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AS SOBREVIVÊNCIAS INICIÁTICAS

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AS SOBREVIVÊNCIAS INICIÁTICAS

Robert Ambelain

O Martinismo Contemporâneo e Suas Verdadeiras

Origens

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Nota do Editor

A Grande Loja da França publicará e venderá incessantemente uma obra sobre o “Simbolismo Maçônico”. O Grande Oriente da França e a Grande Loja da França, pela voz da radiofusão, dirigem-se regularmente ao público, e o primeiro comentou nela até mesmo as famosas “Constituições de Anderson”. Enfim, o Rito Escocês Retificado autorizou Robert Ambelain, pela interpretação de seu Grande-Prior e de seu Grande Chanceler, publicou nesta coleção um estudo preciso e detalhado sobre as fontes, que permaneceram secretas até este dia, de sua verdadeira afiliação. Vale dizer que os Martinistas contemporâneos não poderiam culpar o autor pelo presente estudo e sobre o que ela lhes traz. Ele, na verdade, apenas tirou partido dos documentos já publicados, mas esparsos, para confrontá-los e para concluí-los. Quanto às cartas do qual ele nos fornece os extratos, tratam-se de documentos para os quais ele recebera de um Membro de seu primeiro Supremo Conselho de 1884, uma autorização para o livre uso em sua obra precedente sobre a questão.

As conclusões que ele tira são compartilhadas pelos Martinistas qualificados, uma vez que na mesma época em que o Manuscrito deste estudo nos foi remetido: para fins de edição, o Grande Mestre da Ordem Martinista Tradicional se demitiu por consequência das mesmas conclusões.

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Enfim, os Martinistas sinceros creem que iniciados da envergadura de Martinez de Pasqually, de Louis-Claude de Saint-Martin e de Jean-Baptiste Willermoz aprovariam todas as quimeras, as ilusões e os erros históricos aos quais alguns dentre seus sucessores apelaram para afirmar uma adesão que apenas tira, primeiramente, seu valor e sua potência da sinceridade que nela preside.

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INTRODUÇÃO

Confiamos nos serviços de estudos da A. R. O. T. (1) e nas Edições de “Destinos”, o presente estudo sobre as origens verdadeiras do Martinismo, este vasto movimento filosófico e místico que foi, por muito tempo, considerado por certos católicos como a sinagoga diabólica onde se elaboravam as mais secretas palavras de ordem da Franco-Maçonaria. Para aqueles de nossos leitores que se interessam mais pela questão poderão se reportar à obra que acabamos de publicar sobre este assunto, nesta simples brochura, destinada a deixar claros alguns pontos que ficaram obscuros sobre as origens do Martinismo, para completar tais capítulos de nosso livro ou para corrigir alguns erros involuntariamente cometidos a esse respeito, não abordaremos o lado doutrinário desta escola. É seu único aspecto histórico que nos interessa aqui. Nisto, nos conformamos à regra igualmente observada em estudos semelhantes, atualmente sob edição: a Rosa-Cruz, a Gnose, a Franco-Maçonaria, o Companheirismo. É por isso que denominamos esta pequena coleção: “As Sobrevivências Iniciáticas do Ocidente”. E para bem cobrir o clima no qual vão se gerar nossas observações, nossas críticas, e nossas conclusões, não poderíamos fazer melhor do que citar tais passagens do livro altamente esclarecedor de René Guénon, obra após a qual parece mesmo que o problema tenha sido totalmente esgotado quanto aos próprios princípios da Iniciação. Da opinião de todos os familiares dessas questões, “Percepções sobre a Iniciação” é um verdadeiro “compêndio” iniciático, mais ainda, uma “soma”…

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Ora, eis as conclusões de René Guénon sobre as origens, a afiliação, a regularidade, da Iniciação considerada como princípio transcendente da evolução espiritual, do verdadeiro fermento transmutador das almas.

“A iniciação implica três condições que se apresentam em modo sucessivo, e que poderíamos fazer corresponder respectivamente aos três termos de ‘potencialidade’, de ‘virtualidade’ e de ‘atualidade’: 1) a ‘qualificação’, constituída por certas possibilidades inerentes à natureza do próprio indivíduo, e que são a matéria-prima sobre a qual o trabalho iniciático deverá efetuar-se; 2) a transmissão, por meio da ligação a uma organização tradicional, de uma influência que dá ao ser a ‘iluminação’ que lhe permitirá ordenar e desenvolver essas possibilidades que carrega em si; 3) o trabalho interior pelo qual, com o concurso de ‘adjuvantes’ ou ‘apoios’ externos, se acontecer e, principalmente nos primeiros estágios, este desenvolvimento será realizado gradualmente, fazendo passar ao ser, de escala em escala, para encontrar os diferentes graus da hierarquia iniciática, para conduzi-lo ao objetivo final da ‘Liberação’ ou da ‘Identidade Suprema’.”

(1) Associação para a Renovação do Ocultismo Tradicional.

O ligamento a uma organização tradicional regular, nós dissemos, não é somente uma condição necessária à iniciação, mas é o que propriamente constitui a iniciação no sentido mais estrito, tal

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como o define a etimologia da palavra que a designa “ou como uma regeneração”; “segundo nascimento”, porque ela abre ao ser um outro mundo além daquele que se exerce a atividade de sua modalidade corporal, mundo que será para ele o campo de desenvolvimento de possibilidades de uma ordem superior; “regeneração”, porque ele restabelece, assim, este ser nas prerrogativas que eram naturais e normais às primeiras idades da humanidade, ao passo que este não tinha ainda se afastado da espiritualidade original para afundar-se cada vez mais na materialidade, como ela devia fazê-lo ao curso das épocas ulteriores, e porque ele deve conduzir, primeiramente, como primeira etapa de sua realização, para a restauração nele do “estado primordial”, que é a plenitude e a perfeição da individualidade humanidade, que reside no ponto central único e invariável de onde o ser poderá, em seguida, elevar-se aos estados superiores.

É bem evidente que não se pode transmitir a não ser aquilo que se possui, por conseguinte, é preciso necessariamente que uma organização seja efetivamente depositária de uma influência espiritual para poder comunicá-la aos indivíduos que se ligam a ela; e isso exclui, imediatamente, todas as formações pseudoiniciáticas, tão numerosas em nossa época, e desprovida de qualquer característica autenticamente tradicional. Nessas condições, de fato, uma organização iniciática não poderia ser o produto de uma fantasia individual; ela não pode ser fundada à maneira de uma associação profana sobre a iniciativa de algumas pessoas que decidem se reunir, adotando qualquer forma e, mesmo se essas formas não são inventadas em todas as suas partes, mas tiradas de ritos, realmente tradicionais, cujos fundadores teriam tido algum conhecimento por

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“erudição”, elas não seriam válidas para isso, a despeito da afiliação regular, da transmissão de influência espiritual é impossível e inexistente, ainda que, em tal caso, pois tem-se conexão com uma vulgar contravenção da iniciação. A mais forte razão para isso é quando se trata apenas de reconstituições puramente hipotéticas, para não dizer imaginárias, de formas tradicionais desaparecidas há um tempo mais ou menos distante, como as do Egito antigo ou da Caldeia, por exemplo.

Acrescentemos ainda, como uma outra consequência do que precede que, pela própria situação quando se trata de uma organização autenticamente iniciática, os membros não possuem o poder de mudar as formas a seu gosto ou de alterá-las no que elas têm de essencial; isso não exclui certas possibilidades de adaptação às circunstâncias que, aliás, se impõem aos indivíduos, ainda mais quando elas não derivam de sua vontade, mas que, em todo caso, são limitadas pela condição de não causar golpes aos meios pelos quais estão asseguradas a conservação e a transmissão da influência espiritual da qual a organização considerada é depositária; se esta condição não é observada, resultaria disso uma verdadeira ruptura com a tradição, que faria perder a esta organização sua “regularidade”. Além disso, uma organização iniciática não pode validamente incorporar a seus ritos elementos tomados de outras formas tradicionais a não ser a que segue aquela à qual ela é regularmente considerada (I); de tais elementos, cuja adoção teria um caráter bem artificial, representaria apenas simples fantasias superficiais, sem nenhuma eficiência do ponto de vista iniciático, e que, por conseguinte, não acrescentaria absolutamente nada de real,

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porém, cuja presença não poderia mesmo ser, em razão de sua heterogeneidade senão uma causa de perturbação e de desarmonia; o perigo de tais misturas é, quanto ao resto, longe de ser limitado ao único domínio iniciático, e está aí um ponto bastante importante para merecer ser tratado à parte. As leis que presidem o manejamento das influências espirituais são, aliás, uma coisa complexa demais e delicada demais para aqueles que não possuem um conhecimento suficiente, podem permitir-se de realizar impunemente modificações mais ou menos arbitrárias a formas ritualísticas onde tudo tem sua razão de ser, ou cujo alcance exato arrisca muito de lhes escapar. Dissemos precedentemente que a iniciação propriamente dita consiste essencialmente na transmissão de uma influência espiritual, transmissão que só pode ser efetuada por meio de uma organização tradicional regular, de tal modo que não se poderia falar de iniciação fora da ligação a uma tal organização. Deixamos bem claro que a “regularidade” devia ser entendida como a exclusão de todas as organizações pseudoiniciáticas, isto é, todas aquelas que, quaisquer que sejam suas pretensões e de qualquer aparência que elas se revistam, não são efetivamente depositárias de nenhuma influência espiritual e não podem, por conseguinte, nada transmitir.

(1) É assim que, muito recentemente, alguns quiseram tentar introduzir na Maçonaria, que é uma forma iniciática tipicamente ocidental, elementos tomados das doutrinas orientais, das quais possuíam, aliás, apenas um conhecimento bem externo; encontrar-se-á um exemplo bem citado no esoterismo de Dante, p. 20.

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Na realidade, é desde então fácil de compreender a importância capital que todas as tradições dão valor ao que é designado como cadeia iniciática, ou seja, a uma sucessão que assegura de uma maneira ininterrupta a transmissão do qual se trata; fora desta sucessão, de fato, a própria observação das formas ritualísticas seria vã, pois nela faltaria o elemento vital essencial à sua eficácia.

Retornaremos mais precisamente pela sequência sobre a questão dos ritos iniciáticos, mas devemos a partir de agora responder a uma objeção que pode apresentar-se aqui: esses ritos, dir-se-á não têm eles por si mesmo uma eficiência que lhes é inerente? Eles possuem mesmo um efeito, uma vez que, se não forem observados, ou se forem alterados em qualquer um de seus elementos essenciais, nenhum resultado efetivo poderá ser obtido; mas, se há aí uma condição necessária, ela não é, no entanto, o suficiente e é preciso, além disso, para que esses ritos tenham seus efeitos eles devem ser realizados por aqueles que têm a qualidade de executá-los. Isso, aliás, não é em nada particular aos ritos iniciáticos, mas o mesmo se aplica muito bem aos ritos de ordem esotérica, por exemplo, aos ritos religiosos, que possuem igualmente sua própria eficiência, mas que não podem mais ser executados validamente por qualquer um; assim, se um rito religioso requer uma ordenação sacerdotal, aquele que não recebeu esta ordenação terá muita dificuldades de observar dela todas as formas e mesmo leva a ela a intenção querida (2), não conseguirá dela nenhum resultado, porque não é o portador da influência espiritual que deve operar ao tomar essas formas ritualísticas como suporte (3).

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Em tais condições, é fácil compreender qual é o papel do indivíduo que confere a iniciação a um outro é bem verdadeiramente um papel de “transmissor” no sentido mais exato dessa palavra; não se trata pelo fato de ser um indivíduo, mas pelo fato de ser um suporte de uma influência que não pertence à ordem individual; é unicamente um anel da “cadeia” cujo ponto de partida está fora e além da humanidade. É por isso, que não se pode agir em seu próprio nome, mas em nome da organização à qual ele está ligado e da qual (1) esta palavra “cadeia” é aquela que traduz do hebraico Shelsheleth, do árabe silsilah, e também do sânscrito parampard, que exprime essencialmente a ideia de uma sucessão regular ininterrupta.

(2) Formulamos expressamente aqui esta condição da intenção para melhor deixar claro que os ritos não poderiam ser um objeto de “experiências” no sentido profano desta palavra; aquele que quisesse realizar um rito, de qualquer ordem que fosse, por simples curiosidade e para experimentar-lhe os efeitos, poderia estar bem certo antecipadamente que este efeito será nulo.

(3) os próprios ritos que não requerem especialmente uma tal ordenação não podem também ser executados por qualquer um indistintamente, pois a adesão expressa na forma tradicional à qual eles pertencem é, de qualquer forma, uma condição indispensável para sua eficiência.

Ele detém seus poderes, ou ainda mais exatamente, em nome do princípio que esta organização representa visivelmente. Isso explica, aliás, que a eficiência do rito realizado por um indivíduo, seja

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independente do valor próprio deste indivíduo como tal, o que é verdadeiro igualmente para os ritos religiosos; e não o entendemos no sentido “moral”, o que seria evidentemente sem demais importância em uma questão que é, na realidade, de ordem exclusivamente “técnica”, mas no sentido em que, mesmo que o indivíduo considerado não possua o grau de conhecimento necessário para compreender o sentido profundo do rito e da razão essencial de seus diversos elementos, este rito não será reduzido em seu pleno efeito se, estando regularmente investido da função de “transmissor”, ele o executa observando todas as regras prescritas, e com uma intenção que basta para determinar a consciência de sua ligação à organização tradicional. Disso deriva imediatamente esta consequência, que mesmo uma organização na qual não se encontraria mais a um certo momento o que chamamos de iniciados “virtuais”, (e voltaremos ainda a este ponto na sequência) não ficaria menos capaz de continuar a transmitir realmente a influência espiritual da qual é depositária; basta para isso que a “cadeia” não seja interrompida; e, a esse respeito, a fábula bem conhecida do “Asno que carrega relíquias” é suscetível de uma significação iniciática digna de ser meditada (1).

Consideraremos, então, doravante o fato da “afiliação” como tendo que ser estabelecida por meio de um cerimonial tradicional, certificado por um documento manuscrito qualquer ou a posse de “sinais” e “palavras” de comprovação regularmente reconhecida, emanado de um possessor legítimo da dita filiação.

E consideramos como “irregular” uma pretensa afiliação que não se repousaria a não ser em afirmações gratuitas, na posse de

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arquivos (tão raros e tão respeitáveis que elas sejam) ou a detenção de instruções verbais; da qual a posse legítima e regular restaria para ser comprovada.

(1) É importante observar, para este propósito, que as relíquias são precisamente um veículo de influências espirituais; aí está a verdadeira razão do culto do qual elas são objeto, mesmo se esta razão não é sempre consciente nos representantes das religiões exotéricas que parecem, às vezes, não dar-se conta do caráter muito “positivo” das forças que eles manipulam, o que, aliás, não impede essas forças de agir efetivamente, mesmo sem o conhecimento deles, ainda que talvez com menor amplitude do que se elas fossem melhor dirigidas “tecnicamente”.

I

OS INICIADOS DE SAINT-MARTIN

Alguns erros históricos foram escorregando em nossa obra sobre o Martinismo, decidimos efetuar certas retificações. Como havíamos declarado no curso desta obra, um documento é um documento, e a história não se escreve com “tradições” verbais, rapidamente deformadas.

É errado, principalmente, o que tínhamos escrito que o ramo martinista lionês e o de Paris haviam se fundido. Isso devia ser coisa feita na Liberação, porém, acontecimentos de ordem diversa impediram, até os dias de hoje, essa fusão.

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Havíamos parado nosso manuscrito em 1944, e contávamos colocar tudo nos eixos por ocasião da correção das provas, mas uma doença de três meses não nos permitiu de proceder a isso. Pedimos desculpas por isso.

Na página 172, déramos um estudo sobre as origens da Ordem Martinista, trabalho que era obra de um amigo martinista. Ora, este estudo chama certas observações. Retomemos o texto.

O público que se interessa pelas coisas iniciáticas, pelos mistérios esotéricos, é considerável, declara o autor, e deve-se dizer que um dos fatores de propagação dessas doutrinas é o renome da Ordem Martinista. Mas, poucos estudantes do Oculto sabem exatamente o que se deve entender por isso. É por isso que uma revista que, desde sua fundação, coloca sobre sua capa o símbolo desta Ordem, nos pareceu necessário dar alguns esclarecimentos sobre esta Sociedade da qual muito se falou e, em geral, de modo errado o que se entende por “Martinismo” é um conjunto de considerações e estudos baseados sobre um ensinamento transmitido por Louis-Claude de Saint-Martin, o “Filósofo Desconhecido”. Encontraremos nesta revista estudos sobre a doutrina, a vida e as obras deste Filósofo, e não insistiremos sobre isso, uma vez que se trata aqui da Ordem propriamente dita.

A existência de uma “Ordem Martinista” é um fato preciso, e o leitor menos avisado sabe que esta ordem foi fundada por Papus, continuador de Saint-Martin. Todavia, está entendido que Papus é o continuador de Saint-Martin e, como o próprio Papus diz, que esta

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Ordem tem por fundador os próprios Martinez de Pasqually e Louis-Claude de Saint-Martin.

A verdade é outra! Papus foi a alma, o animador de um movimento de renovação dos estudos esotéricos no final do século XIX. Cercado por escritores de talento, de pesquisadores e eruditos, ele se propôs e conseguiu fazer penetrar, mesmo no público menos avisado, esta maneira de compreender o universo, a metafísica e a ciência. Mas, Papus compreendeu rapidamente que para agrupar os elementos esparsos aos quais ele entregara suas pesquisas, era necessário uma Sociedade que unisse em um feixe de luz as vontades, estudasse com disciplina os sistemas, e formasse uma elite capaz de informar, de difundir, de acordo com um método apropriado, este corpo de doutrinas que ele desejava com seus amigos ver assumir uma extensão.

Foi assim que, iniciado em uma espécie de Maçonaria particular, Papus teve a ideia de criar uma Ordem análoga, cujo modo de trabalho seria sensivelmente o mesmo, e a disciplina interior inspirada nas Ordens Maçônicas. E, já iniciado na tradição de Saint-Martin, ele pensou em colocar, sob essa égide, esta Ordem que ele compôs com seus amigos.

Já iniciado ele era, de fato, e remetemos ao Livro de G. Van Rijnberk a esse respeito: nele veremos como ele teve que se juntar a Martinistas já iniciados como ele, individualmente, para dar corpo a esta Ordem, que nasceu em 1891.

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No entanto, era necessário apresentar alguma coisa que teve origem, uma afiliação, uma tradição, e que colocava esta Ordem sob este vocábulo, ele constatou que já havia existido no passado, no seio da Maçonaria Escocesa, uma Ordem fundada por Martinez de Pasqually e, fora da Maçonaria, um Agrupamento criado por Saint-Martin. Não pretendemos julgar Papus, nem atacá-lo, no entanto, a verdade histórica nos obriga a deixar claro que a ligação invocada por Papus entre essas organizações e a que ele constituiu em 1891 é totalmente fantasiosa e marca um desejo de justificação. Papus, em um manifesto de 1908, publica que a Ordem Martinista foi fundada por volta de 1750 por Martinez de Pasqually, continuada por Saint-Martin, depois por Willermoz até em 1810, e que ela tomou um novo vigor, pela constituição de um Supremo Conselho, em 1887, anunciando que este Supremo Conselho do qual ele é o Presidente, conserva arquivos desde 1767, ele deixa, então, entender que se está diante de uma Sociedade que nenhuma solução de continuidade venha perturbar, e que seu Chefe atual é o legítimo sucessor dos precedentes.

(1) este texto estava destinado à revista Iniciação que devia ressurgir, e cujas circunstâncias difíceis impediram o ressurgimento.

Ora, se é certo que uma unidade doutrinária religa os detentores desta tradição, aí limita-se esta continuidade. A Ordem fundada por Martinez de Pasqually desapareceu oficialmente e oficiosamente na Convenção de Wilhemsbad, e, confrontada aos Maçons, possuía um objetivo e um método de trabalho completamente particulares. Nunca Saint-Martin continuou essa

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Ordem, que não existia sob essa denominação, e quanto ao resto, como ele poderia, uma vez que tendo se demitido de qualquer organização maçônica por sua carta de 4 de julho de 1790, só começou a propagar seu sistema a partir de 1793 (1). Quanto a Willermoz, preocupado com a Maçonaria Transcendental, consagrou sua atividade, após a morte de Martinez, à Maçonaria Escocesa Retificada, regime escocês dissidente, mas sempre maçônico.

Qual é, então, a afiliação da qual pode reivindicar Papus? Não basta justificar em si a origem da Ordem Martinista tal como a fundou Papus. Esta afiliação, que remonta a Saint-Martin, seja por Chaptal, seja pelo Abade de la Noie, e que Van Rinjberk analisou no tomo II de seu estudo sobre Martinez, não tem nenhuma relação com a Ordem dos Cohens deste, mas muito mais com a “Sociedade dos Filósofos Desconhecidos” da qual o barão de Tschoudy em sua “Estrela Flamejante” (1784), dá os Estatutos. É a esta Ordem ou confraria mística que contou com Khunrath, Gitchel, Salzmann, Boehme, entre seus membros à qual se ligou Saint-Martin quando se demitiu dos Cohens, da S.O.T. (2), etc. por sua carta de 1790, na ocasião em que se encontrava em Estrasburgo. É a esta Ordem, que reúne os “Irmãos do Oriente”, do qual um dos Patronos foi o Imperador Alexis Comnène, e que é ainda mais antigo, que pertencem os símbolos fundamentais e únicos do Martinismo, e as cartas que acompanham o “Chrismon”, os seis pontos misteriosos da Ordem têm também essa origem. É desta Fraternidade que Saint-Martin recebeu as chaves da Via Interior. São elas que ele depositou entre as mãos de sua “Sociedade dos Íntimos”, Sociedade cuja existência é atestada

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pela carta do professor Koister em 1795, citada por Rijnberk, e por aquela endereçada a Von Meyer por J. Pont, da qual fala Gleitchen.

É, pois, unicamente esta “Sociedade dos Íntimos” de Saint-Martin que Papus renovou, que ele constituiu uma Ordem, e à qual ele deu uma forma maçônica alargada, isto é, que ele organizou sob a forma de uma obediência real com Lojas, Grupos, Conselho Supremo etc., alguma coisa de vago, de livre que ia ser afinada. Esta Ordem Martinista conheceu uma atividade muito forte, a tal ponto (1) que nosso amigo cometeu aí um histórico erro involuntário. Pesquisas efetuadas por Le Forestier resultaram que foi exatamente em 1777 que Saint-Martin começou sua propaganda doutrinária pessoal.

(2) A Estrita Observância Templária.

Ponto em que não se pode mais falar de Saint-Martin e do Martinismo sem evocar a existência imediata da Ordem com o mesmo nome.

Com a morte de Papus (1916), assistiu-se a um florescimento de membros do Supremo Conselho, proclamando-se cada um Grande Mestre e fazendo-se cada um reconhecer por uma fração de membros! Um publica um Ritual, um outro pretende manter o sistema das iniciações livres e um outro, enfim, que reuniu o maior número de adeptos, não se contentou com a Tradição Antiga de um quarto de século desta Ordem; ele fez nela tantas modificações que assistiu-se mesmo ao nascimento de uma nova Ordem. Retomando por sua própria conta as afirmações de Papus, e alegando-se seu sucessor

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legítimo, pretendeu à afiliação regular de Martinez por iniciados livres, que lhe teriam transmitido esta. Fechando a Ordem, assim, renovada aos não-maçons, exigindo graus maçônicos anteriores à admissão, rejeitando as mulheres, fabricando um Ritual, constituiu um edifício que, do exterior, mantém-se em pé, e ao qual seus comissários creem com uma fé cega (1).

Diante desses fatos, um número restrito, porém, suficiente de sobreviventes do Supremo Conselho de 1891 reuniu-se em 1931 e proclamou a perenidade da Ordem fundada por Papus com eles, continuador da Sociedade dos Íntimos de Saint-Martin. Afirmando-se os únicos com poderes para manifestar esta regularidade, constituíram um Conselho Supremo que escolheu para Grande Mestre, por eleição, como havia sido feito em 1891, o mais ancião em idade profana e iniciática, e fundaram Grupos de acordo com o antigo costume.

Paremos aqui e voltemos atrás.

1) Onde estão os documentos históricos que nos provam que uma Ordem Iniciática contou em suas fileiras Khunrath, Gitchel, Boehme e Salzmann? Em nenhum lugar; é somente uma hipótese, plausível certamente, mas uma hipótese, nascida por volta de 1943-44, que resultou de conversas comuns entre diversos Martinistas e nós mesmos. Tínhamos concluído para uma identidade doutrinária indiscutível entre esses diversos autores, posto que nada, no entanto, permitia comparar a uma afiliação

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ritualística. Com o tempo, a hipótese tornou-se “tradição” sacrossanta…

2) Qual documento nos permite de contar esses mesmos autores no número da “Sociedade dos Filósofos Desconhecidos” do qual o Cosmopolita publicou os Estatutos no século XVII, republicados em seguida na obra do barão de Tschoudy? Nenhum…

3) Que documento nos fala dos “Irmãos do Oriente” do qual um dos patronos de honra teria sido o Imperador Alexis Comnènne? Nenhum. Se existe algum, a Ordem Martinista deve, de boa fé, reconhecer que ela ignora o local de seu depósito! Esta “hipótese” foi compartilhada por um SI de boa fé, com o nome de Dupré, que a sustentava como uma tradição verbal de um outro SI, de origem grega de nome Semelas. De quem a detinha Semelas, nós o ignoramos, mas nos lembraremos disso mais adiante… Quanto ao Imperador Alexis Comnène, é o soberano que convidava os cavaleiros dos estados do Ocidente para participar da Cruzada, oferecendo-lhes em troca as “belas moças da Grécia”… Estranho “iniciado” era na verdade que este imperador proxeneta, que convocou por sua conta dois concílios em Constantinopla, no curso do ano 1120, concílios no curso dos quais, a seu pedido, abriu-se o processo dos Cátaros do Oriente, processo que terminou mais tarde com o saque de Béziers, de Carcassonne, e a ruína do Midi da França. É ainda este “iniciado” que

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mandou solenemente queimar vivo em Constantinopla, o doutor Basilicos, chefe dos Cátaros do Oriente por sua teimosia no erro…, (sic. Ver o “Dicionário dos Concílios”, do Abade Migue. (Paris 1846), página 773.

(1) Trata-se aí de Téder.

4) Que documento, que carta nos permitem supor que Louis-Claude de Saint-Martin foi “iniciado ritualisticamente” por Salzmann? Nenhum…

Matter, em seu “Saint-Martin”, páginas 160 e 181, nos mostra o pouco de duração das relações entre esses dois homens e suas diferenças de concepção: “Após a separação deles, eles apenas trocaram algumas cartas”. Isso nos parece definitivo.

5) “É a esta Ordem ou confraria mística à qual pertenciam os símbolos fundamentais e únicas do Martinismo, e as cartas que acompanham o Chrismon. Os seis pontos misteriosos da Ordem tem também sua origem”, nos diz nosso autor. Possível. Mas eis uma tradição que ignoram Papus e Chaboseau pai, por ocasião da constituição do primeiro Supremo Conselho de 1891 e que chega até nós pelo mesmo Semelas.

Ora, não ignoramos que, durante a 1a Grande Guerra

1914-1918, quando o Kaiser vislumbrou em se fazer-se proclamar “Imperador do Oriente”, o clero ortodoxo grego devia proceder ao

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sacro em Constantinopla, na basílica de Santa Sofia, e que os “Irmãos do Oriente” deviam proceder a uma segunda consagração na cripta de Santa Sofia, no dia seguinte. Tudo nos leva a crer que Semelas era o agente de um poder político (1) e que os misteriosos “Irmãos do Oriente” foram tirados do esquecimento (ou imaginados) para finalidades bem temporais!

6) Claude de Saint-Martin procedeu a iniciações individuais? Somente uma tradição oral que tudo leva a crer verídica permite de afirmá-lo. Mas nenhum documento escrito vem a corroborar isso em definitivo. Esta tradição nos chega pelo canal de Papus. (1) Era a opinião de J. Bricaud.

Iniciado por Henri Delage, neto de Chaptal, e por Augustin Chaboseau, iniciado por sua prima, Amélie de Boisse-Mortmart. Se sua “Sociedade dos Iniciados” é atestada pela carta de um desconhecido ao Professor, de 20 de dezembro de 1794, esta carta não menciona a não ser os Elus Cohen, já iniciados, e os iguais de Saint-Martin, “seus irmãos!”, de fato.

Trata-se somente de homens, com a exclusão de mulheres: “Conheci, então, em Estrasburgo, esses caros homens e deles recebi a amizade” (Van Rijnberk, “Martinez de Pasqually” tomo I, página 161).

“Entre os Irmãos mais fiéis que formavam com ele um centro íntimo, havia os mais excelentes homens de Paris...” (Idem, página 162)

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É clássico afirmar, entre os Martinistas contemporâneos, que os primeiros iniciados de Saint-Martin foram mulheres! Eis um documento que contradiz esta “tradição verbal”… Se quiser outros, ter-se-á que reportar à árvore genealógica dos mesmos “Iniciados de Saint-Martin”, publicado por Van Rijnberk em sua mesma obra, tomo II, página 30. A primeira mulher “SI” que nele figura é Amélie de Boisse-Mortmart, ou seja, um século após Saint-Martin.

A lista dos Martinistas russos iniciados por Saint-Martin, publicada em 1867, na obra de Longuinoff (“Novikof e os Martinistas de Moscou”, Moscou 1867) e reproduzida nas páginas 233 e 234 de “Saint-Martin” de Papus, não comporta tampouco nenhum nome de mulher.

Quanto à opinião de Saint-Martin sobre a necessidade das iniciações femininas, não pretendemos julgá-la, mas guardamo-nos no direito de fazer conhecê-la. Eis aqui, tal como foi expressa na carta de 23 de março de 1777, três anos após a morte de Martinez, dois anos após a publicação de seu livro “Dos Erros e da Verdade”.

“Nada tenho a criticar nem a aprovar em vossa conduta com relação a Sra. de Brancas. O exemplo que Caignet acaba de nos dar, relativamente a Sra. de la Croix, pode vos permitir conhecer a resposta que tendes a esperar sobre isso. Insisto na opinião que as mulheres devem ser em pequeno número entre nós e, principalmente, muito escrupulosamente examinadas. Eis o porquê dou a

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plenitude de meu sufrágio ao artigo de nossos estatutos que nos proíbe de recebê-las, sem uma prova direta e física da própria ‘Chose’. Pedi as provas de meu último trabalho para a Sra. de la Croix, e como não tive a felicidade de obtê-las em meu pedido, estou determinado a nada fazer por ela, pois a ‘Chose’ não falou afirmativamente a mim, ou àqueles meus irmãos que têm mais poder do que eu. Com base nisso, creio que tal deve ser nossa regra para todos, assim mesmo recebereis do Mestre Caignet uma resposta favorável, isso não deveria vos tranquilizar mais, a menos que ele vos ordenasse de mantê-la ele próprio de boa mão...” (1)

(1) A “Chose” não é outra coisa que a Força Invisível manifestada pelos “Passes” no curso das cerimônias teúrgicas.

“Enfim, a batina do dito Senhor será sempre um espantalho, para mim, creio que deveríamos tratar os padres como as mulheres”.

Ora, em 1777, é justamente o ano em que ele começa sua propaganda pessoal junto aos Elus Cohen de Versalhes (Cf. Le Forestier, página 512: “Em 1777, ele faz, durante uma estada em Versalhes, propaganda junto aos Elus Cohen desta cidade, onde a Ordem contava com seus discípulos mais fiéis… E foi somente em 1788 e em 1791, que ele encontrou Salzmann em Estrasburgo, ou seja, dez anos mais tarde (1). Por conseguinte, isso demonstra bem que a doutrina que ele comunicou aos seus ‘Íntimos’ foi o resultado

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de um trabalho pessoal, e não de um ensinamento vindo de Boehme por Salzmann e Gitchel”.

Nos papéis que Saint-Martin deixou, em sua morte, e que foram publicados sob o título coletivo de Obras Póstumas, encontramos ainda isso “Sinto lá no fundo de meu ser uma voz que me diz o que sou, de um país onde não existem mulheres...” (Obras Póstumas, I, página 29).

“Desde que adquiri profundas luzes sobre a Mulher, eu a honro e a amo mais que durante as efervescências de minha juventude; ainda que eu saiba também que sua Matéria é ainda mais degenerada e mais temível que a do homem...” (Obras Póstumas, I, página 29).

“A mulher é melhor, mas o homem é mais verdadeiro...” (Obras Póstumas, I, página 29).

Esta opinião dele não é nova. Citamos mais acima sua opinião de 1777, eis uma passagem de uma carta datada de 25 de abril de 1792:

“Experimentei nesta leitura o quanto a inspiração feminina é fraca e vaga em comparação com a inspiração masculina...”

“As grandes verdades só são bem ensinadas no silêncio, ao passo que toda a necessidade das mulheres nessa questão

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é que se fale e como elas falam; e aí tudo se desorganiza como experimentei muitas vezes” (Retratos, Nf. 145 – Cf. R. Amadou: L. C. de Saint-Martin, p. 52).

7) Numerosos adversários de Saint-Martin, (e infelizmente alguns de seus modernos discípulos) o apresentaram como um católico fervoroso e um monarquista convicto. Saint-Martin foi exatamente o oposto… Monarquista? A história nos mostra Saint-Martin fazendo a guarda do Templo, onde Luís XVI ficou preso. Ela nos mostra a Convenção que levava seu nome sobre a lista dos preceptores possíveis de Luís XVII. Se Saint-Martin não tivesse sido republicano, teria ele, assim, inspirado confiança? Aliás, Saint-Martin, ainda que ele mesmo tenha ficado inquieto no período do Terror, pelo simples fato de sua origem nobre, nem por isso permaneceu menos fervoroso admirador da Revolução de 1789 e recusa-se de emigrar.

(1) G. Matter: “Saint-Martin, páginas 147 e 161.

“Disseram-nos que o Povo é o único soberano. Vanglorio-me de pensar assim e de ser altaVanglorio-mente conveniente a isso… Todos os homens são reis… Deus é o único soberano deles…” (Cartas sobre a Revolução, Ano III).

O Terror não o apavora, pois ele o vê como o traçado da justiça divina, a liquidação do karma de uma casta:

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“Não se fez reinar a Justiça quando o Espírito nos ensinava com doçura… Eis que Ele nos aplica com força e virtude” (Cartas sobre a Revolução, Ano III).

“Mas, como vi a mão de Deus em nossa Revolução, posso até acreditar igualmente que é, talvez, necessário que haja vítimas de expiação” (Obras Póstumas, p. 87, tomo I).

Quanto ao seu catolicismo, ser-nos-á permitido de duvidar dele! Suas cartas nos mostram, sua vida inteira, violentamente anticlerical:

“A batina do dito Senhor será sempre para mim um espantalho, e creio que deveríamos tratar os padres como tratamos as mulheres...” (Carta datada de 23 de março de 1777).

“Saint-Martin”, nos diz a tradição martinista moderna, “mandava rezar uma missa após cada iniciação, missa à qual assistiam todos os presentes”. Por conseguinte, Saint-Martin não admitia a validade e a eficiência automática dos Sacramentos e, em seu leito de morte, recusou a viática e a extrema-unção. Para ele, é o valor individual do padre, sua espiritualidade, seu saber que lhe conferem uma eficiência mais ou menos real:

“Quando ele estiver regenerado, não mais em um pensamento, mas seu pensamento completo, em sua palavra, em sua operação, quando o Espírito o penetrar em todas as suas veias e revestir-se dele, quando tudo nele se

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transformar em substância espiritual e angélica, é então somente que o homem se encontrará ser, em espírito e em verdade, o sacerdote do Senhor...” (O Novo Homem).

Saint-Martin é, aliás, um gnóstico puro, não ignora nada da potência dos Arkontes, desses deuses aos quais a imbecilidade do homem se entregou.

“Esses deuses, que somente são deuses por nosso Crime e que, do alto de seus tronos usurpados, sorriem e agitam a cabeça de desdém pelo Homem, mestre deles que se tornou seu escravo...” (O Espírito das Coisas).

8) Resta um último e importante dilema. Saint-Martin transmitiu seu ensinamento pessoal sob uma forma ritualística a seus últimos discípulos. Guttinger (1), Branchu, e, principalmente, Gence?

(1) Este último tem, aliás, publicado em 1834 um “Coletânea de Pensamentos de L. C. de Saint-Martin.

Duvidamos disso, após pesquisas minuciosas, temos encontrado somente provas do contrário.

De fato, Gence nos fala de uma pequena brochura, publicada propositalmente, para destruir (já…) certos erros atribuídos a Saint-Martin da “seita dita dos Saint-Martinistas”. É aos Elus Cohen da “Sociedade dos Íntimos” que ele faz alusão, sendo ele próprio Elus Cohen. Ele nos deixa claro que a doutrina desta escola se encontra

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exposta nas primeiras obras de Saint-Martin e, sobretudo, em seu Quadro Natural. Mas, ele nos diz também em contrapartida:

“Ele (Saint-Martin) não tinha nenhuma intenção de fundar uma seita...” - (Gence: Nota bibliográfica sobre L. C. de Saint-Martin, página 12). “Minha seita é a Providência; meus prosélitos sou eu; meu culto é a justiça...” (Retrato Nf 488, p. 68), (Cf R. Amadou: L. C. de Saint-Martin, p. 50).

É a este ensinamento individual, oriundo unicamente da doutrina de Martinez e da de Jacob Boehme, que ele dizia ter associados (1) que Saint-Martinf az alusão na véspera de sua morte “Os germes que tentei semear frutificarão...” (13 de outubro de 1803).

De fato, como conciliar esta ritualística, que os Martinistas modernos asseguram vir diretamente do Filósofo Desconhecido com os princípios deste? Todos os rituais Martinistas mencionam as três luzes dispostas em triângulo sobre as três toalhas de cores diferentes (2): preta, vermelha e branca.

Ora, essas cores são simbólicas das três cascas revestidas pelo Homem Primitivo após sua Queda de acordo com o ensinamento de Martinez… (Ver “Ritual do Aprendiz Cohen”, descrito por Thory).

Quanto ao número três, empregado pelas luminárias, é a prova peremptória que aqueles que estabeleceram a ritualística Martinista ignoravam o ensinamento de Martinez de Pasqually e de Louis-Claude de Saint-Martin.

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São essas tradições maçônicas ordinárias que eles copiaram desajeitadamente interpretando-os sob o ângulo do Cristianismo e de sua Trindade. Pois, as luminárias utilizadas pelos Elus Cohen eram, no mínimo, quatro “número divino perfeito”.

“Os três números da Matéria são três, seis e nove”. (Os Números, II: Da Quantidade Natural dos Números). É, então, após a morte de Saint-Martin que esses rituais foram estabelecidos, quando se perdeu pouco a pouco o verdadeiro espírito de seu ensinamento (3).

(1) Ver a carta de 11 de julho de 1796.

(2) Ver “Ritual da Ordem Martinista”. Paris 1913. Dorbon, editor, página 46.

(3) Como conciliar a pompa impressionante do ritual de Teder com a simplicidade de Saint-Martin?

É verdade que os Martinistas modernos reconhecem que os três graus da ordem são uma criação e que Saint-Martin ministrava tudo em uma única vez.

Mas, onde se encontra nas numerosas informações fornecidas por seus últimos discípulos uma alusão a uma máscara, a um manto e a todos os acessórios exigidos pelo cerimonial atual? Em nenhum lugar. O pretenso “Selo” da Ordem Martinista nunca teve, na mente de Saint-Martin, um caráter pantacular, pois se retomarmos seu tratado “Dos Números”, no parágrafo XVII, “Diferença da mente do

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corpo”, nós o encontraremos tão somente como um simples esquema explicativo!

Os famosos “seis pontos” se encontram no parágrafo VIII, onde eles esquematizam “as leis inversas correspondentes às leis diretas”! E os “Irmãos do Oriente” neles não estão nem por nada! Não há nada de misterioso em tudo isso. Quanto ao dito “Ritual de Teder”, ele é, na realidade, do Doutor Blitz. Teder só o traduziu (Ver nossa obra sobre o Martinismo, página 153, primeiro parágrafo). Enfim, é um fato novo que abala todo o edifício oficial. Em seu estudo sobre o “Filósofo Desconhecido, Claude de Saint-Martin”, Robert Amaadou declara possuir em seus arquivos uma carta de Augustin Chaboseau, fundador do primeiro Supremo Conselho com Papus, carta na qual ele deixa claro quanto à origem de tudo, Papus e ele se iniciaram mutualmente…

Que se trate aí de “regularização” iniciática ou de uma iniciativa sem raiz no passado, nós não sabemos. Porém, tanto em um caso como em outro, a dúvida está lançada sobre o alicerce da tradição que quer que Papus tenha sido iniciado por Delage, e Chaboseau por A. de Mortmart. Já, faltava um nome na filiação de Papus, entre Chaptal e Delage. Mas, doravante, não se pode mais afirmar que nossos dois fundadores eram alguns da regularidade deles, uma vez que experimentaram a necessidade de assegurar uma espécie de “confirmação”…

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II

DA POSSÍVEL EXISTÊNCIA DE UMA AFILIAÇÃO

MARTINISTA CONTEMPORÂNEA

I. - O WILLERMOZISMO

“Quando pedimos em 1943 ao Irmão – Georges Lagrèze – de nos transmitir a afiliação willermozista, nós o supúnhamos não somente ‘Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa’, mas ainda um dos oito Grandes Professos da França”, declara Aurifer.

Ora, se Lagrèze foi afiliado ao Grande Priorado das Gálias na qualidade de “C. B. C. S.” (1), (possuímos uma foto da sua cédula de identidade na Ordem Interior) e por que 33o do Rito Escocês Antigo e

Aceito nunca foi, ele nos declarou um dia, detentor da Grande Profissão?

O Doutor Wibeaux nos declarou no curso de uma entrevista recente (28 de junho de 1946) que ele havia efetuado pesquisas históricas neste domínio e que ele havia concluído:

1) Nenhum dignatário do Rito Retificado possuía em nossos dias este grau;

2) Que ele desaparecera alguns anos após sua criação;

3) Que nunca se encontrou o Ritual de sua transmissão, se é que houve um (2).

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Tudo nos leva a crer que se tratou, da parte de Willermoz, apenas uma reposição de uma Instrução, do qual o texto se encontra, aliás, nos Arquivos da Cidade de Lyon.

De qualquer forma, ninguém pode atualmente reivindicar a posse do grau de Réau-Croix pelas seguintes razões:

(1) Iniciais de “Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa”.

(2) O Dr. Wibeaux é ele próprio um alto dignitário do Rito Escocês Retificado.

a) O Doutor Blitz divulga em sua brochura por Bricaud, que não tinha a qualidade como simples “C. B. C. S.” para reivindicar o título de Réau-Croix, pois não nos diz que ele fora Grande Professo;

b) Willermoz não podia “transmitir” a não ser os 3 graus da classe de Pórtico da Ordem dos Elus Cohen. Sua carta de 12 de outubro de 1781 para o Príncipe de Hesse-Cassel, escrita sete anos após a morte de Martinez (publicada no Tomo I, de Van Rijnberk, página 165) nos deixa isso claro.

“No início do ano de 1767, tive a felicidade de adquirir meus primeiros conhecimentos na Ordem da qual fiz menção mais adiante a Vossa Alteza Sereníssima. Aquele que me os deu, estando favoravelmente prevenido por mim por suas informações e exame, me adiantou rapidamente, e obtive os seis primeiros graus (1). Um ano após, empreendi uma outra viagem com esta intenção e obtive o sétimo e

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último grau (2), que dá o título e o caráter de chefe nesta Ordem. Aquele de quem os recebi se dizia ser um dos sete Chefes Soberanos Universais da Ordem, e frequentemente comprovou seu saber por fatos. Seguindo este último, recebi, ao mesmo tempo, o poder de conferir os graus inferiores (3), conformando-me para isso ao que me foi prescrito. No entanto, não fiz nenhum uso disso durante alguns anos, aos quais me empenhava em instruir-me e em fortificar-me, tanto quanto minhas ocupações civis puderam me permitir. Foi somente em 1772 que comecei a receber meu irmão médico (4) e pouco depois os Irmãos Paganucci e Perisse de Luc, que Vossa Alteza tereis visto sobre o quadro dos Grandes Professos. E esses três se tornaram, desde então, meus confidentes para as coisas relativas que tive a liberdade de confiar a outros. É essencial que eu previna Vossa Alteza Sereníssima que os graus da dita Ordem encerram três partes.

Os três primeiros graus (5) instruem sobre a natureza divina, espiritual, humana e corporal, e é precisamente esta instrução que dá a base da dos Grandes Professos. Vossa Alteza Sereníssima podereis reconhecer por sua leitura. Os graus seguintes (6) ensinam a teoria cerimonial preparatória para a prática, que é exclusivamente reservada ao sétimo e último (7).

Aqueles que chegaram a este grau, cujo número é muito pequeno, estão sujeitos a trabalhos ou operações

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particulares, que são feitas essencialmente em março e setembro. Eu as pratiquei constantemente e me dei muito bem com elas...”

(1) Aprendiz-Cohen, Companheiro-Cohen, Mestre-Cohen, Grande Arquiteto, Cavaleiro do Oriente, Comandante do Oriente.

(2) Réau-Croix.

(3) Aprendiz-Cohen, Companheiro-Cohen, Mestre-Cohen. (4) Pierre-Jacques Willermoz, médico e alquimista.

(5) Aprendiz-Cohen, Companheiro-Cohen, Mestre-Cohen, ou seja, a Classe de Pórtico.

(6) Grande-Arquiteto, Cavaleiro do Oriente, Comandante do Oriente. (7) Réau-Croix.

c) Os Grandes Professos, eles próprios, nunca estiveram de posse deste grau, de Réau-Croix, assim como ele tira da mesma carta de Willermoz de 12 de outubro de 1781, do Príncipe de Hesse-Cassel:

“Quanto às Instruções Secretas (1), meu objetivo, ao redigi-las foi de …… Ligado de uma parte por meus próprios engajamentos (2) e retido por outra pelo temor de fornecer alimentos a uma frívola curiosidade, ou de exaltar em excesso certas imaginações, se não lhes forem apresentados os planos teóricos que anunciam uma Prática (3), vi-me obrigado de não fazer deles nenhuma menção e mesmo de apenas apresentar um quadro bem sucinto da natureza dos seres, de suas relações respectivas, assim como suas divisões universais”.

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d) Os membros da Sociedade Cohen de Lyon não tendo, pois, recebido a não ser os graus inferiores de Pórtico, não puderam por sua vez transmiti-los, pois esta única transmissão já era, nós o vimos, o apanágio do Réau-Croix. Um padre, mesmo regularmente ordenado não pode ordenar um outro, é o privilégio do Bispo.

e) Esta Sociedade Cohen não exigia a qualidade maçônica exigida para os membros dos Elus-Cohen de antigamente, como deixa claro Willermoz nesta mesma carta:

“Além disso, ainda que exista aqui desde nove a dez anos (4) uma pequena Sociedade composta daqueles que recebi em diversos graus na Ordem que professo, a qual é apenas conhecida daqueles que a formam, maçons e outros, no entanto, alguns Irmãos que são, hoje, Grande Professo, presumiam desde muito tempo que havia adquirido alguns conhecimentos sobre essas matérias, da qual gostava de entreter-me com alguns amigos particulares”.

f) Trinta anos após a Revolução, os Grandes Professos tinham totalmente desaparecido na França, e Willermoz era o único sobrevivente (uma outra carta sua de 10 de setembro de 1810, ou seja, vinte e nove anos mais tarde ao mesmo Príncipe de Hesse-Cassel):

(1) Grandes Professos.

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(3) As dos Réaux-Croix, a Teurgia.

(4) Desde 1771, ou seja, desde que começou a usar seu direito de transmissão dos graus inferiores para seu irmão, Perisse de Luc, Paganucci, etc.

“Eu permanecia só em Lyon. A morte, as demissões antigas e a emigração tinham totalmente apagado este (Diretório) de Bourgogne em Estrasburgo. O da Ocitania, em Bordeaux, havia cessado de existir antes mesmo da Revolução. O Diretório de Auvergne não existia mais a não ser na minha pessoa e não podia, por conseguinte, constituir in plenis...”.

g) Willermoz não estava nem um pouco de posse de todos os Poderes no seio da Ordem. E sem falar daqueles exclusivamente o apanágio de Don Martinez, Bacon de la Chevalerie e de Lusignan eram, além disso, altos dignatários como ele. É a carta de Bacon, datada de 3 de junho de 1778 (ou seja, quatro anos após a morte de Martinez), que nos informa:

“Envio-vos, meu caro Willermoz, dois cadernos numerados e paragrafados desde 1 até 44. Assim que os tiver copiado, me os remetereis e, na sequência, vos enviarei novos, pegos ao acaso como esses aí.

Sucessivamente, tereis assim tudo o que desejais e que colocastes à parte. Com a exceção da “Grande Operação” de Don Martinez, que ele me proibiu terminantemente de

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comunicar a qualquer outro a não ser o Sr. de Lusignan. Preencherei com exatidão esta cláusula...”

Resta a afiliação última que viria por Antoine Pont, seu sobrinho. Ora, este nos relata a mínima importância do que recebeu, em uma carta de 8 de dezembro de 1832, endereçado ao sobrinho de Willermoz e que está nos Arquivos da Cidade de Lyon:

“Segui seu conselho (de Madame Provensal) e por volta de 1795, fui iniciado… Como vós, sem dúvida, caríssimo Irmão, eu achava que, no grau seguinte, encontraria a pérola prometida; como tantos outros, encontrei-me no termo sem ter descoberto esta joia...”

Antoine Pont escrevia isso oito anos após a morte de Willermoz. Não se pode, aliás, dizer que ele foi o sucessor consciente e bem “educado” de Willermoz. Este, diante de suas reticências, vislumbrava queimar todos esses arquivos secretos. Finalmente, após ter hesitado, ele os entrega sem condições, pois Pont só os aceitava na condição de decidir, em seguida e livremente, se ele devia ora conservar, ora comunicar, ora destruir seu depósito. (Ver a obra de Alice Joly, página 325: “Um Místico Lionês”).

Eis-nos aí longe de um Pont “Réau-Croix”… Não se trata aí de uma última iniciação, mas de uma simples constatação de papéis secretos. É este lote de arquivos que nos chegou e foi comprado pela Cidade de Lyon.

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E aliás, mais uma vez, vimos que Willermoz reconhecia em 1781 (Martinez falecido) nunca ter tido poderes de transmissão outro a não ser sobre a classe de Pórtico. Antoine Pont não podia, pois, ser mais do que Mestre-Cohen…

III

O GRUPO MARTINISTA DE LYON E SUA AFILIAÇÃO

Os Martinistas lioneses, oriundos da afiliação de Jean Bricaud, reivindicam estar de posse da afiliação regular que remonta a Martinez de Pasqually, pelo canal de iniciados lioneses por Willermoz e seus sucessores.

Tentaremos, pois, aqui mesmo tentar demonstrar que Jean Bricaud nunca possuiu outra coisa a não ser a dita afiliação de Saint-Martin, que ele reconhecia ter recebido sob a forma dos “iniciados livres”, a mesma que receberam, ao que parece, no século XIX, Augustin Chaboseau e Gérard Encausse.

Esta afiliação comporta a aplicação do simbolismo da Máscara, do Manto, do Cordão, das três toalhas: negra, branca e vermelha, das três Luminárias, a assinatura por duas letras e seis pontos; e a posse, em princípio, das chaves da Via Mística Interior que o “Filósofo Desconhecido”, Louis-Claude de Saint-Martin dava a seus “Íntimos”.

Quanto à afiliação dos Elus Cohen e de sua classe secreta de “Réaux-Croix”; afiliação que remontaria a Martinez de Pasqually por Willermoz, Bricaud nunca a recebeu em nossa opinião, e eis o porquê.

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Em sua “Nota Histórica sobre o Martinismo”, M. Chevillon, sob as iniciais de “C. C.”, retoma os seguintes detalhes, que ele recebeu de Jean Bricaud, antes da morte deste. É, pois, a boa fé de M. Chevillon que colocamos em questão (nem mesmo a de Bricaud…).

“Em 1893, nos disse a ‘Nota Histórica sobre o Martinismo”, os martinistas lioneses entraram em posse dos arquivos de J.-B. Willermoz e do Templo Cohen de Lyon, que a viúva de Joseph Pont, sucessor de Willermoz, havia legado ao Irmão Cavarnier, com a morte de seu marido”.

Esta posse repentina colocaria os ditos Martinistas lioneses de posse de uma espécie de “regularização” de afiliação? Sim e não! Sim; se tivessem recebido a ordenação precedentemente. Não, se seu Martinismo fosse somente uma pura adesão espiritual ao programa da Ordem…

“O Doutor Encausse”, continua a Nota Histórica, “ignorava então que a transmissão regular dos Elus Cohen nunca havia sido interrompida, e que esta tradição não havia cessado de ter representantes; seja em Lyon, seja nas diferentes cidades estrangeiras. Tais como os irmãos Bergeron e Bréban-Salomon para a cidade de Lyon; Carl Michelsen, na Dinamarca; o Doutor Edouard Blitz nos Estados Unidos.

O Doutor Blitz era Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa e alto grau do Rito Maçônico de Memphis-Mitzraim. Era igualmente o sucessor direto de Antoine Pont e de Willermoz. Ele tornou-se, então,

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Presidente do Grande Conselho para os Estados Unidos da Ordem, assim, renovada por Papus. Nesta qualidade (representante e herdeiro legítimo de Martinez de Pasqually) resolveu restabelecer a ordem nos Estados Unidos sobre as bases tradicionais antigas. Na França, seus representantes foram o Doutor Fugairon e, em seguida, Charles Détré que, sob o nome esotérico de Teder, estabeleceu o Ritual Martinista Francês de acordo com Papus (Ritual que foi editado em Paris, em 1913 aos cuidados de Dorbon Aîné)”.

Aqui, a questão que se coloca: Blitz era (e como?) o sucessor de Willermoz e de Antoine Pont? E como poderia ele ser o sucessor direto deles? Bricaud não nos diz! Mas, se sua afiliação lionesa dos Elus Cohen pudera, negligenciando as imediações de Lyon e de Paris, fugir em uma revoada até os Estados Unidos para cair entre as mãos de um médico americano, como se faz que este Ritual, estabelecido por Blitz comporte símbolos puramente oriundos do Cerimonial que contém o Manto, a Máscara, as Três Luminárias, as duas letras e os seis pontos? (Emblemas que, sabemos agora, não podem vir do “Filósofo Desconhecido”, uma vez que são estranhos ao seu simbolismo pessoal). Como é possível que nada recorde os Rituais utilizados antigamente pelos verdadeiros Elus Cohen, no século XVIII, nem mesmo os Graus? E como é possível que os Círculos simbólicos de Martinez – utilizados nas Ordenações – tornam-se sempre sobre o solo da Loja descrita por este Ritual, o Pantáculo da Ordem? Como, por que aberração, as “Instruções Secretas” de Martinez e de Willermoz sobre a Reintegração, a queda que o precedeu, tornam-se, no Ritual de Blitz, um simples comentário dos primeiros versículos do

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Gênesis, comentários bem dignos de um protestante americano, mas indignos de um iniciado Cohen?

Para a excelente razão que Blitz, talvez, titular dos Altos Graus do Rito de Memphis-Mitzraim (e que relação?…) tinha apenas sua iniciação de Papus!… Não somente, ele nunca iniciou este último, mas é Papus quem foi seu iniciador… Estamos convencidos disso ao saber que Blitz foi radiado, na sequência, pelo próprio Papus. Tendo cometido com o espírito martinista e as tradições da Ordem renovada por Papus os abusos notórios, Papus lhe retirou sua Carta de Soberano Delegado Geral para os Estados Unidos. O fato é atestado pelo Supremo Conselho Martinista, que publicou “no Oriente da França”, um edito, aparecido na revista “A Estrela do Oriente”, retirando o encargo de Blitz. O edito dizia que este encargo era substituído pelo de “Inspetora Geral da Ordem para os Estados Unidos, na pessoa da Sra. Magaret B. Peeke, igualmente 33o do

Direito Humano”: o fato é atestado por uma nota do Doutor H. Spencer Lewis, de 1937, que possuímos e por uma carta do próprio Jean Bricaud, igualmente em nossos arquivos.

Imagina-se o Doutor Blitz, iniciador de Papus, tendo-lhe conferido a afiliação Cohen, da qual o outro foi legitimamente orgulhoso (e não escondeu isso…) radiado, em seguida, por seus filhos espirituais? O fato é que nunca se viu um iniciado regularizando seu iniciador (assim como o faria Papus a Blitz), depois radiando este (como isso se produziu). Enfim, considerando que:

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1) que Willermoz não podia transmitir os altos graus sacerdotais Cohen;

2) que Antoine Pont não podia, então, tê-los recebido, o Dr. Blitz não podia nem possuí-los, nem conferi-los ao Doutor Fugairon.

Por todas essas boas razões, apoiadas em documentos sérios, rejeitamos o Ritual dito de Teder, obra de Blitz, e rejeitamos mesmo a hipótese de Blitz, que transmite a ramificação francesa da afiliação dos Elus Cohen de Martinez de Pasqually.

Vem, em seguida, a segunda hipótese, Bricaud detinha do Doutor Fugairon sua afiliação aos Elus Cohen.

Mas, o Doutor Fugaison havia estado nos Estados Unidos para receber esta pseudoinvestidura Cohen de Blitz? Blitz teria vindo a Lyon para dar-lhe? Ou tudo se passou por correspondência? Neste último caso, nos recusaríamos a considerar uma tal ordenação como válida. Mas, não faremos este esforço, uma vez que acabamos de demonstrar precedentemente que Blitz não possuía esta afiliação! Concluamos disso: se o Doutor Fugairon foi Martinista, ele possui apenas a afiliação de Papus, Chaboseau, e de todos os membros do Supremo Conselho, a saber a “afiliação” do Filósofo Desconhecido, Claude de Saint-Martin. E sabemos agora o quanto ela é historicamente frágil.

Bricaud nos diz, em seguida, que Teder sucedeu a Fugairon. A mesma refutação da afiliação Cohen se aplica a Teder. Mas, com relação a este último, uma tradição verbal circula nos meios

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Martinistas lioneses. É a que nos afirma confidencialmente que Teder possuía a afiliação Cohen, e que ele a teria transmitido a Papus. Isso ainda é falso. Nós também vamos prová-la…

É ainda Papus que iniciou Teder! Possuímos em nossos arquivos uma carta de Papus, datada de terça-feira dia 30 de dezembro de 1902, assim concebida:

“Caríssimo Irmão Détré,

Permiti-me, primeiramente, de vos felicitar bem sinceramente por vossa atividade e vossa dedicação a Nossa Ordem. O Comitê Diretor do Supremo Conselho se reunirá incessantemente, podeis contar que apoiarei vosso pedido e que, na sequência, ele será aceito. Na espera, eu vos envio:

1) um Ritual, em inglês, que vos peço de me enviar novamente por carta registrada após tê-lo consultado e copiado. Este Ritual é o das Lojas americanas ricas… Ele não é utilizado completamente na Europa, mas poderá dar-vos ideias.

2) Envio-vos também os papéis úteis para vossa propaganda e para as Lojas…

Existe, na Inglaterra, um “Soberano Delegado Geral”, o Irmão John Yarker, e um “Inspetor Geral”. Eu vos colocarei em contato com eles assim que tiverdes vossa carta de “Delegado Geral”, pelos menos, com o Irmão John Yarker.

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Todas as minhas felicitações. Caríssimo Irmão e fraternalmente vosso.

Assinado: Papus.

Eis, pois, o envio do ritual de Blitz a Teder. E Papus dando a Teder, seu pretenso iniciador, um “aumento de salário”… Mas não é tudo. Temos uma outra de 5 de março de 1905, ou seja, três anos mais tarde. A carta prometida se fez esperar.

“Caríssimo Irmão Détré,

Tenho a honra de vos fazer saber que o Supremo Conselho da Ordem decidiu criar um posto de “Inspetor Geral” para a Inglaterra e para as Colônias inglesas. O Supremo Conselho decidiu de vos nomear para este posto como agradecimento por vossa dedicação. Estou pessoalmente feliz de vos fazer saber.

Fraternalmente vosso – Assinado: Papus”.

Mas, isso não é tudo. De nossos arquivos, extrairemos ainda mais um documento autêntico, é o Breviário do Supremo Conselho de Lyon, assinado por Jean Bricaud: “33 – 90 – 95, Presidente do Supremo Conselho, e Grande Mestre Geral da Ordem Martinista”, nos deixando claro isso:

“Lyon, 29 de setembro de 1918:

Aos Soberanos Delegados Gerais, Inspetores Principais, aos Delegados e Inspetores Gerais, Delegados e Inspetores

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Especiais, aos Presidentes de Lojas, aos Chefes de Grupos e a todos os membros da Ordem,

Caríssimos e Mui Ilustres Irmãs e Irmãos,

A primeira luz da Ordem acaba de se apagar. Nosso Venerável Grande Mestre, o T. III. Ir. Teder faleceu na noite de 25 para 26 de setembro, em Clermont-Ferrand. Não quero, no momento, a não ser retraçar em grandes passos a vida, todo o labor teimoso de atividade ferrenha de nosso T. III Ir. Teder. Foi na Inglaterra que ele foi iniciado no Martinismo pelo Mui Ilustre Irmão Papus, depois nomeado representante e mais tarde Inspetor Principal da Ordem para o Império Britânico e para as Índias.

Assinado: Jean Bricaud”.

(seguem os títulos).

Imagine ainda Teder iniciando Papus, depois fazendo-se regularizado e dignificado por ele?…

Rejeitamos, pois, igualmente a hipótese de Teder como sucessor, regular de Martinez de Pasqually, uma vez que é Papus, detentor da única afiliação do “Filósofo Desconhecido”, sem relação nenhuma com a dos Elus Cohen, que esteve na origem de sua afiliação martinista. Restam Carl Michelsen, o Dinamarquês (do qual Bricaud nada diz e não reivindica ser o sucessor) e “os irmãos Bergeron e Bréban-Salomon”.

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Desses aí, nenhum dos antigos Martinistas, ex-membros do Supremo Conselho de 1884, nunca se lembraram ter ouvido pronunciar sequer o nome. Na hipótese na qual se tratariam de autênticos Cohen, oriundos da ramificação lionesa vinda do século XVIII, porque Bricaud tenta a necessidade de nela misturar Michelsen, Fugairon, Blitz, Teder? Bastaria nos dizer que “Bergeron” ou “Bréban-Salomon” foram seus iniciados. E essa a atitude que adotaria qualquer homem sensato, e o primeiro cuidado de um Martinista é geralmente de citar seu iniciador sem nisso envolver nenhum nome estrangeiro. Bricaud abstém-se de agir assim. Ele emite informações vagas, gerais, e se permite de deixar seu interlocutor livre para vislumbrar tal solução que lhe agradará… Assim, ele não tem nenhuma responsabilidade moral com o erro histórico que essas afirmações arriscam de dar nascimento, voluntariamente nebulosas…

Ora, quanto ao Sr. Bergeron, conseguimos encontrar traços de sua existência por acaso, em agosto de 1946, no curso de uma conversação com Mademoiselle Morel, a saudosa bibliotecária da Sociedade Teosófica.

Esta nos fez inúmeras confidências sobre a atividade dos Martinistas lioneses antes da criação da Ordem Martinista por Papus. Na sequência, voltamos várias vezes sobre o assunto, e apesar de sua idade avançada, jamais sua memória falhara, ela nunca se contradisse. Resumamos abaixo nossa primeira entrevista.

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“É em Lyon, em 1886, que conheci o Sr. Bergeron e, por ele, os Srs. Fouilloux e o Doutor Souillée, igualmente Martinistas. Eu tinha então dezesseis anos e meio. O Sr. Bergeron me dera o “Homem de Desejo”, de Louis-Claude de Saint-Martin para estudar e para copiar. Fiquei tão impressionada por esta leitura que, vendo isso, Bergeron se pôs, então, a me expor e a comentar comigo a doutrina do ‘Filósofo Desconhecido’.

Era um homem de alto valor moral, quase um santo. Quando eu o conheci, ele já havia ultrapassado os cinquenta anos. Artista, pintor e violinista, ele vivia miseravelmente em uma pequena torre de uma casa velha na rua Saint-Jean. As pessoas do bairro o haviam apelidado de “o homem da Torre”. Sempre vestido com decência, apesar de sua extrema pobreza, ele era comissionário em uma sapataria. Mas, diante de sua distinção e sua reserva natural, as pessoas hesitavam a lhe oferecer uma gorjeta. Apesar de que sua renda (30 francos por mês fixa!) era extremamente reduzida. Ele vivia com duas maçãs a cada refeição, com água e com uma colher de óleo de oliva cada manhã. Não o conheci mais intimamente além de dezessete anos, e nunca o vi variar seu gênero de comida, fora cada sábado à noite, quando vinha então jantar na casa de meus pais. Ele não era franco-maçon e não praticava nenhum culto oficial. Fora das tradições Martinistas, ele defendia frequentemente, como complemento, as teorias espíritas que começavam

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então a se disseminar. Seu amigo Fouilloux, se apegava mais a este gênero de fenômenos prestigiosos; análogos aos devas dos ensinamentos védicos.

De 1886, ano no qual o conheci sobre as margens do Saône até 1903, ano no qual nossas relações se espaçaram cada vez mais (eu me tornara na época parisiense), tivemos cada semana duas reuniões, uma na casa de meus pais, no jantar de sábado à noite, a outra na casa dele, na quinta-feira geralmente. Lá, em seu minúsculo cômodo, nos apertávamos uns contra os outros, sentados ora sobre a cama, ora sobre a mala, ora sobre a mesa, que constituíam toda a sua mobília. Ele tocava violão de uma maneira extraordinariamente emocionante, e era um excelente começo para nossas discussões apaixonantes. Em todo esse período de dezessete anos (ele vivia ainda em 1907) se ele nos deu tudo o que sabia sobre a filosofia e a metafísica de Saint-Martin, nunca ele fez questão de qualquer transmissão ritualística desses ensinamentos. Eu tinha uma amiga, mais velha que eu, igualmente convertida ao Martinismo. Ela também nunca tomara conhecimento de qualquer coisa semelhante. É possível que o Grupo dos Martinistas lioneses tenha sido o mais importante porque ele não ficou limitado aos Srs. Bergeron, Fouilloux e Souillée. Porém, eu nunca conheci outros! Um dia, no curso de um jantar, ele me disse sobre um problema de metafísica, a maneira como ele o havia abordado “em nossa reunião”. Presumo, pois, que ele ia às vezes a reuniões

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