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Academic year: 2022

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seguir. Estas impressões ajudam a perceber as diversas formas em que as

“relações raciais” estão permeando a leitura feita do Rio de Janeiro. Nesse arranjo, visibilidade, classe social e, sobretudo, mercado de trabalho estão sendo acionados na composição destas percepções sobre “raça” no Brasil.

Vejamos os relatos que recebi, atentos ao fato de que sublinharei algumas partes para orientar meus comentários:

“Eu tenho dificuldade em entender como o Brasil pode dizer que não tem racismo, quando eu só vi pessoas de pele mais clara (lighter complexions) nas posições mais bem pagas.

Os comerciais na TV não mostram pele mais escura. Eu respeitaria a crença brasileira na democracia racial se fosse verdade”.93

Sra. Violet

Ao analisar a percepção desta primeira turista, observo que a idéia de

“não entender que se diga que não existe racismo no Brasil” foi articulada, apesar de eu não ter, em momento algum, mencionado tal fato. Além disso, o mercado de trabalho aparece como ícone da existência do racismo, que pode ser entendido como um termômetro da visibilidade das relações desiguais baseadas na raça. Vejamos outra fala:

“Minha impressão sobre os brasileiros e sua identificação racial é a de que a maioria deles perdeu sua identidade com a raça e se identificam com a herança do seu próprio país”.94

Sra. White

93 Original: “I have a difficult time understanding how Brazil can say that racism does not exist, when I only saw people of lighter complexons in better paying positions. Commercials on TV did not depect darken skin. I do respect Brazilian belief of racial democracy if it were true”.

94 Original: “My impression of brazilians and racial identification is that most brazilians lost identity with the race. They identify with their country’s heritage”.

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Fig. 14 – Outra percepção

Este é um típico comentário em que os “negros” norte-americanos reclamam o que eles entendem como uma suposta falta de referência à “mãe”

África, uma perda da identidade africana em oposição à manutenção da herança da identidade nacional que eu entendo como estando relacionada à miscigenação.

Vejamos o que pensa outra turista:

“Que país bonito! Foi uma experiência maravilhosa visitar as diferentes cidades do Brasil. As pessoas são agradáveis e estão prontas para ajudar quando requisitadas. As pessoas mais escuras foram muito amáveis. As pessoas mais brancas pareciam se preocupar com o que lhes dizia

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respeito como se eu nem estivesse presente, a menos que comércio estivesse envolvido. No … hotel no Rio, um homem branco deixou seu apartamento, que era ao lado do meu dizendo ‘Ah, não! Eles estão sendo instalados ao meu lado!’. Ele foi mudado de apartamento. Eu não estou surpresa em ouvir esse tipo de coisa de um homem branco ou outros brancos. Eu já ouvi direta ou indiretamente nos EUA. Eu acho que os brancos (uma parte deles) estão fingindo gostar dos negros, mas têm muito medo de falar isso em público, a menos que seja entre eles.”95

Sra. Olive

Considerar o Brasil como um país bonito e sua população agradável e prestativa são algumas das representações sociais mais freqüentes entre os turistas “negros” norte-americanos. No entanto, a declaração acima nos ajudar a detectar outros dois fatores importantes, o primeiro está relacionado a uma classificação em que a turista menciona as duas tipologias: pessoas mais escuras e pessoas mais brancas. Este dado me faz refletir sobre o quanto de relacional é criado ao observarem a sociedade brasileira, visto que aqui a bipolaridade foi evitada, sugerindo a existência de gradação entre “mais escuros” e “mais claros”. O segundo fator que me chamou atenção, foi ela reconhecer que não foi percebida a partir de sua “cor”, o que sugere uma possível invisibilidade racial, mas, no entanto, ter ressaltado ter sido percebida como consumidora. De fato, hoje os turistas “negros” norte-americanos são vistos como consumidores potenciais pelo trade turístico. Um exemplo disto está

95 Original: “What a beautiful country! I have had a wonderful time visiting the different parts/cities in Brazil. The people are pleasant and are willing to assist when asked. The darker people were very friendly. The whiter people seemed to go about their business as though I were not present, unless business was being conducted. At the… hotel in Rio, a white man leaving his hotel room next to mine stated ‘Oh no! They are moving in next to me!’ He had his room moved elsewhere. I am not surprised to hear this type of statement from a white man or other whites because I have heard it directly or indirectly in the USA. I think the white people (a part of them) are pretending to like black people but are too afraid to speak about it in public unless among their own kind”.

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no fato de todos os turistas do grupo KJLH terem sido hospedados nas suítes mais caras daquele hotel, ocupando todos os apartamentos com vista para a praia de Copacabana daquele estabelecimento.

Já com relação ao episódio sobre o homem branco que estava no apartamento ao lado, penso que exista uma grande probabilidade de este não ser um brasileiro e sim um outro turista, sobretudo pelo fato de a própria turista dizer ter ouvido “oh, no! they are moving in next to me”. Se fosse um brasileiro, ele provavelmente teria falado em português e ela provavelmente não teria entendido.

Vejamos a percepção de um outro turista que participou da “roda de impressões” sobre o Brasil:

“Eu ouvi dizer que não existe problema racial. Que o problema é econômico. Pergunta: O que aconteceria se os negros que vivem na Bahia trocassem de lugar com aqueles que detêm a riqueza? Será que eles continuariam a dizer que é um problema econômico e não racial?”96

Sr. Brown

Aqui, novamente, observamos uma prévia referência à inexistência de problema racial, no entanto justificada pelo problema econômico. Em segundo lugar, está o fato de reconhecer a Bahia como o lugar onde moram os negros, como se o Rio de Janeiro não possísse negros. Em terceiro lugar, está o fato de encontrarmos em relevo a palavra “eles” (they), o que marca a alteridade e sugere que não há proximidade entre os universos “raciais”.

Para outro turista:

96 Original: “I have heard that there is no racial problem, it is an economical problem. Question, what if the black who are living in Bahia switch places with those who have wealth, will they continue to say, it’s an economic problem not a racial problem?”

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“Negros no Brasil estão enganados no que diz respeito às relações raciais. As posições de nível mais alto do governo são ocupadas por pessoas não negras. Um número significativo de negros não pode ir à escola porque seus pais não podem custear. O nível de pobreza dos negros é ultrajante se comparado com os não brancos”.97

Anônimo

Uma das coisas que fiz, ao pedir que esses turistas escrevessem seus relatos, foi remarcar que aqueles que quisessem ou pudessem ter seus nomes divulgados que assinassem os relatos. Apesar de ter sido aconselhado a manutenção do anonimato de todos os turistas, utilizando nomes ficctícios, gostaria de mencionar que algumas folhas, como a que continha o relato acima, me foram entregues sem identificação.

Ao afirmar que os “negros” no Brasil estão enganados, o/a turista sugere não somente que percebe uma diferença nas “relações raciais” dos dois países, mas também que considera a configuração brasileira um equívoco. Mais uma vez o mercado de trabalho aparece mencionado, aqui através do governo, quando uma crítica à falta de pessoas negras é esboçada. Curiosamente, aqui deparamos com a sugestão da existência de escalas de “cor”, na qual, além dos

“negros”, temos mencionados “não brancos” e “não negros”.

Suponho que a menção à escolarização infantil se deu devido às perguntas que foram feitas no dia da excursão à Petrópolis. Ao passarmos pelas favelas que margeiam uma via expressa da cidade do Rio de Janeiro, houve muito espanto em perceber que havia tantas crianças brincando pelas ruas das comunidades às 10h00 da manhã aproximadamente e, além de terem percebido aquelas crianças como negras, alguns turistas proferiram um discurso em

97 Original: “Blacks in Brazil are in denial when it comes to race relations. The upper level positions of the government are occupied by non black people. A sufficient number of blacks cannot go to school because their parents cannot afford to send them. The poverty level is outrageous compared with non whites”.

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defesa da educação infantil. Este fator será também mencionado no próximo relato.

“Racismo parece viver e bem. Parece que brasileiros de pele escura estão nas áreas mais pobres e muitas das crianças não freqüentam a escola. É estarrecedor que as crianças estejam brincando e não na escola. Educação precisa ser enfatizada universalmente!!” 98

Anônimo

Este turista afirma que o racismo existe e parece correlacioná-lo com o fato de “os brasileiros de pele mais escura” habitarem as áreas mais pobres, numa articulação de racismo com pobreza. No entanto, é igualmente relevante mencionar que a educação é apontada como uma solução universal.

Vejamos outra fala:

“Na minha opinião, os padrões de raça são muito óbvios.

Existem as classes pobre, média e rica. Os pobres não vêem o racismo porque eles só conhecem aquilo ao qual eles foram expostos. Eles têm baixa instrução, portanto não podem comparar seu padrão de vida com qualquer outra coisa. Os brancos, e talvez uns poucos negros, são os ricos.

O governo controla o padrão de vida. Caso queiram uma mudança, exponham-nos (os negros) a todas as formas de vida. O conhecimento é a chave. A falta de conhecimento pode manter você dormindo”99

98 Original: “ Racism appears to live and well. It appears that the dark skinned brazilians are in the poorer areas and many of the children don’t go to school. It is appalling that children are running around playing and not in school. Education must be emphasized universally!!!”

99 Original: “In my opinion the race standards are very obvious. You have the poor, middle and the rich class. The poor do not see the racism because they only know what they are exposed to.

They (the poor) are under educated so they cannot compare their standard of living to anything else. The white are the rich and maybe a few black. The government controls the standard of living. If they want a change, expose them to all of the ways you can live. Knowledge is the key.

What you don’t know about the outside world can keep you dreaming”.

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Sra.

Esta turista correlaciona diretamente raça, classes sociais e educação;

segundo ela, o fato de os pobres não verem o racismo está diretamente ligado à pobreza, combinada à falta de instrução. Sugere também que não educar seja um mecanismo para não despertar os pobres sobre aos padrões desiguais aos quais estão submetidos.

Vejamos, em seguida, o que foi dito sobre “herança africana” para um outro turista:

“Minha razão principal para visitar o Rio/Brasil foi ver as conexões africanas. Eu fiquei surpreso de ver a falta desta nesta cidade. A história de todos os grupos parece ser mantida, menos as dos negros ou africanos”100

Anônimo

Esta fala mostra que a idéia da existência de uma conexão entre o Brasil e a África precede a viagem, e ainda mais, motiva a viagem. As expectativas, no entanto, são bastante variadas. Lembro-me do relato de uma passageira de outro grupo que afirmava ter prefirido o Brasil à própria África; quando perguntei- lhe a razão, ela respondeu-me que teria considerado a miséria na África tão perturbadora que isso a teria impedido de visualizar confortavelmente as suas origens. Segundo esta turista, a experiência no Brasil teria sido mais palatável, por parecer mais próxima à realidade que ela conhecia.

As duas situações, no entanto, remetem a uma outra concepção muito recorrente entre estes turistas, qual seja, a idéia de diáspora. Como o último relato aponta, o centro das atenções recai sobre a história dos negros.

Vejamos uma percepção feminina:

100 Original: “My primary reason for visiting Rio/Brazil was to see the African connections. I was surprised to observe the lack of it in this city. The history of all groups seem to prevail but not black or African”.

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“Eu considero bela a minha curta estadia no Brazil, mais limitada para mim – uma mulher afro-americana de mente e quereres fortes. Eu sou rápida e apaixonada sobre a maioria dos tópicos, e eu não me sinto bem-vinda no Brasil por isso, especialmente no Rio. Eu sou realista e, infelizmente, espero que os outros também o sejam. De qualquer modo, parece que esse não foi o caso entre a grande maioria dos negros brasileiros. Isto é arquitetado, eu pressinto, para impedir que nós nos unamos e nos transformemos juntos no povo forte que nós fomos criados para ser. Eu vejo os negros brasileiros como meus irmãos e irmãs, mas eu não sinto a mesma coisa deles. Eu vejo através de seus olhos os afro-americanos – para quem o homem branco também mentiu – sendo considerados menos que eles ainda que sejam tão parecidos. Então qual é o problema? Enfim, eu também vejo meus belos irmãos e irmãs brasileiros como gigantes adormecidos. Mas nós todos estamos dormindo no ponto – alguns mais que outros, me parece. É só minha opinião, mas do jeito mais direto que consigo percebê-la e expressá-la”.101

Sra. Orange

101 Original: “I found during my short stay/visit Brazil to be beautiful, but limited for me – an African American female – with a strong will and mind. I am quick and passionate about most topics, and I don’t feel as welcome in Brazil because of it, especially in Rio. I am a realist and unfortunately, I expect others to be also. However, I found this not to be the case amongst a great number of Black Brazilians. This is by design, I feel, to keep us from bounding and uniting to be the strong people together we were designed to be. I see Black Brazilians as my brothers and sisters, but I don’t feel this from them. I see through their eyes African Americans – who have also been lied to by the white man – as less than them who look just like. So what’s up with that?? Anyway, I also see my beautiful Brazilian brothers and sisters as sleeping giants. But we all are sleeping in the job – just some more than others, I feel. Just my opinion but straight as I can see and express it”.

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Este é um relato que possibilitar visualizar a presença do sentimento de diáspora africana propagado pelos afro-americanos. É revelador não somente no sentido de apontar a turista norte-americana considerando brasileiros enquanto irmãos e irmãs pela origem africana, mas, sobretudo, pelo ressentimento desta ao não perceber o mesmo reconhecimento em retorno.

Uma pergunta bem comum nesses grupos é: “Mas os negros brasileiros nos reconhecem (os americanos) como irmãos?” De fato, existe entre os afro- americanos a crença de que fazemos parte de um mesmo povo, e que só seremos fortes quando nos unirmos.

Vejamos outro exemplo:

“Até que o povo negro do Brasil se orgulhe por sua ancestralidade africana, eles nunca serão verdadeiramente completos. Embora eles se orgulhem em serem brasileiros, precisam entender que eles ainda são os brasileiros oprimidos por causa da sua cor”.102

Sra. Red

Aqui podemos ver, primeiramente, que a turista tem a impressão de que o povo brasileiro não se orgulha de sua ancestralidade africana, pelo menos não como os afro-americanos entendem que isto deveria acontecer. A idéia de “ser completo” reconhecendo tal ancestralidade também remete à idealização da diáspora africana. Está marcada, também, a percepção de que a nacionalidade está mais valorizada pelos brasileiros se comparada à “raça”; no entanto, isto seria um erro visto que, segundo ela, existe uma opressão (econômica) que é justificada pela “cor”.

“Com tão pouco tempo para escrever (25 minutos) e com tanto dentro de mim para falar. Eu tentarei expressar o que

102 Original: “Until the Black People of Brazil get a sense of pride in their African Ancestry, They will never truly be complete. Although they have pride in being a Brazilian, they must understand that they are still the oppressed Brazilians, because of their color”.

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é raça no Brasil, deixe-me também esclarecer que não é justo para mim presumir coisas com relação a este assunto.

Entretanto, do que aprendi e da experiência que tive, RAÇA É UM PLENO E AMPLO PROBLEMA INVISÍVEL NO BRASIL. Eu diria isso por sua causa , eu sinto que sob a Raça está o nosso povo que vê e entende. Eles sabem que nós fomos enganados, negros brasileiros, assim como negros americanos, percebem o que de fato aconteceu.

Raça no Brasil pra mim é um GRANDE, um grande tópico, que eu não acredito que as massas de afro-brasileiros realmente entendem. Bem parecido com os jogos psicológicos aos quais os afro-americanos foram submetidos para perpetuar o nosso contínuo estado de disenfranchisment (?), afro-brasileiros parecem estar num estado de desilusão. O que realmente está acontecendo?

Como eu disse antes, eu só estou no Brasil há uma semana, o que me faz concluir, até o momento, que existe uma grande desilusão da parte dos afro-brasileiros”.103

Sra. Blue

Esta é uma turista que não estava no saguão do hotel quando pedi para que me relatassem a experiência, no entanto, mesmo ao chegar, faltando 25 minutos para a saída do ônibus, fez questão de rascunhar seu parecer também.

Este é um relato que, em primeiro lugar, demonstra o quanto um roteiro “étnico”

103 Original: “With so little time to write (25 minutes) I have so much inside to say. I will try to express this race in Brasil is just that, let me also add that it is not very fair for me, to make assumptions on this issue. However from what I have learned and experienced Race is a VERY LARGE PLAINLY INVISIBLE ISSUE IN BRAZIL. I will say that because of you, I feel that underneath Race are our people who do see and understand. They know that we have been deluded, Black Brazilians as have Black Americans realize what has really taken place. Race in Brazil to me is Huge, a Very Huge Issue, which I don’t believe the masses of African Brazilians really understand. Much like the psychological games that have been played on African Americans to perpetuate our continued state of disenfranchisment, African Brazilians appear to be in a state of disillusion. What is really going on? As I said before I have only been in Brazil for 1 week. What I can conclude at this time is major DISILUSION on the part of African Brazilians”

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aciona as referências pessoais de cada um dos turistas no que tange às

“relações raciais”. É recorrente vê-los se emocionando durante a comparação e reflexão entre as condições dos “negros” nos dois países. Em segundo lugar, a turista aponta a possibilidade de que o pouco tempo de sua permanência tenha sido limitador no sentido de melhor compreender esta dinâmica. Em terceiro lugar, mais uma vez a questão da “invisibilidade racial” aparece na referência ao Brasil, que podemos interpretar como relativa à “visibilidade racial” dos EUA. Por último, existe a idéia de que as “massas” de “negros” no Brasil estão enganadas, no entanto, aqui aparece uma comparação igualitária com os EUA, onde os

“negros” também teriam sido vítimas de jogos psicológicos, segundo ela.

“O racismo neste pais é tão aberto e vocês que são os negros brasileiros nem o reconhecem. Quando o governo não possui um esquema organizado para que as pessoas de pele mais escura possam aproveitar um estilo de vida comum (padrão), como vocês que pensam ter um bom emprego podem dizer que ele (o racismo) não existe. Está chovendo e vocês nem sabem que está chovendo!”104

Sr. Purple

Existe a certeza de que os “negros” brasileiros não reconhecem o racismo tal qual os “negros” norte-americanos o fazem. Um suposto desamparo governamental aparece ao lado de uma crítica feita aos “negros” brasileiros com presumidos bons empregos, ou seja, o tom acusatório aqui não é contra o outro

“branco” e sim contra o “negro” brasileiro em melhor posição que aparenta não se preocupar com “os seus”.

104 Original: “The racism in this country is very open and you who are the black brazilians do not recognize it. When Gov’t do not have a system set up for the darker skinned people to enjoy the common life style how can you who think you have good job say that it does not exist?”.

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Fig. 15 – Mais percepções Na interpretação de um turista:

“Minha experiência no Brasil foi reveladora. Eu estou impressionado com o conceito brasileiro de igualdade, ainda que existam algumas formas reais de discriminação, não é como aquela que existe nos EUA. Vocês realmente acreditam na existência de uma igualdade racial aqui no Brasil. Mas vocês são muito mais democráticos do que eu pensei. Sua discriminação está baseada nas condições econômicas ao invés da cor e isso é uma coisa boa. Eu

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gostaria de agradecer a você pela exposição que nos deu e desejar o melhor em tudo o que você fizer”105

Sr. Green

Aqui aparece claramente que o referencial de comparação entre as duas sociedades para este “afro-americano” são as “relações raciais”, mais especificamente a “discriminação racial”. Ainda que exista a percepção da

“igualdade racial” e da “democracia”, a desigualdade social com base na economia persiste e faz presumir que este seja um problema da população

“negra”. Vejamos outra impressão:

“Caro Marcelo, obrigado pela ótima estadia aqui no Brasil.

Nós enquanto americanos temos um estilo de vida muito diferente do de vocês aqui no Brasil. Talvez um dia nós possamos ser UM SÓ, até que eu te veja novamente que Deus abençõe você e sua família.”106

Sra. Yellow

Neste relato encontramos reforçada a idéia de uma diáspora africana que precisa ser fortalecida, o que evidencia a identificação com a qual estes turistas olham para o Brasil, ainda que reconhecendo que existe uma diferença entre os dois países.

Em uma outra folha recolhi o seguinte relato:

105 Original: “My experience in Brazil was eye openning. I am impressed with Brazil’s concept of Equality, even though there are some truly forms of discrimination, it is not like that in the USA.

You really believe that there is racial equality here in Brazil. But you are much more democratical than I thought. Your discrimination is based at economical condittions instead of color and that’s a great thing. I want to thank you for the exposition that you gave us and wish you the best in all that you do”.

106 Original: “Dear Marcelo, Thank you for a great time here in Brazil. We as Americans have a very different life style than you here in Brazil. Maybe someday we can all be as ONE, until I see you again may God bless you and your family.”

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“Eu tive uma experiência arrebatadora no Rio de Janeiro.

Por outro lado, eu me senti realmente triste pelo apuro (situação difícil) da maioria dos moradores de baixa renda.

Eu tive a impressão que os brasileiros afro-descendentes estão enganados com relação a ‘todos os brasileiros serem iguais’. É extremamente óbvio para mim não ser o caso. Eu notei que a maior parte dos brasileiros com empregos bem pagos são aqueles que parecem brancos ou altamente misturados. Ainda assim, eu vim até aqui para aprender tudo o que eu podia com relação aos meus ‘irmãos’ e ‘irmãs’

no Brasil. As excursões foram muito educativas.”107

Sra. Gray

Quero aproveitar a abordagem desta turista para apontar os programas

“étnicos” como uma vivência, uma experiência que, nas palavras dela, se mostra

“arrebatadora” por vezes. Isto implica, suponho, uma aproximação maior com o Brasil, visto que a idéia central é “aprender com os irmãos e irmãs” brasileiros. O mercado de trabalho aparece mais uma vez, agora denunciando uma dúvida existente no que significa ser “branco”, pois, segundo ela, as melhores posições estão com os que “parecem brancos” ou são “altamente misturados”. A complexidade destas vivencias fica nítida na frase a seguir:

“Na minha opinião, relações raciais no Brasil são muito confusas pra mim. Parece que o povo do Brasil esquece de onde eles vêm/quem são, pela negação da ancestralidade

107 Original: “I’ve had a thrilling experience in Rio de Janeiro. Conversely, I was really saddened by the plight of most lower income residents. I got the impression that many African descendant Brazilians are in denial concerning “all Brazilians are equal”. It is extremely obvious to me that that is not the case. I noticed that most of the Brazilians with good paying jobs are those who look white or highly mixed (fair complexion). Still, I was here to learn all I could about my ‘sisters’ and

‘brothers’ in Brazil. The tours were quiet educational.”

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africana. Parece que as pessoas de pele mais clara são colocadas numa posição hierárquica mais alta. O que também acontece nos EUA. Esta experiência me mostrou que nós somos parte uns dos outros aqui no Brasil + nos Estados Unidos, os afro-americanos estão se aproximando + construindo relações juntos. Esta é a Era da iluminação e as pessoas de cor estão se aproximando. As pessoas no Brasil conhecem a sua ancestralidade muito melhor do que as pessoas nos EUA”.108

Anônimo

Este relato permite ver que a tensão qual tento apontar com este estudo, entre as percepções sobre relações raciais, é sentida pela turista a ponto de fazê-la sentir-se confusa. Existe uma contradição que demonstra esta confusão:

ao mesmo tempo em que ela afirma que os brasileiros conhecem sua ancestralidade melhor que os americanos, ela afirma que existe uma negação da ancestralidade africana por parte do povo brasileiro. Enfim, como entender que nesta configuração brasileira que absorve para si a “ancestralidade africana”

combine-a à outras ancestralidade, a “lente” da bipolaridade racial impede que tal configuração seja possível. Mais uma vez, o mercado de trabalho se mostrou como termômetro da discriminação, e a idéia de diáspora que “se aproxima” foi apontada como um provável caminho futuro. Vejamos outra percepção sobre racismo:

108 Original: “In my opinion the race relations in Brazil is confusing to me. It seems that the people of Brazil forget where they come from or are in denial of African ancestry. It seems the lighter skinned people are put on a higher hierarchy. This also relates or is an apology to the United States. This experience has shown me that all of us are part of each other here in Brazil + the United States, and African Americans are becoming closer + building relationships together. This is the age of enlightenment and people of color are becoming closer together. The people in Brazil know their ancestry a lot better than the people in the United States”.

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“O racismo vai muito bem obrigado por aqui, mas de forma muito sutil. Como o racismo é tão óbvio nos EUA, nós afro- americanos conseguimos vê-lo tão facilmente aqui. Nós o vemos no fato de que 100% da pobreza está entre a população negra, educação insuficiente, falta do ensino de inglês nas escolas. A falta de inglês aleija uma pessoa da habilidade de se erguer e prosseguir. O fato da filosofia de que salpicando um pouco de sangue branco em vocês eleva sua auto-estima e status. Os brancos são donos de quase tudo. Observe uma pessoa que foi pobre. Ninguém passa pela vida olhando para a riqueza e decide rejeitá-la. Você olha para a riqueza e para a educação e as quer. Você pressente que é seu direito de nascença. Você não vive em uma área pobre, freqüenta escolas deficientes, ganha salário mínimo, mal se alimenta e acha que está certo permanecer assim. Pegue a mim na America como exemplo se você não for branco europeu (loiro, olhos azuis). Vocês são negros, morenos, asiáticos ou outros (misturados).

Portanto são tratados de forma pobre. Sobre o fato de que um alto percentual de pessoas não terminam a escola secundária cria-se uma linha instantânea para a escravidão e também crime para manter o sistema carcerário, uso de drogas e gravidez infantil”109

Sra. Pink

109 Original: “Racism is alive and well here but very suttle. Because racism is so obvious in the U.S. We as Afro-Americans can easily see it here. We see it in the fact that 100% of poverty is within the Black population, poor education, lack of English being taught in schools. The lack of English cripples a person ability to rise up and leave. The fact that the philosophy of sprinkling a little white blood in you elevates your self esteem and status. Whites own almost everything. Take it from someone who was poor. No one walks through life looking at wealth and decides to reject it. You look at wealth and education and want it. You feel it’s your birth right. You don’t live in a poor area, go to failling schools, make minimal wage, barely eat and feel it’s ok to go without.

Take it from me in America if you’re not European White (Blond blue eyes or sharp feature) You are Black, Brown, Asian or other (mixture). Therefor you’re treated poorly. On the fact that a large

% of people don’t graduate from high school – creates an instant line for slave also, crime to support the prison institution, drug use and teenage pregnancy”.

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Para além do fato de esta turista dizer que o “racismo” existe, está o de localizá-lo devido à pobreza, falta de educação e falta de ensino da língua inglesa. Este último entendo como um impeditivo para o contato com os “irmãos”

americanos, os quais supostamente deveriam ser o exemplo correto para a população “negra” brasileira. Parece haver uma identificação tão direta com a realidade do universo afro-americano que a turista utiliza fatos que provavelmente são da sua própria sociedade, como, por exemplo, o de sistema penitenciário privado, que não existe no Brasil.

Em outro relato:

“Raça no Rio – O que eu aprendi sobre raça no Rio – Parece que o Brasil abraçou algumas das formas africanas tais como a música, comida e dança. Entretanto, como em todas as partes do mundo onde os africanos puseram seus pés, ‘eles’ tiraram de nós e usaram em ‘seu’ próprio benefício. Eu gosto do conceito de que os brasileiros querem acreditar que não existe um problema com relação à raça, mas a partir do que vi nos poucos dias que estive aqui... existe! A maioria das pessoas que vi pelas ruas mendigando eram de descendência africana. Eles não eram somente negros, mas eu vi muitas mulheres e crianças. Me disseram que muitos dos homens estão na prisão. Assim como nos EUA. Brasil pegou o bom da África e não investe em seus descendentes. Eu fiquei chocada em saber que as escolas primária e secundária não são obrigatórias! O Brasil está criando seus filhos para o fracasso. Educação é a chave! A divisão racial é MUITO real no Brasil…

especialmente no Rio. Diferentemente de Salvador, eu não vi muitos donos de lojas africanos (descendentes), vendedores, restaurantes, etc. Uma coisa triste é o fato da

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raça ser encoberta no Brasil. Pelo menos em outros paises a gente sabe onde está pisando.”110

Sra. Black

É curioso ver que esta turista, apesar de reconhecer que existem referências africanas na cultura brasileira, considera que o “outro”, leia-se o

“branco”, tenha se apossado desta cultura em seu próprio benefício. A idéia de diáspora fica mais clara ainda ao ver a menção a “todas as partes do mundo onde os africanos puseram os pés”. O ideal de democracia racial aparece como sedutor; no entanto, é anulado pela pobreza quando, além de apontar que as vítmas são negras, é denunciado também o alto índice de mulheres e crianças pedintes. A educação é novamente apontada como uma provável saída para o desenvolvimento do Brasil; segundo esta, existiria de fato uma divisão recial espacialmente no Rio de Janeiro. É sugerido, em primeiro lugar, uma identificação com o Brasil, e se olharmos com atenção parece que o Rio de Janeiro está para os EUA assim como a Bahia está para a África. Por último, existe a sugestão de que a turista não consegue ver claramente a “questão racial” no Brasil, o que a impede de “saber onde está pisando”.

Em outro relato:

“Se 100% da população é “negra” no Brasil, então raça é elemento. Sem poderio econômico os negros vão continuar a ser pobres. Eu não tenho certeza de que os negros

110 Original: “Race in Rio – What I’ve learned most about race in Rio – It seems that Brazil has embraced some of the African ways such as the music, food and dance. However as in every part of the world that Africans have set foot on, ‘they’have taken from us and used it for ‘their’

benefit. I like the concept that Brazilians like to believe that there is not an issue regarding race, but from what I’ve seen in my few days here… it is! The majority of the people I saw on the streets begging were of African descent. Not only were they Black, but I saw many women and children. I was told that many of the men are in prison. Such as it is in the U.S. Brazil has taken the good from Africa and not invested in the decendants. I was shocked to learn elementary and secondary schooling is not mandatory! Brazil is setting their children up for failure. Education is the key! The race divide is VERY real in Brazil… especially Rio. Unlike Salvador, I do not see as many African shop owners, vendors, restaurants, etc. Rio is a European city thus European value systems. One sad thing is that race is covered in Brazil. At least in other countries you know where you stand. Thanks for the opportunity”.

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entendam que esta seja uma sociedade sem cores, quando nas ruas somente os postos de trabalho menores são ocupados pelos negros. No Rio eu vi os mais claros e os brancos pedindo dinheiro às pessoas de peles mais escuras.”111

Esta turista, ao refletir sobre o fato de “todo mundo no Brasil tem sangue negro”, encontra suas bases para afirmar uma necessidade de racialização, visto que os postos de trabalho estão racializados. No entanto, o fato de ter vistos “brancos” pedindo dinheiro a “negros” parece ter sido significativo, principalmente se persarmos que esta seria uma inversão da hierarquia que está todo o tempo sendo reafirmada com bases na “cor” da pele. Este parece ser um dado que pelo menos faz refletir sobre a sociedade brasileira.

Em outro relato:

“Raça no Brasil – Apesar de superficialmente parecer que não existe problema racial, depois de ter passado um período e observado como o Brasil africano vive, é aparente que raça no Brasil está baseada e distribuída pela cor da pele. O Brasil português de pele clara parece deter toda a riqueza. Os brasileiros de pele escura vivem na pobreza ou em condições básicas. Isto não é um fato somente no Brasil, mas em todos os lugares do mundo para onde os africanos

111 Original: “In Brazil if 100% of the population is “black”, then race is an issue. Without economic power the blacks will continue to be poor. I am not sure that the blacks feel that this is a colorless society when on the streets only minimal jobs are held by blacks. In Rio I have seen the lighter n whiter collect money from darker skined people on the streets”.

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foram levados. Eles estão na posição mais baixa da escala econômica.“112

Este é um relato curioso por denunciar a existência de uma expectativa da sociedade brasileira “sem problema racial”, que vem a ser reconsiderada

“depois de passar um período e observar” o Brasil. Existe a visualização desta sociedade a partir da “bipolarização racial” americana, na qual, de um lado, a turista menciona o “Brasil africano” e, do outro, o “Brasil português”. O primeiro seria de “pele mais clara”, o segundo de “pele mais escura”, nunca tendo mencionado, no entanto, “branco” e “negro”, o que me leva a concluir que nesta avaliação existe uma negociação na “classificação da cor” que toma como referencial central a posição na escala econômica.

Para finalizar, gostaria de dizer que em momento algum tive a intenção de usar estas interpretações de modo a esgotar o universo estudado. Ao contrário, elas servem, de fato, como referêncial para esboçar o que pensa este turista

“negro” norte-americano com relação ao Brasil. De fato, o pacote “étnico” é visto como tal mais pelos turistas e pelas agências norte-americanas do que pelo trade turístico nacional.

112 Original: “Race in Brazil – Although from the outset it would appear that there is no racial problem, after spending time and seeing how the african Brazil live, it is apparent that race in Brazil is based and distributed on skin color. The light skin Portuguese Brazil seem to hold all the wealth. The dark skin Brazilians live in poverty and standard living conditions. This is not only a fact in Brazil, but everywhere in the world where africans have been taken. They are on the lower end of the economic scale”.

Referências

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