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PARTE I O CRÉDITO NO SETECENTOS

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Academic year: 2021

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Sumário

Prefácio 7

Gail D. Triner

Apresentação 10

Carlos Gabriel Guimarães e Luiz Fernando Saraiva

PARTE I – O CRÉDITO NO SETECENTOS Até que a confiança nos separe: as redes transimperiais e o mercado de crédito do Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII 18

Fábio Pesavento

Práticas creditícias e o cofre dos órfãos

na vila de Curitiba (1780-1810) 56

Tiago Gil

PARTE II – O CRÉDITO NO OITOCENTOS Pequeños acreedores de grandes deudores: clientes y acreedores de las casas bancarias

cariocas en la quiebra de 1864 86

Carlos Eduardo Valencia Villa

Temprana globalizacion y despegue

de la banca en Latino America, 1850-1873 122

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Parentes e credores: endividamento e variação do patrimônio de um senhor de engenho em Campos dos Goytacazes

(1797-1833) 157

Márcio Soares

Crédito e tráfico: ingleses e americanos

no negócio de escravos 191

Marcia Naomi Kuniochi

A curta vida do primeiro banco da província de Minas Gerais: o processo de falência do

Banco Territorial e Mercantil de Minas 223

Rita de Cássia da Silva Almico

Crédito institucional no século XIX: bancos e

tomadores em Campos dos Goytacazes 253

Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira

“Pertence à liberta Firmina, 09 de maio de 1888”: relações de crédito na transição do trabalho escravo para o livre em uma região cafeeira –

Zona da Mata mineira 282

Luiz Fernando Saraiva e Jonis Freire

PARTE III – O CRÉDITO NA REPÚBLICA BRASILEIRA

Títulos ao portador e investimento empresarial

nas primeiras décadas republicanas 318

Teresa Cristina de Novaes Marques

Dinâmica dos financiamentos: escrituras de

empréstimos paulistanas (1912-1928) 359

Renato Leite Marcondes

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Prefácio

O livro Crédito & descrédito: relações sociais de

emprés-timos na América – séculos XVIII ao XX oferece uma

con-tribuição forte à historiografia financeira do Brasil e da América Latina. Os autores dos capítulos respondem per-guntas importantes com metodologias e conclusões ino-vadoras. A historiografia econômica brasileira exibe duas trajetórias: examinar a micro ou macroeconomia, exclu-sivamente, ou enfatizar os sucessos e fracassos da econo-mia. Aqui se encontra uma análise bem mais detalhada.

Os mecanismos das finanças sempre ficam ao cen-tro da história econômica e integram todas as partes da sociedade. De qualquer forma e com quaisquer atores, a função das finanças é a intermediação entre os que pou-pam (quer dizer investidores) e os que gastam para consu-mir, produzir ou inovar. No sistema financeiro, as caracte-rísticas que distinguem várias transações incluem os valo-res e mecanismos das intermediações, os riscos e as regras que governam as transferências. Sem embargo, a teoria financeira e a experiência histórica enfatizam algumas considerações em comum. Cada transação financeira, de qualquer tamanho ou com qualquer ator, contribui para as redes econômicas mais densas e amplas, seja a globa-lização, a promoção da industrialização ou das expor-tações, ou o comércio local. Também os resultados dos recursos transferidos determinam os efeitos econômicos da intermediação financeira. Simplesmente, os devedores podem gastar ou podem investir num emprego produtivo.

No Brasil, o estudo do sistema financeiro antes do sistema moderno, com instituições formais, tem dimi-nuído com razão. Os analistas têm considerado o século XIX como uma época de pouco interesse. As pesquisas da época são onerosas e as ligações entre vários setores não são óbvias. Crédito & descrédito: relações sociais de empréstimos

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Na maioria dos casos, os historiadores do Brasil estudam bancos e bolsas de valores. Este livro abre o campo à maio-ria dos atores financeiros e a uma variedade impressio-nante de situações da intermediação. Todas as funções bancárias formais são representadas ao longo do século XIX: a emissão de moeda, respondendo aos requisitos do governo, crédito comercial e investimentos. Sem dúvida, as finanças brasileiras do século XIX são globalizadas, com pelo menos uma casa bancária multinacional, o comércio internacional sofisticado, e a dívida soberana. Porém, às vezes, comerciantes estrangeiros desenvolveram um papel interessante no fim do tráfico negreiro, definindo a liga-ção entre as condições financeiras e sociais.

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prazo na forma de debêntures ao portador; mesmo que se encontrem dificuldades por causa das instituições (regu-lações e práticas) a tentativa revela um dinamismo pouco conhecido.

Crédito & descrédito: relações sociais de empréstimos na América – séculos XVIII ao XX apresenta as

contribui-ções dos historiadores num campo em que predominam os economistas. As fontes são um pouco idiossincráticas. Na maioria, os registros, inventários, balancetes e contra-tos não mostram as transações de forma consistente. Os pesquisadores precisam a proficiência com os documen-tos para produzir uma interpretação analítica, em vez de construir uma base de dados de análise econométrica. Como demonstram os ensaios do livro, a maioria das restrições tem característica institucional. Os historiado-res podem interrogar o que não passa: a falta de regras, instituições e de credores que restringem a inovação e a expansão financeira em declarações e procedimentos.

Em suma, este livro expande o que se sabe sobre finanças, economia e vida social do Brasil. Também abre a agenda de pesquisas para um campo ainda mais histórico: como se utilizam as dívidas? Quais são os impedimentos da evolução patrimonial? E, quando mudam as institui-ções, quais são as influências mais importantes? Uma medida de avaliação do bom livro deve ser a vontade que suscita de se aprender ainda mais. E, neste sentido, tem êxito enorme Crédito & descrédito: relações sociais de

emprésti-mos na América – séculos XVIII ao XX.

Gail D. Triner

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Apresentação

Do latim creditu, a palavra crédito significa confiança, o que em termos econômicos e financeiros é uma “tran-sação comercial em que um comprador recebe imediata-mente um bem ou serviço adquirido, mas só fará o

paga-mento depois de algum tempo determinado”.1

O pagar à vista ou a crédito uma transação comer-cial e financeira constitui-se numa das questões mais importantes sobre a dinâmica da economia e da socie-dade brasileira, como também da latino-americana. Embora visto por Marx como capital fictício, o crédito e sua relevância ganham importância quando se discute, por exemplo, o atraso econômico latino-americano, quando comparado com as outras regiões do Atlântico, como a Europa Ocidental e os Estados Unidos da América.

Constituindo-se numa coletânea de textos de pro-fessores e pesquisadores brasileiros, colombiano e mexi-cano, o livro Crédito & descrédito: relações sociais de empréstimos

na América – séculos XVIII ao XX objetiva principalmente

divulgar a produção acadêmica latino-americana relacio-nada à história econômica e social do crédito. Oriundo de um seminário sobre o crédito, em 2013, e de um workshop em 2014, organizado pelo Laboratório de História Econô-mica, Quantitativa e Social – HEQUS, do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense, o livro está dividido em três partes, que seguem a ordem crono-lógica dos séculos XVIII ao XX, e apresenta ao leitor uma diversidade teórica e metodológica acerca do crédito

ins-titucionalizado ou não, abarcando desde uma abordagem

mais estrutural até a micro-história, como também a his-tória de empresas e georreferencimento.

Na primeira parte do livro – O crédito no Setecen-tos – apresentam-se dois texSetecen-tos: o primeiro, “Até que a

con-1 SANDRONI, Paulo. Dicionário de Economia. 2. ed. São Paulo: Best Seller,

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fiança nos separe: as redes transimperiais e o mercado de crédito do Rio de Janeiro durante a segunda metade do século XVIII”, de Fábio Pesavento, analisa uma especifici-dade do mercado da ciespecifici-dade do Rio de Janeiro pós-1750, numa conjuntura difícil em face do declínio da minera-ção e de escassez da moeda, as redes transimperiais de crédito. Através da documentação cartorial, principalmente por meio das procurações encontradas no Rio de Janeiro, Lis-boa e Liverpool, o autor analisou a rede de negócios que envolvia os negociantes de grosso trato cariocas e suas relações com outros negociantes no interior do Império português, como Lisboa, e também fora, como Liverpool, que possibilitou dinamizar o comércio carioca. Impor-tante ressaltar que tais redes expressaram muito bem a sociedade da época, fortemente marcada pela hierarquia social. O segundo texto – “Práticas creditícias e o cofre dos órfãos na vila de Curitiba (1780-1810)”, de Tiago Gil, analisa a importância do crédito do cofre de órfãos para a economia e enriquecimento da vila de Curitiba. Impor-tante vila situada na passagem das tropas de boiada, mulas e muares do Sul em direção à feira de Sorocaba (SP), no Setecentos, Curitiba representou importante papel nesta economia mercantil e escravista regional, e sua elite eco-nômica teve no cofre de órfãos uma instituição muito importante para o negócio do crédito. Com uma docu-mentação variada, desde procurações, inventários, até listas nominativas, o autor pode reconstruir, através da micro-história, a trajetória de importantes personagens, bem como suas redes de negócios e de sociabilidade.

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Utilizando uma documentação diversificada, como inven-tários post mortem, livros de casamentos de livres, livros de batizados de livres e escravos e outros, reconstituiu-se a trajetória do guarda-mor da Alfândega do Rio de Janeiro e senhor de engenho, Vicente Torres Homem, e das suas estratégias, particularmente através dos casamentos, para se manter na “elite agrária” e com crédito nos Campos dos Goytacazes, região de expansão açucareira e escra-vista do Baixo Paraíba. O quarto texto, “Crédito e tráfico: ingleses e americanos no negócio de escravos”, de Marcia Naomi Kuniochi, pretende compreender a relação comer-cial e creditícia entre as firmas de comerciantes ingleses e norte-americanos no Brasil com os traficantes de escravos no país, na década de 1840. Numa conjuntura de pressão inglesa contra o fim do tráfico negreiro, que culminou no

Bill Aberdeen, de 1846, e da Política Nacional da Escravidão

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reforma, que fez surgir o sistema bancário e financeiro atrelado ao complexo cafeeiro regional, teve no Banco Territorial, mesmo com uma “vida curta”, importância para o crescimento econômico e financeiro da região. O sexto texto, “Crédito institucional no século XIX: ban-cos e tomadores em Campos dos Goytacazes”, de Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira, analisa a dinâmica do crédito e do descrédito na cidade de Campos dos Goy-tacazes, entre 1863 e 1888, a partir da atuação de duas instituições, o Banco de Campos e o Banco Comercial e Hipotecário de Campos. Utilizando-se a documenta-ção oficial, Legisladocumenta-ção e Relatórios Ministeriais, o jornal

Monitor Campista, que publicou os balanços dos bancos, é

ressaltada a importância do crédito bancário, principal-mente no desconto de letras, para a atividade mercantil e produtiva da região, O último texto, “‘Pertence à Liberta Firmina, 09 de maio de 1888’: relações de crédito na tran-sição do trabalho escravo para o livre em uma região cafeeira – Zona da Mata mineira”, de Jonis Freire e Luiz Fernando Saraiva, busca analisar, a partir da documenta-ção original encontrada das 11 Cadernetas, na fazenda da Boa Esperança, a relação creditícia entre o senhor/fazen-deiro, os libertos e os imigrantes no período pós-Abolição na região cafeeira da Zona da Mata mineira, os autores pretendem compreender a relação de dominação da mão de obra na “transição” do trabalho escravo para o livre, destacando o papel do crédito e de suas várias modalida-des para o controle do trabalho na lavoura cafeeira, ques-tionando determinada historiografia que destaca o papel do controle da terra, o Cativeiro da Terra, pelo senhor/ fazendeiro como a forma preponderante de dominação sobre a mão de obra.

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Repú-blica brasileira, através das ações, títulos ao portador e títulos da dívida pública. Mediante uma documentação extensa, tais como relatórios oficiais, a legislação, livros das apólices da dívida pública e documentos de empre-sas, principalmente da Cervejaria Brahma, no Acervo da Brahma e na Junta Comercial do Rio de Janeiro, busca compreender, por exemplo, como a referida empresa lançou mão de debêntures para a sua capitalização e da emissão de títulos garantidos por hipotecas de ativos reais para a sua expansão. Por fim, temos o texto “Dinâmica dos financiamentos: escrituras de empréstimos paulista-nas (1912-1928)”, de Renato Leite Marcondes, que analisa o crédito não bancário em São Paulo, no período de 1912 a 1928. Através das informações das escrituras de emprés-timos paulistanas – hipotecas, penhores, debêntures e outras – , na sua maioria transacionadas fora das institui-ções bancárias, e colhidas principalmente na “Repartição de Estatística e Archivo do Estado de São Paulo”, o autor ressalta a importância do crédito não institucional para a economia paulista antes da Crise de 1929 e a débâcle do complexo cafeeiro paulista.

Carlos Gabriel Guimarães

Professor associado IV do Departamento de História da UFF Pesquisador 1D do CNPq

Luiz Fernando Saraiva

Referências

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