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O Julgamento em Mateus

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Academic year: 2020

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O JULGAMENTO

EM MATEUS*

RUBENS ALVES COSTA**

A

palavra julgamento no Antigo Testamento têm diversos significados. Cada significa-do com semântica que apontam para realidades distintas uma das outras. Embora com significâncias não análogas, todas elas narram as ações morais de Yahweh em relação aos homens, sejam esses judeus ou gentios. No hebraico existem diversas palavras para formular e expressar o conceito de julgamento (MCKENZIE, 2011, p. 476). Shapat traduz a ideia de julgar e governar; shepet, shepot e mishpat significam respectivamente julgamento, juízo e justiça (HARRIS; ARCHER; WALTKE, 1998, p.1602). Todas são análogas à palavra julgamento do vernáculo português e o estudo de cada uma delas dará a ideia bem próxima da conceituação de julgamento no Antigo Testamento.

O sentido básico de shapat é o de executar o processo de governo onde o foco está no exercício das funções judiciais do governante. Isto implica em julgar questões nas esferas civil, familiar e religiosa (HARRIS, ARCHER; WALTKE, 1998, p.1602). Mishpat (justiça) Resumo: a leitura do Grande Julgamento no evangelho segundo Mateus incita o leitor a

uma avaliativa do bem que deve ser feito no hodierno. Embora modelado em forma de devir escatológico, as ações germinadas a partir do texto sagrado devem ser aplicadas no presente. Este artigo faz uma reflexão da obrigatoriedade das comunidades cristãs serem agentes para a inversão do status quo dos excluídos sociais. Entende-se que a substituição de alguns mo-delos políticos, religiosos e socioeconômicos são ótimos mecanismos para re-humanização e o resgaste à condição de dignidade humana dos excluídos sociais dos bolsões de miséria. Serão condenados ou absolvidos no dia do juízo aqueles que de alguma forma contribuíram ou não para atenuar e transformar o modus vivendi dos necessitados.

Palavras-chave: Julgamento. Judaísmo. Comunidade. Misericórdia. Transformação.

* Recebido em: 07.07.2014. Aprovado em: 28.07.2014.

** Aluno extraordinário do Mestrado em Ciências da Religião na Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

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é utilizada onde é reivindicada a aplicação correta do direito como, por exemplo, em um ato de decidir uma ação litigiosa levada a um magistrado (HARRIS; ARCHER; WALTKE, 1998, p.1604). Nota-se que os dois vocábulos, shapat e mishpat assumem conotações relacio-nais. Eles são usados para normatização de contextos sociais. Assim, julgar (shapat) e justiça (mishpat) são ações reguladoras para que a sociedade movimente ordeiramente dentro da perspectiva relacional de Deus com o homem.

Ao contrário de shapat e mishpat que são reguladores de natureza social shepet (jul-gamento) e shepot (juízo), expressam a ideia de julgamento penal retributivo. Os termos são utilizados para demonstrar os castigos divinos enviados aos homens em virtude da desobedi-ência destes. Harris, Archer e Waltke (1998, p.1603-4) comentam que:

Essa palavra [...] trazendo a ideia de julgamento no sentido penal, ou seja, de castigo. Em diversos casos os castigos são enviados por Deus. As pragas dos Egito [...] Deus castigou Jerusalém com espa-da, fome, animais selvagens e pestes; [...] Existe uma clara teologia do castigo retributivo, vindicativo da justiça tanto divina quanto humana, expressa nas palavras shepet e shepot.

No entanto, subjaz e acompanha o termo julgamento a ideia de fidelidade. Os povos eram julgados mediante a sua fidelidade a Yahweh. Não só Yahweh exigia fidelidade, mas as divindades das religiões da antiguidade também julgavam os seus adoradores balizados pelo critério da fidelidade destes para com o transcendente objeto de seus cultos. Monloubou (2003, p. 450) diz:

Deus escolheu o povo de Israel: exige dele, em compensação, a fidelidade. Tanto a do povo como a de cada indivíduo. Além disso, sendo Deus o Senhor do universo, tem o direito de julgar o conjunto dos povos. A imagem do julgamento era habitual nas religiões da Antiguidade. No Antigo Império do Egito, o Faraó era julgado logo após a morte pelo deus-sol Rá. Durante o Médio Império, o julgamento, efetuado por Osíris, estendia-se a todos os egípcios.

Idêntico entendimento da relação julgamento fundamentado na fidelidade da con-duta dos homens é abordado por Van Den Born (1971, p.852) que diz:

A Bíblia tem em comum com as religiões do Oriente Antigo a ideia de uma divindade que julga os homens e os recompensam de acordo com a sua conduta. Na Mesopotâmia – Samas era conside-rado como ‘o grande juiz dos céus e da terra’, que inspirava aos reis prescrições justas e velava pela sua observância. Também os egípcios estavam convencidos de que a ordem e a lei eram protegidas pelos deuses, e é característica a sua crença num julgamento individual ou particular, logo depois da morte. [...] Quanto aos gregos, os melhores entre o povo acreditavam que Zeus fazia sempre triunfar o direito, mas o seu julgamento, para eles, não ultrapassava os limites da vida terrestre.

No final do quinto sermão público de Jesus encontra-se O Grande Julgamento. Trata-se de um discurso de revelação apocalítica em perspectiva escatológica (BROWN; FIT-ZMYER; MURPHY, 2011, p. 206). Dos termos acima expostos, utilizados no Antigo Testa-mento para definir julgaTesta-mento, os que mais encontram eco na perícope de Mateus 25,31-34a são aqueles relacionados com o julgamento retributivo à fidelidade dos homens em relação aos estatutos e juízos de Yahweh. Esses termos são shepet (julgamento) e shepot (juízo).

O texto que fundamenta este artigo científico (Mateus 25,31-34a) é uma perspecti-va escatológica que trata do último julgamento ao qual a humanidade estará sujeito. É o fim do mundo (PIKAZA, 1978, p. 109-10). Nele todos os homens estão sub judice. A corte ju-dicial e/ou tribunal presidido pelo Filho do Homem fundamentará o seu veredicto com base

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em práxis e éticas compatíveis com os ensinos de Jesus. A sentença proferida pelo Rei-julgador destinará réus condenáveis e réus absolvidos.

Quem são os réus que movimentam o texto e com quem eles litigam? Como era o contexto onde socialmente eles estavam inseridos? Que elementos éticos foram utilizados para fundamentação do veredicto? E, qual a contribuição que o texto dá à comunidade cristã hodierna, são temas abordados neste artigo científico.

Mt 25,31-34a: O JULGAMENTO EM MATEUS

31 Quando vier o Filho do homem na sua majestade e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória; 32 e todas as nações serão reunidas em sua presença, e ele separará uns dos outros, como o pastor separa dos cabritos as ovelhas; 33 e porá as ovelhas à sua direita, mas os ca-britos à esquerda; 34 então dirá o Rei aos que estiverem á sua direita: Vinde, benditos de meu Pai!

ENTENDENDO O CONTEXTO

A audiência do evangelista Mateus estava inserida em uma sociedade que buscava uma nova síntese sociorreligiosa (OVERMAN, 1997, p. 45).Grupos locais e simultaneamen-te rivais disputavam quais das facções obsimultaneamen-teriam do poder dominansimultaneamen-te maior (o Império Ro-mano) a proteção e autoridade necessárias para a detenção do poder (SALDARINI, 2000, p. 26). Era uma sociedade em reestruturação em busca de mecanismos que contribuíssem para resgatar e reafirmar no imaginário nacional o status quo de Povo da Aliança (OVERMAN, 1997, p. 152). Os eventos ocorridos no ano setenta da era cristã lançaram dúvidas se Israel ainda era ou não o Povo escolhido de Deus. Portanto, era uma nação a procura de novo sen-tido nacional e que agora encontra-se indecisa quanto a sua importância ou não, no cenário da sempre existente relação pactual Yahweh/povo judeu. Obviamente ela estava preocupada com os rumos que deveria tomar. Também estava sob o domínio de um império estrangeiro opressor na época que o autor escreveu o evangelho. O Império dominante dividia o governo local (exercício do poder) com parte da elite oriunda do seu próprio povo. Carter, (2002, p. 37) diz que: “Coerente com a prática romana em outros lugares, [...] para manter o controle [...] Roma cooperava com a elite local e a utilizava no exercício do controle”.

Com a destruição do Templo de Jerusalém no ano 70 d.C. pelo general Tito, filho do imperador romano Vespasiano, o judaísmo sacerdotalista sofreu o pior de todos os ataques já ocorridos em toda a sua existência. O Templo era a principal instituição nacional. Eram suas funções o controle da religião e da cultura nacional (OVERMAN, 1997, p. 45). A des-truição determinada e executada por Roma desregulamentou temporariamente o exercício do poder que desde tempos remotos tinha a sua sede em Jerusalém. Assim o poder foi deslocado provavelmente para a região onde encontrava a audiência do escritor do evangelho de Mateus.

O judaísmo corrente antes da destruição do Templo de Jerusalém recebeu forte influ-ência da cultura helênica. Era um judaísmo flexível e multiforme (OVERMAN, 1999, p. 18). Um traço marcante no helenismo era possibilitar pluralidades fossem elas socioculturais, religio-sas e outras. Assim, o judaísmo praticado em Israel no período de aproximadamente (300 a.C. – 70 d.C.) foi modelando e organizando-se de forma fragmentária e sectária. A fragmentação facilitou o surgimento de diversos judaísmos: o judaísmo dos fariseus; o judaísmo dos escri-bas; o judaísmo dos saduceus; e mais. Esses organizavam-se como partidos de um todo. No entanto a fragmentação proporcionava facções influenciadoras, porém com pouca ou quase

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nenhuma detenção de poder. O poder era dividido entre o sumo sacerdote, a família herodia-na, os asmoneus e algumas famílias abastadas (SALDARINI, 2000, p.26). Todos obviamente amparados pelo Império Romano. Horsley (2004, p. 37-40) comenta:

Depois que Pompeu e outros generais romanos conquistaram vários povos do Oriente Médio [Jerusalém em 63 a.C.], eles passaram a controlá-los por meio de governos indiretos, isto é, com reis e outros ho-mens fortes nativos. [...] Júlio César e Marco Antônio [imperadores romanos] escolheram o cruel, jovem e forte militar Herodes, para controlar a Palestina. Tornando-se ‘rei dos judeus’ [...] Herodes manteve o sumo sacerdócio e a estrutura do Templo como parte do seu regime. [...] Depois da morte de Herodes, os romanos mantiveram os dirigentes sumo sacerdotais, mas sob o olhar vigilante [...] Os reis dependentes e os sumos sacerdotes que governavam [...] eram assim partes integrantes da ordem imperial romana [...].

Sem a principal instituição nacional sociorreligiosa e também política (o Templo de Jerusalém) o centro do poder foi deslocado de Jerusalém para outra região onde prova-velmente encontrava a audiência mateana. Foi um deslocamento tanto geográfico como de donatários do poder. A nova ordem passa a ver na unificação do judaísmo (modelo contrário à pluralidade existente a mais de três séculos) a saída para a superação do vazio surgido pós anos 70. O judaísmo que surgiu nesse período (70-100 d.C) é denominado pela erudição moderna de judaísmo formativo. Overman (1997, p. 151) comenta os deslocamentos:

[...] o desenvolvimento do judaísmo formativo e sua emergência como a forma dominante de juda-ísmo no ambiente do Evangelho. As formas institucionais [...] e os meios de legitimação utilizados pelo judaísmo formativo [...] revelam o processo de consolidação do judaísmo formativo e como ele emergiu como grupo dominante nesse meio. [...] Esse grupo dominante constituía a liderança e o corpo mais poderoso no mundo de Mateus.

O judaísmo formativo ao contrário do judaísmo praticado durante o primeiro e o segundo Templo de Jerusalém buscava homogeneidade. Gedron (1999, p.15) comenta que “O Templo de Jerusalém foi destruído pelos exércitos de Tito no ano 70 e os judeus fervoro-sos reagruparam-se numa comunidade mais homogênea, forçando os que tinham adotado a fé cristã a se retirar das sinagogas que até então frequentavam”.

Enquanto o pluralismo com suas múltiplas concepções facilitava um judaísmo aparentemente flexível, pois, naturezas fragmentárias tendem a aceitação e acomodação de convívios de ideais interdependentes com o novo judaísmo que vai sendo gestado ocorre o contrário. Em busca de unicidade, dado a busca de uma identidade nacional única, o novo judaísmo recebe um formato rígido e inflexível que são características prevalecentes em siste-mas fechados e reducionistas. Saldarini (2000, p. 85) comenta:

[...] muitos judaísmos [...] viram-se em uma variedade de relações, muitas vezes para consternação de seus líderes mais ortodoxos [...] lutavam para criar uma identidade nítida e manter fronteiras bem definidas. Ao fazer isso, com frequência sobrepunha-se uma as outras, embora os líderes procuras-sem diferenciar os grupos por meio de polêmicas.

Assim, sem o arrimo do Templo e fora de Jerusalém o sacerdotalismo perde a sua força e influência política. No vazio representativo deixado pela linhagem sacerdotal, o poder local é assumido pelos escribas e fariseus que há tempos já estavam preparando-se para isso. Eles substituem antigas oligarquias e na reengenharia sociorreligiosa, política e geográfica ocorrida são os novos detentores do status quo de donatários do Império Romano. Saldarini (2000, p. 85) comenta:

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As coalizões emergentes que buscavam o poder depois de 70, continham elementos dos grupos de fariseus e escribas. Parece que esses grupos tinham obtido certa influência na região mateana. Tendo de enfrentar esse tipo de rivalidade e, especialmente, uma rejeição indiscriminada de Jesus e sua interpretação da Escritura e da Lei, Mateus ataca os líderes rivais e os que os seguem.

Overman (1999, p. 25) também descreve como os escribas e fariseus assumem o controle e passam ser força dominante:

Os pretensos escribas e fariseus do evangelho de Mateus começaram a preencher o vazio de liderança e autoridade na Palestina pós-70. [...] No ambiente de Mateus, os ‘escribas e fariseus’ haviam come-çado a assumir o comando. Nos anos pós-70, passaram a ser os juízes, os intérpretes e os mediadores. Surgiram como aqueles que iriam descrever o que constituía o verdadeiro judaísmo nos surpreen-dentes anos intermediários de 70-100 d.C.

Overman (1997, p.45) completa mostrando que os fariseus já há muito tempo preparavam para ser a nova força dominadora. Ele diz:

Os fariseus estavam bem posicionados para os eventos de 70 d.C. Seu programa cujo padrão básico havia sido elaborado bem antes de 70, colocava-os em uma boa posição para ganhar influência de-pois da destruição de Jerusalém e do Templo. [...] Os fariseus já possuíam um programa abrangente de identidade social e religiosa que não exigia a presença do Templo. [...] os fariseus desenvolveram um sistema centrado na aplicação das leis da pureza no lar e à mesa. O dízimo, a observância do sábado e o estudo da Torah eram características centrais do movimento.

Finalmente o “novo” judaísmo reconfigurado com elementos farisaicos (rigidez, inflexibilidade, e reducionismo) e os fariseus tornam-se os novos detentores do poder (o farisaísmo foi o precursor e facilitador para a instituição do rabinato a partir de 90 d.C.). Eles estavam à serviço do Império Romano opressor e são estas as instituições e lideranças contemporâneas da audiência geográfica mateana, institucionalizadas no poder, com as quais o evangelista está em conflito. Do background de Mateus 25,31-34a ecoa as barbáries que os seus destinatários tiveram que passar debaixo do domínio delas. Saldarini (2000, p. 85) des-creve o perfil do caráter dos escribas e fariseus e como eles exerciam o poder:

Mateus [...] ataca o modo como conduzem a função que exercem [...] acusação de hipocrisia [...] ataca os escribas e fariseus por não praticarem o Judaísmo com sinceridade, não orientarem os outros para viverem o Judaísmo corretamente, não interpretarem a Bíblia de forma adequada e não dedica-rem aos importantes princípios da Lei e do modo de vida judaico [...] impôs fardos pesados, usam insígnias especiais, reivindicam lugares privilegiados e procuram honra pública.

O JUIZ, OS RÉUS E O JULGAMENTO

O sermão escatológico de Jesus nos capítulos 24-25 de Mateus culmina com a instauração de um tribunal (CARTER, 2002, p.609). O ambiente é de um julgamento que irá acontecer na parusia, ou seja, na volta gloriosa de Jesus Cristo, no final dos tempos, para estar presente ao Juízo Final. O ambiente de Mateus 25,31-46 corresponde ao cenário de uma corte judicial que é composta de juiz, réus e de veredicto. O juiz tem autoridade para proferir sentenças. Todos os réus estão sub judice. E os critérios utilizados para o julgamento encontram-se prescritos na Lei os quais já eram conhecidos pelos réus.

O juiz é o Filho do Homem. Esse título foi utilizado pelos quatros evangelistas para designar a pessoa de Jesus. A expressão Filho do Homem é constante na literatura

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apocalíp-tica onde recebe a semânapocalíp-tica de outorga de poder para julgar. Lancellotti (1980, p. 29-30) comenta:

Sua origem é facilmente pesquisável na literatura apocalíptica e, de modo específico, na visão da-niélica [...] e se aproxima de Deus para receber poder sobre todos povos e inaugurar assim o reino eterno dos santos [...] refere-se a gloriosa parusia do Senhor [...] à segunda vinda ‘com poder’ como juiz escatológico.

Os réus do litígio estão figuradamente representados por cabritos e ovelhas. Os cabritos representam os injustos (provavelmente os escribas e os fariseus) componentes da liderança do judaísmo formativo e o Império Romano. Estas instituições por ação ou omissão massacravam a sociedade. Na cultura mediterrânea “cabras” eram consideradas as maiores destruidoras da natureza. Com apetite voraz não saciavam somente com a vegetação rasteira. Subiam nas árvores e comiam os brotos matando assim as árvores. Onde havia cabras não sobrava nada para os outros animais alimentarem (denotação de egoísmo). Já as ovelhas que ficarão a direita do Rei são aqueles que exerceram práxis vivenciais opostas a dos cabritos. Ao contrário dos dominadores, em seus modus vivendi, as ovelhas não agiam como os cabritos. Na lavra do evangelista Mateus, ovelhas representa o vivencial corrente da comunidade ma-teana que preocupava em suprir as necessidades básicas de pessoas que estavam às margens de uma sociedade reduzida à miséria. Overman (1999, p.377-8) sugere o perfil das ovelhas:

As ovelhas são os que viveram de maneira que o rei esperava. Explicitamente, cuidaram dele, [os necessitados] serviram a ele e o ajudaram quando ele precisou. É como o povo deveria viver. [...] tipo de vida os [que] judeus mateanos deve levar.

Assim a audiência do evangelho de Mateus é identificada como ovelhas. E, as ove-lhas designam discípulos que é um dos principais temas do evangelho (CARTER, 2002, p. 612).

Os critérios ou a base para o julgamento era o balizamento de atitudes com o exercí-cio da justiça social e da misericórdia. O modelo econômico e financeiro imposto pelo Impé-rio Romano aos povos conquistados e no qual estava inserida a comunidade mateana geravam bolsões de miséria. A elite, parte minoritária, detinha quase que a totalidade da riqueza. O que “sobrava” para a não-elite, parte maioritária, não era suficiente para o atendimento de suas necessidades básicas gerando assim fome, sede, nudez, prisão e mais. Era necessária a inversão do modelo socioeconómico para alterar o status quo dos necessitados. E, isso só séria possível se a elite dominadora adotasse políticas sociais com mais justiça social e menos egoísmo. No discurso do evangelista Mateus justiça social é o exercitar da misericórdia que provavelmente somente os componentes da comunidade mateana praticavam. Portanto ser absolvido estava diretamente associado a um agir contrário ao modelo injusto e perverso que reduziam pessoas ao estado de miséria. Em Mateus justiça é atender às necessidades dos ex-cluídos e são os próprios atos de justiça social e misericórdia que julgam quem os praticam ou deixam de praticá-los. Storniolo (1990, p.181-2) diz que:

[...] o critério é a justiça, e justiça é atender às necessidades dos que precisam, e não simplesmente fazer para os outros aquilo que eu acho melhor ou aquilo que eu gosto de fazer [...] são vítimas de um sistema social injusto, que não sabe repartir a liberdade e a vida: famintos, sedentos, estrangeiros [naquele tempo], pessoas sem roupa [e sem casa], doentes e presos. Todos eles vítimas dos sistemas econômicos e políticos que os reduzem a esse estado e não têm como dele sair. [...] o critério do

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julgamento é a nossa atitude diante dos marginalizados.[...] o cerne da religião bíblica é a prática do justiça.

O veredicto, último ato do Tribunal declarou réus benditos e malditos. Os malditos são aqueles que por ação ou omissão não foram agentes transformadores. Já os benditos são os que mesmo sob um regime opressor articularam-se para minimizar os sofrimentos causados por políticas que geravam injustiça social na sociedade em que estavam inseridos. Eles não foram omissos. E, as suas obras foram fundamentais para inverter situações concretas de ex-tremas necessidades básicas. Transformaram miséria em práticas misericordiosas.

COMUNIDADE E A TRANSFORMAÇÃO A PARTIR DO FILHO DO HOMEM O evangelista Mateus preocupava-se com a situação de precariedade na e em torno da comunidade para qual ele direcionou o seu discurso. Algumas ações para o atendimento de necessidades básicas eram feitas como saciar a sede e a fome, vestir o desnudo e outras. Eram ações emergenciais de efeito curto que quando realizadas minimizavam problemáticas contin-genciais dos marginalizados em situação de miséria. No entanto, elas não causavam o impacto suficiente para alterar as matrizes que provocavam problemas tais como um modelo econômico injusto, o egoísmo e a falta de misericórdia entre outros. E, assim, mudar as perspectivas do estrato social daqueles que viviam às margens da sociedade. Imagina-se que a expectativa do Evangelista em relação à sua audiência ia além do socorro emergencial. Ele esperava que as co-munidades fossem agentes facilitadoras de mudanças que transformassem verdadeiramente as vidas daqueles que encontravam-se nos bolsões de miséria. E, que como resultado de suas ações a dignidade humana que fora subtraída por instituições déspotas fossem resgatadas. Os exclu-ídos socialmente necessitavam de projetos verdadeiramente transformadores. O similar grego para a palavra transformação é o termo metamorfose. A semântica desse vocábulo no grego traduz uma conceituação tão intensa de transformação que o mesmo o nosso vernáculo, não consegue transmitir com a semântica de transformação. Metamorfose é muito mais do que uma mudança. Metamorfose é a transformação da essência de uma estrutura. Ela vai além da mudança da forma ou da aparência. É uma reengenharia onde um ser passa a ser outro ser. Toda inteireza da existência transforma-se. Essa era a expectativa e ao mesmo tempo o desafio do evangelista à sua comunidade (transformar as vidas da não-elite marginalizada). Entende--se que Mateus esperava que a comunidade reagisse não ficando inerte ao que teria que ser feito no seu ambiente. Overman (1999, p. 15) diz:

[...] é fundamental saber como o evangelho de Mateus se relaciona com o que acontece no ambiente de sua comunidade e disso recebe sua inspiração. [...] O evangelho de Mateus foi escrito com o pro-pósito de ver como a comunidade do autor reagia ao que acontecia em seu ambiente.

Uma comunidade transformadora é orientada pelo pragmatismo do Filho do Ho-mem. A expressão Filho do Homem expressa diversas facetas de Jesus e do Seu ministério terreno. No Grande Julgamento, por exemplo, a expressão é usada para mostrar o senhorio absoluto e universal de Jesus. Já em Mateus 8,20 usa-a para identificar a humanidade de Je-sus. Assim, Jesus (o Rei-juiz) é apto para presidir o Grande Julgamento porque os elementos intrínsecos em sua natureza permite um julgamento justo. Como Senhor ele tem outorga para condenar ou absolver. Como homem ele identifica com as necessidades destes quando

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teve fome e sede, foi humilhado, injustiçado e vivenciou situações pelas quais os excluídos da sociedade mateana estavam passando.

A apologética pragmática diz que as verdades apregoadas precisam ser úteis. Ao contrário do subjetivismo que tende a reduzir a existência ao exercício do pensamento, o pragmatismo evoca práticas. O Grande Julgamento de Mateus é a expressão exata do pragmático. Nele não observa-se grandes elaborações teológicas. Ao contrário, ao ela-borá-lo o autor preocupou-se com a construção de um conteúdo didático para orientar os seus destinatários a envolver com ações que realmente fossem úteis para minimização das necessidades que a comunidade marginalizada estava vivenciando. O Filho do Ho-mem, como vigário substitutivo, ao sofrer identificou-se com o sofrimento dos homens denotando assim caráter pragmático. Tornou-se, em parte, como um deles. Jesus não só tomou conhecimento do sofrimento humano, mas sofreu como eles. Lancellotti (1980, p. 30) mostra os paradigmas que devem ser seguidos pelas comunidades transformadoras na perspectiva do Filho do Homem: ”‘Filho do Homem’ designa em sua vida terrena [...] libertar o homem do jugo da lei farisaicamente interpretada, servir e dar a própria vida para o resgate de ‘muitos’”. Portanto, para o evangelista Mateus, não adiantava somente saber ou ter ciência da carência; era preciso também fazer, ou seja, ser prático (pragmático). Ficar somente no campo das ideias e do diagnóstico não eliminaria a fome, a sede, a nudez, a exclusão social na e em volta da comunidade mateana. Enfim, o Grande julgamento é a tensão entre o saber e o fazer. A gnose (o saber) só é viável quando ela torna-se a propulsão para o fazer. Trilling (1984, p. 274) aborda a tensão entre o saber e fazer ao comentar as indagações dos réus condenados:

Eles [cabritos] também viram, mas não o praticaram. A necessidade dos homens não os moveu a ajudar-lhes. Agora, porém, vale o que cada um fêz, e não o que pensou. Não bastam lamúrias, sentimentalismo e comiseração platônica com os que sofrem, mas é preciso deitar mão e ajudar concretamente.

Por último, Mateus 25,31-34a é aplicável aos dias de hoje porque nele o fim e o presente parecem realidades componentes de um único sistema onde estes desenvolvem uma relação pedagógica de interdependência. Um termo elucida a ação do outro termo. A grande pergunta do diálogo juiz-ovelhas e juiz-cabritos está fundamentada no quando “quando foi que”. O quando para os que estavam em julgamento já era passado (o fim), mas para a co-munidade cristã hodierna o quando é o agir atual (o presente). São as práxis que os cristãos têm que fazer hoje tais como o amor e a misericórdia que eram tão necessários no contexto mateano. São atos como estes que definirão a natureza do veredicto que estes obterão no fim (GENDRON, 1999, p.77). Os protagonistas figurantes estavam sendo julgados pelo que fizeram ou deixaram de fazer no passado. Já os povos atuais serão julgados pelo que fazem ou deixam de fazer agora. Assim a pedagogia para a comunidade cristã atual está em ela ser previdente. Não aguardar o fim para fazer o que tem que ser feito agora. Assim, o fim ensina a urgência daquilo que têm que ser feito nos dias atuais. Gedron (1999, p.79) discorre essa unicidade sistêmica do fim e do presente:

A parte narrativa, por sua vez, nos põe em presença do fim; mas não do fim descrito ou apreciado por si mesmo. O fim deslinda todo o caminho percorrido. Como ponto de onde não se poder voltar, o fim reforça a urgência da ação presente.

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CONCLUSÃO

No Grande Julgamento do Evangelho de Mateus o cristão encontra o seu sentido. O povo cristão não vive para si. Sua função no reino de Deus é ajudar sem cessar aqueles que necessitam da sua ajuda. São “benditos” aqueles que anulam a si mesmos e transformam-se em auxílio para o mundo.

A mensagem do juízo final reforça também a importância da Lei do Amor nas rela-ções horizontais, ou seja, no amor ao próximo. Os réus eram absolvidos ou não com base no exercício de uma ética fundamenta no amor desenvolvido nas relações interpessoais. Aqueles que exerceram amor saciando sede e fome, vestindo desnudos e outras ações foram absolvi-dos. Obviamente, aqueles que viraram as costas para os necessitados da comunidade onde estavam inseridos foram condenados.

Abordou-se nesse artigo científico a necessidade da adoção de diretrizes que fomen-tem ações para a reinserção dos excluídos sociais. Na primeira parte versou sobre o contexto social, político e religioso sob a ótica da contribuição que estes contextos davam para for-mação do status quo dos envolvidos. A parte dois abordou os papéis, a ética de cada um dos envolvidos e, consequentemente. os desdobramentos que suas éticas os levaram. Essa parte foi estruturada utilizando o vetor causa-consequência. Por fim, a terceira parte focou na respon-sabilidade que as pessoas e instituições hodiernas têm, como os atuais agentes transformado-res, de alterar os contextos sociais onde estão inseridos. Tratou-se das ações transformadoras que substituem as formas que geram os bolsões de miséria.

JUDGMENT IN MATTHEW

Abstract: the reading of the Great Judgment in the gospel according to Matthew’s encourages the reader to make an evaluation of what should be done nowadays. Although modeled in form of eschatological becoming, twinned shares from the sacred text should be applied in the present. This article makes a reflection about the obligation of the Christian communities as agents for the reversal of the status quo of being the socially excluded. It is understood that the replacement of some political, religious and social-economic models are great mechanisms to re-humanization and ransom the condition of human dignity of the socially excluded of the pockets of poverty. Will be convicted or acquitted in the day of judgment those who somehow helped soften and turned or not it vivendi modus of the needy.

Keywords: Judgment. Judaism. Community. Mercy. Transformation. Referências

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Referências

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