APONTAMENTOS
SOBRE"I
DUCACAO
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DISSERTAÇÃO INAUGURAL Apresentada e defendidaESCOLA MEDICO-GIRURGIGA DO PORTO
Seli a presidência do Ei."1" Sor.
DR. AGOSTINHO ANTONIO DO SOUTO
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ly^is PORTO T Y P O G R A P H I A O C C I D E N T A L 80 — Rua da Fabrica — 60 lSS2 3ij]A E ) y e-^7-7 yC<~í(fL-í, a^c^S &t* M3C-
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ESCOLA MEDÍCO-GIRURGIGA DO PORTO
DirectorCONSELHEIRO, MANOEL MARIA DA COSTA LEITE
Secretario
RICARDO D'ALMEIDA JORGE
C O R P O C A T H E D R A T I C O
LENTES CATHEDRATICOS l.a Cadeira—Anatomia
descri-ptïva e geral João Pereira Dias Lebre. "2.a Cadeira — Physiologia . . Antonio d'Azevedo Maia.
3.a Cadeira — Historia natural
dos medicamentos.
Mate-ria medica Dr. José Carlos Lopes. 4.a Cadeira—Pathologia
exter-na e therapeutica exterexter-na Antonio Joaquim de Moraes Caldas. 5,a Cadeira—Medicina
opera-tória Pedro Augusto Dias. 6.a Cadeira — Partos, doenças
das mulheres de parto e
dos recera-nascidos . . . Dr. Agostinho Antonio do Souto. 7.a Cadeira—Pathologia
inter-na—Therapeutica interna Anton d1 Oliveira Monteiro.
8,a Cadeira—Clinica medica . Manoe'. odrigues da Silva Pinto.
9.* Cadeira—Clinica cirúrgica Eduardc 'nreira Pimenta. 10,a Cadeira—Anatomia
paiho-Iogica Manoel d.. Jesus Antunes Lemos. 11.a Cadeira — Medicina legal,
hygiene privada e publica
e toxicologia geral . . . Dr. José F . Ayres de Gouveia Osório. 12.a Cadeira—Pathologia geral,
semeiologia e historia
me-dica Illidio Ayres Pereira do Valle. Pharmacia Isidoro da Fonseca Moura.
LENTES JUBILADOS „ í Dr. José Pereira Seis. Secção medica J Jo%0 Xavier d'Oliveira Barros.
t José d1 Andrade Gram;icbo.
Secção cirúrgica . J • ' ' 'dl&o ù1 Almeida. i < QOel H. da Costa Leite. Pharmacia ',;..<: cfa Fonseca Moura.
LENTES SUBSTITUTOS Secção medica J ^ n t e Urbino de Freitas.
' \ Miguel Arthur da Costa Santos. Secçiio cirúrgica J Augusto Henrique d'Almeida Brandão.
> 1 Ricardo d'Almeida Jorge. LENTE DEMONSTRADOR
A
MINHAS FILHAS
É d'uso já muito antigo offerecer esta ul-tima prova do nosso trabalho escholar ás pes-soas que nos são mais caras e aquellas a quem consagramos devidos reconhecimentos.
Eu somente o offereço a vós, porque so-mente por vós, depois de longa demasia de prazeres, dissabores e ócios, vim abraçar esta
cruz e remontar aos píncaros oVum Sinay, onde certamente não chegaria se não tivera dedicadíssimos Cyrineus.
Não vol'-o offereço pelo que vale, mas de-dico-vol'-o pelo que significa.
Acceitai-o, pois, como documento o mais serio e o mais valioso da minha profunda affeição e amor paternal.
Agora rogo-vos que nunca apagueis da lembrança os nomes dos que n'esta pugna mais se avantajaram em proteger-me e
coad-e carinhos mcoad-e franqucoad-eou a sua casa coad-e scoad-entou á sua mesa ríuma convivência mais que frater-nal : vosso tio e meu irmão João Baptista Fel-gueiras, que me patrocinou sempre com a me-lhor vontade todas as ve^es que a elle recorri: e finalmente o meu illustre Presidente o eœc.m0
snr. dr. Agostinho Antonio do Souto, que me dispensou a honra de proteger-me no difflcil desenlace dos meus trabalhos.
Faço-vos esta supplica, porque a gratidão deve ser immorredoura.
Vosso pai
A o COMEÇAR
Escrever uma dissertação inaugural não é escrever um livro.—É cumprir uma obri-gação, que nos é imposta por leis regula-mentares, não sei se bem se mal entendidas.
As condições em que nos encontrámos no ultimo anno da nossa carreira são demasiado precárias para poder atirar á publicidade um trabalho digno de ler-se, uma obra digna de monumento.
Escasseiam-nos as horas e foge-nos o tempo em lucubrações mortiflcadoras no es-tudo das pathologias, para o qual principia-mos a encontrar-nos aptos.
E demais como poderá construir-se um bom edifício, sem primeiro lhe ter preparado uns sólidos alicerces?
E ainda em mim ponderou outro motivo: é o desleixo, é por ventura o olvido a que está desgraçadamente devotado este ramo talvez o mais profícuo da hygiene.
Estas verdades são bem do domínio dos nossos sábios professores, a quem sobeja benevolência exuberante para nos perdoa-rem as faltai e desculpaperdoa-rem os erros, que por Ventura nos possam escapar na rápida elaboração d'um trabalho obrigado.
A primeira difficuldade, que nos surge é a escolha do assumpto. Se elle prima pela origi-nalidade o tempo não nos chega —se é usado e já sabido ainda as horas nos uão sobram.
Confesso ingenuamente que não era este o ponto por mim primeiramente escolhido para apresentar em dissertação. —Era outro talvez de mais subido quilate scientifíco; mas poderia eu superar em forças as diffículdades, que se antolhavam? Não sei. O que affírmo é que o tempo era pouco.
Resolvi-me, pois, a escrever uns escassos apontamentos sobre educação physica; não porque se aveludassem as asperezas, mas porque era assumpto mais palpável e aonde o pensamento podia vaguear mais livre.
XI
Limpam-se as cidades de immundicies por dispendiosas canalisações; paga-se ge-nerosamente a engenheiros e architectos para a edificação de sólidos e confortáveis edifí-cios; obrigam-se a quarentenas as embarca-ções, que abicam aos nossos portos, emfim trabalha-se para tudo que nos possa econo-misar a moléstias epidemicas; mas não des-infectam a sociedade da lepra da moda e do luxo, que é a peior e a maior das epidemias.
Deixam-nos apodrecer n'um berço d'ouro e rosas, conspurcados pelos beijos lúbricos da mercenária de quem sugámos a primeira alimentação; deixam-nos crescer sob o peso d'um luxo, que nos verga; e fenecemos ra-chyticos, de cérebro enervado por utopias doutrinarias, depois de termos legado a nos-sos filhos as mais tristes condições d'uma vida curta.
Isío é repugnante e deve acudir-se-lhe. Poderão affirmar-nos, que já foi mais des-curado este ramo importantíssimo da hygiene, a educação physica, pelo menos pelo que diz
-respeito ao sexo masculino.
Não lh'o negaremos; mas infelizmente os-tentamos-lhes a verdade incontestável, que
muito ha ainda para desejar e muito mais ainda, senão tudo pelo que pertence ao sexo feminino.
A mulher, principalmente a que na socie-dade logra as honras de senhora, está pela maior parte condemnada a uma lamentável vida irregular, a uma desastrosa finalidade, por uma educação physica mal dirigida, in-sensata mesmo.
Logo aos primeiros momentos da vida extra-uterina cingem-lhe o craneo, apertam-lhe a cinta, esmagam-apertam-lhe o abdomen e li-vram-na do ar com mêdos que se constipe a menina.
Na infância continuam os mimos e os ca-rinhos; mas prohibem-lhes os jogos infantis, os brinquedos a que instinctivamente as im-pelle a loucura de creanças; proscrevem-lhes o vinho, que fas as meninas feias e outras tantas frivolidades, que as acanha e definha. Assim chegam a adolescência pallidas, franzinas, transparentes. E então principiam a leitura do romance e a cabeça começa a encher-se dos personagens phantasticos que leram.
XÎIÎ
comprehenderem, acham-lhes um travo par-ticular, um tic que lhes agrada e muito.
Tornam-se nervosas, eléctricas, excitá-veis. A espaços sentem extasis mórbidos, somnolencias languidas, desejos que não sa-bem explicar.
E de noite nos bailes, nas soirées, nas ex-posições aristocratas, admira-se-lhes a formo-sura intelligente, a cintura de vespa, os gran-des olhos azues e o seio nu d'uma curvatura musical, elástica, redonda.
Resultado de todas estas cousas: na alma mal dirigida tomam corpo essas torpes crea-ções do romantismo enervante, estúpido: e no corpo mal educado apparecem as chloro-ses, os males de fígado, defeitos nos órgãos genitaes, deformações ou acanhamentos de bacia, etc., que rematam quasi sempre por verdadeiros desgostos e soffrimentos, que só a morte extingue.
E se a isto se não tem posto termo, é por-que succède o por-que diz Spencer: «em todo o decorrer da vida o que mais importa não é ser, mas parecer.»
Do que deixo dito pôde haver alguém, que me incrimine de exagerado.
Sê-Po-hei? Decida-o quem o entender. O que eu reconheço é a necessidade abso-luta d'uma boa educação physica; e foi isto que mais me desafiou a vontade de rabiscar alguma cousa a tal respeito.
Não me desvaneceu a vaidade de me in-culcar um mestre ou sequer propagandista. Todos sabem, que as ideias, que exponho, as bebi de boa fonte, e eu não ignoro que este opúsculo mal merecerá as honras de ser en-tregue ao carcoma roaz d'uma estante.
Obrigado como já disse a apresentar um trabalho, á falta de tempo e de outros recur-sos, cedi ao impulso d'um intimo desejo —a boa educação physica.
O trabalho não podia por forma alguma tornar-se completo; mas vou tentar dizer, muito em geral, duas palavras sobre quatro pontos que julguei cssenciaes: a alimenta-ção, o vestuário, o exercido e a applicação mental das creanças.
Aos meus illustrados professores., aos quaes me liga já uma gratidão infinda, sup-plico tolerância e benevolência.
Principiando pelos alimentos, deveríamos talvez especialisar. Pedirá chymica, por exem-plo, o que ella tem estudado com respeito ás propriedades constituintes do leite e concluir por fim, que elle é o typo do alimento mais perfeito, seguindo depois gradualmente pela escala da alimentação.
Mas este ponto, estudado e esclarecido pela voz authorisada de tantos apóstolos da sciencia, levar-nos-hia muito longe e muda-ria o caracter genérico e practico que tentamos dar a este humilde trabalho.
Faremos em primeiro logar algumas con-siderações sobre a amamentação n.aterna e a das amas.
É realmente para lamentar, é tristemente deplorável, os estragos que a moda, essa al-goz do mundo civilisado, tem produzido nas sociedades que se dizem cultas.
A mulher aristocrata, a aldeã que se alou com azas d'ouro do valle florido da sua mon-tanha para o centro ruidoso das cidades, se um dia se deixou languescer nos braços do seu poeta, do seu amante, do seu esposo e chega a ser mãe, esquece todos os deveres da maternidade, morre-lhe o instincto, que anima a fera, o selvagem dos desertos ao ou-vir o primeiro grito, o primeiro vagido do filho que nasceu.
Quando o filho não é desapiedadamente arremessado ao esgoto d'uma rua, subtra-hem-se, na generalidade, ao imperioso dever de os amamentar. E cl'aqui surgem dous
ma-les : um para ellas, outro para elma-les.
A mulher consideramol-a mãe desde o acto da concepção. Desde esse momento, ór-gãos que até ahi tinham relativamente uma physiologia calada, obscura, entram, por as-sim dizer, na sua vida propria. Havia, é certo, o trabalho periódico da ovulação, mas eram breves os dias; dentro em pouco tudo ficava adormecido, indolente até novo despertar da natureza.
Agora o labor é outro, mais difficil, mais intimo. Existe alli um sêr que vive da mesma vida até uma certa occasião do seu desen-volvimento.
Um dia, que a natureza marcou, nasce. E por esse simples facto de surgir do limbo
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das entranhas da mãe para a luz esplendo-rosa do mundo, ficaria o organismo materno emancipado de mais cuidados?
Não. Attesta-o a tumefacção dos peitos, a secreção láctea.
É, pois, esta secreção do leite, por assim dizer, o complemento das funcções naturaes da mulher, que teve um filho.
Suspenso este trabalho, não haverá um certo desequilíbrio physiologico?
Responda por mim o snr. dr. Filippe Si-mões:
«Conseguintemente, diz elle, a conservação do leite, emquanto as glândulas o segregam, ou, suspendida a secreção, a das substancias que a haveriam de formar, altera até certo ponto as condições physiologicas da mulher, que se exime de amamentar seu filho.»
Muitos medicos attribuiram a esta causa as febres sobrevindas ao parto, a hydropesia, tisica, rheumatismo, cancro e outras. E se aqui havia exagero, como o provou Jacque-mier, elle mesmo é o primeiro a affirmar que a amamentação é para a mulher de van-tagem.
Ha menos risco para as hemorrhagias ou frouxos sanguíneos, que por vezes appare-cem depois da época de terminação dos phe-nomenos sequentes ao parto. Desapparecem congestões sanguíneas, nevralgias dos
ova-rios, ou do utero, se por ventura as ha. Até mesmo se ha um estado dispeptico, chloro-anemico, ou affecções nervosas podem con-sideravelmente melhorar durante a gravidez e a amamentação. «Augmenta-se-lhe o appe-tite e as forças digestivas, engordam, reju-venescem, e, terminada a amamentação, con-servam ainda por algum tempo as vantagens adquiridas.»
Assim affirma o dr. Filippe Simões, a que já me referi.
Por tanto concluirei, que as mães devem amamentar seus filhos, cumprindo assim um dos sagrados deveres da maternidade sem prejuiso orgânico: antes pelo contrario exi-mindo-se a males que podem advir, ou ali-viando-se dos acasos contrahidos em antes da concepção.
É certo porém que algumas ha, as quaes teem forçosamente de se fazerem substituir por amas. E para isto duas causas concor-rem : ou locaes ou geraes.
As locaes são os defeitos, as neoplasias, que possam alterar as funcções das glându-las mammarias; como são a falta absoluta de bicos de peitos, a sua pequenez ou a sua molleza: a delicadeza do tecido, que pôde ser tal que se inflammem ou se excoriem com fa-cilidade pela sucção : inflammações, ulceras, scirrhos ou a agalaxia. etc.
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As geraes podem ser: as moléstias de peito, a debilidade extrema, a sobre-excita-bilidade nervosa, emflm todas as que possam comprometter a vida da mãe ou do filho.
N'estes casos a ama é uma necessidade e •da escolha e vigilância resultará o melhor
beneficio para a creança.
Dissemos que não só as mães, mas ainda os filhos soffriam com a abstenção da ama-mentação materna.
Vamos vêr.
Na vida intra-uterina aonde é que o feto vai buscar os elementos necessários ao seu desenvolvimento? Qual é o sangue, que o nu-tre e o vivifica? E' o da mãe, ninguém o ignora.
Nos primeiros momentos da vida extra-uterina ainda o ultimo sangue recebido po-derá prover ás necessidades orgânicas, mas dentro em pouco é preciso receita para equi-valer á despeza.
Deve ser a mãe ainda a dispenseira d'esté alimento —o leite— porque não é elle egual-mente rico em todas as mulheres e cada um se adequará ao ser a que é destinado.
Diz o snr. dr. Filippe Simões :
«O filho depois de sair do utero acha no leite materno o alimento, que lhe é mais pró-prio, não somente pela graduação da sua for-ça nutritiva, mas também por ser preparado
na organisação, que mais se assemelha á sua. Sujeitar-se-ha, pois, a soffrer algum prejuiso,. mammando n'uma mulher de sangue, tem-peramento e constituição différentes um leite, que muitas vezes não terá a composição mais conforme á sua natureza ou mais con-veniente á sua edade.»
D'esté modo parece-me estar provado o que disse: —que a mãe, que se nega a ama-mentar o seu filho, prejudica não só a si, mas ainda o próprio filho. E para este maior será ainda o perigo, se o isolarem da mãe para a mercenária do campo.
D'ordinario a mulher a quem pagam para amamentar uma creança, fora da vigilância da mãe ou de pessoa que lhe seja cara, com-mette abusos e abusos imperdoáveis, porque d'elles resulta o maior numero de vezes a morte. Esta morte provém, segundo Guérin o demonstrou perante a Academia de Paris em 1867, de causas que elle referiu a duas clas-ses : alimentação prematura e inanição por falta de alimentos.
Passada a epocha da amamentação, come-ça a creancome-ça a sentir a necessidade de novos alimentos.
Não especialisaremos, como promettemos no começo d'esté trabalho; tocaremos so-mente n'aquelles pontos que julgamos de
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Ainda a moda, que tantos peccados phy-sicos nos faz commetter, aqui entra como comparsa.
E se não querem que seja a moda será uma outra cousa a que não sei o nome, que nos obriga a alimentar d'uns acepipes exqui-sitos, baptisados em França com uma deno-minação intraduzivel, talvez para melhor nos despertar o appetite.
Se se 1er o menu d'um banquete a um dos nossos homens do campo, elle certamente fi-cará boquiaberto, assombrado de tal profu-são de iguarias, confuzão de vocábulos, e será levado a perguntar-nos: = mas d'esse modo como é que são tão magras, tão páli-das as pessoas da cidade?=
E quando digo homem do campo não me refiro ao pobre, que se limita ao triste e clás-sico caldo de couves e broa, fallo do lavra-dor abastado, que come e bebe vigorosamen-te, do mesmo modo que em tempos remotos succedia a toda a gente.
Hoje os hábitos são outros e as creanças partilham por egual d'esta mudança.
Em tempos passados as creanças comiam fartamente até á repleção e isto ainda talvez se observe no interior de nossas provín-cias.
Mas nas classes superiores, que são aquel-las a quem mais repugnam os alimentos
gros-seiros, a creança é, por sistema, insuficien-temente nutrida.
Spencer diz: «é banalidade dizer-se que tão mau é comer muito como pouco. Dos dous excessos o ultimo é sem duvida o peior.»
E ainda uma outra authoridade affirma que «os effeitos da repleção accidental são menos prejudiciaes e mais cedo reparados, que os da inanição.»
Condemnamos por tanto as restricções, mal fundadas, na alimentação das creanças.
Agora objectam-nos talvez, que d'esté modo permittimos ás creanças comer até á indigestão, fartarem-se de golodices. Pois tal-vez lhe possamos provar, que muitas tal-vezes as indigestões e o mau estar das creanças provem exactamente do injustificado systema restrictive
O que é o appetite em todos os animaes? Responde Spencer: «um guia seguro na creancinha de leite, um guia seguro no doente, um guia seguro nas diversas raças, um guia seguro nos adultos, que passam vida regu-lar: e portanto pôde inferir-se com certeza, que é um guia seguro nas creanças.»
Pois por ventura o appetite nas creanças será uma excepção?
Todos sabem que as creanças são doudas pelo assucar ou pelo doce e quasi todos
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mam isto como uma sensualidade exagerada que deve portanto ser reprimida. Ignorância. 0 physiologists sabe, que o assucar é um dos maiores contribuintes no desenvolvimen-to orgânico.
Tanto o assucar como as matérias gordas
contribuem para a producção de calor ani-mal pela oxigenação que soffrem no orga-nismo.
Muitos corpos se transformam em assu-car primeiramente para depois fornecerem calor.
E não só pela digestão se produzem estas transformações, ainda o eminente
physiolo-gista Cl. Bernard evidenciou, que o fígado é o laboratório onde se preparam muitas d'es-tas combinações e decomposições.
Ha, pois, na creança um iman physiolo-gico pelas substancias assucaradas, produ-ctoras de calórico e ainda em geral se lhes nota uma certa repugnância pelas matérias gordas de difncil assimilação para um orga-nismo ainda débil.
Outra cousa que constitue uma delicia para as creanças é a fructa de toda a espécie.
É ainda a natureza que reage, clamando pelo que necessita.
Sabe-se que os ácidos vegetaes, bem como os mineraes são excellentes tónicos, e os fructos maduros contribuem essencialmente
para beneficiar o organismo sob este ponto de vista.
Andrew Combe diz que «os fructos madu-ros são dados com muita mais abundância no continente, que entre nós e muitas vezes são empregados com toda a utilidade para estimular os intestinos, que funccionam mal.»
D'aqui se deduz evidentemente, que a na-tureza deve ser attendida nas suas reclama-ções.
E qual é o resultado da escravisação do instincto?
E' que a criança reprimida, se um dia se encontra livre das pesquizas paternas n'um sitio abundante de fructas, come á farta do que encontra, importando-lhe pouco que es-tejam bem ou mal sasonadas.
E' que ella não só se vê desopprimida, mas ainda prevê a carestia futura.
Em seguida apparecem as indigestões e só por estas se legisla que as creanças se «não guiem pelos seus appetites.»
Se as necessidades instinctivas das crean-ças fossem gradualmente satisfeitas, com a maior certeza os abusos terminariam.
Desse-lhes quotidianamente os alimentos saborosos, que ellas anceiam e jamais lhes verão a saúde compromettida.
Pois com que direito se reprehende e pro-hibe as creanças de comer isto ou aquillo
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ou mesmo corner mais quando ellas o exi-gem?
Ninguém pôde ser arbitro nas necessida-des do corpo. A necessidade nutritiva depen-de depen-de causas diversas: «varia com a tempe-ratura, com o estado hygrometrico do ar, com a electricidade da atmosphera; varia ainda com a medida de exercício, com a na-tureza e quantidade dos alimentos absorvi-dos na ultima refeição e com a rapidez da di-gestão dos mesmos.»
Pelo que diz respeito á qualidade dos ali-mentos ainda o ascetismo vinga.
Nas classes menos abastadas terá uma explicação a escolha d'alimentos d'ordem in-ferior; mas nas classes argentarias este de-feito é indesculpável.
A creança que cresce, que tem uma ener-gia vital em extremo activa, necessita d'uma alimentação abundante, substancial, variada. Em conclusão, diremos com Spencer: «a alimentação das creanças deve ser altamente nutritiva ; deve ser variada em cada refeição e na mesma refeição, sendo abundante.»
Transgredir as leis da natureza physica, como lhe chama Spencer, é um crime.
devem ser reprimidas, porque em vez de «nos guiarem nos perdem.»
«E' um erro grave, diz Spencer, não é por-que se obedece ás sensações, é porpor-que se lhe desobedece, que se expõe o corpo a todos os males. Não é comer quando ha vontade, mas comer quando a não ha, que é mau. Não é beber, quando se tem sede, mas continuar a beber quando se não tem que constitue um vicio.»
Entre as sensações, que nos guiam, exis-tem as do calor e as do frio —e aqui cabe um papel importantíssimo ao vestuário.
Todo o vestuário, que não possua as qua-lidades indispensáveis para nos resguardar do frio e equilibrar o calor, deve ser posto de parte.
Mas peior ainda é que no vestuário, como na alimentação, como em tudo a moda se vem intrometter caprichosa, déspota, des-truidora.
Depois a idea de endurecer o corpo é de todo fallaz.
Não apoiamos a theoria do endurecimento e para nos defendermos relataremos o que diz Combe :
«A sua presença delicada (das creanças) fornece uma ampla indicação do mal pratica-do, e as doenças frequentes deveriam servir de prevenção aos pães irreflectidos. O
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cinio sobre que pousa esta theoria do endu-recimento é extremamente superficial. Gente rica que vê as creanças dos pobres brincar semi-nús e que repara na presença robusta da gente do campo, tira a conclusão, que a saúde é o ,fructo do vestuário leve e resolveu trazer os seus próprios filhos levemente ves-tidos! Esqueceu-se, que este rapasio, que salta pelas praças das povoações, vive, a muitos respeitos, em condições favoráveis. Que a sua vida se passa em brinquedos con-tínuos; que respiram ar puro todo o dia, e que o seu systema não é perturbado pelo tra-balho cerebral. Apesar das apparencias não é o vestido leve que os torna robustos, ro-bustos já o eram sem os vestidos leves. Acre-ditamos que a nossa conclusão é verdadeira e que a perda de calor animal, á qual elles estão submettidos é um prejuiso.
«Porque quando, sendo a constituição bem robusta para o supportar, as creanças se en-durecem expostas ao frio, isso não tem logar senão á custa do seu crescimento. Esta ver-dade é tão evidente no animal, como no ho-mem. Os poneys das ilhas Shetland suppor-tant uma temperatura mais dura, que os ca-vallos do meio dia da Inglaterra; mas são anãos. Os carneiros das montanhas da Escos-sia são enfesados comparativamente com os carneiros inglezes. Nas regiões árcticas e
an-tarcticas a raça humana flea abaixo da esta-tura mediana. Os Laponios e os Esquimós são muito pequenos; e os indígenas da Ter-ra do Fogo, que andam nús n'um clima frio são, diz Darvin, tão feios e enfezados «que mal podemos acreditar que sejam nossos se-melhantes.»
Tudo o que possa contribuir para a sub-tracção do calor animal, é com toda a certe-za prejudicial ao desenvolvimento orgânico.
Já dissemos, fallando da alimentação, que niuitas matérias, que poderiam favoreceP-a, são oxigenadas, para por este modo compen-sarem o arrefecimento, que por irradiação o corpo soffre de continuo.
E' claro portanto, que se o arrefecimento fôr considerável, deve ser proporcional a in-gestão de taes substancias.
Mas os órgãos digestivos não estão isem-ptos de cansaço, e mesmo, tendo elles de preparar materiaes próprios para suster a temperatura do corpo, pouco poderão forne-cer para a formação do sistema.
Logo infere-se d'aqui, que o corpo ou ha de diminuir, ou os tecidos ficarão mal forma-dos ou ainda ambas estas cousas apparece-rão simultaneamente.
Portanto os vestidos não exercem um pa-pel secundário a prol da economia.
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caloríficas poupam o apparelho digestivo a um trabalho, que elle poderá aproveitar na elaboração d'outras matérias nutritivas.
Isto é mesmo confirmado pela experiên-cia. Na encyclopedia de agricultura de Mor-ton lê-se : «que os animaes de engorda, ex-postos ao frio, pouco progridem a não ser que se augmente muito á sua sustentação.»
Ora na creança, que precisa crescer e des-envolvesse, este mal tomará maiores propor-ções.
M. Quetelet provou «que na Bélgica mor-riam duas creanças em janeiro para uma em julho.»
Sabe-se que na Russia é immensa a dizi-mação das creanças.
D'onde provem este mal terrível? A resposta é obvia.
Lehmann diz: «Se a quantidade d'acido carbónico exhalado pelas creanças, fôr calcu-lada segundo o peso do seu corpo, resulta que ellas produzem proporcionalmente duas vezes mais acido carbónico, que os adul-tos.»
E esta quantidade d'acido carbónico é pro-porcional ao calor produzido : logo uma crean-ça, mesmo em boas condições hygienicas, gasta o duplo dos materiaes geradores do calor.
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Maior perda calorífica e por tanto os males, que já apontamos.
Se o frio tempera o corpo, como a agua tempera o ferro; se as creanças enrigecem expostas a temperaturas baixas por mal ves-tidas, porque razão os pães se agasalham? porque não andam também de pernas nuas, braços nús e pescoço?
Pois elles que foram endurecidos, educa-dos a affrontar os gelos e os ventos, não es-tarão em melhores condições, que as crean-ças, de exhibir a perna felpuda e núa? Era até um principio económico.
Não: não o querem, porque lhes desa-grada, porque lhes faz mal.
E não se lembram, que tudo o que a creança gasta a maior para sustentar a tem-peratura, é roubado á sua nutrição.
Não lhes occorre, que se as mucosas na-saes, pharingeas ou laringeas se não irritam pelo costume, tam facilmente ao contacto do ar frio, se mesmo não apparecem outras mo-léstias, a que este pôde dar logar, a falta de nutrição hade cauzar prejuizos: desenvolvi-mento menor, estructura imperfeita.
Combe diz : «La regie est donc de ne pas s'habiller dans toutes les circonstances d'une manière invariable, mais de mettre des vê-tements qui soient suffisants comme nature d'étoffe et comme épaisseur, pour proteger le
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corps contre toute sensation éventuelle de froid, si légère quelle soit.»
Nós não louvamos os mimos exagerados, não queremos as creanças abafadas de modo a tornar-lhe demasiado susceptível a sensi-bilidade physica; mas censurámos aspera-mente as mães, que mais obedecem ás modas de Paris, que ás commodidades de seus fi-lhos, adornando-os como a um boneco.
Concluiremos, por tanto, que o vestuário das creanças não deve ser tal que lhe pro-duza um calor excessivo, mas que deve pos-suir as condições necessárias para obstar a qualquer sensação de frio : que deve ser feito de matérias pouco conductoras do calor; que deve ter consistência bastante para resis-tir aos attrictos, que lhes fazem soffrer quan-do brincam e que a côr seja tal, que pareça não sujar-se tam facilmente.
Outro ponto importantíssimo de educa-ção phisica é por sem duvida o exercício. D'élTe"'d"èpende a saúde e o robustecimento do corpo.
Todos sabem que um doente ao restabe-lecer-se, quando o estômago por muito tempo adormecido começa de sentir algum vigor, necessita d'alimentos bem digeriveis, aliás a
sua força, que ainda é pouca, não poderá vencer a difficuldade da digestão e o mal reapparecerá.
O mesmo que succède aos órgãos do ap-parelho digestivo,, egualmente acontece aos músculos do apparelho locomotor, quando em indolência.
Reid demonstrou por experiências a ne-cessidade do exercício muscular: «tomou quatro rãs e cortou-lhe os nervos espinhaes que se destribuem nos membros posteriores. Por meio de descargas eléctricas fracas exer-citou durante dous mezes em cada rã os músculos de um dos membros posteriores, deixando os do outro membro em repouso. Passado este tempo observou, que os mús-culos exercitados conservavam o seu volume ordinário, vigor e contractilidade. Pelo con-trario aquelles que deixara em repouso esta-vam reduzidos a metade do seu volume, con-servavam ainda a contractilidade, mas tam fraca, que se continuasse a experiência de certo a perderiam.»
Isto explica-se se nos lembrarmos do que ensina a physiologia.
O. musculo quando se contrahe absorve oxigeneo e exhala acido carbónico e calor.
O portador d'esté oxigeneo, bem como dos outros elementos necessários â vida do do musculo é o sangue.
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Este hade affluir em tanta mais quanti-dade, quanto maior fôr o exercido do mus-culo e d'esté modo, tornando-se mais activa a respiração e a nutrição, o musculo forçosa-mente se hade tornar mais volumoso e por tanto mais duro e mais forte.
E não são particularmente para os mús-culos estas vantagens; corre parelhas com elles o estado geral.
É augmentado o appetite, a digestão tor-na-se mais fácil, a circulação é mais activa, e por conseguinte a respiração, a tempera-tura, as secreções, a transpiração, etc.
Vê-se, portanto, que é incontestável, co-mo já disseco-mos, ser o exercício um ponto importantíssimo de educação physica.
E não é somente beneficio para as crean-ças, que de per si se podem exercitar; ainda as de tenra idade aproveitam com passeios ao collo das amas ou mães, pelo ar puro que respiram e mesmo pelo movimento suave, que lhes é comrnunicado.
Hufeland diz: as creanças e as plantas assemelham-se no modo porque se desen-volvem. Dèem-lhes alimentos em abundân-cia, calor, etc., etc.; mas se as subtraírem ao ar e á luz, tornar-se-hão pallidas, mur-charão, deixarão de crescer e por fim morre-rão de fraqueza. Para conservar a vida e a saúde o respirar ar puro e fresco é tanto
ou ainda mais necessário, que beber e co-mer.
«Sei de creanças que toda a vida ficaram fracas e enfezadas, porque durante a infân-cia se educaram como plantas de estufa. Pelo contrario o exercício frequente ao ar livre, um banho de ar cada dia é o meio único de dar ao recem-nascido, boa côr, força e ener-gia para toda a vida. Este modo de proceder tem outras vantagens importantes e vem a ser enrijar o corpo, para resistir ás causas pathologicas, tornando-o capaz de supportar as alternativas de calor e frio e outras intem-péries. Se a creança poder ir tomar ar para um sitio coberto de verdura e assombrado d'arvores, em certa distancia do povoado ain-da melhor.»
É necessário, todavia, que as mães ha-jam o maior cuidado em não antecipar o an-dar das creanças.
Muitas mães desde que as creanças co-meçam a mover-se, agathanhando, como vul-garmente se diz, ministram-lhes andadeiras, cestos, carros; e isto é um deplorável cos-tume. D'aqui podem provir deformidades : podem soffrer a columna vertebral, as per-nas etc.
E pouco se lhes dê, que as creanças caiam, com quanto que lhes escolham logares pla-nos e livres de corpos duros, que as possam
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magoar ou ferir. A queda não lhes produz mal considerável e previne-as para maiores cuidados na equilibração.
Ainda por algures e quasi em geral nas classes médias e abastadas ha o péssimo costume de prohibir as creanças de brincar livremente desde que ellas andam desemba-raçadas.
Ao contrario, não só lh'o não devem pro-hibir, como devem antes incital-as a folgar, a mover-se, o que é de subida importância para a desenvoltura do corpo e do espirito.
Pelo que respeita sob este ponto de vista á educação dada ás creanças nos collegios, pôde dizer-se que pouco ou nada haverá a aconselhar, pelo menos nos collegios de in-fância masculina.
Todos elles ou quasi todos possuem boas sallas, excellentes jardins, aonde as conve-nientes horas de recreio são utilmente apro-veitadas em jogos diversos, n'uma folgança endiabrada.
E esta practica, attendendo á importância absoluta do exercício, achamol-a excellente.
Mas qual será o motivo porque não ha-de succéder o mesmo com relação a collegios de meninas ?
Por ventura a organisação d'estas diver-girá tão essencialmente da dos rapazes, que o exercício lhes seja prejudicial?
Não: exactamente a mesma necessidade; a necessidade instinctiva que impelle os ra-pazes a saltar e a brincar, domina por igual nas raparigas.
Mas a moda, a avassaladora do bom senso, o romantismo podre, anachronico, requen-tado, umas ideias velhas cheias das teas d'ara-nhas do parecer bem, insurgem-se contra o robusto desenvolvimento physico de uma mulher.
A saúde, que se estampa nas rosas car-minadas da face, nas larguras appetecidas dos peitos, no arqueado elástico das ancas, não fica bem a uma senhora. Pertence á mu-lher do campo. E' feio, é grosseiro.
O pallido desmaio do rosto, a peregrina estreiteza do thorax, a atrophica redondeza dos peitos, os apertos immensuraveis da cin-tura, tudo isto e mais as consequências, com um pouco de estudo na pose, são o attractivo irresistível do dandy das sallas, do poeta lôrpa. Sublime !
E' necessário, portanto, educar assim a menina. Urge que o sol a não queime, é mis-ter que os ventos a não moflnem.
Fraca e tímida a ponto de a assustar a presença d'um inoffensivo ratinho, entorpe-cem-lhe o espirito com indigestões de fran-cez e inglez, ensinam-lhes a harpejar umas walsas ao piano e outras tantas ninharias,
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deixando-as aptas para tudo menos para se-rem mães e até boas mães de familia.
E não são aptas para mães, porque quasi sempre pela fraca educação physica que ti-veram, se chegam a conceber, os partos ou são impossíveis ou d'uma difficuldade grave. E não são boas mães de familia porque transmittem naturalmente a educação que receberam aos seus filhos, concorrendo para os enfezar tanto physica como moralmente. Pois a honrosa missão de mãe não con-siste somente no imperioso dever de lhes ministrar o leite de seus peitos; é urgente que lhes ajudem, ou, pelo menos, não entor-peçam a natureza para um bom desenvolvi-mento orgânico e lhes esclareçam o espirito para a lucidez da verdade.
Precisam da vida do corpo e da vida da alma : armas para combaterem e luz para se dirigirem.
Mas... não sei ! Parece que a maior parte das preceptoras de meninas estão possuidas d'esté erro : — que ao homem repugna a mu-lher robusta.
Sim é um erro. O homem não idolatrará por certo a mulher de formas muito pareci-das com as suas; mas não é, sem duvida, o franzinismo artificial, que elle appetece.
Em geral á mulher, por mais forte que pareça, nunca a natureza concede o que
pro-digalisa ao homem em forças. Ha sempre uma certa differença, que attrahe pela pro-tecção que parece pedir; mas quando esta differença se tornou artificialmente demasia-da, em vez da attracção ha repulsão.
Não vemos, portanto, inconveniente al-gum em que ás raparigas seja permittido brincar e saltar do mesmo modo que aos ra-pazes. O lucro é o mesmo.
Por mais traquinas, por mais turbulentos que os rapazes possam ser nos seus folgue-dos, jamais se viu que elles na rua, nas sa-las, nos logares aonde lhes seja recommen-dada a seriedade, se desmandem. E desde que chegam a ter um certo amor próprio, desde que passam os meiados da puerícia, redobra esta seriedade.
O motivo é obvio, é porque principiou n'elles o sentimento da dignidade.
Pois a mulher que é essencialmente mo-desta; que sabe mais que o homem respeitar as apparencias, por ventura tornar-se-ha rude e grosseira pela liberdade bem regulada que fruiu em creança?
Não o pensamos. N'ellas ha-de vingar o instincto que, com toda a certeza, tem mais força que as disciplinas em todo o rigor.
Ainda assim, reconhecida a necessidade do exercício, algumas vezes são substituídos os movimentos espontâneos, o folgar
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ctivo, a gymnastica physiologica á gymnastica propriamente dita.
Nós não reprovamos absolutamente a gym-nastica, mas não a admittimos, como meio único de desenvolvimento physico.
Não lhe desconhecemos as vantagens co-mo meio adjuvante, mas tentareco-mos provar que ella de per si só é insufficiente.
Para isto seja-nos licito recorrer a autho-ridade competente e respeitável visto a nossa ser de todo nulla.
Spencer diz: «Os inconvenientes são ao mesmo tempo positivos e negativos. Em pri-meiro logar, estes movimentos regulados, necessariamente menos diversos que aquel-les que resultam dos exercicios livres, não asseguram uma repartição igual d'actividade entre todas as partes do corpo; d'onde re-sulta que, sendo o exercício applicado sobre uma parte somente do systema muscular, a fadiga apparece mais cedo do que apparece-ria se não fora assim ; o que, por parenthèse, conduz, persistindo-se n'estes exercicios a um desenvolvimento desproporcional das par-tes do corpo entre si.
«Depois não só a somma do exercício feito é desigualmente distribuída, mas este exer-cício, não sendo acompanhado de prazer, é menos salutar; dado mesmo o caso que não enfadassem as creanças a titulo de lições,
estes movimentos monótonos tornam-se abor-recidos á falta do divertimento que estimula.
«Servem-se, é verdade, da emolação como estimulante, mas não é um estimulante con-tinuo, como o do prazer, que sentem nos jogos variados.
«Ainda resta a objecção mais forte. Além da gymnastica ser inferior ao jogo livre como quantidade de exercício muscular, é ainda mais inferior sob o ponto de vista da quali-dade d'esté exercício.
«Esta ausência comparativa do prazer, que faz com que se abandonem depressa os exer-cícios artiflciaes, faz também que elles não produzam senão effeitos medíocres sobre o systema.
«A ideia vulgar de que o que se requer é exercício para o corpo, porque, ou elle seja agradável ou não, a somma é a mesma, en-cerra um erro grave. Uma excitação cere-bral, acompanhada de prazer, tem sobre o corpo uma influencia altamente fortificante.
«Vede o effeito produzido n'um doente por uma boa noticia, ou pela visita d'um velho amigo !
«Lembrae-vos do bem que faz á saúde a mudança de logares !
«A verdade é que a felicidade é o melhor dos tónicos. Accelerando os movimentos do pulso, facilita o cumprimento de todas as
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funcções ; e tende assim a augmentar a saú-de, quando ella se possue, a restabelecel-a, quando ella se perdeu.
«D'ahi a superioridade intrínseca do jogo sobre a gymnastica. 0 extremo interesse que as creanças tomam no primeiro, a alegria desordenada com a qual se entregam aos seus loucos brinquedos, são tão importantes em si mesmo ao desenvolvimento do corpo como o exercido que os acompanha. E á falta d'estes estimulantes mentaes a gymnas-tica é radicalmente defeituosa.»
Portanto concluiremos : que o exercicio é sobre modo util para o bom desenvolvimento das creanças; que mais vale a gymnastica do que condemnar o corpo á quietação; mas que ella não pôde substituir os jogos livres e não deve por isso ser-lhe preferida.
Poderá ser utilisadá quando os outros meios não sejam fruiveis e ser applicada co-mo lição adjuvante e vantajosa nos casos contrários; mas as vantagens subirão de ponto com os exercícios espontâneos, sem-pre de subido valor, tanto para as creanças do sexo masculino, como para as do sexo feminino.
Resta-nos agora a ultima parte d'esté nosso trabalho, por ventura a mais difflcil e a mais importante. E' a applicação mental.
E' certo que em épocas remotas os ho-mens eram sobejamente mais bem consti-tuídos, mais valorosos, mais duradouros que a geração actual.
Attesta-o a tradicção, são testemunhos vivos as armas, as armaduras, de que estão de posse os muzeus. Objectos que, se hoje um de nós envergasse, poderia suppôr-se se-pultado em vida,
E isto é tanto mais para extranhar, quanto as sciencias eram mais atrazadas, quanto a hygiene era menos enriquecida.
Mas se pensarmos bem, se attentarmos melhor nas circunstancias, talvez possamos dar uma explicação deste facto.
O homem d'outras eras vivia, por assim dizer, exclusivamente da sua actividade ma-terial.
Comia alimentos grosseiros, é verdade, mas comia abundante, vigorosamente, exer-citando-se dia a dia em trabalhos por vezes violentos, mas sem grandes preocupações de espirito.
A civilisação era outra.
Modernamente a influencia scientiflca so-bre a civilisação manifesta-se de dous mo-dos—intellectualmente e economicamente.
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Seja-nos licito dizer duas palavras sobre este ponto, para melhor attingirmos o nosso fim.
Intelectualmente a sciencia derrubou a au-thoridade da tradição; recusou admittir sem provas as decisões de qualquer homem por mais eminente, por mais honras que elle fruisse.
Despresou, nas discussões sobre questões physicas, as provas tiradas do sobre-natural e do milagre. Renunciou os signaes divinos, como queriam outr'ora os Juizes e negou que a prova d'uma verdade possa ser dada por um facto extranho ao assumpto, destruindo assim essa lógica exquisita, que teve curso
durante séculos.
Nos estudos physicos seguiu o methodo de experimentar o valor de todas as hypo-theses, fasendo cálculos sobre a base de cada uma d'ellas e examinando se se ajustavam com as observações, para rejeitar as que não concordassem.
Assim se elevaram as mathematicas, as physicas, emflm toda a sciencia : isto é, o homem progrediu intellectualmente e a civi-lisação mudou-se.
Mas o estudo scientifico da natureza não contribue somente para dirigir e levantar o espirito do homem, serve também para me-lhorar as suas condições.
Suggere-lhe constantemente a ideia de fa-zer a applicação das descobertas ás suas ne-cessidades.
Antigamente estalavam as guerras, cor-ria o sangue a torrentes, na procura de es-cravos.
Um conquistador avassalava populações inteiras, submettendo-as ao trabalho forçado, porque então o homem só podia ajudar o ho-mem nos seus labores.
Mas quando se descubriu que os agentes physicos e mecânicos podiam ser emprega-dos com muito superior vantagem, surgiu a transformação.
Desde que uma nova machina ou um novo processo era mais util que um novo escravo, a paz veio substituir a guerra.
E não só isso; nações, que possuíam, como a America e a Russia, um grande numero de escravos, encontraram rasões económicas para appoiar as rasões d'humanidade e dé-ram-lhes voluntariamente a liberdade.
Eram tristes as condições d'outros tempos, e mais tristes que ainda hoje uma politica santa nos queira arrastar a essas epochas deploráveis.
Que um bocado d'ambar friccionado tinha a propriedade de attrahir e repellir os corpos leves, era um facto conhecido seiscentos an-nos antes de Jesus Christo; mas mil e
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centos annos depois de Jesus Christo ain-da este facto era insignificante, bruto, iso-lado.
Submettido aos methodos scientificos, á experiência, á discussão exacta, e á applica-ção, permittiu aos homens de se communica-rem atravez os mares e os continentes.
Centralisou o mundo. E dando aos gover-nos a facilidade de transmittir as suas ordens sem perda de tempo e de distancia revolu-cionou a politica e condensou o poder.
• Via-se no museu d'Alexandria uma ma-china, inventada por Heron o mathematico, um século, pouco mais ou menos, antes de Jesus Christo. Girava pela força do vapor e tinha a forma das que nós chamámos hoje machinas de reacção.
Este objecto, que encerrava o gérmen d'uma das mais importantes invenções, que se teem feito, foi considerado como uma sim-ples curiosidade durante mais de mil e sete-centos annos.
E não foi ao acaso; foi á força de medita-ções e experiências, que surgiu a machina a vapor moderna.
No começo do século desasete muitos me-chanicos se tinham esforçado por utilisar as propriedades do vapor; mas só nos meiados do século seguinte os seus trabalhos foram aperfeiçoados por Watt.
De prompto a machina a vapor faz ec-coar no dorso escarpado das montanhas o silvo agudo do progresso e se constitue obrei-ra da civilisação !
Limpa o suor a milhões d'homens, que havendo sido condemnados ao trabalho me-chanico, já lhes sobeja o tempo e o meio de cultivarem a intelligenciaJ
O que d'antes era incumbido de estupida-mente fazer girar uma roda, pôde agora in-telligentemente fazer girar as folhas d'um li-vro e pensar !
Podíamos enumerar milhares de inven-ções, que como estas nos vieram ensinar, que a pobresa é a origem do vicio e o obstá-culo á instrucção do homem; que a conquista das riquezas pelo commercio vale muito mais que a conquista do poder pela guerra ; por-que embora não seja falso o por-que affirma Mon-tesquieu: «que o commercio reúne as nações e divide os homens» é certo que só elle pôde grangear a unidade ao mundo. —O seu so-nho, a sua esperança é a paz universal.
Não chegariam volumes para referir os melhoramentos, que se produziram na vida social e domestica desde que a sciencia, li-vre de torpedos, começou a fazer sentir a sua influencia benéfica e que a invenção surgiu em soccorro da industria.
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provar, que o homem d'hoje, não é o homem d'hontem.
Modificada, engrandecida a civilisação, o homem precisa de estudar, é-lhe de extrema necessidade o desenvolvimento intellectual.
Mas aqui apparecem as infracções ás boas regras, rompem os abusos, do mesmo modo, que nas outras necessidades da vida são im-pensadamente infringidas as leis da boa hy-giene.
Muitas vezes são as creanças impellidas ao estudo antes da idade conveniente; outras vezes é o trabalho demasiado; quando am-bas estas cousas não succedem ao mesmo tempo.
E qualquer d'estes desvios é um mal. Prova-o Spencer: «a natureza é um tribu-nal exacto, diz elle; se vós lhe pedirdes mais do que ella deve gastar por um lado, ella res-tabelecerá o equilíbrio, fazendo uma deduc-ção por outra parte.
«Se vós a deixardes seguir livremente o seu caminho, tendo o cuidado somente de lhe fornecer os materiaes brutos do cresci-mento corporal e intellectual, na proporção, que cada idade reclama, ella produzirá com o tempo um individuo, cujo desenvolvimento será mais ou menos harmonioso.
«Se insistirdes por obter um crescimento anormal sobre um ponto, ella cederá depois
de uns poucos de protestos; mas durante que ella fizer o trabalho proposto, desprezará algum outro trabalho importante.»
O cérebro é um órgão, que vive, cresce e se desenvolve como outro qualquer, mas que necessita de mais sérios cuidados, attenden-do não só ás suas múltiplas e delicadíssimas attribuições physiologicas, mas ainda á sua estructura extremamente mimosa.
Todos sabem que um cérebro em grande trabalho se cança.
E a physiologia ensina que d'esté excesso de trabalho podem provir alterações physi-cas e chymiphysi-cas da massa encephalica.
Se o trabalho intellectual fôr prematuro, ou se a actividade cerebral exceder os limi-tes da actividade normal, o corpo forçosa-mente se hade sentir d'esté abuso.
O sangue hade com certesa, n'estes casos affluir em maior quantidade e alem do que serviu á reparação do tecido cerebral, o que se consumiu no trabalho mental, hade evi-dentemente faltar nos membros e nas vísce-ras, que tinha de irrigar.
E portanto o individuo não só não cresce, mas os tecidos soffrerão na sua estructura tan-to mais, quantan-to mais avultado fôr o trabalho.
E não só isto; ainda o estado geral será affectado por um excesso d'actividade do cé-rebro.
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A physiologia o ensina.
A grande harmonia orgânica depende es-sencialmente do systema nervoso.
A digestão, a circulação, a nutrição, em-fim todas as dependências orgânicas estão sob o domínio d'esté poderoso agente.
Attenda-se ás experiências de vários e il-lustrados physiologistas.
Pense-se, por exemplo, nas que pela pri-meira vez foram feitas por Weber, o qual demonstrou os effeitos produzidos pela exci-tação do nervo vagus.
Elle viu que, excitado este nervo, o cora-ção se suspendia; levantada a suspensão, de novo e lentamente entrava em actividade este órgão, tornando a suster-se, renovada a
ex-citação.
Todos em si mesmo teem experimentado as alterações que produzem o medo, a ale-gria, a raiva, etc. Alterações que se manifes-tam por palpitações mais ou menos violentas do coração, as quaes evidentemente denotam o esforço d'esté órgão na lucta, que se pre-parou.
Quem não sentiu em vésperas d'um dia de regosijo, ou n'uma occasião de luctuosa tristeza, um mal estar indefinido, falta de appetite e outras perturbações digestivas?
Pois se tudo isto provém d'uma excitação cerebral, evidenceia-se que tudo o que possa
occasionar essa excitação concorre para o ap-parecimento de semelhantes males.
N'estes casos está, sem duvida, o excesso d'actividade intellectual. Excesso por preco-cidade ou por accumulação de trabalho.
E são condemnaveis por egual tanto os grandes como os pequenos excessos; porque se d'aquelles resultam inconvenientes rápi-dos e grandes, os d'estes serão menos ligei-ros e mais pequenos, mas persistentes, chro-nicos.
Nós já dissemos, já tentamos provar que o homem, na epocha actual, tem contrahido necessidades, que outr'ora não possuía.
Apparecendo o mundo ao homem mo-derno, inteiramente outro do que apparecia ao homem antigo, as altas noções mudaram, as antigas decompozeram-se, as novas for-maram-se; e d'esté modo uma outra educa-ção, uma outra vida moral, uma outra so-ciedade.
Eu não quero por forma alguma pôr em duvida ou sequer menosprezar a sabedoria dos antigos tempos.
Sei que a cultura, por exemplo, da biolo-gia vem d'alta antiguidade.
Principiou em Empédocles, Demócrito e Hyppocrates; mas é certo que não pôde sahir do seu estado rudimentar antes de tempos inteiramente modernos.
SI
As sciencias não surgem, nem desappa-recem á vontade da nossa imaginação.
Um dia, por acaso, um homem serviu-se d'um pau e fez d'elle uma alavanca; d'ahi por diante successivamente se fez uso d'ella.
Moveram-se massas enormes, ediflcaram-se templos, ergueram-ediflcaram-se pyramides; mas estes conhecimentos practicos, que não po-diam nem sabiam explicar, eram attribuidos ás revelações d'um Deus!
Para que os homens percebessem a scien-cia da alavanca, das suas formas, das suas leis, das suas formulas, foi preciso uma re-volução inteira do pensamento.
O que era a medicina n'esses tempos de feiticismo?
Consistia no uso d'algumas hervas ou substancias mysteriosas, na conjuração das sortes, nos exorcismos destinados a
expul-sar o espirito mau entrado no corpo.
E estas practicas foram regularisadas com a primeira organisação da sociedade.
O feiticeiro selvagem transformou-se no sacerdote medico. Appareceram as tradicções e acreditou-se n'um deus da saúde.
As observações multiplicaram-se e as cu-ras assombrosas inscreveram-se nos muros dos templos ; chegando-se no Egypto a con-demnar á morte todo aquelle que tratasse um doente em contrario das prescripções divinas.
A astronomia, as mathematicas, as phy-sicas, a historia, emflm todas as sciencias partilharam de egual sorte.
E' que os povos da civilisação primitiva não poderam alcançar em direcção alguma um principio de sciencia exacto.
As suas crenças abrangiam n'um só am-plexo a natureza inteira.
Se por consequência elles se elevaram á concepção d'uma harmonia geral e á noção d'um Sêr supremo, estas proprias noções eram mal definidas, porque se appoiavam sobre crenças grosseiras.
Mas os tempos foram correndo, os costu-mes foram mudando e o embrião da scien-cia foi evolvendo.
A medecina lá lhe coube também a sua vez de sair do templo.
Apparece Hippocrates, que coordena os symptomas das doenças, vê as crises, julga do aspecto geral do doente, estuda a influen-cia das aguas, dos climas e dos lugares so-bre o organismo do homem. E este heroejá não recorre ao deus d'onde elle descende, nem ás instrucções de sua familia, mas á natureza que o cerca. Foi o primeiro passo da mede-cina como sciencia.
Não ha sol sem crepúsculo; aquella era a aurora, que ia surgindo nos horisontes ne-bulosos de misticismo.
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Um dia muito mais tarde resplende uma nova era, que abriram Copérnico e Kepler, Stevin e Gallileo, Bacon e Descartes.
Os progressos atropellam-se e precipitam-se com uma tal energia, que as mesmas des-cobertas foram feitas ao mesmo tempo em logares différentes e por authores, que se desconheciam.
Era a amostra das grandes epochas de successo, como o era também das grandes epochas de preparação.
E não foram menos consideráveis os pro-gressos na sciencia do homem.
Vesale disseca o corpo humano; Harvey descobre a circulação do sangue; Malpighi applica o microscópio á analyse anatómica; Haller funda a physiologia, distinguindo a irritabilidade da elasticidade; finalmente Bi-chai vê nos órgãos diversos tecidos geraes e define a vida — uma resultante das forças or-gânicas. Nos mesmos tempos os Sydenham, os Pinei, os Laennec, os Broussais tinham dado fundamentos scientificos ápathologia e ao mesmo tempo um laço á therapeutica.
Tenho-me transviado um pouco do assum-pto verdadeiro d'esté humilde trabalho; mas se o tenho feito é simplesmente para provar, que a civilisação d'hoje fez brotar necessi-dades, que em tempos passados, poderá di-zer-se, não existiam.
O homem d'hoje, permitta-se-me a expres-são, precisa mais da cabeça, que dos braços.
Mas não se deve abusar da applicação mental, porque os inconvenientes são graves, gravíssimos, como já deixámos apontado.
Nunca a applicação deve ser prematura, porque a creança acabrunhada e sem arbí-trio sufflciente para apreciar vantagens futu-ras, ha de crear aversão aos livros.
Não se devem accumular conhecimentos, porque d'isso não dependem os resultados que se desejam.
Spencer diz: «não são os conhecimentos amontoados no cérebro, como a gordura no corpo, que são de grande valor, são os co-nhecimentos convertidos em músculos de espirito.»
Eis pois outros males, que additados aos que já exaramos, constituem um mal ab-soluto.
Concluiremos, por tanto, que os excessos da applicação mental, juntos á insufflciencia d'alimentaçao, de vestuário e de exercício,' devem ser combatidos a fim de estabelecer-se uma perfeita educação physica e termina-remos pelas seguintes palavras de Spencer:
«Prejudicar voluntariamente a saúde é um peccado physico.»
PROPOSIÇÕES
Anatomia. — 0 estudo da anatomia sem a dissecção é im-profícuo.
Physiologia. — A contractilidado muscular é independente
da irritabilidade nervosa.
Materia medica. — A acção physiologica dos
medicamen-tos é a que deve regrar o seu emprego lherapeutieo.
Medicina operatória. —Na practica geral da medicina operatória preferimos o chloroformio a qualquer outro anes-thesico.
Pathologia geral. — Admittimos o principio da
transfor-mação de diatheses.
Pathologia externa. — O cancro duro não é autoinoeulavel. Pathologia interna. — O facto primitivo d'um trabalho
ul-ceroso simples do estômago é uma perturbação circulatória.
Anatomia pathologica. — Para certos diagnósticos a
ana-tomia pathologica é um grande auxiliar.
Obstetrícia. — Entre os meios abortivos tópicos preferimos
a esponja preparada de Joulin.
Hygiene. — Descurar a educação physica é abeirarmo-nos
do tumulo. Approvada. O P R E S I D E N T E Dr. Souto. Pode imprimir-se. O CONSELHEIRO-DIRECTOR Costa Leite.