EXECUÇÃO PENAL
Resumo Escrito – Parte I
EXECUÇÃO PENAL
Olá, futuras e futuros Defensores Públicos do Estado da Paraíba. A matéria de Execução Penal tem uma grande importância para esta prova da DPE/PB, considerando que estará presente na prova objetiva, subjetiva e oral.
E olha, além de ser uma matéria boa de estudar, porque requer um conteúdo específico e crítico, podemos dizer que sua grade é relativamente pequena. Portanto, meus amigos e minhas amigas, será um prazer percorrer com vocês as nuances sobre os pontos deste edital, dando enfoque para o perfil da banca FCC, a qual conhecemos bem.
Trabalharemos Execução Penal através de três resumos escritos. Trataremos de doutrina, lei, questões atuais e jurisprudência indispensável para sua prova. Não tenho dúvidas de que esses materiais te darão base para chegar seguro(a) nesta prova da DPE/PB.
Força, pessoal. Tudo vai dar certo. Que esse ano de 2022 seja um ano de muitas aprovações, e até mesmo posse, não é mesmo? :D
Os dias de glória estão cada vez mais pertos.
Até mais.
Um grande abraço.
Coordenação.
8. Execução penal: evolução histórica, crise e alternativas. Natureza da execução penal. Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/84). Objetivos da execução penal. Execução penal e economia política da pena. Execução penal, encarceramento em massa e dano social.
Neste concurso para Defensor Público do Estado da Paraíba, assim como na DPE/BA (2021), a disciplina de Execução Penal está dentro de Direito Processual Penal. Isso não quer dizer que ela seja menos importante. Ao contrário, ela é uma matéria que vale muito à pena, considerando que o conteúdo não é tão extenso, e a quantidade de questões em prova costuma ser boa! Além disso, ela te acompanhará nas demais fases do concurso.
:D
Vamos nessa?
EVOLUÇÃO HISTÓRICA
A doutrina estabelece que a evolução histórica da Execução Penal mantém íntima relação com a história e com a criminologia.
Erick Maia1 destaca que uma classificação possível é a de que a punição passou pelo (i) período da vingança privada; (ii) período da vingança divina; (iii) período da vingança pública e (iv) período contemporâneo.
Nesse sentido o autor:
O período da vingança privada
O período da vingança privada foi marcado pela autotutela, pela lei do mais forte. Nesse período, o Código de Hamurabi e sua lei de talião podem ser vistos como avanços, pois trouxeram a ideia de proporcionalidade. Esse ponto foi objeto de cobrança na prova oral do VIII concurso da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, no final de 2019.
O período da vingança divina
O período da vingança divina foi marcado pela punição aplicada pelos sacerdotes. A religião era a principal forma de controle social, e a classe eclesiástica era tida como representante da divindade.
Período da vingança pública
O período da vingança pública foi marcado pela punição aplicada pelo soberano, dito representante divino na Terra. A punição era uma demonstração da força do monarca.
Como demonstra Foucault: “o suplício deve ser ostentoso, deve ser constatado por todos, um pouco como seu triunfo. O próprio excesso das violências cometidas é uma das peças de sua glória, não é algo de acessório ou vergonhoso, mas é o próprio cerimonial da justiça que se manifesta em sua força. O suplício penal não corresponde a qualquer punição corporal: é uma produção diferenciada de sofrimentos, um ritual organizado para a marcação das vítimas e a manifestação do poder que pune: não é absolutamente a exasperação de uma justiça que, esquecendo seus princípios, perdesse todo o controle. Nos ‘excessos’ dos suplícios se investe toda a economia do poder”5 .
Período contemporâneo
O período contemporâneo é marcado, como defende Foucault, por uma “sociedade disciplinar”. A formação da sociedade disciplinar remete ao final do século XVIII e início do século XIX. A prisão não pertence ao projeto teórico da reforma da penalidade do século XVIII. Surge no início do século XIX, como uma instituição de fato, quase sem justificação teórica. Toda a penalidade do século XIX passa a ser um controle. Emergiu a noção de periculosidade, o indivíduo considerado pelo nível de suas virtualidades e não pelo nível de seus atos. Essa espécie de controle penal punitivo não é efetuada exclusivamente pela Justiça, mas por uma série de outros poderes laterais, como a polícia e uma rede de instituições de vigilância e correção. A função não é mais punir, mas corrigir. É a era da ortopedia social. A idade do controle social.
1 Execução penal e criminologia / Erick de Figueiredo Maia ; coordenado por Marcos Vinícius Manso Lopes Gomes. - São Paulo : Saraiva Educação, 2021. (Defensoria pública – ponto a ponto).
CRISE E ALTERNATIVAS
A FCC costuma trazer esse ponto em seus editais, e com a DPE/PB não foi diferente. Apesar de abstrato, o ponto “crise e alternativas” sobre a Execução Penal exige do candidato conteúdo crítico sobre as atuais prisões no Brasil.
O Defensor Público do Rio de Janeiro Erick Maia, parafraseando Darcy Ribeiro, destacou: a crise da prisão no Brasil (e no mundo) não é uma crise; é um projeto. Abaixo, alguns dos inúmeros argumentos sobre a temática apontados pelo Defensor:
“É evidente que a prisão não cumpre suas funções declaradas: não ressocializa, assim como o encarceramento em massa não reduz as estatísticas oficiais de criminalidade. E, a partir dessas “evidências”, a dita crise se revela: a prisão é vista como algo inevitável, e ao mesmo tempo é vista como algo que não funciona.
Estudo inédito da Defensoria Pública do Rio10 mostra que o fator racial ainda tem impacto significativo nas prisões em flagrante. Dos 23.497 homens e mulheres conduzidos a audiências de custódia de setembro de 2017 a setembro de 2019 ouvidos pela instituição, cerca de 80% declararam-se pretos ou pardos. O grupo também tem mais dificuldade para obter liberdade provisória (27,4% contra 30,8%
de brancos) e sofre mais agressões (40% ante 34,5% de brancos). A pesquisa revela ainda que apenas uma em cada três pessoas consegue liberdade provisória ou relaxamento da prisão. Mais de 80% dos casos analisados foram presos sob acusação de furto, roubo ou com base na Lei de Drogas. Segundo Caroline Tassara, coordenadora do Núcleo de Audiências de Custódia da Defensoria: “a pesquisa traz dados riquíssimos que permitem identificar, a partir da análise de mais de 23 mil casos, quem são as pessoas presas em flagrante no estado do Rio de Janeiro e denunciar a inegável seletividade do sistema penal”. 2
NATUREZA JURÍDICA DA EXECUÇÃO PENAL
Bem, nesse primeiro momento, precisamos fazer o seguinte questionamento: a execução penal tem natureza jurídica jurisdicional ou administrativa? Porque perceba que há diversos atos praticados pelo diretor do estabelecimento, por exemplo, e outros praticados pelo magistrado. E agora?
Sobre o tema, pontua Rodrigo Roig, Defensor Público do Estado do RJ:
(...) Sobre a natureza da execução penal, desenvolveu-se inicialmente a compreensão de que aquela possuía caráter administrativo, ideia esta fundada na doutrina política de Montesquieu sobre a separação dos poderes. Ao longo do tempo, tal concepção perdeu força, sobretudo após a tendência jurisdicionalizante inaugurada após a Segunda Guerra.
Em nosso país, esta concepção não mais encontra guarida na doutrina. Minoritariamente em defesa do caráter administrativo da execução penal, Adhemar Raymundo da Silva observava que “cessada a atividade do Estado-jurisdição com a sentença final, começa a do Estado-administração com a execução penal”.3 (GRIFOS NOSSOS).
O autor lembra que nos dias atuais há duas principais correntes: 1) natureza mista (jurisdicional/administrativa) e 2) jurisdicional.
2 Execução penal e criminologia / Erick de Figueiredo Maia ; coordenado por Marcos Vinícius Manso Lopes Gomes. - São Paulo : Saraiva Educação, 2021. (Defensoria pública – ponto a ponto).
3 Execução penal: teoria crítica/Rodrigo Duque Estrada Roig. – 4. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2018, p. 55.
(...) Nos dias atuais, a doutrina se divide basicamente em duas correntes. Afirma-se, por um lado, que a execução penal possui natureza mista, uma vez que embora os incidentes do processo se desenvolvam em âmbito judicial, diversos aspectos da execução dependem de atuação administrativa, sobretudo da direção, chefia de disciplina e secretaria dos estabelecimentos penais. Nesse sentido, destaca-se a assertiva de Ada Pellegrini Grinover: “não se nega que a execução penal é atividade complexa, que se desenvolve entrosadamente nos planos jurisdicional e administrativo. Nem se desconhece que dessa atividade participam dois Poderes estatais: o Judiciário e o Executivo.4 (GRIFOS NOSSOS).
No entanto, Roig é enfático ao lembrar que a existência de atividades de cunho administrativo no curso da execução da pena não desnatura sua natureza jurisdicional, assim como atividades de cunho administrativo não afastam a natureza jurisdicional do processo de conhecimento5.
CAIU NA DPE-MG-2019-FUNDEP: “É mista ou complexa a natureza jurídica da execução penal, por envolver atividade jurisdicional e administrativa, prevalecendo a primeira, conforme sustenta parte da doutrina”.6
PROVA ORAL DPE-MG-2019-FUNDEP: Fale sobre o princípio da complexidade na execução penal.7
APROFUNDA RDP: PRIVATIZAÇÃO DOS PRESÍDIOS: Devemos criticar duramente a ideia de privatização de presídios.
Não se pode aceitar a mercantilização do sofrimento. A execução penal tem caráter jurisdicional, e transferir o poder de executar penas a pessoas jurídicas de direito privado (que inegavelmente objetivam o lucro) é um grande absurdo. Portanto, seja qual for a modalidade de privatização (PPP, co-gestão, etc.), o candidato deverá apresentar algumas das críticas (ex: transferência de poder punitivo a particulares; mercantilização da execução penal; não interesse em que o preso progrida para o regime aberto, tendo em vista que a empresa lucra pelo número de pessoas encarceradas), etc. É bom lembrar que Joe Biden, atual presidente dos Estados Unidos, “mudou quatro pilares do governo americano com quatro decretos. O primeiro determina que o Departamento de Habitação implemente políticas não discriminatórias; o segundo ordena a eliminação dos presídios privados; outro aumenta a soberania das tribos nativo-americanas; e o último pede o combate à xenofobia contra americanos de origem asiática”.8
Em Minas Gerais, por exemplo, o MPT já ajuizou Ação Civil Pública por considerar ilícita a terceirização de funções integrantes do sistema prisional, no caso do presídio de Ribeirão das Neves.
De acordo com o Procurador do Trabalho Geraldo Emediato de Souza, entre os postos de trabalho terceirizados estão atividades relacionadas com custódia, guarda, assistência material, jurídica e à saúde.
4 Execução penal: teoria crítica/Rodrigo Duque Estrada Roig. – 4. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2018, p. 55.
5 Execução penal: teoria crítica/Rodrigo Duque Estrada Roig. – 4. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2018, p. 55/56.
6 CORRETO. Ou seja, embora mista/complexa (administrativa e jurisdicional), prevalece a esfera jurisdicional.
7 Excelência, sobre a natureza da execução penal, desenvolveu-se inicialmente a compreensão de que aquela possuía caráter administrativo, ideia esta fundada na doutrina política de Montesquieu sobre a separação dos poderes. Ao longo do tempo, tal concepção perdeu força, sobretudo após a tendência jurisdicionalizante inaugurada após a Segunda Guerra. Em nosso país, esta concepção não mais encontra guarida na doutrina. Nos dias atuais, a doutrina se divide basicamente em duas correntes: a) natureza mista (complexa) e b) jurisdicional. Afirma-se, por um lado, que a execução penal possui natureza mista, uma vez que embora os incidentes do processo se desenvolvam em âmbito judicial, diversos aspectos da execução dependem de atuação administrativa, sobretudo da direção, chefia de disciplina e secretaria dos estabelecimentos penais. Parte da doutrina afirma que “não se nega que a execução penal é atividade complexa, que se desenvolve entrosadamente nos planos jurisdicional e administrativo. Nem se desconhece que dessa atividade participam dois Poderes estatais: o Judiciário e o Executivo”. No entanto, não é demais reforçar que parcela da doutrina, a exemplo de Rodrigo Roig, sustenta que a existência de atividades de cunho administrativo no curso da execução da pena não desnatura sua natureza jurisdicional, assim como atividades de cunho administrativo não afastam a natureza jurisdicional do processo de conhecimento.
8 Disponível em: https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2021/01/26/biden-assina-ordens-executivas-para-combater-o-racismo-nos- estados-unidos.ghtml. Acesso: 26/05/2021.
“Além de ser uma medida extremamente onerosa para os cofres públicos, poderá dar azo a abusos sem precedentes”, frisa o procurador. Na ação, proposta em 2011, Emediato classifica a privatização de prisões como inaceitável, tanto do ponto de vista ético como moral: “Numa sociedade democrática, a privação da liberdade é a maior demonstração de poder do Estado sobre seus cidadãos. Licitar prisões é o mesmo que oferecer o controle da vida de homens e mulheres para quem der o menor preço, como se o Estado tivesse o direito de dispor dessas vidas como bem lhe aprouvesse”.9
Dando continuidade, está expresso em nosso edital da DPE-PB ponto sobre os objetivos da execução penal.
Sobre o tema, veja o que diz o art. 1º da LEP (Lei de Execução Penal):
Art. 1º A execução penal tem por objetivo efetivar as disposições de sentença ou decisão criminal e proporcionar condições para a harmônica integração social do condenado e do internado.
Contudo, em provas de Defensoria esse ponto deve ser lido de maneira crítica.
Por isso, peço que enxerguem a execução penal em uma perspectiva redutora de danos. Essa perspectiva redutora de danos é MUITO trabalhada no livro do professor Roig, adotado por diversos examinadores da Defensoria, considerando que ele é um grande crítico desta área no Brasil (ele também é Defensor Público). Em síntese, enxergue o cumprimento de uma pena sempre com o viés redutor dos danos. Assim, não se pode aceitar que o apenado sofra além do que já lhe é possível em razão de uma pena aplicada.
Sob as ideias trazidas pela teoria da prevenção especial positiva, a pena tem finalidade de “ressocialização”, embora essa expressão também seja criticada (inclusive, conforme abordado acima, não recomendamos utilizá-la em provas discursivas e orais, pois no cárcere não há como (re)ssocializar alguém que nunca teve condições mínimas para se educar); o Estado não ofereceu políticas públicas efetivas, tais como educação de qualidade, moradia, lazer, saúde, etc. O Estado não oferece educação de qualidade fora dos estabelecimentos prisionais, que dirá dentro deles. Por isso alguns examinadores criticam a expressão “ressocializar”).
Não é demais relembrarmos que na ADPF-347 (tão cara aos estudos para Defensoria Pública) o STF reconheceu que o sistema penitenciário brasileiro vive hoje o que se chamou de “Estado de Coisas Inconstitucional”10, considerando a existência de quadro generalizado e sistêmico de violação aos direitos fundamentais das pessoas presas:
“O Estado de Coisas Inconstitucional ocorre quando se verifica a existência de um quadro de violação generalizada e sistêmica de direitos fundamentais, causado pela inércia ou incapacidade reiterada e persistente das autoridades públicas em modificar a conjuntura, de modo que apenas transformações estruturais da atuação do Poder Público e a atuação de uma pluralidade de autoridades podem modificar a situação inconstitucional. O STF reconheceu que o sistema penitenciário brasileiro vive um "Estado de Coisas Inconstitucional", com uma violação generalizada de direitos fundamentais dos presos.
As penas privativas de liberdade aplicadas nos presídios acabam sendo penas cruéis e desumanas. Vale ressaltar que a responsabilidade por essa situação deve ser atribuída aos três Poderes (Legislativo, Executivo e Judiciário), tanto da União como dos Estados- Membros e do Distrito Federal. A ausência de medidas legislativas, administrativas e orçamentárias eficazes representa uma verdadeira "falha estrutural" que gera ofensa aos
9 Disponível em: http://www.sindcop.org.br/blog/ler?link=ppp-em-presidio-de-ribeirao-das-neves-e-“ilicita”-segundo-ministerio-publico- do-trabalho-de-minas-gerais. Acesso em: 26/01/2021.
10 Segundo Márcio do Dizer o Direito, a ideia de que pode existir um Estado de Coisas Inconstitucional e que a Suprema Corte do país pode atuar para corrigir essa situação surgiu na Corte Constitucional da Colômbia, em 1997, com a chamada "Sentencia de Unificación (SU)". Foi aí que primeiro se utilizou essa expressão.
direitos dos presos, além da perpetuação e do agravamento da situação. Assim, cabe ao STF o papel de retirar os demais poderes da inércia, coordenar ações visando a resolver o problema e monitorar os resultados alcançados. Diante disso, o STF, em ADPF, concedeu parcialmente medida cautelar determinando que: • juízes e Tribunais de todo o país implementem, no prazo máximo de 90 dias, a audiência de custódia; • a União libere, sem qualquer tipo de limitação, o saldo acumulado do Fundo Penitenciário Nacional para utilização na finalidade para a qual foi criado, proibindo a realização de novos contingenciamentos. Na ADPF havia outros pedidos, mas estes foram indeferidos, pelo menos na análise da medida cautelar. STF. Plenário. ADPF 347 MC/DF, Rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 9/9/2015 (Info 798).11
E esse tema ganha ainda mais relevância na DPE/PB, considerando que o nosso edital traz os seguintes pontos:
10. (...) Direitos sociais e execução penal. Execução penal e realidade concreta: as penas ilícitas. Superlotação prisional e consequências jurídicas.
Desta forma, devemos ficar atentos à observância dos direitos sociais (aqueles de segunda dimensão, que exigem uma prestação positiva do Estado, como alimentação, saúde, higiene, etc), pois a realidade dos cárceres do Brasil nos mostra um completo estado massivo de violação desses direitos. Desta forma, poderíamos dizer que praticamente todas as prisões do Brasil são ilegais, por violarem direitos básicos como os listados acima. Desta forma, teoricamente, se essas prisões são ilegais, juridicamente falando deveriam ser imediatamente relaxadas.
Mais recentemente, o Plenário do STF decidiu que a decisão do Ministro Relator que, de ofício, na ADPF que trata sobre o Estado de Coisas Inconstitucional (ADPF 347) no sistema prisional, determina medidas para proteger os presos do Covid-19, amplia indevidamente o objeto da ação. Isso porque no dia 18/03/2020, o Ministro Relator Marco Aurélio, de ofício decidiu “conclamar” os juízes de Execução Penal a adotarem junto à população carcerária procedimentos para evitar o avanço da doença dentro dos presídios.
“É certo que no controle abstrato de constitucionalidade, a causa de pedir é aberta. No entanto, o pedido é específico. Nenhum dos pedidos da ADPF 347 está relacionado com as questões inerentes à prevenção do Covid-19 nos presídios. Não é possível, portanto, a ampliação do pedido cautelar já apreciado anteriormente. A Corte está limitada ao pedido. Aceitar a sua ampliação equivale a agir de ofício, sem observar a legitimidade constitucional para propositura da ação. Ademais, em que pese a preocupação de todos em relação ao Covid-19 nas penitenciárias, a medida cautelar, ao conclamar os juízes de execução, determina, fora do objeto da ADPF, a realização de megaoperação para analisar detalhadamente, em um único momento, todas essas possibilidades e não caso a caso, como recomenda o Conselho Nacional de Justiça. O STF entendeu que, neste momento, o Poder Judiciário deve seguir as recomendações sobre a questão emitidas pelo Conselho Nacional de Justiça CNJ e por portaria conjunta dos Ministérios da Saúde e da Justiça. Para evitar a disseminação do novo coronavírus nas prisões, o CNJ recomendou a análise de situações de risco caso a caso. A Recomendação 62/2020 do CNJ traz orientações aos Tribunais e aos magistrados quanto à adoção de medidas preventivas contra a propagação do Covid-19 no âmbito dos sistemas de justiça penal e socioeducativo. STF. Plenário. ADPF 347 TPI-Ref/DF, rel. orig. Min. Marco Aurélio, red. p/ o ac. Min. Alexandre de Moraes, julgado em 18/3/2020 (Info 970).12
11 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Estado de Coisas Inconstitucional. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:
https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/4e732ced3463d06de0ca9a15b6153677. Acesso em: 26/05/2021.
12 CAVALCANTE, Márcio André Lopes. Relator não pode, de ofício, na ADPF que trata sobre o Estado de Coisas Inconstitucional dos presídios, determinar medidas para proteger os presos do Covid-19. Buscador Dizer o Direito, Manaus. Disponível em:
https://www.buscadordizerodireito.com.br/jurisprudencia/detalhes/488b084119a1c7a4950f00706ec7ea16. Acesso em: 26/05/2021.
Dando continuidade, em nosso edital da DPE/PB há um ponto sobre ECONOMIA POLÍTICA DA PENA.
Marco Alexandre de Souza Serra, em sua obra “Economia Política da Pena”, estabelece que “a compreensão do funcionamento do poder punitivo exige analisar o Estado à luz de sua própria estrutura. Numa sociedade dividida em classes, na qual uma delas detém a propriedade dos meios de produção de riqueza social e outra a propriedade da força de trabalho também necessária à geração dessa riqueza, o Estado possui uma configuração específica. Desenvolver essa análise, através da construção de um discurso envolve escolhas terminológicas neutras. Economia indica mais do que a ciência que trata dos fenômenos relativos à produção, distribuição e consumo de bens; designa também a organização dos diversos elementos de um todo. Nessa condição, economia está para a análise dos sistemas de punição, em fases e estágios relacionados ao desenvolvimento das forças produtivas, mas também remete à gestão da oferta de força de trabalho à disposição do processo de acumulação do capital. Segundo demonstra a história, tal processo se desenvolve mediante o recurso à penalização dos trabalhadores. A ênfase política decorre da assunção do uso da pena como exercício de poder. A política integral do Estado, particularmente desde o surgimento da prisão, tende a ser regida por uma racionalidade que visa justificar a desigualdade inerente ao capitalismo. A crítica a essa razão de Estado, portanto, deve se reportar à crítica da economia política burguesa. A crítica das teorias da pena, particularmente das preventivas, pode ser realizada a partir desse ponto de vista”.13
Isso tudo guarda relação com o nosso outro ponto do edital a respeito do encarceramento em massa:
“(...) Execução penal, encarceramento em massa e dano social.”
No que toca ao encarceramento em massa, Juliana Borges na obra “O que é encarceramento em massa”?
elenca que diversos fatores podem ter influenciado diretamente neste processo de superlotação que vivemos atualmente, pois somos o terceiro país com a maior população carcerária do mundo, com mais de 700 mil presos, ficando atrás apenas dos Estados Unidos (com 2 milhões 100 mil pessoas atrás das grades) e China (1 milhão e 600 mil pessoas encarceradas).
Para a autora, (2018, p. 16), “o sistema de justiça criminal tem profunda conexão com o racismo, sendo o funcionamento de suas engrenagens mais do que perpassados por esta estrutura de opressão, mas o aparato reordenado para garantir a manutenção do racismo e, portanto, das desigualdades baseadas na hierarquia racial”.14 No primeiro semestre de 2017, o quantitativo de pessoas privadas de liberdade no Brasil era de 726.354.
Segundo o IFOPEN, o gráfico abaixo apresenta a série histórica das pessoas privadas de liberdade entre os anos de 1990 e 2017.
13 SERRA, Alexandre de Souza. Economia política da pena. Revan, 2009.
14 BORGES, Juliana. O que é encarceramento em massa? Belo Horizonte: Letramento/Justificando, 2018, p. 16.
Contudo, abaixo vocês podem perceber que de 2017 para 2019 houve um aumento significativo na população carcerária, conforme dados do Infopen 2019:
Além disso, dados atuais assustadoramente mostram que 23,29% da população prisional tem entre 18 a 24 anos, como podemos ver abaixo (Infopen 2019).
Conforme dados extraídos do Infopen (2017) as pessoas presas de cor/etnia pretas e pardas totalizam 63,6% da população carcerária nacional, conforme gráfico abaixo.
Indo além, em relação ao dado sobre a cor ou etnia da população prisional feminina brasileira, o gráfico abaixo indica as mulheres presas de cor/etnia pretas e pardas totalizam 63,55% da população carcerária nacional.
Abaixo, trago os dados do Infopen feitos em 2019, que mostram um enorme índice de pessoas pretas e pardas no sistema carcerário.
Juliana Borges, na obra sobre encarceramento em massa (ano de 2018), lembra que “68% das mulheres encarceradas são negras, e 3 em cada 10 não tiveram julgamento, consideradas presas provisórias. 50% não concluíram o ensino fundamental e 50% são jovens, sendo esta média de mulheres em torno de 20 anos”. (2018, p. 91).
O dano que isso é capaz de trazer à sociedade (dano social) é inestimável, já que as prisões brasileiras superlotadas e com tratamentos desumanos, onde a violação de direitos é algo comum, favorecem à reincidência e dificulta a prevenção especial positiva (o que costumeiramente chamam de “ressocialização). Quando se analisa os dados de maneira geral, os crimes mais cometidos no Brasil são os patrimoniais, seguidos de crimes relacionados à Lei de Drogas. Contudo, esse percentual se inverte quando analisamos os crimes cometidos por mulheres, sendo os crimes relacionados à Lei de Drogas os com maior incidência, como podemos observar dos gráficos abaixo extraídos do Relatório do Infopen 2019.
De 2000 a 2015 tivemos um grande aumento da população carcerária feminina, que cresceu exponencialmente, como podemos observar do gráfico abaixo (Infopen 2019).
Por fim, é importante que você conheça o atual recurso em HC nº 136961 – RJ.
O caso diz respeito ao notório caso do Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho no Rio de Janeiro (IPPSC). Após denúncias feitas pela Defensoria do Rio de Janeiro, a referida unidade prisional foi objeto de inúmeras inspeções que culminaram com a Resolução da Corte IDH de 22/11/2018, que ao reconhecer referido instituto inadequado para a execução de penas, especialmente em razão de os presos se acharem em situação degradante e desumana, determinou no item n. 4, que se computasse "em dobro cada dia de privação de liberdade cumprido no IPPSC, para todas as pessoas ali alojadas, que não sejam acusadas de crimes contra a vida ou a integridade física, ou de crimes sexuais, ou não tenham sido por eles condenadas, nos termos dos Considerandos 115 a 130 da presente resolução”.
Neste caso, o Ministro do Superior Tribunal de Justiça Reynaldo Soares da Fonseca, ao conceder a ordem no referido HC, a fim de que fosse contado em dobro todo o período em que o homem esteve preso no Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho, no Complexo Penitenciário de Bangu, localizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Por fim, é bom lembrar que a “execução penal, encarceramento em massa e dano social” é um ponto expresso em nosso edital da DPE/PB.
PONTO: Agravo em execução.
Na parte de Execução Penal, em nosso edital, não há o agravo em execução de maneira expressa. Contudo, ele está implícito no ponto “Lei de Execução Penal (Lei n. 7.210/84)”. Dada sua relevância e incidência em provas elaboradas pela FCC, trabalharemos com detalhes.
Bem, mão na massa e vamos lá!
O agravo em execução, como muitos de vocês sabem, é o recurso utilizado no âmbito da execução penal.
No entanto, o Código de Processo Penal não traz absolutamente nada sobre ele, e a LEP, a quem caberia detalhá- lo, surpreendentemente só traz um único artigo sobre o tema, vejam:
Art. 197. Das decisões proferidas pelo Juiz caberá recurso de agravo, sem efeito suspensivo.
Certo. Vamos prosseguir.
Dando continuidade, precisamos saber que o art. 197 da LEP é a nossa previsão do agravo em execução em nossa legislação, como vimos. Mas qual prazo a interposição do agravo? É cabível em face de qual decisão?
Cabe juízo de retratação? É endereçado a quem?
Pois é, nenhuma lei se deu ao trabalho de dizer. Sendo assim, para preencher essa lacuna o STF editou o presente enunciado de súmula:
Enunciado 700-STF: É de cinco dias o prazo para interposição de agravo contra decisão do juiz da execução penal.
Apesar de trazer o prazo, o enunciado não traz outras considerações. No entanto, o entendimento hoje é de que se aplicam ao agravo em execução as mesmas regras previstas para o recurso em sentido estrito, a partir do artigo 581 do CPP.
Ou seja: se vocês estiverem fazendo a peça processual para sua segunda fase da DPE/PB, e ela for o agravo em execução, abram o Vade Mecum e vá direto ao artigo 581 e seguintes do CPP. Em relação ao prazo, vocês vão fundamentar também usando o enunciado de Súmula do STF (esse enunciado normalmente recebe pontuação específica no espelho de correção).
Sobre o prazo, vejam quantas vezes isso já foi objeto de questionamento em provas anteriores:
CAIU NA DPE-AM-2011-INSTITUTO DAS CIDADES: “É de cinco dias o prazo para interposição de agravo contra decisão do juiz da execução penal”.15
CAIU NA DPE-PI-2009-CESPE: “O prazo para a interposição de agravo contra a decisão do juiz da execução penal é de dez dias”.16
CAIU NA DPE-AL-2009-CESPE: “O prazo para a interposição de agravo contra decisão do juiz da execução penal é de dez dias”.17
Sobre a legitimidade no agravo em execução, pontua Gustavo Henrique Badaró18:
15 CORRETO.
16 ERRADO.
17 ERRADO.
18 Badaró, Gustavo Henrique. Processo penal. - 3. ed. revi, atual, e ampl. – São Paulo. Editora Revista dos Tribunais, 2015, p. 891/892.
(...) A legitimidade recursal deve ser analisada a partir da legitimidade geral para a execução penal. O art. 195 da LEP estabelece que o procedimento judicial da execução penal se inicia ex officio pelo juiz, ou a requerimento do Ministério Público, do interessado ou de quem o represente, de seu cônjuge, parente ou descendente, ou ainda mediante propostas do Conselho Penitenciário ou da autoridade administrativa. O Ministério Público, o condenado, seu representante ou seus parentes, se tiverem qualquer requerimento indeferido, terão legitimidade e interesse em recorrer. Quanto ao Conselho Penitenciário e à autoridade administrativa, Grinover, Magalhães Gomes Filho e Scarance Fernandes explicam que eles podem simplesmente propor a instauração do procedimento sem, contudo, formular pedido. Assim, não há que se cogitar de indeferimento, ou de prejuízo, caso seja desatendida a representação, pelo que não poderão recorrer. O juiz não pode recorrer ex officio, pois tal exige previsão expressa.
No que se refere aos efeitos, lembra Badaró19:
“que, como todo recurso, o agravo em execução tem efeito devolutivo, pois “devolve”
ao Tribunal o conhecimento da questão. O agravo em execução não tem efeito suspensivo (LEP, art. 197, parte final). Há, contudo, quem sustente que se a eficácia imediata da decisão puder causar dano irreparável, o condenado poderá se valer de habeas corpus para obter efeito suspensivo à decisão (por exemplo, determina a regressão de regime) e o Ministério Público poderá utilizar o mandado de segurança (por exemplo, para suspender a eficácia de decisão que concede o livramento condicional).
No entanto, o STJ tem súmula no sentido de que o Mandado de segurança não se presta para atribuir efeito suspensivo a recurso criminal interposto pelo Ministério Público”.
Enunciado de Súmula 604 do STJ: “Mandado de segurança não se presta para atribuir efeito suspensivo a recurso criminal interposto pelo Ministério Público”.
O agravo em execução tem o chamado “efeito regressivo ou iterativo”, uma vez que há previsão de juízo de retratação no procedimento do recurso em sentido estrito (CPP, art. 589, caput), aplicável ao agravo.
Acrescente-se que o art. 66, inciso V da LEP prevê que compete ao Juiz da execução determinar a desinternação e o restabelecimento da situação anterior. O art. 179, por outro lado, informa que transitada em julgado a sentença, o Juiz expedirá ordem para a desinternação ou a liberação.
Sobre isso, Renato Brasileiro afirma que:
“se, pelo menos em regra, o agravo em execução não é dotado de efeito suspensivo, especial atenção deve ser dispensada ao quanto disposto no art. 179 da LEP, que dispõe que "transitada em julgado a sentença, o juiz expedirá ordem para a desinternação ou a liberação". Como se percebe, a partir do momento que o dispositivo condiciona a desinternação ou a liberação do agente inimputável ou semi-imputável cuja periculosidade tenha cessado ao trânsito em julgado da referida decisão, é de se concluir que, nesse caso, o agravo em execução é dotado de efeito suspensivo, visto que sua simples interposição tem o condão de impedir o trânsito em julgado, ao qual está condicionada a produção dos efeitos da referida decisão”. 20
Esse tema, inclusive, foi objeto de questionamento na prova da Defensoria Pública do Estado do Minas Gerais, em 2019:
19 Idem, p. 891/892.
20 DE LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de Processo Penal. 6. Ed. rev., amp. e atual. Salvador/BA: Juspodivm, 2018. op. cit. p. 1745.
CAIU NA DPE-MG-2019-FUNDEP: “Da decisão que determinar a desinternação do inimputável caberá agravo em execução, que será recebido com efeito suspensivo”. 21
Agora vamos adiante!
Uma pergunta interessante é: dessa decisão do juízo da execução (recorrível por agravo em execução) cabe Habeas Corpus?
Prezad@s, nesse ponto aqui eu peço cautela.
Conforme assentado pelo STJ, é descabida a utilização do Habeas Corpus como sucedâneo recursal, exigindo que seja interposto o recurso cabível. Vejamos:
PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DO RECURSO CABÍVEL.
IMPOSSIBILIDADE. NÃO CONHECIMENTO. HOMICÍDIO DUPLAMENTE QUALIFICADO E DISPAROS DE ARMA DE FOGO. PRONÚNCIA. PRISÃO PREVENTIVA QUE ULTRAPASSA TRÊS ANOS. EXCESSO DE PRAZO CONFIGURADO. JULGAMENTO DO RECURSO EM SENTIDO ESTRITO. 1. Esta Corte não deve continuar a admitir a impetração de habeas corpus (originário) como substitutivo de recurso, dada a clareza do texto constitucional, que prevê expressamente a via recursal própria ao enfrentamento de insurgências voltadas contra acórdãos que não atendam às pretensões veiculadas por meio do writ nas instâncias ordinárias. 2. Verificada hipótese de dedução de habeas corpus em lugar do recurso cabível, impõe-se o não conhecimento da impetração, nada impedindo, contudo, que se corrija de ofício eventual ilegalidade flagrante, como forma de coarctar o constrangimento ilegal. (...) (STJ - HC: 190947 BA 2010/0214259-9, Relator: Ministro OG FERNANDES, Data de Julgamento: 02/05/2013, T6 - SEXTA TURMA, Data de Publicação:
DJe 14/05/2013)
Vou tentar explicar melhor.
Em tese, os tribunais superiores não admitem que em vez de interpor o recurso cabível, impetre-se um HC.
Isso é muito absurdo? É. Porque uma coisa não tem nada a ver com a outra. Se fere o direito à liberdade e preenche os requisitos constitucionais, nada impediria a utilização do HC, cujo procedimento é mais célere do que os recursos. Isso demonstra a prevalência da chamada “jurisprudência defensiva” sobre a tutela do direito de liberdade, pois quando a Corte obsta a impetração de HC, dificulta o acesso do jurisdicionado a ela (considerem que um recurso demora muito mais para ir à mesa, além de possuir mais requisitos a serem obedecidos do que um HC).
Devemos criticar? Sim, e muito, sobretudo em provas orais e dissertativas.
No entanto, considerando que é jurisprudência consolidada dos Tribunais Superiores, caso seja narrado em uma segunda fase de nossas Defensorias Públicas, por exemplo, que houve uma decisão no âmbito da execução penal, e considerando que você só poderá fazer apenas uma peça (ou o HC ou o agravo em execução), 99% das chances de ser o agravo em execução, embora na prática possamos sustentar a possibilidade de HC. Por isso, não recomendamos que seja feito um HC em prova de segunda fase, a menos que o enunciado seja MUITO, MAS MUITO explícito em relação a isso. Caso contrário, não arrisquem: façam o agravo em execução.
Além disso, vocês poderão informar, em sua peça de agravo em execução, que será impetrado um HC, considerando a situação de flagrante ilegalidade etc. Isso já foi cobrado na prova da DPE-BA e no espelho veio
21 CORRETO.
expresso que o candidato teria que fazer menção à impetração do HC, sendo que a peça correta, para aquela situação, era o agravo em execução.
Em resumo, ainda que os dois (HC e agravo), na prática, sejam utilizados, o recurso (agravo em execução) tem ampla possibilidade de análise probatória, diferente do HC, que exige prova documental pré-constituída.
CASO CONCRETO NA SUA PEÇA PROCESSUAL: Assim, por exemplo, imaginem que a decisão do magistrado decrete a perda dos dias remidos na fração de 1/3, que é o patamar máximo. No entanto, a decisão foi genérica e não fundamentou o porquê da perda do patamar máximo dos dias remidos. Sabemos que para a perda de 1/3 dos dias remidos deverá haver uma fundamentação concreta. Para isso, a melhor saída será interpor o agravo em execução, pois o grau de profundidade da análise probatória será muito maior do que no Habeas Corpus. Ficou claro? =)
Por fim, é importante analisarmos a extraordinária atuação da Defensoria Pública da União perante o Supremo Tribunal Federal, sobretudo em Habeas Corpus.
De fato, há um crescimento expressivo, nos últimos anos, da atuação da DP perante o STF. Esse crescimento decorre da melhoria, estruturação e aumento do número de membros da instituição em todo o país (tanto na DPU, quanto nas DPs estaduais).
Os Tribunais Superiores perceberam e foram influenciados pelo aumento de participação da DP nos processos que chegam até eles. Basta observar, por exemplo, que o número de HCs que se ampliou muito nos últimos anos, como decorrência da atuação institucional da DP. Esta lida com um amplo número de assistidos, que, por sinal são preferencialmente atingidos pelo sistema penal. Assim, os HCs que, em sua maioria eram decididos pelo colegiado, passaram a ser julgados de maneira monocrática, salvo agravo regimental (que, em regra, não admite sustentação oral).
Antes mesmo da pandemia referente a COVID-19, o Tribunal passou a utilizar, cada vez mais, meios eletrônicos e a DP teve que se adaptar a essa modificação, como forma de ampliar a sua participação.
Além disso, podemos citar a ampliação de participação da DP, para além dos recursos de demandas individuais, com outros tipos de petições e pedidos, de maneira mais intensa, presente e completa, na defesa dos interesses dos seus assistidos. Sobretudo, em causas de interesses coletivos ou de julgamentos que ultrapassem o direito das partes nos processos (recursos repetitivos, repercussão geral, amicus curiae, proposição de súmulas vinculantes e participação em audiências públicas).
Abaixo podemos analisar diversas ações marcantes no STF nos últimos anos (que ampliaram a divulgação do objetivo da Instituição na sociedade), em que a DPU teve participação:
- Ação Penal 470 (mensalão), em que a DPU foi intimada para fazer a defesa de uma pessoa que não tinha advogado.
- Proposição de súmula vinculante pela DPU, que resultou na edição da Súmula Vinculante nº 56, que trata da garantia do regime prisional adequado ao apenado.
- Atuação intensa da DPU em recursos que tratem de temas ligados aos assistidos, sobretudo, no período atual de pandemia. A participação da DP é fundamental já que esses temas, que envolvem, por exemplo, saúde e auxílio emergencial, são relacionados a pessoas de baixa renda e que, dificilmente, tem condições de mover recursos nas Cortes Superiores.
- registro de medicamento na ANVISA, originário da DPE-MG, que é o RE 567.718, e o recurso da solidariedade dos entes federativos para a concessão de medicamentos, que é o RE 155.178.
- HC 97.256, que possibilitou a substituição de pena no tráfico.
- HC 118.533, que afastou a hediondez no tráfico privilegiado.
PONTO: Lei de Execução Penal (Lei n. 7.210/84). Remição. Direitos do sistema progressivo. Progressão de regime.
Livramento condicional. Indulto e comutação. Disciplina na execução penal REMIÇÃO NA EXECUÇÃO PENAL
A remição é um assunto muito provável de cair em provas objetivas, inclusive sendo cobrado em provas mais recentes – (DPE/RS – 2022) - (DPE/BA – 2021).
Inicialmente, leiam a redação do art. 126 da LEP (Lei de Execução Penal):
Art. 126. O condenado que cumpre a pena em regime fechado ou semiaberto poderá remir, por trabalho ou por estudo, parte do tempo de execução da pena.
Certo. Entendido. Aqueles que estão em regime fechado e semiaberto podem remir a pena, isso é, abatê- la, em razão do trabalho e em razão do estudo.
Agora fiquei com uma dúvida: regime fechado pode remir, regime semiaberto também, mas e o regime aberto?
Vejam o que diz o § 6º do art.126 da LEP:
§ 6º O condenado que cumpre pena em regime aberto ou semiaberto e o que usufrui liberdade condicional poderão remir, pela frequência a curso de ensino regular ou de educação profissional, parte do tempo de execução da pena ou do período de prova, observado o disposto no inciso I do § 1º deste artigo.
Ou seja, segundo a LEP, quem está no regime aberto não pode remir pelo trabalho, apenas pelo estudo. E aqui nós devemos criticar. Isso porque é absurda essa ideia. O apenado está no regime menos gravoso e não pode remir a pena pelo trabalho? O argumento de que o trabalho é uma obrigação dos regimes aberto e semiaberto é bastante criticável, sobretudo pela realidade brasileira e pelo fato de que, se parte da doutrina diz que a pena tem uma função ressocializadora (por mais questionável que seja essa ideia), então dever-se-ia estimular o apenado ao máximo, inclusive promovendo a remição em caso de trabalho no regime aberto.
CAIU NA DPE-PR-2017-FCC: “Não há previsão legal de remição para o sentenciado em regime aberto”.22 Tudo bem, respirem, fiquem mais calmos, vamos prosseguir.
Mas como se dá essa contagem para fins de remição?
É fácil! Vejam o 1º do art. 126 da Lei de Execução penal:
1º A contagem de tempo referida no caput será feita à razão de:
I - 1 (um) dia de pena a cada 12 (doze) horas de frequência escolar - atividade de ensino fundamental, médio, inclusive profissionalizante, ou superior, ou ainda de requalificação profissional - divididas, no mínimo, em 3 (três) dias.
II - 1 (um) dia de pena a cada 3 (três) dias de trabalho Vejam essa tabela:
22 ERRADA. Vimos que é possível!
REMIÇÃO PELO ESTUDO REMIÇÃO PELO TRABALHO 1 (um) dia de pena a cada 12 (doze) horas de
frequência escolar divididas NO MÍNIMO em três dias.
1 (um) dia de pena a cada 3 (três) dias de trabalho.
Mas essas atividades precisam ser necessariamente dentro do estabelecimento prisional?
A resposta é não. Vejamos o enunciado 562 da Súmula do STJ:
Enunciado 562-STJ: É possível a remição de parte do tempo de execução da pena quando o condenado, em regime fechado ou semiaberto, desempenha atividade laborativa, ainda que extramuros.
CAIU NA DPE-PR-2017-FCC: “O trabalho intramuros é o único passível de remição”.23
Segundo o art. 33 da LEP, a jornada diária de trabalho do apenado deve ser de, no mínimo, 6 horas e, no máximo, 8 horas. Apesar disso, se um condenado, por determinação da direção do presídio, trabalha 4 horas diárias (menos do que prevê a Lei), este período deverá ser computado para fins de remição de pena. Como esse trabalho do preso foi feito por orientação ou estipulação da direção do presídio, isso gerou uma legítima expectativa de que ele fosse aproveitado, não sendo possível que seja desprezado, sob pena de ofensa aos princípios da segurança jurídica e da proteção da confiança. Vale ressaltar, mais uma vez, o trabalho era cumprido com essa jornada por conta da determinação do presídio e não por um ato de insubmissão ou de indisciplina do preso. STF. 2ª Turma.
RHC 136509/MG, Rel. Min. Dias Toffoli, julgado em 4/4/2017 (Info 860).
EMENTA Recurso ordinário constitucional. Habeas corpus. Execução Penal.
Remição (arts. 33 e 126 da Lei de Execução Penal). Trabalho do preso. Jornada diária de 4 (quatro) horas. Cômputo para fins de remição de pena. Admissibilidade.
Jornada atribuída pela própria administração penitenciária. Inexistência de ato de insubmissão ou de indisciplina do preso. Impossibilidade de se desprezarem as horas trabalhadas pelo só fato de serem inferiores ao mínimo legal de 6 (seis) horas.
Princípio da proteção da confiança. Recurso provido. Ordem de habeas corpus concedida para que seja considerado, para fins de remição de pena, o total de horas trabalhadas pelo recorrente em jornada diária inferior a 6 (seis) horas. 1. O direito à remição pressupõe o efetivo exercício de atividades laborais ou estudantis por parte do preso, o qual deve comprovar, de modo inequívoco, seu real envolvimento no processo ressocializador. 2. É obrigatório o cômputo de tempo de trabalho nas hipóteses em que o sentenciado, por determinação da administração penitenciária, cumpra jornada inferior ao mínimo legal de 6 (seis) horas, vale dizer, em que essa jornada não derive de ato insubmissão ou de indisciplina do preso. 3.
Os princípios da segurança jurídica e da proteção da confiança tornam indeclinável o dever estatal de honrar o compromisso de remir a pena do sentenciado, legítima contraprestação ao trabalho prestado por ele na forma estipulada pela administração penitenciária, sob pena de desestímulo ao trabalho e à ressocialização. 4. Recurso provido. Ordem de habeas corpus concedida para que seja considerado, para fins de remição de pena, o total de horas trabalhadas pelo recorrente em jornada diária inferior a 6 (seis) horas. (RHC 136509, Relator(a): Min.
DIAS TOFFOLI, Segunda Turma, julgado em 04/04/2017, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-087 DIVULG 26-04-2017 PUBLIC 27-04-2017)
23 ERRADO. A Súmula 562 do STJ mostra o contrário.
CAIU NA DPE/RS – 2022 – CESPE: De acordo com o STF, na hipótese de um apenado, por determinação da direção do presídio, trabalhar 4 horas diárias, esse período deverá ser computado para fins de remição da pena, sob pena de ofensa aos princípios da segurança jurídica e da proteção da confiança.
Vocês já ouviram falar em remição ficta? Já? Vamos relembrar, então.
Caso o apenado queira trabalhar ou estudar, mas não consiga em razão de motivos alheios à sua vontade, é possível remir a pena? A isso a doutrina chama de remição ficta, e não se tem admitido, salvo quando o impedimento decorre de acidente de trabalho (art. 126, §4º, LEP).
Para Roig, a vedação da remição ficta implica dupla punição: a impossibilidade de exercer os direitos constitucionais ao trabalho ou estudo e a inviabilidade de valer-se da remição. Assim, deve o candidato entender que a jurisprudência dos tribunais superiores se inclina para não aceitar a remição ficta, mas críticas devem ser feitas a esse entendimento em provas abertas.
Vejam abaixo as decisões do STJ e STF no mesmo sentido:
“Não se admite a remição ficta da pena. Embora o Estado tenha o dever de prover trabalho aos internos que desejem laborar, reconhecer a remição ficta da pena, nesse caso, faria com que todas as pessoas do sistema prisional obtivessem o benefício, fato que causaria substancial mudança na política pública do sistema carcerário, além de invadir a esfera do Poder Executivo. O instituto da remição exige, necessariamente, a prática de atividade laboral ou educacional. Trata-se de reconhecimento pelo Estado do direito à diminuição da pena em virtude de trabalho efetuado pelo detento. Não sendo realizado trabalho, estudo ou leitura, não há que se falar em direito à remição. STF. 1ª Turma. HC 124520/RO, rel. Min.
Marco Aurélio, red. p/ ac. Min. Roberto Barroso, julgado em 29/5/2018 (Info 904).
STJ. 5ª Turma. HC 421425/MG, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 27/02/2018. STJ.
6ª Turma. HC 425155/MG, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 06/03/2018.”
Outro detalhe muito importante que vocês precisam saber é que o tempo a remir em função das horas de estudo será acrescido de 1/3 (um terço) no caso de conclusão do ensino fundamental, médio ou superior durante o cumprimento da pena.
Vejam:
§ 5º O tempo a remir em função das horas de estudo será acrescido de 1/3 (um terço) no caso de conclusão do ensino fundamental, médio ou superior durante o cumprimento da pena, desde que certificada pelo órgão competente do sistema de educação.
Ponto importante: é possível a revogação dos dias remidos?
Sim, é possível, mas isso deve ser visto com cautela. Os dias remidos podem ser revogados, em caso de faltas graves, em ATÉ um terço (1/3). Pessoal, o examinador irá dizer, em sua prova, que o juiz revogará um terço dos dias remidos em caso de prática de falta grave. Está errado. Para que o Juiz chegue ao patamar máximo, que é exatamente um terço, ele deverá realizar uma fundamentação CONCRETA, pois a LEP usa o termo “até’. Cuidado com isso.
Art. 127. Em caso de falta grave, o juiz poderá revogar até 1/3 (um terço) do tempo remido, observado o disposto no art. 57, recomeçando a contagem a partir da data da infração disciplinar.
Sobre o tema, veja o que diz o STJ:
“Reconhecida falta grave no decorrer da execução penal, não pode ser determinada a perda dos dias remidos na fração máxima de 1/3 sem que haja fundamentação concreta para justificá-la. STJ. 6ª Turma. HC 282265-RS, Rel. Min.
Rogerio Shietti Cruz, julgado em 22/4/2014 (Info 539).”
Lembre-se que em caso de falta grave, o juiz poderá revogar até 1/3 do tempo remido, recomeçando a contagem a partir da data da infração disciplinar, e não da data do cumprimento da sanção.
CAIU NA DPE-AM-2018-FCC: “Sobre a remição na execução penal, é corretor afirmar que em caso de falta grave o juiz poderá revogar até 1/3 do tempo remido, recomeçando a contagem a partir do cumprimento da sanção disciplinar”.24
Agora vamos aprofundar: remição em razão do trabalho com artesanato; isso é possível?
Sim, é possível. Entende-se que o rol não é taxativo, então é possível que outras atividades sejam utilizadas para remir a pena. Assim, segundo o STJ no AgRg no REsp 1720785/RO julgado em 2018, ficando comprovado que o reeducando efetivamente exerceu o trabalho artesanal, ele tem direito à remição. A alegação do Ministério Público no sentido de que é impossível controlar as horas trabalhadas com artesanato não é um argumento válido. Cabe ao Estado administrar o cumprimento do trabalho no âmbito carcerário, não sendo razoável imputar ao sentenciado qualquer tipo de desídia na fiscalização ou controle desse meio.
Chamo a atenção de vocês para que relembre da recente e importante decisão do STJ no HC nº 136961 – RJ sobre a possibilidade de remição em dobro quando o presto estiver em situação degradante. Dada a relevância da temática, vamos revisar rapidamente.
Chegou até o STJ o recurso em HC nº 136961 – RJ. O caso diz respeito ao notório caso do Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho no Rio de Janeiro (IPPSC). Após denúncias feitas pela Defensoria do Rio de Janeiro, a referida unidade prisional foi objeto de inúmeras inspeções que culminaram com a Resolução da Corte IDH de 22/11/2018, que ao reconhecer referido instituto inadequado para a execução de penas, especialmente em razão de os presos se acharem em situação degradante e desumana, determinou no item n. 4, que se computasse "em dobro cada dia de privação de liberdade cumprido no IPPSC, para todas as pessoas ali alojadas, que não sejam acusadas de crimes contra a vida ou a integridade física, ou de crimes sexuais, ou não tenham sido por eles condenadas, nos termos dos Considerandos 115 a 130 da presente resolução”.
Neste caso, o Ministro do Superior Tribunal de Justiça Reynaldo Soares da Fonseca, ao conceder a ordem no referido HC, a fim de que fosse contado em dobro todo o período em que o homem esteve preso no Instituto Penal Plácido de Sá Carvalho, no Complexo Penitenciário de Bangu, localizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, assim ponderou:
“Ao sujeitar-se à jurisdição da Corte IDH, o País amplia o rol de direitos das pessoas e o espaço de diálogo com a comunidade internacional. Com isso, a jurisdição brasileira, ao basear-se na cooperação internacional, pode ampliar a efetividade dos direitos humanos. As sentenças emitidas pela Corte IDH, por sua vez, têm eficácia vinculante aos Estados que sejam partes processuais, não havendo meios de impugnação aptos a revisar a decisão exarada. Em caso de descumprimento da
24 ERRADO. Como vimos, em caso de falta grave o juiz poderá revogar até 1/3 do tempo remido, recomeçando a contagem a partir da data da infração disciplinar, e não da data do cumprimento da sanção.
sentença, a Corte poderá submetê-la à análise da Assembleia Geral da Organização, com o fim de emitir recomendações para que as exigências sejam cumpridas e ocorra a consequente reparação dos danos e cessação das violações dos direitos humanos. (...)
Portanto, a sentença da Corte IDH produz autoridade de coisa julgada internacional, com eficácia vinculante e direta às partes. Todos os órgãos e poderes internos do país encontram-se obrigados a cumprir a sentença.”
No dispositivo da referida decisão, o Ministro deixou claro que “as autoridades públicas, judiciárias inclusive, devem exercer o controle de convencionalidade, observando os efeitos das disposições do diploma internacional e adequando sua estrutura interna para garantir o cumprimento total de suas obrigações frente à comunidade internacional, uma vez que os países signatários são guardiões da tutela dos direitos humanos, devendo empregar a interpretação mais favorável a indivíduo. Logo, os juízes nacionais devem agir como juízes interamericanos e estabelecer o diálogo entre o direito interno e o direito internacional dos direitos humanos, até mesmo para diminuir violações e abreviar as demandas internacionais”.
Considerando que essa decisão foi tomada em 28 de abril de 2021, você precisa estar por dentro. Para ficar ainda melhor, trago a íntegra da decisão para que você possa ler com mais tranquilidade.25
INFORMATIVOS SOBRE REMIÇÃO
Vamos agora aos principais julgados do STJ e STF, selecionados através do site Buscador Dizer o Direito, de autoria do Márcio André Cavalcante:
É possível remir a pena por ter trabalhado ANTES do início da execução penal?
DIZER O DIREITO: É possível a remição do tempo de trabalho realizado antes do início da execução da pena, desde que em data posterior à prática do delito. Ex.: Em 2015, João praticou o crime “A”, respondendo o processo em liberdade. Em 2016, João cometeu o crime “B” e, por conta deste segundo delito, ficou preso por 3 meses. Durante esse período, João trabalhou todos os dias na unidade prisional. Em 2017, João foi absolvido do delito “B”. Em 2018, João foi condenado pela prática do crime “A”, recebendo 6 anos de reclusão. Iniciou-se a execução penal quanto ao crime “A”. João poderá aproveitar o tempo que ficou preso quanto ao crime “B” para ser beneficiado com a remição relativa ao período. Isso porque o trabalho em questão foi realizado em momento posterior (2016) à prática do delito cuja condenação se executa (crime “A” praticado em 2015). Desse modo, ainda que o trabalho tenha sido realizado antes do início da execução penal, será possível a remição da pena porque o delito que está sendo agora executado foi praticado antes do trabalho exercido. Não interessa, portanto, se o trabalho foi realizado antes ou depois do início da execução penal (início do cumprimento da pena). O que interessa analisar é se o trabalho foi realizado antes ou depois do cometimento do crime no qual se quer aproveitar a remição. • Se o trabalho foi realizado ANTES do crime: não será possível a remição na execução penal deste delito. • Se o trabalho foi realizado APÓS o crime: será sim possível a remição na execução penal deste delito. STJ. 6ª Turma. HC 420257- RS, Rel. Min. Nefi Cordeiro, julgado em 19/04/2018 (Info 625)
Em relação ao julgado anterior, nas questões de prova o examinador pode querer embaralhar as informações para confundir. Então tenham sempre em mente o seguinte: basta procurar no enunciado o momento em que ocorreu o trabalho e verificar, na linha temporal, se ele foi realizado DEPOIS do crime em questão. Fiquem atentos ao momento em que o crime foi praticado. Esse é o principal lapso temporal que devemos atentar.
Para ilustrar:
25 Disponível em: https://www.conjur.com.br/dl/pena-cumprida-situacao-degradante.pdf. Acesso em 7 de dez de 2021.
Por outro lado, não será permitida a remição se:
Vimos que o preso pode remir a pena em razão de trabalho com artesanato. Sob esse mesmo argumento, é possível a remição se o preso fizer aula de canto em coral? A resposta é sim. Veja o que disse o STJ:
O reeducando tem direito à remição de sua pena pela atividade musical realizada em coral. STJ. 6ª Turma. REsp 1666637-ES, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 26/09/2017 (Info 613).
CAIU NA DPE/RS – 2022 – CESPE: Segundo o STJ, o reeducando que participa de coral musical não tem direito à remição de sua pena pela realização dessa atividade, por ela não se enquadrar nem como trabalho, nem como estudo. 26
E remição em razão de resenha de livros? É possível? A resposta também é positiva, vejam a decisão:
“O fato de o estabelecimento penal onde se encontra o detento assegurar acesso a atividades laborais e à educação formal, não impede que ele obtenha também a remição pela leitura, que é atividade complementar, mas não subsidiária, podendo ocorrer concomitantemente, havendo compatibilidade de horários. STJ. 5ª Turma. HC 353689-SP, Rel. Min. Felix Fischer, julgado em 14/6/2016 (Info 587).
E pela simples leitura, é possível? Sim.
DIZER O DIREITO: É possível computar a remição pelo simples fato de o apenado ficar lendo livros (sem fazer um curso formal)? SIM. A atividade de leitura pode ser considerada para fins de remição de parte do tempo de execução da pena. STJ. 6ª Turma. HC 312486-SP, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 9/6/2015 (Info 564).
CAIU NA DPE/SC – 2021 – FCC: A remição27
A) é cabível para condenados por crimes com violência ou grave ameaça contra a pessoa, desde que não constitua crime hediondo ou equiparado.
B) pode ser reconhecida por práticas educativas não-escolares e pela leitura.
C) pode ter seu cômputo em dobro, em caso de pessoa idosa que não seja reincidente específica em crime doloso.
D) é direito exclusivo de quem cumpre pena em regime semiaberto ou fechado.
E) pelo estudo tem regulamentação restritiva e prejudicial ao condenado, pois só é permitido o ensino presencial.
Existe possibilidade de o preso remir a pena estando em prisão domiciliar? Esse julgado é muito importante, prestem atenção:
DIZER O DIREITO: É possível a remição de pena com base no trabalho exercido durante o período em que o apenado esteve preso em sua residência (prisão domiciliar). A fim de evitar uma interpretação restritiva da norma, impõe-
26 GAB: E.
27 GAB: B.
Absolvido no crime B Crime B (aqui o acusado teve a
preventiva decretada e, enquanto preso, trabalhou)
Crime A Condenado no crime A. Da sentença
imposta, haverá remição do trabalho feito enquanto cumpriu a preventiva referente ao crime B.
Crime A (aqui o acusado teve a preventiva decretada e, enquanto preso, trabalhou)
Crime B Absolvido no
crime A Condenado no crime B. Da sentença
imposta, NÃO HAVERÁ remição do trabalho feito enquanto cumpriu a preventiva referente ao crime A.
se o reconhecimento dos dias trabalhados, ainda que em prisão domiciliar. Em se tratando de remição da pena é possível fazer uma interpretação extensiva em prol do preso e da sociedade. STJ. 6ª Turma. AgRg no REsp 1689353/SC, Rel. Min. Sebastião Reis Júnior, julgado em 06/02/2018.
Quero que você entenda uma coisa: é possível remir a pena se o trabalho foi realizado no final de semana - ainda que sem autorização do juízo?
Sim, veja o julgado abaixo do STJ:
DIZER O DIREITO: Se o preso, ainda que sem autorização do juízo ou da direção do estabelecimento prisional, efetivamente trabalhar nos domingos e feriados, esses dias deverão ser considerados no cálculo da remição da pena. STJ. 5ª Turma. HC 346948-RS, Rel. Min. Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 21/6/2016 (Info 586).
Importante lembrar que a remição não sofre influência da reincidência e da hediondez do crime na execução penal, pois isso já foi objeto de prova.
CAIU NA DPE-SC-2017-FCC: “Não sofrem influência da reincidência e da hediondez do crime na execução penal os seguintes direitos: remição e permissão de saída”.28
Esgotamos remição.
Vamos agora estudar o LIVRAMENTO CONDICIONAL, presente também em nosso edital.
LIVRAMENTO CONDICIONAL
O livramento condicional é um tema que incontáveis vezes esteve presente em provas de Defensoria. Na DPE-BA, por exemplo, diversas pessoas pegaram o tema livramento condicional na prova oral. E se repetiu na DPE- AP e na oral da DPE-MA. O tema é ainda mais importante quando se nota a modificação trazida pelo denominado
“Pacote Anticrime”, que comentaremos a seguir.
Vamos ao que interessa.
O livramento condicional tem previsão no Código Penal e na LEP. Muitos alunos estudam o livramento condicional apenas pelo Código Penal, e outros apenas pela LEP. Gente, tem que ser feito o diálogo das fontes, lembrem-se disso. Há informações relevantes em ambas as leis, certo?
Mas em síntese, e de maneira fácil, qual o conceito de livramento condicional?
Pessoal, o livramento condicional nada mais é do que um direito subjetivo (cuidado em dizer, em prova escrita ou oral, que é benefício) do apenado que foi condenado a pena igual ou superior a 2 anos, e que, preenchidos os requisitos legais, terá o direito à saída antecipada, razão pela qual permanecerá no chamado “período de prova”.
Em linhas gerais é isso. É um direito tal qual à progressão.
Veja o que estabelece Rodrigo Duque Estrada Roig:
(...) A classificação direitos públicos subjetivos de certa forma ignora o fosso existente entre o caráter vinculante desejado e a forma pela qual a execução penal, realisticamente, se ampara em critérios subjetivos e de conteúdo amplamente discricionário. De qualquer modo, transitando na esfera do dever-ser (direito público subjetivo) ou do ser (discricionariedade efetivamente vinculada), fato é que a subjetivação (administrativa ou
28 CORRETO.
judicial) não possui ascendência sobre a proteção de direitos humanos. O livramento condicional, assim como ocorre com outros direitos da execução penal, deve ser passível de reconhecimento de ofício pelo Juiz da execução. Sua denegação, por outro lado, não pode ocorrer de ofício, sob pena de nulidade, haja vista a necessidade de se assegurar ampla defesa ao condenado (art. 112, § 2º, da LEP). (GRIFOS NOSSOS).29
Imagine que o apenado foi condenado por roubo. Não houve possibilidade de aplicar a ele a substituição por pena restritiva de direito, tendo em vista a existência de violência e grave ameaça. Também não foi possível aplicar o sursis da pena previsto no art. 77 do Código Penal, porque a condenação foi superior a dois anos e o Juiz também entende que as circunstâncias do art. 59 eram desfavoráveis.
Ele iniciou o cumprimento da pena. Portanto, se ele cumprir os requisitos objetivos (fração mínima) e o requisito subjetivo (não cometimento de falta grave nos últimos 12 (doze) meses), ele terá direito a sair antes do tempo previsto. É um direito independente da progressão da pena, certo? Não confunda os institutos.
Continuemos.
Se o apenado consegue sair através do deferimento do livramento condicional, por quanto tempo ele ficará nesse período de prova?
É aqui que muitos erram. Cuidado com isso.
No livramento condicional o tempo do período de prova é o resto da pena a cumprir. Então se a condenação foi em 6 anos e ele cumpriu mais de 2 anos (+ 1/3), o período de prova será o restante (4 anos, por exemplo).
E se passar o período de prova e o livramento não for revogado?
Simples: extinção de punibilidade.
MOMENTO ALUNO-AMIGO: Vixe, RDP. Agora saquei! Ficou fácil demais! Dei valor agora! Livramento é só isso? Claro que não, kkkk. Há muito mais coisas, mas se você aprendeu isso, já está meio caminho andado. Vamos juntos?
#BORA
REQUISITOS DO LIVRAMENTO Vamos lá. Quais os requisitos do livramento condicional?
Há os requisitos objetivos e subjetivos:
REQUISITOS OBJETIVOS DO LIVRAMENTO CONDICIONAL
REQUISITOS SUBJETIVOS DO LIVRAMENTO CONDICIONAL (a) PPL igual ou superior a 2 (dois) anos.
(b) + 1/3 se não for reincidente em crime doloso + bons antecedentes
(c) + metade se for reincidente em doloso
(d) + mais 2/3 em hediondo ou equiparado – vedado ao reincidente específico.
(e) tenha reparado, salvo efetiva impossibilidade de fazê-lo, o dano causado pela infração.
(a) comprovado: a) bom comportamento durante a execução da pena; b) não cometimento de falta grave nos últimos 12 (doze) meses; c) bom desempenho no trabalho que lhe foi atribuído; e d) aptidão para prover a própria subsistência mediante trabalho honesto;
(b) para o condenado por crime doloso, cometido com violência ou grave ameaça à pessoa, a concessão do livramento ficará também subordinada à constatação de condições pessoais que façam presumir que o
29 Execução penal: teoria crítica/Rodrigo Duque Estrada Roig. – 4. ed. – São Paulo: Saraiva Educação, 2018, p. 208.