PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP
Vera Lucia Alba Rei Dias
Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro: um movimento abolicionista na cidade de Santos - 1886 - 1888
MESTRADO EM HISTÓRIA
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP
Vera Lucia Alba Rei Dias
Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro: um movimento abolicionista na cidade de Santos - 1886 - 1888
MESTRADO EM HISTÓRIA
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP, como exigência parcial para a obtenção do título de MESTRE em História Social, sob a orientação da Professora Doutora Olga Brites.
BANCA EXAMINADORA
______________________________________
______________________________________
AGRADECIMENTOS
Agradeço, inicialmente, à CAPES que financiou parte desta pesquisa.
Agradeço à minha orientadora, Professora Doutora Olga Brites, não só pela acolhida desta egressa dos bancos do Direito no Programa de História da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, o que muito me honrou, mas, também, por sua vigorosa preocupação com os rumos da pesquisa e da elaboração do texto, a fim de que fossem consolidados de forma consentânea aos rigores da Historiografia.
Outras professoras também se fizeram fundamentais neste percurso e merecem meu irrestrito agradecimento:
Professora Estefania Knotz Canguçu Fraga que, com sua inesgotável generosidade, foi o braço amigo, firme e preciso, nos momentos de dúvidas. Seu apoio e sua experiência foram imprescindíveis à conclusão desta pesquisa e dissertação.
Professora Yvone Dias Avelino, com sua absoluta elegância e tranquilidade, fez diversas ponderações durante a banca de qualificação que muito enriqueceram este trabalho.
A Professora Maria Apparecida Franco Pereira a quem muito devo pela concretização desta dissertação. Seu irrestrito conhecimento da História de Santos serviu como farol condutor e, a exemplo da Professora Estefania, foi com sua inesgotável generosidade que agora chego ao fim desta etapa.
Professora Vera Lucia Vieira que desde o primeiro semestre do curso muito me incentivou. Sua alegria e vivacidade foram inspiradoras.
Agradeço, também, a Mara Fernanda Chiari Pires que, de forma incansável e em meio a seu Doutorado, sempre disse que seria possível.
Não posso deixar de mencionar Manoel, que sempre se fez presente nas minhas ausências, dando-me tranquilidade no cuidado dos nossos filhos, Alexandre e Fernando, também parte indissociável desta trajetória que se encerra.
RESUMO
Esta dissertação intenta buscar uma das origens da consolidação da ideia de Santos como a terra da bondade e da caridade. A lida abolicionista é um aspecto dessa construção. Não é por outra razão que já se disse que a cidade contou com lei própria dando fim à escravidão nos idos de 1886, questão abordada neste trabalho e afastada pelas fontes. A Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro é parte inseparável de todo esse processo e seus personagens, de inserção no cotidiano da cidade, foram alvo desta pesquisa, a qual trouxe, também, algumas de suas idiossincrasias. A Câmara Municipal, com sua gente e as atribuições que lhe competiam à época, também integra este panorama. Não se deixou à parte, ainda, que Santos, na quadra final dos 1800 passava por intensas transformações, projetando-se mais e mais como um polo comercial de café com seu porto que se expandia.
ABSTRACT
The aim of the present work is to reveal the origins of Santos city as ‘the land goodness and charity’. The abolitionist fight is an important part of it and, because of that, it was told that there was a law, in 1886, able to end slavery in its perimeter, but the sources did not confirm it. The history and the main actors of Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro are important aspects of the present dissertation, with his idiosyncrasies, as well as the Camara Municipal role and daily life facts about ordinary people at that time. The intense social movements and transformations at the end of XIX century are also considered.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO 1
CAPÍTULO I: SANTOS: UMA CIDADE DE MÚLTIPLOS ASPECTOS 11
1.1 Santos, seu porto e seu comércio 24
1.2A imprensa em Santos 33
CAPÍTULO II – SANTOS E SUA LIBERDADE. A CÂMARA E A ESCRAVIDÃO. UMA
LEI? 36
2.1 A Câmara e a escravidão. Uma lei? 51
2.2 As sessões da Câmara: 23 de fevereiro e 24 de março de 1886 65 CAPÍTULO III - 27 DE FEVEREIRO DE 1886 EM SANTOS: UMA SOCIEDADE
EMANCIPADORA 70
3.1 A instalação da Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro 78 3.2 As ações da Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro 83
3.3 A apuração de escravos em 1887 – Um duro golpe 95
Considerações Finais 110
APÊNDICE 120
ANEXO I 125
ANEXO II 132
ANEXO III 138
ANEXO IV 140
FONTES E IMAGENS 141
LISTA DE IMAGENS
Imagem 1 – Brasão da Cidade de Santos 10
Imagem 2 - Cidade de Santos vista da Ilha Barnabé, 1862, Militão Augusto de Azevedo
12
Imagem 3 - Mapa indicativo dos fortes construídos na região 15
Imagem 4 - Hospital da Sociedade Portuguesa de Beneficência 18
Imagem 5 – Excerto do mapa elaborado pela Comissão de Saneamento do Estado de São Paulo em 1895 que destaca as fontes de água potável
20
Imagem 6 - Planta de Santos de Jules Martins, 1878 114
Imagem 7 - Theatro Guarany 115
Imagem 8 – Excerto do mapa elaborado pela Comissão de Saneamento do Estado de São Paulo em 1895 que destaca as propriedades, as linhas de bondes e o calçamento
23
Imagem 9 - Porto do Consulado em 1886 27
Imagem 11 - Excerto de mapa da América do Sul, de Letts, Son & Co Limited. Londres, 1883
32
Imagem 12– Largo da Cadeia Nova (e Câmara) 66
Imagem 13 - Retrato de Rubim Cezar 75
Imagem 14 - Mapa da América do Sul nº 01, de Letts, Son & Co Limited. Londres, 1883
116
Imagem 15 - Mapa da América do Sul nº 02, de Letts, Son & Co Limited. Londres, 1883
117
Imagem 16 - Mapa da América do Sul nº 03, de Letts, Son & Co Limited. Londres, 1883
118
Imagem 17 - Mapa da América do Sul nº 04, de Letts, Son & Co Limited. Londres, 1883
119
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Escravos maiores de 65 anos 73
Tabela 2 – Escravos entre 60 e 65 anos 73-74
Tabela 3 – Libertação espontânea 75-76
Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é sombra
De árvores alheias.
A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.
Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.
Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos Deuses.
Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.
INTRODUÇÃO
Um caminho peculiar me levou do Direito à História e a admiração pelo Direito do Trabalho serviu de força motriz de todo o percurso.
O ponto de intersecção entre as disciplinas, alvo de minha eleição, foi o ocaso do trabalho escravo. Nesse diapasão, uma feliz surpresa o encontro, à partida, de duas importantes referências a uma lei municipal que teria abolido, no perímetro da cidade e em 27 de Fevereiro de 1886, a escravidão, aspecto que redundaria na consolidação de uma cidade afinada com o trabalho livre. Uma cidade que se dedicou à libertação de homens escravizados, rompendo com o status quo.
E, como santista, fruto de uma decantada terra da caridade e da liberdade, nada melhor do que centralizar as pesquisas na minha cidade.
Entendi, a princípio, que as Atas da Câmara seriam fonte expressiva desse momento e, portanto, retrato, ainda, do movimento abolicionista que envolvia muitos cidadãos. As atas puderam ser consultadas na Fundação Arquivo e Memória de Santos (FAMS), que as mantém em seu Fundo Câmara.
Deparei-me, no entanto, com atas silentes, ocupadas a tratar de assuntos outros. No dia da edição da lei, 27 de fevereiro de 1886, sequer houve sessão na Câmara. A preocupação encontrou ressonância nas palavras de Bloch: “Pois a démarche natural de qualquer pesquisa é ir do mais ou do menos mal conhecido ao mais obscuro.” (2001, p. 67).
Muitos foram, então, os passos, por vezes incertos, em direção à solução do impasse que se instalara, mas as fontes se impuseram e formaram seu próprio caminho.
O Diário de Santos, jornal santista criado em 1872 e que teve seu ocaso em 1918, foi perscrutado como fonte primária desde 14 de fevereiro de 1886 até os últimos dias de 1887, pois não havia para consulta aqueles relativos a 1888. O Diário encampou a partir de 1879 a luta pela libertação dos escravos, época em que tivera, como redator, Rubim Cezar, abolicionista vigoroso.
O jornal serviu, em um primeiro momento, à revelação do que teria havido em Santos no dia 27 de fevereiro de 1886 para que se propalasse a edição da lei abolicionista: fundamental a descoberta de uma entidade abolicionista, chamada Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro. Aqui residia o cerne de toda pesquisa e, assim, segui seus passos em busca de uma cidade livre, bem como o revés que sofreu com a apuração de escravos feita por João Guerra e publicada no Diário de Santos em outubro de 1886 (Anexo II). Assim é que a fundação da Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro e seus atos e ações em torno da causa abolicionista foram acompanhados através do jornal.
No particular, não se pode deixar de mencionar que a Professora Maria Apparecida Franco Pereira formulara, em 1988, um artigo que bem apontava a criação da Sociedade e a persistência de escravos em Santos após a ventilada lei. O artigo, A utopia santista da libertação, pode ser encontrado em: Leopoldianum – Revistas de Estudos e Comunicações, v. XV, n. 43, p. 95-100, ago. 1988.
Outros dois jornais, o Correio Paulistano e O Estado de São Paulo, também foram manejados, em circunstâncias específicas, indicadas ao longo da dissertação, para o cruzamento entre as fontes.
Utilizei-me, ainda, de documentos da Alfândega de Santos, albergados no sítio eletrônico do Arquivo Público do Estado de São Paulo, que traziam a relação de escravos matriculados e alforriados entre 1886 e 1888, a fim de fazer a verificação entre aquilo que se desejava e o que, de fato, ocorreu.
seguintes elementos: data da transação, nome do escravo, nome de seu vendedor e nome de seu comprador.
A legislação vigente à época serviu de fonte para a verificação das competências atribuídas às Câmaras Municipais e para revelar a ausência de aptidão do ente para a formulação da alardeada lei libertadora. As posturas de Santos de 1883 foram imprescindíveis à delimitação do espaço cabente ao município e, nessa trilha, de suas necessidades em face de seu desenvolvimento à míngua de qualquer estrutura sanitária.
O livro denominado História de Santos, de Francisco Martins dos Santos, datado de 1937, foi outro balizador. O autor, um dos fundadores do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, bem como de São Vicente, além de membro da Academia Paulista de História, logrou elaborar um longo e respeitado tratado sobre a cidade, o que mereceu, nos idos de 1978, as seguintes palavras de Andrade:
Sentiu a necessidade de que uma cidade como Santos devia ter um livro à altura do seu passado. Escrever esse livro foi um ato de amor cívico, pois amava a cidade de modo que, lembrava, sempre lhe carregava o nome junto consigo. O livro resultou de uma promessa que fizera a seu pai, Américo Martins dos Santos, figura das mais importantes na cidade, outrora. Levado por sentimento de dever, trabalhou quatro anos na obra, que até hoje é a única que tenta abranger a história de Santos. (1978, p. 120)
A escravidão e ações a ela contrárias foram ali dedilhadas, motivo pelo qual o livro de Francisco Martins dos Santos se transformou em importante fonte para a pesquisa.
Outra fonte, O elemento servil e as Camaras Municipaes da Provincia de S. Paulo1, de J. Floriano de Godoy, de 1887, consubstancia-se em um livro que versa sobre a consulta feita pelo autor, dirigida às diversas câmaras da província de São Paulo, a fim de que fosse traçado um panorama dos anseios e necessidades das várias localidades, a partir do órgão que entendia mais representá-las, relativamente à extinção da escravidão, que considerava inevitável. Sustentou Godoy, ainda sob o manto do Império, que “A soberania nacional não póde ser compreendida sinão
1
como que igualmente funcionada por todos os brazileiros: cada um de nós, portanto, representa uma parcela desse ideal sublime dos povos independentes.” (1887, p. 8).
Lafayette Toledo em seu artigo Imprensa Paulista. Memória história, de 1898, publicado pelo Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, compilou os muitos periódicos que havia na Província, tendo sido, no que tange àqueles publicados em Santos, importante fonte de pesquisa para a constatação de uma cidade que muito se expressava através dos vários jornais que viu nascer e fenecer.
Também fonte de pesquisa, Guilherme Álvaro, médico sanitarista, elaborou um cuidadoso inventário das epidemias que marcaram a cidade, consolidado em seu livro A campanha sanitária de Santos, suas causas e seus efeitos, de 1919. É um trabalho fundamental à melhor compreensão das dificuldades enfrentadas para o desenvolvimento de Santos, e foi assim que o médico acabou por reproduzir seu cotidiano, revelando uma cidade precária, sem saneamento.
Outros autores, reputados memorialistas também foram consultados. Olao Rodrigues, Jaime Franco, Costa e Silva Sobrinho e José Luiz Promessa se debruçaram sobre vários aspectos da cidade de Santos, franqueando seu mais próximo conhecimento.
Dois trabalhos acadêmicos, em especial, merecem destaque, eis que trataram, também, da escravidão em Santos, servindo, pois, a esta pesquisa. Wilson Toledo Munhós é o autor de “Da circulação trágica ao mito da irradiação liberal: negros e imigrantes em Santos na década de 1880”, dissertação de mestrado apresentado à Pontifícia Universidade Católica de São Paulo em 1992. O autor esquadrinhou a ligação entre uma elite abolicionista, os escravos fugidos que se dirigiam para Santos, a criação do Quilombo do Jabaquara e as ações de Quintino de Lacerda. Quanto a este último, Matheus Serva Pereira nele centrou sua dissertação: “Uma viagem possível: da escravidão à cidadania. Quintino de Lacerda e as possibilidades de integração dos ex-escravos no Brasil”, 2011, de onde se extrai toda a inserção de Quintino nos meandros de uma cidade que se pretendia ver livre e que se desenvolvia.
abarcando desde a Independência até a extinção do trabalho servil. O autor, professor de Estudos Latino-Americanos na Universidade de Soka, Califórnia, Estados Unidos, com base em diversos conjuntos documentais, enfrentou a influência do status detido pelo proprietário na vida do cativo. Para tal, coligiu Read, vários dados, como de população e riqueza; preços de escravos; percentuais entre livres e cativos; funções desenvolvidas por escravos, consideradas as atividades de seus proprietários, além das várias características de cativos manumitidos, entre vários outros elementos. Este farto levantamento foi manejado de forma complementar às apurações feitas ao longo da pesquisa convertida nesta dissertação.
Foi com alicerce nas fontes e na bibliografia que se construíram os três capítulos desta dissertação.
O Capítulo I traz em seu bojo um panorama de Santos na década de 1880. A primeira formação da cidade, feita aos fundos da ilha de São Vicente, não se fez de forma arbitrária, mas por força da inconteste preocupação com sua segurança e de seu porto, sendo apontados, ainda, os vários fortes construídos com essa intenção. As diversas igrejas receberam apenas indicação, com o fito exclusivo de demonstrar a forte presença católica na cidade. A expansão com as grandes avenidas, inicialmente a Conselheiro Nébias, seguindo-se da Ana Costa, bem como a construção de um hospital pela comunidade portuguesa são representativos de uma cidade que crescia.
As precárias condições sanitárias da cidade também foram enfrentadas. A ausência de esgotos, o restrito encanamento de água e a pouca iluminação marcaram uma cidade que padeceu com as inúmeras epidemias que a assolavam, mas que não foram suficientes para obstar o desenvolvimento propiciado por sua vocação comercial determinada por sua proximidade com São Paulo, seu porto e pela estrada de ferro. E o café, que sucedeu o açúcar na ordem de magnitude dos produtos exportados, se incluiu nesse contexto. A imprensa não foi deixada de lado. Seus vários periódicos foram trazidos, a fim de que fosse demonstrado o contexto no qual estava inserido o jornal Diário de Santos.
A participação feminina vem, primordialmente, pelo relato do filho de Anna Benvinda da Silva Bueno, importante figura na libertação de moças escravas. Surge aí a ação de Luiz Gama e Antonio Bento, ambos abolicionistas e uma estratégia de direcionamento dos cativos.
No entanto, questiona-se a existência da lei municipal que teria dado cabo à escravidão em Santos em 1886 e é nessa perspectiva que a função precípua das Câmaras Municipais é descortinada. No caso específico de Santos, o Código de Posturas de 1883 foi utilizado para dar os contornos não só de seus poderes, mas, dentro de sua área de atuação, dos assuntos eleitos pelo corpo de vereadores.
Os cidadãos que tomaram assento na Câmara à época de uma sensível ação libertadora foram indicados e a relação de alguns destes com o comércio de escravos foi identificada, a partir do confronto com Livro de escrituras de compras e vendas de escravos – 1º cartório de Santos. A ambiguidade de alguns e do próprio movimento que originou o Quilombo do Jabaquara, fazendo surgir a figura de Quintino de Lacerda, também mereceu enfrentamento.
Ao fim, sepultou-se, de vez, a possibilidade de ter havido a lei libertadora, quer seja pela impertinência legal, quer seja pela constatada ausência de sessão no dia 27 de Fevereiro de 1886.
Derradeiramente, o Capítulo III revela a gênese da Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro, formada por um grupo de pessoas que se dedicaram, a partir da libertação proporcionada pela Lei dos Sexagenários, a dar cabo da escravidão em Santos.
A origem dessa Sociedade é demonstrada, assim como suas ações e estratégias, bem como a frustrante constatação da persistência de matrículas de escravos em Santos. A importante publicidade dos atos através do jornal Diário de Santos, alinhado à causa, serviu de linha mestra ao acompanhamento da vida da Sociedade.
Importa salientar, frente a este último capítulo que versa especificamente sobre a Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro, que em face de sua fundação ter-se dado por homens livres, com o intuito de libertar escravos havidos na cidade de Santos, seus integrantes detinham um amplo espectro para a ação em sociedade, sendo a eles possível, ainda, publicizar seus atos através da imprensa, nominando-se.
Aos escravos, mormente aqueles fugitivos, não havia tal sorte de possibilidades para a conquista de sua liberdade, como é sabido. Mas “[...] seus modos de luta, muitas vezes individuais e cotidianos [...]”2(PERROT, 2010, p. 18) são reais e acabam por surgir através da História trazida pelas fontes. É assim que surgem os escravos Fernando, Benedicto, Manoel e Angelo.
Pires, em sua tese de doutorado “Docentes negros na universidade pública
brasileira: docência e pesquisa como resistência e luta”, ressalvando a ação dos
negros contra a servidão humana mesmo durante o regime de escravidão, indica a busca por educação logo após o dia 13 de maio de 1888, revelando, assim, uma inconteste e pretérita mobilização desses grupos:
Podemos dizer que o movimento negro brasileiro é anterior à República, e já estava presente nas rebeliões de escravizados, nas organizações quilombolas, em todas as formas de luta e resistência contra a escravidão. Santos (R.E., 2007) lembra-nos que tão logo a escravidão foi formalmente extinta, a educação tornou-se uma das reivindicações dos grupos negros, o que se pode provar pela carta de abril de 1889 encaminhada pela comissão formada por libertos do Vale do Paraíba, ao futuro ministro da justiça, Rui Barbosa, que
assim demandava: “para fugir do grande perigo que corremos por falta de instrução, vimos pedi-la para nossos filhos...” (p. 50).
No início do período republicano, grupos negros passaram a se organizar em entidades de defesa que, apesar da pluralidade de propostas e formas de atuação, tinham por singularidade o objetivo de luta contra a desigualdade social e racial e, neste sentido, a luta por educação aparecia como meio de se minimizar essa desigualdade. (PIRES, 2014, p. 36-37)
2 Michelle Perrot , em Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros, reporta-se, no
É nesse contexto de lutas, ações e resistências, ora capitaneadas por escravos, ora manejadas por homens livres, negros ou brancos, com passos e contrapassos, que se deve calibrar o olhar.
Na sequência da dissertação, tem-se o Apêndice I: Os Breves apontamentos sobre as sessões havidas na Câmara de Santos nos dias 23 de fevereiro e 24 de março de 1886 trazem as demandas sociais que foram levadas ao crivo da Câmara, majoritariamente relativas ao espaço urbano e sua conformação. A inexistência de qualquer assunto relativo a escravos indica que ali não foi um espaço utilizado pelos abolicionistas. Também serviu de retrato à ausência de sessão no dia 27 de fevereiro, data da suposta lei.
O Livro de escrituras de compras e vendas de escravos (Anexo I) foi instrumento à demonstração, ainda que exemplificativa, das pessoas que transacionaram escravos e da magnitude – pequena, adiante-se – desse comércio em Santos. É por tais razões que trazem os excertos das escrituras apenas a data e a indicação relativa ao comprador e vendedor, além do escravo.
O decreto da Assembleia Geral e a Lei 3353, de 13 de maio de 1888, Lei Áurea, foram coligidos nos Anexos III e IV a fim de que fosse retratada a forma legal e final da libertação dos escravos, de cunho nacional e da lavra da Princesa Isabel, utilizando-se de sua prerrogativa garantida pelo Poder Moderador.
É, diante do quanto deduzido, imperioso assentir que a presente dissertação buscou seguir o escólio de Bloch:
[...] a história terá portanto o direito de reivindicar seu lugar entre os conhecimentos verdadeiramente dignos de esforço apenas na medida em que, em lugar de uma simples enumeração, sem vínculos e quase sem limites, nos permitir uma classificação racional e uma progressiva inteligibilidade. (2001, p. 45)
Nessa trilha, o lume perseguiu o deslocamento. De lei da Câmara a solenidade no Fórum. De ato do Estado a movimento social.
CAPÍTULO I: SANTOS: UMA CIDADE DE MÚLTIPLOS ASPECTOS
Santos é uma cidade do litoral paulista, situada na ilha de São Vicente, balizada pelo mar e pela Serra do Mar. Fundada em 1546, encerra atualmente em suas terras o maior porto da América Latina e o maior jardim de praia do mundo. E foi abrigo, também, de uma intensa ação contrária à escravidão.
Muitos cidadãos santistas de outrora, em franca contrariedade às diretrizes vigentes nos idos de 1800, romperam com o sistema escravagista que grassava pelo país monarquista. Uma cidade de múltiplos aspectos.
Santos3 desenvolveu-se, inicialmente, no trecho compreendido entre o Outeiro de Santa Catarina4 – cujo entorno era conhecido como “quartéis” - e o Valongo – parte mais rica e de movimento comercial – e entre o mar e os morros.
3
Santos, elevada à categoria de cidade em 1839.
4
Imagem 2 – Cidade de Santos vista da Ilha Barnabé (antiga Ilha dos Porcos), 1862 (fotografia). Autor: Militão Augusto de Azevedo. Acervo: Instituto Moreira Salles
A fotografia permite notar a primeira formação da cidade, aos fundos da baía, junto ao estuário, local, inclusive, em que se instalaram as primeiras pontes para embarque e desembarque de
mercadorias nos navios.
Manteve-se, assim, preponderantemente, até fins do século XIX:
convento franciscano do Valongo deu origem à Rua Santo Antonio. (PEDRO, 2010, p. 19)
Esta primeira ocupação da cidade, localizada às costas de sua baía não foi uma ocorrência arbitrária. A proximidade com a subida da serra que facilitaria a articulação da capitania com o planalto paulistano, as águas calmas do estuário e a possibilidade de se construírem defesas foram determinantes para a eleição desse espaço como nascedouro do núcleo urbano:
[...] uma interpretação mais atenta sobre a lógica que presidiu a escolha do fundo do estuário, isto é a porção norte da ilha de São Vicente, como local privilegiado de ocupação, deve combinar os argumentos do aproveitamento das melhores condições naturais com razões de defesa e de intercâmbio. Neste sentido, pode-se perceber
que a disponibilidade de águas “calmas” e abrigadas, bem como de
aguadas provindas dos morros (que forneceriam toda a pedra necessária para as construções) e de terrenos relativamente secos da planície, encontraria suporte na possibilidade de proteção do sítio escolhido (através da disposição de fortalezas às margens dos canais – o central e o de Bertioga -, e, sobretudo, na maior proximidade desse sítio em relação ao ponto de subida da serra –
Cubatão -, o que facilitava o “comércio com a vila de São Paulo e povoações de serra acima”. (SALES, 1999, p. 126)
O local em que os agricultores se haviam estabelecido, mais propício para as suas culturas, também foi um fator relevante para a ocupação inicial do núcleo santista:
Fruto da importância dessa faixa territorial, foram estrategicamente construídos nada menos do que oito fortes entre 1543 e 1770 e um local de apoio – Casa do Trem Bélico -, este junto ao Outeiro de Santa Catarina, para sua defesa contra invasões estrangeiras:
3_ O porto organizado teve origem no atual centro da cidade de Santos e era bem protegido por sucessivas cortinas de fortificações construídas em duplas e lados opostos para cruzarem fogos sobre os acessos marítimos:
(1) Ao Norte, o Forte São João (1551) e o Forte São Felipe (1557), substituído pelo Forte São Luiz (1770), realizando a cobertura avançada do acesso marítimo à ‘vila’ de Santos pelo canal de Bertioga;
(2) Ao Sul, na embocadura do estuário que dá acesso à mesma ‘villa’, os espanhóis ergueram a Fortaleza de Santo Amaro (1584) e os portugueses, duas sentinelas avançadas: o Forte Augusto (1734) e o Fortim do Góes (1767); e,
(3) Para a defesa aproximada foram construídos o Forte Nossa Senhora do Monte Serrat (1543) e a Fortaleza de Vera Cruz do Itapema (1738).
Imagem 3: Mapa indicativo dos fortes construídos na região elaborado pela Agência Metropolitana da Baixada Santista
1-Fortaleza de Itaipu, Praia Grande, século XX; 2- Casa do Trem Bélico, Santos, século XVIII; 3-
Forte Augusto, Santos, século XVIII; 4- Fortaleza de Santo Antonio da Barra Grande, Guarujá, século XVI; 5- Forte dos Andradas, Guarujá, século XX; 6- Fortaleza de Itapema, Guarujá, século
A cidade, outrossim, embora restrita em seus limites territoriais e com baixos índices populacionais, possuía um montante significativo de igrejas, a revelar uma forte presença do catolicismo e da fé cristã a nortear a vida dos habitantes. Entre elas havia a Capela da Graça (1562); a Igreja de Nossa Senhora do Carmo (1580); a Capela do Monte Serrate5 (1613); a Igreja e o Convento de Santo Antonio do Valongo (1640); a Igreja do Rosário (1650); a Igreja Matriz (1746); a Capela da Ordem Terceira do Carmo (1760); a Capela Jesus, Maria e José (final do século XVIII); além do Mosteiro de São Bento (1725) e dos Conventos de Nossa Senhora do Carmo e de São Bento.
Eram, no entanto, precárias as condições sanitárias. Santos era desprovida de rede de esgotos e submetida a constantes inundações, em face da ausência de escoamento da água pluvial. A água para consumo não era encanada, sendo retirada de fontes: os mais pobres utilizavam água salobra, de poços, outros a compravam de ambulantes e aqueles com maiores recursos financeiros mandavam seus escravos a irem buscar. Promessa dá conta desta função ao se reportar a um inventário datado de 1853 da Ordem Terceira da Penitência: “Dizem que, não havendo em Santos água encanada, o maior serviço desses escravos era o transporte de água da bica do morro de São Bento para o Convento de Santo
Antonio.” (1930, p. 54-55).
A limpeza pública era adstrita a uma pequena área central, pelo que o lixo produzido, no mais das vezes, era lançado em riachos que cruzavam a cidade ou na praia de areia lodosa. O calçamento, de pedras, era incipiente. Não é por outra razão que padeceu das diversas epidemias que seguidamente a assolaram já nos idos do século XVIII.
Segundo Guilherme Álvaro (1919), a primeira grande epidemia de febre amarela vista em Santos data de 1853, quando vinte, dos duzentos e vinte óbitos ocorridos na cidade, foram causados pela doença. À época a cidade não encerrava grande contingente de pessoas. O censo feito em 1854 revelou a existência de 7.855 habitantes, dos quais 3.189 eram escravos, ou seja, 40,60% da população eram cativos.
Nessa quadra, o porto já era elemento importante da urbe com os cais do Bispo e do Consulado, realizando transporte de cabotagem e também para o exterior. O porto do Bispo situava-se junto ao Valongo, bairro de comércio de serviços, com residências da mais alta classe e casas comerciais. Entre ambos os portos havia, como ligação, a Rua Santo Antonio e a Rua Direita (hoje Rua XV de Novembro).
E foi com a proibição do sepultamento em igrejas, havido em maio de 1850, que a cidade acabou por se expandir para os lados do Paquetá, uma área encharcada, de mangue. Estabeleceu-se ali o Campo Santo Municipal, o Cemitério do Paquetá6 (inaugurado em 1853). Já existia, então, o Caminho da Barra (Boqueirão), com algumas residências e chácaras e já havia alguma habitação na praia do Embaré, mas nenhuma havia no José Menino, que servia apenas como passagem para São Vicente.
Santos seguia sua rotina, padecendo de diversas moléstias.
Alguns integrantes da colônia portuguesa, preocupados com a situação à qual seus conterrâneos, cujo contingente só aumentava, eram expostos em Santos, reuniram-se e fundaram em 21 de agosto de 1859 uma sociedade de beneficência:
A cidade de Santos, conquanto se assinalassem alguns progressos, continuava a amedrontar os habitantes, com periódicas epidemias e outras doenças mortais, como a tuberculose, disenterias, pneumonias, coqueluche, anginas, e os casos comuns de febre amarela, sem extensão vultosa. O Hospital da Santa Casa de Misericórdia não comportava ainda grande número de doentes. Muitos tratavam-se nas próprias casas. Os médicos eram poucos. Um ou outro residia em Santos. Na colônia portuguesa havia certa inquietação porque os seus membros aumentavam dia a dia, pela crescente imigração, e se encontravam na emergência dolorosa de qualquer surto epidêmico, violento, por causa das péssimas condições sanitárias da cidade que se agravavam à medida que os aglomerados de famílias se concentravam em casebres colectivos, nas proximidades do centro comercial e à margem dos riachos. Tornou-se ansiosa a ideia da construção dum hospital para os numerosos portugueses que aqui viviam e trabalhavam no comércio e nos misteres mais humildes e insalubres. (FRANCO, 1951, p. 69-70)
Foi longo o caminho até a concretização do hospital e, antes disso, atenta às necessidades dos portugueses que se estabeleciam em Santos, a Beneficência manteve um convênio com a Santa Casa de Misericórdia de Santos7, para o tratamento de seus sócios (Cf. PEREIRA e FRUTUOSO, 2009, p. 98). Apenas em 06 de janeiro de 1878, foi inaugurado o Hospital da Sociedade Portuguesa de Beneficência, localizado próximo do Cemitério do Paquetá, na Rua João Otávio, 82 (Imagem 4):
Imagem 4: Hospital da Sociedade Portuguesa de Beneficência.
Cartão Postal de Editores Pontes et Comp. Bazar de Paris. Data aposta no canto superior direito: 1904.
Disponível em: sítio eletrônico Ebay
Apesar das doenças8, todas ligadas às condições sanitárias da cidade, Santos se enriquecia. A estrada de ferro chegou em 1867, sendo sua estação construída no local onde havia o Convento de Santo Antonio, no Valongo que,
7 Criada em 1 de novembro de 1543, promovida por Brás Cubas.
portanto, foi demolido, remanescendo apenas a sua igreja. Sinal de seu desenvolvimento comercial, em 22 de dezembro de 1870, é fundada a Associação Comercial.
A primeira captação de água, esta advinda do rio das Pedras, em Cubatão, foi feita em 1871 pela Companhia de Melhoramentos da Cidade de Santos9, de John Frederic Russel, Thomaz e seu irmão, Ignacio Wallace da Gama Cochrane10 e Eduardo Everett Bennet11, os quais ainda se obrigaram à instalação de mais quatro chafarizes: Porto do Bispo, Praça dos Andradas, Largo do Carmo e Rua do Quartel, bem como à manutenção dos seis então existentes. Neste ano deu-se, também, a contratação de serviços para a iluminação da cidade com gás de hulha - este substituído apenas em 1903 por iluminação elétrica. Ambas as obras, de água e iluminação, não ampliaram significativamente os serviços e tiveram seu termo final em 1872, ano em que novo censo é elaborado. Apurou-se, desta feita, a existência de 10.120 habitantes, sendo 1.606 escravos, observando-se, pois, um importante decréscimo na relação entre livre e cativo (15,9%). A ligação da cidade com o Paquetá se consolidava e nascia a Vila Nova. Surgia a primeira linha de bondes puxados por muares e a cidade via, ainda, aumentar o movimento de seu porto e do tráfego com o interior, agora facilitado pelo trem que aqui chegava.
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A Melhoramentos se associou, ainda, a Domingos Moutinho, a quem havia sido dada, em 1870, a concessão do transporte de cargas e passageiros, introduzindo o sistema de tramroad em 1871. A empresa denominada The City of Santos Improvements Company Limited sucedeu a Companhia de Melhoramentos da Cidade de Santos em 1881.
Imagem 5: Excerto do mapa elaborado pela Comissão de Saneamento do Estado de São Paulo, em 1895, que destaca as fontes de água potável.
Disponível em: Blog Novo Milênio
A partir do mapa é possível visualizar-se o caminho percorrido pela estrada de ferro e seu termo junto ao Valongo, bem como a canalização da água de Cubatão para Santos, sendo a primeira
A cidade, porém, continuava a sofrer com as epidemias e, alcançando o montante de 10.000 habitantes em 1878 (Imagem 6) e 15.000 em 1886, ainda encerrava condições inadequadas de saneamento, mantendo-se sem sistema de esgotos, sendo utilizadas, para o despejo, fossas nos quintais e fazendo-se, ainda, seu descarte em riachos e na praia.
Intensificava-se a vida na cidade, que passou a ter um importante centro de lazer, já não mais improvisado em um armazém. O Theatro Guarany surge na Praça dos Andradas, inaugurado em 07 de dezembro de 1882 (Imagem 7).
Em 1867, por iniciativa de Ignácio Wallace da Gama Cóchrane12, foi aberta a Avenida Conselheiro Nébias, que fazia a ligação entre o centro da cidade e a Barra, servida por bondes puxados por muares13. Anteriormente, tal ligação era feita pelo Caminho da Barra, que se estendia desde a Igreja Matriz até a praia, junto ao bairro do Boqueirão. A construção da nova via derivou das alterações pelas quais a cidade se submetia em face de seu desenvolvimento:
A Avenida Conselheiro Nébias participou ativamente não só do processo de desenvolvimento e expansão da cidade em direção a porção sul da ilha como também da primeira fase de expansão da cidade para fora dos limites do centro, com a construção dos bairros Paquetá e Vila Nova nas cercanias da avenida, merecendo atenção especial da municipalidade nos dois momentos. Entretanto, verifica-se que na medida em que sua porção próxima ao porto deixou de verifica-ser ocupada pela elite, a área foi abandonada também pelo Poder Público. (MAZAVIEIRO, 2008, p. 34-35)
À época já se consolidava, também, a Vila Mathias (antigo Pasto das Vigárias), surgindo ali uma importante via em 1887, chamada de Ana Costa. Um comerciante de nome Gonzaga construiu um botequim e repouso no começo da praia ao fim de tal via, local que ganhou seu nome. Nos novos arrabaldes, Guilherme Álvaro apontou que predominante a ocorrência de impaludismo (malária) e, no ano da Proclamação da República, assim descreveu a cidade:
Em 1889, Santos, que havia se desenvolvido à revelia de quaisquer planos ou cuidados sanitários dos seus dirigentes, contava com
12 Engenheiro de Ferrovias
20.000 habitantes alojados em cerca de 2.000 casas, compreendidas as dos arrabaldes da Barra, Vila Mathias e Vila Macuco nascentes. A cidade ainda não possuía esgotos, tinha poucas ruas calçadas, quase todas mal niveladas e sem sarjetas capazes de promoverem o escoamento das águas pluviais, donde frequentes inundações nas épocas das chuvas.
A água do abastecimento público já era escassa, usando-se ainda os poços que criavam os pátios e quintais, ao lado das fossas latrinas. O aspecto de Santos era francamente colonial, do tipo o mais antiquado; a casaria em geral feia, baixa e desgraciosa bordava ruas estreitas, e os ribeiros dos primeiros tempos do povoado, o Macaia, o S. Bento, o S. Jerônimo, o do Carmo e o dos Soldados atravessavam a descoberto as zonas as mais centrais e populosas, recebendo impurezas de toda a sorte que as águas não tinham força de conduzir para o mar.
As praias sujas, negras, lodosas, desde o Valongo até o Paquetá, eram o repositório de quase todo o lixo da cidade, onde a limpeza pública, rudimentar, custava 38:000$000 anuais, permanecendo ali as imundícies à espera das maiores marés, que carregavam-nas para a correnteza consumidora do canal. (ÁLVARO, 1919)
Observa-se, pois, que por todo o período em que a escravidão foi um regime chancelado pelo Império, Santos era uma cidade de pequenas dimensões e insalubre. Este panorama começa a mudar com as obras sanitárias iniciadas em 1889, ao final feitas por Saturnino de Brito14, com canais de drenagem, sendo o primeiro inaugurado apenas em agosto de 1907.
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Inicialmente, em 1891, é contratado o engenheiro sanitário Estevan Fuertes para elaborar o
saneamento de Santos. “A situação sanitária chegara a tal ponto que o governo estadual foi impelido
Imagem 08: Excerto do mapa elaborado pela Comissão de Saneamento do Estado de São Paulo, em 1895, que destaca as propriedades, as linhas de bondes e o calçamento da cidade de Santos.
Disponível em: Blog Novo Milênio
O mapa é hábil a apontar a ocupação territorial havia à época, ainda entre o Valongo e o Outeiro, mais significativamente, mas já com expansão para o Paquetá e Vila Mathias.
1.1 Santos, seu porto e seu comércio
A vocação santista para o comércio é vetusta e o Porto de Santos já há muito se articulava dentro desse panorama.
Após esgotadas as minas de ouro em Minas Gerais, dá-se o incentivo ao desenvolvimento da cultura agrícola, mormente para a exportação. É nesse passo que em 1765 é autorizada a livre navegação, não mais se obrigando à observação estrita de rotas de que incluíam Portugal, amplificando-se, pois, a importância dos portos para a economia da colônia. Aquele situado em Santos, próximo geograficamente do planalto paulista, deu paulatino impulso à produção canavieira e à fixação, na cidade, de um comércio exportador de açúcar.
Entretanto, além de suas frágeis condições estruturais, restritivas à sua operação, tinha, ainda, de superar a dificuldade de comunicação com São Paulo – e seus espaços de produção:
A má conservação das estradas, os perigos da Serra do Mar e as más condições de travessia da Baixada Santista, prejudicaram de maneira extraordinária o comércio do açúcar, o grande comércio de açúcar que levou São Paulo, pelos menos o planalto paulista, a integra-se pela primeira vez nas correntes do comércio internacional. A estrada de Santos e suas articulações com o interior prejudicavam de maneira bastante sensível o comércio do primeiro produto paulista a ser requisitado pela economia mundial. [...] (PETRONE, [s.d.], p. 186-187).
Em 1790 iniciaram-se os trabalhos para a melhoria do Caminho do Mar, empreitada logo finalizada. O assentamento de pedras, estreito, conhecido como “Calçada do Lorena”, não possibilitava o trânsito de carroças, apenas de pessoas e de animais, mas tornou-se rota fundamental ao escoamento do açúcar que se tornara o produto de exportação por excelência e o sustentáculo econômico da Capitania de São Paulo. Outra via a sucedeu apenas 50 anos depois, a Estrada da Maioridade.
O aguardente, produzido em menor escalada, também foi um produto que encontrou saída para sua distribuição no porto de Santos:
A cidade de São Paulo, capital da capitania de mesmo nome, na primeira metade do século XIX possuía freguesias rurais que produziam cana-de-açúcar. Essa produção, contudo, tinha como alvo a fabricação de aguardente, que tanto atendia a demanda do mercado consumidor citadino, como escoava para o litoral, via Caminho do Mar, até a vila de Santos.
Na costa da capitania de São Paulo essa produção de aguardente era redistribuída no continente, via comércio de cabotagem, ou seguia para Portugal. (MOURA, 2012, p. 74)
Com tais implementos é certo que “[...] ao longo do último quartel do século XVIII até a terceira década do século XIX, a vila santista se torna um fundamental entreposto comercial na Província de São Paulo.” (CARLO, 2011, p. 92).
Conforme dados trazidos por Petroni, a partir de 1841 nota-se uma queda significativa da exportação de açúcar, aguardente e café pelo porto de Santos, causada pela ocorrência de uma geada, recuperando-se apenas entre 1843-1846, sendo que em 1845-1846 se registrou a maior exportação de açúcar pelo porto de Santos, à ordem de 548.742 arrobas e 20 libras de açúcar. A autora ainda esclarece:
ano já tinha, inclusive, importância no quadro geral das exportações brasileiras. A média anual de sua exportação, no qüinqüênio de 1844-1845 a 1848-1849, foi de 7 551 980 arrobas. (sic, s.d., p. 162)
Assim é que, em meados do século XIX, a exportação de café ultrapassou a exportação de açúcar pelo porto de Santos e nos idos de 1870 se observam grandes mudanças no comércio internacional com o aumento da produção de café que, então, se transformava na base econômica da Província. Santos e seu porto tornaram-se importantes componentes dessa nova engrenagem.
Até 1870 o porto contava com cerca de dez pontes que serviam de acesso às embarcações atracadas: Alfândega, Becco do Arsenal, Onze de Junho, Praia, Consulado15, Capella, Sal, Estrada de Ferro, Banca e do Bispo16.
Era um meio bastante precário para embarque e desembarque das mercadorias e de pessoas e, juntamente com os armazéns (trapiches) à beira d’água que recebiam e depositavam os bens negociados e os pontões, embarcações menores que transportavam para a terra as mercadorias dos navios que não conseguiam espaço para atracação, não foram capazes de suprir a crescente demanda de movimentação de produtos, mormente após a construção da São Paulo Railway17, em 1867, que ampliou o comércio entre o Planalto Paulista e o porto. Foram vários os percalços gerados pela falta de infra-estrutura:
[...] A partir de 1867, quando se inaugurou a primeira ligação ferroviária do litoral para o planalto, passando pela capital paulista, aquêle movimento de barcos tornou-se, então, bem maior, trazendo cada vez mais sérios problemas de movimentação de cargas, em virtude das precárias condições do porto. As embarcações de alto mar ficavam a mais de 100 metros de distância dos locais onde eram depositadas as mercadorias e ligadas aos velhos trapiches por pontes de madeira, por onde transitavam os escravos e outros trabalhadores do porto, transportando nas costas a maior das espécies de carga, além das já centenas e milhares de sacas de café descidas do planalto, anualmente.
Logo perceberam os administradores da Província as queixas dos negociantes sobre a precariedade das condições do porto, que, como os demais do País, não fora ainda organizado. As mercadorias
15
Junto ao Outeiro de Santa Catarina
16
Junto ao Valongo
17 “Seus objetivos eram claros. O café que descia, osprodutos e trabalhadores que subiam.”
se amontoavam às margens do estuário, da Praça da Alfândega ao Valongo, em pátios de terra, improvisados e exíguos, sofrendo as conseqüências de permanecerem ao relento, particularmente nos meses de verão, quando as chuvas aumentavam. Além do mais, as próprias autoridades sentiam-se impotentes para garantir aos proprietários as mercadorias desembarcadas, dado a uma verdadeira
“indústria da rapinagem” que se organizava em Santos, no sentido de
se apoderarem de partes do que era desembarcado nas praias do estuário, ou mesmo para a cobrança das tarifas alfandegárias, em virtude do caos em que ficavam as cargas de exportação e importação. (ARAÚJO FILHO, 1969, p. 68)
Imagem 09: Porto do Consulado em 1886, reprodução fotográfica de tela de Benedicto Calixto.
Acervo: Fundação Pinacoteca Benedicto Calixto. Disponível em: Blog Novo Milênio
Da imagem é possível observar as condições do porto, insuficientes para a movimentação das mercadorias frente, principalmente, à melhoria do transporte com o advento da estrada
de ferro, em 1867.
instalações no porto de Santos, no trecho compreendido entre a Rua Brás Cubas e o Valongo18. Em 2 de fevereiro de 1892 atracava, junto ao Valongo, o primeiro navio no novo porto que então encerrava 260m. A sua expansão inicial seguiu até 1909 quando o cais atingiu 4.720 metros. As obras do porto contribuíram, ainda, para o saneamento da cidade, pois foi necessário o aterramento das praias lodosas por onde se erguiam os pontões, mas deixaram descontentes os comerciantes locais, alijados nesse processo de expansão que acabou por direcionar o comércio portuário às mãos da Companhia Docas.
Anteriormente à construção da estrada de ferro em 1867, o café era transportado em lombo de burro, trazido por tropeiros que desciam a Serra do Mar. Com a São Paulo Railway, a remessa do café para Santos foi evidentemente facilitada, implementando, definitivamente, sua exportação através do porto. É diante desse cenário que a característica inicial de local de residência da elite santista detida pelo Valongo, que passava a contar com a estação da estrada de ferro, cede passo a um espaço eminentemente comercial. Mas não é só. Consolida-se a vocação da cidade, que se torna “praça de comercialização do café”19, além de se transformarem os seus espaços pelo desenvolvimento do tráfego portuário:
[...] Se, para atender a maior movimentação comercial, a construção
de “pontes” representa o primeiro (1857) equipamento do aparelho
portuário (articulado em terra a um armazém alfandegado – “trapiche” -, onde as mercadorias importadas ou para exportar ficavam guardadas), no entanto seria a inauguração da linha ferroviária da São Paulo Railway (1867), cuja estação no Valongo seria construída sobre os terrenos onde outrora existira o Convento de São Francisco, o investimento em infra-estrutura que marca o ponto de inflexão do desenvolvimento da cidade. Articulada pela ferrovia a um sempre mais vasto e rico território cafeeiro, a cidade transforma sua estrutura, muda sua imagem, sinalizando a importância das funções comerciais que ela passa a desempenhar. A ação reformadora teve início com a derrubada do Outeiro de Santa Catarina (1869, época em que o convento do Valongo já havia sido demolido para dar lugar às instalações ferroviárias) e seria
impulsionada pelas novas exigências “técnicas” (desconhecidas
antes da eclosão do café) em termos de armazéns, oficinas e
18Araújo Filho ressalta: “É digno de nota que os contratantes da construção do porto de Santos eram
todos brasileiros, iniciaram os trabalhos e os levaram a efeito com capitais exclusivamente nacionais, e com técnicas e chefe de serviços (D. Oscar Weinschenck), exclusivamente brasileiros. É de se notar também que, apesar do pequeno capital que possuíam, jamais o governo concorreu com um
centavo para tal obra.” (1969, p. 72).
depósitos: transformar-se-ia o espaço urbano, retificando o traçado (largo da Matriz, Largo e rua do Rosário, rua 15 de Novembro) e substituindo a arquitetura, inclusive religiosa (Matriz, Rosário, capela da Graça), por espaços e edifícios interessados à nova ordem social e econômica que se instaurava. O arruamento estendeu-se, desenvolvendo uma malha ortogonal mais regular, a leste, até o Paquetá, e a norte, até a altura do largo Sete de Setembro, no sopé da montanha, enquanto as ruas existentes começaram a ser alargadas, valorizando os terrenos marinhos até então aparentemente desprezados, como sugere o contraste entre a
anterior orientação das quadras, “de costas” para a praia, e a
localização de edifícios de consulados e hotéis nas áreas mais próximas da estação, particularmente naquela, compreendida entre a Rua Santo Antonio e a Rua da Praia, que ficaria conhecida como Quatro Cantos. (SALES, 1999, p. 127-128)
É nesse contexto de desenvolvimento que em 22 de junho de 1875, a Câmara de Santos, ao elaborar a resposta à solicitação feita pelo presidente da Província, traça o retrato de uma cidade que não possuía agricultura em seu território e cujos trabalhadores haviam se direcionado à intensa atividade comercial, a qual absorvia grande número de mão de obra e era considerada “mais fácil e vantajosa”:
a indústria agrícola é nula e mesmo em terrenos propícios que eram usados quando havia menos escassez de braços e estes não encontravam mais fácil e vantajosa aplicação no trabalho constante e crescente de uma cidade como Santos, cujo tráfico comercial é imenso e demanda o concurso de grande número de trabalhadores. Algumas famílias pobres que ainda vivem em sítios, quase todos situados à beira mar, não se aplicam à lavoura e mantêm-se apenas com o pouco que lhes produz a pesca. (apud Lanna, 1996, p. 44,45)
Imagem 10: Associação Comercial de Santos. Cartão Postal. Acervo: Laire José Giraud
Disponível em: Blog Novo Milênio
A entidade, fundada em 1870, teve, como seus primeiros presidentes, comissários de café.
Esta entidade, constituída em 1870, é a mais antiga agremiação paulista de classe e, embora de objetivos mais abrangentes, dedicou seus primeiros 50 anos,
preponderantemente, às atividades “[...] da importação e da exportação de café,
embora envolvesse esporadicamente também outros produtos como o algodão.” (PEREIRA, 1995, p. 10). Esse é o motivo pelo qual 12 dos 14 cidadãos que a presidiram nos inaugurais 50 anos eram comissários de café (Cf. PEREIRA, 1995, p. 11). Um, em particular, merece destaque: Antonio de Lacerda Franco (1885-1886), homem de vulto na cidade, que deu liberdade a uma outra personalidade que integra a História de Santos, Quintino de Lacerda.
que elas próprias realizassem os serviços necessários. A construção de pontes e armazéns e providências quanto ao transporte de mercadorias foram questões perseguidas pelos comerciantes e que contribuíram para a transformação do contorno da cidade:
Entre diversos problemas enfrentados nas práticas do comércio exterior, notou-se que a atuação desse grupo de comerciantes junto à administração municipal foi decisiva para que suas necessidades pudessem ser atendidas, fazendo com que esse tipo de comércio interviesse na transformação do centro comercial santista, ao necessitar de suportes materiais para que suas atividades se realizassem. (PEDRO, 2010, p. 40)
Além disso, representativo da importância dos negociantes no seio da sociedade santista, é o serviço consular, atividade por eles também assimilada. As funções consulares tanto implementavam o comércio praticado no local e que se espraiava além-mar, como tendiam ao atendimento de uma população imigrante que crescia. A relevância desses serviços pode ser constatada pelos mapas elaborados em Londres, em 1883. O conjunto de mapas (Imagens 14, 15, 16 e 17) traz a assinalação, como forma de informação, das localidades em que havia consulado britânico no Brasil. Ao todo podem ser apurados quatro consulados – no Grão Pará, em Pernambuco, no Rio de Janeiro e em Santos – e dez vice-consulados espalhados pelo país. Do excerto ora colacionado é visível a indicação das cidades do Rio de Janeiro e Santos20 como detentoras de Consulados Britânicos, o que revela, também, a importância e a projeção do porto de Santos:
20 Pedro indica que em 1887 Francis Hampshire de F. S. Hampshire & C. era o representante
Imagem 11: excerto de mapa da América do Sul de 1883, produzido por Letts, Son & Co Limited. Londres
Acervo de David Rumsey Map Collection – Cartography Associates
Há indicação da existência de Consulado Britânico nas cidades de Santos e do Rio de Janeiro. A demanda pelo órgão revela a intensa vida comercial em Santos e sua inserção no comércio
exterior.
1.2 A imprensa em Santos
Em Santos, vários foram os títulos publicados. Alguns de vida efêmera, muitos de verve altiva e tenaz em seus claros propósitos, fossem republicanos, monarquistas, de classe ou de clubes recreativos. Assim é que a imprensa compôs o cotidiano da cidade21.
Não é por outra razão que o Diário de Santos, fundado em 1872, foi fundamental para esta pesquisa. É necessário, porém, retroagir um pouco.
Em 2 de setembro de 1849 a cidade vê seu primeiro jornal publicado, intitulado Revista Commercial.
O periódico foi fundado por Guilherme Délius, um culto médico alemão, natural de Hamburgo. Não obstante as dificuldades do ofício, Délius conseguiu mantê-lo até 1865, quando o vende para Antonio Pereira dos Santos. O jornal é ainda vendido por mais duas vezes. Encerra-se após vinte e três anos de atividade, em 1872, nas mãos dos irmãos João Carlos e Jorge Elias Behn. De linha liberal, incorporara a luta pela abolição da escravidão, tendo feito publicar entre janeiro e março de 1851, em fragmentos sucessivos, o consagrado discurso proferido por José Bonifácio na constituinte de 1823.
Em 1872 surge, por seu turno, o Diário de Santos, republicano e longevo – durou por quarenta e seis anos, até 1918. Em 1879 dá início a uma incansável campanha abolicionista.
Ambos os periódicos tiveram grande importância na cidade. Mas não foram vozes solitárias. Outros houve entre 1849 e 1872, anos de nascimento da Revista Commercial e do Diário de Santos, em número indicativo de uma cidade inquieta: 1850: Mercantil e Nacional; 1851: Médico Popular e Precursor; 1853: Paranapiacaba (ou no ano de 1858, cf. TOLEDO, 1898, p. 382); 1855: Popular, Juventude e Clamor Público; 1857: Comercial; 1859: Itororó; 1860: Progresso; 1861: Civilisação; 1863: Caboclo; 1864: Santista; 1867: Lirio, Mercantil e Rabecão; 1869: Pirilampo, Correio de Santos, Commercio de Santos e 1870: Imprensa.
Posteriormente, novos títulos surgiram, observando-se uma notável expansão após 1884, ano em que ao menos nove22 jornais são lançados. Em 1885 podem ser apurados entre seis e sete títulos23, ao passo que em 1886 são seis24 e o ano de 188725 ultrapassa a média, com onze títulos. Finalizando o período da escravidão, em 1888, são apontados sete títulos26.
É uma época de campanha abolicionista e muitos jornais o encetam em suas páginas, como a Revista do Commercio e o Diário de Santos, este, mormente sob a redação do fulgurante Rubim Cezar, entra de modo virulento nesse movimento. São feitos, também, jornais manuscritos, que, dessa forma, buscavam anonimato. Nos idos de 1881 e 1883 surgem O Porvir, O Embrião, O Pirata, O Guarani, O Periquito e O Papagaio.
Em 1884 surge o Alvòr. Valis, ao se referir ao periódico, conta que “Os seus proprietários e redactores, todos empregados no commercio, eram moços de 15 a 18 annos e, além do jornal, tinham uma especie de sociedade secreta, onde se planejou e executou-se muitas fugas de escravos.” e “...constituiam a vanguarda do partido republicano de Santos...” (apud TOLEDO, 1898, p. 373), a revelar que se tratava de um jornal abolicionista e republicano, cujas palavras associaram-se à ação de homens ainda jovens. O Piratiny, em idênticos moldes e também republicano, com os mesmos proprietários e redatores27, o sucede.
Vinte e Sete de Setembro foi um periódico vinculado à Sociedade Emancipadora 27 de Fevereiro, entidade que, objeto do presente estudo, foi peça importante na ação de libertação dos escravizados. Note-se que a Sociedade utilizou-se de outro jornal para dar visibilidade às suas atividades e que era de grande inserção na sociedade santista, qual seja, o Diário de Santos, claramente afinado com suas pretensões de liberdade.
22O Alvòr
, O Apóro, Diário do Comércio, Escolar, Jornal de Annuncios, Jornal da Tarde, A Luta,
Tombo’a, O Furo e o Correio de Santos que, para Toledo, seria de 1885 (Cf. Toledo, 1898, p. 374)
23Correio de Santos (1884 ou 1885)
, O Collegial, O Piratiny, O Popular, Revista, O Typografo e
Santos Andaluzia.
24Dez de Outubro, Ensaio, Ideia Nova, O Pince-Nez, Vinte e Sete de Setembro e Gazetinha 25O Colibri
, O Bilontra, Flor de Maio, Imprensa, O Incolôr, O Reclame, A Villa da Redempção,
Santista, O Desfalque, A Procelária e Farpas
26O Lepdóptero tem seu nascedouro em 1882 para Toledo (p. 379) e em 1888 para Rodrigues. Os
demais são: Cidade de Santos, Diário da Tarde, Flora, Luz, Luiz Gama e Procéla
27 Guilherme Mello, Augusto de Carvalho, Arthur Andrade, Luciano Nogueira, Joaquim Montenegro,
Vila da Redempção (1887), outra folha libertária, foi uma publicação feita em homenagem a José Bonifácio de Andrada e Silva e tomou para si o nome que se atribuíra ao Quilombo do Jabaquara. Sua destinação era tão-somente a propaganda abolicionista, não obstante tenha se declarado republicano, encerrando-se ao fim da escravidão.
Luiz Gama, folha distribuída em 21 de maio de 1888 pelo clube com idêntico nome, de cunho cívico-social, destinou-se à comemoração da derradeira libertação e em seu primeiro número trouxe estampado um artigo de Rubim Cezar, jornalista e advogado, consagrado abolicionista.
CAPÍTULO II –SANTOS E SUA LIBERDADE. A CÂMARA E A ESCRAVIDÃO. UMA LEI?
A cidade de Santos fez-se contrária à escravidão. Não obstante a ausência da adesão absoluta, a cidade viu a ação de muitos cidadãos que se dispuseram à libertação de vários escravos e que deram abrigo àqueles fugidos em suas terras já conhecidas pelo seu franco acolhimento. Rigorosamente, foi uma movimentação popular, inexistindo qualquer lei municipal que desse cabo à servidão humana.
A tarefa, de aparência inglória, trazia ainda os inúmeros riscos que lhe eram inerentes, em face da ruptura com um sistema legal, coercitivo, pois; e amparado, assim, por todo o poder estatal.
Não se pode perder de vista que um forte interesse privado se impunha, diante da condição jurídica de res do escravo. Ensina o Direito Romano que o escravo era desprovido de qualquer traço de personalidade, enquadrando na categoria de coisa: Servus est res. Assim é que se consubstanciava, o escravo, em propriedade alheia e o seu senhor sobre ele detinha absoluto domínio:
Do mesmo modo que as coisas, o escravo pode ser objeto de propriedade, pode ser vendido e, mesmo, destruído. O servus
pertence ao dominus, que sobre ele exerce o mais absoluto dominium.
Dominica potestas é a relação jurídica, que liga o dominus ao servus, acentuando a subordinação deste àquele. (CRETELLA JÚNIOR, 1987, p. 91)
Perdigão Malheiro28 acentuou tais características legais, afirmando que o
escravo “[...] é havido por morto, privado de todos os direitos, e não tem
representação alguma [...]” (1976, p. 35).
28
Dessa propriedade escrava se auferiam lucros, quer fosse pelo seu comércio em si, ou seja, por sua venda e compra, quer fosse pelo trabalho humano que dali se retirava gratuitamente sob as várias formas de coação impostas. Era, pois, uma mercadoria valiosa.
O “Livro de Escrituras de Compras e Vendas de Escravos” do 1º Cartório de Santos é uma mostra desse comércio. Elaborado entre março de 1879 e janeiro de 1884 registra o comércio de algumas almas e seus negociantes (excerto no Anexo I).
Em aproximadamente 52 meses houve 64 transações ali registradas. A maioria se referiu a apenas um escravo, demonstrando que a cidade não possuía um significativo comércio de cativos. O comprador de maior vulto – Francisco Pinto da Silva - negociou 10 escravos.
Ainda nesse sentido, além do lucro auferido pela venda e compra, sequer a libertação do escravo restava incólume a uma contraprestação. Importa salientar, no particular, a constatação trazida por Cunha, de que “Apesar de José Bonifácio propor que o direito de o escravo comprar sua alforria entrasse na letra da lei desde 1823, isso não se deu até a Lei do Ventre Livre, isto é, 1871, e novamente sob os
protestos dos senhores.” (2012, p. 71), sendo, anteriormente, como esclarece a
autora, um direito apenas costumeiro29. Esta tese é ratificada por Slenes ao indicar que “The right of a bondsman to amass a pecúlio (savings) was part of Roman Law and was recognized by custom in Brazil, although it was not given explicit status in the laws of the country until 1871.”30 (1975, p. 508).
A compra pelo escravo de sua própria liberdade, um direito tardio, ainda implicava em benefícios econômicos para o senhor, fosse concedida gratuitamente ou submetida a condições:
[...] To be sure, freedom granted unconditionally, as a gift, might provide indirect economic benefits to the master by encouraging
29
A letra da lei que carreou ao mundo jurídico a alforria: Lei nº 2040, de 28 de setembro de 1871,
artigo 4º, parágrafo 2º: “O escravo que, por meio de seu peculio, obtiver meios para indemnização de seu valor, tem direito a alforria. Se a indemnização não fôr fixada por acordo, o será por arbitramento.
Nas vendas judiciaes ou nos inventarios o preço da alforria será o da avaliação.” 30
Livre tradução da autora: O direito do escravizado a acumular o pecúlio (economias) era parte do direito Romano e foi reconhecido pelo costume no Brasil, embora não tenha sido concedido