Jornal de Estudos Espíritas 5, 010204 (2017) - (13pgs.) Volume 5 – 2017
As mulheres fortes do Espiritismo francês
Adriano Calsone
1 1São Caetano do Sul, SP e-mail:a [email protected]
(Recebido em 18 de Abril de 2017 e publicado em 05 de Julho de 2017).
RESUMO
Das muitas pessoas que participaram do nascimento do Espiritismo na França de Allan Kardec, ou mesmo os que estiveram à frente de sociedades espíritas, pouquíssimas foram as personalidades femininas que se destacaram. Dessas, vale ressaltar as atuações e contribuições espíritas de um importante trio, que desempenhou trabalhos originais e pouco reconhecidos na atualidade. São mulheres intelectuais, perscrutadoras e independentes, que deixaram seus legados às futuras gerações, especialmente na defesa da coerência doutrinária. Amélie-Gabrielle Boudet ou Madame Kardec (1795-1883) contribuiu à preservação das obras fundamentais da Doutrina, como tam-bém à memória de Allan Kardec, além de ter inaugurado sociedades espíritas e sido precursora na criação do que hoje conhecemos por comunicação social espírita. Bertha-Victoire-Alexandrine Thierry de Maugras ou Madame Berthe Fropo (1821-1898), por ter sido amiga íntima do casal Kardec, publicou importantes documentos e deze-nas de artigos com denúncias de corrupção e desvio de bens no meio espírita parisiense, além de ter contribuído à historiografia espírita deixando, documentados, dados biográficos inéditos sobre a vida e a obra da viúva Kar-dec e do movimento espírita francês. Senhorita Anna Blackwell (1816-1900) fora proficiente tradutora inglesa das obras fundamentais da Doutrina Espírita. Deixou um legado profissional impecável, colaborando também com a pesquisa historiográfica espírita, por meio de novas notas biográficas de Allan Kardec, que ela pesquisou in loco e publicou em seus trabalhos.
Palavras-Chave: Amélie-Gabrielle Boudet; viúva Kardec; Madame Berthe Fropo; Anna Blackwell; Espiritismo francês; período pós-Kardec.
DOI:10.22568/jee.v5.artn.010204
I
I
NTRODUÇÃOO presente artigo analisa como as espiritistas Amé-lie Boudet, Madame Berthe Fropo e Anna Blackwell, identificadas em nossas pesquisas como mulheres fortes que conviveram e trabalharam com Allan Kardec, se ar-ticularam entre si pela defesa do legado espírita1
con-tra as infilcon-trações sincréticas no Espiritismo via Revista Espírita, provindas de sistemas filosóficos que meio es-pírita francês (como fora o caso da teosofia2 e do
rous-tainguismo3) com a pretensão de “atualizar” os preceitos
espíritas estabelecidos pelos Espíritos superiores desde 1857, com o lançamento da primeira edição d’O Livro dos Espíritos, por Allan Kardec.
Observa ainda como essas intelectuais se organizaram para publicar suas refutações e depoimentos em
brochu-ras, jornais e revistas espíritas. Também como articula-ram denúncias públicas de corrupção supostamente pra-ticada por “amigos” espíritas de Kardec que o sucede-ram, além de analisar como essas rebateram teses ou sis-temas formulados por espiritualistas, livres-pensadores, filósofos, místicos e esotéricos europeus que insistiram, por décadas, na ambição de “modernizar Kardec” em nome da fraternidade universal, incutindo a ideia de um Espiritismo já ultrapassado em pleno século XIX.
Na seção II, a seguir, será mostrado como se deu a elaboração do luto da viúva Kardec e o que ela fez após a morte do marido para suportar a dor da perda do es-poso amado, diante de uma união inquebrantável de 37 anos. Em seguida, ainda na seção II, item 1, recupe-ramos um fato histórico inédito sobre a destinação dos documentos do Espiritismo francês, bem como do mon-1Entende-se por “legado espírita”, a preservação das disposições testamentárias da última vontade que Allan Kardec expressou, por exemplo, nos planos da Constituição Transitória do Espiritismo (Revista Espírita, dezembro de 1868). Compreende-se ainda por preser-vação do legado, o resguardo editorial contra possíveis deturpações da Literatura Espírita organizada por Kardec, incluindo as edições da Revista Espírita, as brochuras espíritas, separatas, cartas, manuscritos etc, além dos bens patrimoniais, pessoais e espíritas da família Kardec.
2A teosofia é uma doutrina secreta de caráter sincrético, místico e iniciático, acrescida eventualmente de reflexões filosóficas, que buscam o conhecimento das divindades para alcançar a elevação espiritual. Para saber mais sobre a enorme influência da Teosofia no Espiritismo francês do século XIX, sugerimos a leitura de nossa obra, Em nome de Kardec (2015), publicada pela Vivaluz Editora Espírita.
3O roustainguismo refere-se à escola de Jean-Baptiste Roustaing, um influente advogado da cidade de Bordeaux, na França, que co-ordenou a recepção de uma extensa obra concebida em volumes que foram intitulados, Os quatro evangelhos - revelação da revelação, ditados mecanicamente na década francesa de 1860, por supostos Espíritos evangelistas (Marcos, João, Mateus e Lucas) à médium belga Émilie Collignon. Os quatro evangelhos são considerados, portanto, um conjunto de obras não espíritas porque contradizem os preceitos espiritistas em diversos pontos vitais e fundamentais, como é o caso da reencarnação e da não retrogradação dos Espíritos. Os rustenistas defendem a ideologia milenar do Docetismo, sistema místico criado por cristãos primitivos que defendem, dentre outras teses sobrenaturais, a de que Jesus fora um ser agênere que esteve na Terra num corpo fluídico, e que a gravidez de Maria foi apenas de aparência.
tante de dinheiro e dos bens móveis e imóveis que estavam na residência dos Kardec em 1883. No item 2, de mesma seção, discutiremos o relevante trabalho da viúva Amé-lie na organização, preservação e distribuição das obras espíritas da Doutrina. No item 3, apresentaremos fon-tes primárias de autores diversos, confirmando acusações graves de que viúva Kardec sofreu preconceito e assédio moral por parte dos próprios amigos de Allan Kardec, após a morte desse.
Já na seção III, apresentaremos a desconhecida Ma-dame Berthe Fropo, que teve singular atuação no mo-vimento espírita francês, também como uma espécie de conselheira e amiga íntima da viúva Kardec, além de ter se tornado vice-presidente de uma instituição espírita, a União Espírita Francesa, que muito ajudou a denunciar e combater desvios doutrinários no Espiritismo do pós-Kardec.
Por fim, na seção IV, a profissional Anna Blackwell surge no meio espírita nascente como a primeira tradu-tora mulher das obras da Doutrina, além de ter sido hábil escritora e pesquisadora, revelando e publicando novos dados biográficos de Allan Kardec.
II
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LUTOS E LUTAS Depois da morte de Allan Kardec, ocorrida em 31 de março de 1869, as novas diretrizes da Sociedade Parisi-ense de Estudos Espíritas, que representavam a Doutrina na França, foram conduzidas por Amélie-Gabrielle Bou-det, à época com 74 anos de idade, herdeira direta de Allan Kardec, lúcida e ativa mulher que os espiritistas da época chamavam por Madame Kardec. Não seria em vão que Gabriel Delanne, num discurso4pronunciado emjaneiro de 1883 (no funeral dela), irá dizer que “Madame Allan Kardec foi - verdadeiramente - afemme forte (mu-lher forte) seguindo o Evangelho.” (LEYMARIE, 1883, p. 7).
O que poucos sabem dessa época é que a então viúva Amélie levou alguns anos para elaborar o seu luto. O próprio dia da desencarnação do marido pareceu ser dificílimo para ela, já que o acidente caseiro do mes-tre Kardec esteve longe de uma ocorrência natural. Por meio de nossas pesquisas primárias e secundárias, os fatos apontaram para uma queda fatal nas escadas do aparta-mento alugado do casal na passagem Sainte-Anne. Cons-tatamos que se tratou de uma ocorrência marcante para Amélie, como se o marido fosse retirado abruptamente da esposa e da grande família espírita mundial, sem tempo para explicações ou mesmo despedidas.
Um registro biográfico publicado no jornal Le Gau-lois, edição de 4 de abril de 1869, afirma que Kardec “no outro dia, ao sair de casa, caiu na escada simplesmente burguesa, golpeado pela apoplexia como os mortais mais comuns, e ele não se levantou[...]”. Atualmente, a apo-plexia é chamada de Acidente Vascular Cerebral (AVC),
popularmente conhecido por derrame.
Essa possibilidade de queda do mestre (registro mera-mente histórico, que não pode ser considerado definitivo nem conclusivo), publicada na mídia parisiense quatro dias após a fatalidade, pareceu de maior impacto psí-quico para viúva Kardec. Uma possível evidência disso pode ser lida na obra, Allan Kardec e sua época, em que o autor sugere como poderia ter sido o início da elaboração do luto de Amélie-Gabrielle Boudet:
– Amélie estava como uma estátua derrubada. Seus olhos, que miram para longe, não têm mais lágrimas. Está desesperada por ter estado ausente, por não ter podido segurar sua mão no momento supremo. Tinha ido de manhã cedo à rue de Lille, nova sede da So-ciedade, para reorganizá-la nas bases indicadas pelo marido. Quando, ao meio dia, voltou à rue
Sainte-Anne, que choque! Deixou-se cair no sofá e não saiu
mais dali. [...] (PRIEUR,2015, p. 292).
Relata, ainda, o centenário autor Jean Prieur que “as testemunhas do funeral não mencionam a presença de Amélie. Tudo indica que, física e moralmente afe-tada, ela tenha permanecido na residência alugada darue Sainte-Anne, voluntariamente, sozinha naquele dia e dias seguintes” (PRIEUR,2015, p. 297).
Numa das edições da Revista Espírita do início da dé-cada de 1880 é possível deduzirmos a “vida dependente” que Amélie levou no período pós-Kardec, com amarras diretas na elaboração de seu longo luto:
[...] – Madame Allan Kardec levava uma vida inde-pendente desde 1874, por isso, os membros da So-ciedade e o seu administrador não mais fizeram as visitas anuais à Villa Ségur; isso não foi um aban-dono de nossa parte, ou negligência por conveniência, mas porque havíamos constatado a sua sábia razão [...] (VAUTIER & JOLY,1883, p. 132).
Ao nosso entendimento, o trecho supracitado sugere que pelo menos, de 1869 a 1874, viúva Kardec vinha ela-borando o seu luto de maneira dependente. Mesmo com a estátua da alma despedaçada, enlutada por cinco anos, a femme forte recobrou ânimos à criação e manutenção de uma Sociedade Anônima (abril de 1869); à criação e manutenção do monumento fúnebre druida em homena-gem a Allan Kardec, no famoso cemitério Père-Lachaise (inaugurado em 31 de março de 1870); e à criação e ma-nutenção da Sociedade para a continuação das obras es-píritas de Allan Kardec (1873).
Mesmo em estado de luto, foi hábil empreendedora com visão para os negócios, talento conquistado com tra-balho e dedicação, já que administrou, por décadas, os vários imóveis deixados pelo seu finado pai, o sr. Boudet. À época, comentava-se que viúva K. detinha uma herança de 32 imóveis alugados em três localidades diferentes na França, permitindo uma renda anual de 8 a 10 mil fran-cos5 (FROPO, 1883). E para definir exatamente a sua
4Publicado também na Revista Espírita, edição de janeiro de 1883, pg. 1.
5Para termos uma ideia do valor da moeda francesa da época, consideraremos neste artigo a seguinte classificação, meramente ilustra-tiva: 583 francos mensais - média salarial do prof. Rivail até 1857, o que dava 7 mil francos anuais; de 1.000 a 10 mil francos - faixa das doações efetuadas ao Espiritismo; de 50 a 100 mil francos - “média fortuna”; acima de 500 mil francos -”grande fortuna”. A moeda Franco manteve-se estável de 1814 a 1914, mesmo com a influência devastadora das guerras e das revoluções endêmicas.
ocupação na sociedade, a prefeitura de Paris a conside-rou uma rentière (rentista), o que significava uma pessoa que tem rendas, que vive de suas rendas. Não há dúvidas que Amélie sabia lidar com problemas, pessoas, rendas e negócios.
Como afirmamos por meio das pesquisas, fora so-mente a partir de 1874 que ela passou a ter
independên-cia, como também a libertar-se gradativamente de seus trajes de luto. De seus três retratos existentes nos anais do Espiritismo, dois deles foram fotografados quando atingiu os 79 anos de idade e sugerem o processo de sua elaboração pelo típico vestuário de luto que ela utilizava diariamente (ver figuras1 e2 abaixo).
Figura 1: Amélie-Gabrielle Boudet aos 79 anos de idade. Fotos tiradas no estúdio de Buguet, tendo o espectro (falso) de Kardec aos fundos. Imagens encartadas na Revista Espírita, edição de janeiro de 1875, p.16. Da esq. para a dir.: Janeiro e maio de 1874. Esses retratos pertencem ao episódio do Processo dos Espíritas (1875), que colaborou para a desmoralização do movimento espírita na França.
Figura 2: Aos 87 anos de idade. Foto sem referência de publicação, tirada meses antes de desencarnar. Observa-se que, nesta época, já não há os trajes de luto.
II. 1 O auto-de-fé de 1883
O único depoimento existente sobre as circunstân-cias da desencarnação de Amélie-Gabrielle Boudet foi publicado numa brochura-protesto chamada Muita Luz6,
que comentaremos mais adiante. O que poucos sabiam à época, é que a autora, Madame Berthe Fropo, era amiga íntima de viúva Kardec e vinha cuidando de sua saúde no início da década de 1880. Num tom de desabafo, Fropo revela por meio de seu opúsculo o que exatamente acon-teceu na residência de villa Ségur. Vejamos um trecho:
– Na sexta-feira, dia 19 de janeiro de 1883, ela teve um mal súbito ao deixar a sua cama; ela caiu e bateu com a cabeça na quina do mármore de sua cômoda, o que a fez perder a consciência. Auxiliada por uma criada, eu a coloquei para deitar, mas pelo sorriso (trejeito) de sua boca, eu notei que ela teve uma congestão ce-rebral. Eu fui buscar o médico, que me declarou que ela estava perdida. (FROPO,1884, p. 27).
Portanto, no dia 21 de janeiro de 1883, aos 88 anos de idade, viúva Kardec partia para a espiritualidade, ao encontro de seu marido. Assim que o caixão de Amélie 6FROPO(1884). Beaucoup de lumière, Démosthènés. Paris. Obra originalmente publicada na língua francesa. Disponível em:
http://bit.ly/2kBJwQj.
7Leymarie ou M.P-G.L. (1827-1901) foi um republicano francês que se tornou amigo da família Kardec e médium de confiança da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Em 1870, ele se torna o mandatário (representante legal) de viúva Kardec, que o elegeu como o administrador de seus negócios, fazendo com que assumisse a posição tão almejada de redator-chefe e diretor da Revista Espírita, além de outorgar-lhe poderes para gerir a Livraria Espírita. Ofereceu-lhe uma espécie de salário de 3 mil francos por ano - o que dava parcos 250 francos ao mês. Em contrapartida, Leymarie exigiu que pagasse um adicional de 10% sobre as publicações espíritas que conseguisse vender e popularizar. Natural que todo mandatário deva exercer autonomia em suas funções, todavia, é diferente quando esse representante legal
foi baixado na sepultura druida do Pére-Lachaise, Pierre-Gaëtan Leymarie7, ao lado de sua comitiva, foi à Avenue
Ségur, no39, verificar a real dimensão da riqueza material
que havia naquela residência. Não é difícil deduzir que a casa resguardava uma boa parte da memória da Doutrina Espírita fundada pelos Kardec. Era preciso redobrar a vi-gilância para que nada fosse literalmente saqueado. Mas quem faria isso; quem tomaria esse cuidado?
De acordo com a maneira como Madame Fropo des-creve os acontecimentos pós-desencarne de Kardec, (ver a seguir) interpretamos que Leymarie rapidamente rom-peu os lacres das portas, como se aquele lar fosse o seu e o espólio kardecista lhe pertencesse a partir de agora. Ma-dame Fropo denunciará o seguinte, com palavras claras e precisas:
– Disseram que só o sr. Leymarie, ainda que sua famí-lia tivesse herdeiros, fez-se ajudado pelo sr. Vautier, tesoureiro e administrador da Sociedade, ao mesmo tempo em que trouxe o controle da herança para si. Não houve nem inventário, nem escritura pública, salvo as coisas fora de serviço que eles venderam aos sucateiros. Tudo isso que digo é apenas sobre o di-nheiro, e ainda fazem pouco valor de mim (FROPO, 1884, p. 29).
Se não houve nem inventário, nem escritura, o que deveriam ser essas “coisas fora de serviço”? Talvez sejam as relíquias da viúva, que foram desaparecendo grada-tivamente após o seu desencarne. Itens valiosíssimos lá estavam, como toda a sua coleção histórica de arte espí-rita e mediúnica, incluindo os incríveis desenhos mediú-nicos das paisagens de Júpiter, mediados por Victorien Sardou, desenhos e esculturas do médium Fabre, as oito pinturas espíritas de grandes dimensões do artista Mon-voisin (avaliadas em 5 mil francos), partituras mediúnicas inéditas, alguns exemplares lacrados da primeira edição de O Livro dos Espíritos (já raríssimos à época), docu-mentos pessoais, fotos de criança, de jovem e de adultos do casal, correspondências familiares e as trocadas com amigos, os trabalhos artísticos de Amélie, de décadas, como desenhos, gravuras, fotografias, esculturas, pintu-ras minimalistas das mais variadas, diplomas acadêmicos do casal, uma vasta biblioteca particular, além de todos os seus preciosos livros de arte e literatura em capa dura, publicados com honra e reconhecimento na sua fase bal-zaquiana de professora Boudet8. Sem incluir outras
cen-tenas de documentos e coleções espiritistas inestimáveis à memória do Espiritismo. Enfim, alguém tinha a obri-gação de preservar tudo isso! Era mais que um dever!
Berthe Fropo tinha razão: a maior parte dessa ex-tensa lista de pertences pessoais do casal Kardec foi ven-dida aos sucateiros. Quase tudo foi parar na sucata de algum ferro-velho parisiense, ou, na melhor das
hipóte-ses, vendido a preço de banana para antiquários ou mar-ché aux puces (mercado das pulgas). O resultado desse “incêndio” na historiografia espírita está aí hoje: quase nada se sabe ou se tem sobre a nossa vovó Kardec. E será mesmo que, depois de todas essas provas contun-dentes de Fropo, o sumiço (quase total) da memória do Espiritismo francês deve continuar recebendo aquela per-sistente justificativa de uma pilhagem nazista9?
Em verdade, o problema da depredação dos arquivos espiritistas ganhou um novo capítulo histórico depois de janeiro de 1883, em virtude da morte da viúva Kardec. Como acabamos de constatar pelos fatos de Fropo, sobre “as coisas fora de serviço”, muitos documentos e objetos particulares dos Kardec, especificamente os colecionáveis mediúnicos da viúva - reservados para um dia compor o engavetado Museu do Espiritismo -, lá estavam no inte-rior de Villa Ségur, a morada da própria família. A casa de Amélie, por si só, já podia ser considerada um respei-tável museu do Espiritismo, também das artes espírita e mediúnica.
Madame Berthe Fropo dirá, ainda, que, “além de ouro, havia na residência notas do banco, títulos de renda, de quem sr. Joly (gerente da Revista Espírita) foi capaz de observar ao meu lado. Demos prova tam-bém da presença de vários documentos no momento da instalação dos lacres” (FROPO, 1884, p. 45, parênteses nossos).
Berthe Fropo continuou a queixar-se por escrito em sua brochura Muita Luz, do descalabro e da devassa que realizariam por lá, após o precipitado rompimento dos lacres. Em suas constatações in loco, a casa térrea da viúva estava completamente ameaçada pelos antigos com-panheiros de Kardec. Misturando ironia com desespero, restou a ela apelar aos próprios esbulhadores:
– É função dos acionistas espíritas agirem agora para salvar os documentos e imóveis da villa Ségur que, na mente do mestre, estariam reservados a um abrigo espírita de idosos que ele queria construir lá. Além disso, estava previsto uma grande construção para tabelecer espaço para um museu e uma biblioteca es-píritas (FROPO,1884, p. 29).
Ao vasculharem os arquivos que resguardavam as me-mórias do casal, alguém acabou se confundindo, já que muitos achados do mestre, segundo relata Fropo, não es-caparam da devastação de um dos membros desse comitê da inquisição. Ela mesma nos revela quem era exata-mente esse livre-pensador:
– Mas o que me fez tremer de indignação foi assistir a um verdadeiro auto-de-fé. Senhor Vautier caminhava no jardim entre pilhas de papéis e cartas. Quantas co-municações interessantes, quantas anotações
deixa-toma iniciativas contrárias às ideias de sua representada sem, ao menos, ouvi-la e/ou comunicá-la das mudanças e decisões deixa-tomadas em seu nome. Pelas declarações de Fropo, concluímos que isso vinha acontecendo, há décadas, por meio das posturas controversas do mandatário Leymarie.
8Como professora e artista autodidata, Amélie publicou na década de 1820, três obras pedagógicas: Contos Primaveris (1825); Noções de Desenho (1826) e O essencial em Belas-Artes (1828). Esses trabalhos, que chegaram a ser reconhecidos e incorporados no ensino francês, infelizmente estão desaparecidos.
9Sobre este tema, sugerimos a leitura do artigo de João Donha, “O legado documental de Allan Kardec: queimado, escondido ou leiloado?”, que pode ser acessado em:https://palavraluz.wordpress.com/2016/07/17/arquivokardec/.
das pelo mestre. Tudo foi destruído (FROPO,1884, p. 29).
Madame Fropo é bem precisa quando menciona Vau-tier, o comerciante parisiense que ocupava um cargo-chave na Sociedade, o de administrador: “Senhor Vautier caminhava no jardim entre pilhas de papéis e cartas”. Ao que indica, tudo que esteve naquele jardim pode ter sido destruído. E a troco de quê? Por que não houve in-ventário, nem escritura? Por que tanta urgência em se desfazer dos documentos dos Kardec? Fica aqui, então, o mesmo questionamento que Allan Kardec fez na Revista, em sua edição de agosto de 1862, quando falou sobre a atrocidade que fora o Auto-de-fé de Barcelona: “Que po-deriam, pois, conter tais livros (nesse caso documentos) que merecessem a solenidade da fogueira?” (KARDEC,
1862, p. 319).
Ora, esses senhores inteligentes, instruídos, historia-dores e pesquisahistoria-dores natos, principalmente o sr. Ley-marie (que se tornará um dos primeiros biógrafos de Al-lan Kardec e que era a própria história viva da repú-blica francesa), deviam saber muito bem, diante do im-portante contexto histórico-espírita que os cercava, que não se atira em fogueiras, nem se pisoteia em jardins, ou mesmo se vende ao ferro-velho documentos, corres-pondências, objetos pessoais, relíquias literárias, obras das arte mediúnicas e não mediúnicas, entre outras pre-ciosidades espíritas que foram deixadas pelo casal mais importante do Espiritismo.
Logo Leymarie e o Comitê Fiscal da Sociedade dei-xam suas defesas publicadas contra as graves acusações de Fropo, diante de suas constatações, segundo ela, de um auto-de-fé em pleno jardim da residência da viúva Kardec:
– Não houve nenhum auto-de-fé de papel. Em 1873, Madame Allan Kardec, depois de uma reunião geral, decidiu doar à Sociedade todos os documentos e cor-respondências importantes do mestre, que deveriam ser conservadas. No jardim, só foram queimados os livros antigos das contabilidades do pensionato diri-gido por Allan Kardec, na sua chegada à Paris de 1830. Tratava-se de mais de duas mil composições de seus alunos, além de todas as coisas reconhecidas e completamente inúteis, após triagem. Você, Fropo, tem que ter a mente muito doente para se atrever a dizer que queimamos papéis importantes deixados pelo mestre. Que aberração! (LEYMARIE,1884, p. 19)
Como vimos, Madame Berthe documenta que cons-tatou a queima, sem critério algum, de pilhas de papéis e cartas com comunicações interessantes. Por sua vez, Ley-marie e o Comitê negam veementemente isso, afirmando tratar-se apenas de livros antigos das contabilidades do mestre.
Mas se nada de importante foi destruído, onde fo-ram parar os documentos familiares, pertences literários, trabalhos artísticos, coleções da arte espírita e mediú-nica, além das correspondências pessoais (e espíritas) de Amélie-Gabrielle Boudet? Por que não houve interesse, da parte desses continuadores que a rodearam, em pre-servar e divulgar sua historiografia? Por que a biografia
de Amélie-Gabrielle Boudet foi ignorada ao longo dos tempos, seja na França, seja no Brasil?
Talvez, essas perguntas possam ser respondidas por meio de uma análise histórica das atitudes e predileções místicas de Leymarie, movimentadas no meio espírita francês, que desenharam uma liderança extremamente partidária, forjada pelos interesses particulares (e ideo-lógicos) de um grupo de “acionistas espíritas” ligados à Sociedade Científica de Estudos Psicológicos, fundada e mantida por Leymarie. Essa liderança centralizada, que perdurou ao longo de décadas, parece ter sido capaz de selecionar, ou mesmo editar, apenas aquilo que o “partido leymarista” quis deixar à historiografia espírita mundial. Para exemplificar isso, vamos aos fatos: em 1873, Leymarie se consorciou com Blavatsky, escancarando as colunas editoriais da Revue à propagação das ideias teosóficas na França e fazendo do periódico de Kardec “uma abominável rapsódia, sob o pretexto de ecletismo”, como dirá Berthe Fropo. Em 1876, Leymarie fora conde-nado e preso pela justiça francesa como falsário, diante do episódio da fotografia dos Espíritos, que desaguou no histórico Le Procès des spirites (O Processo dos espíri-tas), denegrindo consequentemente a Doutrina Espírita, o que a faz ser considerada hoje na França como uma pseudorreligião. Em 1878, novo escândalo envolveu Ley-marie na fundação de uma Sociedade Teosófica dos Es-píritas Franceses - grupo não espírita que foi apoiado e defendido por ele à frente de sua Sociedade Científica de Estudos Psicológicos, com seu Boletim do Órgão do Movimento dos Livres-pensadores Religiosos e do Espiri-tualismo Moderno. Em meados de 1880, sr. Leymarie se filiou à enigmática Sociedade do Livre Pensamento Re-ligioso e à sociedade da Pneumatologia Universal, o que reforçou elementos secretos na Doutrina, além de serem contraditórios aos preceitos espíritas. Por fim, há uma série de evidências de que Leymarie e partidários expres-savam intenções sincréticas no Espiritismo, sistemas dis-tintos dos que Kardec e esposa pretendiam à propagação, divulgação e progresso do movimento espírita nascente. II. 2 A precursora da Comunicação Social
Es-pírita
Amélie-Gabrielle Boudet, em meio aos lutos vividos e lutas combatidas em prol da coerência doutrinária, foi a responsável por profissionalizar os precários meios de comercialização e de divulgação da Literatura Espírita, a fim de melhor distribuir as obras de seu marido dentro e fora da França. No último ano de sua vida, Allan Kardec solicitou um brevet de libraire (autorização de livreiro), o que tornou possível fiscalizar a publicação e distribuição de seus escritos pessoalmente. A viúva recebeu, então, no lugar do marido, essa mesma autorização para o con-trole comercial das obras herdadas - que se revelaram extraordinariamente populares a partir de 1869.
Pode-se afirmar, sem receios, que Madame Kardec foi pioneira na organização e valorização do que hoje co-nhecemos por Comunicação Social Espírita. Exemplos editoriais não faltam... Para recuperar clichês perdidos
nas tipografias parisienses, ou seja, para resgatar todo o material tipográfico das obras espíritas do marido, ela autorizou que batessem à porta da tipografia de Beau, a mesma que imprimiu O Livro dos Espíritos, e tive-ram que encarar o jovem idealista Alfred Didier, dono da Didier et cie, libraires-éditeurs. Negociou também com a tipografia parisiense de Rouge frères (os irmãos ruivos Dunon e Fresné), a fim de verificar com a dupla se havia por ali sobras tipográficas referentes aos livros organizados pelo mestre Kardec. Viúva Amélie autori-zou novas reedições das obras espíritas junto ao respei-tável Edouard-Henri Justin-Dentu, livreiro de romances populares e brochuras políticas, que mantinha sua livra-ria em Le Palais-Royal, Galérie d’Orléans, 13, na Paris literária. Ela rastreou com precisão, direta ou indireta-mente, o histórico de composição tipográfica das obras espíritas, tudo isso para que pudesse resguardar o im-portante patrimônio espiritista que poderia desvirtuar-se ou perder-se para sempre, o que garantiria futuras reim-pressões com segurança e respeito aos originais escritos e revistos pelo esposo amado.
Mas esse resgate resultou num preço alto a se pagar, e o ardiloso orçamento esteve nas mãos de Amélie-Boudet no segundo semestre de 1869. Para que a viúva pudesse recuperar, em nome de sua Sociedade da caixa geral e central do Espiritismo, todo o emaranhado tipográfico, incluindo as planches10possíveis de se localizar, ela teve
de desembolsar expressivos 10 mil francos11. Em 1884,
Leymarie revelou na Revista Espírita um valor muito acima desse, dizendo que ela teve de retirar da caixa da Sociedade a quantia de 25 mil francos para recuperar os clichês das obras fundamentais, especialmente os de O Livro dos Espíritose os de O Livro dos Médiuns, que “es-tavam muito desgastados por conta das sucessivas reim-pressões que perduraram por décadas”, como afirmou.
Outro acontecimento que passou (quase) desperce-bido nesta fase transitória do Espiritismo surgiu na ma-neira como as obras espíritas passaram a ser apresenta-das ao grande público. Antes de partir à Pátria Maior, Allan Kardec conseguiu deixar pronto o incrível Catá-logo racional que pode servir para fundar uma biblioteca espírita (KARDEC, 1869). Neste documento, com 31 páginas, ele elencou diversas publicações sobre a Dou-trina Espírita; apresentou também as que não eram espí-ritas, mas espiritualistas, incluindo uma menção generosa das Ouvrages contre le Spiritisme, ou seja, os livros cu-jos seus autores declaravam-se contra o Espiritismo na época. Mas o destaque deste engenhoso Catálogo está na classificação oficial daquilo que o mestre determinou como Obras fundamentais da Doutrina Espírita, por Al-lan Kardec. Em vez de ele considerar apenas O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese, como as cinco obras espíritas fundamentais, ele somou outras cinco: O
Que É o Espiritismo?, O Espiritismo em sua mais sim-ples expressão, Resumo da lei dos fenômenos espíritas, Caracteres da revelação espíritae, por fim, Viagem Espí-rita em 1862. Portanto, causando enorme estranhamento para nós espíritas da atualidade, as consideradas obras fundamentais do Espiritismodeveriam ser em número de dez e não apenas cinco. Para Kardec, toda a constituição de suas dez principais obras literárias deveria ser consi-derada fundamental para o Espiritismo.
E a possível explicação raciocinada para esta impor-tante mudança literária (sem qualquer aviso prévio ou explicação posterior) deu-se justamente no dia 9 de abril de 1869, data em que foi realizada a primeira Comissão para eleger a composição da nova Sociedade Anônima. Foram nomeados, para os anos de 1869-70, os senhores Levent, Malet, Canaguier, Ravan, Desliens, Alexandre Delanne e Tailleur, sob a presidência do senhor Malet. Acredita-se, então, que foi esta Comissão, com a autori-zação da viúva Kardec, que decidiu dividir a tabela de apresentação das obras espíritas, considerando as com-plementares como cinco, e as abrégés (resumos) como as demais.
Acreditamos ainda que os critérios adotados para esta separação definitiva, foram: 1o: o grupo chegou à
conclu-são que as cinco obras fundamentais constituíam o “corpo doutrinário” da Doutrina Espírita; 2o: o grupo chegou à
conclusão que deveria promover novo foco editorial, no-vas estratégias comerciais para novos tempos, também em virtude da grande popularidade de vendas das obras espíritas, consideradas como fundamentais. Mais tarde, os espíritas brasileiros passaram a chamá-las de “penta-teuco kardequiano”12- etimologia grega que evoca a ideia
do pentateuco bíblico, ou seja, os cinco primeiros livros que compõem o Velho Testamento. Isso acabou confe-rindo às obras um caráter “sagrado”, “revelado”, coisa que jamais se propuseram a ser.
Ainda no plano da Constituição Transitória do Espi-ritismo, elaborado por Kardec em 1868, além de o mestre ter cunhado a expressão, “obras fundamentais da Dou-trina”, ele deixou escrito que “quando a Doutrina estiver organizada pela constituição da Comissão central, nossas obras se tornarão a propriedade do Espiritismo na pes-soa dessa mesma comissão, que dela terá gerência e dará os cuidados necessários à sua publicação por meios mais próprios a popularizá-las” (KARDEC,1868, p. 527). Ou seja, se o mestre compreendeu que esta Comissão tinha competência para gerenciar as obras espíritas, logo, o grupo deveria organizá-las da maneira que bem enten-desse, a fim de popularizá-las o máximo possível por todos os meios legais que as leis francesas permitissem. Que ninguém lance labaredas em riste, acusando a nossa vovó Kardec de ter promovido um “desvio doutrinário” na organização das obras de seu marido, sendo que esta mudança editorial ficou a cargo de uma Comissão Cen-10O termo, “planches”:, ou “placas”, pode ser compreendido como as matrizes compostas pelos caracteres tipográficos que, grosso-modo, formam as manchas ou as áreas impressas nas páginas de um livro.
11“C’est Mme Kardec, qui a pajé 10.000 francs pour racheter les planches”, em tradução livre: “Está é a Sra. Kardec, que pagou 10 mil francos para resgatar as placas”. Dado informado numa nota de rodapé em:FROPO(1884). Beaucoup de lumière, Paris: Démosthènés.
12Uma das primeiras menções sobre esse termo (neologismo) no meio espírita brasileiro encontra-se publicado na revista Reformador, à edição de dezembro de 1985, pg. 35, sob o título de “A Doutrina Espírita ou o Espiritismo na obra do Codificador - O Pentateuco”.
tralelegida e composta pelos continuadores do legado da Doutrina dos Espíritos.
Uma qualidade valiosa da viúva Kardec foi a sua in-cessante vigilância. Discreta, ela permaneceu firme à frente da Doutrina por 13 longos anos, sempre comba-tendo ideias e teorias esdrúxulas que eram publicadas (sem o seu consentimento) na Revista Espírita. Para ter-mos uma ligeira noção dessas ousadias sincréticas, segui-dores espíritas da teosofia de Madame Blavatsky chega-ram a financiar obras teosóficas com dinheiro dos Kardec, além de manterem uma contraditória Société Théosophi-que des Spirites Français (Sociedade Teosófica dos Es-píritas Franceses) diante dos olhos de Amélie-Gabrielle Boudet. “Todos esses procedimentos desesperaram Ma-dame Kardec, mas que podia ela fazer sozinha, já que os membros do Comitê da Sociedade não compareciam às assembleias? [...]” (FROPO, 1884, p. 24). Essa e ou-tras denúncias de desprezo foram publicadas à época e permaneciam desconhecidas até os dias de hoje.
Em nossa recém-lançada biografia espírita Madame Kardec - a história que o tempo quase pagou(CALSONE,
2016) - fruto de pesquisas minuciosas em documentos iné-ditos -, o leitor poderá conferir novos dados biográficos da femme forte; constatará revelações inquietantes so-bre conluios inaceitáveis no Espiritismo francês; conhe-cerá outras minúcias sobre a morte e o funeral de nossa biografada e a relação desse desencarne com descaso e assédio moral da parte do rustenista Pierre-Gaëtan Ley-marie, o mandatário confiado para auxiliá-la. Descobrirá em que mãos (oportunistas) foram parar a herança da fa-mília Kardec, além de conhecer minuciosamente os lutos e as lutas dessa mulher incrível e batalhadora que tudo fez ao seu alcance para que a Doutrina não se perdesse num sincretismo avassalador, inacreditavelmente orques-trado pelos próprios continuadores do legado espírita, os mesmos que se auto-intitulavam “fiéis amigos” de Allan Kardec e de sua esposa.
II. 3 Preconceito e assédio moral
Diante de todas as iniciativas e conquistas editoriais em prol da Literatura Espírita nascente, ainda nos dias de hoje alguns espiritistas acreditam que viúva K. fora a “senhora dos brioches”, a burguesa doméstica e dis-pensável, ou mesmo a secretária apagada de um “chefe Kardec”. Por falta de interesse, talvez descaso, ou ausên-cia de conhecimento da historiografia espírita francesa, muitos confrades (e isso inclui também pesquisadores es-píritas sérios) sequer deduziram a importância e inten-sidade da força feminina projetada por Madame Kardec - a mesma mulher que financiou a publicação d’O Livro dos Espíritos(1857) e Revista Espírita (1858).
Em verdade, muitos franceses ajudaram Kardec em sua árdua tarefa de compilação d’O Livro dos Espíritos. Falamos, entretanto, de ajuda moral, intelectual, espiri-tual, como também mediúnica. Porém, de fato, quem
co-laborou financeiramente para tirar esse projeto editorial (audacioso) da superstição, foi a esposa. Um ano depois, Amélie incentivará o marido à publicação da primeira edi-ção da Revue, novamente cobrindo custos. Observa-se, a seguir, o tamanho de seu apoio moral: “Amélie Boudet superou as hesitações de Allan Kardec e decidiu enfrentar o ridículo, quando pressionou o marido para publicar a Revista Espírita de 1858.” (MAXSTADT,1883, p. 6).
Alguns estudiosos, por falta de estudo e pesquisa, sim-plesmente ignoraram o básico documental, o de que Amé-lie fora a esposa de Allan Kardec, constatação óbvia, cen-tenária, exaustivamente veiculada também por meio das certidões de casamento disponíveis na atualidade.
Mas desde abril de 1869, quando a viúva Kardec or-ganizou a Sociedade Anônima por meio de um capital de 40 mil francos divididos em 40 unidades de mil francos, cada qual para o bom funcionamento da Livraria, da Re-vuee das obras de Allan Kardec (PRIEUR,2015, p. 298), Amélie passou a sofrer assédio moral, inicialmente pela predominância machista que existia entre os membros da Sociedade Anônima, fundada pela viúva no pós-Kardec. Um dos muitos exemplos da falta de respeito, frente à presença feminina de Amélie no movimento espírita pari-siense, pode ser observado na total oposição às suas inici-ativas inovadoras e ao perfil empreendedor da respeitável senhora. Ainda no primeiro semestre do fatídico ano de 1869, quando Amélie (enlutada) fazia cumprir a Cons-tituição Transitória do Espiritismo, membros dissidentes chegaram a levar uma queixa às autoridades judiciárias de Paris, acusando viúva Kardec de ter acentuado um caráter comercial que a levaria, mais cedo ou mais tarde, a fazer uso da SPEE13.
Em verdade, o próprio Allan Kardec havia se afastado de sua Sociedade meses antes de sua morte. Angustiado, pela dedução de sua fala, o mestre desabafa o seguinte fogo-amigo, que vinha tentando apagar a alguns anos sem sucesso, no coração pulsante da sede da Sociedade que ele e a esposa fundaram:
– Traíram-me aqueles em quem eu mais confiança depositava, pagaram-me com a ingratidão aqueles a quem prestei serviços. A Sociedade de Paris se cons-tituiu foco de contínuas intrigas urdidas contra mim por aqueles mesmos que se declaravam a meu favor e que, de boa fisionomia na minha presença, pelas costas me golpeavam [...] (KARDEC,1993, p. 199).
Num discurso do senhor Leymarie, no cemitério Père-Lachaise, ocorrido em 3 de abril de 1887, o mesmo relata que Allan Kardec vinha pressentindo há tempos o desem-barque de um sincretismo na Doutrina nascente, também por meio das infinitas divergências ideológicas retempera-das entre os societários, naquele final da década de 1860:
– Allan Kardec, em seus derradeiros pensamentos, aqueles que ele não pôde retocar, registra que sofreu a paixão que animou os homens de sua equipe; cansado de lutar, fatigado pelas insinuações mentirosas,
desi-13A sigla SPEE significa Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Ao contrário do que se pensa hoje entre os pesquisados espíritas, a SPEE não se extinguiu em 3 de julho de 1869. Por meio das edições do jornal Le Spiritisme, ficou evidente pelos vários relatórios de reuniões, que a SPEE foi repassada e continuada por um espírita chamado capitão Bourgès, sob a vice-presidência de Emile Birmann. Pelas nossas estimativas, a histórica SPEE fundada pelos Kardec sobreviveu por décadas depois do desencarne do mestre.
ludido, ele deixou a Sociedade de estudos que criara, depois de ter renunciado, ou melhor, se demitido do cargo de presidente, não desejando dedicar-se a coisas estáveis senão depois de um ano de repouso. (LEY-MARIE,1884, p. 263).
Outras constatações de que Amélie fora rechaçada pe-los próprios amigos de Kardec - provas do desdém e da indiferença que mantinham por ela - podem ser observa-das na declaração de um kardecista chamado Carrier, que publicou uma carta no Journal Le Spiritisme, revelando esta fala inquietante atribuída à viúva Kardec:
– Eu parei de ir às reuniões do Comitê de leitura da Revista Espírita porque os senhores Leymarie e Vautier não tinham respeito por mim. Sempre que eu queria colocar as minhas opiniões, eles me faziam dura oposição, por isso eu tive que me retirar (CAR-RIER,1884, pgs. 4-5).
Surgiu, em Paris, mais de um espírita disposto a de-nunciar publicamente os tratamentos repulsivos que Ma-dame Kardec vinha sofrendo, principalmente da parte de sr. Pierre Gaëtan Leymarie. Provas de que o pai do sincretismo, como administrador-gerente da Sociedade, a tratou com desprezo - sob a égide do desrespeito -, estão claramente publicadas na brochura de Augustin Babin, outro parisiense afogueado diante dos tratamentos inter-pessoais inadmissíveis que constatava nos bastidores do Espiritismo francês. Sob o extenso título, Aviso biográfico contendo a classificação geral das principais dificuldades surgidas entre nossos ex-editores e nós, etc., o referido opúsculo, com 130 páginas, foi publicado em 1884 no for-mato de um largo desabafo14. Eis um trecho:
[...] - São esses nossos ex-editores, os tristes conti-nuadores da Sociedade de Allan Kardec, que muito perdeu a sua brancura imaculada depois da partida do mestre, a que honramos ter feito parte no tempo do ilustre e imortal iniciador da Doutrina Espírita, e que, infelizmente, nós continuamos a integrar após a sua morte. Dizemos, infelizmente, porque a dita Sociedade decaiu completamente, tanto na parte ad-ministrativa, como moralmente. Senhor Leymarie, o seu administrador-gerente, é absolutamente
anti-pático com a honorável viúva do mestre, e
tam-bém com o senhor Levent, que foi vice-presidente da referida Sociedade no tempo de Allan Kardec (BA-BIN,1884, p. 10). (Grifos meus).
Sociedade de Kardec que “muito perdeu a sua bran-cura imaculada depois da partida do mestre”? Leymarie “absolutamente antipático com a honorável viúva do mes-tre”? Certamente, algo de muito grave vinha ocorrendo no meio espírita francês do pós-Kardec:
[...] Madame Kardec teve, então, de sustentar lutas com o Comitê, pois suas observações não eram
escu-tadas; assim que ela censurava os artigos, eles a tra-tavam com pouco caso, o que a deixou doente. O desgosto e sua saúde já alterada fizeram com que ela não fosse mais à Sociedade, e fosse tão esquecida que o sr. Leymarie, seu mandatário, não lhe deu mais nenhuma satisfação [...] (FROPO,1884, p. 23).
Como visto, não apenas o senhor Babin, como tam-bém a corajosa Madame Berthe Fropo fora capaz de pu-blicar o que estava acontecendo, de fato, com viúva Amé-lie, ao constatar discrepâncias corrompíveis pousando na Revista Espírita, o periódico criado pelo marido, com os incentivos de Amélie.
III
M
ADAMEB
ERTHEF
ROPO-
A INTELEC-TUAL EXCLUÍDA
Pouquíssimas foram as mulheres espíritas que se des-tacaram na luta pela coerência doutrinária depois da desencarnação de Allan Kardec. Em verdade, no pós-Kardec, ainda se podia contar nos dedos as intelectuais que militavam ativamente no movimento espírita francês, sem medos ou receios de expor suas opiniões e verdades. No meio espírita parisiense, por exemplo, o número de mulheres espíritas não passava de uma dúzia entre cente-nas de homens que não raro, se desentendiam, na maioria das vezes por poder e destaque. Mas, apesar da predomi-nância masculina, todo o patrimônio espírita kardeciano acabou sendo legado a uma femme forte de 74 anos de idade, a distinta viúva do insigne mestre lionês.
Felizmente, Amélie não estava sozinha na luta em de-fesa dos princípios doutrinários deixados por Allan Kar-dec. Como vimos, ela teve uma amiga especial, a Ma-dame Berthe Fropo, que morava com o marido em Paris, no Boulevard des Invalides, no 48, distante menos de um
quilômetro da residência da Madame Allan Kardec. É preciso ressaltar que a inteligente Berthe pouco fora mencionada nos registros históricos ou biográficos do Es-piritismo mundial, seja no passado, seja na atualidade. O motivo de tamanha indiferença por esta importante personalidade espírita estaria, talvez, na sua ousadia em ter denunciado irresponsabilidades da parte de alguns di-rigentes que se diziam “espíritas”, levando a público os abusos, mandos e desmandos que ocorriam nos bastidores do Espiritismo francês. Nem todo mundo está disposto a preservar verdades inconvenientes...
Amiga do casal Kardec desde a década de 1850, Ma-dame Fropo tinha 50 anos de idade quando passou a fre-quentar assiduamente a casa de Amélie para cuidar de sua amiga enlutada, chegando inclusive a passar longa temporada a fim de acompanhá-la mais de perto. Toda-via, suas visitas e hospedagens regulares na Villa Ségur, no início da década de 1880, não visavam somente fazer companhia à amiga e confortá-la. No fundo havia dois fortes motivos: 1o: as sessões mediúnicas com a evocação 14Augustin Babin (literato respeitadíssimo no meio espírita francês) também publicou nessa brochura-protesto, acusações contra Ley-marie de ter falsificado três contratos sobre os seus direitos autorais. No documento, o ofendido Babin ressalta em detalhes as ações corruptíveis da “conduta infame desses senhores membros da indigna Sociedade”, como esbravejará em seu opúsculo.
15Utilizamos precavidamente a expressão suposto no sentido de hipótese, justamente por não termos a certeza, nos dias atuais, que se tratava mesmo do Espírito Kardec.
de Espíritos; 2o: elaboração de estratégias para a
reto-mada e a reconfiguração da Doutrina Espírita nos moldes originais de Allan Kardec.
A casa da viúva vinha servindo para as evocações do suposto Espírito15Allan Kardec que, segundo afirmavam
as duas amigas, se comunicava a fim de orientá-las sobre os melhores caminhos para proteger o Espiritismo da in-vasão de doutrinas místicas e das práticas exóticas, diante de um sincretismo sem limites.
Passados mais de dez anos da desencarnação de Kar-dec, mais precisamente em 1882, o movimento espí-rita declinava sem freios na França, enfrentando mui-tas dificuldades estruturais por conta de administrações equivocadas e corruptíveis16, que prenunciavam o fim da
Doutrina dos Espíritos naquele País. Os antigos ami-gos e companheiros de Kardec, pertencentes à saudosa Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, deixaram de coadunar com as proposições espíritas originais sugeridas pelo Codificador, propostas de jamais trair, mas resguar-dar as bases doutrinárias em sua beleza e originalidade, na seriedade do estudo desinteressado.
Sob a monoideia coletiva de que a Doutrina devesse ser cientificista, franqueou-se a abertura da Revista Es-píritaa diversos segmentos espiritualistas que trouxeram conceitos filosóficos divergentes dos preceitos espíritas. A maior ironia é que esses sincretismos foram permiti-dos pelos antigos dirigentes fundadores da mesma SPEE, como vimos, sem critério ou respeito algum às recomen-dações recorrentes da viúva de Allan Kardec.
Assim, a Revue Spirite, administrada por Pierre-Gaëtan Leymarie, passou a aceitar publicações estranhas, muitas delas aviltando o próprio Espiritismo, o que levou inevitavelmente à contradição conceitual das bases dou-trinárias em seus pontos vitais, afetando à época, por exemplo, o Controle Universal do Ensino dos Espíritos e até colocando em dúvida, por meio de cismas e desu-niões retumbantes, o método científico adotado por Kar-dec para edificar a Doutrina17.
Por conta desses conchavos ou permissividades sincré-ticas recorrentes, Madame Berthe Fropo e viúva Amélie Boudet aliaram-se a Gabriel Delanne e seus genitores Ale-xandre Delanne e Madame Delanne, para fundarem, no final de 1882, a União Espírita Francesa e o jornal Le Spiritisme, órgãos pioneiros da divulgação e da imprensa espírita que surgiam para defender a Doutrina em Kar-dec. Importantíssimo no combate aos desvirtuamentos doutrinários, esta espécie de “movimento reacionário”
li-derado pelo trio, Fropo-Amélie-Delanne, tentou resguar-dar a originalidade da Doutrina.
No final do século XIX, repleto de lutas ideológicas, mulheres espíritas francesas, como fora o caso das se-nhoras Berthe Fropo, Amélie-Gabrielle Boudet, Sophie-Rosen Dufaure, Angélique Arnaud, George Sand, Ale-xandrina Delanne e a senhorita Anna Blackwell18, dentre
outras poucas, levantavam alto e bom som a voz contra as ideias excêntricas que se infiltravam - indiscriminada-mente - na Doutrina.
Neste momento crítico do início da década de 1880, surge, então, Madame Berthe Fropo para publicar a sua brochura Muita Luz, com o objetivo de revelar abu-sos pessoais cometidos em nome do Espiritismo. Seu opúsculo “boca no trombone” aparece na Paris de 1884, para também denunciar as posturas obtusas do senhor Pierre-Gaëtan Leymarie que se dizia “espiritista”, mas era adepto e divulgador (no meio espírita) de outras cor-rentes místicas ou secretas, tais como o roustainguismo, a teosofia de Madame Blavatsky, a pneumatologia uni-versal, a sociedade do livre pensamento religioso, orga-nizações respeitáveis mas que surgiram com o interesse de introduzir suas ideologias na Doutrina dos Espíritos, pegando carona no sucesso editorial da Revista Espírita. Como vice-presidente da União Espírita Francesa (Gabriel Delanne era presidente), Berthe Fropo utili-zando sua pena contundente não economizou críticas em Muita Luz. Ao escrevê-las, ela colocou os espíritas do mundo inteiro a par do que vinha acontecendo no Espiri-tismo francês depois da desencarnação do mestre lionês. Desejou revelar às futuras gerações que as ações corrup-tíveis praticadas entre os membros da supracitada Soci-edade Científica de Estudos Psicológicos19, sob comando
de Leymarie, foi um dos motivos que teria adoentado a viúva octogenária, provocando a sua desencarnação no triste episódio caseiro de janeiro de 1883.
Berthe sabia, como ninguém, as amarguras pelas quais viúva Kardec vinha passando diante daqueles cem homens da Sociedade Científica. Boa parte desses socie-tários livres-pensadores acreditava e defendia (no papel) os ideais de uma mulher social e livre. Porém, no dia a dia, esses mesmos ideais não eram colocados em prática, permanecendo sempre distantes da realidade. Enquanto isso, outros trechos de denúncias contundentes partiam de Berthe Fropo:
16As denúncias de corrupção não partiram apenas de espíritas, mas também dos jornais parisienses, que acusaram a Sociedade Científica de Estudos Psicológicos, mantida por Leymarie, de ser uma sociedade criada à capter des successions, ou seja, inventada para capturar heranças. Outras denúncias recorrentes contra Leymarie e sua sociedade espiritualista versaram sobre a aceitação de artigos remunerados na Revue, além de repasses indiscriminados de procurações espíritas para conchavistas e partidários, sob o pretexto da melhor divulgação do Espiritismo e das obras de Kardec, cuja herdeira era a viúva.
17Em nossa obra Em Nome de Kardec (CALSONE,2015), elencamos os muitos artigos, ideologias e sistemas atentatórios aos preceitos espíritas estabelecidos pelos Espíritos Superiores que nortearam as obras da Doutrina.
18Com bastante recorrência, essas mulheres são mencionadas como espíritas em periódicos franceses do século XIX, como no jornal Le Spiritisme e na própria Revista Espírita fundada por Allan Kardec e sua esposa. Em Le Spiritisme, por exemplo, podemos encontrar vários artigos espíritas de defesa da Doutrina, escritos por Berthe Fropo, por Sophie-Rosen Dufaure e por Angélique Arnaud, além das mensagens mediúnicas de Alexandrina Delanne. Já na Revista, há informações sobre os trabalhos de tradução espírita da senhorita Anna Blackwell, assim com os da escritora espírita George Sand.
19Paralelo à oficial Sociedade Anônima (sociedade espírita criada pela viúva Kardec), senhor Leymarie criou essa não espírita SCEP, que trouxe muitos cismas à Doutrina justamente pelos partidarismos criados nos interesses de captações de “heranças espíritas”, assim como pelas parcerias místicas que foram facilitadas, com reflexos diretos na reputação da Revista Espírita.
– Assim, a luta era impossível para esta pobre amiga. Ela (viúva Kardec) não tinha do Comitê da Socie-dade Anônima para a propagação das obras de seu marido, mais que uma voz, e o sr. Leymarie rece-berá até 14 procurações de membros desse Comitê, os que moravam na província. Que me permitam di-zer o seguinte: ninguém que conheça aqueloutro que tenha aceitado um mandato, não tente defender esta Sociedade à propagação das obras do mestre, mas que tenha falhado ao dever mais sagrado, pois eles sabiam bem que era uma questão social e humanitária, e por suas indiferenças, por suas incúrias, tinham colocado a Doctrine en péril, a Doutrina em perigo (FROPO, 1884, p. 23-24).
No calor de suas anotações, ao revelar que 14 procura-ções pudessem sugerir a existência de um conluio de cor-ruptos dentro da Sociedade, tecerá críticas ainda mais di-recionadas, como esta: “Senhor Leymarie se sentiu mes-tre absoluto, e querendo, em sua pretensão orgulhosa, se passar por um cientista, aceitou todas as sociedades mais ou menos científicas” (FROPO,1884, p. 24).
Ainda sobre esse ponto de vista, o de Leymarie “se passar por um cientista”, observemos um trecho da crí-tica literária20 sobre o nosso livro Madame Kardec,
redi-gida e publicada pelo confrade mineiro Jáder Sampaio:
– Na medida em que se vai lendo, vê-se que Leyma-rie não tinha a formação necessária para
en-tender o alcance do trabalho de Kardec.
En-tendendo o espiritismo mais como movimento a ser tornado público que como doutrina filosófica, sem o mínimo conhecimento das ciências, ele vai fazendo as-sociações com Roustainguistas (Guérin), Teosofistas (Blavastsky) e outros espiritualismos, não importa
seu método de desenvolvimento da teoria, nem suas contradições com o exposto por Kardec em seu trabalho. Não sei se exagero, mas Calsone
parece perceber o efeito dos títulos que vão sendo con-cedidos a Leymarie, e de sua indiferença ante a ado-ção de adornos, como bandeiras cheias de imagens com significados simbólicos de Guérin. (Grifos meus)
Por várias citações pontuais, Fropo parecia saber muito bem o que vinha acontecendo com a Doutrina Es-pírita na França, numa época tão crítica e confusa para os espíritas que, atordoados, não tinham o direito de ser reconhecidos como - espíritas -, já que poderiam ser con-fundidos com místicos e magos de outras filosofias espiri-tualistas, as mesmas que agora desfilavam à vontade pela sincrética Revista Espírita.
Fropo provará, ainda, os porquês que levaram viúva Amélie a ficar acamada naquela segunda semana de um janeiro gelado de 1883. Ao adentrar o quarto da viúva, Berthe notou que sua amiga, ansiosa, olhava com grande tristeza para aquela colcha de retalhos em que havia se transformado a Revue depois da morte de seu marido. So-bre essas inquietações da alquebrada Amélie, dirá Fropo, mais que indignada:
– Quantas vezes minha pobre amiga me disse, mos-trando a Revista: “Dizem que esta poderia ser, um
dia, redigida por clérigos; todas essas doações de di-nheiro em troca de artigos são abomináveis e aviltam a nossa Doutrina; jamais meu marido pediu algo para alguém; tudo que ele fazia era com seus próprios re-cursos financeiros” (FROPO,1884, p. 26).
Porém, como vimos no contexto dessas tristes barga-nhas, Leymarie e seu Comitê recebiam, assinavam e au-torizavam, sem cerimônias, doações de dinheiro em troca de artigos - sem o consentimento da viúva Kardec, o que a deixou adoentada.
Em fevereiro de 1895, a então viúva Bertha-Victoire-Alexandrine Thierry de Maugras, a singular Berthe Fropo que todos imaginavam ter caído no anonimato, estava muito ativa e longe de qualquer ambição, partici-pando da Federação Espírita Universal, pertencente à So-ciété Fraternelle du Spiritisme, com sede à rue St-Denis, no 183, em Paris. Em 9 de novembro de 1898 ela
desen-carna aos 77 anos de idade. O jornal Le Progrès Spirite, do senhor Laurent de Faget, publicou a triste notícia da partida da “Joana d’Arc dos kardecistas”. Sob o título de Obituário de Madame Fropo, o editor Faget a recordou como “boa e respeitável espírita, que se tornara uma das mais valentes, fortes e defensoras da nossa causa”:
– Amiga devotada, sempre fiel do mestre e de sua companheira, ela gostava de recordar a memória do senhor e da senhora Allan Kardec - memória essa tão cara a todos os espíritas sinceros. Madame Fropo era a líder de um grupo kardecista e, todos os domin-gos, ela se reunia com seus vários amigos espíritas, juntando-se a um número seleto de iniciantes. Ela lembrou ou ensinou os mais altos princípios do Espi-ritismo, especialmente aproveitando o lado filosófico e moral de nossa Doutrina. Seu exemplo vale a pena seguir; a sua fé é para se admirar. Sua coragem não excluiu sua bondade: quantos infelizes foram conso-lados, apoiados, ajudados por ela, materialmente e moralmente! (FAGET,1898, p. 175).
Inspirado, o senhor Faget prestou esta justa homena-gem a uma das espiritistas mais interessantes que passou pela Doutrina francesa. Acreditamos, sinceramente, que viúva Berthe jamais pretendeu alimentar polêmica com a publicação de sua brochura Muita Luz, nem com seus muitos artigos pontiagudos lançados (por décadas) no pe-riódico Le Spiritisme. Pelo que observamos, ela também não buscou fama nem reconhecimento pela bravura e ou-sadia desinteressadas, em defender o Espiritismo.
E como não nos chegou (ou não deixaram chegar?) nenhuma fotografia da intelectual excluída para reavivar-mos sua memória visual aos espíritas contemporâneos, a recordamos subjetivamente por um símbolo histórico de que se valeu: a caneta bico-de-pena. A caneta de Fropo representa, no sentido puro dessa simbologia, o seu trabalho intelectual preciso e inquieto, na figura de vice-presidente da União Espírita Francesa, em prol da união de todos os espíritas do mundo. Temos convicção 20Publicado em 8.03.2017 no blog Espiritismo Comentado, sob o título: “Uma história de Amélie-Gabrielle Boudet”. Disponível em:
de que essa destemida mulher, em sua militância espírita, ressaltou o que era mais importante para a Doutrina Es-pírita naquele sombrio período pós-Kardec: a revelação da verdade mais próxima da verdade, além da preserva-ção da autenticidade espírita. Ela não exagerou quando reafirmava que a Doutrina estava em perigo...
IV
S
ENHORITAA
NNAB
LACKWELL-
Afemme forte
DA TRADUÇÃO ESPÍRITA O final dos anos 1870 mostrou ser a época de ouro das traduções das obras fundamentais e complementa-res organizadas pelo mestre. Na Espanha de 1876, por exemplo, um espírita chamado José de Fernandez decidiu bancar as traduções e as reimpressões dos cinco primeiros livros do Espiritismo. E o senhor Refugio Gonzalès, fun-dador da Sociedade Espírita do México, também vinha providenciando as traduções dessas mesmas obras, que passaram a estampar os seguintes títulos: El Libro de los Espíritus, El Libro de los Médiums, El Evangelio Según el Espiritismo, El Cielo y el Infierno e La Génesis. Na Viena desta época, sr. Delbez já havia traduzido O Livro dos Espíritospara o alemão. O médium, sr. J. G. Plate, de Arnhem, na Holanda, depois de uma viagem à Índia, em que foi capaz de constatar alguns fenômenos espiri-tuais, assim que retornou ao seu país de origem estudou com afinco os volumes organizados por Allan Kardec. E percebendo que a maioria dos espiritualistas holandeses não conhecia as obras espiritistas, ele acabou por colocá-las ao alcance dos que não falavam francês, patrocinando, assim, as traduções e as impressões dos livros fundamen-tais, como disse Plate, “às suas expensas e sem a menor vontade de tomar qualquer benefício” - expressão essa publicada num artigo da Revue chamado Tradução das obras de Allan Kardec, de dezembro de 1876.Curioso observar que a mesma matéria relata que o sr. Niceforo Filalete, editor do jornal Anne dello Spiritismo, de Turim, traduzia voluntariamente para o italiano, O Livro dos Espíritos. Enquanto isso, na distante Constan-tinopla, sr. Angelos Nicolaïdes transpunha para o grego, O Que É o Espiritismo?, como também, O Livro dos Es-píritos. Do outro lado do Atlântico, na América do Norte, os editores do jornal espiritualista Banner of Light (Ban-deira de Luz), os srs. Coiby e Rich, estavam vendendo a sexta edição, em inglês, de O Livro dos Médiuns. Apesar do ânimo inicial, diante de um enorme mercado editorial americano ainda por explorar (com mais de 1 milhão de potenciais leitores espiritualistas na década de 1870), eles já haviam esgotado as duas edições de O Livro dos Espíri-tos. Descendo o mapa-múndi, agora no Rio de Janeiro de 1875, Joaquim Carlos Travassos, ao lado de Casimir Lieu-taud, realizavam a primeira tradução para o português, de O Livro dos Espíritos, a partir da 20aedição francesa.
As demais obras empenhadas por Kardec foram traduzi-das pela dupla tupiniquim Travassos-Lieutaud, inacredi-tavelmente naquele mesmo ano.
De retorno à França, sabia a viúva Kardec, ao lado de seu mandatário Leymarie, que o teosofista Coronel Ol-cott, um dos fundadores da Sociedade Teosófica ao lado
de Madame Blavatsky, já havia alertado os espiritistas franceses, à distância, que as obras fundamentais da Dou-trina Espírita ainda não eram conhecidas e reconhecidas nos Estados Unidos por uma simples falta de tradução condigna do idioma francês para o inglês. Logicamente, sem compreender o que Allan Kardec desejava reportar sobre o Espiritismo, aos americanos (ou aos ingleses) por meio de suas obras, não se podia ajuizar valor ou dar importância aos ensinamentos universais dos Espíritos. Por essas e por outras, o espiritualismo moderno triun-fava por décadas sem concorrentes diretos na América do Norte e Inglaterra, negando descaradamente os seus espiritualistas, qualquer conceito de reencarnação com-preendido pelos espíritas europeus.
Por conta dessas emergências à tradução americana e inglesa das obras organizadas por Kardec, uma jornalista, poetisa e tradutora inglesa chamada Anna Blackwell, tornou-se o foco das atenções e interesses no quartel-general parisiense da Sociedade para a continuação das obras espíritas de Allan Kardec, a nova organização es-pírita parisiense, fundada pela viúva K. em 1878. Esta senhorita espírita de 40 anos de idade - lamentavelmente pouco conhecida no meio espírita atual -, compartilhou a intimidade dos Kardec, conhecendo muito bem os bas-tidores do Espiritismo francês do pós-Kardec. Ainda em 1869, aos 30, ela chegou a participar de algumas reuniões mediúnicas promovidas pela Sociedade Parisiense de Es-tudos Espíritas, tornando-se, posteriormente, uma cor-respondente ativa da Revista Espírita na Inglaterra. Já em 1875, Miss Blackwell - como era chamada pela viúva Amélie e por Leymarie -, havia traduzido, com maestria, para o idioma inglês britânico (e também para o ameri-cano), duas importantes obras espíritas organizadas pelo mestre: O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns.
Um britânico espiritista chamado Augustin Babin, autor de Trilogie spirite (Trilogia espírita) e de Caté-chisme psychologique et moral (Catecismo psicológico e moral), vendo o entusiasmo e a dedicação da profissional Blackwell com as obras espíritas, doou 5 mil francos à conclusão de seus trabalhos. Da França, P. -G. Leymarie previa que para se traduzir para o inglês as cinco obras fundamentais do mestre haveria a necessidade de uma arrecadação entre 25 a 30 mil francos, conforme os seus apelos lançados na Revista de janeiro de 1876. Outros pedidos de doações para este intento surgiram discreta-mente assim:
Após O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, entregues hoje aos editores ingleses, precisamos ra-pidamente imprimir o Evangelho Segundo o
Espiri-tismo, O Céu e o Infernoae A Gênese segundo o
Es-piritismo (sic), ou seja, as cinco obras fundamentais
que só podem fazer o bem ao introduzirem, em nossos irmãos americanos e da Grã-Bretanha, a importância capital dos trabalhos de um homem de mérito, a qual somos seus alunos agradecidos. Que este apelo seja ouvido e todos possam penetrar profundamente na grandeza do resultado que temos de alcançar; o tra-aPara esta relevante obra, publicada com 500 páginas,
Allan Kardec deu um título (inicial) de O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina Segundo o Espiritismo.
balho é comum e os espíritas esclarecidos devem nos ajudar a realizá-lo [...]. (LEYMARIE,1875, p. 3)
O apelo editorial de Leymarie foi ouvido por Lady Caithness, uma espírita-católica inglesa que também se convertera ao teosofismo. Duquesa de Pomar, como tam-bém era chamada esta rica mulher, ofereceu uma grande quantia em dinheiro para traduzir (ao inglês britânico) e imprimir os cinco volumes fundamentais organizados por Allan Kardec. Entretanto, como acusou Leymarie, a tradutora Blackwell, responsável imediata pela media-ção da doamedia-ção na Inglaterra, estranhou-se com Caithness. Segundo ele, só depois que senhorita Blackwell fez as pa-zes com a sincretista de Pomar, que foi possível receber parte de sua doação, colocando, enfim, a tradução in-glesa de O Livro dos Espíritos nas mãos de um tipógrafo de Edimburgo, a capital da Escócia, no Reino Unido.
Mas a valente senhorita Blackwell, que também era tradutora experiente de dezenas de outros trabalhos não espíritas para o inglês, provindos de vários autores de diferentes áreas do conhecimento, não se limitou ao seu ofício de tradutora. Como espiritista convicta, muito ca-prichou nas edições inglesas e americanas das obras espí-ritas, imprimindo, definitivamente, a sua brilhante per-sonalidade por meio de uma marca indelével nas tradu-ções, como foi o caso do belíssimo prefácio que escreveu em 1875, para a primeira edição inglesa de The Spirits’ Book21(O Livro dos Espíritos).
Figura 3: Blackwell aos 60 anos de idade. Fotografia re-tirada das cartas de visita no estúdio de Buguet, na Paris de 1876. Esse retrato também pertence ao episódio do Processo dos Espíritas. Ao fundo, o falso espectro de um Espírito. Fonte: http://bit.ly/2kjTVl3.
Como dito, a solteirona Blackwell não foi simples tra-dutora ou freelancer de ocasião, muito menos mera co-laboradora remunerada à distância, ela tornou-se uma grande propagadora da Literatura Espírita, a partir dos
primeiros dias de 1875, como aponta Leymarie. Viúva Kardec, por sua vez, reconhecia e aprovava as conquistas editoriais de Blackwell, seja por mérito de seus próprios esforços, seja pelos desprendimentos à causa espiritista. Em nossa opinião, os espíritas franceses não a reconhe-ceram como deveria, condignamente, no valor de uma femme forte da tradução espírita em terras inglesas.
Por meio da Revue, edição de setembro de 1876, en-cerramos o nosso artigo com um pequenino reconheci-mento, um dado biográfico valioso sobre Anna Blackwell, provindo justamente de Pierre-Gaëtan Leymarie, aquele que maldosamente a escarnecerá anos mais tarde:
– Embora traduzir fielmente, e de acordo com o gê-nio de cada idioma, seja um mérito tão raro, uma boa tradução é considerada como tendo o valor do livro original. Por conta disso, faremos o suficiente para agradecer Miss Anna Blackwell, pela sua dedicação à causa da instrução que preocupa milhões de homens, amigos da investigação e da verdade. [...] (LEYMA-RIE,1876, p. 293).
V
C
ONCLUSÃOConcluímos que, se o Espiritismo nascido na França ficou pouquíssimo conhecido nos Estados Unidos ou na Inglaterra (ou nunca foi reconhecido por ambos os po-vos), isso pode ser explicado por uma sucessão de erros, prejulgamentos à distância, menosprezos ao sexo femi-nino, descasos e descuidos editoriais sobre as traduções das obras de Kardec no estrangeiro, especialmente da parte do mandatário, o maçon M.P.G.L., que a partir de 1883, com o desencarne da viúve Amélie, passou a de-ter poderes de mando (e desmando) editorial de todas as obras de Kardec, incluindo as complementares, a Revista Espíritae demais publicações da Literatura Espírita.
Como se sabe, Leymarie esteve muito ocupado com suas conferências espiritualistas (em nome de Roustaing e de Blavatsky) para dar a devida importância às tradu-ções espíritas destinadas aos mercados editoriais ameri-cano e inglês, pois permanecia forjando o seu amálgama de ideologias sincréticas no coração da Doutrina Espí-rita. Essas misturas de elementos místicos e esotéricos, logicamente estranhas e atentatórias ao Espiritismo, in-felizmente ajudaram a descaracterizar os princípios bá-sicos da codificação kardeciana, prejudicando, por sua vez, o reconhecimento e o acesso da Literatura Espírita a uma multidão de leitores estrangeiros, principalmente os americanos e os ingleses, como insistentemente apontou a esforçada Miss Anna Blackwell.
Correspondências de Anna Blackwell discutindo com Leymarie e com seus conchavistas da Sociedade foram publicadas na brochura Muita Luz que, por sua vez, in-crivelmente revela uma espécie de Demonstração dos va-lores gastos por Miss Blackwell para a continuação das obras de Allan Kardec22, como ela mesma intitulou.
21À título de curiosidade, de 1988 até os dias atuais, a Federação Espírita Brasileira já publicou 41 mil exemplares em 8 edições de The Spirits’ Book (O Livro dos Espíritos) e The Mediums’ Book (O Livro dos Médiuns), traduzidos originalmente por Miss Anna Blackwell. Esta robusta estatística foi enviada, para nós, pelo Departamento de Documentos Patrimoniais do Livro da FEB.