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Palavras & Sentimentos

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Academic year: 2022

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Palavras & Sentimentos

3ª Edição

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Sentir Falta ... 13

Poder Amar ... 19

O Direito de Amar ... 24

Para Sempre ... 30

Tempos Depois... ... 37

Soldado Ferido ... 44

Normas ... 51

Nosso Dominador ... 57

Sorriso Fatal 2 ... 66

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4 Palavras do Autor | @Amilton.Jnior

Palavras do Autor

É com grande alegria e satisfação que apresento a vocês mais uma edição do livro Palavras & Sentimentos, na qual, como de costumo, reuni os contos que publiquei durante esse ano para que você possa ler onde e quando quiser além de ter a chance de compartilhar com as pessoas que você gosta. Como sempre digo, a literatura é uma das manifestações humanas mais sensíveis que conheço, enquanto a música nos envolve com seus sons melodiosos e a pintura permite à alma que expresse seus anseios e sonhos, as palavras descrevem com minuciosos detalhes aquilo que sentimos, pensamos e almejamos para o mundo e para nossas vidas. As palavras são eternas. Através delas eternizamos nossos valores, nossas afeições e quem somos, as palavras são capazes de um poder inimaginável, levam-nos a mundos nunca antes pensados, faz-nos alcançar corações que talvez jamais tenhamos intencionado.

Por toda essa graciosidade das palavras, por toda essa imensidão que elas representam, precisamos espalhá-las ao mundo, precisamos divulgá-las ao universo, precisamos conceder a elas um impulso para que sua força transformadora encontre as almas e aqueça a todos. Ainda tenho um longo caminho a percorrer até que minhas palavras ganhem maior alcance ou tenham uma mínima importância, mas acho que estou no caminho certo e convido a você embarcar comigo nessa aventura. Compartilhe esse livro. Mais que isso, aventure-se também no fantástico universo da escrita, compartilhe o que sua alma tem a dizer, seja através de um livro, seja através de um bilhete para quem conquistou seu coração, permita que as palavras te desnudem e revelem um pouco da sua singular essência.

Nessa edição, entre os contos, trouxe algumas frases de autores célebres, espero que goste das referências. Tenha uma boa leitura!

Amilton Júnior

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5 Palavras do Autor | @Amilton.Jnior

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6 Girassóis | @Amilton.Jnior

Girassóis

que seria de mim sem o meu grande e único amor? Talvez nunca conhecesse o que significa amar, ou teria sucumbido às tantas intempéries e hoje não teria a liberdade de contar um pouco da minha vasta história. Mas não quero pensar nas desgraças que me teriam ocorrido se Raquel, com seus olhos esverdeados, não tivesse sorrido para mim naquele acampamento de verão, abrindo as portas para que eu pudesse entrar em seu coração.

Deveríamos ter por volta dos vinte anos quando amigos em comum nos convenceram à aventura. Não nos conhecíamos, jamais imaginei conhecer alguém tão bela no exterior e tão esplêndida na alma. Eu me apaixonei assim que fomos apresentados e nossas mãos se tocaram acanhadas naquele desajeitado cumprimento que deu início às coisas. Percebi que ela também sentiu algo no coração quando, ao anoitecer, espalhados em torno da fogueira enquanto ouvíamos histórias, nossos olhos se cruzaram e ela sorriu docemente.

Aquele sorriso me enlaçou de uma vez por todas, passei a desejar contemplá-lo para sempre, preciso agradecer a Deus por ter me concedido tamanha honra!

Ficamos uma semana no meio da mata convivendo como verdadeiros homens da selva, foi divertido caçar frutos, aprender a escalar em árvores, foi prazeroso entrar em conexão com a natureza da qual viemos. A experiência foi ainda mais satisfatória porque Raquel e eu fomos nos aproximando, conhecendo interesses em comum, tive a chance de ter no peito aquela paixão acrescida.

Ao voltarmos para casa prometemos manter contato. É claro que nossos intentos estavam escondidos atrás dos argumentos que defendiam uma amizade sem segundas intenções, mas bem sabíamos que nossos corações já se comunicavam entre si.

As conversas ao telefone nos faziam rir e chorar, contávamos conquistas e desabafávamos sobre as derrotas, ao final encontrávamos apoio um no outro. Mas o telefone deixou de ser suficiente, queríamos nos ver, não adiantava acreditar que éramos apenas bons amigos, entre nós existia algo muito maior do que a mais forte e genuína amizade.

Nossos primeiros encontros foram complicados, às vezes não conseguíamos dar vazão aos assuntos como fazíamos por telefone e o

O

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7 Girassóis | @Amilton.Jnior

desagradável silêncio nos fazia companhia, era, então, quando íamos embora, mas eu nunca gostei de nossas despedidas. Sentia medo.

Culpava-me por minhas inseguranças e temia que alguém mais ousado conquistasse Raquel, eu não queria perder aquela que nem tenho certeza se poderia chamar de minha.

Naqueles encontros, no entanto, apenas tive certeza de que finalmente encontrara a mulher da minha vida, ela era simples e gentil, era divertida e inteligente, se um diálogo não precisasse de ao menos duas pessoas para acontecer eu não me incomodaria de passar horas ouvindo o melodioso som de sua delicada voz. Para minha surpresa, remetendo a uma de nossas conversas, ela se mostrou interessada em conhecer a fazenda da minha família. Eu, é claro, vendo a oportunidade para declarar os meus sentimentos em um ambiente mais reservado, prometi que seria um de seus melhores passeios.

Foi naquele dia especial que o nosso amor tomou formas, contornos e consistência.

Logo pela manhã, quando o sol nos agraciava com um belo e encantador amanhecer, chegamos ao lugar que eu mais amava visitar, onde eu me sentia em paz e protegido, onde meus pensamentos se acalmavam e o futuro não parecia uma incógnita. Vi nos esverdeados olhos de Raquel seu encantamento, não era para menos, como ela, o meu recanto era dominado pela beleza natural.

— É lindo! — entusiasmada, vestida naquele dançante e delicado vestido florido, deixando para trás os rastros de seu adorável e adocicado perfume, a mulher dos meus sonhos foi atraída como imã para o conjunto de girassóis que enfeitava a entrada da fazenda.

Meiga, farejou as plantas com os olhos fechados, não sabia que, como eu, apreciava tanto as pequenas e maravilhosas coisas da vida.

— Há muitos deles por aqui — falei indicando ao redor —. Minha mãe adorava girassóis, meu pai fez questão de encher a fazenda deles, foi uma homenagem que a emocionou em vida e que nos faz sentir próximos a ela mesmo após sua dolorosa partida.

— Eu sinto muito — atenciosa, Raquel se aproximou de mim despertando minha vontade por tocá-la, abraçá-la, declarar tudo o que sentia —. Meu pai também se foi, em um acidente no trabalho, mas como vocês também o homenageamos, é a maneira que encontramos para eternizar aqueles que amamos.

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8 Girassóis | @Amilton.Jnior

— Às vezes me pergunto por que precisa ser assim, por que temos que nos separar daqueles que são importantes para nós olhei para os pássaros que se aventuravam pulando de uma árvore para outra —. Às vezes a vida perde o sentido...

— Pessoas se vão e outras chegam. Amores precisam ser interrompidos para que outros comecem — tocando minhas mãos, acolhendo-as com ternura, Raquel fez com que meus olhos se voltassem a ela —. A vida não tem sentido, ela nos permite lhe dar o nosso próprio sentido... —a partir de palavras tão profundas, meu coração acelerou, quase beijei a mulher que me fascinava, mas não tive coragem, preferi pelas distrações, coisas que naquela espaçosa fazenda não faltavam.

Mostrei para Raquel as demais belezas do lugar, antes de andar a ajudei a realizar um antigo sonho: perder o medo de andar a cavalo. Ela se assemelhou a uma criança que descobre o inacreditável, assistindo sua felicidade minha convicção apenas cresceu: estava realmente apaixonado. Ao meio-dia entramos numa disputa para decidir quem iria cozinhar, mas como fizemos pelo restante de nossos dias entramos num consenso, eu conheceria sua macarronada e ela descobriria o sabor da minha salada de maionese, talvez a combinação não fosse tão apropriada, mas quando estávamos juntos o amargo ficava doce porque o amor é capaz de infinitas magias.

Nosso dia prosseguiu, conversamos sobre nossas famílias enquanto eu lhe mostrava um álbum antigo e ela me mostrava fotos que tinha no celular. Contamos tantos causos, rimos com as tantas encrencas nas quais nos metemos e nos emocionamos ao mencionarmos aqueles que viviam apenas nas lembranças. Foi uma tarde inesquecível na qual o silêncio deixou de se manifestar e os assuntos simplesmente surgiam.

Entardecia quando levei Raquel para conhecer o rio que cortava a fazenda. Sentamo-nos à sua beira e por alguns minutos apenas observamos as águas correrem. Embora o som não se manifestasse, as palavras se agitavam em minha mente, eu queria me declarar, ter a chance de viver o que meus pais viveram, ter a chance de usufruir de um amor inabalável.

— Já se apaixonou? — temendo que a pergunta fosse indiscreta, temendo a resposta que teria, ainda assim me arrisquei.

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9 Girassóis | @Amilton.Jnior

Aparentemente confusa, exibindo um sorriso discreto, Raquel encarou a mim por alguns instantes, tornou a admirar as águas tranquilas quando finalmente dissipou o silêncio:

— Já namorei, se é o que pretende saber, mas nunca foi por estar apaixonada — para mim nascia uma esperança, e se eu conseguisse a proeza de despertar sua paixão por mim? — Namorei porque acreditava que precisava namorar, mas hoje estou livre desse equívoco, livre para, quem sabe, finalmente me apaixonar — tornou a me encarar —. E você? — perguntou do seu jeito travesso —. Um cavalheiro tão galanteador deve arrastar a multidões! — era um elogio?

— Devo dizer que equivocou-se — respondi em meio ao risos —.

Nunca namorei por nunca me apaixonar, sempre quis esperar a aparição da pessoa certa — naquele momento toquei na face de Raquel e abri meu coração, pena que apenas na minha imaginação — . Hoje as pessoas parecem ter banalizado o amor, quero alguém que se disponha a vivê-lo para sempre sabendo que isso exige inúmeros esforços.

— Você é romântico — falou como se estivesse admirada —. Eu espero que essa pessoa chegue e o faça feliz, como é seu merecimento — mal sabia ela que era a procurada pessoa.

As estrelas já dominavam o céu quando, após um dia tão precioso, decidimos que era hora de partir. Confesso que meu peito se apertou com a ideia, queria para sempre viver ao lado de Raquel e esse desejo talvez dependesse daquele dia. Eu nunca saberei o que teria acontecido se não fosse aquele dia, mas também não importa, ele aconteceu e me concedeu eterna alegria.

— Raquel... – antes que entrássemos no carro pronunciei o mais belo e sonoro dos nomes atraindo a face angelical para mim —.

Raquel, eu preciso falar uma coisa — senti-me um idiota, e se fosse rejeitado? As palavras sumiram tão facilmente quanto apareceram.

— Matheus? — meu nome soou no som de sua voz, eu queria que aquilo acontecesse para sempre, não poderia me esconder atrás de medos bobos, precisava ser valente e, como um guerreiro, conquistar meu objetivo.

— Eu nunca me apaixonei até nos cumprimentarmos naquele acampamento, foi quando meu coração se agitou e eu finalmente descobri o que é ser conquistado por alguém — cauteloso, sem querer afastar a linda mulher, toquei em suas mãos enquanto me

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10 Girassóis | @Amilton.Jnior

fascinava pelo par de esmeraldas que embelezava o rosto de Raquel

—. Não sei ao certo o quê dizer, nem como dizer, mas fato é que eu me apaixonei por você e, se me permitir, posso lhe apresentar um homem ansioso por garantir felicidades ao restante dos seus dias...

Percebi que seus olhos se agitaram e encharcaram, suas mãos se pressionaram às minhas e seus lábios desenharam o mais fascinante dos sorrisos.

— Pode parecer mentira, mas o mesmo me atingiu, só não confessei por medo de estragar tudo e perder um amigo que nunca tive — suas mãos se soltaram das minhas e uma delas pousou sobre o meu rosto —. Permitirei que me apresente esse homem se me permitir lhe apresentar uma mulher que junto a você quer aprender todos dias sobre o que é o amor.

As palavras se esgotaram.

Beijei a doce Raquel.

Naquele beijo senti meu corpo estremecer e ser invadido por todas as sensações que nunca havia experimentado, sensações que me convenceram de que não era apenas paixão, eu começava a amar alguém.

Separamo-nos alguns centímetros.

Mas parecíamos sedentos por aquilo, como se tivéssemos sido privados daquilo por muito tempo e agora tivéssemos reconquistado a liberdade de vivê-lo.

Tornamos a nos beijar, mas com maior intensidade e mais desejo: nossas almas estavam satisfeitas, contudo as nossas carnes se almejavam. Como se forças maiores nos governassem, fomos levados de volta para casa, com as costas abri as portas do meu quarto e descansei nossos corpos sobre a cama.

Foi quando recobramos a consciência.

— Perdoe-me — falei preocupado.

— Não posso perdoá-lo por algo que também desejo.

E, então, naquele dia inesquecível, nossos corpos se uniram para que jamais se separassem e nossas almas se conectaram para que jamais deixassem de se comunicar.

Ao amanhecer, querendo impressionar aquela que agora poderia chamar de namorada, preparei o café da manhã, não hesitei em levá- lo à cama e, tão logo Raquel despertou, apresentei o que tinha preparado. Mas pedi paciência, tinha uma surpresa.

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11 Girassóis | @Amilton.Jnior

— Sou grato por ter conhecido alguém tão especial — voltei mantendo as mãos escondidas atrás das costas —. E espero que ele se mantenha em minha vida pela eternidade, agraciando o meu jardim, reinando em meu coração — revelei o buquê de girassóis que eu mesmo preparara, entreguei-o a mais bela das donzelas e, como o maior dos pagamentos, recebi o seu amor.

A partir daquele dia, em todas as manhãs, não deixei de presentear minha amada com as flores que tanto apreciava, nem mesmo agora, no auge dos nossos oitenta anos, nem mesmo agora que ela já não sabe o meu nome e a cada dia se sente mais confusa.

Eu sei quem ela é, o que foi e o que para sempre será. E enquanto eu souber que a amo demonstrarei esse verdadeiro amor, sei que no âmago de sua alma ela me reconhece e, em todas as manhãs, espera pelo que prometi lhe conceder: infelizmente o amor não é palpável, mas os girassóis sim, eles representam meus sentimentos pela mulher da minha vida.

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12 Girassóis | @Amilton.Jnior

“Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem”

~ Machado de Assis

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13 Sentir Falta | @Amilton.Jnior

Sentir Falta

por falta de sorte, ou por não saber escolher, fato é que algumas pessoas não têm tanta sorte quando o assunto é amor, acabam sofrendo por ele, chegam à beira da destruição, derramam lágrimas que nunca acreditaram que pudessem ser causadas pelo nobre, cobiçado e valoroso amor. Essa era a situação de Cecília, uma mulher carismática, cheia de energia, que com seu próprio charme a muitos encantava, que com sua pacífica áurea a tantos aproximava, mas que não coseguia viver uma consistente e segura história de amor.

Depois de cinco longos anos divorciada, submersa ao enfado da solidão, incrédula quanto à possibilidade de viver novos capítulos nos quais teria o prazer e a honra de desfrutar da mais íntegra e genuína paixão, a psicóloga organizacional cruzou com Fábio, um homem gentil e divertido que em poucos dias se instalou em seus pensamentos, que em poucas semanas adentrou o seu coração e que em poucos meses declarou os próprios sentimentos e propôs à sonhadora mulher que o aceitasse como seu namorado.

Tudo foi bem, pelo menos nos dez primeiros meses daquele relacionamento que prometia ser diferente de todos os outros, até mesmo o seu filho, fruto do último casamento, o aceitava como um bom amigo, mas a sua insegurança controlou os seus passos, o ciúmes dominou suas ações, depois de tantas discussões nada agradáveis a pior de todas as conclusões sentenciou o casal à separação. Ambos se amavam. Mas as desavenças colocaram aquele amor no fogo, a chama só se apagou quando os combustíveis finalmente se afastaram.

Cecília confessava a si mesma o quanto se sentia bem ao lado do mais diferente e especial dos homens que pôde conhecer, lembrava- se do formigamento que sentia quando ele lhe sorria exibindo aquelas covinhas que lhe garantiam uma sedução única e exclusiva, recordava-se do quanto era reconfortante sentir o seu toque singelo na pele. Mas todas aquelas boas e extasiantes sensações se resumiam a saudosas memórias, se não fosse a sua insegurança...

— Não sente falta do titio? — deitado com a mãe no sofá-cama, assistindo ao filme que ele mesmo escolhera, o pequeno Luís perguntou sobre o querido amigo que fizera, pela primeira vez dava

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14 Sentir Falta | @Amilton.Jnior

pistas de que sentia falta do sujeito que por tantas noites lhes fizera companhia naquela mesma sala.

— Por que essa pergunta? — tentando se concentrar na história que aos seus olhos passava, mas sendo levada para longe pelos intentos que abatiam seu coração desejoso por algo que apenas um outro alguém teria a capacidade de ofertar, Cecília se esquivou de responder.

— Você era feliz com ele — o garoto se sentou, levou as jabuticabas brilhantes ao rosto da mãe, soube descrevê-la comparando-a com o passado, sabia que ela sentia a falta do visitante cuja presença se transformou em algo natural —. Aposto que brigaram. Eu e meus amigos fazemos isso quando brigamos, mas então a vontade de brincar nos faz esquecer do que passou e voltamos a ser amigos — tornou a se deitar aninhando-se ao corpo da mulher —. Vocês deviam voltar a serem amigos...

Cecília se espantou com tão sábia fala, reconheceu que o filho se mostrava mais maduro do que ela: não perdia tempo com bobagens, não se deixava vencer por orgulhos que de nada serviriam, apenas queria estar com as pessoas que lhe faziam bem. E se faltasse aquilo a ela? Seus dias poderiam recuperar o brilho de outrora, dependia apenas de sua coragem.

O dia amanheceu, a luz do sol que atravessava as janelas de vidro tocou os olhos do gerente comercial que, espreguiçando-se entre os lençóis, tentou abraçar alguém que estaria ao seu lado, quando se deu por conta percebeu que a única companhia era a do travesseiro entre os seus braços. Suspirando desconsolado, sabendo que o coração sentia falta da mulher de cabelos encaracolados e pele serena, Fábio se sentou na cabeceira da cama, abriu a galeria do celular e encontrou a foto que mais amava apreciar, nela uma mulher alegre exibia seu contagiante sorriso ao fotógrafo que a cada dia se apaixonava mais. Lembrou-se dos tantos passeios que juntos fizeram, do quanto se sentia confortável ao lado de Cecília e do pequeno Luís, sentia que aquela era a sua família que a vida lhe dera.

Recordou-se de manhãs como aquela cuja diferença era que não acordava solitário, ao contrário, era o primeiro a ouvir a mais bela das vozes.

Sentia saudade de Cecília, do seu cheiro, da sua companhia, mas o que poderia fazer se não se conformar com tal distanciamento? Ela

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15 Sentir Falta | @Amilton.Jnior

não precisava ser tão insegura, não deveria ter tanto ciúmes, ele não queria outra mulher, não procurava por outros amores, outros sorrisos não despertavam o seu interesse, tudo o que ele queria era a doce e amável Cecília. Mas talvez ela não fosse a única culpada, ele poderia ter sido um pouco mais paciente, porém já não importava, estava feito, restava-lhe apenas se preparar para mais um dia de trabalho.

Como em todas as manhãs, Cecília beijou a face do filho, bagunçou a franja que lhe cobria a testa, abraçou-o desejando um bom dia de aula e esperou que ele adentrasse a escola. Também, como em todas as manhãs, Luís sabia que seu amigo mais velho passaria pelo portão da escola e o cumprimentaria. E se sua mãe e ele, naquela manhã, se encontrassem por acaso? Tendo a brilhante ideia, o garoto saiu em disparada chamando pela mãe, a inspetora da escola não teve tempo de contê-lo, nem o carro conseguiu frear a tempo suficiente, o pequeno Luís sofreu um acidente.

Estacionado na esquina da escola, esperando a mulher amada partir para então ver o menino que conquistou seu carinho de uma forma especial, Fábio viu quando o garoto voltou para trás, colocou a mão na maçaneta da porta, mas nunca conseguiria evitar a tragédia que seus olhos assistiram e que afligiu o seu peito.

O movimento ficou intenso no hospital, a ala pediátrica se mobilizou para atender o garoto inconsciente que chegara ferido acompanhado por uma mãe desesperada, aflita, que suplicava a médicos e enfermeiros para que salvassem o seu menino.

Nada a acalmava, ninguém que se aproximava conseguia convencê-la de que tudo ficaria bem, Luís era fruto de um amor que um dia existiu, que por algum tempo foi verdadeiro, mas que como de praxe chegou ao fim. Ela não queria perder a única boa coisa que ficara. Ligou ao pai do garoto, sua desculpa foi que teria uma reunião inadiável. Ficou irritada, sempre que precisava dele algo mais importante o levava para longe, não era a toa que o filho se identificara tanto com Fábio. Fábio. Precisou conter o próprio orgulho, precisava de alguém que a ajudasse naquela terrível experiência, seus dedos trêmulos discaram o número de que deixara sua agenda, mas permanecera no meio das tantas agradáveis memórias.

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16 Sentir Falta | @Amilton.Jnior

Ao assistir o terrível acidente, Fábio preferiu se manter distante, deixaria que Cecília resolvesse o problema sozinha, afinal, na última e acalorada discussão que tiveram, ela exigiu que fosse deixada em paz e era o que ele faria.

Mas Luís estava acima de qualquer desavença, não merecia ser castigado pela imaturidade de dois adultos, ele precisaria do amigo que Fábio prometeu ser, o que o gerente comercial seria. Seguiu a ambulância, assistiu a todo o movimento angustiante, mas não se aproximou, mesmo sabendo que Cecília necessitaria de um ombro amigo ele se manteve distante o bastante para que sua presença não fosse percebida. Até que o telefone tocou. Foi quando se despiu do próprio orgulho para, ao invés de atender a ligação, mostrar que estava por perto como um dia prometeu.

Esquecendo-se do que passou, necessitando apenas da segurança que aquele homem sempre lhe ofereceu com sua simples presença, a psicóloga organizacional se lançou aos braços onde encontrava paz e abrigo, foi envolta por eles, foi acolhida pelo homem que tinha muito a lhe ensinar sobre o amor e muito com ela a aprender.

— Ele vai ficar bem... — a voz macia soou bonança —. Ele vai ficar bem...

— O susto foi grande, mas já está tudo bem — o médico simpático levou a boa notícia ao casal que ansiava por informações — . Podem ver o filho de vocês — saiu sem dar tempo para que o corrigissem, mas não importava, por algum tempo viveram como uma verdadeira família.

— Meu amor... — a mulher se debruçou sobre o filho beijando-o agradecida —. Não imagina o medo que senti... Não posso perdê-lo!

— Amigão... — reservado, querendo respeitar o espaço de mãe e filho, Fábio se colocou do outro lado da cama hospitalar acariciando os cabelos escorridos —. Como se sente?

— Bem melhor... — ignorando o pouco de dor que ainda acometia o seu corpo, Luís abriu um travesso sorriso acolhendo as mãos dos dois visitantes e unindo-as sobre o seu peito —. Já fizeram as pazes? — ao menos, pensava ele, seu objetivo poderia ter sido alcançado.

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17 Sentir Falta | @Amilton.Jnior

Desconcertados e intrigados, homem e mulher apenas riram, aquela criança sempre soube como tornar as mais tensas situações em algo simples de enfrentar.

— Precisamos conversar — no corredor do hospital, acompanhando o homem que lhe fizera companhia até a saída, Cecília mantinha as mãos sobre os bolsos embora desejasse que as de Fábio lhe tocassem.

— Eu acho que sei como viemos parar aqui.

— O que quer dizer?

— Todas as manhãs, desde que seguimos nosso rumo, sempre vou à escola, espero você sair e, então, vou conversar um pouco com Luís. Eu vi o que aconteceu. Ele voltou para trás chamando por você, talvez quisesse que nos encontrássemos e, quem sabe, voltássemos a ser o que éramos — alguns instantes de silêncio os envolveu —. Só quero que saiba que posso ser o responsável por isso, se eu não fosse à escola...

— Obrigado...

— Obrigado?

— Sim. Obrigado — a mulher suspirou —. Sabe quando o pai dele o acompanhou até a escola? Nunca. O pai dele acha que pagar pensão já é o bastante, só aceito esse dinheiro porque é um direito do meu filho, mas o que ele sempre quis de verdade foi um pai que o amasse e sei que é em você que ele encontrou esse pai... emocionou-se —. Por outro lado eu sempre quis um homem que me amasse verdadeiramente e, quando o encontrei, não soube como mantê-lo ao meu lado. Você é especial, em todos os sentidos, e se puder me dar uma nova chance...

— Uma nova chance? — sorriu do seu jeito característico —.

Posso lhe dar todas as chances que quiser se você também me der a chance de ser paciente — acolheu as mãos que sentia falta de tocar

—. Sei que sua história não tem sido fácil, eu deveria ter sido mais compreensivo, mas não fui e coloquei a perder a família que sempre quis ter, a família que a vida me deu — tocou a face serena —. Se puder me dar uma nova chance...

No corredor do hospital homem e mulher se deixaram levar pelo que sentiam, beijaram-se românticos dissipando a frieza, derrubando os muros e construindo pontes entre os seus corações.

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18 Sentir Falta | @Amilton.Jnior

“Cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição

definitiva, que o editor dá de graça aos vermes”

~ Machado de Assis

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19 Poder Amar | @Amilton.Jnior

Poder Amar

queria ter o poder de derrotar o amor, matá-lo, extingui-lo, aniquilá-lo para que não fizesse novas vítimas, não destruísse outros corações e arrancasse das almas o prazer de viver. Mas sou frágil demais para esse sentimento poderoso que como um tornado raivoso avassala o íntimo de nossas emoções, que atrapalha as nossas vistas e não nos deixa pensar com a razão, antes nos entrega ao equívoco das sensações.

Dentro dos meus braços, chorando como uma criança aflita sobre o meu ombro, recebendo as carícias de minhas mãos que nunca se cansavam de passear entre os seus cabelos, Helena me presenteava pela última vez com a sua benquista e cobiçada presença, tão logo o sol raiasse e os pássaros a todos despertassem com sua cantoria nossas vidas seriam transformadas para sempre, estaríamos vitimados, sentenciados a sofrer amargamente por aquilo que, embora quiséssemos, não conseguíamos dissipar.

— Sentirei sua falta, tenho certeza de que jamais esquecerei que foi em você que encontrei o significado do amor — embora as palavras lutassem contra o choro, eu as compreendi perfeitamente, sabia que eram as últimas, tentava me conformar com o fato de que nunca mais ouviria aquela doce e sublime voz.

— Também sentirei a sua, mas se me levar dentro do coração para sempre estaremos ligados, estarei ao seu lado, mesmo que separados por uma distância incalculável — eu a amava mais do que a mim mesmo, apaixonei-me terrivelmente quando a vi tocando flauta em uma apresentação na qual trabalhei servindo os convidados, foi naquele dia que eu conheci a mulher dos meus sonhos sem saber que certos devaneios não foram feitos para serem transformados em realidade.

— Lembro-me perfeitamente de como nos conhecemos afastando-se um pouco, o suficiente para que nossos olhos se encontrassem, ela nos levou de volta aos meses passados, quando nossos corações palpitaram a partir da agradável e inevitável aproximação —. Estava guardando a flauta, sendo acompanhada por meu pai, quando você apareceu com a bandeja e gaguejando me ofereceu os doces. Quando reparei na semelhança que suas íris

Eu

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20 Poder Amar | @Amilton.Jnior

possuem com o límpido céu percebi que algo dentro de mim despertava, era meu destino se cumprindo, finalmente me encontrara com minha alma gêmea...

— Desde aquele dia seu pai deixou claro não gostar de mim. Ele mesmo se serviu dos doces e me dispensou o mais rápido que pôde.

— Mas você não foi embora...

— Não... Eu não fui... — sentindo que a opressora saudade já despontava dentro de mim, não hesitei ao tocar o suave rosto da minha amada, talvez aquela fosse a última oportunidade que tínhamos para que nossas peles se tocassem —. Fiquei do lado de fora do salão, sabia que a qualquer momento você poderia passar, pouco me importei se sentiriam a minha falta lá dentro, se seria demitido por minha ausência, eu precisava uma vez mais contemplar esses olhos que brilham mais que o sol...

— E, então, finalmente apareci. Tentei subir na carruagem, mas acabei me desequilibrando e, quando estava no chão, um nobre cavalheiro, dono do mais belo e terno sorriso, ao meu lado apareceu estendendo sua mão, oferecendo auxílio — sorridente, sem desviar a atenção de mim, Helena levou os delicados dedos ao meu rosto por onde os passeou de forma calma, serena, da forma como me amava.

— A donzela, por sua vez, retribuindo ao sorriso desse humilde senhor, agraciou-o com a exibição do esplêndido curvar de seus lábios. Sua mão pequenina achegou-se a dele aceitando a ajuda fechando os olhos por alguns instantes, cobri a mão que alisava minha face, senti-a com ternura, apreciei aquele momento que precisava eternizar em minhas recordações, nunca mais teria tal prazer —. Mas seu pai, mais uma vez descobrindo ao sol que não aceitava a presença de estranhos ao lado da bela moça, achegou-se afastando o cavalheiro, nem ao menos o agradeceu, foi ligeiro ao ordenar ao cocheiro que fizesse a carruagem seguir seu destino.

— Talvez devêssemos ter percebido naquela hora que estaríamos sob perigo constante se insistíssemos nesse amor ameaçador, mas estávamos cegados, nada nos convenceria do contrário, nada mudaria os nossos desejos, queríamos um ao outro e foi isso o que tivemos...

— E eu não me arrependo, de nada, por nada... — encostei minha testa na dela, entrelacei nossos dedos, por mim ficaríamos sentados naquela cama daquela forma por todo o sempre —. Um simples garçom como eu, um homem humilde que jamais participaria

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21 Poder Amar | @Amilton.Jnior

de festas luxuosas se não fosse o servente, jamais pensaria em viver um amor, mas apesar de tudo, apesar dos confrontos, apesar das duras palavras que precisei ouvir de seu pai, tive a sorte de ser amado por uma mulher que nunca desaparecerá dos meus intentos, eu a amo, Helena, nada pode mudar isso, nem o tempo, e se conseguir amar outra pessoa nunca será com a mesma intensidade e paixão com as quais eu amo você...

— Não queria que fosse assim, nunca imaginei que seria assim, daria qualquer coisa para que não fosse obrigada a suportar essa dor que já me consome. Lamento-me por sermos tão frágeis, por estarmos em desvantagem em relação a um homem poderoso, lamento-me por esse ser o final de nossa história...

Restava-nos apenas aceitar que para alguns o amor se apresenta de repente e da mesma maneira trata de desaparecer deixando rastros dolorosos e cicatrizes que nunca curam.

Naquela noite permitimos que os nossos sentimentos governassem nossas ações, os lençóis testemunharam o quanto nos amávamos, o quanto nos desejávamos e o quanto estávamos feridos por sermos forçados a um destino impiedoso.

Na manhã do dia seguinte as lágrimas nos envolveram enquanto nos arrumávamos para partir do hotel que serviu de momentâneo refúgio às nossas almas afligidas.

— Não quero que fique assim, isso me abala... — condoído, abracei a linda mulher, tomei-a em meus braços me oferecendo como apoio —. Valeu a pena... Todos esses meses valeram a pena.

Seremos eternamente acompanhados pelos bons momentos que juntos vivemos, teremos aos nossos ouvidos todas as acaloradas palavras que trocamos, tudo isso servirá para que tenhamos forças e sigamos em frente.

Com os olhos encharcados ela me encarou, forçou um sorriso que quebrantou minha alma e me beijou pela derradeira vez.

Estrondos.

Lembro-me de ter experimentado uma dor latejante.

E então as luzes se apagaram.

Sim. Eu queria ter o poder de arruinar o amor, como ele me arruinou. Eu queria arrancar dele o fôlego, como ele fez com a minha amada Helena que teve o nome estampado em jornais, proclamado

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por tantas bocas e eternizado na lápide que agora encaro desejando ferozmente para que o amor deixe de vitimar outros apaixonados.

Naquela manhã alguém informou ao pai de Helena que estávamos juntos no hotel, ele mesmo apareceu repentinamente disparando insanamente, no julgamento teve a ousadia de dizer que não era sua intenção matar a própria filha, mas que queria salvá-la de um verme como eu e disso não se arrependia.

Eu queria o ter o poder de arruinar o amor, mas então entendi que tive o poder de amar e ser amado enquanto outros não possuem tal dádiva, sucumbem à própria frustração e intentam covardemente destruir o amor daqueles que amam. Mas o amor não deixa de existir. Ela para de ser vivido, mas para sempre é sentido, eu só desejo que as pessoas consigam se encontrar, se resolver, alcançar o poder de amar para que outros não sofram a dor que eu sofri.

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“Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnal”

~ Vinícius de Moraes

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O Direito de Amar

dedos delicados deslizavam sobre a pele macia ao toque. Os cabelos cheirosos cobriam parte do tronco desnudo enquanto este subia e descia conforme o lento ritmo da respiração. Os braços sempre tão fortificados envolviam o corpo frágil que muito apreciava ter a sensação de segurança. Dois amantes dividiam os mesmos lençóis, compartilhavam os mesmos cobertores e mutuamente se aqueciam naquela fria manhã de inverno.

— Sua companhia é sempre tão agradável — a voz meiga sussurrou discreta, temia ser notada, precisava ser encoberta —.

Sinto-me lisonjeada por tê-lo em minha vida apesar de todas as dificuldades.

— Um amor verdadeiro supera todos os desafios e eu te amo genuinamente — a voz suave também soou cautelosa, precisava ser assim, aquele amor precisava ser vivido hesitantemente para que pudesse sobreviver —. Não me importarei se for necessário que vivamos em uma caverna, se em manhãs como essa eu a tiver em meus braços serei o mais honrado dos homens!

— Falando assim sinto vontade de aceitar sua proposta, vencer o medo e desbravar esse mundo como uma fugitiva, mas além de injusto é perigoso, seríamos confrontados em qualquer lugar, seríamos oprimidos onde estivéssemos, não é essa a vida que merecemos — levou os olhos singelos ao rosto que tão bem conhecia, cujos mínimos detalhes nunca passaram despercebidos —. Não posso me render, não podemos nos entregar, todos vivem os seus amores ou aquilo que acham ser o amor, nós também somos dignos desse direito com a vantagem de nossos sentimentos serem reais e verdadeiros — acariciou a face cuja barba era bem cuidada, tocou os lábios cujo sabor nunca deixava seu paladar —. Eu amo você, caro cavalheiro, não serão ordens descabíveis que mudarão tal realidade...

— Ouvindo-a falar dessa forma, cheia de valentia e determinação, disposta a encarar os problemas nos olhos, sinto-me um covarde por cogitar fugir dos tais, às vezes me questiono se mereço tão digna mulher — cobrindo a mão que pousara em seus lábios, entrelaçando os dedos que como imã se atraíam, o sujeito apaixonado abriu um sedutor sorriso —. Mas então me alimento da

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sua força, encho-me da sua coragem e entendo que você não merece viver nas sombras, nós não merecemos ser obrigados a esconder da luz algo tão puro... — acariciou as bochechas rosadas —. Concluo que pelo amor sempre valerá qualquer luta — trouxe a amada mulher para si, beijou-a com ternura e desejo.

Do corredor, passos foram ouvidos.

De repente, a porta se abriu.

— Juliana, apronte-se — o pai da jovem moça soou a potente voz —. Precisamos resolver um importante assunto lá embaixo.

Tão logo o sujeito hostil deixou o quarto, o jovem rapaz ressurgiu da varanda.

— Henrique, precisa ir — conteve-o antes que cedesse aos seus beijos e incentivasse a ira do pai —. Mais tarde nos encontraremos no lugar de costume.

— Contarei ansioso os segundos que até lá demorarão — cortês, beijou a mão da moça pela qual se afeiçoara, hábil, escalou até o telhado e sumiu das vistas de sua amada.

Elegantemente vestida, para o agrado do pai, Juliana desceu as escadas exibindo o largo e simpático sorriso, escondendo a desconfiança que surgira entre os seus pensamentos quando avistou na sala de estar um velho amigo do poderoso governador acompanhado de seu jovem filho.

— Perdoem-me, rapazes, por um deslize perdi a hora — aceitou a mão estendida do pai, por quem foi levada para mais perto de seu convidado.

— Uma dama tão bela não tem com o que se preocupar — o importante comerciante tirou o chapéu em demonstração de respeito, beijou a mão coberta pela luva de pano —, a não ser servir ao seu marido — aquele homem conhecia os princípios da moça, o olhar provocativo confirmou a audácia das palavras.

— Servir ao meu marido? — sorrindo educadamente, Juliana ocultou o desconforto que tal fala lhe causou —. Lamento dizer, mas sou uma mulher solteira. Ainda que me case, não estarei ao lado de um tirano, terei um esposo, a quem não servirei, mas inegavelmente amarei...

— Este é Eduardo — sentindo-se desafiado por uma mulher, sem poder retrucá-la com suas grosserias por assumir que sua resposta fora respeitosamente ousada, o comerciante guiou a mão de Juliana

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ao rapaz ao seu lado, quem acolheu a mão que jamais lhe pertenceria e a beijou —. Pode parar de lamentar a vida de solteira, este viril cavalheiro está disposto a lhe conceder o seu nome.

Imediatamente, achando que nunca seria submetida àquilo e se decepcionando incontestavelmente, Juliana recolheu para si a própria mão e levou o olhar surpreso ao pai.

— Está na hora, não concorda? — o governador entregou as intenções daquele encontro —. Não é bom para uma mulher estar sozinha, ela sempre necessitará de um bom homem ao seu lado, garantindo-lhe honra e decência, ninguém melhor que o estimado Eduardo para minha amada Juliana.

— Sou a única responsável por minhas próprias honra e decência, não necessito da sombra de um homem limitando os meus horizontes — protestou assustada com o que estava prestes a acontecer.

— O assunto não está aberto a discussões.

— Ninguém pode decidir por mim escolhas que me dizem respeito! Quando lamentei não estar casada fui apenas simpática, em muito me alegro não ser como vossas esposas, mulheres que fizeram infelizes, mulheres que ainda não despertaram para o direito que possuem sobre suas próprias vidas — as palavras de revolta e rebelião assustaram os homens que temiam perder um poder injusto que usurparam, o poder de decidir sobre a vida de alguém.

Causando desconfortos, a jovem mulher deu às costas, avançou em seus passos nervosos, mas foi interrompida no caminhar pela mão que pressionou seu braço.

— Não aceitarei que minha filha se comporte como uma sufragista ordinária! — declarou assiduamente —. Vá para o seu quarto e procure se convencer da nova realidade que viverá, é o melhor que fará, ou, é tudo o que pode fazer!

Em seu quarto, Juliana permitiu que as lágrimas caíssem sobre a cama que instantes atrás a acolhia com o homem que amava, mas que naquele momento testemunhava o choro de medo e raiva.

Dentre os seus pensamentos muitos questionamentos se levantavam, queria saber quando que as mulheres teriam direito sobre a própria vida, quando que as mulheres seriam reconhecidas como pessoas independentes tal qual os homens, queria saber, também, se no

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futuro teria o prazer e a felicidade de amar destemidamente o galanteador Henrique.

Pouco antes do almoço caminhou pelo corredor da mansão.

Ouviu o plano do pai.

— Não há alternativa senão a morte — falava com um subordinado —. Quero Henrique morto antes do anoitecer. A forma como o faremos de pouco me importa — sentou-se em sua poltrona

—. Sem ele no caminho evitarei maiores problemas!

Seu coração pulsava forte, as pernas almejavam ardentemente terem a capacidade de dar passos maiores e os olhos dos quais vertiam lágrimas queriam mais que tudo contemplar a face de Henrique.

Afobada, Juliana adentrou a humilde mercearia onde o amado trabalhava. Pouco se importou em ser reconhecida como a filha do governador, pouco se preocupou em fazer os clientes esperarem, arrastou Henrique para os fundos do estabelecimento, precisava salvá-lo.

— O que aconteceu? — surpreso, o rapaz indagou.

— Precisa fugir, ir para longe, meu pai ultrapassou todos os limites e quer matá-lo! — as palavras lutaram contra o choro e anunciaram triste notícia.

— Fugir? — o moço se indignou.

— Eu sei o que falei sobre fugir, mas se quiser sobreviver essa é a única maneira! Não o impedirei nem hesitarei em minha decisão, irei com você aonde quiser, aonde achar ser mais seguro, estarei ao seu lado como uma fugitiva, ao menos estarei feliz!

Em uma hora de desespero outras possibilidades tornaram-se impossíveis. Queriam viver o amor. Precisavam sobreviver aos ataques. Teriam que ser fortes e deixar para trás tantos sonhos para que tivessem a chance de tornar a sonhar.

Gritarias.

O som de objetos caindo soou terrível aos seus ouvidos.

Som que se misturou ao estrondo de disparos.

— Venha comigo — Henrique instruiu —. Aconteça o que acontecer, mantenha-se atrás de mim!

Nos fundos da mercearia havia uma janela que fora destruída pelos chutes do rapaz e permitiu que o casal a atravessasse, mas não impediu que olhos traiçoeiros o visse.

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— Aqui! — o encapuzado esbravejou atraindo a atenção de seus companheiros —. Aqui!

Juliana e Henrique não encontraram saída, de qualquer forma seriam pegos, desistiram de adiar o inevitável.

Som de disparos.

Em um ato de puro amor, a moça se colocou diante do amante.

Os disparos não soavam apenas, agora se faziam presentes através de uma arma ansiosa por sangue.

As munições aleatórias acertaram Juliana.

Mas também atingiram Henrique.

Feridos, sendo lavados por sangue, os apaixonados jovens perderam as forças sobre as pernas, não conseguiram mais sustentar o próprio corpo.

O rapaz caiu.

Sobre seus braços a moça desfaleceu.

Deitaram-se sobre o pó.

De mãos dadas.

Antes que as luzes se apagassem eternamente, encararam-se pela última vez, partiam com a visão do amor.

Esquecendo-se do plano, esquecendo-se de que precisava se esconder, o assassino retirou o próprio capuz, avançou a passos furiosos querendo recusar a ideia de que sua ignorância vitimava a própria filha.

Quem sabe amar prova do prazer da vida enquanto em suas narinas houver fôlego, mas quem não consegue aprender sobre a complexidade do amor acaba sufocado pelo próprio ódio.

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“O ser humano pode começar a mudar em qualquer fase da vida, inclusive, na terceira idade. Nós somos uma página nova a cada

dia”

~ Içami Tiba

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Para Sempre

acredito que o maior erro da juventude esteja no ato de acreditar que a imortalidade é uma possibilidade, de que vencer o passar do tempo é uma tarefa que somente os fracos não conseguem resolver, de que somos fortes demais para qualquer tempestade que fazemos de chuvinha que a nós sobrevém. Eu acredito que o maior erro da juventude seja o de viver nesse universo de imaginações provocado pela petulância que há dentro de nós. Mas a vida passa, o relógio não trava e o tempo mostra que o nosso tamanho é bem menor do que poderíamos acreditar.

Aprendi isso tarde demais, Derramei lágrimas para tal.

Mas, agora, passando esses dedos trêmulos sobre os lábios que em tantas noites me aqueceram e que em tantas manhãs me agraciaram com o seu belo e delicado curvar, posso abrir um singelo sorriso sendo levado de volta ao passado, quando a minha história de amor começou, quando eu acreditava que era bom demais para ser finito.

Éramos adolescentes ainda, ou ao menos estávamos no final dessa fase conturbada do ciclo humano quando nos conhecemos e instantaneamente nos apaixonamos. Apesar de jovens, inexperientes em tantos assuntos, nunca ousamos duvidar de que o nosso amor fosse verdadeiro, nem mesmo vacilamos quando diziam que era apenas uma paixonite, amávamo-nos verdadeiramente, desde sempre nos amamos.

Entretanto, apesar dessa certeza, a timidez da juventude nos aprisionou em uma amizade que parecia eterna, que muito estimávamos, que por algum pouco de tempo serviu para aquietar nossos desejos apaixonados, mas que quanto mais nos aproximava, mais deixava de ser o suficiente e alimentava as reais intenções que pulsavam em nossas almas predestinadas ao amor.

E, então, um belo dia, a magia aconteceu.

Estávamos na praia naquele fim de tarde de outono quando o vento frio que soprava das esbeltas ondas tocavam nossos corpos ainda distantes. Apreciávamos o reflexo do sol nas águas agitadas

Eu

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enquanto falávamos sobre os planos para o futuro. Mas naquele dia, diferente de todos os outros, minha atenção às palavras era mínima, meu foco estava naqueles olhos esverdeados que reluziam como joias preciosas ao colecionador devoto. Ela era linda. Seus cabelos dourados, ondulados nas pontas, dançavam no ritmo do vento e exalavam o perfume que passei a desejar para sempre sentir.

Ela queria se formar em medicina, prometera ao avô falecido que não pouparia esforços para cuidar de cardiopatas, principalmente dos menos favorecidos que dependiam dos serviços públicos. Confesso que muito mais pela sua beleza estonteante, eu era apaixonado pelo coração valoroso que pulsava dentro de si. Mas naquele dia eu não falei sobre os meus planos individuais, não aguentava mais colocar a cabeça no travesseiro e não ter sossego dos cenários que criava em minha mente, dos diálogos que imaginava serem possíveis para que abrisse meu coração. Pouco me importava minhas realizações pessoais. Meu maior objetivo só seria alcançado se Ester me aceitasse.

— Espero que não me interprete mal, mas não posso responder sua pergunta, não por enquanto, o que tenho a falar vai além de mim, envolve alguém que aprecio — ela queria saber dos meus projetos, mas naquele instante só um importava: amá-la pela eternidade. Pela primeira vez, de uma forma nunca feita, aproximei- me da garota que me enlouquecia, que me transformava em um verdadeiro poeta, que de mim tirava os mais belos versejares —. Sei que somos amigos, não posso negar que nossa amizade tem me feito um bem grandioso, se antes eu levava uma vida de bacana, despreocupado com o futuro, agora, por sua causa, anseio ter uma vida, ser alguém e servir de orgulho às pessoas que amo ou ao menos à pessoa que mais amo. Essa transformação não seria motivada apenas por uma amizade. É o amor. É o amor que nos transforma — encarando seu olhar intenso, arrisquei-me a envolver a delicada mão que descansava sobre a areia ainda morna, respirei e prossegui —. É claro que tenho planos individuais, e não os esconderei de você, mas meu maior sonho não se resume a mim, envolve a garota pela qual estou apaixonado, a garota que prometo amar intensamente se for aceito como seu namorado...

Aquele sorriso que pelos próximos anos balançaria meu peito a cada exibição se abriu instantaneamente, seus olhos se encheram

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d’água e eu percebi que as palavras não soariam embora estivessem dentro do seu coração. Rompi as distâncias. Venci a timidez. Nossos lábios, pela primeira vez, se uniram tendo o mar como testemunha, pela primeira vez fui aquecido pelo seu beijo adocicado.

Daquele dia em diante a amizade deu lugar ao amor, a uma maior cumplicidade, a uma lealdade que jamais se abalaria, que nunca deixaria de existir. Os meses se passaram e nossos sentimentos apenas se fortaleceram.

E, agora, passando esse dedo apreensivo sobre o rosto macio, sou levado de volta ao passado, quando nossa parceria se firmou um pouco mais.

Desde aquele beijo na praia de passaram dez meses. Estávamos convictos de que aquele seria o nosso futuro, tal certeza respingou sobre as pessoas que nos cercavam e que passaram a acreditar que entre nós o sentimento era eterno.

Nossas famílias se aceitavam e nos aceitavam. Nunca me esquecerei dos pais que ganhei e nunca sairá da minha mente a forma acolhedora como meus pais abraçaram a garota dos meus sonhos. Entre nós existia harmonia. Uma ligação que nada romperia.

Mas, então, ao final daqueles dez meses, uma notícia nos abalou.

A mãe de Ester, duas semanas depois de ter descoberto o câncer, precisou dar entrada emergencial no hospital, lutou por sete dias, não cedeu nem um pouquinho, mas suas forças se esgotaram e sua vida ali se findou.

Ester era muito próxima da mãe, nem preciso dizer que sofreu arduamente, algo que por tantas vezes me fez ter a revoltada vontade de ter o poder de com minhas mãos aliviar o seu sofrimento.

Foi meu primeiro choque de realidade na juventude: as coisas não estavam sobre o meu domínio. Mas não dei a devida importância à lição, não sabia que mais tarde precisaria dela.

Ao final do enterro, depois que os muitos parentes e amigos se despediram ofertando suas palavras de condolências, restamos apenas Ester e eu sentados no banco de concreto em frente à sepultura que guardava o corpo de uma mulher tão especial.

Angustiada, enfraquecida, como que indefesa, Ester se lançou ao

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meu peito, seus dedos se enterraram em meus braços e sobre mim derramou o choro apertado.

Foi quando, de uma maneira inédita, toquei a pele macia de seu rosto, molhada pelas muitas lágrimas que disputavam espaço. Foi quando tive outro choque de realidade, ao qual dei o merecido crédito. Aprendi que aquilo era amor, aquilo era amar: nas horas de maiores dificuldades, nos instantes de maior sofrimento, não importa o tanto de amigos que tenhamos, nem a quantidade de parentes que se apresentem, tudo o que queremos é o afago daquele que em suas mãos possui o nosso coração.

— Vai ficar tudo bem — foi o que consegui dizer na tentativa de consolar —. Sempre estarei aqui, por você... — aquela foi minha mais importante promessa, selada com o beijo que depositei sobre os fios dourados enquanto envolvia minha amada no abraço que intencionava aliviá-la de tanta dor.

Aquela de fato foi a maior lição que aprendi. Amar é confiar a alguém o seu momento de fraqueza e é reconhecer que o outro confiou em você ao fazê-lo. Hoje as pessoas parecem errar nesse ponto, confiam a qualquer um a sua dor, ou então desdenham daqueles que lhes confiam lágrimas. Está o amor em extinção?

Mas, agora, passeando esses dedos encharcados sobre os ombros convidativos ao toque, mais uma vez sou levado ao passado, quando o amor se consumou, quando em meu vigor da juventude não me preocupei com o fim das coisas, o término parecia inexistente, atentei-me apenas ao início delas.

Alguns meses após a tragédia, quando já estávamos recuperados e voltávamos a sorrir de coisas bobas e a enxergar animais nas nuvens, pedi a mulher da minha vida em casamento.

Sempre emotiva, ela veio às lágrimas, me confortava saber que seu choro era de alegria.

A festa foi um sucesso, acho difícil me lembrar de algum convidado que não tenha nos dito o quanto estavam emocionados.

Aquela noite ficaria marcada para sempre em nossas memórias afetivas.

Mas foi a pós-festa que nos ligou ainda mais.

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