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Eu sou aquele e o outro eu.
Um demais. Aquele que elimina o outro.
Heiner Müller47
Consequentemente, se deve existir um princípio prático supremo e, no que se refere à vontade humana, um imperativo categórico, então é preciso que este seja tal que derive da concepção daquilo que, por ser um fim em si mesmo, é necessariamente um fim para todas as pessoas, um princípio objetivo da vontade, que pode servir como lei prática universal. ...
O imperativo prático será, portanto, o seguinte: aja de modo que trate a Humanidade, seja na sua própria pessoa, seja na pessoa de qualquer outro, sempre como fim, e nunca como um mero meio. Ve-jamos se isso é realizável.
Immanuel Kant48 [ l . p s ideais nobres e a vi? realidade _ _ _ ' ~ * . ~ ~ No ano de 1979, a Bundeszentrale fiir politische Bildung (Centro Federal de Educação Política) ofereceu um prêmio com o objetivo de incentivar "o trabalho
"'MÜLLER, Reiner. Die Schlacht. Szenen aus Deutschland [A batalha. Cenas alemãs], Ia cena. 48 KANT, Immanuel. Grundlegung zur Metaphysik der Sitten [Fundamentação para a metafísica dos
com direitos humanos na sala de aula".49 Deveriam ser inscritos planos de aulas e relatórios de experimentos. O resultado foi bastante fraco: foram enviados somente 26 trabalhos. Dois deles tratavam de temas (Judaísmo e diáspora, fome e popula-ção) que de fato tocavam o tema dos direitos humanos, porém não os abordavam de maneira direta e central. Dos 24 restantes, somente 5 foram concebidos para a aula de História, os demais sendo previstos para Estudos Sociais, Política, Alemão ou Filosofia. Nenhum dos 24 trabalhostinha uma ênfase histórica; na verdade, a Histó-ria foi tratada fugaz e muito sumaHistó-riamente. A brochura sobre o tema - produzida peTa propria Centraf Federal baseada em um colóquio , "Die Menschenrechte -eine Herausforderung der Erziehung"50 ["Os direitos humanos - um desafio para a educação"], não contém nenhum artigo que trate de algum tema histórico ou da au-la de História. Em 1986 a Central Federal para Educação Política, a pedido da comissão alemã da Unesco, editou uma série de 6 cadernos intitulada "Ferramentas para a educação política" sobre o tema dos direitos humanos.51 Nesta_série, há de fato um caderno inteiro (caderno 4) dedicado ao tema "Desenvolvimento históri-co"; contudo, quando. se_examjna esse caderno com cuidado, percebe-se que nem o aspecto temporal jignifícativo parado pensamentojhistórico e nem o pensamento de-senvõlvimentista têm papel significativo na escolha e na estruturação didática dos materiais.
Não há dúvidas quanto ao engajamento da Central Federal no trato dos direitos humanos no ambiente de ensino histórico-político das escolas e da educação de jovens e adultos. Contudo, a aula de História desempenha somente um papel
secun-dário nas publicações dedicadas a esse tema. Vejo nessa atitude mais do que somen-te a confluência casual de condições limitansomen-tes, mas sim urrí^smtoma) A aula de História parece ser poucojjreparada para dar vida à ideia de direitoshumanos na consciência de alunos e alunas.
Como é essa consciência? Uma pesquisa, feita por um dos concorrentes ao prê-mio mencionado anteriormente como preparação para sua aula (Curso prático de Ciências Sociais na última série ginasial), dá-nos alguma noção a respeito disso. Todos os doze alunos entrevistados responderam à pergunta: "Você já ouviu falar algo sobre direitos humanos durante a aula?" com "não". À pergunta: "Os direitos humanos na República Federal da Alemanha são obrigatórios com base em um
pro-49 SCHÄFER, Bernd; SCHULZE, Theodor (eds.) Menschenrechte im Unterricht. Analysen und Texte zu
einem Lehrpresausschreiben der Bundeszentrale för politische Bildung (Série de brochuras da Central
Fe-deral para Educação Política, v. 182). Bonn: 1982, p. 207, 50 Bonn, 1981.
51 Comissão Alemã da UNESCO (ed.). Direitos humanos. (6 cadernos). Bonn: 1986,2" ed. Caderno 1: Sozialer
Rechtsstaat-, Caderno 2: Ost-West Beziehungen; Caderno 3: Nord-Süd-Verhältnis; Caderno 4: Historische Entwicklung; Caderno 5: Interkulturelle Kommunikation; Caderno 6: Internationaler Schutz.
cesso judicial?", dez alunos deram a resposta errada "não", e somente dois deram a resposta correta "sim". Mais assustadora ainda é a resposta à pergunta: "Onde, na sua opinião, os direitos humanos são menos respeitados: na República Federal da Alemanha (RFA)? Nos países em desenvolvimento? Na República Democrática Alemã (RDA)?". Em ordem de frequência das respostas, tem-se: Io RDA, 2o RFA e 3o países em desenvolvimento.52
Os conhecimentos de alunos e alunas são (quem poderia esperar algo diferen-te?) assustadoramente limitados. Contudo, essa falta de conhecimento é despropor-cional à sensibilidade para problemas de direitos humanos e civis no próprio mun-do. À pergunta "Na sua opinião, na RFA há desrespeito aos direitos humanos por meio de medidas do Estado? Se sim, quais direitos são desrespeitados?", dez alunos responderam com o Radikalenerlaß* e dois com o agravamento da recusa a prestar serviço militar. A pesquisa provavelmente foi realizada em 1979 ou 1980; seus resul-tados, contudo, ainda podem ser representativos para a atualidade.
O desconhecimento do papel político e do desenvolvimento histórico dos direi-tos humanos e civis está em uma relação peculiarmente rompida com experiências relevantes para direitos humanos e civis, pontos de vista e expectativas na própria perspectiva de vida.
Os direitos humanos e civis aparecem na aula de História (pelo menos como evidenciado nos livros escolares utilizados), mesmo quando em geral não estão numjugarçgntral e obviamente como um fiorondútõr reconhecível d^a;xêndizado histórico. Como conteúdo de conhecimento histórico, contudo, eles parecem ser esquecidos com muita rapidez, /(razäo'para isso pode estar no fato de que o conhe-cimento sobrejt história dos direitos humanos e civis"não foi transmitido a alunos e alurms_em_relagão próxima com suas próprias perspectivas e orientações de vida. Mais que isso, os direitos humamSlTcJvIs^
jovens como princípios abstratos de Constituições modernas que parecem razoá-veis e certamente valem como consenso e encontram confirmação de todos. Contu-do, neles parece faltar vida no horizonte temporal no qual alunos e alunas dirigem suas próprias vidas. Os direitoshümanosT^vIFBécâém cõmoque num abismo entre, de um lado, princípios legais abstratos de Constituições modernas e concep-ções e convicconcep-ções políticas pessoais de outro.
Claramente, não é somente a falta de uma didática de direitos humanos adaptada em algumas matérias, e também não é essencialmente essa falta que carrega a culpa por esse abismo, por mais lamentável que essa falta seja, sobretudo na didática de
y 52 SCHÄFER, op. cit., p. 304ss. (nota 210)
* Decreto expedido em 1972 pelo chanceler Willy Brandt para banir servidores públicos envolvidos em atividades consideradas radicais, sobretudo comunistas (N. T.)
História. Essjabismojse baseia muito mais, e talvez principalmente, na experiência atual de que há uma contradição entre normas constitucionais de direitos humanos e a realidade politica. A maioria dos estados, nos quais os direitos humanos são siste-maticamente desrespeitados devido à manutenção do poder, têm uma Constituição com catálogos de direitos humanos e civis. A teoria constitucional e a realidade política divergem entre si, e isso é percebido como ruptura e contradição de manei-ra tão intensa quanto as regmanei-ras de direito constitucional são fundamental e detalhadamente formuladas e codificadas.53 Essa contradição tem que ser superada se o tema da História quiser ser mais do que um pedaçode^icorada retóncãpõIítP-ça de fundamentos constimciqnais; se quiser, portantp^
cidade dFjulgamento político e da lembrança histórica ativa na vida prática dos jovens. ComoisscTseria possível?
2. Lançando luzes a partir da tradição - a questão histórica
Os direitos humanos e civis têm um status tradicional elevado na cultura política da RFA. Pelo menos, em contraposição a eles, o caminho peculiar tomado pela Alemanha, segundo o qual o caráter nacional do alemão media o quanto sua cultura se diferenciava das democracias ocidentais, chegou ao seu fim. Ele desembocou na tradição de princípios políticos que torna a legitimidade do governo político dependente da manutenção de um cânone de direitos fundamentais. Todas as evidências -mesmo a sensibilidade, mencionada anteriormente, de alunos e alunas pela manu-tenção de seus direitos em uma vida determinada por eles mesmos em oposição a ataques do Estado - corroboram o fato de que essa tradição está firmemente ancora-da na cultura política ancora-da RFA. Contudo, tradições só serão tão valiosas e tão pode-rosas enquanto forem preservadas e aprimoradas. Aqui está o problgma decisivo de uma didática histórica dos direitos humanos: como os princípios de pensamento e argumentosdeterminantes dos direitos humanos e civis poderão se tornar grandezas orientadoras eficazes para uma vida prática, se seus interesses estão em relação peculllnmntFrompidá^cõm a exigência de~validade dos direitos fundamentais?
A forma como a codificação de direitos humanos e civis como regras constituci-onais deve ser lembrada depende de a tradição dessa codificação se fazer necessária para a superação de problemas do presente. Com isso, levanta-se o problema da orientação histórica do presente no pensamento guia dos direitos humanos e civis.
53 Um exemplo impressionante nos é dado pela Turquia: às violações notórias de direitos humanos na prática da justiça política opõe-se um catálogo de direitos humanos da nova Constituição (1982) que é incomumente diferenciado. É notável que nessa Constituição, antes mesmo da enumeração dos direitos humanos e civis individuais (artigo 17 e seguintes), há um artigo (art. 13) que trata da "Restriction of Fundamental Rights and Freedom" ["Restrição de direitos fundamentais e da liberdade"], (http://www.oefre.unibe.ch/law/icl/ tu_indx.html]. Turkey Constitucion (Adopted in: 1982) (Acessado em: dezembro de 2002).
O que a História traz para a cultura política do presente? O pensamento histórico como preservação da tradição é suficiente? Se essa pergunta for respondida com "sim", então os problemas do presente realmente urgentes - e esses são sempre problemas que extrapolam o potencial solucionador de tradições arraigadas de ação e pensamento políticos seriam desafios que não teriam nada de especial a ver com o pensamento sobre os direitos humanos. O s j p r ^ ^ do pre-sente apontam j ^ r a uma direção - se fossem extraíd^rdõ^nsameSõTistCTco como impulsos decisivos e fossem traduzidos em questões sobre o passado"-"que passa ao largo daÜiifóna dos~direiFosTiumanos e civis.
O que a área especializada diz a esse respeito? Claramente ela não é tocada por questões de direitos humanos e civis em suas mais novas expressões, em suas dis-cussões na vanguarda da pesquisa e também no seu papel público. Isso é surpreen-dente, porjiimsj^zões.jPrímeiroyporque a surpreendente contradição entre valida-de universal e violação amplamente difundida dos direitos humanos clama por es-clarecimentos que não podem ser dados sem que se recorra ao passado. Emysegun-JÕjugar, contudo, também porque o pensamento histórico tem sempre que se deba-ter com problemas relativos à sua dependência de ponto de vista, à sua base normativa e ao seu conteúdo de valor - e nesse caso osdireitos humanos poderiam oferecer-se comojjase normativa consensual para a construção de juízos históricos, sTnãõ se encontrassem justamente nesse peculiar estado de suspênslo^FvaiidadTIdêal e universal, em contraposição a interesses reais e mesmo privados. Os direitos h-umã^" nos e civis não desempenham nenhum papel especial como conteúdo do pensamen-to histórico na discussão atual sobre a concepção metódica da pesquisa histórica e a sua orientação para questões urgentes do presente. Tampouco são tematizadas e refletidas formalmente e como pontos de vista eficazes para a perspectivação e a construção de juízos históricas. É muito sintomático que a última grande investiga-ção científica se ocupando do problema desafiador da origem ocidental e da valida-de universal das normas básicas dos direitos humanos e civis seja uma tese valida-de livre-docência politológica (que não é nem mesmo histórica).54 Certamente tem sua par-cela de culpa o descrédito a que as questões de história intelectual e os métodos de investigação chegaram desde a virada das ciências humanas para as Ciências So-ciais, ejambém inintemip^tamente desde a gpva virada para a História da ex;periên-ciaejjara a Antropologia Histórica. Jçonfudquma vez que uma orientação histórica da práxis de vida atual certamente malpõãena subsistir tanto sem pontos de vista da qualidade "mental" quanto sem as normas básicas das Constituições, pode ter-se tornado há muito tempo obsoleto para o pensamento histórico reencontrar e
de-54 KÜHNHARDT, Ludger. Die Universalität der Menschenrechte. Studie zur ideengeschichtlichen
monstrar tais princípios e pontos de vista desse pensamento nas novas dimensões da experiência histórica, hoje em dia no primeiro plano do trabalho histórico de recor-dação.
Que luzes de uma orientação viável para o presente se deixam lançar a partir da tradição de direitos humanos da História moderna? Essa pergunta tem importância especial em uma época em que se debate seriamente se a época da Pós-Modernidade já não começou.55 Pois pelo menos a História política da Modernidade - que se ocupa do surgimento de Constituições modernas e da legitimação de governos polí-ticos - poderia enxergar fatores essenciais de modernização e modernidade nos prin-cípios de direitos humanos e civis. A Pós-Modernidade fica em evidência como designação de época das condições de vida atuais porque essas condições estão impregnadas em todas as áreas da vida por consequências indesejadas do processo de modernização que não só não se mostram como estimulantes da continuidade, mas sim como ameaças graves a uma vida digna e mesmo humana. Isso vale tendo-se em vista sobretudo a destruição progressiva dos recursos naturais de reprodução humana, mas também a crescente desigualdade entre o primeiro e o terceiro mun-dos, a corrida armamentista, crises de sentidos e coisas semelhantes. As esperanças de progresso que acompanharam o processo de desenvolvimento histórico para as nossas condições de vida atuais estão dispersas. Com ele, perdem muito em poder de convencimento as formas básicas do pensamento histórico que faziam com que a História mais recente fosse encarada como um processo de desenvolvimento para o presente que, em geral, era estímulo para a continuidade e tornava plausível a cor-respondente perspectiva futura de uma melhora das chances de vida humana.56 O caminho histórico para o nosso presente alcançou um ponto de inflexão no qual se mantém uma busca por novos guias, pois a antiga maneira de determinar a direção a ser seguida parece apontar para o caminho errado.
Essa dúvida histórica seria apropriada também com relação aos pontos de vista - essenciais para a História política da Modernidade - da legitimidade de regimes políticos, ou seja, com relação aos direitos humanos e civis? Até agora a dúvida pós-moderna com relação à viabilidade de princípios modernizantes da práxis de vida humana se cala frente aos direitos humanos e civis. Eles parecem prover ainda os pontos de vista mais provavelmente prospectivos da prática política a partir do potencial sensorial da Modernidade. Mas isso é assim mesmo? A auto-dúvida que assola (novamente) a cultura ocidental não se contém frente o universalismo dos
!S Cf. sobre isso RÜSEN, Jörn. "Historische Aufklärung im Angesicht der Post-Moderne: Geschichte im Zeitalter der 'neuen Unübersichtlichkeit'". In: Landeszentrale für politische Bildung Nordrhein-Westfalen (ed.). Streitfall deutsche Geschichte. Geschichts- und Gegenwa'rtsbewußtsein in den 80er Jahren. Essen: 1988, p. 17-38.
direitos humanos. Sem dúvida eles são produtos da cultura ocidental, e essa sua especificidade histórica é sentida cada vez mais significativamente como uma con-tradição da sua validade universal. Assim, será que uma recordação histórica das origens e do desenvolvimento deles só vai aprofundar a cisão entre princípios no-bres e a realidade profana que marca a consciência mais cotidiana sobre a peculia-ridade e o papel dos direitos humanos e civis?
Além disso, não está certo ainda se a dúvida torturante da capacidade progressi-va dos processos de desenvolvimento, que geraram a forma de vida das sociedades modernas altamente industrializadas, também não corrói a força de convencimento do pensamento sobre os direitos humanos. Hoje em dia não se pode mais defender argumentativamente uma Natureza do tipo que o Iluminismo pôde imaginar como instância apelativa e justificadora para suas concepções dos direitos universais do Homem. O que a substituiu?57 Além disso, os direitos humanos e civis não estão imunes a uma investigação crítico-ideológica que pode demonstrar que neles há concepções do Eu humano e da relação do Homem consigo mesmo e com a Nature-za que hoje em dia são consideradas como desastrosas condições mentais para as implicações negativas do processo de modernização. Também aqui uma análise his-tórica das condições sociais e mentais, sob as quais os princípios de direitos huma-nos e civis surgiram e puderam se afirmar, poderia contribuir para o enfraquecimen-to da atual força de convencimenenfraquecimen-to deles.
3. Força de validade a partir da recordação histórica
Creio que ao fim e ao cabo todas essas considerações não se sustentam. Elas deveriam aprimorar nossa visão sobre os direitos humanos e civis, deveriam incitar nosso questionamento histórico e dar a ele a pungente urgência de necessidades de orientação do presente, das quais podemos pressupor, com boas razões, que crian-ças e jovens também as têm. A experiência de que o governo tem que ser sistemati-camente limitado de maneira que formas humanas de vida sejam possíveis, e o argu-mento de que tais limitações estão inextricavelmente ligadas às reivindicações de legitimidade que o governo levanta (seja lá como isso seja feito): ambas as coisas poderiam ser parte integrante fundamental da consciência política e histórica de nosso tempo. Imagino que os alunos possam desenvolver uma sensibilidade moral mais elevada com relação a tais experiências e argumentos, do que a que possuem muitos adultos (e professores) assolados pela pressão experiencial da própria vida prática.
Essa experiência e convicção básicas podem ser o ponto de partida de uma re-cordação histórica dos direitos humanos e civis. O que pode ser conseguido com
uma tal recordação? Primeiramente ela fecha o abismo entre normas constitucio-nais superiores e a experiência política da realidade. Uma História dos direitos hu-manos e civis explica em que contextos políticos e sociais reais os direitos huhu-manos se tornaram fundamentos constitucionais, quais fins eles cumpriram, quais agrupa-mentos de que interesses eles afirmaram (ou não) e com base em que condições de vida cambiantes eles se modificaram em conteúdo e formulação. O pensamento histórico é um excelente antídoto contra a volatilização dos direitos humanos e civis nas alturas arrogantes do idealismo normativo. Ele a mantém na realidade, da qual se separam com muita facilidade sem a recordação histórica.
Mesmo o argumento da validade não é tão forte como possa parecer à primeira vista. Naturalmente há uma tensão interna entre a especificidade cultural dos direi-tos humanos e civis, de um lado, e, de outro, a sua validade universal. Eles são frutos culturais da árvore da história da modernização que gerou as condições atu-ais de vida, porém isso ainda não é um argumento convincente para relativizar sua validade. Pelo contrário: uma observação histórica pode arbitrar entre a compreen-são de condições específicas de surgimento e afirmação dos direitos humanos, de um lado, e, de outro, a reivindicação da sua validade universal e irrestrita. O pensa-mento histórico pode relativizar a própria relatividade dos direitos humanos e civis, à medida que essa relatividade elabore a concepção de um desenvolvimento tempo-ral que pode parecer um processo de universalização real da validade dos direitos humanos e civis, e ser aprisionado empiricamente. De fato, os direitos humanos e civis encontraram, desde o final do século XVIII até hoje, entrada em cada vez mais Constituições.
O problema do relativismo atinge somente a relação deles com as tradições es-pecíficas de povos e culturas não europeus que os absorveram como fundamentos para Constituições codificadas. Contudo, com isso se trata também do pensamento histórico, pois agora trata-se de demonstrar, nessas tradições e na gênese das condi-ções atuais de vida desses povos e culturas, fatores de uma obstinação histórica nos quais o princípio de direitos humanos possa ser enraizado e que os possa fortalecer minimamente. Sem argumentação histórica os direitos humanos e civis não se per-mitem aplicar em uma práxis política na qual as culturas não-ocidentais têm poder de vida.
De que histórias necessitamos?
Um pensamento histórico, que queira corresponder às experiências de presente de uma crise orientacional profunda no processo de modernização, deve primeira-mente dirigir sua atenção à própria História (eurdpeia-ocidental). Nesse processo não se deve dirigir a atenção somente ao período de tempo (relativamente curto) no qual os direitos humanos e civis se tornaram princípios constitucionais e se
afirma-ram como tais até alcançarem reconhecimento mundial. Devemos muito mais ques-tionarmos retrospectivamente para trás dessa época da Modernidade que começa a partir do século XVIII, porque a modernização ali predominante se tornou ques-tionável para nós como processo capaz de continuidade e de aceitação. Precisamos de um período de referência temporal mais profundo e mais amplo para a compre-ensão das possibilidades e dos limites do pensamento sobre os direitos humanos e civis. Devemos, portanto, ir até as raízes das concepções ocidentais de Humanida-de, e estas estão na Antiguidade e na Cristandade. Além disso, devemos ter em vista a antiga história colonial para podermos atestar nela se e como concepções transculturais de Humanidade se desenvolveram historicamente a partir das heran-ças antiga e cristã, e o quão forte era o seu apelo de validade.
E importante para o conteúdo dessa perspectiva que a crítica, que acompanhou o desenvolvimento e a afirmação dos princípios de direitos humanos como funda-mentos constitucionais, seja devidamente levada em conta. Os direitos humanos e civis deveriam ser lembrados juntamente com a problemática já criada na sua His-tória, de modo que as questões abertas do presente possam encontrar seu eco histó-rico. A experiência de outras culturas não se permite (mais) acomodar nessa pers-pectiva eurocêntrica.
Devemos, portanto, ir para além da perspectiva histórica ocidental e desenvol-ver pontos de vista sob os quais as outras culturas apareçam à luz das próprias tra-dições e valores. Só então a perspectiva europeia-ocidental poderá se ampliar para uma perspectiva histórica universal, e só com uma tal universalidade histórica é que o problema dos direitos humanos e civis do passado poderão ser tratados historica-mente de modo apropriado.58
No que concerne às formas do aprendizado histórico, nas quais os direitos hu-manos e civis possam ser apropriados, transmitidos e aprimorados como fatores eficazes de nossa cultura política, elas são muito particularmente definidas pelo fato de que se trata do desenvolvimento de uma consciência de normas e de valores por meio da experiência e da interpretação de dados históricos de uma maneira muito específica. Consciência temporal específica da História e consciência moral prática devem ser levadas em conta no tema de direitos humanos e civis como sen-do dimensões complementares da consciência histórica. O fator da importância his-tórica, normalmente implícito no aprendizado histórico, ou seja, o fator de convic-ções normativas, de critérios valiosos de julgamento, deve ser especialmente enfa-tizado, refletido e levado em consideração.
58 Tentei produzir uma fundamentação teórica sobre isso em: RÜSEN, Jörn. "Die Individualisierung des Allgemeinen - Theorieprobleme einer viergleichenden Universalgeschichte der Menschenrechte". In: .
Naturalmente, um programa como esses não pode ser descrito sistematicamente de modo satisfatório no âmbito deste trabalho. Terei que me contentar, no que se segue, em elencar palavras-chave e indicar argumentos que devem servir para pre-encher o quadro implicado de referências de uma educação de direitos humanos especificamente histórica. Que muitas coisas permaneçam como postulados nesse quadro de referências, encontra-se nas lacunas da literatura apropriada (na medida em que eu as ignoro).
4. Perspectiva histórica I: Europa
Os constituintes centrais da experiência histórica com os direitos humanos e civis são, naturalmente, a codificação destes nas revoluções burguesas "clássicas", a americana e a francesa. Neles pode-se não somente estudar o cânone dos direitos fundamentais democráticos de tipo ocidental, mas também (em uma interpretação histórica combinada social e conceituai) explicitar e esclarecer conceitos básicos políticos e sociais que indicam o surgimento, a afirmação e a formação das socie-dades burguesas: igualdade, liberdade e propriedade são os três conceitos-chave que fundamentam o pensamento burguês de direitos humanos. Trata-se da igualda-de formal (legal) igualda-de adquirir e gozar igualda-de propriedaigualda-de, em liberdaigualda-de do paternalismo estatal.
Um pensamento legal e político sobre os fundamentos de tais princípios e que tem a força de convencimento de argumentos que concernem à "natureza" humana se baseia em pré-condições histórico-intelectuais que remontam à Antiguidade. Te-mas clássicos são por isso facilmente concebíveis sob aspectos de direitos humanos para a aula de História. Isso vale para todas as épocas: a Antiguidade produz a concepção de uma natureza humana abstrata e universal que pode ser utilizada argumentativamente para o julgamento distanciado de condições humanas de vida concretas. Segundo os sofistas, foi especialmente a stoa que desenvolveu a ideia de uma igualdade de direito natural de todos os seres humanos.59 Esse conceito de Natureza tem um caráter metafísico; segundo ele, a individualidade humana é inter-pretada para além dos limites da imagética política particular em direção a uma igualdade e generalidade que tem dimensões cósmicas. Isso se desvia, de fato, da práxis política, contudo também se abre intelectualmente a possibilidade de julgar e de criticar a realidade política a partir de pontos de vista superiores e que conside-ram a humanidade das pessoas como uma característica natural universal.
59 Cf. FLÜCKIGER, Felix. Geschichte des Naturrechts. Vol. I: Altertum und Frühmittelalter. Zollikon: 1954; ILTING, Karl-Heinz: Naturrecht und Sittlichkeit. Begriffsgeschichtliche Studien. Stuttgart: 1983; CANCIK, Hubert. "Freiheit und Gleichheit. Die antiken Grundlagen der Menschenrechte". In: KEHRER, Günter (ed.).
"Vor Gott sind alle gleich ". Soziale Gleichheit, soziale Ungleichheit und die Religionen. Düsseldorf: 1983,
A Cristandade deu um novo caráter espiritual a essa dimensão metapolítica da individualidade humana, com o qual elevou o indivíduo à categoria de representan-te dessa dimensão metafísica. Ela deu à autocompreensão humana uma nova espiritualidade e uma dimensão subjetiva profunda: o conteúdo da fé - o fato de que Deus ele próprio assumiu a forma de um ser humano histórico individual, e que com ele e nele se tornou o sacrifício do domínio humano, de forma que o "Verbo" se tornou carne - preenche a força impulsionadora religiosa da criação do Homem com um novo potencial humanizador. De fato, a fé cristã não negou a desigualdade dos seres humanos em suas condições de vida terrena, porém relativizou todas as dife-renças entre as pessoas (exceto as de gênero) em favor de uma ampla humanidade presente em Cristo que foi destinada como mandamento do amor no convívio práti-co das pessoas práti-com suas diferenças em todas as áreas da vida. "Nisto não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; pois vós sois um em Cristo Jesus."60
A individualização cristã do caráter metafísico da Humanidade gerou só indire-tamente a concepção moderna de indivíduo como tema dos direitos humanos.61 O poder está ligado a condições invioláveis que podem ser codificadas na forma de um contrato entre dominantes e dominados; essa imagem do sancionamento legal do poder ganha importância política na Idade Média. Uma vez que tais "contratos de poder"62 (o mais famoso e eficaz deles é a Magna Carta de 19 de junho de 121563) prescrevem privilégios feudais, ou seja, a desigualdade; eles estão, em seu teor, em contradição direta com as concepções modernas de igualdade e de liberdade. Nos contratos de poder feudais trata-se de 'liberdades' distribuídas de maneira desigual, cuja manutenção legitima o poder e condiciona a aceitação dele, e não de uma liberdade garantida ao ser humano como ser humano. Essa liberdade era reservada à subjetividade religiosa. De fato, a Cristandade foi utilizada já na Antiguidade tardia como meio de legitimação do podèr; ela preservou, contudo (diferentemente do Islã), em suas instituições eclesiásticas um distanciamento do poder político, e não desenvolveu formas efetivas de teocracia. Em vez disso, ela restringiu religio-samente reivindicações políticas de poder e as colocou sob condições metapolíticas
60 Gálatas 3, 28 (em alemão, na tradução da Bíblia de Zurique; em português, na tradução Almeida Corrigida e Revisada Fiel). Max Weber identificou no "apagamento de todas as restrições rituais de nascimento para a comunidade da Eucaristia", típica para o Cristianismo antigo, "(...) o momento de concepção da 'burguesia' do Ocidente (...)" (Gesammelte Aufsätze zur Religionssoziologie. V. 2. Tübingen: 1923, p. 40 [tradução nossa]).
61 A discussão que se segue à tese relacionada de Jellinek está reunida em: SCHNUR, Roman (ed.). Zur
Geschichte der Erklärung der Menschenrechte. Dannstadt: 1964.
62 Cf. sobre isso VIERHAUS, Rudolf (ed.). Herrschaftsverträge, Wahlkapitulation, Fundamentalgesetze. Göttingen: 1977.
de legitimidade. Essas condições podiam ser inteipretadas então em termos de di-reitos humanos. Para isso, claramente o caráter metapolítico humano teve que ser concebido legalmente e agregado ao poder como instância legitimadora e crítica. Isso se deu no desenvolvimento do direito natural europeu e de uma teoria política que fundava (intelectualmente) o poder em um contrato entre dominantes e domina-dos que ligava o exercício do poder com o cumprimento de condições dentro do interesse do dominado.
A história antiga da colonização apresenta um teste à regra da limitação baseada no direito natural de reivindicações de poder: os estrangeiros e os Outros eram reconhecidos (teoricamente) em seu caráter humano (na forma de um litígio em frente do papa), e era-lhe concedida (teoricamente), como exigência, proteção ba-seada em direitos humanos contra a exploração colonial cruel. O fato de na prática as coisas acontecerem muito diferentemente do que na teoria não deve obscurecer o fato de que, com a concessão de um caráter humano positivamente qualificado tanto legal quanto religiosamente a Outros e a estrangeiros fora do círculo cultural, abriu-se a possibilidade de argumentações universalistas na legitimação do poder.
O período no limiar do século XVIII transformou esse universalismo em norma legal de fundamentos constitucionais positivos. Isso de fato não deu aos "outros" o
status político e social com o qual eles poderiam se anunciar e se afirmar como
sujeitos dos direitos humanos. Indígenas, negros e mulheres foram excluídos das oportunidades de ação que eram dadas pelas novas Constituições aos cidadãos (do sexo masculino e com posses). O raciocínio dos direitos humanos pela fundamenta-ção e limitafundamenta-ção dó poder política desenvolveu, contudo, sua própria dinâmica: os excluídos poderiam valer-se deles, uma vez que ninguém podia disputar sua indivi-dualidade. Eles se apropriaram então das chances de emancipação e de participação que os direitos humanos lhes proporcionavam em um longo processo contraditório de desenvolvimento. Esse processo persiste. Nesse desenvolvimento, as questões de gênero foram critério decisivo para saber se e em que medida a pretensão de universalidade dos direitos humanos se permite aplicar em uma relação real com as chances de participação no poder político. Primeiramente, a diferenciação funcio-nal entre os sexos - tradiciofuncio-nal e profundamente arraigada na mente, e que atribuía ao homem o verdadeiro campo de ação político acima e fora da família, e definia a mulher politicamente de acordo com o status de seu marido - funcionava como uma limitação natural para o alcance de validade dos direitos humanos e civis. As mu-lheres conseguiram, contudo, criticar longa e bem sucedidamente essa limitação como sendo injusta, recorrendo ao caráter abstrato e universal da natureza humana expressa legalmente, e também conseguiram, em um processo laborioso, lutar pela igualdade legal com o homem dentro do quadro de normas dos direitos humanos e civis e como parte dessas normas. Não restou às mulheres que trilharam esse
cami-nho da emancipação política do seu gênero nada além do que esgotar o potencial argumentativo de embasamento de direitos humanos da participação cidadã no po-der político pelo sexo feminino. A categoria de Humanidade abstrata e universal adotada para o próprio gênero não conteria uma relação patriarcal entre os sexos e, portanto, a feminilidade só poderia ser incluída de maneira reduzida nas relações sociais e políticas reguladas pelos direitos humanos e civis? Essa questão só pôde ser levantada seriamente depois que a igualdade dos sexos se afirmou no horizonte de pensamento sobre os direitos humanos e civis tradicionais.
Paralelamente à expansão interna dos direitos civis baseados em direitos huma-nos dentro dos estados, relacionada aos limites relativos à propriedade e aos sexos, corre um desenvolvimento histórico no qual cada vez mais estados produziram para si Constituições com catálogos de direitos humanos e civis. Esse desenvolvimento deixou claro quais consequências monstruosas de desumanidade manifesta devem ser esperadas se o poder político for removido dos fundamentos de legitimação do Iluminismo e do Liberalismo. A "Declaração Universal dos Direitos Humanos" das Nações Unidas, publicada em 10 de dezembro de 1948, foi o ápice e a expressão visível de que os direitos humanos e civis haviam se tornado princípios universais da fundamentação legal, da legitimação e da regulação do poder político e de for-mas sociais de vida. "Aqui aconteceu algo que até então ninguém achava que seria remotamente possível. Aqui tocou-se em uma camada profunda da solidariedade entre tudo o que o rosto humano pode trazer; presumira-se até então que a integrida-de integrida-dessa camada profunda - apesar integrida-de todas as bestialidaintegrida-des espontâneas da Histó-ria mundial - estivesse invisível. (...) Auschwitz modificou as condições para a con-tinuidade dos contextos históricos de vida - e isso não somente na Alemanha."64
i5. Perspectiva histórica II: complemento socialista ou alternativa
[comunista? • _ •
As concepções clássicas de direitos humanos são 'burguesas': elas são plausí-veis somente em um contexto social no qual a aquisição, a posse e a fruição de pro-priedade pode ser vista geralmente como uma chance reaíista de vida. Aqui nota-se um flanco aberto da concepção burguesa de direitos humanos: os direitos humanos valiam em última análise somente para cidadãos, e cidadãos em sentido pleno só poderiam ser aqueles que tivessem propriedades. Propriedade podia ser dada em forma de bens, ou adquirida por meio da educação ou do trabalho. Primeiramente, a polemizava-se se o salário como pagamento pelo trabalho representaria uma
pro-priedade definidora de capacidade política burguesa; ou seja, se o trabalho
riado preenchia as condições de propriedade às quais estava ligada a fruição dos direitos humanos. A dependência do direito de voto do censo e do sexo e a luta pela eliminação dessas dependências marcou o desenvolvimento dos direitos fundamen-tais no século XIX e nas primeiras décadas do século XX. No final desse desenvol-vimento está o direito igual e universal de voto para homens e mulheres adultos. Contudo, a questão da propriedade ficou em aberto: à medida em que a propriedade esteve ligada ao trabalho (assalariado), a qualidade de vida burguesa, que deveria garantir o fundamento de poder político com base em direitos humanos, dependia de a propriedade de força de trabalho - de que (potencialmente) todos os membros da sociedade dispunham livremente - poder ser aplicada também no ganho de salá-rio. Com a questão pelo Direito de trabalhar, o limite da concepção burguesa de direitos humanos tornou-se visível, e também experimentável de maneira aguda na vida pela classe dos trabalhadores e trabalhadoras assalariados que estava se for-mando.
Karl Marx, em seu artigo "Sobre a questão judaica" de 1843/44,65 havia critica-do as codificações de direitos humanos e civis como o sancionamento legal da for-ma econômica burguesa e capitalista. O "ser hufor-mano" dos direitos hufor-manos e o cidadão dos direitos civis não seriam nada diferentes do que o burguês da sociedade burguesa, cujo modo de vida é definido pela economia capitalista. Com a sua Cons-tituição alinhada aos direitos humanos e civis, o Estado moderno apenas assumiria a obrigação de permitir a essa economia se desenvolver livremente e de protegê-la em seu desenrolar imperturbado. (É notável que Max Weber, o grande antípoda de Karl Marx no que diz respeito à interpretação das sociedades modernas e às suas origens históricas, chegou a uma caracterização muito semelhante. Ele vê nos "di-reitos humanos e fundamentais as pré-condições para a operação livre da necessida-de do capital necessida-de se multiplicar com bens materiais e pessoas.")66
Os direitos humanos e civis parecem, à luz dessa crítica, lubrificante jurídico para a afirmação de formas econômicas e sociais capitalistas. Não obstante, eles serviram como símbolo da luta do movimento trabalhista por participação política e por melhoria social e econômica do padrão de vida das massas assalariadas: "A Internacional batalha pelo direito humano". A ideia dos direitos humanos, com a qual a forma de vida burguesa se formulava pela tríade igualdade, liberdade e pro-priedade, mostrou-se flexível e expansível o suficiente para se" tornar também o conceito-chave para o socialismo. Entende-se que, com isso, estavam implicados deslocamentos fundamentais quanto ao teor. Tratava-se das condições sociais para
65 MEW 1, p. 347-377.
66 WEBER, Max: Wirtschaft und Gesellschaft. Grundriß der Verstehenden Soziologie [Economia e
socie-dade. Fundamentos da sociologia compreensiva.] Edição de estudos,organizada por Johannes Winckelmann.
a ação política, da capacidade política que o ser humano tem sempre que possuir socialmente de ser cidadão em um estado que corresponda aos princípios de poder político baseados nos direitos humanos e civis. Essa habilitação social da capacida-de política, relevante em termos capacida-de direitos civis, tornou-se o cerne das capacida-demandas de direitos humanos com as quais o movimento trabalhista atuava. Quando o prole-tariado invocou os direitos humanos, ele lhes deu um valor social e os compreendeu como o projeto de uma alternativa humanamente digna para a exploração econômi-ca e a desgraça social. O Estado, para se legitimar em termos dos direitos humanos, ficou comprometido com a habilitação sociopolítica da liberdade do cidadão.
As novas exigências por seguridade social da capacidade política do cidadão 1 puderam se desenvolver e se afirmar politicamente ou como complemento ou,
con-tudo, como inversão do pensamento burguês clássico de direitos humanos. A pri-meira variante representa o socialismo democrático, a segunda, o marxismo-leninismo. No socialismo democrático trata-se de estruturar o poder estatal segundo os direitos humanos, de forma que ela esteja comprometida com a segurança social da vida do indivíduo, sem ao mesmo tempo ultrapassar a sua limitação relativa aos direitos civis. No destino da direito ao trabalho, pode-se seguir esse caminho de ex-pansão dos direitos humanos clássicos para direitos fundamentais: até hoje, não há, nos estados comprometidos segundo seus fundamentos constitucionais com os prin-cípios da restrição do poder com base nos direitos humanos, um direito ao trabalho desenvolvido e executável legalmente, mas existem tão-somente direitos sociais de proteção e auxílio para aqueles que não puderem obter os meios para levar uma vida responsável por meio da aplicação de sua propriedade de força de trabalho.
A variante comunista foi aplicada na Revolução russa. É pouco conhecido o fato de que o próprio Lênin encenara uma peça-resposta comunista contra as declara-ções de direitos humanos das revoludeclara-ções burguesas: "a declaração dos direitos do povo trabalhador e explorado".67 É um acontecimento político importante para a história mundial essa declaração na Revolução russa ter sido rejeitada pela assembleia constituinte - ou seja, o grêmio que era responsável pela promulgação da Constitui-ção de uma democracia burguesa - e depois aceita pelo, Congresso soviético de todos os russos - uma agremiação revolucionária contraditória segundo o ponto de vista burguês de representação política. Assim, a Revolução russa representa uma época própria na história do pensamento sobre os direitos humanos. Essa declara-ção se firma na negadeclara-ção do conceito de propriedade, central para a concepdeclara-ção burgue-sa de direitos humanos. Ela contém a socialização da propriedade, e garante (na for-ma de ufor-ma obrigação universal para o trabalho) trabalho como meio de subsistência
" Reproduzido em: HELLMANN, Manfred (ed.). Die russische Revolution 1917. 4' edição. Munique: 1964 p. 340-342.
a todos os membros do novo Estado. Essa concepção de direitos humanos não ex-pande simplesmente as concepções tradicionais das revoluções burguesas, mas na verdade as inverte: para garantia dos direitos sociais proclamados sobre proprieda-de social, é posto em funcionamento um sistema proprieda-de poproprieda-der político no qual as restri-ções burguesas quanto ao exercício do poder são completamente abandonadas.
Direitos humanos políticos sociais estão em uma relação claramente tensa; pois a garantia estatal de direitos básicos sociais, especialmente do direito ao trabalho, à livre escolha profissional e à educação, só parece ser possível ao custo de uma relativização substancial dos direitos humanos políticos que limitam sistematica-mente o poder estatal e garantem aos dominados um espaço interno social para uma vida autodefinida contra o paternalismo estatal. Essa relação de tensão se manteve na disputa entre Ocidente e Oriente pelos direitos humanos. Fica claro aí também onde a oposição entre Ocidente e Oriente parece ter sido transposta em declarações de direitos fundamentais vistas conjuntamente como vinculatórias: "direitos bur-gueses e políticos" e "direitos econômicos, sociais e culturais" só puderam ser acer-tados pela ONU em dois pactos internacionais separados (1966). Não existe uma concepção abrangente, que abarque ambos os aspectos de uma organização do po-der político baseada em direitos humanos e de condições sociais de vida, e que se permita preservar constitucionalmente.68
6. Perspectiva histórica III: as outras culturas
Nada é menos óbvio do que o fato de que as pessoas se reconhecem como iguais legalmente com base simplesmente na pertença à categoria da Humanidade. Nada é "mais natural" para o trato das pessoas umas com as outras do que se sentirem e se portarem como desiguais na relação umas com as outras. Não é Natureza que faz com que as pessoas sejam legalmente iguais, mas sim um processo histórico. Esse processo, que conduziu a sistemas normativos universalistas e "humanitários" com poder de lei em nível constitucional, é um processo europeu-ocidental. A primeira Declaração dos Direitos Humanos ainda esteve totalmente sob dominância europeia, e a institucionalização de provisões de proteção baseadas em direitos humanos teve seu maior avanço indiscutivelmente na Europa (ocidental).
O que significa essa origem europeia para os estados que estão no círculo cultu-ral não-ocidental? A proteção baseada nos direitos humanos da sua população
con-68 Uma síntese entre direitos civis individuais e sociais foi tentada pela "Freedom-Charter" na África do Sul, no documento-base do Movimento Anti-Apartheid (1955). É característico que essa síntese não tenha sido incluída na Constituição da África do Sul pós-apartheid. Sobre o Freedom-Cherter, cf. os artigos relaciona-dos em: RÜSEN, Jörn; VÖRÖS-RADEMACHER, Hildegard (eds.). Südafrika: Apartheid und Meschenrechte
tra opressão política e exploração social e econômica depende do seu grau de europeização? A pretensão de validade universal dos direitos humanos, que, pelo menos no nível dos princípios constitucionais (quando não também no nível de uma proteção legal efetiva), é reconhecida pela maioria dos estados, não tem que condu-zir a problemas de identidade cultural que não podem contar os direitos humanos e civis dentre os fatores efetivos de sua própria tradição? (Somente de passagem, gostaria de indicar que este também é um problema da parte histórica na identidade nacional dos alemães.)
Quando a ONU iniciou seus trabalhos na declaração universal dos direitos hu-manos, a Sociedade Antropológica Americana se viu obrigada a alertar a respeito de uma tal declaração.69 Ela via nela tão somente um ato de "imperialismo cultural" ocidental que roubaria das culturas não-ocidentais a sua individualidade e a sua especificidade, e as impediria de se integrar na comunidade de povos que estava em construção com seus próprios princípios de constituição social e política de suas vidas. Contudo, deve-se opor um relativismo cultural ao universalismo de normas de direitos humanos concebidas na Europa? Se for assim, com muita facilidade os direitos humanos podem ser reservados para alguns, e outros (com outra cultura - e em geral também com outra cor de pele) podem ser tratados sem eles.
A força de validade dos direitos humanos depende da medida em que estão ancorados historicamente na mentalidade de indivíduos e povos considerados. Se forem encarados como importações culturais estrangeiras, ou mesmo sentidos como ameaça xenofóbica da própria cultura política, então eles não terão futuro muito auspicioso. (Como exemplo, o direito de igualdade da mulher está se forçando no Islã).70 O produto da História europeia se deixa implantar na dimensão subjetiva profunda de culturas não-europeias, de maneira que ganha força efetiva de legiti-mação e crítica do poder político e de concepção de relações sociais? Essa pergun-ta não pode ser respondida sem uma argumenpergun-tação histórica, pois a força formativa de princípios mentais é matéria de desenvolvimentos históricos. Como se encaixam na História das culturas não-europeias? Podem esses princípios valer como funda-mentos de uma organização baseada em direitos humanos das relações políticas e sociais atuais?
Há duas respostas a essa pergunta: uma positiva, que foi formulada por intelec-tuais de cada cultura na exuberância do seu entusiasmo pela universalidade dos
" American Anthropologist Association, Statement on human rights. In: American Anthropologist, 1947, n. 49, p. 539-543.
70 Dessa forma, falta por exemplo uma passagem que trate da igualdade da mulher na declaração islâmica de direitos humanos, escrita segundo o modelo europeu, mas comprometida com a tradição islâmica. Cf. SA-LIM ABDULLAH, Muhammad (ed.). Islamische Mesnchenrechtserklãrung. Do mundo do Islã. Altenber-ge: 1982.
direitos humanos e civis.71 Sobretudo em conexão com as declarações e pactos das Nações Unidas, iniciou-se um trabalho vivo de interpretação e fundamentação no qual se procurou sobretudo a prova de que mesmo as culturas não-europeias dispu-nham de princípios de pensamento baseados em direitos humanos, com os quais desembocariam na ampla concepção intercultural de humanidade representada pela ONU e pelas suas declarações e acordos de direitos humanos.
Nesse ínterim, existem há muito tempo outras vozes, segundo as quais o entusi-asmo pela afirmação legal dos direitos humanos no mundo todo deu lugar a uma compreensão mais sóbria e a uma experiência quase deprimente da sua real afirma-ção. Ao mesmo tempo, o olhar sobre a singularidade histórica do pensamento euro-peu sobre direitos humanos e civis se tornou mais preciso. A alteridade das culturas não-europeias no seu trato com o poder político e com a desigualdade social tor-nou-se mais significativamente compreensível. A ideia de direitos humanos e civis não se permite derivar diretamente da tradição de culturas não-ocidentais e ser rela-cionada com ela assim sem mais.72 Não há nenhuma cultura não-ocidental cujo pen-samento político próprio, em seu desenvolvimento histórico, não tenha tenha toma-do um caminho em direção aos princípios de direitos humanos e civis que hoje (deveriam) valer mundialmente.
O otimismo apressado e o ceticismo sóbrio são ambos pouco convincentes, por-que ambos não têm aplicação aplicam historicamente suficiente. O otimismo tende a apagar diferenças históricas quando encontra analogias à concepção europeia de direitos humanos nas tradições legais e políticas de culturas não-europeias. O ceti-cismo tende a subestimar a historicidade que há nos modos diferentes de pensamen-to político e legal dessas culturas. Somente uma ligação metódica dos dois ponpensamen-tos de vista poderia dar conta do problema da suposição de validade universal e do po-der de convencimento culturalmente específico dos direitos humanos como um pro-blema histórico.
É errôneo encarar o pensamento europeu sobre direitos humanos como uma grandeza fixa que, uma vez surgida, permaneceu irreversivelmente inalterada e só teve um desenvolvimento histórico na medida em que sempre desenvolveu mais força de validade e encontrou aceitação. Na realidade, os princípios e as estruturas argumentativas do pensamento sobre direitos humanos e civis mudaram e se desen-volveram substancialmente com o passar do tempo. Um exemplo especialmente impressionante disso é a oposição entre a variante burguesa e a socialista, e também o fato de que uma transmissão de componentes políticos e sociais dos direitos hu-manos até hoje não foi realizada de maneira satisfatória.
71 P. ex. na Declaraçã o dos Direitos Humanos. Zurique: 1951.
Contudo, também é errôneo encarar como grandezas fixas as tradições legais e políticas das outras culturas e que se opõem ao pensamento ocidental sobre direitos humanos. Essas tradições se modificaram profundamente com o passar do tempo, e se modificam atualmente em uma velocidade de tirar o fôlego. Decisiva para a uni-versalidade dos direitos humanos é a questão de que direção essa mudança tomou e pode tomar. Em muitas culturas, pode-se conceber um caráter direcional bastante promissor e contínuo no desenvolvimento histórico de critérios de legitimação das condições humanas de vida. Ele conduz do particularismo ao universalismo, de formas muito restritas de identidade coletiva à orientação destas por princípios uni-versais, do animal totem à Humanidade.73
Claramente, cada concepção de Humanidade significativa é condicionada e li-mitada religiosa, política e socialmente, mas isso vale em princípio também para a tradição europeia de direitos humanos. Não importa como se parecem essas restri-ções individualmente: o que é decisivo é que há tendências e princípios de universa-lização da identidade cultural nas culturas não-europeias, como por exemplo o Con-fucionismo na cultura chinesa. Deve-se estabelecer (hermeneuticamente) um víncu-lo com essa tendências, se os direitos humanos e civis forem realmente ser covíncu-loca- coloca-dos interculturalmente em funcionamento.
Tendo em vista essas tendências e princípios, a influência dominante da racio-nalidade ocidental modernizante não precisa necessariamente representar um peri-go de estranhamento e de perda da individualidade. Ela pode ser encarada como um estimulante e um desafio para o aprimoramento dos princípios próprios do pensa-mento humanitário e de direitos humanos.
r
7 . 0 princípio do reconhecimento: universalidade na relatividade
Uma comparação cultural histórica que se refira aos direitos humanos e civis com relação às condições históricas e culturais do seu desenvolvimento, afirmação e aprimoramento, pode facilmente conduzir ao relativismo. Ele é quase inevitável quando uma tal comparação não se dá ela mesma sob os pontos de vista que tenham algo a ver com valorização dos direitos humanos. Contudo, que pontos de vista po-dem ser esses? Se fosse a normatividade do pensamento europeu sobre direitos hu-manos, então aparentemente só se trataria de uma comunicação intercultural; na realidade, a forma europeia já teria sido introduzida anteriormente como meta-nor-ma (e, com isso, imobilizada também em sua historicidade interna). Só pode se
tra-" Cito de maneira totalmente arbitrária um exemplo da cultura do Egito antigo: lá, os deuses zoomórficos tinham um caráter bastante local, enquanto que os antropomórficos tinham um caráter universal (BELTZ, Walter. Die Mythen der Ägypter. Munique: [s.d.], p. 14). Esse achado mostra, na minha opinião, a tendência já mencionada do particular ao universal. A História chinesa pode dar exemplos melhores ainda.
tar de um ponto de vista que unifique em si ao mesmo tempo a validação interna de expressões de direitos humanos específicas para cada cultura e um universalismo de sua validade que transcenda barreiras culturais.
Existe um princípio que faz algo parecido: o princípio do reconhecimento, que pode regular um discurso no qual se trate de identidade humana, da individualidade dos indivíduos, grupos, povos e culturas inteiras. Identidade é sempre particular, porém ela sobrevive ao ser reconhecida por cada um dos que são diferentes. No discurso intercultural sobre especificidade e validade dos direitos humanos, trata-se também de identidade cultural, ou seja, da particularidade individual de especificidade e alteridade na comunicação entre culturas. E, uma vez que, nessa comunicação, trate-se tanto da "mesmidade" [Eigensein] (e sempre também da alteridade do Outro), quanto também daquilo que é contudo comum aos diferentes, à medida em que pertencem à mesma categoria e (com base nas suas diferentes tradições individuais) e estão dispostos a atribuir a essa mesma pertença um eleva-do valor cultural, legal, político e meso religioso e civilizatório, trata-se de fato da unidade interna do que é ampla e universalmente humano e da sua expressão cul-tural específica.
O reconhecimento é um princípio que leva em conta sistematicamente a ambos, e dessa forma possibilita a aceitação no discurso sobre as diferenças entre a indivi-dualidade e a alteridade. Discursos interculturais sobre os direitos humanos e civis deveriam seguir uma regra que se baseasse no princípio do reconhecimento da vari-edade cultural, (uma tal regra discursiva não excluiria uma "interferência", mas definiria como ela deveria ser realizada).74 A práxis dos discursos assim regulados não se desenvolveu muito, contudo existem mesmo assim tradições de pensamento comprometidas com o princípio do reconhecimento e que tentaram realizá-lo em ações concretas. Estou pensando sobretudo na tradição do historicismo que desta-cou a diferença e o sentido intrínseco das culturas na unidade da Humanidade, e que também deu a essa unidade da Humanidade uma dimensão histórica, fazendo com que se pensasse nela como direção de mudanças temporais e se a corroborasse pela experiência histórica. Ranke formulou a concepção definitiva da seguinte maneira: "(...) Na aproximação das diferentes culturas e dos indivíduos em direção à ideia de Humanidade e de cultura, o progresso é algo necessário."75
Nessa dimensão intercultural, o pensamento histórico ganha uma orientação para o futuro extraordinariamente forte: ele organiza a experiência histórica do
desen-" Parece-me que Otfried Höffe segue essa linha de argumentação quando fundamenta e explicita os direitos humanos com base na teoria da comunicação. HÖFFE, Otfried. "Die Menschenrechte als Legitimation und kritischer Maßtab der Demokratie." In: SCHWARTLÄNDER,'-Johannes (ed.). Mesnchenrechte und
Demokratie. Interdisziplinäres Kolloquium 1978. Kehl: 1981, p. 241-274.
volvimento e do impedimento, da afirmação e da limitação do pensamento sobre direitos humanos e de seus pontos fracos e fortes nas relações sociais e no poder político, à luz de um processo histórico abrangente que aponta para o futuro - para um futuro no qual os direitos humanos e civis se tornarão princípios formadores da identidade cultural na comunicação intercultural. Essa perspectiva ainda é extrema-mente vazia, tanto como retomada do passado, quanto também como apego pelo futuro. O pensamento histórico pode e deve preenchê-la com a experiência do pas-sado, e a ação política poderia - apoiada por essa experiência - conceber uma parte desse futuro. Um momento dessa concepção - certamente um dos mais importantes, tendo em vista a longa duração dela - é um processo de educação e de formação no ' qual os direitos humanos ganham em forma e força como pontos de vista de cada geração que está crescendo e definindo sua própria identidade histórica e política.
8. Perspectiva histórica IV: a relação com a Natureza
Faz parte da capacidade de desenvolvimento do pensamento sobre direitos hu-manos a necessidade de se criticar as suas expressões históricas até então. Por meio da crítica, esse pensamento se torna sustentável. Não estou falando da crítica alter-nada - extremamente produtiva e esclarecedora do futuro - de concepções burguesa e socialista de direitos humanos, mas sim de uma crítica que trata de ambas em conjunto. Ela se dirige a uma relação dos seres humanos com a Natureza que é básica para todos e que contém em si mais coerção do que o que é acertado em contrato na desejada regulação humana do poder.
O pensamento moderno ocidental sobre direitos humanos se baseia numa antro-pologia que define a natureza humana, sua Humanidade, com base em uma relação de submissão da outra natureza, não-humana. Essa relação se torna significativa no papel que o trabalho desempenha no contexto de fundamentação dos direitos hu-manos e civis. Trabalho entendido como submissão da Natureza pelos seres huma-nos e como a sua apropriação como propriedade produzida para fruição da própria vida ("pursuit of happiness", como está na declaração americana dos direitos huma-nos): essa forma de vida é o que possibilita e ao mesmo tempo torna necessárias os regulamentos dos direitos humanos e civis. A contradição produtiva entre as con-cepções burguesa e socialista desses regulamentos não toca nessa pré-condição; na verdade, ela é comum a ambas. A Natureza é a mesma coisa para ambos: um objeto de exploração apropriadora ilimitada para a fruição da vida pelos seres humanos.
Uma vez que essa submissão da Natureza pelos seres humanos e a sua destrui-ção para a fruidestrui-ção da vida são elas mesmas naturais - natureza humana existe uma contradição interna no pensamento europeu sobre os direitos humanos: natureza contra natureza. No Homem, ela luta consigo mesma; no Homem ela se apresenta ' como relação de poder, submissão e exploração. Nos fundamentos antropológicos
do pensamento moderno sobre direitos humanos há também um pedaço de poder não esclarecido. Esse poder ainda precede e fundamenta o exercício do poder polí-tico e a construção social das relações interpessoais, cuja regulação é o tema dos di-reitos humanos e civis. Para o pensamento sobre didi-reitos humanos e civis da Mo-dernidade trata-se da legitimidade do poder política. Contudo, o poder pré-político que esse pensamento pressupõe em sua própria legitimidade, o poder do Homem sobre a Natureza (e sobre a sua própria natureza também), não está submetida a nenhum critério de legitimidade. Ela não está aberta para o debate, sem necessidade de justificação nem fundamentação.
Na categoria do trabalho, à qual é atribuída uma importância antropológica fun-damental em todas as suas expressões para o pensamento sobre direitos humanos, surge desimpedida e sem culpa essa relação de poder. No pensamento clássico do direito natural da Modernidade - como John Locke muito efetivamente formulara para as declarações de direitos humanos do final do século XVIII -, o trabalho era a fonte da fruição da vida. O trabalho realiza a liberdade e a igualdade, dadas ao Homem pela Natureza, de cultivar formas de vida humanas (e por isso também passíveis de regulação pelos direitos humanos e civis); ele faz com que a fruição da vida cresça a partir da liberdade e da igualdade, portanto é condição necessária para a autorrealização humana. Se, contudo, a produção dos bens necessários para a fruição da vida for progressivamente desligada do trabalho humano e se, igualmen-te, a submissão e a conversão da Natureza pelo trabalho em bens destinados à fruição conduzir à destruição das condições naturais mesmas da vida humana, então a rela-ção de poder do Homem sobre a Natureza, criada na antropologia do pensamento sobre direitos humanos baseada na categoria do trabalho, vai perder sua inocência antropológica. Ela se torna o problema de um poder cuja regulação ainda está para ser feita de maneira análoga à dos direitos humanos e civis.
Não se trata, nessa regulação, realmente de um problema meramente filosófico de uma contradição irresolvida na antropologia da Humanidade moderna, mas sim de um problema elementar e fundamental nas pré-condições de todas as regulações de direitos humanos e civis feitas até agora na vida política e social. Trata-se de um poder que era encarado na tradição do pensamento burguês e socialista sobre direi-tos humanos como sendo "natural", e para o qual não parecia haver nenhuma ne-cessidade de regulação. Pois o que é mais natural e óbvio do qüe b fato de que o ser humano deve submeter e se apropriar da Natureza por meio do trabalho, modifican-do-a para poder viver? Essa submissão da Natureza, contudo, tem sua própria His-tória, e recordá-la - hoje em dia, quando ela acéitou os horrores da ameaça elemen-tar às chances de sobrevivência humana - é uma das elemen-tarefas mais importantes do pensamento histórico. Ele é desafiado a realizar uma crítica ideológica do pensa-mento moderno sobre direitos humanos que transforme esse pensapensa-mento de uma
dialética não esclarecida e não superada do poder numa tentativa de superação do poder. Com isso, abrir-se-ia com a crítica do passado uma dimensão do futuro que compreenderia um novo caráter do pensamento sobre os direitos humanos: a Huma-nidade seria o critério de legitimidade do poder do Homem sobre a Natureza, ne-cessária à sobrevivência. A Natureza ganharia um direito sobre os seres humanos, para poder continuar ou vir a ser condição necessária para uma vida humanamente digna e regulada pelos direitos humanos. O direito natural do ser humano em sua Humanidade necessita do direito da Natureza sobre o ser humano.
A essas reflexões poder-se-ia acrescentar ainda uma interpretação dos direitos humanos baseada na história dos gêneros que ensinaria a enxergar de uma nova maneira a feminilidade como critério de exclusão para a capacidade política defini-da pelo direito civil: como um provável potencial de humanidefini-dade que poderia extrapolar os limites em que o trabalho enclausurou categoricamente a Natureza. Esse aspecto só foi trabalhado até agora em uma crítica ideológica que vê no fim do Iluminismo e dos conceitos de emancipação humana ligados a ele a única salvação (pós-moderna) do ser humano contra a catástrofe causada pelo uso da sua própria razão na relação com a Natureza.76 Nessa crítica ideológica, os direitos humanos e civis permanecem na esteira de tradições desgastadas. Não se sabe bem o que deve substituí-los e organizar constitucionalmente o poder político. Quem pode garantir uma fantasmagoria, mais esvaziada que refletida do poder feminino, como concep-ção de formas humanas de poder, se a experiência histórica não a trabalhou explici-tamente com as consequências políticas da crítica radical da civilização, mas sim corre o risco de repeti-la cegamente?77
; 9. Direitos humanos abordados didaticamente I: na gênese
1
de competências normativas
Processos de educação e formação nos quais se lida com direitos humanos e civis abordam o desenvolvimento da consciência moral, política e histórica em cri-anças e jovens. Neles constroem-se posições políticas de ação e normas em torno da identidade histórica e dos padrões temporais de orientação da própria vida prática. Adquire-se as habilidades de conceber pontos de vista de um tipo normativo e que forneçam direção de ação, de lidar com situações de ação política, de refletir no
médium da recordação histórica, de orientar a própria vida prática á elas e com elas,
e de construir a própria identidade histórica.
76 Por exemplo, HASSAUER, Friederike; ROOS, Peter. "Aufklärung: Futurologie oder Konkurs. Acht Behauptungen." In: RÜSEN, Jörn; LÄMMERT, Eberhard; GLOTZ, Peter (eds.). Die Zukunft der Auklärung. Frankfurt a.M: 1988, p. 40-47.
77 Cf. sobre isso FRANK, Manfred. Die Unhintergehbarkeit von Individualität. Reflexionen über Subjekt,
Para uma aula de História na qual se trate da formação e da aquisição de tais competências, deve haver uma concepção decisiva sobre de que forma elas se arti-culam ése desenvolvem. Pois elas devem ser justamente treinadas e refletidas siste-maticamente no trabalho com material histórico: as crianças e jovens têm que deba-ter os direitos humanos e civis como imagens normativas com pretensão de valida-de por si próprios, e com isso treinar e valida-desenvolver suas competências valida-de funda-mentação, explicação, aplicação e também de modificação de normas. Os direitos humanos e civis não podem surgir em sala de aula como meros fatos históricos, mas sim como princípios da construção de juízos de cada criança e jovem, ou seja, não somente como fatos objetivos, mas sim como fatos decididamente subjetivos. A didática da história ainda se ocupou pouco de uma tal subjetividade dos fatos histó-ricos.78 Aconselha-se atentar para o tipo da articulação dos direitos humanos e civis durante a preparação das aulas, e tematizá-Ia extensivamente como tal. Com isso, a teoria do desenvolvimento da consciência moral em crianças e jovens, desenvolvi-da por Kohlberg, pode ser de ajudesenvolvi-da.79 Com ela, podem ser diferenciados diferentes estágios de desenvolvimento da competência de juízo normativo, especialmente o estágio da competência convencional e da pós-convencional e regulada. Durante a aula, dever-se-ia tentar transformar formas de juízo convencionais em formas base-adas em princípios e regidas por regras, por meio da discussão da legitimidade do poder político e da aceitação das condições sociais de vida. As regras definidoras teriam de ser recriadas na experiência histórica, e explicitadas em e com essa expe-riência. Assim se alcançaria, na consciência moral de crianças e jovens, algo com o nível de uma argumentação baseada em direitos humanos. Antes disso, claramente, seria necessário indicar o enraizamento precedente de princípios de julgamento baseados em direitos humanos e civis dentro da cultura política apropriada pelas
" Jeismann fala dela como operação da consciência histórica da valorização, e como tal ela já foi introduzida na discussão especializada da didática de História. Sabemos, contudo, ainda muito pouco sobre como a competência da construção de juízos históricos valorativos pode ser aprendida e ensinada, e qual status ela tem na consciência moral das crianças e jovens. O estado de coisas se complica pelo fato de os procedimen-tos de construção histórica de juízos conduzidos por normas se realizarem em parte no nível- de operações cognitivas conscientes. Em outra parte, elas calam fundo em áreas do inconsciente que ainda foram muito pouco tratadas na didática de História. Sobre isso, KNIGGE, "Triviales " Geschichtsbewußtsein, op. cit. (nota 136). Para a criação de valores na aula de História, cf. também ROTHE, Valentine. Werteerziehung
und Geschichtsdidaktik. Ein Beitrag zu einer kritischen Werteerziehung im Geschichtsunterricht. Düsseldorf:
1987. Rothe se refere a interpretações evolutivas da psicologia do desenvolvimento da consciência moral. (J. Habermas, K. Eder) como sendo um argumento importante para a conexão entre consciência histórica e consciência moral. Infelizmente, essa conexão não se concretizou como teoria da consciência histórica, porém se limitou a correlacionar conteúdos históricos com operações morais de consciência. O que pode e deve ser aprendido historicamente, e como isso se dá? Esse problema de didática da História permanece subexposto, talvez porque Rothe deslocou possibilidades de "historização" da consciência moral por meio de sua áspera crítica ideológica ao historicismo. Rothe não aborda as dimensões precognitivas da consciên-cia histórica, importantes para a formação de valores.