PÓLO DE AZURÉM – GUIMARÃES Núcleo de Estudos de População e Sociedade
Poder, prestígio e imagem no antigo convento de
São Domingos de Aveiro
Curso de Mestrado em Património e Turismo
UNIVERSIDADE DO MINHO
PÓLO DE AZURÉM – GUIMARÃES Núcleo de Estudos de População e Sociedade
Poder, prestígio e imagem no antigo convento de
São Domingos de Aveiro
Curso de Mestrado em Património e Turismo
Orientadora
Professora Doutora Maria Manuela Milheiro
Mestrando
Não há prova possível, mas mesmo assim acredito que seja verdade: existem lugares no mundo onde à nossa chegada ou partida se acrescentam, de forma misteriosa, as emoções de todos os que lá chegaram ou de lá partiram antes de nós.
Cees Nooteboom, O (des)caminho para Santiago
ABREVIATURAS
A.U.C. – Arquivo da Universidade de Coimbra.
FLUC – Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
IPPAR – Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico. IPM – Instituto Português de Museus.
A.N.B.A. – Academia Nacional de Belas Artes.
AGRADECIMENTOS
abe-me neste espaço executar um ante propósito que não se apresenta menos dificultoso que a elaboração do restante trabalho que adiante se desenvolverá, pois um labor desta índole leva sempre a auxiliar-nos de muitos amásios que de uma forma ou de outra, mais ou menos directa, nos arrimam, empunhando um remo para dilapidarem a nosso lado as ondas que se vão levantando nas marés mais altercadas e tememos que neste ancho círculo nos esqueçamos de alguns. Se assim avir fica desde já o meu mais profundo e sincero pedido de desculpas. Por outro lado, a apresentação sequencial daqueles que gratulo não infere qualquer grau hierárquico de importância ao meu reconhecimento.
Gostaria primeiramente agradecer a todos os professores dos diversos módulos do Curso de Mestrado em Património e Turismo que ao longo das suas profícuas lições foram contribuindo para a nossa riqueza e construção intelectual, permitindo que a nossa forma de observar e analisar se tornasse mais complexa, por um lado, mas mais esclarecedora por outro. Conquanto, sou adstrito, correndo o risco, não o realizando, de cometer uma severa ingratidão, a destacar a minha dilecta orientadora, Professora Doutora Manuela Milheiro, não só pelas facundas aulas de uma singularidade enleante, mas também pela forma envolvente e afectuosa, perspicaz e de preponderante acuidade como me foi orientando e esclarecendo nas dúvidas que me iam sobressaltando.
Aos colegas do mesmo curso que encetaram um desafio semelhante pelas afinadas demonstrações de incentivo e pelos vivos momentos que me proporcionaram de saudável discussão sobre os trabalhos que íamos parafusando. Todavia, dentre destes tenho que aplicar uma especial referência ao, além de colega também amigo, Luís Pereira porque trilhámos um caminho muito paralelo, amparando-nos mutuamente nos momentos em que as nossas construções pareciam-nos desabar perante o desânimo.
Ao meu amigo José António Cristo pelos extensos momentos que desquitou para comigo discutir benignamente diversas hipóteses que iam surgindo em torno de tantas
A meu pai por todo o incentivo, a quem os anos o tornaram mais presente e ainda lhe foram, e vão, concedendo a oportunidade de viver a sua experiência (e função) paternal a qual tem querido expressá-la, demonstrando que nunca é tarde para aproveitar tudo o que de bom a vida nos proporciona e que os mais nobres sentimentos mantêm-se sempre vivos, ainda que por vezes apenas latentes.
Não teria qualquer sentido redigir estas linhas, sempre aquém do devido merecimento, se não exultasse uma mulher que desempenhou uma importância capital em todos e todos os sentidos neste longo processo iniciado em Outubro de 2001. À Carla que se prepara para nos proporcionar, muito brevemente, o mais empíreo acontecimento da natureza e da nossa vida, isto é, a transformação da existência noutra essência, singela, inocente e pura, levando-nos à consumação de um outro trabalho supremo: o caminhar na construção paulatina de uma nova vida humana!
Não quero de forma alguma esquecer aqueles que ao longo de toda a minha vida, e deste trabalho também, foram um esteio, uma referência e uma impulsão na minha construção e que a eles muito devo por estar hoje aqui, com desarcado gosto e gratidão, a agraciá-los: aos meus irmãos, Augusto, Gabi e Zé dos quais não poderei separar os respectivos consortes que se transformaram noutros fecundos “companheiros irmanados”: à Mariazinha e ao imperecível Jorge que continuará sempre no nosso seio, o qual já não poderá compartilhar, cá na Terra, da nossa alegria!
À minha mãe para a qual me vão carecendo as palavras porque quanto melhor desejamos expressar o nossa agradecimento tanto menor nos aparentam ser todos e quaisquer termos. Pela sua constante preocupação e atenção maternal ao longo de todos estes anos da minha vida que permitiram que eu caminhasse livremente devido à sua omnipresente “fantasmagoria couraçada” à minha retaguarda.
Propositadamente sobejei para as últimas renques aquelas acepções que teimam em não desapertar do peito muito por culpa do nosso restrito domínio lexical que nem ousam alcançar a minha verdadeira expressão fraternal e ainda mais por causa das eternas saudades que vou olvidando com os sorrisos das festivas recordações. Ao Quim, a quem dedico especialmente este trabalho, efectivo companheiro paternal da viagem da minha vida, que ainda esteaste a bandeira deste meu labor com agigantado orgulho, mas que a vida não te assentiu que transpusesses a linha de meta de mãos dadas comigo, deixando, porém, a alegria de guardar o teu coração sempre ao lado do meu e de me trajar com as roupagens de toda a tua expressão, ensinamentos e indulgências!
INTRODUÇÃO
execução deste trabalho apresentava-se como uma aventura de descoberta e exploração e a sua exequidade nem sempre se apresentava como um caminho fácil, nem tampouco de respostas claras e directas às muitas questões que se têm levantado em torno da fundação, existência e vivência dos frades pregadores na urbe aveirense e do espólio que assinalou a sua presença. É certo que ao longo dos difusos e lentos anos muitas informações têm sido dadas a lume da curiosidade e da indagação, mas estas nem sempre contêm uma linha condutora devido aos muitos espaços em branco que vão teimando em se manter e inquietando o cógito porque a documentação ou escasseia, ou não responde de forme convincente às problemáticas levantadas e estudadas. Conquanto, os trabalhos e artigos dispersos que já foram sendo redigidos, principalmente por ilustres aveirenses que sempre pugnaram pela identidade da sua região, tais como José Rangel de Quadros, António da Rocha Madhaíl, Alberto Souto, ou mesmo por aqueloutros, dos quais alguns por esta região se deixaram encantar, como Pinho Leal, João Almeida ou mais próximo de nós António Nogueira Gonçalves, começam a carecer de um fio unitário de maneira a revesti-los da importância merecida que se encontra ainda subvalorizada, sentindo-nos obrigados, pelo mérito próprio que grangearam, a destacar as desaparecidas e riquíssimas publicações periódicas do Arquivo do Distrito de Aveiro. Por outro lado, fruto de investigações mais recentes, como as de Maria João Violante Silva, Inês Amorim, Amaro Neves, João Gonçalves Gaspar, estes dois últimos autóctones, entre muitos outros, certas lacunas ou equívocos que eram veiculados em algumas das mais anciãs análises, às quais teremos sempre que prestar a devida homenagem pelo pioneirismo, capacidade empreendedora e espírito de investigação, apesar dos alquebrados recursos, começam a contribuir para um conhecimento mais profícuo e a cooperar para a coesão e identificação histórica social e cultural da comunidade aveirense.
Foram muitas obras dos supracitados e ainda de análogos autores que nos serviram de base para a nossa esquadrinhadura de forma a compilar as informações
dispersas num epítome que desenvolvesse o que tem sido abordado, como a fundação e a evolução arquitectónica do edifício eclesiástico, por um lado; por outro, analisando e criticando, algumas vezes contrariando opiniões já expressas e até um pouco cimentadas e, consequentemente, apresentando a exigida argumentação justificativa, nomeadamente no que se refere ao espólio herdado dos frades que se mantém no actual templo catedralício, mas também no que concerne a pequenas questões históricas e até construtivas; e, ainda por mais outro lado, aprofundado outras contendas, não muito bem esclarecidas, e campos e temáticas que até agora não lhes tem sido dada relevância, como é o caso da pintura.
Perante tal, decidimos dividir o trabalho em duas latas partes: uma dedicada à evolução arquitectónica, sem deixar de realizar as abordagens estritamente necessárias ao contexto histórico que levou à implantação dos dominicanos no seio desta comunidade e ao processo de fundação e reconhecimento, mas antecedido de pequenos intróitos expressos à história da urbe, ao fundador, Senhor de Aveiro e Duque de Coimbra, o Infante D. Pedro e também um apêndice histórico da ordem religiosa, a sua apropinquada ao nosso território nacional e a prédica e prática daqueles frades. A outra parte do labor foi destinada a algum espólio, mormente o de maiores dimensões e que desempenhava importantes funções eucarísticas, apelativas e exegéticas, nomeadamente a talha dourada e policroma, a retabulária em pedra e as pinturas que com estes elementos se ligam e que contribuem para a sua composição material e religiosa.
Relativamente à documentação contemporânea dos séculos da existência cenobita ela rareia: no Arquivo Nacional Torre do Tombo encontram-se, à sua guarda, alguns documentos régios, mas estes também estão disponíveis, em treslados, no conjunto documental do Arquivo da Universidade de Coimbra. Estes livros são o fundo que adveio do próprio convento, pois foi concedida autorização aos frades para possuírem o seu “cartório”, levando a cabo, a partir dos inícios do século XVII, um trabalho manuscrito de tresladar e coligir toda a documentação avulsa existente conhecida referente ao agregado religioso. As actas camarárias anteriores ao século XIX, que supostamente pudessem estabelecer qualquer relação, também são poucas e muito dispersas cronologicamente, não havendo qualquer afinidade destas com o mosteiro dominicano, excepto após a extinção da ordem e consequente nacionalização dos bens daqueles conventuais que acabaram por vir a desempenhar outras funções. Nos fundos notariais do Arquivo Distrital de Aveiro não nos deparámos com qualquer nova informação relevante para o nosso trabalho, muito por culpa de Domingos Pinho
Brandão que já havia pesquisado aqueles manuscritos e publicado alguma documentação. Por vezes encontram-se alguns documentos ligados com frades dominicanos, mas tratando-se de actos isolados, independentes e desligados da sua comunidade, somente ressalvando que eram religiosos de São Domingos.
Foi, efectivamente, o fundo conventual que ainda se encontra no Arquivo da Universidade de Coimbra, divulgado por António da Rocha Madhaíl quando foi director daquela instituição, que nos deu alguma informação para a nossa pesquisa. Não se encontram no desejável estado de conservação e inclusivamente um dos volumes intitulado Livro do Tombo de São Domingos d’ Aveiro dos casais da Ventosa e Eirol, feito no ano de 1810 parece ter desaparecido apesar de se encontrar incluso na lista apresentada por aquele director supra identificado e na própria catalogação e inventariação actual do arquivo. Contudo, os livros são muito mais de índole económica e de património fradesco: são autos de reconhecimento e delimitação de terrenos rurais e urbanos, desde vinhas, milheiros a outros tipos de campos agrícolas, marinhas, terrenos baldios, pardieiros e casas, até às rendas e tenças auferidas devido ao arrendamento e aforamento desse património. A justificação para a messe daquelas posses permitem-nos perceber como as adquiriram, sendo a forte maioria bens oriundos de mão-morta. Serão deveras interessantes e importantes para uma história económica monacal ou para o estudo da fé, da crença e da morte e suas relações e repercussões sociais. Apesar disto retirámos algumas informações que nos pareceram consideráveis para o âmbito e campo da nossa investigação.
Todas estas dispersas, distantes, no tempo, e parcas informações, nomeadamente nalguns campos históricos e artísticos, foram o basilar da nossa procura, da nossa análise e da nossa comparação com uma acentuação mais marcante na arte, na imagem, na exegese, no espírito catequético e no prestígio demonstrado pelos anacoretas de São Domingos. Qual a imagem religiosa que transmitiam à urbe? Qual a forma imagética aplicada na catequização da comunidade social? Quais os meios sacros utilizados neste processo? Para isso foi necessário explorar os instrumentos sacralizados, como a retabulária, em madeira e pétrea, e a pintura de capital importância neste processo de prédica. Mas todos estes auxiliares estavam abrigados numa edificação que necessitou ser explorada, com largas suposições, principalmente no que diz respeito às demolidas dependências conventuais e nesta viagem temporal o nosso companheiro foi José Rangel de Quadros que ao longo de diversos anos foi escrevendo os seus Apontamentos
atenção por parte do poder local. A Câmara Municipal ainda editou, no ano dois mil, a compilação Aveirenses históricos, mercê de forte empenho e labor de Monsenhor João Gonçalves Gaspar, mas ainda se encontram à espera de solução idêntica os intitulados apenas Aveiro que descrevem os restos da muralha, dos conventos e mosteiros e ainda de outros templos seculares e edifícios de destaque; recortes de jornais que foram fotocopiados e compilados por aquela distinta figura aveirense, nascido em Eixo, e que são a única fonte e único exemplar que a Biblioteca Municipal detém para consulta.
Desta forma, foi de somenos a nossa preocupação com a autoria e datação exacta das peças, mas mais a preocupação com a função e intencionalidade da sua realização e encomenda, o enquadramento nuns limites modelar e cultural, a integração num período de criação artística e de desenvolvimento histórico e a identificação e identidade das peças com as envolventes litúrgica e religiosa, social e comunitária e ideológica e mental. Esperamos que a leitura das linhas que se vão seguir permitam um mais esclarecido entendimento e que tenham alcançado a postura do enquadramento sequencial da comunidade religiosa que ao longo dos quatrocentos e onze anos da sua existência foi também contribuindo para a formação de uma mais firme identidade social e cultural de Aveiro.
DE ALAVARIUM A CAPITAL DE DISTRITO
cidade de Aveiro é sede de concelho e capital de um distrito que já ultrapassa bem os 700 mil habitantes numa vasta superfície que se estende por 2710 Km2. Sempre esteve intimamente ligada aos recursos marítimos, bem patente na evolução da sua economia e no desenvolvimento das indústrias com eles relacionados, apesar de muitas diferentes continuarem a emergir e outras a desenvolverem, mas, também, se encontra fortemente adjunta ao imenso e deleitante estuário do rio Vouga, que se esparge de Espinho até Mira, com todos os seus canais (nos quais, felizmente, algumas barcas turísticas recomeçam aprazivelmente a navegar), constituindo aquele leito parte fundamental e estrutural desta magnífica terra. Há mesmo quem lhe conceda a invocação “Veneza de Portugal”.
As origens de Aveiro são bastante remotas e não existem verdadeiras provas, documentais ou achados arqueológicos consistentes, que possam provocar consenso nas várias opiniões dos historiadores ou daqueles que se interessam vivamente por esta magnífica urbe, mas “...supõe-se que o povoamento humano do território litoral de Leiria, Coimbra e Aveiro começou precisamente entre os princípios do quarto milénio até aos primeiros séculos do segundo milénio antes da nossa era”1 e a herança patrimonial e arqueológica dos povos megalíticos dispersa pela região aveirense atesta a passagem daquelas comunidades pré-históricas, tal como alguns topónimos2. João de Almeida atribui a fundação de Aveiro ao período de transição do Neolítico para a época dos metais pelos Transcodanos3 e o ilustre historiador aveirense, João Gonçalves Gaspar, corrobora esta ideia e explica-a4. Aqueles mesmos autores referem ainda as trocas comerciais que os Fenícios aqui realizaram, estabelecendo uma feitoria próximo
1
GASPAR, João Gonçalves – Aveiro na história. Aveiro. Edição da Câmara Municipal de Aveiro. 1997. p. 15.
2
GASPAR, João Gonçalves – Aveiro na história... pp. 15-16.
3
ALMEIDA, João – Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses. Vol. II. Lisboa. s/e. 1946. p. 9.
do Canal do Cojo e afirmam também que os Gregos, posteriormente, por aqui circularam5. Ainda na opinião de João Almeida foram os Lusitanos, já misturados com os Celtas, que, cerca do século IX a. c., deram o nome a esta povoação, intitulando-a Aviobriga6, mas João Gonçalves Gaspar discorda com a designação atribuída7. Outro autor defende que este nome foi alatinizado pelos Romanos, começando a pronunciar-se Talabrica8, influenciado pela enumeração das cidades da Lusitania feita por Plínio, mas, ao que parece, esta associação entre as duas designações está errada, pois foi fundamentada na distancia entre Talabrica e Aeminium, marcada por Antonino Pio no seu itinerário, que é precisamente a mesma que separa a cidade de Aveiro da de Coimbra9, apesar de existir uma via romana que ligava Lisboa a Braga que passava por Aeminium e próximo da actual cidade de Aveiro. Reforçando este equívoco é ainda o próprio Pinho Leal que afirma “na egreja de Fermedo está uma inscripção do anno 28 de Cesar que falla em Aviobriga”10. E o erro inclui também a datação da lápide funerária porque não se refere ao ano 28 de César como a supra citação aparenta demonstrar, mas, sim, ao tumulado que faleceu com 28 anos11. Quer Talabrica, quer Aviobriga não nos parecem terem existido no núcleo a partir do qual se desenvolveu a actual cidade.
Contudo, a primeira alusão concreta referindo-se à comunidade de Aveiro encontra-se no testamento da famosa Condessa Mumadona Dias, datado de 959, apelidando-a de Alavario12, o que demonstra que a sua fundação será anterior àquela
5
ALMEIDA, João – Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses. Vol. II... p. 12 e GASPAR, João Gonçalves – Aveiro na história.... p. 19.
6
ALMEIDA, João – Roteiro dos Monumentos Militares Portugueses. Vol. II... p. 12. João Gonçalves Gaspar afirma que os Celtas já se teriam misturados com os Iberos quando contactaram com os Lusitanos e refere também alguns povos do calcolítico que teriam aportado por estas bandas com fins económicos. GASPAR, João Gonçalves – Aveiro na história... pp. 17-19.
7
GASPAR, João Gonçalves – Aveiro na história... pp. 27-28.
8
LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno. Lisboa. Livraria Editora de Matos Moreira & Cª. 1873. p. 259.
9
OLIVEIROS, Albertina Valentim – “Aveiro no Século XV”. in Boletim Municipal de Aveiro. n.º 4. Aveiro. Câmara Municipal de Aveiro. 1984. p. 17.
10
LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno... p. 259.
11
Conferir transcrição em ALARCÃO, Jorge de – Portugal romano. Lisboa. Verbo. 1983. 2ª edição. p. 195.
12
SOUTO, Alberto – A arte em Portugal. Aveiro. Porto. Editora Marques Abreu. 1956. p. 5. Este documento encontra-se publicado em Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae com o
data e que nos finais da alta idade média já existia aqui uma povoação consistente e organizada, comunidade que desde 990 ficaria sob a jurisdição do governador de Coimbra, D. Sisnando. A partir de então as referências começam a ser mais frequentes e no inventário dos bens de Gonçalo Ibn Egas e de sua mulher Dona Flâmula, datado de 1050, é designado por Alaveiro já com a categoria de vila13, a mesma etimologia que se encontrava na doação de Recemundo Mourel de 104714, verificando-se que em pouco menos de cem anos a grafia da sua nomenclatura sofreu uma ligeira variação. Naturalmente com a estabilidade militar, consequentemente política e das fronteiras, e com a recuperação económica e comercial que se fez sentir em toda a Europa este núcleo foi conhecendo um crescendo ao longo do decurso medieval.
Todavia, a importância de Aveiro fez-se sentir, principalmente, durante todo o século XV, período dos Descobrimentos, partindo desta nobre terra alguns navegadores, como João de Albuquerque, de quem adiante falaremos mais particularmente, e o piloto João Afonso de Aveiro que acompanhou Diogo Cão na viagem à costa de África, aquando da descoberta do Congo e Zaire15. É durante esta centúria que serão construídas as muralhas, começadas por D. João I, ainda antes de 1413, e bastante desenvolvidas pelo seu filho, o Infante D. Pedro16, primeiro Senhor de Aveiro e restauradas, mais tarde, pelos reis D. Manuel e D. João V. Durante muitos anos esta urbe foi conhecendo vários donatários, quer nobres, quer eclesiásticos, pertencendo à coroa apenas no reinado de D. Dinis e no do cognominado O de Boa Memória, o qual a entregou ao seu filho, o supracitado Infante D. Pedro, em data anterior a 1431. D. Afonso V, sobrinho daquele Infante, reinado durante o qual o próprio D. Pedro foi regente na sua menoridade entre os anos de 1438 e 1446, entregou a Vila de Aveiro, em 1448, apenas um ano antes da fatídica Batalha de Alfarrobeira, a seu tio por doação
número 76. O nome Alaveiro como o autor utiliza não é o mais fiel, pois o documento redigido em latim mostra a grafia Alavarium. Uma pequena transcrição do documento original corroborando a nossa afirmação encontra-se em OLIVEIROS, Albertina Valentim – “Aveiro no Século XV”... p. 17.
13
SOUTO, Alberto – A arte em Portugal. Aveiro... p. 5. Encontra-se igualmente publicado em
Portugaliae Monumenta Historica, Diplomata et Chartae com o número 378. 14
GASPAR, João Gonçalves – Aveiro na história... p. 29.
15
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. s.v. “Aveiro”. Vol. I. Lisboa. Editorial Enciclopédia. s/d. p. 811.
16
régia perpétua17. Deve-se a este último também a construção do primeiro cenóbio aveirense, pertença dos frades dominicanos, no qual incide este trabalho, e ainda no mesmo século, de fronte deste, em 1461, surge legalmente a primeira comunidade clerical feminina no Mosteiro de Jesus, também da Ordem de São Domingos18, não obstante a sua existência anteceder a 24 de Novembro de 145819, que ficaria famoso por ter albergado, desde 1472, a Princesa Santa Joana, actualmente padroeira desta cidade, irmã de D. João II, que nele faleceu a 12 de Maio de 1490 e que viria a ser beatificada em 1613. Foi o próprio Príncipe Perfeito que em 19 de Agosto de 1485 doou de forma irrevogável a vila à princesa20, sua irmã, que alborcou o luxo da corte pela clausura e humildade das freiras dominicanas de Aveiro, pois, anteriormente, D. Afonso V, após a batalha de Alfarrobeira que opôs o rei e o seu tio, o Senhor de Aveiro, Infante D. Pedro, tinha entregue a vila ao Conde de Odemira, D. Sancho de Noronha a 13 de Junho de 144921. Até à formação destes dois cenóbios a referência a outro clero é um pouco vaga, exceptuando-se o prior e raçoeiros ligados à igreja de São Miguel, da qual há algum, escasso ainda assim, conhecimento e que deteve o padroado da vila até 152722.
Prova da riqueza social e cultural que Aveiro tinha granjeado no final da época medieva, e que perdurou pelo período humanista, é a concessão de foral, a 4 de Agosto de 1515, por D. Manuel23, porém desconhece-se se este seria o primeiro ou a confirmação de algum anterior24. A nomeação de D. Fr. Duarte Nunes para primeiro Bispo da Índia em 1519 é a confirmação da importância que a vila ia adquirindo nesta época. Este clérigo, natural de Aveiro, ingressou na Ordem dos Pregadores no Convento de Nossa Senhora da Misericórdia da sua cidade, tendo aí professado e, regressado de
17
SILVA, Maria João Violante – “Aveiro”. in Atlas de cidades medievais portuguesas. Vol. I. Coordenação de MARQUES, A. H. de Oliveira, GONÇALVES, Iria e ANDRADE, Amélia Aguiar. Lisboa. Centro de Estudos Históricos da Universidade Nova de Lisboa. 1990. p. 43.
18
A fundação canónica deste mosteiro foi concedida pela Bula papal de Pio II a 16 de Maio de 1461. GASPAR, João Gonçalves – Catedral de Aveiro – História e Arte. Aveiro. Edição da Paróquia de Nossa Senhora da Glória. 1979. p. 3.
19
CABELLO, Jorge (editor coordenador) – Grandes Museus de Portugal. Lisboa. Público. Editorial Presença. 1992. p. 330.
20
OLIVEIROS, Albertina Valentim – “Aveiro no Século XV”... p. 24.
21
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. s.v. “Aveiro”... p. 801.
22
SILVA, Maria João Violante – Aveiro Medieval... pp. 134-136.
23
LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno... p. 260.
24
além mar, escolhido o mesmo cenóbio para finalizar os seus dias25. Ainda nesta centúria, em 1524, fundou-se o Convento de Santo António de frades Franciscanos26, situado na parte sul já fora das muralhas, perto da porta de Vagos. Por outro lado, Aveiro conhece o seu primeiro duque, D. João de Lencastre, cerca de 154527, o que atesta o crescimento deste núcleo urbano, não só em termos populacionais, como também na importância económica e social, religiosa e cultural. A partir da dominação Filipina, pela provisão de 13 de Maio de 1581, do punho de D. Filipe I, a invocação a esta terra passa a ser feita da seguinte forma: "…Nobre e notável vila de Aveiro…"28. Também emblemático da importância que esta vila ia adquirindo é a implantação de outros três conventos ao longo do século XVII: em 1613 é fundado o Convento de Nossa Senhora do Carmo pelos frades Carmelitas Descalços; no chamado lugar de Sá levantou-se o Convento da Madre de Deus, pertença das religiosas da Ordem Terceira de São Francisco, fundado em 1644; finalmente em 1658 é erigido o Mosteiro das Carmelitas Descalças, de invocação a São João Evangelista29.
Conquanto, a centúria setecentista revestir-se-ia ainda de bastante importância e regozijo para os aveirenses devido a dois grandes motivos: em primeiro lugar por ter alcançado a categoria oficial de cidade por alvará datado de 11 de Abril de 1759 e assinado por D. José30, em reconhecimento da fidelidade dos seus habitantes perante a tentativa de regicídio, no qual estiveram implicados, supostamente, alguns cidadãos de Aveiro, incluindo o próprio Duque de Aveiro, D. José de Mascarenhas e consequentemente foi restaurada a comarca de Aveiro que fora criada em 1523, pelo Rei D. João III, mas que poucos anos tinha perdurado31; em segundo lugar pela criação do Bispado de Aveiro por decreto de 12 de Abril de 1774 e pelo Breve Militantis Ecclesiai Gubernacula assinado pelo Papa Clemente XIV32. De realçar que a categoria
25
LENCART, Maria Lucília – “O primeiro Bispo Português na Índia nasceu em Aveiro”. in Boletim
Municipal de Aveiro. n.º 13/14. Aveiro. Câmara Municipal de Aveiro. 1989. pp. 27 a 29. 26
COSTA, António Carvalho da – Chorografia Portugueza. Braga. 2ª edição. Tipografia Domingos Gonçalves. 1868. Tomo II. Livro I. Tratado III. Capítulo II. pp. 68 e 69.
27
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. s.v. “Aveiro”. Vol. I... p. 808.
28
SOUTO, Alberto – A arte em Portugal. Aveiro... p. 5.
29
COSTA, António Carvalho da – Chorografia Portugueza... pp. 69 a 72.
30
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. s.v. “Aveiro”... p. 799.
31
GASPAR, João Gonçalves – Aveiro na história... p. 203.
32
de cidade foi conferida antes da criação do bispado, facto que não era usual desde a Idade Média e que se mantinha em prática ainda neste século. A Igreja da Misericórdia viu-se, então, elevada a Sé em 177533 por uma portaria de 10 de Março34, mas já a 18 de Abril do ano anterior tinha sido nomeado Bispo D. António Freire Gameiro de Sousa que já houvera sido sagrado em Lisboa a 25 de Setembro de 177735, porém, só iniciou as suas funções no ano seguinte36. Aquele templo manteve-se como Catedral até 1826, ano em que foi transferida para a Igreja do antigo Recolhimento de São Bernardino37, pois tinha sido extinto um ano antes e fundado em 168038. No entanto, a Diocese seria extinta a 30 de Setembro de 1881 pela Bula Gravissumum de Leão XIII, mas viria a ser restaurada em 1938 pela Bula de Pio XI Omnium Eclesiarum de 24 de Agosto39, sendo a Sé instituída na Igreja de Nossa Senhora da Glória, património descendente do antigo Convento de São Domingos.
O século XIX trás algumas alterações à cidade devido ao seu desenvolvimento económico, alterações urbanísticas que se vinham sentindo desde o reinado de D. Maria, nomeadamente na Praça do Município e na sua envolvente, denominada então por Adro de São Miguel devido à localização da Igreja Matriz dedicada àquele santo, mas que era comummente conhecida por Largo da Cadeia40, e que nos finais da centúria setecentista levou à erecção do actual edifício da câmara41. A ruína era patente em diversos edifícios públicos e em Abril de 1802 grande parte da muralha, que se encontrava bastante degradada, foi demolida e a pedra aproveitada para a construção da desejada barra42 dirigida pelo francês Reinaldo Oudinot e por Luíz Gomes de Carvalho, após outros
33
GASPAR, João Gonçalves – A Diocese de Aveiro no século XVIII. Aveiro. Edição da Cura Diocesana de Aveiro. 1974. p. 10.
34
GOMES, João Augusto Marques – Memórias de Aveiro. Aveiro. s/e. 1875. p. 139.
35
RESENDE, João Vieira – “A Diocese de Aveiro. Um documento de 1778”... p. 236.
36
GASPAR, João Gonçalves – A Diocese de Aveiro no século XVIII... p. 12.
37
GOMES, João Augusto Marques – Memórias de Aveiro... p. 139.
38
GASPAR, João Gonçalves – Aveiro na história... p. 198.
39
LOBO, José Luciano – “A restauração da Diocese de Aveiro”. in Arquivo do Distrito de Aveiro. Vol. IV. Aveiro. 1938. p. 241.
40
QUADROS, José Reinaldo Rangel de – Aveiro. Origens, brasão e antigas freguesias. Aveiro. Paisagem Editora. 1984. p. 43
41
Sobre a construção do edifício da câmara consultar AMORIM, Inês – A construção da Câmara de
Aveiro nos finais do século XVIII. Aveiro. Edição da Câmara Municipal de Aveiro. 1997. 42
engenheiros, desde o século anterior, terem visto as suas tentativas goradas, sendo aberta a nova barra a 3 de Abril de 1808. Todavia, a obra não ficaria concluída e só no século seguinte, após muitos desassisos e controvérsias, se assistiria à sua total finalização43. A cidade tinha crescido para fora das muralhas e um novo bairro, a que a população chamava Vila Nova, despontava próximo do rocio e envolvendo a Igreja da Vera Cruz, acabando por se apropriar daquela designação religiosa. Em 1834 triunfaria o liberalismo em Portugal e Aveiro estaria ao lado de D. Maria II, como antes o tinha feito quando a 16 de maio de 1828 os Liberalistas aveirenses aclamaram a Rainha, o que lhes valeu o enforcamento44, mas por outro lado o distrito seria decretado a 18 de Julho de 183545, apesar de a nova divisão administrativa do país estar já consagrada na Constituição de 1822 e confirmada na Carta Constitucional de 1826. Por seu turno, as quatro freguesias da cidade foram reduzidas a apenas duas por alvará emanado pelo Governador Civil a 11 de Outubro de 183546. De acordo, também, com a nova legislação extinguem-se os conventos e mosteiros e no ano de 1838 já tinha sido construído o cemitério municipal num antigo terreno, conhecido entre o povo pelo Campo, incluído na cerca dos dominicanos47, terreno este que tinha sido solicitado pela Câmara Municipal para o efeito em 1836 (Portaria de 11 de Março) e confirmando a sua posse na Resolução de 2 de Abril de 183848. Esta realização foi de encontro às novas ideias sobre saúde pública e aos novos decretos de 21 de Setembro de 1835, que legalizou os cemitérios públicos, e de 18 de Setembro de 1844, que proibia os enterramentos dentro das igrejas e capelas49. Mais tarde a própria cerca do convento foi requisitada pela Câmara Municipal para alargamento do cemitério50.
43
Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. s.v. “Aveiro”... pp. 805-806.
44
SOUTO, Alberto – A arte em Portugal. Aveiro... pp. 7-8.
45
GASPAR, João Gonçalves – Aveiro na história... p. 204.
46
GASPAR, João Gonçalves – Aveiro na história... p. 205.
47
NEVES, Francisco Ferreira – “Memória de Aveiro no século XIX”. in Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. 1940. vol. VI. p. 180. Porém, QUADROS, José Rangel de – Aveiro. Apontamentos históricos. Aveiro. Compilação fotocopiada por João Gonçalves Gaspar. 1978. Vol. IV. p. 116. afirma que o cemitério e a capela deste foram benzidos a 10 de Novembro de 1839.
48
MADAHIL, António Gomes da Rocha – “Livro dos títulos do Convento de São Domingos da cidade de Aveiro”. in Arquivo do Distrito de Aveiro. Aveiro. 1961. Vol. XXVII. p. 235.
49
Conferir esta vaga de legislação em TORRES, Ruy de Abreu – s.v. “Enterramentos”. in Dicionário de
A reforma educativa implementada por Passos Manuel reflectiu-se do mesmo modo na cidade com a construção do Liceu em 1856 que beneficiou também da pedra da destruída muralha, no local do desaparecido Hospital de Jesus Rei Salvador, apelidado por Albergaria de São Brás, existente desde 145751, e nove anos mais tarde foi estabelecida na biblioteca do antigo mosteiro de São Domingos, após algumas obras municipais de beneficiação, a escola primária masculina que também funcionava como escola nocturna para operários. Em 1864 o caminho de ferro chega à cidade a par de novas ligações rodoviárias que se iam desenvolvendo; a cultura também não se aparte, construindo-se o Teatro Aveirense e tendo sido fundada a 25 de Novembro de 1858 a Associação Comercial de Aveiro52, demonstrando o incremento do comércio e da sua industria. Aveiro sentia o fervilhar do crescimento, tinha sido elevada a capital de distrito após a definitiva implantação do regime constitucional e a figura de José Estevão, que lutou pelas alas de D. Pedro IV, eleva-se nas guerras políticas parlamentares, destacando-se como um exímio orador e contribuindo para a execução das referenciadas obras estruturais de comunicação.
51
GASPAR, João Gonçalves – Aveiro na história... p. 100.
52
Sobre a fundação e o papel desempenhado por esta instituição consultar ROGRIGUES, Manuel Ferreira – A fundação da Associação Comercial de Aveiro e o estado da barra em meados do século XIX. Aveiro. Associação Comercial de Aveiro. 1998.
D. PEDRO, O INFANTE DAS SETE PARTIDAS
isboa, 9 de Dezembro de 1392. A Rainha D. Filipa de Lencastre dava à luz o seu quarto filho, aquele que, provavelmente, seria o mais dado às letras e artes e de mais nobre formação: “…Foy Pryncype de grande conselho, prudente, e de viva memoria, e foy bem latinado, e assaz mistyco em ciencias e doutrinas de letras, edado muyto ao estudo…”53, nas palavras do cronista Ruy de Pina, “... contemplativo, cavalheiresco, benigno, prudente, sábio. Era louro. Tinha nas veias o sangue da mãe, e no rosto assinalada a ascendência” 54, assim o descreveria, mais tarde, um dos mais importantes pensadores da “Geração de 70”, Oliveira Martins.
Após uma cuidada educação o Infante D. Pedro tomou parte na expedição e conquista de Ceuta, em 1415, ao lado dos seus irmãos onde foram sagrados cavaleiros por seu pai, o rei D. João I - O de Boa Memória e no regresso, em Tavira, D. Pedro foi intitulado Duque de Coimbra55. Entre os anos de 1425 e 142856 viajou por toda a Europa: Inglaterra, Flandres – onde visitou as mais importantes cidades da Borgonha, nomeadamente Bruges –, esteve em Nuremberga, Ratisbona e Viena. Lutou ao lado de Sigismundo contra os Hussitas e contra os Otomanos, depois passou por Belgrado, Budapeste e pela Transilvania. De seguida realizou um périplo pelos reinos italianos, conhecendo as cidades de Veneza, Pádua, Ferrara, Bolonha e Roma, na qual, em Maio
53
PINA, Ruy – Chronica do senhor Rey D. Affonso V. Lisboa. Academia Real das Sciencias. 1901. p. 433.
54
MARTINS, Oliveira – Os filhos de D. João I. Lisboa. Editora Ulisseia. 1998. p. 89.
55
DIAS, Pedro – “Escultores e pintores que trabalharam para o Infante D. Pedro, Duque de Coimbra”. in
Biblos. vol. LXIX. Coimbra. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 1993. p. 491. 56
MADAHIL, António Gomes da Rocha – “Livro dos títulos do Convento de São Domingos da cidade de Aveiro”... pp. 87-100. Neste artigo o autor levanta a problemática acerca dos anos em que o Infante esteve ausente do país e acaba por demonstrar claramente esse período: D. Pedro ainda se encontrava em Portugal em meados de Junho de 1425, mas em Outubro do mesmo ano já tinha iniciado a sua demanda
de 142857, foi recebido pelo Papa Martinho V, o mesmo que lhe concedera a autorização pontifícia para a fundação do Mosteiro de Nossa Senhora da Misericórdia na então vila de Aveiro no ano de 142558, ofertando-lhe “...como presente da passagem a bula que concedia aos reis de Portugal o serem ungidos na sua coroação, como os de França e de Inglaterra, e o poderem os infantes reger o reino como filhos primogénitos e haver coroa de rei”59. No retorno desta enriquecedora e profícua aventura aproveitou para uma nova estada em Castela, Barcelona e Valência, cidade onde conheceu e acordou o casamento com D. Isabel de Urgel, filha de D. Jaime II60.
No ano seguinte à chegada ao seu país casou com a dita D. Isabel de quem obteve seis filhos: D. Pedro - O Condestável - que lutou a seu lado em Alfarrobeira e seria Rei da Catalunha; D. Isabel que foi Rainha e esposa de D. Afonso V; D. Jaime, Bispo de Arras e Cardeal de Santo Eustáquio; D. João que seria Rei de Chipre; D. Brites e D. Filipa. Nesse mesmo ano casaria a sua irmã, a Infanta D. Isabel, com Filipe, O Bom da Borgonha, fundador da famoso e misteriosa Ordem do Tosão de Ouro e com o qual o Infante tinha privado numa passagem durante a sua delonga caminhada. Todos os seus filhos tiveram uma grande formação e educação de acordo com os conhecimentos adquiridos na prolongada viagem que lhe valeu o cognome de Infante das Sete Partidas, pois “…custumava mandar ler proveitosos lyvros, e ter praticas e disputa, de que se tomava muyto ensyno e doutrina…”61 e foi o promotor da tradução de várias obras modernas, chegando mesmo, ele próprio, a traduzir algumas. De facto, a educação esmerada deverá ter sido à imagem europeia, pois aquela que ministrou ao seu sobrinho, o futuro D. Afonso V, foi regida “…por conceituados mestres estrangeiros, e para a escolha destes terá usado como critério a preocupação de abertura que manifestavam os
57
MARTINS, Oliveira – Os filhos de D. João I... p. 116.
58
Sobre a problemática da data da autorização pontifícia conferir o capítulo “A fundação e o século XV” deste trabalho.
59
MARTINS, Oliveira – Os filhos de D. João I... pp. 116-117.
60
DIAS, Pedro – “Escultores e pintores que trabalharam para o Infante D. Pedro...”. pp. 491-492 e FERREIRA, Maria Emília Cordeiro – s.v. “Pedro, Infante D”. in Dicionário de História de Portugal. direcção de Joel Serrão. vol. V. Porto. Livraria Figueirinhas. 1985. pp. 29-30. Ambos os autores defendem que a viagem do Infante durou apenas três anos (provavelmente o primeiro autor apoiou-se no segundo), mas MARTINS, Oliveira – Os filhos de D. João I.... pp. 90-117 descreve as suas viagens, estendendo-as por um período de dez anos.
61
ideais humanistas”62, explicando-se, assim, facilmente a escolha que recaiu em Mateus Pisano para preceptor do futuro monarca63.
A longa digressão que fez pela Europa possibilitou-lhe efectuar uma regência, durante a menoridade de D. Afonso V, desde os seis aos catorze anos, filho do irmão D. Duarte que faleceu prematuramente em 1438, que ia de encontro à política humanista europeia. Por outro lado, a regência angariou-lhe muitos inimigos, nomeadamente na nobreza que viam perder a sua força em favor do poder régio, situação que era comum a muitos outros estados europeus, nomeadamente nos da Península Ibérica e nos da Península Itálica e para aumentar a tensão da sua governação D. Pedro teve conflitos com D. Leonor, esposa de D. Duarte, porque esta queria assumir o poder, tal como o seu esposo tinha deixado prescrito em testamento, sendo apoiada pelas hostes da nobreza. Conquanto, e mercê do apoio popular, D. Pedro viu confirmada a sua regência nas Cortes de Lisboa em Dezembro de 1439, levando ao declinar das pretensões da viúva rainha que regressou à sua origem. O Infante, enquanto Regente do reino, foi representante da burguesia, percebendo que este grupo poderia ser o motor de desenvolvimento económico do país à semelhança das outras economias europeias, efectuando para isso reformas nas finanças e à imagem do novo espírito humanista cerrou fileiras à autoridade senhorial almejando centralizar o poder, reformou a administração, preocupou-se com a formação do clero devido à renovação dos doutrinas eclesiásticas que estavam a vogar nos estados mais abertos aos novos ideais da época moderna, reformou a Universidade e é, também, neste período que Portugal se lança verdadeiramente na epopeia dos Descobrimentos, esteando o seu irmão, o Infante D. Henrique, Duque de Viseu nas tarefas dos descobrimentos marítimos64. Para alcançar os seus objectivos empreendeu o casamento de sua filha, D. Isabel com o futuro monarca, o que viria a concretizar-se a 6 de maio de 1447, entregou a direcção dos exércitos a seu filho D. Pedro, o Condestável e coligiu as Ordenações Afonsinas com o intuito de “... nivelar a Pátria com as outras nações, onde o sistema feudal acabara os seus dias ou
62
MACEDO, Francisco Pato de – “O Infante D. Pedro. Patrono e Mecenas” in Biblos. Vol. LXIX. Coimbra. Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 1993. p. 460.
63
FERREIRA, Maria Emília Cordeiro – s.v. “Pedro, Infante D”... p. 29.
64
FERREIRA, Maria Emília Cordeiro – s.v. “Pedro, Infante D”... pp. 29-31. GASPAR, João Gonçalves –
apressadamente agonizava”65. Quando o Infante entregou o poder ao seu sobrinho, nas Cortes de Lisboa em 1446, não obstante de inicialmente se manter como conselheiro do jovem rei a pedido do próprio, a nobreza fomentou, por todos os ardis, intrigas de forma a que D. Pedro perdesse o poder que possuía junto do novo monarca, tendo este dispensado-o nos inícios de 1448.
Na sua longa viagem moldou o seu espírito aos novos ideais e a uma visão cosmogónica bastante alargada, tendo adquirido outros hábitos e absorvido novas práticas que eram comuns no estrangeiro: preocupou-se com a administração efectiva do seu ducado e teve os seus próprios artistas, tal como seu pai também tinha tido, numa atitude mecenática. Protegeu-os, patrocinou obras e concedeu mercês, ou confirmou as concedidas anteriormente, como por exemplo ao pintor António Florentin e a Pero Affonso Gallego que já tinha trabalhado para seu pai66. Outros artistas trabalharam para o Infante, como Luis Dantas, Lourenço Martins e Mestre Pedro, contudo teve o seu pintor de câmara que foi Afonso Gonçalves67 e além destes, também escultores, ourives, calígrafos, mestres de obras e cronistas produziram obras de sua encomenda68. D. Pedro patrocinou imensas obras arquitectónicas como o seu Paço em Tentugal, a igreja da Senhora do Mourão na mesma vila, o Convento no qual este trabalho incide, a continuação das obras da muralha de Aveiro, o restauro da igreja de São Miguel de Penela; protegeu o Convento franciscano de Tentugal, instituiu uma capela no Mosteiro de Odivelas e preocupou-se com obras de caracter público, como muros, fontes, pontes e até imaginou um aqueduto nacapital do seu ducado69.
Em relação ao seu senhorio de Aveiro, o qual recebeu, provavelmente, depois da fundação do mosteiro dominicano, apenas se desconhecendo se antes ou depois da longa viagem de três anos, o Infante, como é fácil de observar, teve bastante apreço porque a fundação daquela cenóbio e a entrega a frades tão eruditos como os dominicanos demonstra a preocupação que ele nutria relativamente à ausência de boa
65
GASPAR, João Gonçalves – A Princesa Santa Joana e a sua época (1452-1490)... p. 22.
66
DIAS, Pedro – “Escultores e pintores que trabalharam para o Infante D. Pedro...”. pp. 495-496.
67
DIAS, Pedro – “Escultores e pintores que trabalharam para o Infante D. Pedro...”. pp. 496-497.
68
DIAS, Pedro – “Escultores e pintores que trabalharam para o Infante D. Pedro...”. pp. 498-501 e MACEDO, Francisco Pato de – “O Infante D. Pedro. Patrono e Mecenas”... p. 461. Embora nenhum destes autores se refira concretamente a arquitectos, somos da opinião que alguns fariam parte do seu séquito artístico, pois, como se sabe, patrocinou e encomendou muitas obras arquitectónicas.
69
formação naquela vila, pois o único clero de que se tinha conhecimento era o da igreja de São Miguel e que não poderia responder às novas exigências desta terra em clara expansão. A continuação da muralha em termos políticos e estratégicos não era primordial, pois neste tempo já a reconquista estava concluída, todavia, aquela continha outro significado: era como que um emblema de uma grande terra, conferindo-lhe dignidade. É pois com grande verdade que Francisco Pato de Macedo afirma que “… o desenvolvimento de Aveiro acelerou-se com o Infante D. Pedro.”70.
Após ter sido dispensado do governo e temendo que seria afastado da corte dedicou-se ao seu ducado, mas nem por isso o conluio dos senhores nobres abrandava, apesar de muitas vozes se levantarem em sua defesa. Pelas suas terras ia distribuindo o seu tempo, a sua atenção e o seu cógito, entre Aveiro, Mira, Tentúgal, Coimbra e Penela, terras de diferente geomorfologia, mas todas de encantada inspiração que o guiaram à elaboração do Livro da virtuosa benfeitoria e que, nas palavras do historiador Salvador Dias Arnaut, foi “...amparado, estimulado por paisagens de maravilha”71. O Infante faleceu a 20 de Maio de 1449 depois de ter saído de Coimbra e de ter confessado a “…Frey Antam Prior do Moesteiro de Aveiro, e outro Frey Dinis que despois foi confessor d'ElRey…”72 as razões da sua partida, confrontando-se com um grande exército do rei que o impediu de ir explicar-se ao monarca e tentar dissipar as vis, mas comuns, intrigas palacianas e, assim, “Alfarrobeira significa o triunfo da nobreza feudal terratenente frente ao projecto que aponta para o engrandecimento do estado e o aumento da capacidade de intervenção dos homens das cidades”73. O seu ducado e os seus senhorios regressaram à posse da coroa, mas, por intercessão da rainha, sua filha, e de muitos protestos de famílias reais e principescas europeias e mesmo do Vaticano, a 20 de Julho de 1455, D. Afonso V concedia-lhe o perdão e reabilitava, em posses e cargos, todos os seus descendentes e a própria memória do
70
MACEDO, Francisco Pato de – “O Infante D. Pedro. Patrono e Mecenas”... p. 466.
71
ARNAUT, Salvador Dias e DIAS, Pedro – Penela. História e arte. Penela. Edição da Câmara Municipal de Penela. 1983. p. 91. O autor referia-se à paisagem de Penela, mas nós ousamos apropriarmo-nos da adjectiva expressão para a estender a todo o seu ducado que bem merece este reconhecimento.
72
PINA, Ruy – Chronica do senhor Rey D. Affonso V... p. 410. O “Frey Antam” referido por Ruy de Pina é o Prior do Mosteiro de Nossa Senhora da Misericórdia, Frei Antão de Santa Maria de Neiva.
73
MORENO, Humberto C. Baquero – “Evolução política”. in Nos confins da Idade Média. Arte
Infante74. Tinha morrido o Príncipe, mas a sua memória ficaria perpetuada na sua vasta cultura e erudição, na sua acção política e económica que tentara empreender, na sua percepção de estado e sentido político visionário e nas importantes obras que desenvolveu e que os séculos seguintes não conseguiriam silenciar.
74
A MENSAGEM DOMINICANA: DA FUNDAÇÃO
AOS TEMPOS DA MUDANÇA HUMANISTA
espanhol Domingos de Gusmão nasceu em Caleruega, província de Burgos, decorria o ano de 1170. Pertencia à pequena nobreza e era filho de Félix Fernan Ruiz, também conhecido por D. Félix de Gusmão, e de Joana Aza. Desde cedo foi preparado para ingressar na vida eclesiástica e aos quatorze anos foi para a escola da Catedral de Palência estudar Teologia e Filosofia, recolhendo-se, por volta dos vinte e quatro anos, no Cabido dos Cónegos Regrantes da Catedral de Osma e passado pouco tempo foi ordenado sacerdote, tornando-se posteriormente superior do Cabido75.
Em 1203, o Bispo de Osma, Diogo de Acebes ou D. Azevedo, como também era conhecido, convidou-o para o acolitar numa embaixada à Dinamarca a fim de tratar dos esponsais do filho do Rei D. Afonso VIII de Castela. É nesta viagem que, ao atravessarem o sul de França, mais precisamente na região do Languedoc, contactam com os albigenses e que, da mesma forma, tomam conhecimento da grande missionação a que se devotava o clero Dinamarquês. Perante este contexto e luculentos pela ardência de tamanha fé, em 1206, dirigem-se à Santa Sé, incumbindo-lhes o Papa Inocêncio III a tarefa devocional de evangelização no seio da comunidade daquela região francesa. Percorrem, então, toda a área pregando e argumentando contra os heréticos, elevando a devotio como o seu principal poder e obtendo alguns resultados: um grupo de mulheres converteu-se e os missionários para o seu recolhimento fundam um mosteiro em Prouille, na zona de Fangeaux, sendo o primeiro de Dominicanas da segunda ordem. Todavia, o Bispo falece em Dezembro de 120776.
Apesar desta adversidade Domingos de Gusmão não descorçoou e reuniu seis
75
HINNEBUSCH, William A. – Breve história da Ordem dos Pregadores. Porto. Secretaria da Família Dominicana. 1985. p. 16.
companheiros para continuarem a perseverante acção prédica e em 1215 já estavam cientes da ordem religiosa que queriam formar, tendo o Bispo Foulques de Toulouse recolhido-os na sua diocese e confiou-lhes a igreja de S. Romain. Convicto do importante papel que queria desempenhar na evangelização, o futuro São Domingos dirigiu-se ao IV Concílio de Latrão a fim de confirmar a constituição da sua ordem, confrontando-se, no entanto, com uma proposta para proibir a fundação de novas ordens religiosas. Perante este entrave, o mesmo com que se deparou Francisco de Assis, pois teve a mesma intenção que o clérigo espanhol, mas na medida em que o objectivo era o impedimento, mais especificamente, da aprovação de novas regras eclesiásticas, Domingos de Gusmão viu-se obrigado a escolher uma regra já existente, elegendo a de Santo Agostinho, à qual adjudicou estatutos próprios. É, então, redigida a Regula ad servus Dei que expressa verdadeiramente o ideal de perfeição cristã que São Domingos preconizou, porém o Liber Consuetudinum consigna especificamente os verdadeiros pilares dominicanos77. Inocêncio III aprovou, então, a ordem, Honório III confirmou-a a 22 de Dezembro de 1216 e em 21 de Janeiro do ano seguinte é aprovada a fundação com a designação de Ordem dos Pregadores78.
A pregação continuava a ser a missão especial e o dever primo, mas para o desenvolvimento desta apostólica tarefa era necessário os pregadores terem um aprofundado conhecimento da literatura bíblica, o que tornava imperioso o estudo profundo das Sagradas Escrituras, para isso, Domingos de Gusmão fomentou o ingresso nas Universidades (entenda-se Universidade segundo o conceito medieval de corporação de estudos religiosa79) e concedeu dispensas individuais para facilitar tal ministério, a salvação dos homens e principalmente o estudo e análise dos escritos religiosos. É por este altruísta e compulsório motivo que alguns dos primogénitos conventos são fundados próximos de Universidades80 e muitos outros passam a integrar
77
MADAHIL, António Gomes da Rocha – “Constituições que no século XV regeram o Mosteiro de Jesus de Aveiro da Ordem de São Domingos”. in Arquivo do Distrito de Aveiro. Vol. XVII. Aveiro, 1951. pp. 67-68.
78
HINNEBUSCH, William A. – Breve história da Ordem dos Pregadores... pp. 20 - 21.
79
Sobre a diferença do conceito de Universidade consultar ALMEIDA, Manuel Lopes de – “Méritos e deméritos da história dominicana em Portugal. in Actas do I Encontro sobre história dominicana. Porto. Arquivo Histórico Dominicano Português. 1979. Vol. II. p. 20.
80
COELHO, Maria Helena da Cruz e MATOS, João José da Cunha – “O Convento Velho de S. Domingos em Coimbra. Contributo para a sua história”. in Actas do II Encontro sobre História
uma Universidade81. São Domingos fundiu os elementos tradicionais da Igreja, que ainda vigoravam na baixa Idade Média, mas não por muitos séculos como a prática de muitos clérigos viriam a demonstrar, numa unidade equilibrada de pobreza, penitência e pregação, aditando-lhe o estudo rigoroso, bem patente na exigência, no Capítulo Geral de 1220, de um professor graduado em cada convento82. Esta fusão unitária de elementos sacrossantos seria quase um percursor de alguns ideais que caracterizariam o final da era medieval, que como todas as épocas de crise ideológico-cultural exacerbam o sentimento religioso entrecruzado com práticas profanas, e se explanaria na literatura coeva na qual “a vida da corte e a pretensão aristocrática são denegadas em favor da solidão, do trabalho e do estudo”83. No ano seguinte, a 6 de Agosto de 1221, morria o fundador da ordem e, logo de seguida, a 3 de Julho de 1234 Gregório IX canonizou-o.
A ordem continuou a sua senda com os seus preceitos e teve alguns grandes teólogos, tais como: Alberto Magno, Pedro de Tarentaise, Raimundo de Peñaforte, Santo Antonino e Savonarola, a quem o célebre pintor renascentista Boticelli dedicou, segundo alguns historiadores, a sua obra crítico-alegórica intitulada A Calúnia, conquanto o mais importante de todos terá sido Tomás de Aquino, cujas ideias, uma verdadeira filosofia teológica, foram muito seguidas durante a Idade Média. O século XIII foi, sem dúvida, o século de ouro dos dominicanos, mas no final do período medieval os franciscanos apresentam-se como os seus grandes opositores, apesar de terem sido fundados durante o mesmo concílio, de serem, também, uma ordem mendicante e de os ideários de São Francisco de Assis serem muito semelhantes aos de São Domingos de Gusmão, havendo, mesmo, algum paralelismo nas suas Regulas. Contudo, se os dominicanos assemelhavam-se a Jesus Cristo e aos seus apóstolos na humildade da pregação e da evangelização, os franciscanos, por seu lado, imitavam O Messias no anúncio e pregação da Boa-Nova, mas destas “... disputas surgiu um grande respeito e amor mútuos”84.
Os dominicanos chegaram a Portugal no ano de 1217 através de Frei Sueiro Gomes (o qual foi um dos iniciadores da comunidade e primeiro Provincial da Ordem
81
ALMEIDA, Manuel Lopes de – “Méritos e deméritos da história dominicana em Portugal”... pp. 20-21.
82
HINNEBUSCH, William A. – Breve história da Ordem dos Pregadores... pp. 13-14 e 27.
83
na Península Ibérica85) enviado por Domingos de Gusmão para a Hispânia, tal como Frei Pedro de Madrid, Frei Miguel de Ucero e Frei Domingos, "O pequeno"86, e logo no ano seguinte parece ter fundado um convento na airosa Serra de Montejunto, nas proximidades de Alenquer87. Todavia, não há consenso quanto à localização do primeiro cenóbio, porque António Rosário afirma que o primeiro convento dominicano foi fundado na cidade de Santarém nesse mesmo ano de 121888, o que de alguma forma está mais de acordo com a característica de comunidade religiosa urbana porque Santarém, seria, à época, uma das cidades mais populosas de Portugal. Por outro lado Sousa Costa afirma que o primeiro mosteiro foi fundado em 1217 próximo de Alenquer e transferido para Santarém em 122589. Quanto ao segundo mosteiro da ordem, já com certezas mais firmes, foi levantado na cidade de Coimbra, encontrando-se já construído no ano de 1227, mas os frades dominicanos já se tinham humildemente instalado e pregavam na cidade do Mondego desde 121890, pois foi neste mesmo ano que o Bispo de Coimbra, D. Pedro Soares, o mesmo que denunciou D. Sancho I à Cúria Papal de se aconselhar com uma feiticeira albergada na sua própria corte, autorizou a Frei Sueiro Gomes a prédica aos dominicanos nas áreas sob sua jurisdição permitindo que repreendessem os excessos aí cometidos91. A expansão dos pregadores e o combate às heresias e excessos levou à concepção dos decretos laicales e abriu hostilidades entre o Provincial dos dominicanos e o rei D. Afonso II que proibira os Estatutos ao frade
85
CAEIRO, Francisco da Gama – “Os primórdios dos frades pregadores em Portugal. Enquadramento histórico-cultural”. in Actas do II encontro sobre história dominicana. Vol. III, Tomo 1. Porto. Arquivo Histórico Dominicano Português. 1984. p. 161.
86
ROSÁRIO, António – “Primórdios dominicanos em Portugal”. in separata Bracara Augusta. vol. XVIII/XIX. n.º 41/42. Braga. 1965. p. 7.
87
SOUSA, Frei Luís de – História de São Domingos. Porto. Lello e irmãos. 1977. p. 49.
88
ROSÁRIO, António – “Primórdios dominicanos em Portugal”... pp. 17-19.
89
COSTA, António Domingues de Sousa – s.v. “Dominicanos”. in Dicionário de História de Portugal. direcção de Joel Serrão. vol. V. Porto. Livraria Figueirinhas. 1985. p. 334. MARQUES, José – “A evolução religiosa”. in Nos confins da Idade Média. Arte portuguesa dos séculos XII-XV (catálogo da exposição). Coordenação de MATOS, Maria Antónia Pinto de. Porto. Secretaria de Estado da Cultura/Instituto Português de Museus. 1992. p. 61 segue esta mesma ideia.
90
COELHO, Maria Helena da Cruz e MATOS, João José da Cunha – “O Convento Velho de S. Domingos em Coimbra. Contributo para a sua história”... pp. 43-44 e ROSÁRIO, António – “Primórdios dominicanos em Portugal”... pp. 19-20.
91
dominicano92 porque o monarca, querendo centralizar o seu poder, apoiava-se em juristas e notários de forma a combater o poderio dos senhores feudais, essencialmente a Norte do Mondego, e dos senhorios eclesiásticos, não querendo reconhecer a lei canónica e pontifícia como dominante à régia e, de facto, “... não se pode esquecer que os principais protagonistas destas lutas eram canonistas célebres e que, por isso mesmo, estavam dispostos a lutar até ao fim pela aplicação em território português de muitas práticas canónicas que se difundiram mais cedo, mas também mais lentamente, noutros territórios da Cristandade”93, mas, por outro lado “... compreendendo-se que o rei reagisse desfavoravelmente à doutrina curialista e não tolerasse o exercício, por parte da autoridade eclesiástica, de poderes temporais que podiam ir desde a punição até ao confisco dos bens”94. Todavia, a importância social e o apreço que as comunidades civis começaram a nutrir por frades culminou em se fazer sentir no seio da família real, como se pode verificar nos reinados de D. Afonso III e de D. Dinis e de forma bastante mais vincada na Ínclita Geração.
À chegada destes frades não deve ter sido alheia as Cruzadas do Ocidente porque no ano da sua vinda para o nosso território seria preparada a Cruzada para libertação de Álcacer do Sal do jugo dos infiéis e os dominicanos, bem como os franciscanos, têm como uma das suas principais tarefas a evangelização, nomeadamente das comunidades urbanas, apresentando-se o sul do actual território nacional, então sob domínio muçulmano, como uma zona desejável para aquelas duas ordens mendicantes porque os seus centros urbanos eram populosos e detinham um desenvolvimento superior à região cristã “... com actividades económicas que poderíamos classificar de mais modernas do que as do Norte, isto é, com uma economia mais produtiva e de trocas mais intensas...”95, pois se inicialmente as ordens mendicantes se excluem das santas acções bélicas continuando o seu caracter apostólico e missionário, posteriormente o sentido de
92
ROSÁRIO, António – “Primórdios dominicanos em Portugal”... p. 17.
93
MATTOSO, José – “Orientações da cultura portuguesa no princípio da século XIII”. in Portugal
medieval. Novas interpretações. Lisboa. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. 1992. 2ª edição. p. 233. 94
CAEIRO, Francisco da Gama – “Os primórdios dos frades pregadores em Portugal...”. p. 168.
95
MATTOSO, José – “O enquadramento social e económico das primeiras fundações franciscanas”. in
Portugal medieval. Novas interpretações. Lisboa. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. 1992. 2ª edição.
p. 332. Apesar de neste capítulo citado este historiador debruçar-se mais sobre os franciscanos, as explicações que fornece relativamente à atracção daqueles frades pelos grandes centros urbanos podem
Cruzada “... é reabsorvido e transformado por duas grandes instituições nascentes que respondem às necessidades duma nova sociedade: a Ordem dos Pregadores e a Ordem dos Frades Menores”96, e é neste contexto de novas carências e de reiteração apostólica e espiritual que “...em diversos centros urbanos, implantaram-se estas duas Ordens Mendicantes, que muito contribuíram para a renovação espiritual das populações, através da pregação e do seu testemunho evangélico de pobreza, obediência e castidade, não deixando de concitar a animosidade de outras instituições, em especial do clero secular...”97. Rapidamente foram-se levantando mais cenóbios dominicanos e a sua importância foi crescendo, patente na entrega do Mosteiro de Santa Maria da Vitória, na Batalha, por D. João I àqueles religiosos, mas Frei Vicente de Lisboa, confessor do próprio rei e João das Regras, bastante amigo daqueles frades, devem ter exercido a sua influência. Chegaram a Aveiro em 1423 pela mão do Duque de Coimbra, o Infante D. Pedro e, pouco depois, em 1462, fundava-se o mosteiro feminino. Em 1418, devido a Portugal ter apoiado o Vaticano no Cisma do Ocidente, Martinho V, o mesmo que concederia o Breve para a fundação do Convento de Nossa Senhora da Misericórdia de Aveiro98, tinha criado a Província de Portugal, separando-a da espanhola que apoiara Avinhão, sendo nomeado para primeiro Provincial Dominicano de Portugal Mestre Frei Gonçalo99. Este longo diferendo papal não foi muito benéfico para a Ordem dos Pregadores porque dividiu-a quanto às posições a apoiarem. O francês Elias Raymond era o Mestre Geral quando se deu o Cisma em 1379 e esteve ao lado do seu país e todos os seus sucessores seguiram posição idêntica de acordo com o apoio dado pela sua zona de origem, obedecendo a ordem ou ao anti-papa, Clemente VII, ou ao papado romano até ao término da separação em 1417, mas as dúvidas que se tinham instalado por toda a cristandade também se sentiram nas diversas províncias dominicanas, verificando-se constantemente uma divisão e uma discordância entre os provinciais e com a linha tomada pelo Mestre Geral100.
96
CAEIRO, Francisco da Gama – “Os primórdios dos frades pregadores em Portugal...”. p. 161.
97
MARQUES, José – “A evolução religiosa”... p. 61.
98
Sobre esta temática consultar o capítulo deste trabalho “A fundação e o século XV”.
99
SOUSA, Frei Luís de – História de São Domingos... p. 921. Sobre a separação e criação da província de Portugal este autor também nos dá um relato, mas estamos em desacordo com as datas propostas porque aquele parte do ano de 1415 como sendo o término do Cisma do Ocidente e na realidade apenas houve consenso entre apoiantes do Vaticano e de Avinhão em 1417.
100
O século XV traria a questão do Cisma, mas Raimundo de Cápua esteve ao lado de Urbano VI de Roma o que permitiu uma célere recuperação da ordem, o Mestre Geral começou a residir na Cidade Santa e quando se deu o fim do Cisma manteve-se no cargo Leonardo Dati que tinha sido obediente a Roma. Nos primórdios desta centúria a ordem começou a usar um brasão: “era o «Escudo da Capa», representando a capa preta do hábito aberta num campo branco. O cão de S. Domingos era muitas vezes colocado abaixo da capa”101. Incumbia-se agora a tarefa de recuperar a ordem o que pareceu algo dificultoso porque se a forte presença de renovadores que viram as suas vidas serem reconhecidas pela santidade, tal como Raimundo de Cápua e Catarina de Sena, entre outros, contribuíram para uma renovação interna da vasta comunidade religiosa, por outro lado “... a restauração das ordens mendicantes causou uma revivescência da pregação popular, o que deu origem às veementes explosões de fervor e penitência que marcaram tão poderosamente a vida religiosa do século XV”102. As províncias dominicanas conheceram uma profunda renovação de forma a não permitir o desleixo em qualquer convento, não só apostólico e evangélico, mas também ao nível do estudo e conhecimento teológico. Sentia-se uma pressão interna maior porque vivia-se uma época de grande instabilidade e de crivivia-se, o que devivia-sencadeava um conflito de fé e paganismo nos espíritos humanos de então e as ordens mendicantes, e o clero em geral, eram alvo de motejos, o que obrigou a um maior movimento da Visitação de forma a aplicar uma disciplina rigorosa como aquela que tinham conhecido nos alvores da ordem. Em Portugal os dominicanos preocupados com o desenvolvimento do pensamento filosófico, e consequentemente teológico/antropológico, que se expandia pela Europa, fundaram, em 1517, o colégio de São Tomás junto ao seu convento em Lisboa, o qual não estaria incorporado na Universidade e destinar-se-ia somente como estudo geral para as comunidades dominicanas103. Os estudos foram-se aprofundando e as necessidades de formação de igual forma, obtendo-se resposta e culminando na fundação do primeiro colégio universitário dominicano, a 16 de Outubro de 1539104.
Estávamos num século de renovação eclesiástica e espiritual, mas também de
101
HINNEBUSCH, William A. – Breve história da Ordem dos Pregadores... p. 108.
102
HUIZINGA, Johan – O declínio da Idade Média... p. 187.
103
DIAS, José Sebastião da Silva – “Os dominicanos e a filosofia em Portugal no século XVI”. in Actas
do II encontro sobre história dominicana. Vol. III, Tomo 2. Porto. Arquivo Histórico Dominicano
renovação política, social, económica e científica porque o Mundo alarga-se a outros contornes e a arcaica visão fantasmagórica da envolvente para lá do continente europeu despedaça-se: “... os Descobrimentos não foram apenas uma fonte da cultura vivida de alguns estratos do povo português. Para os intelectuais ligados às coisas do mar, foram também um estímulo poderoso de reflexão e rectificação de ideias feitas no decurso dos séculos. E a sua influência foi mais longe ainda, orientando os espíritos no sentido das coisas e do conhecimento científico independente da escolástica e até do próprio humanismo”105. Todas as contestações humanistas dos arquétipos medievais ganham consistência e vigor com os contactos proporcionados pelas viagens marítimas e uma revolução cultural e ideológica é iminente, obrigando a novas definições sociais, religiosas e culturais, ou seja teológicas e antropológicas, mas “a tradição científica e filosófica desde os pré-socráticos a S. Tomás de Aquino não constitui, para o pensamento científico e filosófico do século XVI, um museu do passado mas sim, bem pelo contrário, um imenso tesouro do presente. Esta situação em que o passado é registo de presença presente e não matéria de história passada ocorre porque em última instância, o horizonte epistémico destas idades (Antiguidade, Medievalidade e Renascimento) é, no essencial, o mesmo...”106. Os dominicanos acompanharam esta (r)evolução humanista e muitos dos seus estudiosos contribuíram para o desenvolvimento de várias ideias que se compunham: os estudos sobre a esfericidade da Terra em Salamanca iam de encontro às ideias de navegação de Cristovão Colombo, em Itália foram reunidas grandes colecções bibliotecárias e construídas enormes bibliotecas conventuais dominicanas e Savonarola incutiu o estudo de outras línguas como o hebreu, o árabe e o caldeu107 à imagem d’O Cortesão de Baltasar Castiglione. Por outro lado tentaram adaptar uma nova liturgia e concepção religiosa no seguimento da renovação quatrocentista, fundando confrarias dedicadas a Jesus, Maria, São Domingos e Nossa Senhora do Rosário e desenvolveram o cântico dos hinos marianos108. Com o advento do humanismo, bem marcado em muitos países europeus, os dominicanos começaram a decair, mas com perseverança e empenho adaptaram-se à nova sociedade
105
DIAS, José Sebastião da Silva – Os Descobrimentos e a problemática cultural do século XVI. Lisboa. Editorial Presença. 1988. 3ª edição. p. 77.
106
BARRETO, Luís Filipe – Caminhos do saber no renascimento português. Estudos de história e teoria
da cultura. Lisboa. Imprensa Nacional Casa da Moeda. 1986. p. 27 107
HINNEBUSCH, William A. – Breve história da Ordem dos Pregadores... pp. 121-123.
108
e cosmogonia, nomeadamente a partir do Concílio de Trento, no entanto a característica da pregação e da pobreza, após algumas divergências, decaiu em favor do apostolado intelectual.