O FULGOR DA TALHA
OBRAS DESAPARECIDAS
As grades das capelas
lém das grades executadas para o coro contratadas em simultâneo com as grades dos púlpitos no ano de 1676368 os frades mandaram executar mais sete grades: uma para o cruzeiro e seis para o mesmo número de capelas da igreja. O contrato foi celebrado na cidade do Porto com o ensamblador João Coelho de Magalhães, a 21 de Janeiro de 1700 e teriam de estar assentes até ao fim de Julho do mesmo ano369.
O contrato é bastante explícito quanto às exigências: teriam de ser lisas, em pau preto, brunidas a cera e segundo os apontamentos cedidos pelo próprio prior do mosteiro, o Padre Frei Pedro de Monteiro370 e além destes requisitos o contrato não esquece também como seriam as ferragens, os fechos, os pregos e as dobradiças. Indica igualmente que “...as ditas grades do dito cruzeiro levarão quarenta e dois balaústres, a saber: dez nas portas e oito nos quatro lanços e seis pilares...”371 e as grades para as capelas teriam dezasseis balaústres e quatro pilares. Os frades pagariam 40 mil reis por cada grade para cada capela e 110 mil reis para a grade do cruzeiro, sendo esta quantia entregue em três pagamentos: 100 mil reis no próprio dia do contrato, outros 100 mil reis passados três meses, isto é, em Abril e o restante, 150 mil reis, no final de toda a
367
QUADROS, José Rangel de – Aveiro. Apontamentos Históricos. Vol. IV. Aveiro. Compilação fotocopiada por João Gonçalves Gaspar. 1978. p. 20.
368
Sobre a obra das grades para o coro e para os púlpitos, a qual foi contratada por Domingos Lopes e Bento da Rocha, rever “Os púlitos” no capítulo «As introduções barrocas e rococó».
369
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. II. pp. 19-23.
370
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. II. pp. 19 e 21.
371
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. II. p. 21.
obra após o assentamento372.
Desconhecemos como seriam estas grades, pois aquando das obras nos anos setenta do passado século só existiam no templo as do coro que não fizeram parte deste contrato e Rangel de Quadros também não se referiu a elas nas suas descrições, porém deduzimos que não deviam ser muito diferentes das outras anteriormente executadas para os púlpitos e coro, apenas vinte e quatro anos antes, porque o trabalho em pau preto prestava-se muito ao labor de balaústres bombeados e/ou animados por discos conjugados com embrechados metálicos.
O(s) retábulo(s)-mor
O belo retábulo rococó que hoje se encontra no templo catedralício não foi lavrado para esta igreja, mas, sim, para a demolida de Vera Cruz, tendo sido transferido para este local em 1879373. Quando Rangel de Quadros realizou as descrições do que restava do extinto convento dominicano já aquele instrumento religioso estava exposto, mas não deixou de fazer alusão ao antigo retábulo374. Na realidade ele descreve-o sendo de “...archytectura composita, com duas columnas de cada lado, tendo entre ellas dois nichos, um em posição mais elevada, mas de menor altura, e ficando assim quatro columnas com quatro nichos em rigorosa symetria e apropriada elegancia”375. Informa- nos, ainda, que os nichos inferiores abrigam as figuras de São Domingos e de São Francisco, no lado da Epístola e no lado do Evangelho respectivamente e as imagens de São Pedro e de São Tomás de Aquino figuravam nos nichos superiores pela mesma ordem376. Actualmente o retábulo expõe duas imagens de São Domingos e de São Francisco que nos parecem poderem datar-se da centúria de seiscentos, mas não temos qualquer base para alvitrar que sejam as que estariam no retábulo principal do templo
372
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. II. p. 22.
373
GASPAR, João Gonçalves – Catedral de Aveiro. História e arte... p. 23.
374
QUADROS, José Rangel de – Aveiro. Apontamentos históricos... Vol. IV. pp. 17-18.
375
QUADROS, José Rangel de – Aveiro. Apontamentos históricos... Vol. IV. p. 18.
376
QUADROS, José Rangel de – Aveiro. Apontamentos históricos... Vol. IV. p. 18. Julgamos que estas descrições, apesar de o autor não o revelar, devido à enorme semelhança, são baseadas nas informações realizadas por CATARINA, Frei Lucas de Santa – Quarta parte da História de São Domingos. Vol. II...
conventual.
No entanto, sabemos que os anacoretas realizaram dois contratos para a execução do mesmo número de ratábulos-mor. O primeiro foi estabelecido por contrato, em Gaia, com o entalhador e escultor portuense, e morador naquela cidade, Roque Nunes, a 25 de Junho de 1660, sendo a traça do próprio mestre, mas tendo sido, já anteriormente, redigida uma obrigação entre o entalhador e o Prior do Convento, Frei Jorge de Castro, a 28 de Abril do mesmo ano. Os dominicanos aveirenses passaram, então, uma procuração, datada de 1 de Maio de 1660, ao Reverendo P.e Frei Gaspar de Araújo, Pregador Geral e Prior do Mosteiro de Corpus Christi de Gaia, para os representar no acto de lavrar da escritura de contrato377. Neste contrato o entalhador compromete-se a executar o retábulo “...Com hos Coatro Santos de vulto e dois paineis de meo Relevo a saber hum de nosa Sr.a da Mizericordia e outro da vinda do esp.to Santo Com seu Sacrario Conforme a trasa E com seu terço e Capitel e entrosados e tudo de m.to boa madr.a de Castanho Limpa e seca...” 378 e obriga-se também a colocá-lo no local por sua conta até ao dia de São João, 24 de Junho, de 1661, prometendo, para tal, a iniciar o assentamento e a montagem dois meses antes da caducidade do prazo379. Por seu turno, os religiosos pagar-lhe-iam 240 mil reis, dos quais cem mil foram entregues no acto da escritura de contrato, 40 mil reis ser-lhe-iam pagos passados seis meses e os restantes cem mil seriam entregues no fim da obra assente, verificada, analisada e atestada que cumpria os requisitos sem qualquer defeito380.
Do referido contrato apenas ficamos a saber que o retábulo teria de possuir quatro santos, não especificados, mas que julgamos serem os mesmo que Frei Lucas de Santa Catarina descreveu381, dois painéis de meio relevo dedicados à padroeira do mosteiro e outro à Descida do Espírito Santo. Todavia, as demais informações são insuficientes para podermos atribuir uma composição imaginária ao instrumento cénico, mas devido à data e às parcas informações pensamos que ou seria produzido dentro de uma estética maneirista bastante avançada, devido às supracitadas imagens que seriam colocadas entre cada par de colunas e aos painéis em relevo entalhado, e até já, quiçá, com alguns
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BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. I. pp. 340-341.
378
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. I. p. 342.
379
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. I. p. 342.
380
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. I. p. 344.
381
CATARINA, Frei Lucas de Santa – Quarta parte da História de São Domingos. Vol. II… p. 604. As imagens são as acima enunciadas: São Domingos, São Francisco, São Pedro e São Tomás de Aquino.
tímidos prenúncios do primeiro barroco, ou poderia já apresentar alguns elementos barrocos, essencialmente ornamentais, integrados numa estrutura ainda maneirista. O contrato também não faz alusão à existência da tribuna, somente refere o sacrário, mas nesta época, mesmo na retabulária maneirista, aquele elemento já tinha uma presença forte e desenvolta com uma boca bem definida e estamos em crer que este retábulo possuía a tribuna porque José Martins Tinoco, quando contratou o levantamento de um novo retábulo-mor, foi autorizado a aproveitar partes do camarim e o trono do retábulo antigo382. Para além disto, as informações acerca do entalhador são igualmente escassas, pois surge em três documentos em 1652, 1659 e 1660, como testemunha num documento de outorga e noutro de fiança respectivamente383 porque a última data refere-se à presente obra. Julgamos tratar-se de um entalhador que realizou toda a sua formação na plenitude da estética maneirista e que foi desenvolvendo a sua obra de acordo com a sua aprendizagem, mas não excluímos a possibilidade de as colunas “...com seu terço e Capitel E entrochados...”384 demonstrarem já alguma linguagem barroca.
O segundo retábulo foi contratado a 12 de Junho de 1741 com o portuense José Martins Tinoco385, sendo a escritura lavrada na Casa do Capítulo do próprio convento. Neste instrumento público os frades, sendo prior Frei Paulo de Santo António, contrataram a realização de “...uma tribuna e retábulo para a capela-mor do dito Convento de São Domingos desta Vila de Aveiro, conforme a planta que se acha na mão do dito mestre entalhador...”386. Neste documento ficamos também a saber que os religiosos permitiam que o entalhador aproveitasse as “...quatro colunas grandes, frisos e banco da dita coluna, digo (sic), das ditas colunas e do que acha feito do camarim e trono do retábulo antigo...”387. A obra toda em madeira de castanho seria assente até à Quaresma do ano de 1742 à custa do entalhador, mas os frades obrigavam-se a realizar
382
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. III. 390-391. Julgamos que neste contrato a referência ao antigo retábulo seria o realizado por Roque Nunes porque este foi contratado menos de cem anos antes, como tal não acreditamos que no espaço de 81 anos fossem realizados três retábulos.
383
ALVES, Natália Marinho Ferreira – A arte da talha no Porto na época barroca... Vol. II. pp. 408-409.
384
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. I. p. 343.
385
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. III. pp. 388-392.
386
as devidas obras nas paredes da capela-mor, caso fosse necessário, para instalar o respectivo móvel sacro388. Em contrapartida os cenobitas pagariam pela execução deste trabalho 172.800 reis, sendo o pagamento faseado em três partes, mas o contrato não esclarece qual o valor de cada pagamento389. Como não temos vestígios desta obra, nem o documento é suficientemente minucioso na descrição temos alguma dificuldade em o analisar, mas é muito provável que José Martins Tinoco tenha aproveitado os elementos do antigo retábulo e criado uma fusão. Porém, o instrumento devia apresentar um cariz mais preponderante do barroco joanino, não só devido à ornamentação, como também os elementos do velho retábulo devem ter sido inseridos, com certeza de forma harmoniosa, numa estrutura já de estética joanina.
Quanto a este entalhador portuense sabemos que realizou algumas obras na sua cidade natal, com especial referência para os retábulos do transepto da Igreja do Mosteiro de São Bento390, entre outras, obras de cariz estético marcadamente do barroco joanino.
388
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. III. p. 391.
389
BRANDÃO, Domingos Pinho – Talha dourada, ensamblagem e pintura... Vol. III. p. 391.
390
ALVES, Natália Marinho Ferreira – A arte da talha no Porto na época barroca... Vol. I pp. 250, 255, 258, 261 e Vol. II p. 679.