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Reescritura do mito em Nelson Rodrigues

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Academic year: 2020

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REESCRITURA DO MITO EM NELSON RODRIGUES

S i l v a n a SANTORO*

Senhora dos Afogados, p u b l i c a d a em 1947, é uma peça de N e l s o n R o d r i g u e s baseada no m i t o g r e g o de E l e c t r a .

O m i t o de E l e c t r a f o i d r a m a t i z a d o p o r Esq u i l o , Sófocles e E u r i p i d e s . Embora tenham t r a -b a l h a d o d i f e r e n t e m e n t e o espetáculo e a conca-tenação dos a t o s , esses três p o e t a s trágicos basearam-se nos mesmos dados mitológicos: Aga-menão, após t e r conseguido a vitória na g u e r r a de Tróia, r e t o r n a ao l a r como um comandante v i -t o r i o s o , mas é a s s a s s i n a d o p o r C l i -t e m n e s -t r a , sua m u l h e r e o amante d e s t a , E g i s t o .

E l e c t r a , f i l h a de Agamenão e C l i t e m n e s t r a , i n c o n f o r m a d a com o assassínio do p a i , que e l a a d m i r a v a , começa a p l a n e j a r o assassínio da mãe, a u x i l i a d a p e l o irmão O r e s t e s . E s t e , s e -g u i n d o a ordem do deus A p o i o a s s a s s i n a

* Aluna do Programa de Pós-Graduaçâo.

Itinerários. Araraquara, 5: 231-243. 1993

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C l i m n e s t r a , uma vez que e r a d e v e r do f i l h o v i n -gar a m o r t e do p a i . N e l s o n R o d r i g u e s b a s e i a - s e no m i t o de E l e c t r a , mas a tragédia r o d r i g u e a n a é e l a b o r a d a a p a r t i r de f a t o r e s psicológicos (componentes f r e u d i a n o s ) que a d i f e n c i a m da tragédia g r e g a .

Em Senhora dos Afogados são O S f a t o r e s

psicológicos que determinam as ações de Moema, que t u d o fará p a r a t o r n a r - s e a única m u l h e r na v i d a do p a i : Moema encarna o "complexo de E l e c -t r a " e s -t u d a d o p o r F r e u d .

Se compararmos Eduarda com C l i t e m n e s t r a , veremos que a q u e l a nunca h a v i a traído M i s a e l , a p e s a r de não o amar. Moema, p o r t a n t o , o d e i a a mãe sem que h a j a um m o t i v o r e a l p a r a i s s o , o d e i a a mãe porque e s t a é sua r i v a l , é a m u l h e r que a impede de f i c a r com o homem amado: o p a i .

C o n s i d e r a n d o - s e a enorme importância dos a s p e c t o s psicológicos em Senhora dos Afogados ( 3 ) , podemos c o n c l u i r que Nelson R o d r i g u e s d e

-s e n v o l v e u o m i t o de E l e c t r a de m a n e i r a m u i t o próxima à que f e z Eugene O ' N e i l l , em sua o b r a denominada Electra Enlutada ( 1 ) , uma t r i l o g i a e s c r i t a em 1 9 3 1 , composta p e l a s s e g u i n t e s p e

-ças : Volta ao Lar, Os Perseguidos e Os Fantasmas.

No prefácio à o b r a do d r a m a t u r g o a m e r i c a n o encontramos a s e g u i n t e definição de R.

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tragédia g r e g a p a r a o a m b i e n t e n o r t e - a m e r i c a n o ,

mas sob o p o n t o de v i s t a da moderna p s i c o l o g i a , numa fusão de E s q u i l o com o Dr. F r e u d . A g u e r r a de Tróia é substituída p e l a g u e r r a c i v i l d o s E s t a d o s U n i d o s . E o palácio dos Átridas passa a s e r a mansão dos Mannon, na Nova I n g l a t e r r a "

d ) .

Comparando Senhora dos Afogados com Electra

Enlutada percebemos vários p o n t o s em comum: na

tragédia r o d r i g u e a n a , Eduarda t r a i M i s a e l com um homem b o n i t o e s e n s u a l que v e i o do mar ( o mar é a p r e s e n t a d o como um personagem profético e m i s t e r i o s o ) . O N o i v o , como é denominado o r e f e r i d o personagem, é f i l h o b a s t a r d o de M i s a e l com uma p r o s t i t u t a do c a i s , que o próprio M i s a e l a s s a s s i n o u . Em Electra Enlutada, C h r i s t i n e Mannon t r a i E z r a Mannon com o capitão Adam B r a n t , comandante do v e l e i r o Ventos Alísios, que também é d e s c r i t o como sendo um homem b o n i t o e s e n s u a l . Adam B r a n t é f i l h o ilegítimo de D a v i d Mannon ( t i o de E z r a ) com uma moça da raça canuque. A mãe de Adam m o r r e r a , p o r q u e E z r a Mannon r e c u s o u - s e a ajudá-la quando e l a e s t a v a d o e n t e e já não p o d i a t r a b a l h a r .

T a n t o o N o i v o de Senhora dos Afogados, q u a n t o Adam B r a n t de Electra Enlutada são homens b e l o s , s e d u t o r e s , a p a i x o n a d o s p e l a mãe m o r t a ( c o m p l e x o

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i l h a s paradisíacas, onde pensam que poderão e n c o n t r a r a f e l i c i d a d e p l e n a e ambos querem t o r n a r - s e amantes das esposas d a q u e l e s que f o r a m , d i r e t a ou i n d i r e t a m e n t e , responsáveis p e l a s m o r t e s de suas mães.

Em Electra Enlutada, Lavínia, que é f i l h a de

C h r i s t i n e e E z r a Mannon, f l a g r a a mãe no mo-mento em que e l a dá veneno ao p a i , que está t e n d o um a t a q u e cardíaco. Ezra m o r r e . Lavínia, i n c o n f o r m a d a , persuade o irmão O r i n (que é a p a i x o n a d o p e l a mãe) a matar Adam B r a n t . O r i n mata-o movido p e l o ciúme que s e n t e da mãe. C h r i s t i n e s u i c i d a - s e .

Em Senhora dos Afogados, Moema, que é f i l h a de Eduarda e M i s a e l , age com a determinação de f a z e r com que a mãe t r a i a o p a i . De que maneira? Deixando-a s o z i n h a na presença do N o i v o , d e s p e r t a n d o o amor de Eduarda ao d i z e r

"meu n o i v o t e o l h a m u i t o " ( 3 , 22 a t o , 2 2 q u a d r o p. 335) t u d o i s s o p a r a que Eduarda mereça a m o r t e , uma vez que p r a t i c a n d o o adultério, e s -t a r i a quebrando a -tradição de f i d e l i d a d e das m u l h e r e s da família que em t r e z e n t o s anos nunca traíram seus m a r i d o s . Consumado o adultério, Moema p e r s u a d e seu irmão P a u l o (que é a p a i x o -nado p e l a mãe) a matar o amante de Eduarda, e M i s a e l a m a t a r a esposa adúltera.

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Vários o u t r o s p o n t o s em comum p o d e r i a m s e r e s t a b e l e c i d o s e n t r e as o b r a s de O ' N e i l l e N e l -son R o d r i g u e s , mas é p r e c i s o r e s s a l t a r um p o n t o que as d i f e r e n c i a : o a s p e c t o da m o r a l i d a d e que o d r a m a t u r g o b r a s i l e i r o e x p l o r a e x a u s t i v a m e n t e em suas peças. N e l s o n R o d r i g u e s transpõe a tragédia g r e g a p a r a o u n i v e r s o b r a s i l e i r o : Eduarda é o d i a d a p e l a f i l h a Moema e é s u s p e i t a aos o l h o s da s o -g r a ( a avó M a r i a n i n h a ) p e l o s i m p l e s f a t o de não s e r uma Drummond, que sempre f o r a m exemplos de f i d e l i d a d e .

C l i t e m n e s t r a e C h r i s t i n e a t r a e m o ódio de E l e c t r a e Lavínia, porque traíram e mataram Agamenão e Ezra Mannon r e s p e c t i v a m e n t e . Eduarda t r a i p e r s u a d i d a p o r Moema que t e n t a d e s e s p e r a -damente p r o v a r ao p a i que a mãe é uma m u l h e r i n d i g n a de confiança e merece a m o r t e . Eduarda não mata M i s a e l . É m o r t a p o r e l e .

I I - A N Á L I S E D A F Á B U L A E D O E S P E T Á C U L O :

Em Senhora dos Afogados o cenário é composto

p e l a superposição de d o i s a m b i e n t e s : a casa dos Drummond, que é o espaço m o r a l e o café do c a i s , que é o espaço i m o r a l . 0 espaço m o r a l é s u g e r i d o a p a r t i r da ornamentação das paredes que apresentam e s p e l h o s e r e t r a t o s a óleo dos

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a n t e p a s s a d o s . Esses r e t r a t o s colocam em cena, s i m b o l i c a m e n t e , os m o r t o s da família como guardiães da m o r a l i d a d e . Nesse a m b i e n t e a u s t e r o v i v e m , em permanente c o n f l i t o , Eduarda e Moema, r e s p e c t i v a m e n t e mãe e f i l h a .

Na p r i m e i r a cena do p r i m e i r o a t o , o p a r a -t e x -t o i n d i c a que Eduarda e Moema ves-tem l u -t o f e c h a d o p o r causa da m o r t e de C l a r i n h a , irmã mais nova de Moema. Ambas estão de pé, rígidas, hieráticas e os movimentos das mãos c o i n d i d e m , o que as e x a s p e r a , mas será c o n s t a n t e em t o d o o espetáculo. A indumentária, a expressão c o r p o r a l e f a c i a l de mãe e f i l h a p r e n u n c i a m o c o n -f l i t o que se desencadeará.

Moema é apaixonada p e l o p a i ( M i s a e l ) e o d e i a a mãe, porque e s t a r e p r e s e n t a o p r i n c i p a l e m p e c i l h o p a r a que e l a possa t o r n a r - s e a única m u l h e r na v i d a de M i s a e l . Além da mãe, Moema t e v e que e l i m i n a r as duas irmãs mais novas: Dora e C l a r i n h a . Afogou-as no mar, que a p a r e c e como personagem invisível, profético e i m p l a -cável; Moema q u e r i a t o r n a r - s e a única f i l h a de M i s a e l p o r q u e não a d m i t i a d i v i d i r seu c a r i n h o com as duas irmãs. As m o r t e s de Dora e C l a r i n h a não o c o r r e m no espaço mimético, uma vez que são apenas c i t a d a s p e l o s v i z i n h o s , que se incumbem de f a z e r com que o espaço diegético i n t e r f i r a , com freqüência, no espaço mimético.

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Para c o n s e g u i r a m o r t e de Eduarda, Moema a p r o x i m a a mãe de seu próprio n o i v o , com a i n -tenção de torná-los amantes. O N o i v o (sem nome) é um homem f o r t e e s e n s u a l , e x o f i c i a l da m a r i -nha, que a p r e s e n t a o c o r p o t o d o t a t u a d o

(corações f l e c h a d o s com o nome de sua mãe) e v i v e no meio das m u l h e r e s do c a i s . Essa m a q u i

-lagem que compõe a f i g u r a do N o i v o e n f a t i z a seu caráter l i b e r t i n o e l i b i d i n o s o , o que fará com que Eduarda se s i n t a atraída p o r e l e .

Moema e o N o i v o nada sentem um p e l o o u t r o , apenas "usam-se" mutuamente p a r a a t i n g i r e m seus o b j e t i v o s : Moema quer fazê-lo amante da mãe e o N o i v o q u e r t o r n a r - s e amante de Eduarda p a r a v i n g a r - s e de M i s a e l (o a s s a s s i n o de sua m ã e ) ; l o g o , são cúmplices, c o - i n t e r e s s a d o s . P o r t a n t o , baseando-nos na análise p r o p o s t a p o r E. S o u r i a u ( a p r e s e n t a d a p o r Renata P a l l o t t i n i ) ( 2 ) , a situação dramática-síntese f i c a r i a a s s i m : Moema, movida p e l a paixão que s e r i a o a t r i b u i d o r do bem, e x e r c e a função d r a -matúrgica de força temática ( s u j e i t o ) que q u e r o p a i , o bem d e s e j a d o ( o b j e t o ) , enquanto que a mãe, as irmãs e o irmão cumprem a função de oponentes do s u j e i t o .

0 N o i v o , o p a i e a avó são os a d j u v a n t e s de Moema p o r q u e c o l a b o r a m p a r a que e l a se t o r n e a única m u l h e r na casa do p a i : a avó acusando

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Eduarda de não s e r uma Drummond legítima e c o n -seqüentemente i n d u z i n d o - a ao adultério, o N o i v o s e d u z i n d o - a e o p a i matando-a.

Moema, d e p o i s de t e r matado as irmãs e p r o v o c a d o a m o r t e da mãe, convence o irmão a a f o g a r - s e no mar. Esquece de a l i m e n t a r a avó que acaba p o r m o r r e r . Torna-se uma a s s a s s i n a i g u a l a n d o - s e ao p a i , que a n t e s de m a t a r Eduarda, já h a v i a matado uma p r o s t i t u t a há de-zenove anos.

M i s a e l mata a p r o s t i t u t a , porque e s t a que-r i a d e i t a que-r - s e na cama da n o i v a e mata a esposa, p o r q u e e s t a d e i t o u - s e na cama da p r o s t i t u t a

(Eduarda t r a i M i s a e l no prostíbulo p a r a onde é c o n d u z i d a p e l o N o i v o ) . Ambas são m o r t a s com g o l p e s de machado. A p r o s t i t u t a f o r a m o r t a com um único g o l p e de machado d e s f e r i d o c o n t r a o pescoço. O machado c o r t a n d o o pescoço (região erógena do c o r p o ) s i g n i f i c a que M i s a e l conse-g u i u uma r u p t u r a b r u s c a com a i m o r a l i d a d e que o ameaçava: M i s a e l s e n t i a s e atraído p e l a p r o s t i -t u -t a , p o d e r i a a-té amá-la, mas nunca na cama i m a c u l a d a , onde se d e i t a r i a a esposa v i r g e m .

O mesmo a c o n t e c e com Eduarda, que também é m o r t a com d o i s g o l p e s de machado. Mas os g o l p e s são d e s f e r i d o s c o n t r a suas mãos, p o r q u e Moema já h a v i a c o n v e n c i d o o p a i de que são as mãos que pecam: " ( f o r a de s i d i z e n d o p a r a o p a i ) E

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p o r q u e não a c a s t i g a s nas mãos (num c r e s c e n d o ) . As mãos são mais c u l p a d a s no amor... a c a r i

-ciam " ( 3 , 22 a t o , 22 q u a d r o , p. 332)

O machado, apesar de s e r um dos p r i n c i p a i s acessórios em Senhora dos Afogados, s i t u a - s e no espaço diegético. A p r o s t i t u t a e Eduarda são a s s a s s i n a d a s p o r M i s a e l na p r a i a e suas m o r t e s são apenas n a r r a d a s no espaço mimético p e l o próprio M i s a e l e p e l o N o i v o .

Moema, porém, não consegue r e a l i z a r seu p r i n c i p a l d e s e j o que s e r i a o de t o r n a r s e e s posa de M i s a e l . Após a m o r t e de Eduarda, o c a minho p a r e c e l i v r e p a r a que Moema possa r e a l i z a r o seu sonho. A p r o t a g o n i s t a está f e l i z , t i -r o u o l u t o e ago-ra v e s t e - s e de b -r a n c o como se f o s s e a n o i v a do p a i . A mudança de indumentária m o s t r a que Moema v i v i a de l u t o , porque Eduarda e s t a v a v i v a e a i m p e d i a de f i c a r com o homem amado. Para e l a a v i d a de Eduarda s i g n i f i c a v a

l u t o e sua m o r t e , f e l i c i d a d e , paz ao l a d o do p a i . Mas Moema engana-se t o t a l m e n t e , p o r q u e ao c o n s e g u i r a m o r t e da mãe, através da amputação das mãos, p e r d e a própria i d e n t i d a d e : a imagem de Moema desaparece dos e s p e l h o s . Ao t e n t a r e n -c o n t r a r - s e no e s p e l h o ( p r i n -c i p a l a-cessório do espaço cênico), e l a só consegue v e r a imagem da mãe, que está de l u t o e a p r e s e n t a os p u l s o s e n -r o l a d o s em gazas ensangüentadas. Moema -r e c u a

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d i a n t e do e s p e l h o , Eduarda r e c u a também; Moema a p r o x i m a s e e Eduarda f a z o mesmo. Então a f i -l h a d i a n t e da imagem da màe c o n c -l u i desespe-r a d a : "Agodesespe-ra estás em t o d o s os e s p e l h o s . . . E na água do r i o e nas poças d'água... sempre encon-t r a r e i a encon-t u a imagem e não a minha própria..."

( 3 , 38 a t o , 29 q u a d r o , p. 3 6 7 ) .

F i n a l m e n t e Moema consegue e x p u l s a r Eduarda do e s p e l h o : " D e i x e i de s e r t u a f i l h a . . . A única c o i s a que nos u n i a eram nossas mãos... Tu p e r -d e s t e as t u a s . . . E eu me l i b e r t e i -de t i . . . " ( 3 ,

32 a t o , 22 q u a d r o , p. 3 6 9 ) .

Moema, com g e s t o s n a r c i s i s t a s , enamora-se das próprias mãos e passa a beijá-las. Eduarda, com uma expressão f a c i a l que e x p r i m e t o d o o seu d e s e s p e r o , desaparece do e s p e l h o . Moema está eufórica, deslumbrada com o próprio t r i u n f o e nem p e r c e b e que M i s a e l está m o r t o ; então, c o n v e r s a com o p a i , mas quando v a i beijálo, c o n s -t a -t a que e l e já não v i v e .

Na situação dramática-sintese o destinatá-r i o , que s e destinatá-r i a a pdestinatá-rópdestinatá-ria Moema, não a p a destinatá-r e c e p o r q u e o s u j e i t o não consegue a p o s s a r s e d a -q u i l o -que mais -q u e r i a : o p a i , -que como já f o i d i t o e x e r c e a função dramática de bem d e s e j a d o

( o b j e t o ) .

Além de p e r d e r o p a i , Moema p e r d e - s e a s i mesma. A m o l d u r a sem e s p e l h o , na última cena,

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s i g n i f i c a sua p e r d a de i d e n t i d a d e após a m o r t e da mãe.

A expressão de e s p a n t o e medo de Moema d e s c r i t a no p a r a t e x t o f i n a l , resume t o d o o seu c o n f l i t o i n t e r i o r : e l a sabe que nunca poderá se l i b e r t a r das próprias mãos, que viverá sempre em companhia d e l a s ; p o r t a n t o , a presença de Eduarda será c o n s t a n t e em sua v i d a .

I I I - CONCLUSÃO

Embora t e n h a c r i a d o um t e x t o dramático b a seado no c o n h e c i d o m i t o g r e g o de E l e c t r a e t e -nha d e s e n v o l v i d o uma o b r a passível de s e r com-p a r a d a a o b r a Electra Enlutada de Eugene O ' N e i l l ,

Senhora dos Afogados de N e l s o n R o d r i g u e s deve s e r v i s t a como uma das m a i o r e s o b r a s da d r a m a t u r g i a n a c i o n a l .

0 r e f e r i d o a u t o r não só consegue a p a r t i r da d u a l i d a d e m o r a l x i m o r a l r e c r i a r o m i t o de E l e c t r a , como também consegue a d a p t a r o tema que d e s e n v o l v e u à r e a l i d a d e b r a s i l e i r a . E s c r i t a em 1947, a o b r a nos r e v e l a uma visão f o r t e m e n t e m o r a l i s t a da s o c i e d a d e b r a s i l e i r a que c o b r a v a

(e a i n d a c o b r a ) a f i d e l i d a d e das m u l h e r e s no casamento, mesmo quando i n f e l i z e s .

N e l s o n R o d r i g u e s transpõe as personagens do espaço mais fechado (casa dos Drummond) p a r a

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o espaço mais a b e r t o ( c a i s ) . A casa dos Drummond s i m b o l i z a o espaço da s e n s u a l i d a d e r e -p r i m i d a . Eduarda é c o n d u z i d a desse es-paço -p a r a o prostíbulo s i t u a d o no c a i s , que s i m b o l i z a o espaço da s e n s u a l i d a d e d e s a b r i d a . Torna-se uma m u l h e r adúltera, não só porque d e s e j a o p r a z e r , mas também porque a m b i c i o n a i g u a l a r s e às p r o s -t i -t u -t a s e, d e p o i s de m o r -t a , i r p a r a a i l h a .

A i l h a , que só e x i s t e na imaginação do N o i v o e é p o r e l e d e s c r i t a , s i m b o l i z a o espaço u l t r a - l i b e r a l , onde as mulheres p o d e r i a m s e r f e l i z e s sem que houvesse c e n s u r a . No espaço utópico onde v i v e m as p r o s t i t u t a s m o r t a s , o o l h a r m o r a l i s t a da s o c i e d a d e não e x i s t e .

P o r t a n t o , N e l s o n R o d r i g u e s c r i a uma nova t e a t r a l i d a d e e n v o l v e n d o as personagens em uma a t m o s f e r a ambígua, que não nos p e r m i t e a f i r m a r se nosso m a i o r d r a m a t u r g o é um homem e x t r a o r d i -n a r i a m e -n t e m o r a l i s t a , ou descaradame-nte i m o r a l .

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Referências

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