização, na realidade, estende-se por toda a vida.

Referências

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