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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

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Academic year: 2022

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Flávia Regina de Queiroz Batista

CARACTERIZAÇÃO FLORÍSTICA E ESTRUTURAL EM ÁREAS

ABANDONADAS DE AGRICULTURA ITINERANTE EM CANANÉIA, VALE DO RIBEIRA, SP.

Dissertação apresentada ao curso de Pós- graduação em Biologia Vegetal do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos para obtenção do título de mestre em Biologia Vegetal.

Orientador: Prof. Dr. Ricardo Ribeiro Rodrigues

CAMPINAS 2002

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RESUMO 2

INTRODUÇÃO 3

OBJETIVOS 8

1.OBJETIVO GERAL 8

2.OBJETIVOS ESPECÍFICOS 8

MATERIAL E MÉTODOS 9

1. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA 9

1.1 O LITORAL DO ESTADO DE SÃO PAULO 9

1.2 O MUNICÍPIO DE CANANÉIA E O BAIRRO SÃO PAULO BAGRE 10

2. ESCOLHA DAS ÁREAS 11

3. AMOSTRAGEM 12

3.1 DA VEGETAÇÃO 12

3.2 DO SOLO 12

4. ANÁLISE DOS DADOS 13

4.1 ANÁLISE FLORÍSTICA. RESULTADOS QUALITATIVOS E QUANTITATIVOS DAS CLAREIRAS ANTRÓPICAS. COMPARAÇÃO ENTRE AS DIFERENTES IDADES. 13 4.2 A FLORESTA DE RESTINGA DA ILHA DE CANANÉIA NO CONTEXTO DA REGIÃO DE IGUAPE-

CANANÉIA: COMPARAÇÃO FLORÍSTICA. 14

4.3 ANÁLISE ESTRUTURAL 14

4.4. ANÁLISE DE SOLOS 14

RESULTADOS E DISCUSSÃO 15

1.RESULTADOS E DISCUSSÃO: ANÁLISE FLORÍSTICA 15

1.1 RESULTADOS QUALITATIVOS E QUANTITATIVOS DAS CLAREIRAS ANTRÓPICAS-COMPARAÇÃO

ENTRE AS DIFERENTES IDADES. 15

1.2. COMPARAÇÃO ENTRE A FLORESTA DE RESTINGA DA ILHA DE CANANÉIA E OUTRAS FLORESTAS

DE RESTINGA DA REGIÃO DE IGUAPE-CANANÉIA. 19

2.RESULTADOS E DISCUSSÃO: ANÁLISE ESTRUTURAL 37

2.1. PARÂMETROS GERAIS DAS CLAREIRAS DE DIFERENTES IDADES DE POUSIO 37 2.2 ANÁLISE DOS DIÂMETROS DOS INDIVÍDUOS AMOSTRADOS NAS CLAREIRAS COM DIFERENTES

IDADES DE POUSIO 38

2.3 ANÁLISE DAS ALTURAS DOS INDIVÍDUOS AMOSTRADOS 39 2.4. ANÁLISE DO PERFILHAMENTO DOS INDIVÍDUOS AMOSTRADOS 41 2.5. PARÂMETROS FITOSSOCIOLÓGICOS DAS PRINCIPAIS ESPÉCIES 42

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO: ANÁLISE DE SOLOS 59

4.CONCLUSÕES 66

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Resumo

Este trabalho apresenta a caracterização florística, estrutural e edáfica, e discute a dinâmica de regeneração da vegetação em áreas de agricultura itinerante. Esse modelo de agricultura, para funcionar com sucesso, pressupõe regras dependentes do período de pousio e a intensidade das práticas das queimadas. Pretende-se usar os parâmetros de diversidade florística e fertilidade do solo como possíveis indicadores do necessário tempo de pousio para a manutenção da resiliência da floresta através da avaliação das características florísticas, estruturais e edáficas de capoeiras de diferentes idades. O trabalho de campo foi desenvolvido no bairro São Paulo Bagre, em Cananéia, litoral sul do estado de São Paulo. A vegetação predominante na área é a Floresta de Restinga. Os moradores do bairro São Paulo Bagre identificam dois tipos de mata nas redondezas, a mata alta, ou mata de baixio, que não era usada para agricultura por passar grande parte do ano encharcada, e a mata baixa, localizada em terrenos livres de encharcamento durante todo o ano com solos arenosos, onde se costumava praticar a agricultura de coivara. Para a realização dos levantamentos deste estudo foram selecionados alguns destes locais que, segundo os moradores e observações durante o trabalho de campo, não sofrem inundações durante o ano. Nestes locais o solo é arenoso, com uma camada de húmus fina ou ausente. Foram coletadas amostras de solo e material botânico, em 12 áreas de diferentes idades de pousio e abandono (10, 25, 35, e 60 anos) e diferentes estádios sucessionais. Em cada área foram estabelecidas 16 parcelas de 25m2. Os indivíduos amostrados foram identificados por espécie estimada a altura e medido o diâmetro (PAP≥15cm) e agrupados em classes de diâmetro e de altura. Amostraram-se 44 espécies, das quais 5 não foram identificadas e 14 não foram amostradas por nenhum dos 6 estudos realizados em remanescentes florestais na região de Iguape-Cananéia. A amostragem florística por idade revelou que, apesar de uma grande parte do total de espécies não ter sido encontrada em áreas de 10 anos, existem espécies pioneiras e não pioneiras em todas as idades. Não foi possível definir uma ou poucas espécies indicadoras de determinada de idade de pousio. Foram calculadas a densidade de indivíduos, área basal, porcentagem de espécies raras, diversidade e equabilidade de espécies arbóreas em cada área usando o índice de diversidade de Shannon & Weaver e parâmetros fitossociológicos. Foram realizadas análises multivariadas de classificação e ordenação para dados de presença e ausência e de abundância de espécies. As áreas de 10 anos apresentaram riqueza de espécies bem menor que as demais. Os resultados das análises de vegetação e de solos foram coerentes, revelando grande heterogeneidade entre áreas de mesma idade, mas com crescente complexidade de áreas mais jovens para as mais antigas, e um gradiente em que áreas de 10 e 60 anos estão em extremos opostos.

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INTRODUÇÃO

O município de Cananéia faz parte da região do baixo Vale do Rio Ribeira de Iguape,que é considerada a região mais pobre do estado de São Paulo, pois sempre esteve à margem dos ciclos econômicos brasileiros e mundiais, e não foram encontradas estratégias adequadas para o desenvolvimento da região. A história da região começa a ser contada pelos inúmeros sambaquis, que revelam sua ocupação por povos indígenas (Castro 1921).

Em 1530 a região recebeu os primeiros colonizadores. De 1600 até 1800, com a intensa extração de ouro, a economia sofre um forte impulso e o porto de Iguape passa a ser de muita importância na exportação de ouro e produtos agrícolas (Castro 1921).

A partir de 1800 a região sofre estagnação econômica provocada pela abertura do canal do Valo Grande, que provocou assoreamento do Porto de Iguape, e pela construção da ferrovia Santos-Juquiá, que deslocou Iguape como entreposto comercial (Castro 1921). Além disso, com a abolição da escravatura houve falta de mão de obra nos arrozais, o que provocou a decadência da rizicultura. No início deste século, às custas de mão-de-obra imigrante japonesa, se desenvolve a monocultura do chá e a policultura é introduzida por colonos eslavos e italianos, além da substituição dos antigos arrozais por bananais o que permite o início de uma lenta recuperação econômica na década de 30 (Ivanauskas et al, 2001).

Habitam o Vale do Ribeira comunidades tradicionais vivendo da agricultura de subsistência, extrativismo e pesca artesanal, comunidades indígenas e comunidades negras vivendo ainda em antigos quilombos, o que torna enorme a importância social e cultural da região.

Essas comunidades sobrevivem em remanescentes de Mata Atlântica que abrigam altíssima biodiversidade. Isso significa que é imprescindível que a região passe por um processo de estímulo ao desenvolvimento, que ao mesmo tempo preserve as características ecológicas da região e possibilite a melhoria da qualidade de vida dos habitantes. Nesse sentido essa região deve ser o ambiente preferencial para o desenvolvimento de trabalhos que busquem a compatibilização do uso agrícola do solo com a manutenção das características do ambiente natural (São Paulo, 1992).

Dos 5% de área natural que ainda cobrem o estado de São Paulo, 3,5% encontram-se no Vale do Ribeira protegidas na condição de Unidades de Conservação (UC), entre Parques Estaduais, Estações Ecológicas e Áreas de Proteção Ambiental e em poder de particulares, posseiros ou grileiros. Entre estas Ucs está a APA de Cananéia- Iguape- Peruíbe, localizada na região do baixo Vale do Rio Ribeira de Iguape. Sua estratégia de gerenciamento visa compatibilizar as atividades humanas com a preservação da vida silvestre, a proteção dos recursos ambientais e a estabilidade ou melhoria da qualidade de vida das populações (São Paulo, 1996).

Na região do Vale do Ribeira, até cerca de 10 anos atrás ainda eram muito comuns

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coivara). Nessa prática o agricultor abandona a área cultivada quando o solo se exaure e promove abertura de nova clareira. A área abandonada fica em pousio por um tempo que varia entre as comunidades rurais locais, geralmente variando entre dois e oito anos, e dá origem, sucessivamente, a uma capoeira, um capoeirão e uma mata secundária, produzindo quantidade e diversidade de biomassa suficiente para retornar ao solo parte do seu potencial de produção agrícola. Esta biomassa é queimada e reincorporada ao solo na forma de cinzas. Além disso, o próprio período de regeneração da capoeira é marcado por mudanças químicas, físicas e da biota do solo (São Paulo 1992).

O processo de sucessão pode ser entendido como a transformação florística que acontece durante a regeneração, responsável, em parte, pela restauração de algumas das características originais da floresta (Tabarelli, 1997). A respeito da ordem e velocidade de restauração das características da floresta madura existem poucas generalizações e muitas contradições. Segundo alguns, este processo pode levar séculos (Whitmore, 1991), ou entre 60 e 110 anos (Klein, 1980;

Brown & Lugo, 1990), e todos afirmam estar relacionado à intensidade da perturbação sofrida e a características da comunidade (Ewel, 1980; Whitmore, 1990; Nepstad et al. 1991; Rodrigues &

Gandolfi, 2000).

As primeiras idéias sobre sucessão apareceram no século XIX e o conceito vem sendo constantemente revisto na literatura. Passou a ser muito usado à partir de 1916, quando Clements propõe que em toda área desnuda, exceto naquelas em condições extremas de luz, temperatura, água e solo, se desenvolvem comunidades à partir do estabelecimento de espécies que facilitariam o estabelecimento das próximas (Connel & Slatyer, 1977). Atualmente este modelo é denominado modelo de sucessão obrigatória, pois o estabelecimento de cada grupo se espécies é pré-requisito para o estabelecimento do próximo (Horn, 1976).

À partir das idéias de Clements, a sucessão é descrita como um processo ordenado, direcionado e previsível, que ocorre através de modificações do ambiente físico pela comunidade e resulta em um ecossistema clímax autoregulado (Odum, 1969).

Baseada nessas idéias surge a filosofia do holismo, que interpreta a sucessão como o processo de desenvolvimento de ecossistemas de estabilidade máxima e máxima eficiência na utilização dos recursos, em que a partir de diferentes situações, mudanças ordenadas e previsíveis, causadas pela presença de determinados organismos, conduzem o ecossistema a uma situação clímacica característica. A hipótese de que grupos de espécies preparariam o ambiente para receber novas espécies é conhecida como teoria da facilitação (Pickett & Ostfeld, 1995).

Paralelamente, a partir das idéias de Gleason (1917), surge uma filosofia opositora denominada de reducionista. Segundo Gleason o processo de sucessão aconteceria ao acaso, resultando em formações não ordenadas, e a comunidade é considerada como um conjunto de populações independentes em seus processos. A atual teoria reducionista se baseia no modelo da

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composição florística inicial de Egler (1954), segundo o qual todas as espécies que participam da comunidade se estabelecem desde a abertura de um sítio. A hipótese de facilitação é rejeitada, e surgem os modelos de tolerância e inibição (Pickett & Ostfeld, 1995).

Segundo o modelo de tolerância as modificações causadas pelo estabelecimento dos colonizadores não interferem nas taxas de recrutamento e crescimento das espécies, e a seqüência de espécies é determinada pelas características dos seus ciclos de vida. Uma vez que os primeiros colonizadores asseguram espaço e outros recursos, eles inibem a invasão de novos colonizadores ou suprimem o desenvolvimento dos que já estão presentes. Os colonizadores tardios só se estabelecem ou crescem quando os residentes estão fragilizados ou morrem, disponibilizando os recursos (Connel & Slatyer, 1977).

A partir dessas discussões emerge o paradigma do equilíbrio. A maioria dos modelos propostos dentro desta escola podem ser distribuídos em dois grupos básicos (Peet,1992):

-Modelos de gradiente de tempo: Cada espécie se adapta a um único conjunto de condições ambientais ao longo do gradiente sucessional.

-Modelos de competição organizadora: A composição inicial é determinada ao acaso, todas as espécies podem se estabelecer em um sítio disponível. Com o aumento de competição vão sendo selecionadas espécies melhor adaptadas.

No entanto, para os dois grupos é esperada uma mudança direcional na composição de espécies, como conseqüência da adaptação de cada uma a diferentes nichos criados com as mudanças ambientais geradas pelo contínuo estabelecimento de espécies. As estratégias ou atributos vitais de cada uma permitiriam prever suas posições ao longo do gradiente sucessional (Peet,1992).

O paradigma do equilíbrio está baseado nas idéias de que sistemas ecológicos seriam fechados, autoreguladores, tenderiam a um único ponto de equilíbrio, e portanto atingiriam uma única comunidade clímax com, por exemplo, um número determinado de espécies e capacidade de suporte fixa. O processo de sucessão seria ordenado e previsível, com plantas invasoras aparecendo em primeiro lugar seguido de um processo de superpopulação e por fim o declínio populacional retornando à capacidade suporte. Distúrbios seriam eventos excepcionais e a presença humana nos sistemas ignorada (Pickett & Ostfeld, 1995).

Mais recentemente constatou-se que a dinâmica das comunidades naturais apresenta diversos estados finais persistentes, de forma que não seria encontrado um clímax local único (Bootkin & Sobel, 1975), e que existem diferentes caminhos de mudança na vegetação até este estado final (Pickett, 1989). Distúrbios ocasionais seguidos de processos regenerativos influenciariam a estrutura e função dos ecossistemas (Pickett & Thompsom, 1978). Surge o modelo de comunidade em deriva, onde não há mecanismo que suporte a modificação direcional na

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determinístico, pois, não estando associadas à diferenciação competitiva de nicho, ocorrência e variação de espécies não são previsíveis (Hubbel & Foster, 1985; 1987; Welden et al., 1991).

Ecologistas têm sido unânimes em reconhecer evidências termodinâmicas de que os sistemas ecológicos são abertos, sujeitos a interferências externas, o que refutaria a hipótese de autoregulação do sistema (Pickett & Ostfeld, 1995).

O paradigma contemporâneo, também chamado paradigma do não equilíbrio, para contradizer os paradigmas clássicos, enfatiza os processos em detrimento da busca por um estado final, aceita os sistemas como abertos e ressalta a importância de localizar o sistema em relação ao seu entorno, com o qual são trocados organismos e nutrientes. Reconhece a ocorrência e importância de episódios de distúrbio na composição, estrutura e performance da comunidade.

Ressalta a multiplicidade de mecanismos reguladores, rejeita a existência de um ponto de equilíbrio e enfatiza a fluidez e transformação dos sistemas naturais e incorpora a atividade humana e seus efeitos (Pickett & Ostfeld, 1995; Picket et al 1998).

A agricultura itinerante reproduz o processo de abertura natural de clareiras, pois as famílias de agricultores trabalham em um ciclo de abertura de clareiras para o cultivo das terras, abandono da área após colheita para regeneração da floresta, procura de nova área para cultivo. O processo dá origem a um mosaico sucessional com manchas de vegetação em diferentes idades e diferentes características tendo, portanto, um importante papel na manutenção da diversidade (Gomez-Pompa, 1971).

Essa consideração é válida pelo fato dessas clareiras sofrerem intenso processo degeneração, por serem áreas geralmente pequenas, de aproximadamente 0,5 ha e fontes naturais de propágulos no entorno imediato. Este tipo de atividade agrícola apresenta alta diversidade intra e inter específica. Atualmente o tempo de pousio está limitado pela legislação, que não permite o corte de capoeira acima de 1,5m de altura (Pisciotta, 1998), definindo com isso ciclos muito curtos.

No entanto, a falta de planejamento para abertura e abandono de áreas, com conseqüente uso excessivo e repetido de uma mesma área e a inexistência de prática de manejo ou práticas não sustentadas em dados da dinâmica dessas florestas da região, tem caracterizado esse processo de ocupação dos solos agrícolas como muito impactante, apontando para uma degradação futura com as mesmas características de degradação observada nas áreas abertas ocupadas por agricultura tradicional. Informações sobre a composição florística e estrutura da vegetação são indispensáveis para o planejamento de uso da área e identificação da necessidade de aumento ou diminuição no tempo de pousio e obtenção de indicadores de sustentabilidade.

Neste trabalho são avaliadas as características vegetacionais e edáficas de clareiras utilizadas pela agricultura de coivara, com 10, 25, 35 e 60 anos de pousio ou abandono após colheita, com três repetições para cada idade.

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Consideramos neste trabalho a hipótese de que haveria um tempo mínimo de pousio necessário para a recuperação do solo e da biodiversidade vegetal nessas áreas, e fundamental para a manutenção do potencial de recuperação destas áreas.

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OBJETIVOS

1.OBJETIVO GERAL

Descrever, em termos vegetacionais e edáficos, clareiras antrópicas com diferentes tempos de pousio ou abandono pós cultivo (10, 25, 35 e 60 anos).

2.OBJETIVOS ESPECÍFICOS

-Avaliar a dinâmica de alterações e recomposição da riqueza e diversidade florestal de áreas abandonadas após o uso com agricultura itinerante considerando os diferentes estádios sucessionais.

-Avaliar a dinâmica de alterações da fertilidade do solo nas áreas abandonadas de agricultura em diferentes tempos de pousio.

-Utilizar os parâmetros diversidade florística e fertilidade do solo como possíveis indicadores do tempo minimo de pousio de áreas de agricultura itinerante em Floresta de Restinga, garantindo o potencial de recuperação dessas áreas.

-Levantar os possíveis fatores determinantes da heterogeneidade florística e estrutural encontrada entre áreas de mesma idade de pousia e entre idades distintaas de pousio.

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MATERIAL E MÉTODOS

1. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA

1.1 O LITORAL DO ESTADO DE SÃO PAULO

A costa brasileira pode ser dividida em cinco grandes complexos caracterizados por elementos oceanográficos, climáticos e continentais: litoral amazônico ou equatorial, litoral nordestino ou de barreiras, litoral oriental, litoral sudeste ou das escarpas cristalinas, e litoral meridional ou subtropical (Mantovani,1993).

O litoral sudeste abrange do sul do Espírito Santo até Laguna em Santa Catarina, onde a costa delineia uma ampla concavidade, cujo ponto mais interno corresponde à Baía de Paranaguá, sendo caracterizado pelas frentes de escarpas da Serra do Mar (Complexo Brasileiro), que freqüentemente fazem vizinhança completa com o mar. Pontões de rochas cristalinas, geralmente com disposição oblíqua à costa, delimitam pequenas baías reentrantes de formato semi-elíptico, muitas das quais bastante preenchidas por sedimentos marinhos quaternários onde sobressaem- se as planícies de Cananéia-Iguape (SP) e Paranaguá-Antonina (PR) (Silveira, 1964; Suguio &

Tessler, 1984; Suguio & Martim, 1987).

O Estado de São Paulo se divide em cinco grandes feições Geomorfológicas: Província costeira, Planalto Atlântico, Depressão Periférica, Cuestas Basálticas e Planalto Ocidental. A Mata Atlântica sensu stricto no Estado de São Paulo se restringe à Província costeira e ao Planalto Atlântico (Ivanauskas et al, 2001). Aqui nos interessa conhecer a Província Costeira, mais precisamente a zona da Baixada Litorânea.

A Província Costeira corresponde à área do Estado de São Paulo drenada diretamente para o mar, constituindo o rebordo do Planalto Atlântico. É, em maior parte, uma região serrana contínua, que à beira-mar cede lugar a uma seqüência de planícies de variadas origens (Almeida, 1964). A Província Costeira costuma ser dividida em duas (Almeida, 1964) ou três zonas (IPT, 1981). Diversidade de estrutura relevo e idade justificam esta subdivisão em três zonas: Serraria Costeira, Morraria Costeira e Baixada Litorânea (IPT, 1981; Mantovani, 1993; Suguio, 1993).

As planícies do litoral do Estado de São Paulo fazem parte da Baixada Litorânea, que por sua vez se divide em dois setores: litoral sul e litoral norte.

No norte do litoral do estado de São Paulo, excetuando-se pequenas planícies formadas por depósitos continentais internamente e marinhos externamente, o embasamento Pré-Cambriano fica em contato quase contínuo com o mar, onde esporões serranos, pequenos maciços e morros litorâneos isolados atingem o oceano, dominam costas altas intercaladas por pequenas planícies e enseadas, que formam praias de bolso (IPT, 1981).

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Ao sul as escarpas ficam mais distantes da orla, permitindo o desenvolvimento de costas retilíneas formadas por cordões litorâneos progradantes que constituem praias barreiras, desenvolvendo-se extensa planície costeira, com maiores trechos de terras firmes e elevadas, discretamente onduladas (IPT, 1981). Existem aí quatro grandes planícies separadas por pontais do embasamento cristalino em contato com o mar. São elas: Bertioga, Santos, Itanhaém e Iguape- Cananéia (Suguio & Martin, 1978a). Segundo Ramalho & Hausen (1975), o litoral sul se divide em três planícies: Planície fluvial do Baixo Ribeira, Planície fluvio-marinha da Juréia, Região lagunar de Iguape-Cananéia.

A região tem no caráter oceânico seu principal traço climático. Os morros e escarpas da Serra do Mar tornam a influência da maritimidade ainda mais acentuada. Além disso, a presença dos sistemas frontais e anticlônicos polares controlando a região durante boa parte do ano (principalmente outono e inverno) faz com que o clima se caracterize como subtropical úmido com pequena ou nenhuma seca hibernal (São Paulo, 1990).

1.2 O MUNICÍPIO DE CANANÉIA E O BAIRRO SÃO PAULO BAGRE

O município de Cananéia faz parte da região do baixo Vale do Rio Ribeira de Iguape, situa- se no litoral sul do estado de São Paulo, na Região Lagunar de Iguape-Cananéia, um complexo lagunar estuarino que constitui um dos sistemas litorâneos brasileiros menos povoados e um dos ecossistemas mais complexificados do planeta (São Paulo, 1996). Fazem parte desta região que fica compreendida entre a foz do Rio Ribeira e o canal de Araripira a Ilha Comprida, Ilha de Cananéia e a Ilha do Cardoso. (Ivanauskas et al, 2001).

O bairro São Paulo Bagre faz parte do município de Cananéia, situa-se na longitude 470 53 57’’ e latitude 240 57’ 45’’ sobre os Terraços Marinhos da Formação Cananéia, popularmente chamados de «piçarras». Esses Terraços ou «piçarras», são restingas mais antigas, que ao longo de 2000 a 3000 anos sofreram deposição de matéria orgânica e limotinização, provocando o endurecimento do material arenoso. Se situam em posição relativamente interiorana e a até 10m acima do nível do mar, indicando que a linha da praia já esteve mais para o interior (Petri & Suguio, 1973).

A existência de pequenas manchas de capoeira e áreas desmatadas indicam atividade agrícola pouco tecnificada (São Paulo, 1990). O solo é arenoso, pobre em matéria orgânica, com baixa aptidão agrícola, do tipo podzol-hidromórfico e a vegetação predominante é a Floresta de Restinga.

A partir de 1930 o bairro recebe os primeiros moradores cuja principal atividade era a agricultura itinerante intercalada com pesca de acordo com os ciclos das espécies (Diegues, 1989).

As roças eram desenvolvidas em espaços comuns específicos, recortados para a exploração individual ou familiar, dentro de uma dinâmica itinerante que permitia o descanso da terra por cerca

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de dois ou três anos antes de ser reutilizada por mais dois ou três anos. Cada área passava pelo processo de cultivo e abandono cerca de três vezes, depois disso se tornava inadequada. As áreas alagáveis eram raramente utilizadas para cultivo de arroz, enquanto as terras altas eram aproveitadas ao máximo para plantio de mandioca, abóbora, cará e outros. Existem ruínas de taperas, antigos abrigos de escravos, indicando que o bairro já havia sido habitado e abandonado (João Veríssimo, comunicação pessoal).

A partir de 1981 a atividade agrícola foi paralisada, quebrando-se o sistema cíclico de utilização dos recursos disponíveis, e a pesca passa a ser praticada o ano todo, as técnicas coletivas (arrasto de praia) vão sendo substituídas por atividades individuais e são incorporadas técnicas predatórias como Tarrafa e Gerival (Diegues, 1989).

O sistema de agricultura itinerante, que por várias décadas foi utilizado no Vale do Ribeira, para funcionar com perfeição, pressupõe respeito a regras relacionadas a frequência de queimadas (Oliveira, 1994). O tempo de pousio varia bastante entre diferentes locais, dependendo de fatores bióticos e abióticos que determinam a capacidade de regeneração da vegetação em cada local. Atualmente ele é limitado através da legislação, que permite o corte quando a altura das árvores não ultrapassa 1,5m de altura (Pisciotta, 1998), o que acaba por diminuir muito o tempo de pousio entre ciclos inviabilizando essa pratica agrícola, já que a fertilidade do solo não foi recuperada. Informações sobre a composição florística e estrutura da vegetação seriam essenciais para um correto planejamento do tempo de pousio e uso de espécies indicadoras de sustentabilidade.

2. ESCOLHA DAS ÁREAS

Os moradores do bairro São Paulo Bagre identificam dois tipos de mata nas redondezas, a mata alta, ou mata de baixio, que não era usada para agricultura por passar grande parte do ano encharcada, e a mata baixa, localizada em terrenos sem ou de pequeno encharcamaento durante todo o ano com solos arenosos, onde se costumava praticar a agricultura de coivara. Para a realização dos levantamentos deste estudo foram selecionados locais mais altos que, segundo os moradores e observações durante o trabalho de campo, não sofrem inundações durante o ano.

Nestes locais o solo é arenoso, com uma camada de húmus fina ou ausente.

Foram selecionadas 12 áreas de restinga com 4 diferntes tempos de abandono. As idades de 10, 25, 35 e 60 anos de pousio ou abandono pós cultivo foram escolhidas de acordo a disponibilidade de, para cada idade, pelo menos três roças diferentes em áreas não alagáveis acessíveis, com históricos semelhantes de uso pretérito abandono e de possíveis perturbações pós abandono, com abandono no mesmo ano ou nos próximos e que tiveram maior confiabilidade das

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Existem várias definições e classificações para Floresta de Restinga. Neste trabalho usamos o termo como referência ao conjunto de comunidades florestais fisionomicamente distintas, sob influência marinha e fluvio-marinha, distribuídas em mosaico e que ocorrem em áreas de grande diversidade ecológica, sendo classificadas como edáficas por serem mais dependentes da natureza do solo que do clima (Araújo, 1984,1987; Araújo & Lacerda, 1987; Lacerda et al., 1982).

A determinação exata dos locais a serem amostrados foi feita com base em entrevistas com os moradores locais, que informaram sobre as últimas colheitas nas áreas localizadas dentro de seu domínio e que tinham sido trabalhadas somente por suas famílias, com a certeza de que nenhuma perturbação posterior ocorrera. A checagem e confirmação dessas informações foi possível através de aerofotogramas (em escala 1: 25.000) dos anos de 1962, 1973, 1981 e 1987.

Os aerofotogramas revelaram seqüências de florestas e clareiras nas mesmas áreas em diferentes anos, possibilitando deduzir a época do desmatamento. Considerando as informações florísticas (Capítulo 1), estruturais (Anexo 2), e análises estatísticas para comparações entre as distribuições de diâmetros e alturas de cada área (Capítulo 2), concluímos que, de acordo com as especificações do Conama no. 7, de 23 de julho de 1996. D.ºU. 26/08/96, as características e diferentes idades de pousio informadas pelos moradores eram reais ou muito próximo delas.

De acordo com as especificações do Conama as áreas de 60 anos amostradas podem ser classificadas como Floresta Baixa de Restinga original ou como Floresta Alta de Restinga em estágio avançado de regeneração. As informações qualitativas não foram consideradas por estarem incompletas e imprecisas. As áreas de 25 e 35 anos podem se enquadrar no estágio médio de regeneração da Floresta Alta de Restinga, ou nos estágios médio ou avançado de regeneração da Floresta Baixa de Restinga. As áreas de 10 anos se enquadram tanto em estágio inicial de regeneração da Floresta Baixa de Restinga como estágio inicial de regeneração da Floresta Alta de Restinga. A possibilidade de ocorrência de inundações na Floresta Alta de Restinga contra o substrato permanentemente seco da Floresta Baixa de Restinga pesa a favor da caracterização destas áreas como Floresta Baixa de Restinga. Os moradores do bairro distinguem os dois tipos de formação com base nas características de encharcamento do solo, diâmetros máximos e altura do dossel de forma similar às especificações contidas no Conama.

3. AMOSTRAGEM

3.1 DA VEGETAÇÃO

Foram amostradas áreas de agricultura itinerante com a 10, 25, 35 e mais de 60 anos de pousio ou abandono pós cultivo. Para cada idade foram escolhidos três locais diferentes onde se instalaram 16 parcelas de 5 x 5m em cada uma, representando uma área total de 4.800 m2. A

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amostragem incluiu levantamento da altura e perímetro de todos os indivíduos arbóreos com PAP superior a 15 cm, além da coleta do material botânico para identificação e amostra de solos.

O material botânico foi coletado com auxílio de tesoura de poda alta adaptada a varas de alumínio, etiquetado, prensado e seco em estufa. O material foi identificado através de consulta ao herbário da UNICAMP e à bibliografia especializada ou consulta a especialistas.

3.2 DO SOLO

As amostras de solo foram retiradas em três profundidades em cada parcela, tendo sido amostradas todas as parcelas. As amostras de primeira camada (0-5cm) foram obtidas através da mistura de material retirado em 5 pontos diferentes em cada parcela e acondicionada em sacos plásticos. As amostras nos níveis de 20-40cm e 40-60cm foram retiradas de um único ponto no centro de cada parcela. O material coletado foi enviado aos laboratórios da ESALQ-USP, onde foram feitas análises físicas – areias muito grossa, grossa, média, fina, muito fina e total, silte, argila c/ dispersante, argila água- e análises químicas de pH CaCl2, M. º, P-resina, K, Ca, Mg, H+Al, Al, e os cálculos SB, T, V%, m%.

Os métodos analíticos seguiram os procedimentos descritos por Raji et al. (1987). Foram determinados o pH em CaCl2 (0,01M), teor de matéria orgânica oxidada por dicromato de sódio em H2SO4 e quantificada por calorimetria; fósforo disponível e teores trocáveis de K+, Ca2+ e Mg2+, extraídos pela resina de troca iônica; P está sendo quantificado por calorimetria e K, Ca e Mg por espectofotometria de absorção atômica; Al3+ trocável extraído por KCl 1N e determinado por titulação ácido-base. Foram calculados capacidade de troca de cátions, saturação por bases (V%) e saturação por alumínio (m%).

4. ANÁLISE DOS DADOS

4.1 ANÁLISE FLORÍSTICA. RESULTADOS QUALITATIVOS E QUANTITATIVOS DAS CLAREIRAS ANTRÓPICAS. COMPARAÇÃO ENTRE AS DIFERENTES IDADES.

Foram feitas comparações entre áreas de mesma idade e entre diferentes idades de pousio através das listas de famílias, da classificação sucessonal das espécies, (Gandolfi, 1995) e densidade total das espécies em cada área. Foram realizados testes estatísticos do tipo teste t com significância 0,01 para verificar as diferenças entre número de espécies, número de indivíduos e número de espécies exclusivas entre áreas de mesma idade e entre diferentes idades de pousio.

Foram realizadas análises de agrupamento pelo método UPGMA (Média de grupo) e coeficiente de Sorensen, e apresentados dendogramas de similaridade florística. Os grupos ecológicos das espécies foram determinados mediante consulta bibliográfica e usados, assim

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de possíveis padrões para cada categoria de idade determinados por grupos de espécies segundo seus nichos ecológicos. Foram realizadas tmbém Análises de Correspondência (CA) para dados de presença e ausência de espécies e para dados de abundância, e os diagramas apresentados no anexo II.

4.2 A FLORESTA DE RESTINGA DA ILHA DE CANANÉIA NO CONTEXTO DA REGIÃO DE IGUAPE-CANANÉIA: COMPARAÇÃO FLORÍSTICA.

Foi realizada uma breve comparação florística e fisionomica entre este estudo e 6 estudos realizados no litoral sul do Estado de São Paulo e Ilha do Mel. São trechos de Floresta de Restinga localizadas sobre a mesma formação geomorfológica e sujeitas às mesmas condições climáticas (Sugyama, 1993). Estes trabalhos foram escolhidos com a intenção de estabelecer comparações entre áreas semelhantes apresentando o mesmo tipo florestal encontrado na Ilha de Cananéia.

4.3 ANÁLISE ESTRUTURAL

Com o intuito de delimitar as categorias sucessionais das áreas amostradas, foram analisados dados de altura e diâmetro mínimos, médios e máximos dos indivíduos em cada área, além de diversidade, equabilidade, densidade, área basal e proporção de espécies raras, e estabelecidas comparações com outras áreas de restinga. Para verificar a significância das diferenças encontradas entre as áreas de mesma idade e entre diferentes idades de pousio foram realizadas análises de variância do tipo One-Way ANOVA. Além disso foram calculadas as abundâncias, dominâncias e frequências relativas, áreas basais e índices de valor de importância (IVI) das principais espécies, apresentados os grupos ecológicos a que pertencem e discutida a representatividade relativa de cada uma em diferentes idades.

4.4. ANÁLISE DE SOLOS

São apresentados os resultados das análises químicas e físicas de amostras de solo retiradas em três profundidades em cada uma das parcelas estudadas. Foram realizadas análises de variância do tipo one-way ANOVA com teste significância em 0,01; análises de agrupamento usando coeficiente de Sorensen e método de agrupamento de média de grupo (UPGMA). Foram realizadas análises para dados de características químicas de solo: Análise de Componentes Principais (PCA/ correlação com dados ajustados pela fórmula: x-xmed/dpx); Análise Canônica de Correspondência (CCA com dados ajustados pela mesma fórmula).

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RESULTADOS E DISCUSSÃO

1.RESULTADOS E DISCUSSÃO: ANÁLISE FLORÍSTICA

1.1 RESULTADOS QUALITATIVOS E QUANTITATIVOS DAS CLAREIRAS ANTRÓPICAS- COMPARAÇÃO ENTRE AS DIFERENTES IDADES.

Análise florística considerando os dados de todas as áreas e idades de pousio Foram amostradas 44 espécies, 34 gêneros e 24 famílias. Destas 39 foram identificadas no nível específico, 33 no nível de gênero e 23 no nível de família. A suficiência amostral foi decidida com base nas análises das curvas do coletor que foram construídas gradativamente e as finais apresentadas no anexo 1.

Considerando todas as idades de pousio conjuntamente, as famílias Myrtaceae e Aquifoliaceae contibuíram com 50% dos indivíduos e 20% das espécies encontrados. Theaceae e Lauraceae contribuíram com mais 25% dos indivíduos encontrados. O fato de 75% dos indivíduos estarem distribuídos em quatro famílias se deve ao grande número de indivíduos de Ilex theezans (Aquifoliaceae), Psidium cattleyanum (Myrtaceae) Ocotea pulchella (Lauraceae), Laplacea semiserrata (Theaceae). A tabela 1.12 apresenta os números de indivíduos por família separadamente para as áreas de 10, 25, 35 e 60 anos de pousio.

Myrtaceae apresentou maiores dominância e número de indivíduos nas áreas de 10 e 25 anos, passando para segundo lugar nas áreas de 35 e 60 anos. Aquifoliaceae não se apresentou entre as famílias que respondem por 75% do número de indivíduos ou da dominância nas áreas de 10 anos de pousio, mas aparece em segundo lugar nas áreas de 25 anos e primeiro nas áreas de 35 e 60 anos. Theaceae e Lauraceae se revesaram nas posições de terceira e quarta mais abundantes e dominantes em todas as idades, sendo que Theaceae foi mais dominante mesmo quando apresentou menor número de indivíduos em função do tamanho elevado dos indivíduos quando comparado com as demais espécies.

As áreas de 35 anos se diferenciaram das demais pois acrescentarem as famílias Anacardiaceae e Euphorbiaceae entre as que somam 75% de dominância e Erytroxylaceae e Euphorbiaceae entre as que somam 75% dos indivíduos encontrados. Embora tenha se destacado em número de indivíduos e área basal, Theaceae, Anacardiaceae Erytroxylaceae e Euphorbiaceae foram representadas por apenas uma espécie cada.

Myrtaceae, Aquifoliaceae, Clusiaceae, Sapindaceae, Lauraceae, Myrsinaceae, Chrysobalanaceae, Celastraceae e Leguminosae são as únicas famílias a apresentar mais de uma

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espécies. O baixo número de espécies por família é comum em restingas do Espírito Santo (Fabris, 1995).

Clusiaceae é considerada uma família típica de Florestas de Restinga (Suguio & Tessler, 1984), mas assim como Chrysobalanaceae, é muito pouco representativa quanto ao número de indivíduos e dominância em todas as áreas. Myrsinaceae, Celastraceae e Sapindaceae também apresentaram abundância baixa em todas as áreas.

Mais uma vez Aquifoliaceae foi pouco representativa na área de dez anos, com apenas uma espécie e 3 indivíduos, mas foi a segunda em número de espécies nas demais idades de pousio, superada apenas por Myrtaceae, que foi a família mais rica em áreas de todas as idades.

A grande representatividade de Myrtaceae era esperada, já que a família é conhecida como a mais abundante e com maior diversidade nas Florestas Litorâneas, inclusive de Restinga, e é sempre bem representada em solos com baixa fertilidade (Araújo & Henriques, 1984;

Weachter, 1985, 1990; Silva, 1990; Ashton, 1988). A riqueza de Myrtaceae é, provavelmente, a característica taxonômica principal das florestas da costa brasileira, mas é uma família que tem destaque também em formações mais interioranas. É considerada típica de florestas montanas, mas o litoral brasileiro é a única área neotropical onde esta família é altamente representativa em matas de planície, sendo inclusive levantada a hipótese deste ser o centro de dispersão deste grupo (Peixoto & Gentry, 1990; Mori et al., 1993; Gentry, 1988).

Aquifoliaceae foi novamente a família mais rica depois de Myrtaceae em áreas de restinga na Ilha do Mel (Silva, 1998) e Ilha do Cardoso (Sugyama, 1993).

Foram amostradas 24 espécies na área de 10 anos, vinte e sete na área de 25 anos, 31 na área de 35 anos e 23 na área de 60 anos. A tabela 1.1 apresenta a relação de espécies presentes em cada área e o número de indivíduos por espécie. A tabela 1.2 apresenta um resumo dos números de espécies e de indivíduos nas quatro idades considerando as três áreas amostradas separadamente. O teste de significância revelou que existem diferenças significativas entre áreas de mesma idade de pousio quanto ao número de espécies e número de indivíduos amostrados, e não houve diferença significativa quanto ao número de espécies exclusivas.

Segundo as teorias clássicas de sucessão florestal, esperaríamos encontrar um grupo de espécies colonizadoras comum às três áreas de 10 anos que cederiam lugar a espécies características de estágios sucessionais mais avançados e que seriam encontradas em todas as áreas de 25 anos de pousio, e gradativamente substituídas por outros grupos que caracterizariam as áreas de 35 e 60 anos de pousio sucessivamente ( Denslow, 1980; Simberloff, 1982; Connell et al, 1987; Matthes, 1992). Portanto, seria de se esperar que o dendograma da figura 1.1 formasse 4 grupos incluindo as 3 áreas de mesma idade cada um, e que as áreas de 10 anos apresentassem grande número de espécies pioneiras e secundárias iniciais, com progressiva diminuição em detrimento do aumento de secundárias tardias ou clímax nas áreas mais velhas de pousio.

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O dendograma que ilustra análise de agrupamento para as áreas de 10, 25, 35, e 60 anos de pousio agrupou e isolou apenas as parcelas de 10 anos das demais, e separou as outras áreas aleatoriamente, sem definir grupos para as diferentes idades de pousio. Isso demonstra que características ocorrem somente em áreas mais novas de abandono e com até 10 anos, definindo diferenças florísticas claras entre estas áreas e áreas mais antigas como mostra a tabela 1.1. A Análise de Correspondência para dados de abundância apresentou 8,1 % de variância, eo diagrama (Anexo II) mostrou todas as parcelas unidas em um único grupo. A mesma análise para dados de presença e ausência apresentou resultado similar, com 8,8% de variância e diagrama (AnexoII) apresentando um único grupo.

A figuras 1.2 a 1.5 apresentam os quatro dendogramas que agrupam as parcelas das áreas de 10 anos de pousio, 25 anos de pousio, 35 anos de pousio e 60 anos de pousio respectivamente. Os blocos formados não agrupam parcelas segundo as áreas a que pertencem, mas aleatoriamente. Isso indica que existe tanta heterogeneidade entre parcelas de uma idade de pousio como entre as idades. Tratam-se de doze locais diferentes com 16 parcelas cada um somando 46 parcelas para cada idade amostradas em três locais diferentes.

As espécies que apareceram em todas as áreas foram: Psidium cattleyanum, Ocotea pulchella, Laplacea semiserrata, Andira anthelmia, Pera glabrata, Guatteria australis, Guapira opposita, Maytenus salicifolia, Myrcia falax, e Ilex dumosa.

1.1.2. Análise sucessional

Além de Ilex theezans, Erythroxylum amplifolium, Gomidesia fenzliana, Clusia criuva ssp parviflora, Maytenus robusta, Rapanea umbellata e Ilex microdonta estiveram ausentes exclusivamente na área de 10 anos. A tabela 1.12 apresenta as categorias sucessionais das espécies. Podemos observar que existe um grupo de espécies presentes em todas as idades e um grupo de espécies ausentes exclusivamente em áreas de 10 anos. A ocorrência ou não destas espécies em áreas de dez anos não tem relação com as categorias sucessionais a que foram atribuídas, ocorreram espécies consideradas pioneiras e não pioneiras em áreas de 10, 25, 35 e 60 anos, e o número de pioneiras foi bastante reduzido (Tab. 1.12). Este resultado não é incomun, vários autores encontraram mais espécies tardias que iniciais em áreas de clareira (Martins, 1999;

Negrelle, 1995; Tabarelli & Mantovani, 1997 Tabarelli, 1994; 1997; Rodrigues, 1999).

A figuras 1.2 a 1.5 apresentam os quatro dendogramas que agrupam as parcelas das áreas de 10 anos de pousio, 25 anos de pousio, 35 anos de pousio e 60 anos de pousio respectivamente. A figura 1.2 separa doios grupos maiores e duas parcelas isoladas na distância 0.2. As parcelas de cada grupo não estão selecionadas por área. Na figura 1.3 podemos observar a primeira grande divisão na distância entre 0.4 e 0.5, onde se formam quaro grupos maiores e

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entre 0.4 e 0.5 apresenta quatrogrupos maiores e três parcelas isoladas. A figura 2.5, se dividida na distância 0.4, apresenta 5 grupos, e três parcelas isoladas. Isso mostra um aumento de complexidade com o aumento do tempo de pousio das clareiras.

O tamanho das clareiras está fortemente relacionado à ocorrência de espécies pioneiras ou de subbosque. Espécies pioneiras podem ser mais abundantes em clareireas de área superior a 150m2 (Brokaw, 1982), superior a 400m2 (Hartshorn, 1980), ou superior a 1000m2 (Whitmore, 1982). Neste estudo foram amostradas parcelas em clareiras de área superior a 400m2 e inferior a 1000m2 , o que, segundo Whitmore (1982), não favorece a ocorrência de espécies pioneiras. Em clareiras pequenas as espécies de subbosque permancecem no decorrer de todo o processo de regeneração, mas isso não costuma ser registrado pela maioria dos trabalhos, que adota métodos de amostragem que excluem indivíduos pequenos (Martins, 1999).

Além disso, os resultados apresentados no capítulo 2 deste estudo revelam altos índices de rebrota, principalmente em áreas de 10 anos. Segundo Ewel (1977), a ocorrência repetida de fogo induz a um aumento de rebrotas em raízes gemíferas, o que justifica a ocorrência de espécies tardias em estágios iniciais de sucessão.

Portanto não se pode afirmar que existem grupos característicos de diferentes estádios neste intervalo de tempo, mas sim que algumas espécies muito frequentes em áreas com mais de 25 anos não conseguiram se estabelecer nas áreas perturbadas com até de 10 anos de pousio (Tab. 1.1), e que 25 anos é tempo suficiente para o estabelecimento das principais espécies de formação do entorno. Uma possível explicação para este fato é que estas espécies não estejam adaptadas para se estabelecer sob as condições edáficas e microclimáticas peculiares a estas áreas recentemente perturbadas. As análises de solo apresentadas no capítulo três reforçam esta hipótese.

Na amostra de 60 anos ocorreram 23 espécies, nenhuma exclusiva da idade (Tab. 1.2).

Foram encontradas diferenças significativas entre o número de espécies e o número de indivíduos amostrados nas três clareiras de 60 anos, demonstrando maior complexidade entre áreas de 60 anos de pousio quando comparadas às demais clareiras (Tab 1.3).

Na amostra de 35 anos foram 31 espécies sendo 6 exclusivas do grupo (Tab. 1.2).

Nenhuma espécie exclusiva da idade de 35 anos apareceu em mais de uma das três áreas desta idade (Tab.1.9). Não existe diferença significativa entre o número de espécies exclusivas ou número de indivíduos das diferentes clareiras de 35 anos, mas somente entre os números de espécies amostradas, demonstrando heterogeneidade um pouco menor que aquela encontrada nas clareiras de 60 anos (Tab. 1.4).

Nas clareiras de 25 anos de pousio foram amostradas 27 espécies, sendo 3 exclusivas desta idade (Tab. 1.2). Assim como ocorreu nas clareiras de 35 anos de pousio, existe diferença significativa entre o número de espécies amostradas mas não entre o número de indivíduos ou de

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espécies exclusivas nas clareiras desta idade de pousio (Tab. 1.5). Eugenia sp3 foi exclusiva da idade de 25 anos de pousio e esteve presente tanto na área H, como na área A (Tab.1.8). As demais espécies exclusivas da idade são, na verdade, exclusivas da área em que aparecem, pois não foram amostradas nas demais clareiras dessa de idade.

Entre as espécies exclusivas da idade de 10 anos (Tab. 1.1) Cecropia hololeuca foi a única que ocorreu nas três clareiras desta idade, sendo todas as demais exclusivas de cada uma das clareiras (Tab. 1.7).

Não foram encontradas diferenças significativas entre os números de espécies amostradas, número de indivíduos ou número de espécies exclusivas nas três áreas de 10 anos (Tab. 1.6), demonstrando que existe muito menos heterogeneidade entre áreas de 10 anos.

Com exceção de Cecropia hololeuca e Eugenia sp3 não há espécies características de determinada idade, pois estas são as únicas que, sendo exclusivas de uma categoria de idade, se repetem em mais de uma área. É possível afirmar, portanto, que parte da heterogeneidade florística encontrada não está condicionada ao tempo de abandono da clareira.

De um modo geral as mudanças florísticas que estão ocorrendo não são direcionais nem previsíveis, contrariando o paradigma do equilíbrio que supõe sistemas fechados, autoregulados e transformações florísticas levando a uma única comunidade clímax. A maioria das espécies se comporta como generalistas, aparecendo em clareiras de todas as idades de pousio e, ao contrário de tender a um único ponto de equilíbrio, a heterogeneidade florística entre clareiras mais antigas foi maior que entre as mais novas, como confirmam os dendogramas apresentados nas figuras 1.2 a 1.5.

Tem sido afirmado que as comunidades vegetais podem apresentar diversos estados persistentes com diferentes espécies e diferentes capacidades suporte, sendo alcançadas por diferentes caminhos (Bootkin & Sobel, 1975; Pickett, 1989; Pickett & Ostfield, 1995).

Em situações em que as espécies apresentam amplo nicho de regeneração, a estocacidade é um fator especialmente importante (Welden et al ,1991). Outro fator que pode ajudar a compreender a heterogeneidade entre clareiras de mesma idade é o grande número de espécies apresentando poucos indivíduos (Pagano, 1995), e as diferenças em condições ambientais de solo (Gandolfi, 1996; 1998), que de fato foram encontrados neste estudo.

Tem sido reconhecida a importância do histórico de perturbação da área e as características de entorno (Pickett, 1989; Pickett & Ostfield, 1995). Perturbações frequentes e sucessivas podem desgastar o solo e a diversidade, destruir o banco de sementes e tecido vivo para rebrota de indivíduos e prejudicar a chegada de dispersores (Nepstad, 1989; Uhl,et al. 1981;

1988). A época do desmatamento é um dos fatores que explica diferenças na recolonização de uma área, pois as espécies se reproduzem em épocas deferentes, muitas vezes bianualmente. As

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1993), condições ambientais de luz (Gandolfi, 1996; 1998) e fontes de propágulos e dispersores e o sombreamento do solo podem ser muito diferentes, dependendo do local de desmatamento e da vegetação de entorno (Uhl,et al. 1981; 1988 Nepstad, 1989; Abe et al, 1995; Webb, 1998).

O uso da terra em agricultura itinerante promoveu a formação de um mosaico florestal na área, com grande heterogeneidade estrutural entre trechos próximos de floresta, o que pode ser claramente observado através dos aerofotogramas. As clareiras amostradas neste estudo se inserem em trechos de floresta bastante heterogêneos estruturalmente. A respeito da heterogeneidade florística não se pode afirmar nada sem antes realizar um levantamento no entorno destas clareiras.

Quanto ao banco de sementes da clareira, a freqüência e intensidade do fogo variam de uma área para outra, e ocorre destruição diferencial do banco de sementes e restos vegetais que poderiam se reproduzir vegetativamente. Os incêndios esterilizam mais de 80% das sementes na camada de 0-5cm de profundidade do solo, e até 100% na camada de 2cm, o que pode causar até desaparecimento de espécies pioneiras em uma área (Brinkman & Vieira, 1970).

Além da época e local de desmatamento, o grau de abertura do dossel é outro fator que ajuda a criar diferentes comunidades formadas por espécies com diferentes características de regeneração. Clareiras de diferentes tamanhos levam à formação de diferentes nichos, e clareiras maiores apresentam maior variedade de microsítios (Carlton & Bazzaz, 1998).

1.2. COMPARAÇÃO ENTRE A FLORESTA DE RESTINGA DA ILHA DE CANANÉIA E OUTRAS FLORESTAS DE RESTINGA DA REGIÃO DE IGUAPE-CANANÉIA.

Uma breve comparação florística entre este estudo e estudos realizados no litoral sul do estado de São Paulo e na Ilha do Mel no norte do estado do Paraná, é apresentada na tabela 1.11.

São trechos de Floresta de Restinga levantados por Sztutman & Rodrigues (2002) em Pariquera- Açu, Silva (1998) na Ilha do Mel; Sugyama (1998) na Ilha do Cardoso; Kirizawa et al. (1992) na Ilha Comprida; Ramos Neto (1993) em Iguape; De Grande & Lopes na Ilha do Cardoso (1981). A inclusão da Ilha do Mel se justifica, pois ela pertence ao mesmo Complexo Estuarino Lagunar que Iguape, Ilha de Cananéia, Ilha Comprida e Ilha do Cardoso, todas estão sobre a mesma formação geomorfológica e sujeitas às mesmas condições climáticas (Sugyama, 1993). Com base no dendograma de silmilaridade florística apresentado por Sztutman (2000) foram escolhidas as áreas preferenciais para comparações florísticas.

Comparando estudos realizados em 32 trechos de floresta da região costeira abrangendo encostas, morros isolados, planícies e áreas de transição, revela que todas as florestas sobre planícies litorâneas do litoral sul do Estado de São Paulo e Ilha do Mel (Paraná), e a floresta sobre

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turfeira periodicamente inundada de Pariquera-Açu, enquanto todas as florestas sobre morraria e serraria costeira, morros isolados e florestas sobre planícies litorâneas do litoral norte formam um segundo grupo, áreas de Floresta Ombrófila Densa Permanentemente alagada (caxetal), se destacam das demais (Sztutman, 2000). O mesmo trabalho revela ainda similaridades estruturais entre as mesmas florestas sobre planície do litoral sul e florestas não inundáveis da Ilha do Mel, que se isolaram em um grupo em dendograma resultante de dados de densidade relativa, contra um grupo das florestas sobre planície do litoral Norte de São Paulo e florestas periódica e permanentemente inundadas na Ilha do Mel (Sztutman & Rodrigues, 2002). Estes resultados ressaltam a importância das características geomorgológicas na composição florística de suas comunidades e similaridades com comunidades adjacentes e justificam a escolha destes trabalhos realizados na região de Iguape-Cananéia para comparações florísticas.

Foram escolhidos justamente estes trabalhos com a intenção de estabelecer comparações entre áreas semelhantes por suas características de proximidade geográfica e semelhanças geomorfológicas, climáticas e fisiográficas e que apresentam o mesmo tipo florestal encontrado na Ilha de Cananéia. Portanto seria de se esperar uma forte semelhança entre esses trechos de floresta (Tab. 1.11), principalmente aquelas sobre substrato arenoso e não permanentemente inundável, como a área deste estudo.

Das 39 espécies identificadas neste estudo 14 não foram amostradas por nenhum levantamento de Floresta de Restinga. A semelhança florística entre a área deste estudo e as outras áreas apresentadas foi pequena, variando de 21% a 42% espécies em comum, principalmente considerando a mera formação florestal sobre o morro, o tipo de ambiente e a proximidade das áreas. Isso evidencia a dificuldade em se prever a composição florística futura ou final de uma comunidade florestal regenerante e a importância dos processos estocásticos na caracterização florística da comunidade (Pickett, 1988; Pickett & Ostfield, 1995; Solimon, 1996). A riqueza de espécies encontrada por este estudo é similar às áreas secas da Ilha do Mel (Silva 1998) e Pariquera-Açu (Sztutman & Rodrigues, 2002), um pouco superior às áreas periodicamente inundadas de Iguape (Ramos Neto, 1993) e Ilha do Cardoso (Sugyama, 1998) e inferior às demais.

Este valor de riqueza é baixo, mas não improvável para áreas de restinga do litoral sudeste. As riquezas de espécies arbóreo- arbustivas encontradas na região Sul do país costumam ser ainda menores, crescendo em direção ao nordeste (Fabris, 1995).

Em um levantamento florístico e estrutural em dois trechos de Floresta de Restinga em Iguape, uma área paludosa com mata baixa (área I) e outra sobre solo arenoso profundo com mata alta (área II) (Ramos Neto, 1993), (Tab. 1.11), Foram encontradas apenas 26 espécies comuns ao levantamento feito por Sugyama (1993). O autor considerou grande dissimilaridade entre as duas

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a área I, porém sobre substrato arenoso, como a área II. A semelhança florística das áreas levantadas em Iguape (Ramos Neto, 1993) com áreas deste estudo é ainda menor. A área II (Ramos-Neto, 1993) abriga 78 espécies, sendo 16 comuns a este estudo, e a área I apresenta 31 espécies, sendo 13 comuns a este estudo

No levantamento florístico e estrutural de trechos de Floresta de Restinga da Ilha do Cardoso foram estudados dois tipos vegetacionais (Sugyama, 1998). A floresta de Restinga Arbórea Baixa que ocorre sobre substrato arenoso mais claro, com pouca capacidade de retenção de água e nutrientes, mostrando-se encharcado em épocas de chuva e a Floresra de Restinga Arbórea Alta da Ilha do Cardoso (área I) que apresenta boa capacidade de drenagem (Sugyama, 1998). Foram encontradas 31 espécies na primeira, sendo 8 comuns ao levantamento deste estudo. Na segunda correram 56 espécies, 9 comuns a este estudo (Sugyama, 1998). As áreas amostradas neste estudo apresentam substrato arenoso e mata de porte baixo como, a área II, mas não são periodicamente inundadas, côo a área I.

Foram descritas para a Ilha do Mel formações vegetais campestres, arbustivas e florestais.

Entre as formações florestais existem florestas fechadas inundadas permanentemente (área III), florestas fechadas inundadas periodicamente e florestas fechadas não inundadas (Silva, 1998). As áreas amostradas neste estudo seriam consideradas floresta fechada não inundada. As florestas fechadas não inundadas levantadas por Silva (1998) apresentaram a maior semelhança florística com a Floresta de Restinga da Ilha de Cananéia, com 13 espécies em comum. Em segundo lugar ficaram as florestas fechadas periodicamente inundadas com 10 espécies e em terceiro as florestas fechadas permanentemente inundadas com 9 espécies em comum com o presente estudo (Tab. 1.11).

A tabela 1.11 revela que 7% das espécies amostradas na área de morrote (área I) de Sztutman & Rodrigues (2002), que apresentou 112 espécies arbustivo arbóreas foram encontradas também por este estudo. Na área de floresta periodicamente inundada (área II) onde foram amostradas 46 espécies, 23% das espécies foram comuns a este estudo. Na área permanentemente inundada, onde somente 5 espécies foram encontradas, não há nenhuma espécie comum a este estudo.

Sztutman & Rodrigues (2002) prevê a ocorrência de três tipos florestais sobre a Planície Litorânea de Iguape-Cananéia: 1) Áreas de solos bem desenvolvidos e livres de inundações onde seriam encontradas mais de 100 espécies. Nesta situação se inclui a floresta sobre morrote (área I) de seu estudo; 2) Um segundo grupo das Florestas Paludosas, que são florestas sujeitas a inundação periódica mas não necessariamente sobre turfeira se enquadram neste grupo, como as áreas periodicamente inundáveis amostradas por Ramos Neto (1993); Sugyama (1998) e Silva (1998), e também as florestas turfosas pouco profundas; 3) O terceiro tipo florestal é a floresta

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sobre substrato turfoso profundo, com grande volume de turfa permanentemente inundada, e seu levantamento é o único registro deste tipo de comunidade até o momento no estado de São Paulo.

Segundo esta classificação as áreas avaliadas neste estudo se assemelham mais floristicamente ao grupo 2, que são florestas típicas de restinga com certo grau de inundação temporária.

Kirizawa et al. (1992) descrevem 4 formações vegetais de restinga na Ilha Comprida que são a vegetação pioneira sobre dunas, com predomínio de espécies halófilas e pasmófilas; brejo de restinga, que engloba a vegetação das áreas permanente ou periodicamente saturadas ou cobertas por água, que pode ser herbáceo-arbustiva nos locais menos úmidos; escrube de restinga, formação que ocupa a faixa pós dunas. A vegetação pode apresentar porte herbáceo- arbustivo; e por fim a Floresta de Restinga, formação de fisionomia florestal encontrada em superfícies arenosas já consolidadas. As áreas amostradas por este estudo seriam consideradas Floresta de Restinga.

Foram encontradas 11 espécies em comum entre os levantamentos da Ilha da Cananéia e da Ilha Comprida (Tab. 1.11). Todas fazem parte da mata de restinga, com 3 exceções que foram encontradas somente no escrube de restinga: Ilex theezans, Rapanea umbellata, Guapira opposita (Kirizawa et al. 1992).

Fatores como vento, disponibilidade de água e nutrientes podem influir no hábito de algumas espécies encontradas na mata de restinga (Kirizawa et al. 1992). De fato, apesar de todas as espécies que estão sendo citadas entre as encontradas por Silva (1998) na Ilha do Mel terem sido amostradas em áreas de floresta, muitas delas se ocorrem também em outras fisonomias vegetais da planície da Ilha do Mel (Silva, 1998). Isso demonstra que além da florística, os dados sobre estrutura da vegetação são indispensáveis na caracterização de formaçõe vegetais, principalmente na planície atlântica.

Proporcionalmente ao número de espécies de cada área, as que mais se assemelham à mata da Ilha de Cananéia em termos número de espécies em comum são, nesta ordem, a área I de Iguape (periodicamente inundada) e área II da Ilha do Mel (seca). Com exceção da Ilha do Mel, em todos os levantamentos as áreas periodicamente inundadas apresentaram maior similaridade com a área deste estudo do que as áreas secas. Portanto podemos concluir que, mesmo existindo um grupo de espécies e uma riqueza prováveis de serem encontrados em florestas da região de Iguape–Cananéia (Fabris, 1995; Sztutman & Rodrigues, 2002), a grande heterogeneidade ambiental dessas florestas não permite estimar ou pressupor a composição florística de uma floresta com base nas informações sobre florestas próximas.

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