A navegação consulta e descarregamento dos títulos inseridos nas Bibliotecas Digitais UC Digitalis, UC Pombalina e UC Impactum, pressupõem a aceitação plena e sem reservas dos Termos e Condições de Uso destas Bibliotecas Digitais, disponíveis em https://digitalis.uc.pt/pt-pt/termos.
Conforme exposto nos referidos Termos e Condições de Uso, o descarregamento de títulos de acesso restrito requer uma licença válida de autorização devendo o utilizador aceder ao(s) documento(s) a partir de um endereço de IP da instituição detentora da supramencionada licença.
Ao utilizador é apenas permitido o descarregamento para uso pessoal, pelo que o emprego do(s) título(s) descarregado(s) para outro fim, designadamente comercial, carece de autorização do respetivo autor ou editor da obra.
Na medida em que todas as obras da UC Digitalis se encontram protegidas pelo Código do Direito de Autor e Direitos Conexos e demais legislação aplicável, toda a cópia, parcial ou total, deste documento, nos casos em que é legalmente admitida, deverá conter ou fazer-se acompanhar por este aviso.
Autor(es): Birman, Daniela
Publicado por: Associação Internacional de Lusitanistas URL
persistente: URI:http://hdl.handle.net/10316.2/34521
Accessed : 8-May-2021 03:06:36
digitalis.uc.pt impactum.uc.pt
Confi namento e testemunho em
Lima Barreto e Graciliano Ramos
DANIELA BIRMAN
Universidade Estadual de Campinas Instituto de Estudos da Linguagem (IEL-UNICAMP)
RESUMO
Ao narrar em O Cemitério dos Vivos e nas Memórias do Cárcere suas respectivas histórias de aprisionamento, Lima Barreto e Graciliano Ramos articulam uma experi-ência coletiva por meio da qual enunciam o sofrimento dos seus antigos companheiros de confi namento. Neste artigo, examinaremos os títulos citados buscando entender como os dois escritores constroem esta memória atravessada tanto por identifi cações quanto por choques com os colegas de cárcere, porém fi rme na sua oposição a cortes e defi nições moralistas do humano. Para isto, analisaremos o papel exercido pelo ideal literário de Lima na sua aproximação com companheiros de manicômio. Examinare-mos ainda a dupla face das memórias de Graciliano: estas são cumprimento de um dever diante dos colegas e paga pelo terrível tratamento recebido.
Palavras-chave: Lima Barreto, Graciliano Ramos, memória coletiva, aprisionamento
ABSTRACT: In the real-life stories of imprisonment contained in Lima Barreto’s O
Cemitério dos Vivos and Graciliano Ramos’s Memórias do Cárcere, the authors
wea-ve together a collectiwea-ve experience through which they recount the suffering of their former cell mates. In this article, I examine the texts closely to understand how the two writers constructed this memory, criss-crossed by both identifi cations and clashes
with their prison companions, though equally resolute in their opposition to moralist descriptions and defi nitions of the human. This aim in mind, I analyze the role played by Lima’s literary ideal in his interactions with asylum inmates. I also examine the two facets of Graciliano’s memories: fulfi lling an obligation to his companions and paying back for the terrible treatment received.
Keywords: Lima Barreto, Graciliano Ramos, collective memory, imprisonment
Introdução
O escritor carioca Lima Barreto (1881-1922) redigiu o Diário do
Hospício1 durante a sua segunda e última internação no antigo Hospital
Nacional de Alienados, para onde foi levado à força pela polícia em 25 de dezembro de 1919, ali permanecendo até 2 de fevereiro de 1920.2 Lima havia passado a noite da véspera de Natal «em claro, errando pelos subúrbios, em pleno delírio» (Barreto, 2010: 45). Já em seu primeiro confi namento no manicômio, também em decorrência de alucinações al-coólicas, segundo os diagnósticos médicos, o escritor fi cou internado de 18 de agosto a 13 de outubro de 1914. Pouco após receber alta, ele redi-giu o conto «Como o “homem” chegou» (Barreto: 2001), no qual recria fi ccionalmente, com traços expressionistas e forte ironia, a violência de sua experiência de transporte no carro-forte da polícia. Já em 1920, de-pois de deixar mais uma vez o manicômio, ele começará a trabalhar, com base no material do Diário do Hospício, no romance O Cemitério
dos Vivos (2010).3 Lima não terá tempo, contudo, de concluí-lo, sendo
o título publicado na condição de póstumo e inacabado. Na opinião do 1 Citado pela edição de 2010.
2 Criado por decreto do segundo imperador do Brasil, no dia da sua sagração (18 de julho de 1841), o Hospício de Pedro II foi inaugurado no fi nal de 1852 como o primeiro estabeleci-mento médico brasileiro destinado especialmente ao trataestabeleci-mento de alienados. Pouco após a Proclamação da República, ele foi separado da administração da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, em janeiro de 1890, passando a se chamar Hospício Nacional de Aliena-dos. Em 1911, o manicômio mudou de nome mais uma vez, chamando-se então Hospital Nacional de Alienados. Cf. Machado et al (1978); Engel (2001, 2003); Barreto (2010; 2004). 3 O Cemitério dos Vivos é composto, na edição das Obras completas de Lima Barreto (1956),
de quatro partes: o «Diário do Hospício», escrito durante a segunda internação do autor no Hospital Nacional de Alienados; o romance inacabado O Cemitério dos Vivos; o inventário da biblioteca do autor; e uma reunião de documentos relativos às internações manicomiais do romancista. Ao citarmos, portanto, O Cemitério dos Vivos, podemos nos referir tanto ao diário e ao romance de Lima sobre o manicômio quanto somente a este último. O contexto da citação deverá esclarecer a que texto(s) fazemos menção.
seu biógrafo, Francisco de Assis Barbosa (2002: 326), o romance talvez viesse a ser «a sua obra-prima».
Ao ser internado pela segunda vez, o escritor, aos 38 anos, já ha-via lançado três dos seus principais romances: Recordações do Escrivão
Isaías Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (publicado
inicialmente em folhetins, em 1911, e depois reunido em volume, em 1916) e Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919). De modo geral, contudo, seu percurso intelectual, literário e biográfi co, como é bastante conhecido, foi marcado pela marginalização e pelo que ele chamava de «ditadura do silêncio». A maioria dos seus livros publicados em vida teve a edição paga pelo próprio escritor e parte considerável de sua obra foi lançada postumamente. Apenas mais de 30 anos depois de sua morte a recepção de Lima Barreto começou a se alterar de modo signifi cativo, chegando ele hoje a ser considerado um autor seminal da nossa moderna literatura (ver Barbosa, 2002; Sevcenko, 2010).
Diferentemente de Lima, cuja escrita do confi namento é marcada pelo calor dos acontecimentos, o escritor alagoano Graciliano Ramos (1892-1953) levará cerca de dez anos para começar a escrever sobre a experiência atravessada na cadeia. Ele havia sido encarcerado, sem nenhuma acusação formal, em 3 de março de 1936, em meio à onda de prisões desencadeada pela repressão ao levante comunista de 1935. Transferido inicialmente de Maceió, onde morava, para o Recife, Gra-ciliano foi posteriormente levado, num porão de navio, para o Rio de Janeiro. Lá ele permanecerá enclausurado até janeiro de 1937, passando por diferentes locais de confi namento, como a Casa de Detenção e a Colônia Correcional de Dois Rios, na Ilha Grande. Durante os dez me-ses de prisão, Graciliano se dedicará, com penoso esforço, à redação de notas sobre a cadeia e à escrita de três contos.4 Será, porém, somente em janeiro de 1946 (ver Moraes, 1996; Clara Ramos, 1992) que ele iniciará efetivamente a escrita das Memórias do Cárcere. Estas também permanecerão inacabadas e serão publicadas postumamente, no ano de sua morte, em 1953.
Escritor destacado da geração de romancistas brasileiros surgida na década de 30, Graciliano Ramos já havia estreado no gênero, com
Caetés (1933), e publicado São Bernardo (1934) quando foi preso. Com
o autor ainda na cadeia, será lançado Angústia (1936), eleito o romance mais importante dos anos 30, em inquérito realizado entre 1939 e 1941.5 É neste momento, segundo Luís Bueno (2006), que a importância de Graciliano foi instaurada e identifi cada com clareza. Consagrado pela crítica, o autor, porém, só obteria sucesso correspondente nas vendas após a sua morte. O estouro comercial seria inicialmente alcançado jus-tamente com as Memórias do Cárcere, que atingiram a marca dos dez mil exemplares vendidos em menos de dois meses (Moraes, 1996).
Segundo podemos concluir a partir desta breve exposição, O
Ce-mitério dos Vivos e as Memórias do Cárcere se conjugam e se opõem
de diferentes maneiras, tornando produtiva a sua confrontação. Os dois títulos narram o embate de seus respectivos autores com uma instituição disciplinar (manicomial e prisional) e resultam de distintos trabalhos da memória.6 Pois, enquanto Lima escreve ainda em meio à violência dos acontecimentos, Graciliano redige as suas lembranças após uma década de sedimentação da experiência e perfuração desta pelo esquecimento. Póstumas e inacabadas, as duas obras revelam ainda processos de des-personalização, aniquilação e reestruturação do eu (cf. Birman, 2010). Por fi m, elas podem ser lidas como testemunhos da opressão vivida: aquela da exclusão dos «doentes mentais» do espaço público na Pri-meira República, no caso de Lima, e da ditadura de Getúlio Vargas, nas memórias de Graciliano.7
É preciso destacar, contudo, que os dois escritores testemunham a violência sofrida não apenas por eles, mas também por seus colegas de cárcere. Ao partilhar com os leitores suas distintas histórias de con-fi namento disciplinar, os dois autores desdobram, portanto, uma narra-5 A preferência foi resultado de uma enquete sobre os dez melhores romances nacionais,realizada
por Murilo Miranda na Revista Acadêmica (ver Bueno, 2006). 6 Sobre a noção de disciplina aqui empregada, cf. Foucault (2008).
7 Sobre a noção de testemunho na literatura, conferir, entre outros: Shoshana Felman e Dori Laub (1992); Márcio Selligman-Silva (2003); Agamben (1999). Para um exame das
Me-mórias do Cárcere e do «Diário do Hospício» como obras de testemunho, ver Alfredo Bosi
tiva que ultrapassa a esfera da experiência individual –privilegiada na autobiografi a, no romance de formação e no diário íntimo tradicionais-, denunciando nesses títulos as injustiças e o autoritarismo cometidos não apenas contra eles, mas também contra os outros internos e presos.
É nesse contexto que entendemos a declaração que Lima Barreto (1998: 309) deu ao jornal carioca A Folha, durante sua segunda inter-nação no Hospital Nacional de Alienados. Nesta entrevista, de 1920, o escritor afi rmou que desejava «passar despercebido [no hospício], para observar melhor e mesmo para verifi car, por experiência própria, a ma-neira como eram tratados os loucos desprotegidos e sem dinheiro» . Já Graciliano (2008: 13) esclarece, logo no capítulo de abertura das suas
Memórias do Cárcere, que a decisão de escrever o livro origina-se de
um dever que ele tem diante dos antigos companheiros de prisão: «[...] a exigência se fi xa, domina-me».
Mas de que modo é construída a coletividade no testemunho lite-rário dos dois autores? Como eles articulam sua experiência, atravessa-da ora pela identifi cação, ora pela diferenciação e até mesmo, em certos momentos, pela repulsa por companheiros de cárcere? E de que maneira os escritores refl etem sobre privilégios e favores existentes no interior da instituição para onde foram levados? Estas são as principais questões sobre as quais nos debruçaremos ao examinarmos aqui os dois títulos. Buscaremos, dessa forma, compreender como os dois autores constro-em, por meio de sua escrita, uma memória coletiva heterogênea, enun-ciando o sofrimento de seus antigos companheiros de confi namento.
1. O movimento pendular de Lima Barreto
Num fragmento do seu «Diário do Hospício», Lima Barreto chama a atenção para uma distinção entre sua segunda passagem pelo manicômio e aquela vivida em 1914, quando ali foi encarcerado pela primeira vez. De acordo com o escritor, na sua primeira estada, ele con-seguiu manter certo isolamento, não se envolvendo muito na vida da instituição: «[...] agora não, sou a isso obrigado, pois todos me procu-ram e contam-me mexericos e novidades. Este convívio obrigado, com
indivíduos dos quais não gostamos, é para mim, hoje, insuportável [...]» (Barreto, 2010: 129). Motivo constante de queixa do autor, que lamen-ta a impossibilidade de mergulhar sossegadamente em suas leituras, o «convívio obrigado», como se sabe, também se torna objeto de acuradas observações, profundo interesse e impressões intensas.
Com efeito, ao tomar notas sobre seu cotidiano no hospício e sobre as refl exões que a loucura lhe desperta, Lima já planejava trans-formar os registos em livro, o que ele declara na entrevista publicada no jornal A Folha, aqui citada. Contudo, nessa mesma entrevista, ao mesmo tempo em que afi rma tencionar contar «as cenas mais jocosas e as mais dolorosas que se passam dentro destas paredes inexpugnáveis» (1998: 308), o autor reduz em grande parte o interesse do seu projeto à
novi-dade que ele traria. Esta novinovi-dade se localizaria na transposição para o
papel de tipos que ele observou no manicômio, alguns deles defi nidos como «esplêndidos».
Percebemos aqui, portanto, o distanciamento máximo do es-critor em relação aos seus companheiros de confi namento, reduzidos a tipos que valem principalmente por sua novidade. O afastamento e a demarcação da diferença em relação aos outros internos explicam-se, em parte, devido ao contexto em que as declarações foram dadas: numa entrevista a jornal, destinada a tornar-se pública. É possível, pois, supor que, preocupado com a sua imagem, Lima concentrasse esforços na sua distinção dos demais internos, empenhando-se até em achar engraçadas algumas cenas que ali viveu. Nesse mesmo contexto, o escritor não re-vela que havia sido transportado ao hospício num carro-forte da polícia, optando por fornecer ao jornal uma versão mais suavizada da sua inter-nação forçada.8
8 A informação de que Lima Barreto foi conduzido ao antigo Hospital Nacional de Alienados, nas suas duas internações, num carrro-forte da polícia é de seu biógrafo, Francisco de Assis Barbosa (2002).Ao comentar a omissão de Lima a respeito da sua condução no carro-forte, na citada entrevista, Magali Gouveia Engel (2003: 90; 2001: 94) também chama a atenção para a afi rmação do escritor, no «Diário do Hospício», de que não veio com ele até o mani-cômio «nenhum polícia», e sim que um guarda-civil o esperava na porta da instituição. Lem-bramos ainda que o narrador-protagonista de O Cemitério dos Vivos, Vicente Mascarenhas, diz ter sido dispensado do carro-forte na sua segunda estada no manicômio (Barreto, 2010: 179).
No entanto, assim como provavelmente não achou graça em ce-nas citadas na entrevista, Lima não transformou seu olhar a respeito da loucura num registro de fi guras «esplêndidas». Como observa o crítico Alfredo Bosi (2010: 33), o autor «fez mais que alinhar “tipos interes-santes”. Estes comparecem, de fato, mas descritos de modo sumário, esboços de indivíduos que não lograriam subir à categoria de persona-gens quando transpostos para o corpo do romance». Ainda de acordo com Bosi (2010: 33), o autor «não quis ou não pôde desenvolvê-los, justamente porque foi o enigma da loucura, em si, que o atraiu desde os primeiros contatos feitos no pavilhão dos indigentes».
Mesmo que a descrição de «tipos» não tenha ocupado o núcleo de interesse nem do diário nem do romance de Lima sobre o hospício, o afastamento do autor em relação à coletividade na qual foi inserido à força atravessa os dois textos. Ele não resume, porém, sua única pos-tura diante dos internos do antigo Hospital. Trata-se antes de uma das direções tomadas pelo movimento marcadamente pendular do escritor ao longo de suas anotações. Este movimento desloca-se, com efeito, da demarcação da sua diferença à identifi cação, passando tanto pelo senti-mento de ojeriza ou irritação em relação a certos internos quanto pelo te-mor de enxergar-se num espelho. Em determinadas passagens, algumas dessas impressões são indicadas simultaneamente. «[...] tive um peque-no alívio na minha sorte de maluco periódico», explica, por exemplo, o narrador-protagonista de O Cemitério dos Vivos, Vicente Mascarenhas, em frase na qual une sua inserção entre os internos à distinção deles (Barreto, 2010: 225, grifo nosso). Já em outros momentos, a repulsa pa-rece aliar-se ao medo provocado pela identifi cação (Barreto, 2010: 212):
Assim me pareceu pela primeira vez que deparei com tal quadro, com repugnância, que provoca a pensar mais profundamente sobre ele, e aquelas sombrias vidas sugerem a noção em torno de nós, de nossa existência e a nossa vida, só vemos uma grande abóboda de trevas, de negro absoluto.
Ao chamar a atenção para a oscilação pendular do escritor, a his-toriadora Magali Gouveia Engel sublinha sua passagem do lugar de ob-servador para aquele de observado, cuja procura por uma síntese não se-ria isenta de contradições. Nesse contexto, se Lima identifi ca os demais internados como seus semelhantes, ao se posicionar como observador –revelando-se assim capaz de romper com a pretensão de exclusividade da detenção do saber sobre a loucura, defendida pelos alienistas– ele se afastaria «cada vez mais de seus companheiros de infortúnio», que se tornariam gradualmente estranhos (Engel, 2003: 89). Nesse sentido, suas observações constituiriam ao mesmo tempo um meio de formu-lação de críticas e denúncias do saber e da prática psiquiátricas e uma forma de se diferenciar dos demais internos, «um esforço de se colocar fora e “acima” do universo da doença [...] buscando ocupar o lugar hie-rarquicamente superior que, no interior do mundo asilar, se destinava àqueles que monopolizavam a «verdadeira razão» (Engel, 2003: 89).
Um terceiro elemento, acreditamos, exerce ainda papel decisivo nesta variação pendular. Trata-se do ideal literário e intelectual de Lima. Este não chega a ser alcançado pelo escritor no seu movimento, manten-do sempre um estatuto de exterioridade. Porém, constitui um campo de atração constante e é referência central no exame que o autor faz de si mesmo e de sua experiência carcerária. Segundo buscaremos sustentar logo adiante, este modelo funcionará como uma espécie de mediação entre Lima e a coletividade de internos, colaborando na aproximação entre os dois.
Descrevamos esta oscilação pendular com mais vagar, analisan-do um analisan-dos trechos nos quais ela surge com clareza (Barreto, 2010, p. 59):
Estou entre mais de uma centena de homens, entre os quais passo como um ser estranho. Não será bem isso, pois vejo bem que são meus semelhantes. Eu passo e perpasso por eles como um ser vivente entre sombras –mas que sombras, que espíritos?! As que cercavam Dante tinham em comum o stock
de ideias indispensável para compreendê-lo; estas não têm mais um para me compreender, parecendo que têm um outro diferente, se tiverem algum.9
Como vemos, nesta passagem o escritor passa rapidamente da afi rmação de sua diferença para a de sua semelhança com os outros in-ternos do Hospital Nacional de Alienados, desdobrando logo em segui-da outra distinção na sua situação, quando comparasegui-da ao modelo lite-rário. Este modelo, ao mesmo tempo em que parece impulsionar Lima na aproximação de seus companheiros, permanece como uma aspiração distante, inalcançável. Uma situação similar é narrada por Vicente Mas-carenhas. Trata-se da cena em que o personagem nos descreve um banho que foi obrigado a tomar com outros internos. Sem ter conseguido obter dispensa do guarda, dispensa esta que lhe concederia uma distinção, Mascarenhas precisou enfrentar a repugnância que a nudez diante do grupo lhe causa: «[...] não tive remédio: pus-me nu também. Lembrei--me um pouco de Dostoiévski, no célebre banho da Casa dos Mortos; mas não havia nada de parecido. Tudo estava limpo e o espetáculo era inocente [...]» (Barreto, 2010: 183).
A literatura parece mesmo se fazer presente num trecho em que nenhuma obra ou autor são citados, mas cujo extremo das situações des-critas nos lembra aventuras romanescas: «Imaginei-me amarrado para ser fuzilado [...] assaltado por facínoras [...] supus-me reduzido a maior miséria e mendigar; mas por aquele transe eu jamais pensei ter de psar...», escreve Mascarenhas (Barreto, 2010: 182). O narrador indica as-sim tanto a diferença da situação vivida com aquelas atravessadas por grandes heróis quanto seu despreparo para os próprios sofrimentos, me-9 Esta citação de Dante não deve ser lida de modo isolado. Segundo chama a aten-ção a nota de rodapé de número 11 da ediaten-ção aqui empregada do «Diário» (Bar-reto, 2010), Lima tece uma série de associações entre hospício e inferno ao longo do seu texto. Seguindo ainda elucidativas informações desta publicação, há casos em que a alusão à Divina Comédia surge de modo evidente. A nota 18 da citada edição, por exemplo, chama a atenção para a descrição que o escritor faz do pátio da seção Pinel, caracterizado como uma «bolgia do inferno». Trata-se, pois, se-gundo a nota, de uma «referência explícita à Divina Comédia. Do canto XVIII ao canto XXX, Dante descreve o oitavo círculo do inferno, formado por dez fossas
nos grandiosos do que aquele dos livros. Porém, se a vida jamais alcan-çará plenamente a literatura, ou a imagem que Lima faz dela, o caminho de uma a outra permanecerá uma via de intensa troca e elaboração.
Mas em que ponto se localizaria a semelhança traçada pelo es-critor entre ele e os outros internos, citada no trecho transcrito logo aci-ma? Examinemos esta questão por etapas. De modo geral, Lima não acreditava estar louco, embora reconhecesse ser por vezes acometido de delírios. Desta forma, segundo indicamos, ele mantém em parte de seus escritos uma distinção em relação aos «doentes», os quais descre-ve, com maior ou menor sensibilidade, em seus delírios, mutismo e há-bitos. É possível perceber, porém, que a distinção entre o escritor e os outros internos vai sendo relativizada e mesmo quebrada numa série de situações. São estas: na crítica do desrespeito aos direitos dos internos; na identifi cação com o sofrimento deles e com a situação de aviltamento ali vivida; no questionamento de concepções da psiquiatria da época; na refl exão sobre seu próprio vício e suas «crises de loucura» (2010: 68). Nestas passagens, das mais fortes e acuradas dos textos, identifi camos a inserção de Lima numa coletividade formada por humilhados e ofen-didos, em suas histórias de vida e nos embates com o poder psiquiátri-co. Uma coletividade de «homens infames», em resumo (cf. Foucault, 2001).10 Ou ainda, empregando os termos de Vicente Mascarenhas, de «companheiros de Desgraça» (Barreto, 2010: 184) e de «segregação so-cial» (Barreto, 2010: 228).
É importante lembrar, num segundo momento da análise, que, ao criticar e questionar o desrespeito infringido aos seus companheiros e as certezas do saber psiquiátrico, Lima, ao mesmo tempo em que se une a este grupo, se opõe à sua marginalização normativa. Neste senti-do, sua semelhança com os outros internos também aponta a inserção de todos numa coletividade bem mais ampla: uma humanidade que não pode aceitar cortes excludentes entre sãos e «doentes mentais». «Não há espécies, não há raças de loucos», frisa o autor (2010, p. 67).
10Desprovida de qualquer glória, a ideia de infâmia descrita por Foucault não abrange, no sen-tido estrito, a vida de Lima Barreto. Ela nos parece, porém, profícua para pensamos tanto a obscuridade e a desventura das existências que formam a citada coletividade quanto a força que os escritos de Lima sobre o hospício exerce nos leitores.
É preciso ressaltar, contudo, que as acuradas críticas de Lima não chegam desacompanhadas de contradições e ambiguidades, tão ca-racterísticas do escritor. Assim, ao mesmo tempo em que supõe reco-mendações políticas na instituição favorecendo regalias, ele conta como alcançou melhorias em sua condição no hospital, ainda que sem pedir. «Deu-me uma cama, numa seção mais razoável, arranjou que eu comes-se com os pensionistas de quarta clascomes-se e, no dia comes-seguinte, fez-me dormir num quarto [...]» (2010: 49). O autor refere-se, nesse trecho do «Diá-rio», ao inspetor da seção Pinel, Gustavo Sant´Ana, que havia conhecido seu pai e «se lembrava dele com amizade» (Barreto, 2010: 49).11
Mas retornemos à ideia da comunidade de «companheiros de Desgraça» da qual o escritor faria parte. A força que une esta coletivi-dade pode ser sintetizada na imagem sugerida pelo título do romance póstumo: o Cemitério dos Vivos. Será, pois, ao ressaltar a inépcia da me-dicina na cura da loucura e a violência do método empregado por esta, que Lima abolirá distinções entre os internos do manicômio, reunindo todos num cemitério de vivos (2010, p. 90-91):
Amaciando um pouco, tirando dele a brutalidade do acorrentamento, das surras, a superstição das rezas, exorcismo, bruxarias etc., o nosso sistema de tratamento da loucura ainda é o da Idade Média: o seqües-tro. Não há dinheiro que evite a Morte, quando ela tenha de vir; e não há dinheiro nem poder que arrebate um homem da loucura. Aqui no Hospício, com suas divisões de classe, de vestuário etc., eu só vejo um cemitério: uns estão de carneiro e outros de cova rasa. Mas, assim e assado, a loucura zomba de todas as vaidades e mergulha todos no insondável mar de seus caprichos incompreensíveis.
Se neste trecho, focado na questão da loucura, ainda poderíamos excluir Lima desse «cemitério» –que ele próprio parece fazer no pará-grafo seguinte ao citado– sua inserção nesta imagem coletiva se con-fi rma em outros momentos. Numa das passagens do «Diário» em que 11 Sobre certa ambiguidade identifi cada nas críticas formuladas por Lima Barreto a concepções
mescla confi ssão e fi cção, por exemplo, o autor volta a se referir à cova na qual estaria confi nado: «Sairei desta catacumba, mas irei para a sala mortuária que é a minha casa» (Barreto, 2010: 94).12 Já no romance, a passagem em que Vicente Mascarenhas descreve este «cemitério de vi-vos» é antecedida por trechos marcados pelo temor do personagem em relação ao próprio destino –indicando, portanto, o medo da identifi cação com os internos (2010: 211-212).
Também não nos parece por acaso que o título O Cemitério dos
Vivos constitua uma citação invertida de A Casa dos Mortos, de
Dos-toiévski.13 Como vimos, o escritor russo está presente em mais de uma passagem dos escritos de Lima sobre o hospício, constituindo referência fundamental na elaboração da experiência radical ali vivida. Assim, a memória literária vincula o destino de Lima àquele de fi guras que tanto admira (ainda que uma distância intransponível seja mantida), ajudan-do-o a produzir sentido, a se reerguer da situação de aviltamento e, ao mesmo tempo, a aproximar-se dos outros humilhados e ofendidos. Por outro lado, a paixão pela literatura é em parte responsabilizada pela si-tuação de degradação que acabou por arrastá-lo ao manicômio: «Ah! A literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela», escreve (Barreto, 2010: 46). Responsável ou não, será a literatura e seus escritores que o ajudarão a refl etir sobre a sua queda.
12 Lembramos que, ao citarmos, sem grandes diferenciações, tanto trechos do «Diário» quanto do romance para desenvolvermos nosso argumento, nos apoiamos no fato de que fi cção e confi ssão –já tão imbricadas na obra de Lima- encontram-se particularmente inextricáveis nestes dois textos. Além disso, chamamos a atenção para a instigante observação de Alfredo Bosi, indicando o momento justo da passagem do registro confessional para o fi ccional, num trecho do «Diário» anterior aquele reproduzido logo acima. «[...] no exato momento em que o depoente entra a escavar o passado e aprofundar a sua “angústia de viver”, o texto confes-sional cede a um lance de fi cção», ressalta o crítico (2010: 26). Mais do que trabalhar com uma fronteira rígida entre esses dois registros, é preciso, portanto, buscar compreender os papéis e as funções que literatura, escrita e fi cção exercem nos dois textos.
13Ao se referir ao «cemitério dos vivos», o personagem Vicente Mascarenhas não faz menção explícita, contudo, a Dostoiévski, mas cita uma narrativa de viagem redigida por um diplo-mata brasileiro, na qual este afi rma ter existido nos arredores de Cantão «um lugar apropriado de domínio público [...] reservado aos indigentes que se sentiam morrer» (Barreto, 2010: 212). A lembrança do escritor russo e das suas Recordações da Casa dos Mortos, segundo nos chama a atenção a nota de rodapé de número 8 da edição aqui empregada de O
Cemité-rio dos Vivos, também se faz presente na crônica «Da minha cela» (2010: 282-294), escrita
Neste movimento de exame e reconstrução de si, Lima acaba por conseguir matizar sua situação e criticar com fi rmeza a suspensão de seus direitos e o controle do saber-poder médico sobre si mesmo. Nes-se contexto, ele questiona diversas concepções da psiquiatria da época, recusando seus quadros classifi catórios e contestando a validade da va-lorização do fator hereditário na etiologia da doença mental.14 O escritor denuncia também a ilegalidade da polícia, que ajudou seus parentes no seu aprisionamento, e as relações assimétricas estabelecidas pelas disci-plinas, reforçadas pela marginalização da pobreza. Ele cumpre, assim, o projeto anunciado na citada entrevista ao jornal A Folha, na qual afi r-mava pretender observar o tratamento concedido aos internos desprote-gidos no hospício.
Como podemos perceber, nestas críticas Lima enuncia não ape-nas o seu próprio sofrimento, mas também aquele de tantos outros dos quais se sente ao mesmo tempo próximo e distante, e com os quais se identifi ca fragmentariamente, em cenas de revolta e desespero. Num movimento constante de recuo e aproximação, ele se insere assim nessa coletividade heterogênea, marcada, entre outras distinções, por divisões de classe e privilégios, mas onde ele vê um só cemitério. É também nesse sentido que o escritor chegará no seu romance a uma conclusão bastante diferente daquela já aqui mencionada, sobre a distinção entre a sua segunda estada no manicômio e a primeira internação, em 1914. Lima afi rmará, pois, através do personagem Vicente Mascarenhas, ter retornado ao manicômio mais capaz de observar os outros internos: «o meu pensamento era para a humanidade toda, para a miséria, para o so-frimento [... ] para os que todos amaldiçoam» (2010: 208).
14 Sobre esses e outros questionamentos, cf. Alfredo Bosi (2010) e Magali Gouveia Engel (2003). A respeito destas e de outras concepções da psiquiatria da época, ver também Engel (2001).
2. Graciliano Ramos, prisioneiro de número 3535
Quando esteve na Colônia Correcional de Dois Rios, na Ilha Grande, um dos diversos locais de confi namento pelos quais passou en-tre março de 1936 e janeiro de 1937, Graciliano Ramos foi batizado com um número por outro preso, o Cubano. A série de algarismos, a qual ele reconhece não se lembrar direito, podendo ser «3535» ou «3335», integra o escritor de imediato à coletividade de prisioneiros políticos encarcerados na repressão disseminada pelo país após a sublevação que fi cou conhecida, pejorativamente, como «Intentona Comunista». Esta foi realizada, como indica o número escolhido por Cubano, no ano de 1935. Mas mesmo antes do batismo do escritor, a sequência de algaris-mos já havia surgido na narrativa das Memórias do Cárcere: segundo conta Graciliano, o primeiro alojamento ocupado por ele no Pavilhão dos Primários foi o «cubículo 35».
Embora deixe claro não ter participado do levante reprimido e aponte ao longo do seu livro distinções e tensões com diferentes compa-nheiros e subgrupos confi nados, o escritor busca não se excluir desse co-letivo, postura que qualifi ca de maneira negativa. «[...] pusilanimidade inútil viver a declarar-me vítima», resume (2008: 92-93). De modo si-milar, Graciliano recusa constantemente favores que lhe são oferecidos durante sua descida ao inferno, procurando assim eximir-se de um trata-mento diferenciado que constituiria, em sua opinião, ofensa aos outros. Isto não impedirá que esses tratamentos de exceção cheguem por vezes a ele, aborrecendo-o, vexando-o e até indispondo-o com companheiros.
Em certos momentos, ele se repreende por sua postura (real ou suposta) em relação ao outro. Como quando chama a atenção para a indiferença geral diante da violência sofrida por um companheiro, num episódio vivido na Ilha Grande. «Éramos frangalhos; éramos fontes se-cas; éramos desgraçados egoísmos cheios de pavor» (2008: 426). Ou quando, ao relatar seu esforço para compreender e admirar seus colegas, escreve: «devo ter-me revelado com freqüência egoísta e mesquinho. E esse desabrochar de sentimentos maus era a pior tortura que nos podiam infl igir naquele ano terrível» (2008: 15).
Segundo afi rmamos acima, apesar das suas negativas, muitos se empenharam por Graciliano. É possível que, graças a uma dessas in-terferências, sua saúde, já precária, não tenha se quebrado ainda mais, quem sabe de modo irremediável. Pois, como nos conta o biógrafo do autor, Dênis de Moraes, ao descobrir que o marido havia sido enviado para a terrível Colônia Correcional de Dois Rios, na Ilha Grande, He-loísa Ramos telefonou para José Lins do Rego. O escritor, por sua vez, mandou-a falar com o banqueiro e ex-prefeito de Maceió Edgard de Góis Monteiro, irmão do general Pedro Aurélio de Góis Monteiro (Mo-raes, 1996: 138):
O encontro seria rápido e tenso. Ao ouvi-la, o banqueiro alisaria a cabeleira branca com força e desabaria:
- Querem matar o Graciliano! Mas a acalmaria:
- Pode deixar que hoje vou jantar com o Pedro Aurélio e tratarei disso. […] Oito dias depois, Heloísa seria avisada de que o marido estava de volta à Frei Caneca.
Num outro momento, Lins do Rego chegou a pedir a soltura de Graciliano ao presidente Getúlio Vargas, por intermédio de Herman Lima, escritor e auxiliar do gabinete da Presidência, que o havia recebi-do no Palácio recebi-do Catete.15 Mesmo lavando suas mãos, Getúlio autorizou seu auxiliar a solicitar que verifi casse, de sua parte, se havia algo contra o escritor e, em caso negativo, que o libertassem. A interferência de Lins do Rego ocorreu, lembramos, num ambiente em que intelectualidade, imprensa e deputados já pressionavam o governo pela soltura de presos políticos, revisão de casos etc. E ela surtiu efeito. Após o poderoso chefe de Polícia Filinto Müller ter realizado as devidas apurações, a ordem para a libertação de Graciliano foi fi nalmente proferida.16
15 O episódio aqui desdobrado sintetiza a narrativa feita do caso por Dênis de Moraes (1996: 146-148).
16 O documento com a ordem de libertação de Filinto Müller pode ser encontrado no Fundo de Polícias Políticas Rio de Janeiro, do Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), no qual estão guardados dois prontuários do escritor.
Assim, mesmo recusando privilégios e evitando proclamar sua inocência, Graciliano não conseguiu impedir empenhos de pessoas de prestígio a seu favor nem se imunizar inteiramente do mal-estar em re-lação ao outro.17 Mas de que forma estes companheiros e as injustiças sofridas surgirão na sua escrita? Suas memórias, segundo buscaremos aqui mostrar, movem-se em duas direções. Uma delas se dirige aos anti-gos colegas de prisão. A outra, se volta contra seus carcereiros.
Redigido cerca de dez anos após a experiência de aprisionamen-to, o livro póstumo de Graciliano se apresenta como um imperativo de memória, memória esta que é ao mesmo tempo individual e coletiva. Esta imposição possui uma dupla face: por um lado constitui o cum-primento de um dever diante dos antigos companheiros de cárcere; por outro, é paga pelo tratamento desumanizador recebido. Dessa forma, ao escrever sua história de confi namento, Graciliano concretiza as exi-gências formuladas por ex-prisioneiros com os quais conviveu, que lhe cobram a tarefa. Ao mesmo tempo, ele executa a ameaça proferida ao deixar a Ilha Grande: o compromisso de escrever um livro sobre a co-lônia. Vale a pena reproduzir parte do diálogo entabulado pelo escritor com o diretor suplente do estabelecimento, no qual Graciliano enuncia sua ameaça (2008: 516):
-Levo recordações excelentes doutor. E hei de pagar um dia a hospitalidade que os senhores me deram.
-Pagar como? exclamou a personagem. -Contando lá fora o que existe na ilha Grande. [...]
17 A vergonha e a culpa, como se sabe, constituem um tema central da literatura de testemunho da Shoah. Ao buscar explicar estes sentimentos, vividos por sobre-viventes no momento da libertação, Primo Levi (2004) examina seus diversos elementos, que existiriam com pesos diferentes em cada um. Tais sentimentos se ligariam à «consciência readquirida de ter sido aviltado» (Levi, 2004: 65) e àque-la de não ter resistido, ou ao menos não de modo sufi ciente, contra o sistema. Isto ainda que, racionalmente, eles não se justifi cassem por esses motivos. Um tercei-ro elemento, porém, apresenta-se aos olhos de Levi como «mais realista» (Levi, 2004: 67). Trata-se da omissão de socorro: «é a auto-acusação, ou a acusação, de ter falhado no aspecto da solidariedade humana» (Levi, 2004: 67). Fundamental para a enunciação do testemunho de Levi, há ainda, a dolorosa vergonha de estar vivo no lugar de um outro.
-[...] Faço livros. Vou fazer um sobre a Colônia Correcional. Duzentas pági-nas ou mais. Os senhores me deram assunto magnífi co. Uma história curio-sa, sem dúvida.
O médico enterrou-me os olhos duros, o rosto cortante cheio de sombras. Deu-me as costas e saiu resmungando:
-A culpa é desses cavalos que mandam para aqui gente que sabe escrever.18
Dever diante dos companheiros e paga aos carcereiros, as duas faces deste imperativo de memória são, evidentemente, inseparáveis. A escrita que se formula simultaneamente como ameaça e dívida constitui, pois, um ato de solidariedade e justiça.
Extremamente consciente das difi culdades que este projeto im-põe, Graciliano expõe na abertura do seu livro algumas das questões enfrentadas por ele ao longo da sua realização. O escritor esclarece, por exemplo, que a narrativa desdobrada obedece às suas próprias lembran-ças, não necessariamente coincidentes com aquelas dos outros presos. Ele abre mão aqui, portanto, de qualquer ambição de uma representação que se entenda como adequação fi el entre palavras e coisas, modelo no qual sujeito e referência estáveis, assim como a distância certa mantida entre eles, não fariam problema.19
Trata-se de uma memória assumidamente perspectiva, portan-to.20 Isto não implica que o escritor abdique, junto com o modelo de rea-lismo estrito, do compromisso com o passado. Este foi construído pelas seleções e traduções operadas pela memória e pelo esquecimento. Em casos de dolorosas dúvidas, Graciliano recorreu ainda a «reminiscências alheias», reforçando seu comprometimento com a história.21
18 De acordo com Myrian Sepúlveda dos Santos (2009: 220), o diretor interino citado no diálo-go era o Dr. Sardinha.
19 Ao citarmos aqui termos como «palavras» e «coisas», baseamo-nos de modo relativamente livre em Michel Foucault (1987).
20 Sobre o saber perspectivo da efetiva história, tal como esta foi entendida por Nietzsche, cf. Foucault (1979: 15-37).
21 Para uma compreensão da refl exão sobre os limites da representação solicitada pelo testemu-nho, campo em que esta não pode ser tratada nem de modo positivista nem hiper-relativista, cf,. por exemplo, Márcio Selligmann-Silva (2009).
A assunção do olhar perspectivo não dilui, porém, a complexida-de do projeto. Como estabelecer a distinção entre o individual e o cole-tivo na construção desta memória? Graciliano, como se sabe, opta pelo emprego da primeira pessoa do singular em seu relato. O uso do «pro-momezinho irritante» (Ramos, 2008: 15), embora o desgoste, permite que ele sublinhe os limites da própria visão. «[...] não desejo ultrapassar o meu tamanho ordinário», justifi ca (Ramos, 2008: 16). Além disso, a escolha não o impedirá de passar à primeira pessoa do plural sempre que partilhar impressões, ações e sentimentos pertencentes ao grupo.
Assim, com rigor, Graciliano muda constantemente a pessoa de sua narrativa, passando do emprego do «eu» –em que por vezes os com-panheiros são referidos como «eles»- àquele do «nós», no qual o estatu-to plural das memórias é sublinhado. Porém, não nos iludamos. O «eu» de Graciliano, embora não se enuncie em nome de todos, se constituirá nessa relação, por meio de identifi cações e diferenças. De modo simi-lar, ele se projetará no coletivo ao qual se refere com maior ou menor proximidade. O escritor nos mostra, dessa forma, que as fronteiras são extremamente permeáveis e instáveis.
Vejamos, por exemplo, a passagem em que Graciliano narra sua descida ao porão do navio Manaus (2008: 102-103):
Ao pisar no primeiro degrau, senti um objeto roçar-me as costas: vol-tei-me, dei de cara com um negro fornido que me dirigia uma pistola para-bellum. [...] Em casos semelhantes a surpresa nem nos deixa co-nhecer o perigo: experimentamos raiva fria e impotente [...] Nunca nos vimos assim entalados, ainda na véspera estávamos longe de supor que tal fato ocorresse. O absurdo se realiza e não vamos discuti-lo. Irrisório, na verdade. No atordoamento, no assombro imenso, temos a impressão de que não nos toca a roupa um tubo de aço, mas um pouco de lama.
Nesse trecho, logo que é realizada a passagem do «eu» para o «nós», não estranhamos a transição, visto que o autor se refere a um
conjunto de situações similares à ameaça narrada, conjunto este que pode ser hipoteticamente vivido por diversos indivíduos. Porém, mais adiante, nos surpreendemos que o protagonista mantenha-se no plural, comparando a situação narrada com aquela da véspera, quando sublinha que «nunca nos vimos assim entalados», e principalmente partilhando conosco sua impressão que aquilo que tocava a roupa do grupo, e não apenas a sua própria, não era uma arma, mas sim um bocado de lama.
A passagem para o plural pode não ser realista, porém revela coerência. Pois, de modo similar àquele d’O Cemitério dos Vivos, o co-letivo narrado pelas Memórias do Cárcere se reúne nesta experiência ra-dical de violência. «[...] emergimos lentamente daquele mundo horrível de treva e morte. Na verdade estávamos mortos, vamos ressuscitando», escreve o autor (2008: 13).
A busca de rigor na manutenção da fronteira traçada entre a pri-meira pessoa do singular e aquela do plural corresponde ao projeto de narrar uma memória que, embora também coletiva, não pretende abar-car numa única voz a totalidade da multiplicidade e heterogeneidade dos indivíduos participantes da história. Não podemos esquecer, porém, que esta multiplicidade também ganha força no relato, ainda que de modo fragmentário, naquelas passagens em que ele se desdobra no plural. E esta se faz ainda presente, de modo heterogêneo e mais indireto, quan-do Graciliano nos narra as identifi cações, os choques e as modifi cações pelas quais passou em sua coexistência com os antigos companheiros.
Com efeito, o escritor questionará e abandonará uma série de valores ao longo da sua convivência não apenas com os presos políticos, mas também com os prisioneiros comuns. Com alguns destes, ele esta-belecerá relações de amizade, indicando-nos assim não pautar a avalia-ção do valor, da camaradagem e solidariedade dos seus companheiros numa distinção normativa. Já entre as opiniões colocadas em dúvida em suas memórias, citamos o seu questionamento da visão preconceituosa que tinha a respeito dos homossexuais. Numa determinada passagem do livro, Graciliano reconhece (2008: 298):
As minhas conclusões eram na verdade incompletas e movediças. Fal-tava-me examinar aqueles homens, buscar transpor as barreiras que me separavam deles, vencer este nojo exagerado, sondar-lhes o íntimo [...]. Por que desprezá-los ou condená-los? Existem –e é o sufi ciente para serem aceitos.
Conclusão
Aproveitamos esta última frase de Graciliano Ramos para che-garmos às nossas considerações fi nais a respeito da articulação, dele e de Lima Barreto, de uma experiência coletiva de sofrimento e injustiça. Reunida no «mundo horrível de treva e morte», testemunhado por Gra-ciliano, ou no «cemitério de vivos», de Lima, esta coletividade, segundo vimos, é repleta de tensões e vozes, mas resistente na recusa a cortes moralistas, empregados para suprimir direitos, disseminar preconceitos e reforçar poderes disciplinares.
Redigida com extrema consciência por Graciliano ou seguindo o movimento pendular de Lima, as duas narrativas negam qualquer de-fi nição essencialista do humano. Tal esforço, nos parece, foi enunciado pelo próprio Graciliano Ramos (2008: 13) nas suas memórias quando ele rejeita o critério universalista na observação dos seus companheiros: «Procurei observá-los onde se acham, nessas bainhas em que a socie-dade os prendeu. A limitação impediu embaraços e atritos, levou-me a compreendê-los, senti-los, estimá-los, não arriscar julgamentos precipi-tados».
E apesar do seu movimento pendular, por meio do qual oscila en-tre a identifi cação e a repulsa dos outros internos, Lima também rejeita uma moral excludente e normativa. Esta recusa surge, por exemplo, na crítica que ele faz ao tratamento dispensado pelos guardas do manicô-mio aos internos. Este tratamento, desrespeitoso, vê nos loucos «seres inferiores» (Barreto, 2010: 81) –e, poderíamos acrescentar, «menos hu-manos» e sem direito, portanto, à igualdade. O autor reconhece ainda,
segundo vimos, por meio do personagem Vicente Mascarenhas, que em sua segunda internação no manicômio o seu pensamento, livre das ha-bituais discriminações da opinião pública, «era para a humanidade toda, para a miséria, para o sofrimento» (Barreto, 2010: 208).
O testemunho dos dois escritores fi nca-se, assim, na recusa à moralização, sem com isso ambicionar qualquer tipo de identifi cação integral e fusão com aqueles nos quais reconhecem diferenças diversas e atritos. Concretizando-se ainda como cumprimento do «dever» diante dos antigos companheiros de cárcere, no caso de Graciliano, ou como mediadora na aproximação do coletivo, em Lima, a literatura exerce nos dois textos, ressaltamos fi nalmente para concluir, papel ético fundamen-tal.22
REFERÊNCIAS
AGAMBEN, Giorgio. Ce qui reste d’Auschwitz. Paris: Bibliothèque Rivages, 1999.
BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002 (8.a ed.).
BARRETO, Lima. «Como o “homem” chegou». Lima Barreto: Prosa Seleta. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2001. pp. 1152-1166.
BARRETO, Lima. Diário do Hospício; O Cemitério dos Vivos. São Paulo: Cosac Naify, 2010. BARRETO, Lima. O Cemitério dos Vivos. São Paulo: Editora Planeta do Brasil; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2004.
BARRETO, Lima. «Lima Barreto no hospício». Um longo sonho do futuro. Rio de Janeiro: Graphia, 1998 (2a ed.). pp. 308-310.
BARRETO, Lima. O Cemitério dos Vivos. Rio de Janeiro: Brasiliense, 1956.
BIRMAN, Daniela. «Escrita e experiência do cárcere em Lima Barreto e Graciliano Ramos».
Revista Literatura e Autoritarismo, Santa Maria, dossiê «Escritas da Violência II», jul., p.78-90.
2010.
BOSI, Alfredo. «A escrita do testemunho em Memórias do cárcere». Literatura e Resistência. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. pp. 221-237.
BOSI, Alfredo. «O cemitério dos vivos: testemunho e fi cção». Barreto, Lima. Diário do
Hospí-cio; O Cemitério dos Vivos. São Paulo: Cosac Naify, 2010. pp. 11-39.
BUENO, Luís. Uma história do Romance de 30. São Paulo: EdUSP; Campinas: Editora da Unicamp, 2006.
ENGEL, Magali Gouveia. «A loucura, o hospício e a psiquiatria em Lima Barreto: críticas e cumplicidades». Sidney CHALHOUB, et al. (org.). Artes e Ofícios de Curar no Brasil:
Capítu-los de História social. Campinas: Editora da Unicamp, 2003. pp. 57-98.
ENGEL, Magali Gouveia. Os delírios da Razão. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2001. FELMAN, Shoshana; Dori LAUB. Testimony. Londres: Routledge, 1992.
22 Sobre a indissociabilidade entre os domínios da ética e da estética no estudo do testemunho, cf., entre outros, Jaime Ginzburg (2008).
FOUCAULT, Michel. As palavras e as Coisas. São Paulo: Martins Fontes, 1987 (4a ed.).
FOUCAULT, Michel. «La vie des hommes infames». Dits & Ecrits II. Paris: Gallimard, 2001. pp. 237-253.
FOUCAULT, Michel. «Nietzsche, a genealogia e a história». Microfísica do Poder. Rio de Ja-neiro: Graal, 1979. pp. 15-37.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. Petrópolis: Vozes, 2008. GINZBURG, Jaime. Linguagem e trauma na escrita do testemunho. Conexão Letras, Porto Ale-gre, v. 3, pp. 61-66, 2008.
LEVI, Primo. Os Afogados e os Sobreviventes. São Paulo: Paz e Terra, 2004.
MACHADO, Roberto et al. Danação da Norma: Medicina Social e Constituição da Psiquiatria
no Brasil. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1978.
MORAES, Dênis de. O velho Graça. Rio de Janeiro: José Olympio, 1996 (3.a ed.).
RAMOS, Clara. Cadeia. Rio de Janeiro: José Olympio/Secretaria de Cultura, 1992. RAMOS, Graciliano. Memórias do Cárcere. Rio de Janeiro: Record, 2008 (44.ª ed.). RAMOS, Graciliano. Insônia. Rio de Janeiro, Record, 2003.
SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. Os Porões da República. Rio de Janeiro: Garamond, 2009. SELLINGMAN-SILVA, Márcio (org.). História, Memória, Literatura. Campinas: Editora da Unicamp, 2003.
SELIGMANN-SILVA, Márcio. «O testemunho para além do falocentrismo: pensando um outro paradigma». Helmut GALLE e outros (orgs.). Em Primeira Pessoa: Abordagens de uma Teoria da Autobiografi a. São Paulo: Annablume/Fapesp/FFLCH-USP, 2009. pp. 171-191.
SEVCENKO, Nicolau. «A fênix republicana: Lima Barreto atual e urgente». Folha de S. Paulo, São Paulo. Ilustríssima, 5. Set. 2010. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/ il0509201005.htm. Último acesso: 11 out. 2012.
FONTES DE ARQUIVO: Fundo Polícias Políticas do Rio De Janeiro. Prontuários GB: 11.473 E RJ: 26.359. Arquivo Público Do Estado Do Rio De Janeiro.