FACULDADE DE DIREITO
FRANCISCO HÉLIO MAGALHÃES GONÇALVES
DIREITOS AUTORAIS NA INTERNET
FRANCISCO HÉLIO MAGALHÃES GONÇALVES
DIREITOS AUTORAIS NA INTERNET
Monografia submetida à Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Direito.
Orientador: Prof. Dr. Raimundo Hélio Leite.
DIREITOS AUTORAIS NA INTERNET
Monografia submetida à Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Direito.
Apresentada em: 03/06/2008.
BANCA EXAMINADORA
_________________________________________________ Prof. Dr. Raimundo Hélio Leite
Universidade Federal do Ceará - UFC
_________________________________________________ Prof. Renato Leite Monteiro
Universidade Federal do Ceará - UFC
_________________________________________________ Vinícius de Mattos Magalhães
Universidade Federal do Ceará - UFC
AGRADECIMENTOS
A Deus, por ter me reservado uma vida tão maravilhosa e repleta de amor, compreensão e boas amizades, e por ter me ajudado a conseguir tudo que já conquistei até hoje.
A meus familiares: minha mãe, por ser a mais perfeita mulher que conheço, por todo o amor que me dá, por me apoiar em qualquer decisão que eu tome, e por ser meu porto seguro; meu pai, o mais íntegro, generoso e batalhador dos homens, exemplo de força e caráter, em quem constantemente me espelho; e minha irmã, Jamille, por perdoar todos os meus defeitos e me amar incondicionalmente, mesmo sabendo que eu não suporto quando ela escuta forró em seu quarto.
A todos os meus grandes e verdadeiros amigos, de dentro e de fora da Faculdade de Direito, que sempre permaneceram ao meu lado em todos os momentos, me dando força e me amparando nos piores, e compartilhando de minha alegria nos melhores.
A todos com quem trabalhei nos meus anos de estágio, ocasião em que especialmente cito: Dr. Francisco Leitão de Sena, que me auxiliou a galgar os primeiros passos da militância forense; Dr. Ubirajara Milhomem Costa e Dr. Marcelo Moreira Tavares, por terem dedicado a mim tanta paciência no ensino jurídico; e Dra. Carolina Botelho Moreira de Deus Aguiar, exemplo de dedicação à defesa dos direitos da população carente, a quem devo minha crescente obstinação em ser um Defensor Público.
Aos meus examinadores, pela paciência que dispensaram à leitura deste trabalho, e pelos conselhos dados em sua elaboração.
Aos seguintes artistas, trilha sonora de minha vida: The Beatles, The Who, Pink Floyd, Brian Wilson, Joni Mitchell, Os Mutantes, Simon & Garfunkel, Marvin Gaye, Yo-Yo Ma, The Police, Nirvana, Radiohead, Neil Young, Jeff Buckley, Tom Jobim, The Strokes, Miles Davis, Ludwig Van Beethoven, AC/DC, Frédéric Chopin, György Ligeti, Bob Dylan, John Williams.
Pandit Jawaharlal Nehru (Adaptada)
“Um sonho, quando sonhado por um, é apenas um sonho. Um sonho, quando sonhado por todos, é realidade .”
RESUMO
O desenvolvimento da Informática ao longo do Século XX fomentou a tendência ao arquivamento de informações sob a forma de dados digitais, armazenados em discos ópticos ou magnéticos. Tal processo de digitalização passou a abranger os mais diversos tipos de conteúdos, inclusive obras intelectuais e artísticas, protegidas por direitos autorais. Com o advento da Internet, o acesso a tal tipo de obras tornou-se mais fácil, e através dela, o conteúdo protegido por direito autoral passou a ser compartilhado de forma desenfreada e em escala global, através de condutas que, nem sempre, são lícitas frente aos princípios protetivos do direito autoral. Tal situação impôs o surgimento de mudanças nas leis de direitos autorais, que passaram a tutelar hipóteses que antes não existiam, num quadro em que os avanços técnicos se operam de forma mais rápida que as inovações jurídicas. Em paralelo a tal situação, um novo regime de tutela dos direitos autorais ganhara força na Internet através da tendência à flexibilidade das proteções. Este trabalho monográfico objetiva a fazer um estudo acerca da evolução, desde o seu conceito, dos direitos autorais, para depois expor em que situação os mesmos se encontram frente à Internet, fazendo uma análise das formas mais freqüentes pelas quais tais direitos são infringidos na rede, bem como mostrar os principais avanços legislativos no direito internacional e no direito brasileiro frente a tal quadro e tecer considerações acerca das novas tendências no campo do direito autoral, consubstanciadas no afastamento das proteções e na liberdade de difusão e de participação na criação de conteúdo.
The development of Information Technology during the twentieth century fostered the tendency to store information in the form of digital data, stored on magnetic or optical disks. This process now covers the most diverse kinds of content, including intellectual and artistic works, protected by copyright. With the advent of the Internet, access to this kind of works has become easier, and through the web, the sharing of content protected by copyright has been done in a rampant way and on a global scale, through actions that do not always, are considered lawful by the principles of copyright. This has demanded changes in copyright laws, which began to concern about situations that didn’t exist before, in a background in which technical advances are occurring more quickly than the legal innovations. In parallel to this situation, a new system gain strength in the Internet, based on the flexibility of the copyright protections. This work aims to make a study of the evolution of copyright and its concept, and then explain in which situation it is upon the Internet, with the purpose to make an analysis of the most frequent actions through which such rights are infringed in the web and to demonstrate the main advances in international law and Brazilian law upon that background, with some considerations about the new trends in the field of copyright, which supports the removal of protections and the freedom of dissemination, and also the creative participation.
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO... 10
2 DIREITO AUTORAL E PROPRIEDADE IMATERIAL... 12
2.1 Breve Histórico: Antecedentes... 12
2.2 Direito Autoral: Conceito... 14
2.3 Direitos Morais e Direitos Patrimoniais do Autor... 16
2.4 Natureza Jurídica do Direito Autoral... 17
2.5 Sujeitos e Objeto do Direito Autoral... 18
2.6 Princípios do Direito Autoral... 19
2.6.1 Princípio da temporariedade... 20
2.6.2 Princípio da prévia autorização ... 20
2.6.3 Princípio da proteção automática ... 21
2.6.4 Princípio da perpetuidade do vínculo autor-obra ... 21
2.6.5 Princípio da independência das utilizações ... 22
2.6.6 Princípio do direito de propriedade sobre o bem... 22
3 DIREITOS AUTORAIS NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO... 24
3.1 “Revolução Digital” e Sociedade da Informação... 24
3.2 Obras Intelectuais e Digitalização: Bytes, Pixels e Kilobytes por Segundo... 26
3.2.1 MP3... 28
3.2.2 FLAC... 29
3.2.3 AVI/DivX... 29
3.2.4 PDF... 30
3.2.5 Digitalização e imaterialização... 31
3.3 A Internet Enquanto Meio de Difusão de Obras... 32
3.4 Direitos Autorais na Internet... 34
3.4.1 Navegação na Internet, conteúdo de livre acesso e direitos autorais... 34
3.4.2 Publicação na Internet ... 36
3.4.3 Reserva de acesso: obras de acesso restrito... 37
3.4.4 Fair use e limitações do direito autoral na Internet... 38
3.4.5 Uso privado do copista e direitos autorais na Internet... 40
4 VIOLAÇÃO DE DIREITOS AUTORAIS NA INTERNET... 43
4.1 Contrafação: Conceito e Aspectos Gerais... 43
4.2.1 Napster... 47
4.2.2 Protocolo FastTrack e Kazaa... 49
4.2.3 BitTorrent... 51
4.2.4 File-Hosting... 53
4.3 YouTube e Direitos Autorais... 54
4.3.1 YouTube e a violação aos direitos autorais ... 55
5 DIREITOS AUTORAIS NA INTERNET E AVANÇOS LEGISLATIVOS... 57
5.1 Legislação Internacional... 57
5.1.1 Convenção de Berna... 57
5.1.2 Tratados da OMPI de 1996... 59
5.2 Lei Brasileira de Direitos Autorais (Lei n.° 9.610/98), Redes e Internet... 65
5.3 Lei dos Softwares (Lei n.° 9.609/98)... 68
6 COPYLEFT E INTERNET... 70
6.1 Copyleft: Definição e Características... 71
6.1.1 Breve histórico... 72
6.1.2 Princípios do copyleft... 73
6.1.3 Tipos de copyleft... 73
6.2 Copyleft na Internet... 74
6.2.1 Software livre e Internet ... 75
6.2.2 Conteúdo aberto na Internet e a Wikipédia... 78
6.2.3 Licenciamento Creative Commons e a Internet... 79
7 CONSIDERAÇÕES FINAIS... 82
1 INTRODUÇÃO
Na segunda metade do Século XX, com o aprimorar das tecnologias de processamento eletrônico de informações e dados, acompanhou-se o crescimento acelerado de uma tendência que viria a consolidar-se com o passar dos anos. Tal tendência consiste em as pessoas darem preferência ao armazenamento de dados em meio digital, por intermédio de discos magnéticos ou ópticos fabricados para este fim, em detrimento do armazenamento por meios analógicos (como o papel, por exemplo). Tal tendência cresce em virtude tanto da praticidade (pois percebeu-se que era mais fácil manusear, alterar e trabalhar com dados armazenados digitalmente) quanto da durabilidade, já que é sabido que dados armazenados sob a forma digital têm vida útil praticamente infinita, caso as unidades em que estejam armazenados forem manuseadas adequadamente.
Ocorre que, em paralelo a essa tendência, também foram desenvolvendo-se as telecomunicações, de forma que o surgimento de novas tecnologias e a aplicação de novos materiais (como a fibra óptica) possibilitou ao homem algo além do simples armazenamento de tais dados: tornou-se possível a transferência de tais informações de uma unidade armazenadora a outra, estando ambas em lugares diferentes, através de uma rede que as conectasse: surgia a rede mundial de computadores, ou Internet, tal como a conhecemos.
No entanto, passou-se a observar, a partir da década de 2000, a dominação quase absoluta dos meios digitais para o armazenamento de tais dados: praticamente todo tipo de informação passou a ser armazenado em discos magnéticos ou ópticos sob a forma de bytes,
incluindo-se aí fotografias, arquivos musicais, documentos escritos, bem como outros tipos de material protegido por direitos autorais.
A soma dos fatores acima explanados acabou por ampliar a difusão de informações e dados através da Internet, principalmente de conteúdo por direitos autorais, tornando amplo o seu acesso a quem interessar. Porém, métodos de transferência e compartilhamento de dados que posteriormente vieram a surgir permitiram a difusão de tais dados protegidos de forma desenfreada e sem quaisquer controles sobre seu uso, acarretando em prejuízos aos detentores dos direitos sobre tais obras, haja vista tais direitos não serem corretamente arrecadados, o que impôs mudanças e adaptações às legislações acerca da matéria.
alteração de obras, o que tem fomentado e democratizado a participação na criação intelectual e ampliado a liberdade cultural, destruindo barreiras que seriam erigidas por força da proteção aos direitos autorais.
Diante do exposto, justifica-se a elaboração deste trabalho, onde será analisada a situação em que atualmente se encontra a problemática dos direitos autorais sobre obras digitais e sua difusão na Internet, através de uma prévia análise histórica de tais direitos, de sua evolução até situar-se no panorama da Internet. Também serão analisadas as condutas pelas quais tais direitos são infringidos, e os avanços legislativos a respeito da matéria, tanto em âmbito nacional quanto internacional. Ao final, serão expostas considerações acerca da tendência à liberdade de conteúdo e uso de obras digitais, consubstanciadas no copyleft,
tendência que ganha força junto à crescente popularização do acesso à Internet.
2 DIREITO AUTORAL E PROPRIEDADE IMATERIAL
O direito autoral, assim como os demais ramos do direito, não surgiu a partir do nada, e nem foi produto de um único instante na história da humanidade. Tal qual outros ramos jurídicos, o direito autoral consiste em verdadeiro produto das evoluções sociais e tecnológicas no decorrer dos séculos, tendo surgido e amadurecido conforme os progressos da humanidade, acompanhando as diversas transformações das relações entre as pessoas e bens no decorrer dos tempos, consoante será demonstrado através de uma análise preliminar do que é o direito autoral, de sua natureza e de suas principais características.
2.1 Breve Histórico: Antecedentes
Desde os primórdios da vida o homem tem sido, eminentemente, um ser criador: através da faculdade de pensar e raciocinar, sempre foi possível modificar e adaptar o meio em que os homens vivem, para que este se adeque de acordo com suas necessidades, tornando mais fácil a interação com os demais seres humanos, bem como a interação com o ambiente ao seu redor.
Ao longo dos séculos e milênios, o homem tem usufruído incessantemente de sua inteligência única, que nenhum outro animal possui, para transformar o meio em que vive, o que culminou na invenção de instrumentos de caça e trabalho, no aperfeiçoamento de técnicas agrícolas e no desenvolvimento da comunicação através da fala e, posteriormente, da escrita.
O advento da escrita possibilitou aos homens o registro das atividades de seu intelecto, de forma que seu pensamento ficasse preservado e pudesse ser transmitido às gerações futuras. No entanto, até meados do Século XIV, não havia maiores preocupações quanto à proteção de obras escritas: a maioria do conhecimento escrito que existia até então era acessível a uma parcela ínfima de indivíduos, e não existia uma maneira de reproduzir os textos em larga escala.
reprodução, em maior escala, de obras escritas, o que tornou possível o acesso a tais obras pelo público, hipótese que, anteriormente, era deveras rara, às vezes quase impossível.
A partir daí, começou a surgir uma preocupação óbvia, mas à qual, até então, nunca havia sido dada a devida importância. Tal preocupação subsumia-se no fato de o autor de obras escritas poder dispor de sua obra, criada com seus próprios esforços. Com a difusão da obra escrita a um público mais amplo, passou-se a reconhecer a existência de um vínculo entre o autor e a sua obra intelectual, que constitui relação geradora de direitos.
Nesse contexto, os direitos do autor sobre sua obra intelectual desembocaram no âmbito econômico e industrial: as obras passaram a ser objeto de valor econômico, eram exploradas industrialmente e geravam lucro pecuniário a quem escrevia. Para tanto, surgiram os editores: indivíduos cuja atividade econômica consistia em distribuir a obra escrita, garantir a proteção dos direitos decorrentes desta e destinar ao autor parte dos lucros auferidos.
É a partir do momento em que a obra é vista como objeto de atividade lucrativa que o interesse do legislador começa a se manifestar: este passou a buscar a proteção de tais obras. A primeira forma de proteção jurídica de direitos sobre a criação intelectual surge através dos chamados privilégios de impressão.
Tais privilégios, inicialmente conferidos precipuamente aos editores, com o tempo deram lugar a novas modalidades, através das quais se fortaleceu a proteção aos direitos sobre as obras em favor dos autores. Tais privilégios tiveram como nação pioneira de seu surgimento a Inglaterra: em 1710, foi instituída em tal país a Lei da Rainha Ana da Grã-Bretanha, lei esta que inovou ao criar a primeira modalidade de direito de reprodução (copyright) destinada eminentemente à proteção dos direitos dos autores.
O modelo foi seguido em diversas outras nações, especialmente aquelas cujo sistema político dava prevalência aos ideais de liberdade que começavam a despontar na época, em substituição aos séculos de opressão dos nobres, notadamente a França revolucionária e os Estados Unidos, nação em que tais ideais ganharam acentuada força.
No Brasil, a proteção dos direitos relativos a obras intelectuais encontra suas origens no decorrer da colonização portuguesa: aqui, como em Portugal, tinha vigência o regime de privilégios de impressão. Tal regime prevaleceu no Brasil por muitos anos, tendo vigorado inclusive por certo tempo após a independência.
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pequenas alterações, é este o texto que tem comandado toda a evolução do Direito de Autor no Brasil e consta ainda da constituição vigente [no caso, a Constituição de 1969].”1 Com a Carta Magna de 1988, atualmente em vigência no Brasil, o dispositivo constante do art. 5°, XXVII traz a proteção do direito de autor, sem alterações significativas com relação ao texto da Constituição anterior2.
Apesar da redação que hoje nossa Constituição apresenta no que diz respeito à proteção das obras intelectuais, sabe-se que esta não deve ser admitida apenas com relação aos direitos de autor: ela também se estende aos chamados direitos conexos aos de autor, modalidade especial de direitos cuja proteção seria posteriormente reconhecida, e que abrange os direitos do intérprete, dos produtores de fonogramas, dos tradutores, dentre outros.
2.2 Direito Autoral: Conceito
Já tendo empreendido um estudo acerca do histórico da evolução dos direitos autorais, impõe-se agora uma análise de seu conceito. Definir o que é o direito autoral constitui-se em tarefa bastante difícil, já que, assim como o ordenamento jurídico propriamente dito e os institutos que o compõem, o direito autoral passa por constantes evoluções na medida em que a sociedade progride, o que acaba forçando evoluções no que tange ao seu conceito.
Sabemos que, à época da independência do Brasil e por algum tempo depois, os direitos referentes à propriedade imaterial e intelectual ainda encontravam proteção através do sistema de privilégios reais, ou seja, através de concessões que o imperador dava aos autores, para que estes pudessem dispor dos direitos sobre a obra. Assim, a doutrina da época asseverava que “o direito dos autores é mero privilégio temporariamente concedido, para aumento e progresso das letras, das artes e das ciências, o qual se defende, considerando-se ato ilícito a sua lesão."3
1 ASCENSÃO, José de Oliveira. Direito autoral. Rio de Janeiro: Forense, 1980, p.4.
2 Assevera o texto do art. 5°, XXVII, da Constituição de 1988: “Aos autores pertence o direito exclusivo de
utilização, publicação ou reprodução de suas obras, transmissível aos herdeiros pelo tempo que a lei fixar”. O dispositivo do diploma constitucional anterior que tratava da matéria, consubstanciado no art. 153, § 25, asseverava: “Aos autores de obras literárias, artísticas e científicas pertence o direito exclusivo de utilizá-las. Êsse direito é transmissível por herança, pelo tempo que a lei fixar.”
3 ORLANDO, Pedro. Direitos autorais: seu conceito, sua prática e respectivas garantias em face das
Tal forma de conceituar os direitos não conferia aos mesmos o caráter pessoal de que se revestem. Depreende-se, desse conceito, que o direito à proteção de obras intelectuais resumia-se a mera concessão, aos autores, de privilégios sobre a comercialização e a publicação de tais obras, sem que se desse a devida atenção ao caráter pessoal, íntimo e perpétuo da obra intelectual, que se consubstancia nos direitos morais do autor.
Com a extinção do sistema de privilégios reais, que se deu com a República e, mais especificamente, com a entrada em vigor do Código Civil de 1916, o direito autoral passou a ter uma abordagem bem mais ampla do que a anterior. Passou-se a perceber que o direito autoral consubstanciava-se em instituto jurídico de caráter misto, guardando tanto natureza de direitos reais, o que o aproxima do direito das coisas, quanto de direitos pessoais, o que lhe assemelha aos direitos da personalidade.
Nesse sentido, assevera Clóvis Beviláqua:
Direito autoral é o que tem o autor de obra literaria, scientifica ou artistica, de ligar o seu nome ás producções do seu espirito e de reproduzil-as, ou transmittil-as. Na primeira relação, é manifestação da personalidade do autor; na segunda, é de natureza real, economica.4
É imperioso reconhecer que a obra é produto do pensamento, da mente do autor, nela estando refletida diversas características peculiares de quem a produz, distinguindo-a de outras do mesmo gênero, de maneira que não se pode resumir a questão apenas ao seu aspecto econômico. Tal era a principal preocupação dos juristas quando estava em vigor o sistema de concessão de privilégios.
No entanto, tais conceituações doutrinárias, bem como a sistemática legal até então em vigor, demonstrar-se-iam incompletas à vista das profundas mudanças tecnológicas que adviriam com o tempo, principalmente no que tange à difusão das obras intelectuais, haja vista as correntes de pensamento e a legislação até então existentes terem sido pensadas e realizadas tendo como foco principal o chamado Direito de Autor, e não o Direito Autoral como um todo, tornando necessária a distinção entre ambos.
O Direito de Autor é aquele que se consubstancia na proteção relativa a obras literárias e artísticas. Trata-se do efetivo direito que, intrinsecamente, vincula o autor à sua obra.
Já o Direito Autoral é uma designação de gênero, que abrange não apenas o Direito de Autor, mas também os chamados Direitos Conexos aos de Autor, ou seja,
4 BEVILÁQUA, Clóvis. Direito das coisas. Ed. fac-sim. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. v.
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conforme exemplifica Ascensão, “[...] os direitos dos artistas intérpretes ou executantes, dos produtores de fonogramas e dos organismos de radiodifusão.”5
Assim, a moderna doutrina especializada é pacífica no sentido de que nossa legislação constitucional e infraconstitucional deve assegurar a proteção dos direitos autorais como um todo, de forma a abranger a tutela tanto dos direitos de autor (dos quais advém a
tutela dos direitos morais e dos direitos patrimoniais do autor), quanto dos chamados direitos
conexos de autor (que abrangem, entre outros, o direito dos artistas intérpretes, dos
radiodifusores de obras musicais e das gravadoras e produtoras de fonogramas).
2.3 Direitos Morais e Direitos Patrimoniais do Autor
Conforme explicado no tópico anterior, o direito autoral, tal como hoje é concebido pela doutrina, abrange basicamente duas vertentes: a primeira consiste no Direito de Autor, ou seja, o direito que liga diretamente autor à sua obra artística, literária ou intelectual, e que compreende os Direitos Morais e os Direitos Patrimoniais; a segunda vertente consubstancia-se no chamado Direito Conexo de Autor, que tutela os direitos referentes à radiodifusão, produção fonográfica e os direitos do intérprete, dentre outros.
Os direitos morais são aqueles que efetivamente encontram-se vinculados ao
autor e ao seu ente pessoal, e seu fundamento é pautado no fato de ser a obra uma exteriorização da criação do espírito do autor, de sua intelectualidade – uma projeção externa de seu eu interior, ou seja, de sua personalidade, e eis o que torna a obra única e a distingue de outras de mesmo gênero ou espécie.
Tais direitos morais são dotados de características que os enquadram junto aos Direitos da Personalidade, sendo, portanto, absolutos, irrenunciáveis, imprescritíveis, impenhoráveis e intransmissíveis. Assim, por exemplo, o direito que o autor possui de ter determinada obra efetivamente reconhecida como sendo de sua autoria jamais poderá ser cedido, transmitido a herdeiros ou por ele renunciado, pois tais direitos acompanharão a obra enquanto a mesma estiver em circulação, independente da morte do autor.
Já os direitos patrimoniais têm relação com a publicação, difusão e execução da
obra. Como abrangem, essencialmente, características de direito real, tais direitos patrimoniais podem ser renunciáveis, prescritíveis, penhoráveis e transmissíveis por herança.
Por força da atual lei brasileira de proteção aos direitos autorais, que é a Lei n.° 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, mais precisamente em seu artigo 41, o autor e seus sucessores permanecerão detendo tais direitos por até setenta anos após a morte daquele, contando-se tal período a partir do primeiro dia do ano subseqüente ao do falecimento. Tal prazo também se aplica a obras artísticas e fonográficas em geral, bem como aos direitos conexos aos de autor que eventualmente possam surgir.6 Nada obsta que tais direitos, enquanto este prazo perdurar, possam ser negociados pelo autor ou seus sucessores, dado o caráter de direito real.
Passado tal prazo, a obra deverá permanecer em domínio público, quando então os direitos patrimoniais sobre a obra expiram e esta passa a pertencer a toda a coletividade, o que torna qualquer indivíduo livre para executar, distribuir ou reproduzir a obra artística ou intelectual.
2.4 Natureza Jurídica do Direito Autoral
A princípio, quando começaram a surgir as primeiras preocupações acerca da matéria, os doutrinadores atribuíam ao direito autoral notória natureza patrimonial, assentando que sua natureza primordial era a de direito de propriedade. Tal pensamento era predominante à época em que vigorava o antigo sistema de privilégios: a proteção era assegurada apenas sobre o direito à cópia e à distribuição das obras, tendo tais direitos sido inicialmente conferidos exclusivamente aos editores e distribuidores das obras, e apenas depois aos autores.
Em seguida, começou-se a atentar para um aspecto dos direitos autorais que sempre existiu, mas que em tempos anteriores ainda não havia sido levado em consideração: começou-se a observar a obra enquanto reflexo do espírito criativo e da personalidade do autor, o que acabou por dar à matéria tratamento jurídico diferenciado.
Assim, a doutrina referente aos direitos autorais passou a dar guarida aos aspectos morais da autoria de uma obra, atribuindo aos direitos de propriedade intelectual também a natureza pessoal, pois começou a se vislumbrar a obra como “a expressão direta do espírito do autor.”7
6 Nesse sentido, cf. arts. 43, 44 e 96 da Lei n. 9.610/98.
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Tal posicionamento é o mais aceito pela doutrina brasileira, tendo como um dos principais defensores Dirceu de Oliveira e Silva, que é categórico ao asseverar que, “em linhas gerais, o que é inegável é que o Direito de Autor é um direito misto: pessoal e real. Há uma parte pessoal, uma ligação íntima entre o autor e sua obra [...] e há outra parte patrimonial, relacionada com a reprodução da obra.”8
Mesmo ao se observar o caráter dualista do direito autoral, que tem tanto natureza patrimonial quanto natureza real, a redação da legislação brasileira em vigor apresenta clara atecnia ao atribuir, aos direitos autorais como um todo, caráter eminentemente real, situando tais direitos no âmbito dos bens móveis.
Com efeito, assevera o art. 3° da Lei n.° 9.610/98, que “os direitos autorais reputam-se, para os efeitos legais, bens móveis”. A imprecisão técnica é clara, devido à redação do artigo atribuir ao todo dos direitos autorais as características que são peculiares dos direitos patrimoniais, que constituem, conforme já foi explicado, parte dos chamados Direitos do Autor, que por sua vez, são apenas uma das espécies de direitos que compõem o todo que é o Direito Autoral, que se constitui em gênero.
O referido artigo não deve ser interpretado de forma literal, já que os atributos de direito real só são aplicados aos direitos patrimoniais, nunca devendo atingir os Direitos Morais do Autor, que, dado o seu caráter personalíssimo, jamais poderão ser vendidos, doados, transmitidos por herança, negociados ou alienados, estando vedadas tais possibilidades pelo entendimento doutrinário corrente, bem como pelos princípios gerais do direito.
2.5 Sujeitos e Objeto do Direito Autoral
Quando se fala nos sujeitos do direito autoral, pode-se dividi-los em duas espécies: os autores e os titulares de direitos autorais. Tais conceitos, conforme se verá agora,
são distintos, mas, em alguns casos, podem consubstanciar-se em um mesmo indivíduo. Por autor entende-se todo aquele que empreende os esforços espirituais e
intelectuais no sentido de realizar a obra, isto é, criá-la. Apenas a pessoa física pode ser detentora de autoria de determinada obra, e tal direito nunca poderá ser conferido a pessoa
jurídica. Assim, por exemplo, se uma coletividade de indivíduos, agindo em nome de determinada pessoa jurídica, participa na criação de um software de computador, à pessoa jurídica só caberá o controle sobre os direitos patrimoniais daí decorrentes, nunca os direitos morais.
No exemplo acima, a pessoa jurídica seria, em verdade, a titular dos direitos
autorais decorrentes da obra, ou seja, a ela seriam garantidos os direitos patrimoniais de reprodução, comercialização, e distribuição do software. A titularidade é um status que
pertence a quem tem os direitos patrimoniais sobre a obra, enquanto a autoria é uma condição da qual só é detentor quem efetivamente empregou os esforços intelectuais para sua criação.
Feita uma análise sucinta acerca dos sujeitos do direito autoral, passemos agora a um rápida análise de seu objeto, que se consubstancia na obra, ou seja, a exteriorização
concreta do pensamento intelectual do autor.
É a obra, efetivamente, o objeto a que se visa proteger quando se trata de direito autoral, sendo o autor ou o titular beneficiários desta proteção. Assim, o direito do autor surge com a criação da obra, que deve ser exteriorizada através de algum meio (fonograma, livro, filme, desenho, dentre outros), podendo, assim, atingir um determinado público consumidor. Só a partir daí, com a criação da obra, pode-se falar em proteção dos direitos autorais.
2.6 Princípios do Direito Autoral
Todo e qualquer ordenamento jurídico, seja qual for o meio social em que vigore, é dotado de um conjunto de princípios, que o norteiam e fornecem as bases para sua efetivação e aplicação perante os indivíduos, podendo ser tanto de âmbito geral (os princípios gerais do direito, por exemplo), quanto de âmbito especial (tais quais os princípios peculiares aos direitos civil, penal, processual etc.).
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2.6.1 Princípio da temporariedade
Consiste na atribuição de um prazo de proteção a toda obra intelectual, a partir do momento em que é criada, sendo tal proteção conferida especialmente no que tange aos direitos patrimoniais do autor. Segundo a legislação brasileira, tal prazo de proteção perdura enquanto o autor estiver vivo, sendo estendido por até setenta anos após sua morte, contados a partir do primeiro dia de janeiro do ano seguinte ao óbito. Durante este prazo, somente o autor, o titular ou os herdeiros são detentores dos direitos sobre comercialização, distribuição ou execução da obra intelectual protegida.
Passado este prazo, a obra cairá em domínio público e, a partir disto, qualquer indivíduo poderá dispor livremente dos direitos patrimoniais sobre a obra, podendo distribuir, executar ou até mesmo comercializar tal obra, sem que haja necessidade de autorização por parte da família do autor.
Tal princípio não é aplicável aos direitos morais do autor, haja vista o seu caráter personalíssimo, a sua imprescritibilidade e o seu caráter perpétuo.
2.6.2 Princípio da prévia autorização
Trata-se de princípio também aplicado, na essência, aos direitos patrimoniais do autor. Com efeito, enquanto a obra estiver dentro do prazo de proteção a que foi feita alusão anteriormente, torna-se necessária uma prévia autorização, por parte do titular dos direitos sobre a obra, para que terceiros possam executá-la, distribuí-la, comercializá-la, enfim, fazer exercer os direitos patrimoniais sobre a obra.
O art. 29 da atual Lei de Direitos Autorais (Lei n.° 9.610/98) traz uma lista de diversos atos e condutas que deverão depender da prévia autorização do titular da obra, enquanto esta estiver protegida e não tiver caído em domínio público. Vale salientar que “a lista é exemplificativa e, por isso, é possível considerar-se a existência de outras hipóteses não constantes da LDA.”9
9 BRANCO JÚNIOR, Sérgio Vieira. Direitos Autorais - Princípios Gerais. Cadernos Colaborativos FGV
2.6.3 Princípio da proteção automática
Decorre, essencialmente, do caráter pessoal de que se reveste a obra intelectual, que a distingue de outras de mesmo gênero ou espécie.
Em virtude de ser a obra intelectual verdadeira expressão do espírito do autor, que impõe à obra suas próprias características pessoais e seus sentimentos, a proteção aos direitos autorais decorrentes da obra não necessita de nenhuma formalidade, podendo o autor de uma obra ser reconhecido como tal através do estudo desta.
Tal princípio encontra guarida no ordenamento jurídico de diversos países, e na legislação brasileira, encontra-se consignado pelo art. 18 da Lei de Direitos Autorais.10
Assim, o autor não está obrigado a dirigir-se a nenhum órgão público de registros para que possa garantir seus direitos sobre a obra intelectual, na medida em que a pessoalidade da obra, que vincula o autor, já lhe assegura a titularidade sobre tais direitos.
2.6.4 Princípio da perpetuidade do vínculo autor-obra
Um dos princípios basilares que regem o direito moral do autor, o princípio em tela se perfaz no fato de que o nome do autor estará, de forma perpétua, ligado à obra por ele criada, independente de esta encontrar-se em domínio público, já que, conforme já foi assinalado diversas vezes, a obra é verdadeiro produto do espírito e do intelecto do autor, que nela imprime suas marcas pessoais e sua visão em relação ao meio em que vive.
Trata-se de princípio que rege direitos pessoais, e que, portanto, são irrenunciáveis, imprescritíveis, inalienáveis e intransmissíveis por força de herança. Se determinada obra for atualizada por outrem (como ocorre com diversas obras jurídicas, por exemplo), não interessa que indivíduo a tenha atualizado, pois o direito à autoria da obra sempre pertencerá ao autor que originalmente a escreveu.
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2.6.5 Princípio da independência das utilizações
Encontra-se regulado, na legislação pátria, pelo art. 31 da Lei n.° 9.610/98.11 Consubstancia-se no fato de que a permissão para o uso de determinada obra sempre será específica, ou seja, garantirá o uso da obra apenas para um determinado fim, ficando completamente vedado qualquer uso diverso do que foi licenciado.
Assim, por exemplo, quando o autor de determinado livro autoriza sua adaptação para o teatro, não está conferida, a quem vai adaptar, a permissão para que a obra também seja adaptada ao cinema ou à televisão. A autorização limita-se apenas à adaptação para o teatro. Para que se possa adaptar a mesma obra para o cinema ou televisão, fazem-se necessárias novas autorizações por parte do titular da obra.
Tal princípio visa a impedir condutas abusivas por parte dos licenciados e, assim, evitar prejuízos ao titular da obra intelectual, para que estes não a utilizem para fins diversos do que originalmente foi estabelecido no ato que autorizou o seu uso.
2.6.6 Princípio do direito de propriedade sobre o bem
A proteção dos direitos autorais recai precipuamente sobre a obra, garantindo ao autor os direitos morais e patrimoniais decorrentes da publicação, execução, comercialização da obra, que é difundida ao público através de companhias de produção e distribuição fonográfica, editoras, e demais empresas que operam a distribuição de obras intelectuais.
A difusão de tais obras pode ser feita por meio físico ou por meio eletrônico. Por meio físico, entende-se, por exemplo, a distribuição de uma obra fonográfica ao público consumidor através da comercialização de discos nas lojas, ou ainda a comercialização de livros.
Quando um consumidor de tais obras dirige-se a uma livraria, por exemplo, e decide comprar um livro, adquire meramente a propriedade sobre o livro enquanto bem,
11 Aduz o referido dispositivo: “As diversas modalidades de utilização de obras literárias, artísticas ou científicas
jamais enquanto obra intelectual. Os direitos patrimoniais sobre a obra pertencerão ao seu titular enquanto esta não cair em domínio público.
3 DIREITOS AUTORAIS NA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO
Conforme explanado anteriormente, sabe-se que o direito autoral é composto de um conjunto de direitos que visam à proteção da obra, a qual se constitui na exteriorização do pensamento intelectual ou artístico de um autor, através de um meio concreto que possa ser difundido ao público.
Quando se pensa nessa exteriorização concreta, costuma-se imaginar que ela pode se perfazer das mais diversas formas possíveis: através de um livro, um disco, uma fotografia, uma tela, dentre outras mídias através das quais a obra é reproduzida e levada ao público, às vezes em caráter gratuito, outras vezes em caráter comercial.
Com os avanços das telecomunicações e o desenvolvimento maciço da informática enquanto principal meio de veiculação de informações e dados, percebeu-se a crescente necessidade de tornar mais rápida a troca de informações – necessidade que se tornou global e imprescindível, fomentando a chamada “revolução digital”, que consiste na tendência à digitalização (ou conversão em mídia digital) de dados, informações e até mesmo obras intelectuais – e o crescente desenvolvimento e popularização do acesso à Internet.
Tal panorama deu ensejo ao amadurecimento do conceito de Sociedade da
Informação, amplamente utilizado para designar o predomínio da informática e do
compartilhamento global de informações e dados através da rede mundial de computadores, a qual, dada a sua crescente importância, tornou todos dependentes dela.
3.1 “Revolução Digital” e Sociedade da Informação
Viu-se, no capítulo anterior, que a amplitude no acesso ao conhecimento deu ensejo a diversas transformações na humanidade e a acontecimentos que mudariam o curso da história, tais quais a ascensão da sociedade burguesa em detrimento dos nobres, o Iluminismo e a Revolução Francesa, a Revolução Industrial, as Guerras Mundiais, e o crescente desenvolvimento econômico e tecnológico.
informática e da transmissão de informações, a velocidade de tais avanços parece ser surpreendentemente maior do que em outras searas.
Desde o advento das primeiras unidades de processamento eletrônico de dados (computadores), tal a velocidade e o dinamismo com que ocorrem tais operações, percebeu-se a facilidade com que as informações eram transmitidas, trabalhadas e armazenadas. Ao invés de pilhas de papéis, inúmeros livros e registros, as informações passaram a ser armazenadas nos computadores, sob a forma de bits: unidades digitais binárias que eram processadas e
interpretadas pelas máquinas. Tudo estava ao alcance de um simples comando, o qual era dado à máquina: tão logo fosse dado o comando, o computador iniciava o processamento dos bits e estes eram transformados em dados, conhecimento e informações que chegavam prontas ao homem, para que este as usasse conforme bem entendesse.
A praticidade e a facilidade da manipulação e armazenamento desses dados digitais tornaram seu uso uma tendência que incessantemente cresceria conforme os avanços tecnológicos que, a partir daí, surgiriam, dando ensejo a um verdadeiro fenômeno: o fenômeno da digitalização, ou seja, o predomínio do armazenamento e difusão de dados em
formato digital.
Tal fenômeno foi impulsionado, a partir das últimas décadas do Século XX, pelo advento dos Computadores Pessoais (PCs), que tornou possível a qualquer indivíduo o
usufruto da tecnologia digital. Com isso, ampliou-se o acesso, pelo público, às inovações digitais, tais como os programas de computador (softwares) e as bases de dados eletrônicas,
que adquiriram status de bens.
Com efeito, sabe-se que o homem, na busca por, cada vez mais, desejar aprimorar seu conhecimento, sempre precisou comunicar-se e trocar informações com outros. Daí falarmos em “Sociedade da Informação”, que assim pode ser conceituada:
A expressão “Sociedade da Informação” refere-se a um modo de desenvolvimento social e económico em que a aquisição, armazenamento, processamento, valorização, transmissão, distribuição e disseminação de informação conducente à criação de conhecimento e à satisfação das necessidades dos cidadãos e das empresas, desempenharam um central na actividade económica, na criação de riqueza, na definição da qualidade de vida dos cidadãos e das suas práticas culturais.12
12 PORTUGAL. Livro verde para a sociedade da informação em Portugal. Lisboa: Ministério da Ciência e
da Tecnologia: Missão para a Sociedade da Informação, 1997. Disponível em
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Tal necessidade, enquadrada no contexto acima, acabou por pavimentar os caminhos para o surgimento de uma rede que ligasse, em escala global, os computadores, de forma a tornar viável a permuta de informações entre uma máquina e outra.
Essa rede se conduziria através do que José de Oliveira Ascensão chamou de “auto-estradas da informação”, definidas como “meios de comunicação entre computadores, que seriam caracterizados por grande capacidade, rapidez e fidedignidade”13, e que vieram a se perfazer através da Internet.
O advento da Internet possibilitou à humanidade avançar a um novo nível de comunicação, de âmbito global, através do qual a troca de informações e dados atinge graus nunca antes concebidos de praticidade e velocidade. Nas palavras de Ascensão, a Internet “apresentou-se com um caráter atrativo, que levou a que os destinatários nela se empenhassem e adestrassem, e por outro lado ficassem dependentes deste modo de comunicação.”14
No atual contexto histórico, a Internet alcança seu apogeu enquanto principal meio de acesso a informações e realização de operações da vida civil, o que transforma a informática em ferramenta essencial ao progresso humano. Com efeito, “a Sociedade da Informação em que nos encontramos pode ser identificada, também, como Sociedade da Informática, ou Era Digital, ou Era Informacional.”15
É nesse contexto que também se observa o apogeu da divulgação, através da Internet, de obras intelectuais em formato digital, questão que merece ser observada com maior cautela.
3.2 Obras Intelectuais e Digitalização: Bytes, Pixels e Kilobytes por Segundo
Observou-se, no tópico anterior, a inserção em uma Sociedade da Informação pautada, principalmente, na informática e na troca de informações entre computadores, e que foi impulsionada pela crescente tendência à digitalização, ou seja, ao armazenamento e troca
13 ASCENSÃO, José de Oliveira. Direito da Internet e da sociedade da informação: estudos. Rio de Janeiro:
Forense, 2002, p.68.
14Ibidem, p.69.
15 BARBOSA, Fábio. A eficácia do direito autoral face à sociedade da informação: uma questão de
de dados e informações em formato digital, em decorrência da expansão das telecomunicações e da popularização do acesso a computadores e à Internet.
Tal tendência, na medida em que as tecnologias da informação progridem, cada vez mais vai se ampliando. Prova disto é o crescente desenvolvimento da Internet, que hoje se constitui ferramenta essencial à vida prática de diversas pessoas, e que é usada para diversos fins, tais como a compra de uma coisa, o fechamento de um contrato, o registro de determinada coisa em determinado banco de dados, dentre outros. E, obviamente, não se pode olvidar de um outro papel que a Internet tem desempenhado de forma contumaz, enquanto instrumento de acesso à cultura e a obras intelectuais.
Nesse ínterim, é natural que obras intelectuais das mais diversas matizes e espécies também tenham encontrado guarida no fenômeno da digitalização, o que vem tornando possível seu acesso através dos computadores e facilitando sua consulta por quem quer que tenha interesse.
A digitalização de obras intelectuais torna-se fenômeno verdadeiramente necessário na atual Sociedade da Informação, num contexto em que “[...] ter conhecimento é de inestimável importância. Seu domínio gera superação de desigualdades, educação, cultura, criação de emprego qualificado, bem-estar.”16 Nesse sentido, observa-se a importância das “auto-estradas da informação” enquanto meio de difusão de obras intelectuais, posto que tornam o seu acesso possível a quem tiver um computador conectado em rede.
É possível encontrar-se, disponíveis em formatos digitais, um quase infinito acervo de obras intelectuais – desde reproduções digitais de pinturas, desenhos e fotografias, até mesmo álbuns musicais inteiros, inclusive com toda a arte gráfica original disponível – e dado o dinamismo das redes de computadores hoje, o acesso a tais obras pode ser extremamente fácil, ao alcance de apenas um comando ou clique. Basta que o usuário de um computador, após adquirir o arquivo contendo a obra, disponha, em sua máquina, de um software que seja capaz de processá-lo, através da correta leitura do formato em que aquele se apresenta.
Serão discutidos, de forma breve, os principais tipos de arquivos digitais que possam conter obras intelectuais, bem como os mecanismos que podem ser utilizados para seu processamento.
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3.2.1 MP3
Trata-se de um formato de arquivo de computador pautado na elevada compressão, destinado ao armazenamento de áudio, e que, hoje, é considerado o formato padrão para difusão e transferência de obras musicais através das redes de computadores.
Sua designação advém da sigla para Moving Picture Experts Group 1 Audio Layer
3, e seu desenvolvimento iniciou-se a partir do final da década de 1980. Passou a ser
reconhecido como formato padrão para compactação de arquivos de áudio em 1991, através das certificações ISO/IEC17.
Este tipo de arquivo de áudio adquiriu grande popularidade entre os usuários de computador, mais notadamente a partir da segunda metade da década de 1990, principalmente pela sua praticidade e portabilidade: a alta taxa de compressão e a boa qualidade de som que oferece são os principais fatores que o tornaram o preferido para se ouvir e se transferir. De maneira a consolidar ainda mais a hegemonia deste formato de mídia digital, popularizaram-se os softwares para criação de arquivos deste tipo: ficou possível converter um álbum de
músicas inteiro para o formato.
A qualidade do áudio, apesar do tamanho comprimido do arquivo, permanece bastante similar à do áudio original não comprimido, pois o MP3 suprime do original apenas os sons cuja freqüência não é captada pelo ouvido humano. A unidade pela qual se mede a qualidade de um arquivo MP3 é a de kilobytes por segundo (kbps): quanto mais kbps, maior a
qualidade do som. A taxa regular de kbps em um arquivo MP3 pode variar entre 8 e 320 kbps.
O MP3 pode ser lido por qualquer reprodutor de mídia que possua os dispositivos necessários à sua decodificação. Atualmente, este tipo de arquivo pode ser lido por praticamente todos os reprodutores de mídia disponíveis para computador. A partir da década de 2000, começou-se, inclusive, a observar o surgimento de aparelhos portáteis destinados ao armazenamento e reprodução das músicas neste formato, o que só contribuiu para o aumento de sua popularidade.
Tal quadro possibilitou o surgimento de lojas na Internet especializadas na comercialização de músicas neste formato, mas também tornou possível o compartilhamento
17 ISO é a sigla para
International Organization for Standardization (ou, em português, Organização
indiscriminado deste tipo de arquivo entre máquinas, sem que se haja o devido controle sobre os direitos autorais que aí incidem.
O MP3 permanece como o grande formato de música digital que se conhece, já sendo inclusive explorado comercialmente. No entanto, a partir do momento em que puristas passaram a ver o formato como prejudicial à qualidade da arte, já que há perda de qualidade em relação ao material original, os tecnólogos desenvolveram novos formatos de mídia musical, que também oferecessem compressão, mas que não acarretassem em perda de qualidade sonora. Começaram a despontar formatos alternativos de mídia digital musical, mais notadamente o formato FLAC.
3.2.2 FLAC
FLAC é a sigla para Free Lossless Audio Codec. Trata-se de um formato de
compressão de áudio digital que não implica em perda de qualidade sonora. É menos prático que o MP3, pois reduz o tamanho de um arquivo de áudio não comprimido em, no máximo, 50% (o MP3 pode reduzir o tamanho em até 90%, dependendo da taxa de kbps), mas sua
popularidade tem crescido, especialmente entre os puristas.
O formato começou a ser desenvolvido no início da década de 2000, e nem todos os programas reprodutores de mídia existentes possuem o dispositivo necessário à reprodução das mídias no formato. No entanto, o mesmo pode ser facilmente encontrado na Internet. Por ser um formato recente, ainda não foi reconhecido pelos padrões ISO/IEC, e há pouquíssimos aparelhos de som ou portáteis que possibilitem a reprodução de arquivos nesse formato.
3.2.3 AVI/DivX
AVI é a sigla para Audio Video Interleave, usada para designar um formato de
arquivo de vídeo digital introduzido pela empresa Microsoft, sendo o principal formato de vídeo dos sistemas operacionais Windows. Vídeos neste formato podem ser criados pelos
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arquivo é que sua compressão pode ser feita através dos mais diversos dispositivos possíveis, podendo ser criado inclusive sem compressão alguma.
Dentre esses dispositivos de compressão, conhecidos como codecs, destaca-se o
DivX, cuja aplicação na compressão de vídeos tornou-se popular à medida em que reduz
sobremaneira o tamanho de arquivos de vídeo de longa duração, mantendo uma boa qualidade de imagem e som.
Trata-se do padrão mais popular de arquivos de vídeo digital que se encontra na Internet, dada a sua praticidade e boa qualidade. Graças aos níveis de popularidade que o padrão alcançou, é possível encontrar no mercado aparelhos de reprodução de DVD que dão
suporte a vídeos AVI comprimidos com DivX. Fazendo um paralelo, é possível afirmar que o padrão DivX, em vídeo digital, tem popularidade próxima do MP3, na seara do áudio digital.
A problemática dos direitos autorais também se estende aos vídeos codificados através do DivX, já que é bastante comum ver a disseminação indiscriminada de obras cinematográficas codificadas por este padrão na Internet.
Apesar de toda a popularidade de que goza este formato de vídeo, nota-se a existência de outros formatos e métodos de compressão que oferecem qualidade superior de vídeo e áudio, com destaque para o padrão DVD, e o novíssimo padrão de mídia Blu-Ray, que
oferece imagem e som em alta definição.
3.2.4 PDF
Introduzido pela empresa Adobe Systems no início da década de 1990, o PDF
(sigla para Portable Document File) é um dos mais populares formatos de documento digital.
O formato, embora digital, visa a preservar a estrutura e formatação original de um documento impresso em papel, que muitas vezes não podem ser reproduzidas em formatos digitais. Sua grande aplicação na edição de documentos e livros digitais acabou por torná-lo o formato padrão para documentos eletrônicos, obtendo, inclusive, certificação de padronização ISO 3200018.
18 Cf. ORION, Egan. PDF 1.7 is approved as ISO 32000. The Inquirer, Londres, 5 de dezembro 2007.
É comum encontrar arquivos no formato PDF, geralmente contendo livros ou documentos, sendo possível inclusive verificar-se, na Internet, sua comercialização em sítios de livrarias. O uso desse tipo de arquivo é geralmente associado a computadores portáteis.
Já há notícia, inclusive, da invenção de aparelhos portáteis destinados exclusivamente à leitura desse tipo de arquivos, como é o caso do Sony Reader, aparelho para
a leitura de livros digitais desenvolvido pela empresa Sony, e o Amazon Kindle, desenvolvido
pela rede virtual de lojas Amazon.com.
3.2.5 Digitalização e imaterialização
Conforme se pôde perceber, o crescente fenômeno da digitalização, basilar do atual contexto da Sociedade da Informação, vem produzindo uma situação bastante curiosa, que é a imaterialização dos meios através dos quais as obras intelectuais e artísticas vêm
sendo difundidas.
Nos dias atuais, obras intelectuais e artísticas protegidas por direitos autorais, além de poderem ser encontradas reproduzidas por meios físicos (que se constituem em livros, discos, impressos etc.), também podem ser encontradas em formato digital, e as tendências, na medida em que avançam as tecnologias, apontam para o crescimento cada vez maior dos formatos digitais.
Tal deu ensejo ao crescente surgimento de aparelhos e inventos destinados exclusivamente ao processamento de tais arquivos. É o que se nota quando se pensa nos aparelhos reprodutores de arquivos MP3, ou dos aparelhos destinados à leitura de documentos digitais, inventados precipuamente para tais fins, sem realizar outras funções, visando tornar mais prático o uso de tais arquivos.
É óbvio que, apesar dessa tendência à imaterialização pela digitalização, as obras em formato digital também são protegidas por direitos autorais, pois, no exemplo citado por José de Oliveira Ascensão, “o que se protege não é a obra incarnada, mas a obra imaterial: não o livro, mas o texto [...].A imaterialização trazida pelo ambiente digital não contradiz em nada a essência do direito de autor.”19
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3.3 A Internet Enquanto Meio de Difusão de Obras
Conforme se observou até aqui, o papel da Internet vem crescendo, especialmente a partir da década de 2000, momento em que ela se consolida como a principal base tecnológica para a comunicação e a interação entre os indivíduos. Consoante assinalam os professores Clóvis Ricardo Montenegro de Lima e Rose Marie Santini,
o nascimento da web traz consigo uma peculiaridade trazida pelos ambientes computacionais referentes a difusão cultural: o ciberespaço. Este ambiente é representado fisicamente pela Rede Mundial de Computadores e seus diversos protocolos, que começam a ser explorados, principalmente nos últimos cinco anos, como um novo espaço de difusão e circulação de textos, sons e imagens.20
Constitui-se a Internet, portanto, como verdadeiro meio de transformação social através do rápido acesso a uma grande quantidade de conhecimento e informações, consubstanciados, em grande parte, na ampla gama de obras intelectuais e artísticas disponíveis.
Com a crescente e iminente consolidação do fenômeno da digitalização, é natural que nele também encontrem guarida as obras protegidas por direitos autorais: as tecnologias que hoje conhecemos tornaram possível a existência, em mídia digital, das mais variadas espécies de obras, podendo ser transferidas de um computador a outro através da Internet.
De diversas formas pode se dar a transferência de uma obra intelectual através da Internet, tanto de forma lícita, quando há clara obediência aos mandamentos do direito autoral, ou ilícita, quando há infração a tais direitos, o que resulta, na maioria das vezes, em prejuízos para aquele que cria a obra.
Na maioria dos casos, o acesso a obras protegidas por direitos autorais na Internet ocorre de forma legal, já que o simples acesso a um sítio na rede (que é conteúdo geralmente protegido por leis de direito autoral) não deve ser constituído como ilegalidade. Também não podemos falar em ilegalidade quando se menciona o simples acesso a textos que são disponibilizados de forma gratuita, tais como artigos em certos sítios de jornais e revistas.
No que tange a obras intelectuais e artísticas, tais como livros, fotografias, ilustrações e músicas, observa-se que o aumento da procura pelo acesso a tais obras através da
20 LIMA, Clóvis Ricardo Montenegro de; SANTINI, Rose Marie. Difusão de música na era da internet.
Internet deu condições ao surgimento de um verdadeiro nicho mercadológico, que se constitui na comercialização de obras disponibilizadas em formato digital.
Opera-se tal comércio como outro qualquer: o interessado dirige-se a uma loja virtual, efetua a compra da obra que desejar, e a mesma é enviada diretamente ao seu computador. Através dessa prática, que ganha força na Internet, é assegurado ao comprador o direito de possuir uma cópia da obra armazenada em seu computador pessoal, podendo dela usufruir como bem entender, desde que seu uso não seja direcionado a práticas que violem os direitos autorais.
É através dessas práticas que se opera o acesso a obras através da internet de forma ilegal. Conforme foi dito, é possível ao consumidor, em determinadas situações, deter a posse de uma cópia digital de determinada obra. No entanto, se tal consumidor repassar uma cópia da obra a outrem, sem a autorização expressa do titular da obra, sua conduta estará claramente infringindo os direitos autorais.
Na maioria dos casos de ilegalidade, o acesso a obras intelectuais digitais se opera através do acesso indiscriminado e do repasse da obra de uma pessoa a outra, através do compartilhamento. Diversas são as ferramentas de que se valem os usuários da Internet para compartilhar tais dados protegidos, as quais merecem um estudo mais detalhado e específico, que só será abordado mais adiante.
Nesse contexto, encontrar meios efetivos de fiscalizar a difusão ilegal das obras parece ser o grande desafio. Como se sabe, só se pode falar na efetiva defesa e na proteção a determinados direitos diante da existência de meios hábeis a fiscalizar a disseminação indiscriminada das obras, no sentido de coibir ilegalidades.
A esse respeito, como bem observa Lígia Carvalho Gomes dos Santos,
Agrega-se à problemática da dimensão da Internet, da gama de pessoas a que atinge e da velocidade com que propaga arquivos e informações, o fato desta ser um meio de comunicação “virtual”. Esta característica dificulta a determinação de critérios espaciais e temporais de ocorrência de fatos, como a reprodução indevida de uma obra, muitas vezes não sendo possível identificar a origem de um arquivo, bem
como o momento de sua criação.21
Portanto, o que se percebe é que os processos legislativos e de fiscalização não têm acompanhado, com a mesma velocidade, os avanços técnicos do universo da difusão de obras na Internet.
21 SANTOS, Lígia Carvalho Gomes dos. Direitos autorais na internet. In: SCHOUERI, Luís Eduardo (org.).
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Também não se pode deixar de falar da difusão, pela Internet, de obras que já caíram em domínio público. Como se sabe, quando uma obra cai em domínio público, deixa de existir a titularidade sobre os direitos patrimoniais do autor dela decorrentes: a obra passa a pertencer a toda a coletividade, e qualquer indivíduo poderá reproduzi-la ou difundi-la da forma que quiser.
Nada impede que possam existir empresas ou editoras que cobrem pela difusão de obras em domínio público em meio eletrônico, como eventualmente ocorre. No entanto, é fácil encontrar a mesma obra sendo disponibilizada gratuitamente por outros meios, e o fato de tal obra estar disponível por sítios, empresas ou até mesmo por pessoas individuais não dá ensejo a nenhuma infração que acarrete danos aos direitos patrimoniais do autor.
Na Internet, existem sítios especializados na difusão gratuita de obras que estão em domínio público.22 Tais sítios, geralmente, operam sem fins lucrativos, através de entidades governamentais ou não, e disponibilizam livremente o conteúdo em domínio público, sem que se haja a necessidade de contraprestação alguma por parte do usuário.
3.4 Direitos Autorais na Internet
Falou-se, no tópico anterior, em que medida se dá a difusão de obras protegidas por direito autoral através da Internet. Devemos, agora, fazer uma análise acerca do alcance e de que maneira incide a proteção dos direitos autorais sobre esta difusão, bem como expor em que medida determinado acesso a uma obra pode ser ou não ilicitamente considerado.
3.4.1 Navegação na Internet, conteúdo de livre acesso e direitos autorais
Se for considerada a hipótese em que um autor, ao concluir uma obra e lançá-la na Internet, decide por bem deixar seu acesso disponível a quem quiser, em que sentido, nesta situação, podemos delimitar a incidência da proteção aos direitos autorais?
22 Como exemplo, podemos citar o sítio <http://www.dominiopublico.gov.br>, que é mantido pelo Governo
Na situação acima exposta, a proteção de direitos autorais se realiza à medida em que permanecem com o autor os direitos sobre a exploração ou edição da obra. O fato de dar à obra a possibilidade de acesso através da rede torna possível aos usuários da rede apenas a faculdade de poder visualizá-las quando quiserem, sendo-lhes possível, inclusive, a impressão ou reprodução de um exemplar para seu uso, mas nunca a exploração comercial.
A esse panorama também podemos enquadrar, de certa forma, o acesso a páginas da Internet. Com efeito, o acesso a uma página, que pode ser obra protegida por direitos autorais, já implica em transferência de dados protegidos para a memória do computador usado. Deve tal ato ser considerado uma forma de reprodução da obra sem a autorização do titular dos direitos autorais?
A esse respeito, em especial no que tange à nossa Lei de Direitos Autorais (Lei n. 9.610/98), atentemos para a lição de José de Oliveira Ascensão:
O problema principal parece estar em saber se a navegação eletrônica, ou browsing, fica proibida pela lei brasileira. O § 1° do art. 30 libera a “reprodução” quando for temporária e incidental, desde que ocorra no decurso de uso devidamente autorizado. Se o trecho final [do dispositivo]23 abranger todas as modalidades de uso, a
navegação na Internet terá ficado proibida, porque sempre implicará as tais operações técnicas de reprodução.
Este resultado seria inadmissível, pois seria anticultural pretender que todo o utente estaria sujeito a autorização prévia para poder visualizar uma obra na Internet.24
Assim, a navegação deve ser concebida como um fenôneno onde o conceito de reprodução deveria alcançar um nível diferenciado. O conceito clássico de reprodução, enquanto meio de infringir direitos autorais, implica na produção de cópias, com o fim de que possam ser distribuídas por um indivíduo a uma coletividade, sem autorização do titular. O armazenamento de páginas na memória do computador, para o fim de visualizá-las e tornar seu conteúdo acessível pelo usuário, não deve ser enquadrado em tal conceito de reprodução.
O armazenamento da página na memória do computador é condição sine qua non
para a visualização de seu conteúdo, e “não constitui infringência [aos direitos autorais], pois os autores postam documentos na Internet com a intenção de que outras pessoas leiam, havendo permissão implícita à cópia das páginas durante a leitura [tradução nossa].”25
23 Aduz o referido dispositivo que “O direito de exclusividade de reprodução não será aplicável quando ela for
temporária e apenas tiver o propósito de tornar a obra, fonograma ou interpretação perceptível em meio eletrônico ou quando for de natureza transitória e incidental, desde que ocorra no curso do uso devidamente autorizado da obra, pelo titular.”
24 ASCENSÃO, José de Oliveira. Op. cit., p.103-104.
25 “This copy is arguably not infringement, because authors post documents on the Internet with the intent of
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Além do que, dado o caráter de uso privado de que se reveste este ato, o acesso, por um usuário, a uma página ou obra sempre deverá ser considerado livre. Quando determinado usuário visualiza uma obra lançada em rede, não se configura a utilização pública, pelo que não representa infração a direitos autorais. Reforça tal paradigma o princípio da liberdade do uso privado, como fundamental à liberdade cultural.
3.4.2 Publicação na Internet
O fato de um autor disponibilizar aos usuários, através da Internet, determinada obra intelectual ou artística, gera uma discussão assaz interessante, no tocante a examinar se tal ato pode ser caracterizado como publicação.
A doutrina inicialmente considerava que a colocação de obra na rede mundial de computadores constituiria verdadeira distribuição pela via digital, e não publicação, o que daria ensejo ao esgotamento dos direitos já na primeira autorização para que a obra fosse distribuída.
No entanto, insurgiram-se contra esta doutrina teóricos que passaram a caracterizar como verdadeira forma de publicação a colocação de determinada obra à disposição do público, através da Internet. Devido ao fato de, no âmbito da Internet, não se poder falar na existência de exemplares, no sentido mais comum da palavra, ou seja, de livros ou objetos físicos multiplicados tomando como base uma matriz comum, não se pode falar em direito de distribuição. Afastam-se ainda mais as características da distribuição na medida em que o direito de disponibilizar uma obra em rede não está sujeito a esgotamento: perdura enquanto a obra for acessível na rede.
Tal tendência doutrinária que aproxima a disponibilidade da obra em rede do fenômeno da publicação foi desenvolvida a partir do momento em que se passou a perceber diversas semelhanças entre as obras que eram disponibilizadas na Internet e a obra publicada. Assim como na publicação, a obra lançada na Internet torna-se disponível em caráter geral e permanente, independente do meio utilizado à sua veiculação, por mais efêmero ou duradouro que seja. Assim, deve ser considerada publicada toda obra que for lançada pela primeira vez
reading of them.” (STANDLER, Ronald B. Some observations on copyright law. Disponível em