Palavras-chave: Dificuldades de aprendizagem. Psicodrama. Psicopedagogia.

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O PSICODRAMA COMO RECURSO PSICOPEDAGÓGICO

Silvana Monteiro Gondim Ligia de Carvalho Abões Vercelli Programa de Mestrado em Gestão e Práticas Educacionais (PROGEPE/Uninove)

Resumo

Esta pesquisa tem por objeto o psicodrama como recurso psicopedagógico. Tem por objetivo analisar se o psicodrama como recurso psicopedagógico proporciona o resgate da aprendizagem e da autoestima da criança que apresenta dificuldade de aprendizagem. Busca-se responder as seguintes perguntas: Como as crianças se sentem participando do psicodrama? Que mudanças elas perceberam nelas mesmas? Houve mudança em suas relações interpessoais? Elas têm mais autonomia ao realizarem suas atividades. Os professores percebem mudanças na aprendizagem das crianças? Para tal, realiza-se uma intervenção psicopedagógica com duração de 4 meses utilizando-se o psicodrama em uma Organização Não Governamental (ONG) situada na zona leste da cidade de São Paulo que atende crianças que apresentam dificuldades de aprendizagem. Os sujeitos são 8, a saber: um grupo de 4 crianças entre 7 e 8 anos e as 4 professores da escola regular nas quais as crianças estudam. A metodologia utilizada é de cunho qualitativo cujo instrumento de coleta de dados, além do psicodrama, é a entrevista semiestruturada com as 4 crianças e os 4 educadores. A pesquisa se fundamenta em autores que discutem as seguintes categorias: dificuldades de aprendizagem, Patto (1999), Weisz (2006); psicopedagogia (Fernández, 1990, 1994, 2001), Paín (1992), Bossa (1994), Visca (2002) psicodrama (Moreno, 1978), Kim (2008, 2009). Os dados parciais apontam que as crianças sentem-se totalmente à vontade durante o psicodrama, pois o mesmo favorece a espontaneidade e propicia uma experiência subjetiva, fato este que impulsiona as relações interpessoais. Houve melhora no processo de aprendizagem e, consequentemente, elevação da autoestima, uma vez que as crianças entram em contato com suas dificuldades e aprendem a enfrentá-las já que o recurso psicodramático possibilita externalizar os conflitos vividos no cotidiano que, possivelmente, bloqueiam a aprendizagem.

Palavras-chave: Dificuldades de aprendizagem. Psicodrama. Psicopedagogia.

Introdução

A aprendizagem é o processo por meio do qual a criança se apropria da experiência humana, ou seja, dos conhecimentos que adquire convivendo com seu grupo. Sem interação não há aprendizagem, portanto, adultos e/ou crianças mais experientes são fundantes nesse processo. Isso significa que a aprendizagem é uma modificação do comportamento do indivíduo em função da experiência.

As dificuldades de aprendizagem são ocasionadas tanto por problemas de funcionamento da escola como são devidas a fatores de ordem psicológica ou sociocultural. As crianças com baixo desempenho escolar, atribuem esse fato a si

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mesmas, apresentando sentimentos de vergonha, dúvidas sore sua capacidade, baixa estima e distanciamento das demandas escolares, ocasionando problemas emocionais e comportamentais. Quando isso ocorre, é necessário recorrer à psicopedagogia.

A psicopedagogia é um campo do conhecimento que se enquadra nas áreas da educação e da saúde e tem com objeto de estudo a aprendizagem humana e seus padrões evolutivos normais e patológicos. Segundo Mendes (1994, p. 16), a Psicopedagogia tem por definição,

[...] o trabalho com a aprendizagem, com o conhecimento, sua aquisição, desenvolvimento e distorções. Realiza este trabalho através de processos e estratégias que levam em conta a individualidade do aprendente. É uma práxis, portanto, comprometida com a melhoria das condições de aprendizagem.

Para que um trabalho psicopedagógico tenha sucesso, o profissional deverá considerar os aspectos físicos, emocionais, psicológicos e sociais do indivíduo. A intervenção do psicopedagogo pode se dar tanto institucionalmente com caráter preventivo quanto na clínica com caráter terapêutico. A psicopedagogia institucional, foco desta pesquisa, tem por objetivo prevenir as dificuldades de aprendizagem e, consequentemente, o fracasso escolar.

O trabalho do psicopedagogo institucional tem um caráter preventivo e ele deve contemplar a instituição escolar como um todo. Nesse sentido, Bossa (1999, p. 33) salienta que o psicopedagogo deve: auxiliar o professor e demais profissionais nas questões pedagógicas e psicopedagógicas; orientar os pais; colaborar com a direção para que haja um bom entrosamento entre todos os integrantes da instituição e, principalmente, dar respaldo à criança que esteja sofrendo, qualquer que seja a causa.

Existem crianças que encontram dificuldade desde o início da vida escolar, outras apresentam problemas em determinada época dessa trajetória. As dificuldades de aprendizagem causam sofrimento nas crianças e jovens e a escola torna-se um lugar desagradável quando deveria ser espaço de aprendizado e construção de conhecimento. Os fatores que causam as dificuldades de aprendizagem são múltiplos.

O psicodrama como recurso psicopedagógico

A Organização Não Governamental (ONG) na qual esta pesquisa está sendo desenvolvida localiza-se na zona leste da cidade de São Paulo e atende crianças e jovens

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por profissionais da educação e/ou assistentes sociais. Pode-se dizer que a maioria dessa população é extremamente carente e que sofre todo o tipo de exclusão.

Sabe-se que, atualmente, as escolas não têm cumprido seu papel social que é o de transmitir os conhecimentos adquiridos ao longo da história da humanidade e proporcionar a construção de novos conhecimentos e que, infelizmente, a dificuldade inicial de aprendizagem quando não solucionada a curto prazo torna-se em fracasso escolar o que dificulta a continuidade dos estudos, pois as crianças e jovens deixam de acreditar em seu potencial ferindo a autoestima.

A instituição ora mencionada oferece atendimento psicopedagógico o qual é realizado uma vez por semana com duração de 1 hora. Vale lembrar que todos os profissionais que nela trabalham são voluntários e, em função disso, não há como disponibilizar mais horários. A psicopedagoga tem formação em psicodrama e realiza seus atendimentos utilizando-se desse recurso.

O psicodrama é o nome dado á obra de Jacob Levy Moreno que denomina-se Socionomia, cujo método original de investigação foi uma modalidade de teatro, mais tarde chamado teatro espontâneo. Pode-se dizer que o psicodrama é um dos métodos de ação dramática que visa o desenvolvimento da espontaneidade e da criação da dramaturgia e da representatividade. Para Moreno (1993, p. 52) espontaneidade é “[...] a resposta adequada a uma situação nova ou a nova resposta a uma situação antiga”. Assim, o teatro espontâneo busca construir de forma coletiva e sob improvisação algo que se torne significativo para a pessoa ou grupo de pessoas que se submetem ao psicodrama. Visa propiciar uma experiência subjetiva que vá ao encontro das dificuldades vivenciadas no cotidiano.

De acordo com Fernández (2001), o trabalho psicopedagógico aliado ao psicodrama desperta através da brincadeira e jogos dramáticos, (vivências/ cenas- aqui e agora) outros mecanismos de raciocínio, como também a atividade de explorar a capacidade relacional. Apresenta-se a seguir duas atividades desenvolvidas com o grupo de crianças com o objetivo de, na primeira, desenvolver as relações interpessoais e, na segunda, a expressão dos sentimentos.

Atividade 1– dinâmica relacional

Fez-se aleatoriamente a escolha dos pares de crianças que vão apresentar-se um ao outro. Estabelece-se o tempo de 5 minutos para que elas possam conversar e buscar o máximo de informações sobre seu respectivo par. A seguir, as dupla se levantam dando

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inicio as apresentações. Após todos se apresentarem e serem representados sentam-se em círculo para compartilhar o que sentiram.

 Como foi ser apresentado pelo outro, é assim que eu me vejo?

 Como me senti apresentando (representando) outra pessoa?

 O que mais gostei nesta atividade? O que não gostei?

 Ao fazer este jogo penso/ sinto/ percebo. O quê?

Pode-se observar que ao expor sentimentos, o grupo se diverte representando o outro e a se ver apresentado, provocando a reflexão imediata de como o outro o vê, ou como ele se mostra. Essa atividade provocou risadas e fez com que as crianças se distraíssem e se soltassem, conhecendo mais um ao outro e podendo perceber aspectos de si próprios que não reconheciam.

Atividade 2 – Expressão dos sentimentos

Nessa atividade apresenta-se, em várias folhas, diferentes contornos de bonecos. Cada criança escolhe o que mais combinava consigo finalizando-o, ou seja, colocando as partes que faltam (olhos, boca, orelha, cabelo, coração, cabeça). Em seguida pintam e escrevem da forma como sabem em balões que estão colocados ao lado contorno o seguinte: o que penso (seta apontando a cabeça), o que sinto (seta apontando para o coração), o que vejo (seta apontando para os olhos) e assim por diante. Após as apresentações dos desenhos cada um pôde falar sobre seus sentimentos.

Essa atividade despertou vários sentimentos uma vez que muitas crianças vivem situações difíceis, tais como: perda dos pais, prisão dos pais, pobreza, falta de amor em casa, dificuldade na escola, entre outros.

Considerações

O psicodrama é um recurso que possibilita o resgate lúdico que para muitas das crianças atendidas não se faz presente. Assim, possibilita ressignificar aspectos subjetivos e permite que a criança seja o autor de suas interpretações. Como aponta Fernández essa técnica permite trabalhar com o corpo, com o organismo, com a inteligência e com o desejo.

As crianças percebem que são capazes de realizar ações e resolver problemas que na escola não conseguem fazer. Elas se dão conta que situações difíceis podem ser contornáveis e que depende delas encontrar estratégias para muitas questões das quais pensam não conseguir.

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Referências

BOSSA, Nadia A. A Psicopedagogia no Brasil: contribuições a partir da prática. Porto Alegre: Artes Médicas, 2000.

FERNÁNDEZ, Alicia. A Inteligência Aprisionada. Tradução Iara Rodrigues. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

__________________. A Mulher Escondida na Professora: uma leitura psicopedagógica do ser mulher, da corporalidade e da aprendizagem. Tradução Neusa Kern Hichel. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

__________________. Psicopedagogia em psicodrama: morando no brincar. Tradução de Yara Stela Rodrigues Avelar. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.

KIM, Leila Maria Vieira. Psicodrama e Intervenção Social. Revista Brasileira de

Psicodrama. v.17 / n. 2, São Paulo, 2009.

MENDES, Mônica Hoehne. A práxis brasileira, seus campos de atuação e sua

identidade. São Paulo: ABPp, 1994.

MORENO, J. L. Psicodrama. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Editora Pensamento – Cultrix, 1975.

__________________________. Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. Campinas, SP: Editorial Psy, 1993.

PAÍN, Sara. Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem. Tradução de Ana Maria Netto Machado. Porto Alegre: Artes Médicas, 1992.

PATTO, Maria Helena Souza. A Produção do Fracasso Escolar: histórias de submissão e rebeldia. – São Paulo: Casa do Psicólogo, 1999.

___________. Psicopedagogia: novas contribuições; organização. Tradução Andréa Morais, Maria Isabel Guimarães, Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1991.

VISCA, Jorge. Clínica Psicopedagógica. Epistemologia Convergente. Porto Alegre: Artes Médicas, 1987.

___________. Psicopedagogia: novas contribuições. Tradução Andréa Morais, Maria Isabel Guimarães, Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1991.

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