JORNAL DE MODAS E VARÍEDÁDÊS.
Publica-se, ás Terças e Sextas feiras, na Empreza Typ.— DOUS DE DEZEMBRO — de Paula Brito, Impressor da Casa Imperial, praça da Constituição n. 64, onde se recebem assignaturas a 5$000 réis por seis mezes, pagos sempre adiantados. N úmeros avulsos, 80 ríis. .. ^^^
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HISTORIA SAGmAIÍA.
lação 1:X.
Temos hoje úmâ Lição, Em que havemos resolver, Que fim tivera Moysés, E aonde elle foi riiorrer.
Primeiramente vejamos Daquelle Povo o prpgresso; Das suas armas noviças Qual fora o feliz suecesso.
Foi esta a primeira vez Tudo por Deos ordenado, Em que o Povo de Israel Se arranjou em campo armado.
Foram contra os Madianitas Com impávido furor,
Dando em toda a parte provas De extraordinário valor.
A ferro frio mataram Ao Propheta Balaão, Porque ia dando motivos De uma total perdição.
Aquelle infame conselho, Que a ambição lhe suscitou, Cavando a sua ruína
Ao precipício o levou. Começaram a invadir As Cidades que atacavam, Começando por aquellas, Onde os Príncipes moravam.
Lançaram-lhes vivo fogo, Que a todos foi devorando, Desfeitos os Madianitas,
12 as mulheres prisionando. Sístas, bem que criminosas, Para o campo as conduziram, Igualmente aos seus rebanhos E tudo o mais destruíram.
A este tempo Moysés, Que ao campo os foi encontrar, Começou os Olliciaes
Severamente a increpar. Estranhou terem poupado, Talvez que por culpa indina, A vida aquellas mulheres, Causa da sua ruína.
Nas vistas desta Marmota Hade ter sempre o leitor, Com singeleza, e verdade:, Tudo o qúe houver de melhor. Mandou que logo as rhatássem Com todo o belliòo ardil,
Reservando só as Virgens, Que eram trinta é díias mil.
Fez repartir os espolieis, Que eram ricos, e ávultadòs, Por aquelles que na guerra Foram os mais esforçados.
Depois mandòd-lhe o Senhor, Que ás tribus todas dissesse Que terras haviam ter, E as demarcações fizesse.
Que assignalasse os limites De outras alem do Jordão, Quando em triumpho passassem A' terra da Promissão.
Que igualmente convocasse As familias principais,
Para em pleno consistorio Lhes dar outras ordens mais.
A seu tempo tu lèrás As máximas respeitáveis De Moysés aos Israelitas,
Que hãode ser sempre admiráveis. Basta que agora te diga, Km breves dissertações,
Quaes foram deste homem justo Suas ultimas acções.
Tinha-lhe dito o Senhor, Que os seus dias acabavam, E que os trabalhos da vida Por uma vez terminavam.
Eis que a erguer a fraca voz Começou Moysés então Nas campinas de Moab, Áquem do rio Jordão:
« Ouvi, filhos de Israel... Filhos, quo eu sempre estimei, Repelir por despedida
Quantos conselhos vos dei. « Vinde novamente ouvir Do Decálogo os preceitos, E as outras Leis que refream Da humanidade os defeitos.
« Para que por vós se veja Todo o mundo povoado... Como as estrellas do Céõ, Deos vos tem multiplicado.
«Este Omnipotente Nume, Senhor Deos de vossos Pais, A este numero grande Muitos mil ajunte mais.
«Elle, emfim, vos abençoe, Como a vossos Pais fizera, E por sua Santa boca Tantas vezes o dissera.
« Lembrai-vos que face a face No alto monte nos fallou, Do meio daquelle fogo Que tanto vos assustou.
« Alli, para que de perto Cada um de vós ouvisse, Sendo eu mesmo o Medianeiro, Este grande Deos vos disse:
— « Eu sou teu Deos e Senhor.. Deos de um poder infinito,
Que piedoso te salvei
Do captiveiro do Egypto. »— « Ah! não risqueis da memória O mais que o Senhor dictava Daquelle inflammado monte, Na primeira lei que dava.
« Olhai que este Deos immenso E' único, e singular,
E de todo o coração Vós o deveis sempre amar.
« Qutmdo passardes á terra Que o Senhor tem promettido, Quanto vos ensino agora Levai-o n'alma esculpido.
« Estas tão sábias doutrinas, Todas para vosso bem,
Contareis aos vossos filhos, E aos vossos netos também.
« Com elles meditareis Nestas Lições tão Sagradas, Já nas casas com socego, Já marchando nas estradas.
« Escrevei-as pelas portas Da habitação que tiverdes, Ante os vossos olhos sempre Para vos não esquecerdes.
« Adeos, filhos de Israel, Que as forças me vão faltando, Vou subir aquelle monte,
Donde Deos me está chamando. » Assim Moysés, finalmente, A todo o Povo fallou;
E chamando a Josué Do Governo o encarregou.
Recommendou-lhe se armasse, Que Deos assim o mandava, De todo o esforço e valor, Para o povo que tomava.
Escreveu as Leis n'um Livro, Que ao Sanctuario levaram, E co'as Táboas dentro d'Arca Solemnemente o fecharam.
Canto i depois outro Hymno, Moysés, em honra de Deos, Que publicamente ouvio Todo o Povo dos Hebreos.
Subio ao monte Abarím, Onde o chamava o Senhor, Para os últimos suspiros Render ao seu Creador.
D'alli mesmo lhe mostrou, Além do rio Jordão, Todo o vasto continente Da terra da Promissão.
« E' aquella a fértil terra, (Disse Deos), terra escolhida, Que aos descendentes de Abrahão Fora por mim promettida.
« Basta que a vejas somente, Sem nella jamais entrar, Antes que os teus olhos feches Neste eminente lugar. »
Logo Moysés, que em Deos teve Sempre a consciência inteira, Dando os extremos suspiros Terminou sua carreira!
Tinha cento e vinte annos De idade, quando morreu, Softrendo grandes trabalhos Todo o tempo que viveu.
Ninguém jamais saber pôde, Até o presente dia,
Onde fosse a sepultura Que o seu cadáver cobria.
Foi com amargoso pranto Por^ trinta dias chorado Pelo Povo de Israel, De saudades penetrado.
Bem como elle, nesse tempo, A Israel recommendára, Que recordasse as doutrinas, Que fervoroso dictára.
Assim, eu te peço agora, Que não te esqueças, Menina, Das Lições, que o meu zeloso Paternal amor te ensina.
FIM DA PRIMEIRA PARTE.
ROMANCE BRASILEIRO
PORTeixeira e Sousa.
MARIA, ou a menina roubada.
(Continuação do n. 339). XXXVI.
•Uni liello expediente.
O Juiz de Paz chamou o carcereiro, e em um tom grave, e modo bastante secco, dice-lhe:
Sr. carcereiro, tome conta do preso, e metta-o no xadrez. Quanto ao senhor, não saia de lá, e lá mesmo espere as minhas ordens, que ellas, em pouco tempo, lhe serão communicadas. —
O carcereiro, como um homem receioso e descon-fiado, e querendo no rosto do Juiz de Paz ler o mysterio destas palavras, olhou-o com hesitação, e depois voltando-se para o preso, com umarestu-pido ou preoccupado, dice:
Como, si você está ahi, homem?! (respondeu o preso).
—- O senhor ainda manga?!,, O que hade ser de mim?
Eu sei cá?..
Oh homem de mil diabos!..
Não .faça barulho... Olhe, escuie : mande esses guardasembora: são horas de almoçar; elles devem ter fome...
O que?! para o senhor me pregar algumal? Veja que eu sou homem de bem... Você só é bastante para conduzir-me. Vamos, mande os guardas embora...
Não mando... não quero...
Si os não manda, entro para a casa do Juiz de Paz, e lhe conto a historia dos abraços e dos beijos desta nouie... e das duas meias doblas, heim?.. Veja lá!..
Mas o senhor não me deixa ficar mal?
Não; não deixo. Mande os guardas embora.— Com effeito, o carcereiro dice aos guardas que podiam ir almoçar, que eiie só conduzia o preso. Os guardas immediatamente pozeram-se ao fresco. Os dous ficaram sós, e assim foram caminhando para a cadeia. Um pagem asseadamente vestido, tendo embaixo do braço uma trouxa, foi os acompa-nhando, um pouco mais afastado. Durante o tra-jecto da casa do Juiz de Paz á prisão, era pelos dous sustentado este ridículo dialogo. O carcereiro dizia pois:
E agora?
Agora o que, homem de Deos? (perguntou o preso).
E o preso que fugiu? Isso foi bom.
E eu que fiquei nas cordas?! Isso é máo.
E o criminoso csgramtanão os dentes?!.. Isso é bom.
E eu criminoso em lugar delle! Isso é máo.
Máo foi elle fugir por sua causa. Isso foi bom.
O senhor me comprometteu... Isso foi máo.
O senhor leva o negocio de mangação? Isso é bom.
Não vé como estou afflicto?! Isso é máo.
Mas que sahida dá o senlior ao preso que fugiu?
Que isso foi bom. Ficando eu desgraçado? Isso é máo.
Oh homem de mil diabos! Isso é máo.
E' um dardo, que O atravesse... Isso é muito máo.
Um raio, que o parta... Isso é muito máo.
E' um diabo, que o leve... Isso é ainda peior.
Oh senhorl.. olhe que lhe arrebento a cabeça com este páo...
Isso então é ir a peior.
E então... dá-se uma pachorra iguali Isso agora é bom.
Meu Deos! que me apparecesse este diabo para minha desgraça!
Isso foi máo.
Então... que heide eu fazer agora? Isso agora é bom.
O senhor que as armou, é bem que as de-sarme...
Isso agora é melhor. —
Sustentando sempre este burlesco dialogo, os dous chegaram á cadeia: ahi o Snr. Alfredo, diri-gindo-se para uma porta fechada que havia na sala em frente do xadrez, dice:
Esta porta dá para seu quarto, ou sala; não é assim?
E', sim, senhor; porque? Pois abra-a...
Para que?
Quero aqui fazer-lhe entrega de umas cousas minhas, de uma porção de dinheiro, e dizer-lhe certas cousinhas.—
O carcereiro abriu a porta; os dous entraram, e com elles o pagem, que os acompanhara. O Snr. Alfredo, logo que entrou, teve o cuidado de fechar a porta por dentro e tirar a chave. Feito isto, rece-beu a trouxa das mãos do pagem, abriu, e com admirável sangue frio, e invejável pachorra, despiu a roupa que trazia, e começou a vestir-se com a roupa, que tirava da trouxa. O carcereiro, vendo isto, dice*.
Então, que diabo de historia éesta? O que, homem?
O que homem?! Venha para o xadrez. —. Isso é mão.
Não tem máo, nem meio máo... Venha... Isso é máo.
Si não vem por bem, hade vir por mal. Isso é máo.
O senhor está mangando comigo? Isso é bom.
Sabe o que é bom? Então o que é?
E' eu ser um homem prudente. Isso é bom.
E sabe o que é máo? Vamos lá.
Foi o senhor me dizer que era homem de bem...
Isso foi bom. E ser um patife...
Isso ó muito máo...
E o ter eu me fiado no senhor... Isso foi mui bom.
Esíá bem: não quer entrar por bem para o xadrez... entrará por mal... deixe vir os guardas, que eu o conversarei...
Isso será máo. '
Está bom... está bom... Os guardas não tardam.
Isso é máo.
Olhe, eu me assento aqui, e espero pelos guardas: quando elles vierem diga então: «Isso é bom. Issoómáo...
senhor
seimui sempre ó um grande pedaço Sou ludo quanto quizer... Vere-O senhor é o homem Tenho pena de sua Ora; o
d'asno.
Sim... sim mos logo.
Qual logo, nem logo... mais lolo, que eu tenho visto simplicidade.
Então porque? porque?
Pois você não ouviu a ordem que o Juiz de Paz deu?
E o que tem a ordem?
Pois, homem de Deos, o Juiz não lhe dice que esperasse aqui na cadeia as suas ordens?
Sim, senhor, dice.
E você não entendeu o que isso queria dizer? E então que queria dizer?
Coitado!.. Quer dizer que você passa de car-cereiro a encarcerado .. Pedaço d'asno!..
Pois sim: bem entendi: mas que quer que lhe faça?
Oh lolo. Quem tempo tem, e tempo espera, lá vem um tempo, que o diabo o leva*
Mas que heide eu fazer? Fugir, basbnque, fugir.
Como. senhor? como heide fugir?
Sahindo por esta porta, e indo-se embora. Isso é-me impossível.
Porque?
Porque não lenho nem um real.
Pois aqui tem dinheiro. Va-se embora... vá buscar sua vida.
O Snr. Alfredo, dizendo islo, melteu nas mãos do carcereiro um maço de bilhetes, e muito senhor de si foi se escoando pela porta fora, acompanhado de seu pagem.
O carcereiro, apertando os bilhetes na mão, mas sem se mover, com voz pouco segura, dizia ao preso, que se retirava:
Então o senhor vai sahindo?
E faça você oulro tanto, si não quizer que lhe cáhia nas costas o anno do Nascimento com todo o seu apparalo.
E foi-se!.. E que lal eslá o desembaraço! Isto não é homem... isto é o diabo!.. Foi-se embora de-veras... E agora que heide eu fazer? Fujo lambem. O carcereiro, dizendo isto, abriu o maço de bi-lheles edice:
Ohi quatrocentos mil réis! Não sou mais car-cerereiro. Adeos, senhora cadeia. Agora, si me pi-lhar, só si for como encarceirado, que, como carce-reiro, nãoé capaz.—
Eile dice, e desappareceu.
Quatro horas depois dizia-se em toda a villa da Parahyba do Sul, que o moço, matador do João Esteves, havia fugido com o carcereiro, e todos diziam:
¦— Abençoado eile seja. Deos lhe dé saúde, e o livre das unhas da justiça.—
—- Poucas horas depois Alfredo encontrou em caminho a Maria, e seu pae, que iam para casa de sua mãe-, e antes da noute a Snra. D. Lordecene abraçou seu filho, sua filha adoptiva, e teve o gosto de conhecer o pae daquella que havia recebido, como filha, e creado como mãe!
(Continua).
A Vicia, a jceligiâo; e a
Eternidade.
O mundo, bem entendido, não é mais que uma vaidade, como bem disse Bossuet. Suas galas appa-recém e sommem-se como as vagas de um rio, que já longe vão perdidas, quando perto de nós a julga-mos. Nasce o infante entre dores, e como tal é do-loroso seu primeiro sentir. Seu berço rega de lagri-mas, porque de lagrimas tem de ser molhado seu ultimo jazigo. Entre lagrimas comprehendida ávida, ella não pôde ser senão de dor. No mundo estamos condemnados a esgotar os curtos momentos que a constituem, infelizes momentos; pois-, quando nos julgamos venturosos, somos desgraçados, se nos rimos ora, temos logo a lamentar. Entretanto, che-gamos a amar o mundo com afferro; cheche-gamos a viver só para eile, embora em troco de nossa dedi-cação nos legue os males em que sempre abunda. Esquecidos da Religião, deslembrados dos preceitos cuja santidade sellou Deos com os suores de Gethse-mani e com o sangue do Golgotha, abraçamos o mundo, falso ídolo que nos prende ao brilho de suas pompas, e desprezamos nossa Religião, que pregada pelo homem Deos, e confirmada por milagres reite-rados, consummou a verdade de sua doutrina no sacrifício do Calvário, pelo qual nos foram abertas as portas do Céo. Abandonada a Igreja, vamos buscar estímulos aos prazeres nas abrazadoras atmospheras das orgias, que nos murcha o coração-, desprezando o Evangelho, vamos nos perigosos Romances beber o summo letal que nos corrompe a alma e os costu-mes. Illudidos pelo mundo, linda vibora que nos occulta a peçonha no colorido escamoso, só nos sentimos picados quando o veneno, percorrendo as veias, nos annuncía a morle. Sempre pressurosos da ventura, a julgamos nos materiaes prazeres; sem-pre desvenlurados, a eile voltamos em busca delia, que, qual sombra phantasmagorica, nos apparece e foge, nos escapa e somme-se quando julgamos pren-del-a. Sempre os festins... deparamos nelles a sacia-ção de nossos gozos! Esgota-se, porém, o mundo material, anniquilla-se o physico, e então nos per-guntamos pelo tempo passado, pelas lembranças de outr'ora. E que nos responde o coração?., um sus-piro dorido, um ai profundo escapado ás ruinas da alma. Tudo esgotou-se, e no fundo do peito existe um coração mirrado, um desengano fatal, um vácuo profundo em nós sentimos; aborrecemos a vida que nos pesa, porque nossas mais ternas emoções eva-poradas foram no fogo destruidor dos incessantes festins. Já elles não podem despertar as passadas crenças; os enredos de perniciosos romances não avivam o desejo da imitação; é tudo apathia, éden-tro em nós a voz da consciência nos aceusa os vicios. Vencidos alé este baluarte; aonde nos abrigarmos? Qual será a palmeira, nesle deserto da vida, á cuja sombra esteja a fonle onde bebamos a fresca e crys-talina água, que nos cure e fortifique a alma e o es-pirito escaldado? Ah! então lembramos-nos de Deos, recordamos-nos da Religião, e Deos e a Religião nos apparecem. Aquelle nos dá os preceitos que devemos seguir, esta nos ministra a cura. Vamos então á Missa, attentos resamos em nosso livro de orações, e admiramos contrictos o grande e magestoso
Sacri-ficio do Tabor. Invocamos a Deos, elle nos ouve, e acabada a Missa, sentimos o prazer do cumprimento expontâneo de um dever; estamos alegres, ignorando o porque. E" a paz dos filhos obedientes da Igreja; é o balsamo maravilhoso que a Religião derrama no coração de seus filhos; é a mão do Senhor susten-tando seus filhos sobre a terra. Sim! só na Religião existe a felicidade; é ella a mãe carinhosa que sollí-cita por seus filhos os acompanha sempre. Mãe na desgraça e na ventura a todos acolhe em seu regaço. Em nossos desvarios, sentida nos aconselha; em nossas enfermidades á cabeceira do leito nos consola, e quando a morte é chegada, ainda é ella, que nos adoça o momento acerbo, em que temos de sepa-rarmos-nos da familia, promettendo-nos o Céo, e nelle uma Eternidade perennal de gozos, onde mais felizes nos tornaremos para sempre a ver. Se, pois, é Deos e a Beligião quem nos consola em nossas afflicções; se é Deos quem nos tormenlos da vida nos ouve o ai de misericórdia; porque não o iremos adorar em seu Santuário? Estamos no tempo da Quaresma, tempo de recolhimento e penitencia, tempo em que todo o christão se deve entregar á contemplação da Paixão de Jesus Christo, em que se deve esquecer os bailes pela Igreja, deixar a leitura dos romances pela dos livros sagrados, e correr aos templos para ouvir a palavra do Evangelho. E' o que convém fazer.
Lembremo-nos da Eternidade, porque nossa alma um dia desprendendo-se do cárcere que a sugeita na terra, tem de voar junto ao throno de Deos a rece-ber sua condemnação ou felicidade eterna.
F. P.
O ciume.
Eu pensei que eras perjura, Porque amor assim o quiz;
Se com isso mal te fiz, O meu delicto perdoai..
(Do autor).
I.
O sol começava a esconder-se por entre os eleva-dos montes, e a canóra avesinha procurava o seu ninho, levando em seu delgado bico o sustento para seus caros filhos; um joven, pallido e triste, á beira de uma praia, scismava, porém o seu scismar, pelo que exprimia o seu semblante, poderia dizer-se que era a —vingança!
Muitas vezes seus lábios proferiram um nome e lagrimas correram de seus olhos!
Elle chorava; mas o seu pranto era o de um louco por amor!..
Perjura, onde está teu juramento, onde está a tua firmeza? Tudo desappareceu, porque o coração de uma mulher é a caverna do crime e da ingrati-dão; mas eu heide procurar vingar-me; com esto punhal acabarei tua vida; não importa que sobre o patibulo finde os meus dias como um malvado, não. Assim fallava elle, rangendo os dentes de raiva, e alçando afiado punhal.
A noite principiava a estender seu negro manto; tudo era silencio, e só de momento á momento ouvia-se o ruido das vagas, que vinham, por assim dizer, beijara praia.
O Joven, com a fronte baixa, parecia estar me-ditando, quando repentinamente uma bella, uma feiticeira morena, um Anjo, se me é licito exprimir, á elle chegou-se, e assim fallou:
Júlio, ergue o teu rosto, vê a tua amantel O joven, nem se quer fez um movimento, e ella continuou:
Por ventura não sou mais digna de ti? acaso pratiquei alguma acção, pela qual me abandones? estas, sem dúvida, esquecido de que fuie heide ser sempre a tua amante, ou —enlouqueceste?
Enlouqueci; mas á minha loucura uma victima hade ser sacrificada, retorquio elle, mostrando-lhe o punhal, e cheio de desesperação continuou:
Mulher, um tempo houve em que te amei como se podia amar; um tempo houve em que acre-ditei nas tuas fingidas expressões -; mas hoje, que eu conheço teu coração, vejo que és uma — perjura.— Eu mesmo presenciei (com raiva o digo!) abraçares um homem e dizeres como outrora me dizias:— Sem ti não poderei achar no mundo felicidade algu-ma;— e elle abraçava-te, beijava-te, punha-te em seu collo, e attento ouvia o pulsar de teu fingido coração! Pois bem, mulher perjura, nem eu, nem elle (e arrastando-a para junto de si, quiz embeber-lhe no peito o punhal)...
Porém ella o susteve, dizendo:
Júlio, não sejas imprudente ; mata-me, mas ouve-me por um momento.
Inda queres viver, coração de fera? respondeu elle, contemplando-a com um riso de —vingança.
Quero; porque a minha honra assim o exige, retorquio ella com uma grande presença de espirito.Poisfaila. Ingrato... tens a teus pés uma mulher que acu-sas de fingida e traidora; tens a teus pés um ente que te jurou amar, e que nunca hade violar o seu juramento... Tu me viste, é verdade, nos braços de um homem, mas elle era velho, cabeça branca, e que mal se podia suster; esse velho, Júlio, que, depois de uma longa ausência, me beijava, era... meu pae I .
Teu pae!? exclamou elle, deixando cahir o punhal.
Sim, meu pae... Que receias? respondeu ella satisfeita, como o virtuoso quando confessa a sua innocencia, e faz tremer o seu juiz. Julgavas, por ventura, que era outro amante que eu acariciava ? não: eu não sou perjura!
Que escuto? era a teu pae que abraçavas? e eu (pobre de miml) pensei que era um rivall.. Cheio de dor exclamou elle, estreitando-a em seus braços. Abraça-me... perdoa a minha imprudência... a minha falta de reflexão, o meu delicto.
Eu te perdôo, respondeu ella meigamento sor-rindo; porém jura que, de hoje em diante, não du-vidarás, nem da minha firmeza, nem do meu amor.. Eu o juro sobre a bainha deste mesmo pu-nhal, que pretendi cravar em teu peito innocente; de hoje em diante tu serás para mim como uma pedra de grande valor— eu te heide amar sempre. Deste modo fallou, arremessando o punhal no oceano; e ella, levando a sua dextra ao coração, pro-nunciou estas palavras:
i Se eu morrer, meu querido Júlio, tu irás na minha campa verter uma lagrima de amor? Se eu morrer, orarás sobre a minha sepultura, e me con-servarás no teu pensamento? Amanhã... livro fe-chado dos mortaes... amanhã, não sei o que será de mim...
Duas lagrimas interromperam o seu discurso. Que sentes? lhe disse Júlio; porque choras? Amanhã, respondeu ella, eu parto, porque assim me é necessário; mas teu nome ficará em meu coração, e para sempre te lembrarás de mim; toma este anel trançado com o meu cabello.
Céos! como sou infeliz! a única consolação que me restava no mundo vai ser roubada de meus braços! Encantadora Amélia, recebe também essa Cruz, beija-a sempre, e abraça-a; eu não posso par-tir comvosco, porque sustento a minha triste mãe, fraca e cansada pelo peso dos annos; mas um dia inda te heide ver, ou com a vida ou com a morte. Esquece-te para sempre, que um dia, á beira de uma praia, te quiz assassinar, porque tinhas cum-prido um dever santo, abraçando a teu pae, que, ausente de ti, por ti suspirava.
E fortemente abraçando-a, beijou-a pela ultima vez, e sumio-se.
II.
Passados dias, sobre esta mesma praia, um corpo estava estendido, e no dedo mínimo da mão es-querda tinha um anel de cabello: — o corpo era o de Júlio, o anel era o símbolo da constância! Em um convento, uma joven pedia asylo para se alistar no numero das Servas de Christo; sua mão apertava um Cruz, era o signal do amor, era a lembrança de um tempo feliz:— a joven era Amélia.
Rio, 3 de Janeiro de 1853. Cruz Júnior.
Samlaeles dc uniiaB&a Mãe.
As ondas do oceano já cortando O navio que as velas vai abrindo, Levado pelo vento, que soprando Da presença d'aquelles vai fugindo. Quo, com o claro lenço acenando, Se ficam lá du praia despedindo; E o mar que esta scena presenciou Contristado, suas águas encrespou.
Passa um mancebo a estranha terra Por buscar do mundo cxpViencia Na qual, principalmente sencerra O preceilo da benigna sciencia: Se por isso, a patria me desterra, Não lhe dou perpetua obediência; Pois já me fere dor pungente De ser da eslremosa Mãe ausente.
Deixa o joven assim a patria amada E com esta também a Mãe mais querida, Deixa a companhia sublimada
Daquella que lhe deu o ser e a vida; Deixa, emfim, sua amante mais prezada, Be quem leva saudade esclarecida. De tudo se despede, e no parecer Receioso de não mais tornar a ver.
Apartam-se em choros desmedidos, E, amargurados suspiros s'exalaram, Julgando-se p'ra sempre despedidos; E bem parece, pois hão «'enganaram, Porque quasi sempre são perdidos Os que no largo mundo s'espalharam; Mas quem tenha amor por guia e norte Só o fará perder a escura morte.
O filho que desfárte sé separa Do bem mais deleitoso que conhece, E que desde o nascimento o ampara. Também em duro pranto desfalece Ao despedir-se de tudo que amara
E que da vista lhe desapparece. Julgue pois destes casos n'apparencia Quem delles não tivéf experiência.
Neste distante e remoto canto Onde o cruel destino m'arrojou, Vivendo somente erri duro pranto, Maldizendo da sorte que roubou A' terna Mãe, e seu doce encanto, O filho que daraoresse gerou; Ferido por estéril sentimento Viverei no degredo que lamento.
Oh! vida vã! toda d'illusões! De que me serves? se só tormentos Em ti deviso, e duras maldições? Se só constrangidos soffrimentos Queres dar a humanos corações? Como se fossem irados elementos Conlra teu provisório senhorio, Ou que offendessem o teu próprio brio?
Mas, se te jura todo o vivente Amizade firme, e mui bastante, 1'orque não serás correspondente A quem é de ti fiel amante? P'rá que tra tares tão asperamente A quem deseja teu amor constante; Fora melhor a luz tua apagar, Deixar-me em paz eterna repousar, Porto-Alegre, 30 de dezembro de 1852. .li. S. M.
m&eieilaite Peíaloglca.
O Snr. Romtaniplom, hábil astronômico da La-ponia e direetor do Observatório da Capital, acaba de fazer uma grande c importanle descoberta para aquelle paiz. Todos sabem (e se não sabem, ficam sabendo), que a Laponia apenas vô o sol cm uma pequena parle do anno, e que tem sido isto a causa do estado semi-selvagem em que se conserva; o Snr. Romlaniploni, para supprir a esle inconveniente, descobrio o modo do fazer um sol artificial. Pro-parou, no lim de muitas experiências, uni mixlo, do sebo das gollas das casacas, e ferros dos chapéos, com outros ingredientes inllammaveis e ascendeu-tes, por rnethodos particulares, c elevando um globo cheio deste mixto á certa altura, o inílamma; vê-se então os mesmos effeitos do sol, ainda que um pouco enfraquecidos, mas quo o supprem muito bem. Quem quizer ter as provas do que dizemos, vá á Laponia que se desenganará.
Empreza Typ. -BOÜS B32
1 «!»:*.kssuh m CASA ÍMI-KIUA! —1853,