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Saga Royals#06 - Geneva Lee
A cativante história de Belle e Smith segue em direção à sua conclusão de tirar o folego em Capture me.
Eu nunca esperei me apaixonar por Smith Price. Agora ele era muito mais do que meu amante. Ele era a minha obsessão. Meu salvador.
Meu futuro.
Mas alguém tinha que pagar pelos pecados de nossos pais. Os fantasmas nem sempre só assombram. Às vezes eles perseguem e
exigem pagamento.
Prometemos um ao outro o para sempre, mas talvez não vivamos para ver o amanhã.
5 A música parou de tocar quando minha ligação terminou. Meu celular caiu no chão, e eu caí contra a parede. Abrindo meu paletó, meus dedos cravaram os botões da minha camisa até chegar ao último. Levantando as camadas pegajosas e encharcadas de sangue, gritei.
Porra, isso era profundo. As marcas estariam no meu futuro.
—Você vai precisar de muito mais do que isso. —Eu liguei para Jake. Ele não respondeu. Provavelmente porque estava morto.
Vejo você no inferno.
Ele tinha chegado. Jake tinha sido responsável pelo ataque brutal contra minha esposa ontem. Então ele tinha voltado para terminar o trabalho, mas eu o tinha parado, permanentemente. Não importava que ele estivesse agindo por ordem do meu ex-empregador. Ele tinha decidido o seu próprio destino quando se misturou com Hammond.
Eu também.
Mas, mais um homem morto também significava menos uma testemunha no próximo caso contra Hammond. Com a morte de Georgia, isso não deixava muitas opções. Tínhamos e-mails e algumas fitas gravadas de reuniões, mas Alexander não estava convencido de que seria o suficiente. Depois desta noite - depois de seus ataques contra Belle - eu faria tudo em meu poder para levá-lo à justiça. Mesmo que a justiça fosse feita por minhas próprias mãos.
Eu era advogado há tempo suficiente para saber que os tribunais estavam inclinados a favorecer aqueles com poder e bolsos cheios. Hammond passou a vida amontoando os dois, então usava isso para atacar sistematicamente aqueles
6 que ele considerava ameaça.
Ele claramente me colocou nessa lista.
Olhei para a destruição ao meu redor enquanto esperava a chegada da polícia. Vidro quebrado. Móveis revirados. Porta quebrada. Corpo sem vida. Era uma cena de assassinato, ou uma festa realmente boa.
Claro, eu tinha que destruir o quarto de hotel mais caro em Londres. Isto custaria mais do que a caução por danos, e faria a fatura do meu cartão de crédito ir para o inferno no próximo mês.
Você está se perdendo, Price.
Eu sabia. Eu podia sentir. Mas mesmo quando meus pensamentos se dispersavam ao meu redor, eu não conseguia juntá-los. O sangue manchava o chão, e eu assistia, fascinado, enquanto pingava em câmera lenta do meu tronco.
Meu celular tocou, exibindo o número de Hammond, e eu deslizei meu polegar pelo botão de aceitar.
—Price 1. Jake 0. —Eu informei. —Não posso acreditar que você tenha usado Margot para irritá-lo.
—Tudo é válido.
Encaixei meu celular contra meu ombro. Estava ficando pesado demais para segurar.
—Nesse caso, eu devo informá-lo que Jake vai precisar de um funeral adequado.
Hammond deu uma risadinha.
—Ele realmente não era páreo para você. Você pensou que eu o deixaria matar você?
—E a minha esposa? —Eu fechei meus olhos e os reabri, tentando fazer o quarto voltar ao foco.
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—Eu não me importo com ela. —Hammond resmungou. —Isso é entre você e eu.
—Então, deixe-a de fora.
—Isto é guerra, filho.
—Quem está ganhando? —Eu perguntei. Eu sabia o placar mais recente, mas o resto estava se tornando um pouco nebuloso.
—Bem, a qualquer momento você vai ser preso pelo assassinato de Jake, o que me deixa um ponto à frente. —Hammond riu na outra extremidade.
Eu não. Não era uma piada muito engraçada.
—Eu não ganho um ponto por Jake?
—Estamos apenas pontuando num grande jogo. Depois que você estiver na cadeia, isso só deixa mais três para riscar na minha lista, e você convenientemente enviou sua esposa direto para os outros dois alvos. Eu não consigo decidir se eu deveria atacar esta noite enquanto estão todos juntos, ou esperar um pouco até que você esteja em sua cela. Seria divertido ler sobre a prisão de um assassino insano alegando um complô contra a monarquia britânica.
—Sim, exceto que a Monarquia Britânica está do meu lado. —Eu pisquei enquanto a porta sumia e aparecia na minha visão. Eu inclinei minha cabeça, tentando focar.
—Por agora, mas você acha que é a única pessoa a dar informações ao palácio? Alexander não arriscaria tudo assim, e quando receber evidências de que você estava trabalhando para mim o tempo todo, ele não estará disposto a limpar seu nome. E você não será capaz de ajudar a qualquer um deles atrás das grades.
—Distorção interessante, mas ninguém vai cair nessa.
—Sou um contador de histórias muito convincente, Smith, aproveite seu tempo com o detetive Spade, ele está ansioso para conhecê-lo.
8 A linha caiu, e a minha mão caiu no chão. Estava ficando mais difícil de pensar, e tão escuro. Belle apagou as luzes quando saiu?
Belle.
Seu belo rosto flutuava através da névoa ocupando meu cérebro. Era como se ela estivesse de pé na minha frente. Pele de porcelana, emoldurada por mechas loiras soltas, e um sorriso altivo que faziam meus lábios tremerem.
Belle.
Quaisquer que fossem os planos dele para me incriminar, ela era o fio solto que não podia deixar desamarrado. Não importava o que Alexander tivesse contra mim, ela nunca acreditaria. O que significava que ela era a próxima na lista de Hammond. Era a razão pela qual ela estava nisso, antes de tudo.
Eu me forcei a ficar de pé. Maldito cavalheirismo meu chamar a polícia. Eu realmente tinha que fazer algo sobre essa consciência culpada. Tentei apanhar meu telefone, colocá-lo no meu bolso enquanto me arrastava para a porta e caía contra ela. Sangue manchando toda a bancada branca polida atrás de mim.
DNA. DNA em todos os lugares.
Cristo, eu poderia muito bem deixar um rastro de migalhas de pão atrás de mim.
Peguei uma almofada do sofá enquanto passava, rasgando a capa e pressionando-a na minha ferida. Precisaria de cuidados, mas, por enquanto, o máximo que podia fazer era estancar o sangramento. Mas não adiantava.
Salpicava em meus pés enquanto eu tropeçava pelo corredor. Apertei meu paletó quando entrei no elevador. O casal ao meu lado continuou a falar mesmo quando a primeira gota de sangue atingiu o chão do compartimento. Eu não sairia daqui.
Esticando-me para frente, eu passei meus dedos entorpecidos sobre os botões, acionando tantos andares quanto possível.
Saí assim que as portas se abriram. Eu me afastei, meus joelhos dobrando enquanto meus olhos pousavam em um armário do zelador. Lançando-me para a
9 fechadura, eu a girei quando o meu mundo ficou preto.
10 Entrei no vestíbulo do Westminster Royal com um robe de cetim manchado de sangue. Obviamente, eu sabia como fazer uma entrada.
Atravessando rapidamente para a recepção, eu me inclinei contra o balcão para estabilizar minhas pernas trêmulas. A mulher que estava trabalhando congelou enquanto reparava em minha aparência maltratada. Eu a assustei ao ponto de ficar sem fala.
—Eu gostaria de falar com o gerente. —Eu disse em voz baixa. Eu não queria que isso se transformasse em uma cena. Estávamos vivos. O resto poderia ser resolvido o mais privado possível.
Alívio flutuou em seu rosto. Sem dúvida, ela estava emocionada em me passar para outra pessoa.
E isso me irritou.
Parte de mim queria que ela se importasse com a mulher traumatizada na frente dela. Ela não deveria perguntar se eu estava bem? Mas, responder a isso seria mais fácil se alguém não tivesse acabado de ser assassinado, mesmo que tivesse sido em defesa própria.
Era demais para processar. Essa era a verdadeira razão pela qual eu estava com raiva. Eu estava aqui, mas minha mente estava presa no quarto de hotel que eu tinha deixado para trás.
Meus olhos vacilaram ao pegar as expressões chocadas nos rostos dos hóspedes enquanto passavam por mim. Smith tinha me trazido para a nossa suíte pelo elevador privado, reservado para hóspedes importantes, me salvando do embaraço de afastar estranhos. Devo parecer como uma visão do inferno desde o
11 meu primeiro encontro com Jake, e agora também coberta de novos ferimentos.
Eu fechei meu robe mais firmemente e ouvi um tilintar quando um vidro quebrado caiu das dobras do tecido no assoalho de mármore.
E eu estava preocupada em chamar a atenção para mim.
Que diabos você está fazendo aqui? Eu não fazia ideia. Smith estava lá em cima, esperando as autoridades ao lado de um cadáver. Eu deveria estar ao seu lado. Meu marido pode ficar paranoico sobre a possibilidade de Hammond vir para terminar o trabalho, mas, honestamente, não havia como ele entrar em uma cena de crime. Ele era muito inteligente para isso. Inferno, mesmo os seus contratados não se atreveriam.
E Smith era muito esperto para pensar que havia uma ameaça real, o que significava que eu tinha sido afastada deliberadamente. Um calafrio percorreu minhas costas quando compreendi. Havia muitas explicações racionais para o motivo pelo qual ele me mandaria embora, mas nosso relacionamento não funcionava exatamente no reino da racionalidade.
A salvo do perigo imediato, minha cabeça estava clareando a cada segundo.
A mulher com quem conversei encurralou um homem bem vestido. Eles estavam longe o suficiente para que eu não pudesse ouvi-los, mas eu não perdi o brilho que eles atiraram em minha direção, suas expressões eram uma curiosa mistura de preocupação e aborrecimento.
Parecia que eles queriam evitar o drama também.
Por outro lado, era possível que eles soubessem exatamente o que estava acontecendo. Jake tinha entrado em nosso quarto de hotel de alguma forma. Um empregado do Westminster Royal lhe deu acesso?
Hammond podia comprar amigos em qualquer lugar, e eu suspeitava que ele tivesse mais do que algumas pessoas no bolso para ocasiões como esta.
Eu precisava sair daqui. Smith tinha me dito para chamar a polícia, mas ele
12 realmente iria sentar e esperar eles chegarem?
Eu tinha sido mandada embora porque ele estava escondendo alguma coisa.
Sem pensar, corri para o elevador, passando na frente de um casal. Eu murmurei um pedido de desculpas quando pulei no compartimento e apertei o botão para fechar as portas antes que eles pudessem reagir.
As pessoas já tinham visto meu estado atual. Não precisava de companhia no elevador. Pelo menos a cobertura estava em um andar privado. Se a polícia ainda não tivesse chegado, ninguém descobrira a cena.
Mas quando as portas do elevador se abriram, eu congelei. Um rastro de salpicos de sangue conduzia à porta aberta da suíte. Alguém estava sangrando quando saiu, e eu sabia que não era eu. Pelo menos, não tanto. Ou Jake não tinha morrido ou...
Eu não queria considerar qualquer possibilidade.
Caminhando em direção à porta aberta, eu corri para a sala e quase tropecei sobre o corpo sem vida do meu atacante.
Ele estava morto. Isso poderia ter sido um alívio se não fosse pelo rastro de sangue que eu tinha atravessado. Se Jake estava morto, esse sangue levava a Smith.
Pense.
Agir puramente por medo não ajudaria a situação. Com dedos trêmulos eu deslizei meu robe, tentando ignorar o corpo morto no quarto. Tremores atingiam meu corpo, tornando uma luta pegar as roupas que eu tinha deixado na minha cama mais cedo. Correr vestida de seda suja de sangue parecia uma má ideia, e era um problema que eu poderia corrigir.
Eu sorvi uma respiração firme prendendo o meu cabelo em um rabo de cavalo. Eu precisava estar no controle de mim mesma, nada mais.
13 Enfiei o robe na minha bolsa, e procurei no local por mais pertences pessoais.
Tínhamos trazido muito pouco conosco. Ideia de Smith. Era como se ele suspeitasse do que aconteceria. Mas a evidência mais condenatória não poderia ser empurrada em uma bolsa, e eu não tinha tempo para limpá-la.
Satisfeita de que eu tinha reunido todos os meus pertences, eu girei lentamente em direção ao corredor. Desta vez, eu notei a mancha de sangue no batente da porta. Eu queria acreditar que era o sangue de Jake em suas mãos, mas, ele teria que tomar banho no sangue dele para produzir a trilha que ele deixara em seu caminho.
Smith estava sangrando, e ele estava sangrando profusamente.
Ele poderia precisar de uma ambulância, mas se era por isso que ele tinha me mandado chamar a polícia, por que ele tinha ido embora? Uma pessoa normal pediria ajuda independentemente, mas naquele momento tudo que eu poderia pensar era encontrar meu marido.
O que eu deveria dizer aos médicos de qualquer maneira? Que ele tinha se ferido e tinha se esquecido de chamar as autoridades. Smith era um fugitivo.
Ele sabia disso, e a polícia também saberia. Mesmo que agora ele estivesse ferido, eu ia matá-lo.
Se ele já não estivesse morto.
O pensamento me gelou, mas eu o tirei da minha cabeça e caminhei rapidamente para os elevadores no final do corredor. Não havia como saber qual deles ele tomou. Esse aqui, a julgar pelas marcas de sangue, ele tinha seguido para os andares principais ao invés do elevador privado para a garagem. Eu não tinha ideia do porquê.
O problema era que não havia como descobrir qual deles ele tomou.
Estudando a parede, eu vi uma mancha de sangue nos botões, e então eu tive uma ideia. Observando mais de perto, eu encontrei outro rastro de sangue perto do painel do elevador mais à direita. Ele tinha acionado aquele. Fechando os
14 olhos, eu me foquei e me concentrei na minha necessidade de encontrá-lo. Então eu apertei o botão para chamar o elevador. Demorou cinco minutos e vários passageiros perplexos, antes do elevador que eu queria chegasse. Quando chegou, fiquei aliviada ao descobrir que estava vazio. O problema era que metade dos botões no painel de controle interno tinha sangue sobre eles.
Pense, Belle.
Eu pressionei cada um, rezando para encontrá-lo rapidamente. Eu precisava vê-lo, tocá-lo. Ele era a única coisa real e tangível desse pesadelo vivo em que estávamos presos. Tinha que encontrá-lo. Certamente, ele teria saído mais cedo ou mais tarde. As portas do elevador abriram dois andares abaixo para revelar mais sangue. Eu segui, me preparando para o que eu poderia encontrar na outra extremidade. Mas só levou a um armário de zeladoria. Eu abri a porta antes que eu pudesse me acovardar. A luz do corredor infiltrou pelo armário escuro e caiu sobre o corpo caído de Smith.
Circulando meus dedos em torno de seu pulso, eu verifiquei o batimento e soltei um soluço quando senti um pulsar fraco. Era fraco, mas estava lá.
Agora, se eu tivesse alguma ideia do que fazer.
Julgando pelo calor ardendo em meus olhos, meu corpo escolheu chorar.
Mas, felizmente, o meu lado mal-humorado para gestão de crises entrou em cena e me salvou.
Deslizando meus braços ao redor de sua cintura, eu tentei levantá-lo. Ele era muito pesado. Malditos músculos sexies. Deixei cair uma lágrima e caí no chão ao lado dele.
—Acorde! —Eu exigi. —Eu sei que você é um burro teimoso, mas eu preciso que você me escute pelo menos uma vez.
Eu enxuguei as lágrimas com raiva que agora estavam rolando livremente pelas minhas bochechas.
—Nós dissemos para sempre, e eu vou precisar que você faça isso, Price.
15 Esperei por uma resposta. Eu implorei por uma.
Smith não se movia, a não ser por sua respiração superficial. Eu precisava de ajuda e eu não tinha ideia de como conseguir.
Afastando seu peso de cima mim, eu ajoelhei no escuro e comecei a acariciá-lo. E então minha palma entrou em contato com um objeto liso de vidro.
Seu celular.
Uma pessoa eu sabia que viria, sem perguntas. Pelo menos não neste momento.
Eu disquei o número sem pensar duas vezes, fechando a porta e nos envolvendo na escuridão. Eu descansei contra o calor do meu marido quando o telefone começou a tocar.
***
Uma batida fraca na porta me acordou, me assustando de um sono sem sonhos. Era a salvação ou a condenação batendo, mas de qualquer maneira ela tinha que ser aberta. O tempo estava se esgotando. Empurrei-a com o pé, piscando contra o brilho relativo do salão até que um rosto familiar e bem-vindo apareceu.
O rosto de Edward não traía nenhuma emoção enquanto olhava para seus pés. Ele empurrou seus óculos de aro de tartaruga na ponta do nariz e sacudiu a cabeça de cabelo encaracolado.
—Você não deveria festejar tanto.
Nenhum de nós achou a piada engraçada. Nada tão pequeno poderia dissipar a tensão que nublava o ar entre nós.
—Obrigada. —Haveria perguntas mais tarde. Perguntas difíceis. Perguntas
16 que eu não queria responder. Agora, porém, tudo o que importava era que ele tinha vindo.
—Eu suponho que você tem um plano.
Na verdade, não. Os planos eram para pessoas capazes de movimentar.
De agir. De pensar. Até um minuto atrás, eu não tinha certeza se eu escaparia deste local. Mas agora eu precisava ter alguma ideia do que fazer. Eu peguei seu celular e o encontrei na sua lista de contatos. Era um tiro no escuro e um que eu não gostaria de tomar, mas Georgia poderia ser capaz de ajudar. Antes de me dirigir para a letra G, outro nome chamou minha atenção.
—Há um número em seu telefone para um Dr. Roget. —Eu disse a Edward. —Se sairmos daqui, vou chamá-lo.
—Não me parece um plano. —Comentou.
Eu não me preocupei em dizer a ele que o Plano B envolvia Georgia Kincaid. Em vez disso, dirigi a ele um olhar de advertência. —Agora, meu plano é sobreviver aos próximos cinco minutos, e quando conseguirmos isso, vamos nos concentrar em sobreviver nos próximos dez.
—Poderíamos chamar Alexander. —Sugeriu ele.
—Não! —Fui dura, mas foi uma reação instintiva. Alexander poderia nos ajudar, ele nos havia metido nessa confusão afinal de contas, mas, o instinto me disse para manter os eventos desta noite tão longe de Clara e de sua filha quanto possível. Já era bastante ruim que eu tivesse arrastado Edward para a briga.
—Como quiser.
Estendi a mão.
—Ajude-me a levantar.
Edward não pediu uma explicação. Ele apenas se abaixou e me levantou, mas assim que eu entrei na luz, seus dedos apertaram em torno do meu pulso.
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—Que diabos aconteceu, Belle?
Ele ainda não tinha me visto. Eu esperava que ele não visse até que meus ferimentos curassem.
—Não é importante. —Eu balancei a cabeça. —As feridas de Smith são mais sérias. Ele precisa ser nosso foco.
Edward não se moveu.
—Ele fez isso com você?
—Deus, não. —Eu disse surpresa. —Ele me salvou.
Edward não pediu mais informações enquanto levantava Smith por cima do ombro.
—Ok, então temos um homem inconsciente. Você está parecendo nocauteada depois de dez rounds. Acho que pegaremos o elevador para o saguão?
—Seu sarcasmo é desnecessário. —Mas ele tinha um ponto. Edward não passaria despercebido carregando um corpo. Desfilar pela porta da frente não era uma opção.
Eu bati meus dedos quando isso me atingiu.
—O Bugatti1. Ele o deixou na garagem privada.
—Mostre o caminho.
Pegar o elevador estava fora de questão. Eu não podia arriscar, se a polícia já estivesse aqui. Dirigindo-me para a escada, eu me preparei para a perspectiva de entrar em meu quarto de hotel e ver Jake novamente. Mas, quando eu abri a porta da escada, eu imediatamente me joguei para dentro novamente. A polícia já estava cercando a cena. E eu sabia que não levaria muito tempo até que descobrissem o rastro de sangue e começassem a investigá-lo.
1 Bugatti: Marca de carro esportivo
18 Smith tinha agido por defesa própria. Isso, para não mencionar sua aliança com Alexander, seria suficiente para salvá-lo da acusação. Eu não estava preocupada com ele ir para a cadeia. Mas com Hammond vivo, nenhum lugar em Londres era seguro, nem mesmo uma cela de prisão. O melhor curso de ação era ficar inteiramente fora do radar de Hammond, o que significava apenas confiar em mim mesma.
—O que agora? —Edward exigiu, deslocando o peso de Smith. —Não quero preocupar você, mas eles estão cercando todo o perímetro rapidamente, precisamos ir embora agora.
—As escadas.
Ele não se queixou enquanto carregava Smith em direção ao subsolo do hotel. Quando chegamos ao último andar, fechei os olhos e virei a maçaneta da porta.
Edward murmurou algo que soou como “milagre”, enquanto a porta se abria.
—Lá está! —Eu gritei, apontando para o carro esporte de Smith.
Sua sobrancelha se elevou quando o viu.
—É um carro de dois lugares. —Ele apontou.
—Você dirige.
Edward apoiou Smith no banco do passageiro e eu subi no colo do meu marido. No escuro eu não podia ver sua ferida. Agora, eu não queria olhar. Mas eu deslizei minhas mãos para a mancha de sangue quente, pegajosa e apliquei pressão. Minha experiência médica era limitada ao senso comum e ao que eu tinha visto nos filmes.
Eu não tinha certeza se iria ajudá-lo agora.
—Onde estamos indo? —Edward perguntou enquanto jogava o carro em sentido inverso em direção à saída.
19 Esperançosa, que o Dr. Roget fosse um amigo, um bom amigo.
Uma voz cansada respondeu no segundo toque.
—Price?
—É a esposa dele. —Eu disse apressada, ignorando a pontada de culpa que me atravessou enquanto Edward me lançava um olhar incrédulo. —Eu não sei se é um erro te ligar, mas Smith precisa de ajuda. Ajuda discreta.
Eu estava fazendo a chamada certa, ou nos levando para uma armadilha, mas eu não tinha muitas opções.
—Você pode ir até St. Mary?
—Sim, mas... —Eu hesitei. Eu queria evitar um hospital e todas as perguntas curiosas que viriam com ele.
—Há uma clínica de oncologia conectada à ala leste. Está fechada à noite;
Encontro você lá.
—Obrigada. —Eu suspirei, mas ele já tinha desligado.
Eu repeti as instruções para Edward palavra por palavra. Ele balançou a cabeça calmamente, sem se preocupar em falar, mesmo quando sua mandíbula tencionou. O carro acelerou enquanto caminhávamos em direção ao nosso destino, um destino incerto. Ele tinha perguntas, e provavelmente mais do que algumas palavras duras para mim.
Eu não suportava pensar sobre as respostas que ele iria querer. Em vez disso, eu me concentrei no fato de que o sangue de Smith ainda estava quente em minha pele, o que significava que ele ainda estava vivo.
Por agora.
20 Como prometido, a clínica oncológica em St. Mary estava fechada quando chegamos. Escondida nas sombras, era obscura. Outro aborrecido e anônimo prédio fechado à noite. Um formigamento percorreu a minha pele, fazendo-me arrepiar. De alguma forma, o fato da clínica ser de oncologia, tornou o que estávamos fazendo mais aterrorizante. Olhei nervosamente para Edward enquanto estacionava o Bugatti perto da entrada. A luz de um único poste infiltrava fracamente no carro, iluminando sua cabeça encaracolada com se tivesse uma aureola2 fraca.
A aparência lhe servia. Custava mais do que um pouco de lealdade, arrastar um suspeito de assassinato por toda a cidade, especialmente considerando que ele não se importava com Smith. Nesse momento, eu não ficaria surpresa ao descobrir que ele escondia umas asas.
—Você tem certeza disso? —Ele perguntou, espiando através das janelas do carro o edifício misteriosamente silencioso.
—Sim. —Mas eu não tinha. Na verdade, não. Se Smith estivesse consciente, ele provavelmente me diria que eu estava cometendo um erro confiando no Dr. Roget, mas esse era o problema. Ele não estava acordado, e a cada segundo que passava a realidade de seus ferimentos ficava mais sombria. Eu não tinha escolha, além de tomar uma decisão, e eu tinha decidido que valia a pena o risco.
Edward exalou pesadamente, me dando um aceno conciso antes que saísse do assento do motorista. Contornando o carro, ele me ajudou. Tive o cuidado de não manchar mais suas roupas com sangue, o que instantaneamente
2 Auréola: anel luminoso ou peça ger. de metal, circular ou semilunar, com que pintores e escultores freq.
circundam a cabeça das personagens sagradas; nimbo, resplendor.
21 pareceu estúpido, já que ele já estava coberto. Mas quanto mais manchas ele tivesse ao chegar em casa, mais perguntas haveria, e agora era melhor manter os outros de fora da situação.
Seus olhos se estreitaram quando captou a cor pálida de Smith, mas ele não disse nada. O que ele poderia dizer? Que isso era sério? Que talvez fosse tarde demais? Aqueles pensamentos já tinham cruzado minha mente. Graças a Deus, meu melhor amigo me conhecia o suficiente para saber disso. Eu acho que não poderia lidar com ouvir a verdade falada em voz alta. Ainda não.
Edward levantou o corpo de Smith do carro, depois se virou para mim.
—Se isso provar ser um erro...
—Não é. —Garanti para ele, e para mim também.
—Se for... —Ele continuou, me ignorando. —Caia fora de lá.
—Edward, eu não...
Desta vez ele me interrompeu.
—Eu não vou discutir isso com você. É o que Smith iria querer.
Eu acenei surpresa. Ele estava certo. Smith iria querer que eu fugisse. Meu melhor amigo e meu marido geralmente não concordavam. Era estranho Edward canalizar isso agora, e isso só serviu como um lembrete de que Smith não era capaz de entregar o aviso por si mesmo.
E embora eu detestasse que me dissessem o que fazer, eu não podia não atender ao pedido dos homens por trás dele. Esta noite eu precisava saber julgar quando ser teimosa e quando ser esperta, especialmente se eu quisesse manter todos nós seguros.
—Tudo bem. —Eu concordei, olhando-o nos olhos. —Contanto que você corra, também.
—E Smith? —O tom de Edward era tenso.
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—Ele iria querer que ambos estivéssemos em segurança.
—Não tenho certeza de que sua preocupação se estenderia a mim. — Disse sem rodeios.
Eu não tinha tido a oportunidade de contar a Edward a verdade sobre a conexão de Smith com o nosso círculo privado. Depois desta noite, ele merecia saber, mas teria que esperar. —Você pode se surpreender.
Eu deixei assim.
Edward me lançou um olhar frustrado enquanto inclinava a cabeça em direção à entrada.
—Eu irei te seguir.
Respirei fundo e caminhei para frente, parando quando alcancei as portas de vidro. Parando para reunir minha coragem, eu levantei meu punho e bati com suavidade no vidro. O lobby estava escuro por dentro. Qualquer um poderia estar esperando lá por mim. Meu olhar se dirigiu para Smith e Edward, e eu silenciosamente pedi aos céus que eu não os estivesse levando para uma armadilha. Um movimento no interior chamou minha atenção, e me voltei em direção à clínica para descobrir um homem saindo do corredor escuro.
Minha respiração ficou presa enquanto esperava que ele destrancasse a porta, mas quando o fez, ele franziu o cenho ao ver Smith. Acenando com a mão, ele gesticulou para que o seguíssemos lá dentro.
—Sra. Price, presumo?
—Sim. —Minha boca ficou seca enquanto lhe respondia. Eu não estava acostumada a ser chamada pelo nome de Smith. Ainda era muito recente, e era ainda mais estranho sob essas circunstâncias. Neste momento, um recém-casado normal estaria em lua-de-mel, não carregando seu marido para um tratamento médico clandestino.
Roget nos conduziu para uma sala iluminada com luz fluorescente e apontou para uma maca de exame coberta com um fino papel. Edward baixou
23 Smith gentilmente e se afastou quando Roget entrou em ação. Eu o observei enquanto ele trabalhava, roendo distraidamente minhas unhas enquanto eu o estudava. Ele era mais velho, a julgar pelo grisalho no cabelo em suas têmporas. O estresse de sua profissão formou uma marca entre os olhos que parecia aprofundar enquanto continuava a trabalhar. Eu não tinha dúvida de que ele era um médico, e que ele levava sua responsabilidade profissional para com Smith a sério. Mas no final do dia, mesmo homens bons poderiam ser comprados. Um fato que eu estava determinada a manter em mente de agora em diante.
—Ele vai ficar bem? —Edward perguntou, expressando a única pergunta girando na minha cabeça.
—Agora, preciso estabilizá-lo. —Roget falou por cima do ombro. —E a menos que um de vocês seja enfermeiro, prefiro trabalhar sem plateia. Vou falar com vocês assim que eu tiver mais informações.
—Eu não vou embora. —Eu cruzei meus braços, percebendo que eu deveria parecer uma criança petulante, mas eu não me importava.
—Sra. Price, você pediu minha ajuda. —Roget me lembrou, sem se preocupar em desviar-se da linha que estava inserindo na dobra do cotovelo de Smith.
—Ele está certo, Sra. Price. —Edward agarrou meu braço e me puxou para longe da sala, para o corredor.
Eu ignorei sua cutucada óbvia em meu estado civil e saí de seu aperto.
—Você confia nele?
—Nós não temos uma escolha, mas você já sabe disso. —Edward deu um passo para trás, balançando a cabeça. —Parece que precisamos matar o tempo.
Que tal um jogo de vinte perguntas?
O acerto de contas tinha chegado, e dada a nossa situação atual, eu não conseguia pensar em uma única maneira de evitá-lo por mais tempo.
—Você quer começar ou eu deveria?
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—Vou começar. —Ele disse com uma risada vazia. —Se eu puder decidir por onde começar.
—Que tal com o fato de eu me casar? —Eu ofereci em uma voz tranquila.
Edward caminhou até uma fila de cadeiras e se afundou em uma.
—Eu vou admitir que eu estava esperando que houvesse outra explicação para isso.
—Como o quê? —Perguntei incrédula, sentando-me ao lado dele.
—Tanto quanto eu sei, as namoradas não têm direitos de decisão sobre os cuidados médicos de seus namorados.
—Você está certo. Talvez eu devesse ter mentido. —Eu caí para trás, batendo a cabeça levemente contra a parede.
—Isso machuca quase tanto quanto você não me dizer antes. Como?
Quando?
Fechei os olhos e esfreguei a ponta do meu nariz, numa tentativa perdida de atrasar o início de uma dor de cabeça por estresse.
—Em Nova Iorque. Nosso mordomo nos casou em nossa suíte de hotel.
—Isso não vai aparecer nas páginas da sociedade. —Mas a provocação afiada que deveria ter acompanhado suas palavras não estava lá.
—Me matou que você não estivesse lá. —Eu estendi a mão e agarrei a sua, precisando do contato. Eu tinha que saber que, apesar dessa falta de confiança, ainda estávamos conectados. —Ainda não sinto como real.
—Quem mais sabe?
—Clara. —Eu admiti com um suspiro.
—Acho que isso é justo.
Eu conhecia Clara por muito mais tempo do que Edward, mas não era essa
25 a razão de ela ter ouvido a notícia antes.
—Na verdade, ela soube por Alexander. Eu acho que o perigo de sua melhor amiga estar casada com um dos homens mais poderosos do mundo é que é difícil manter segredos dele. Ele descobriu antes.
—Então, basicamente, você irritou seus melhores amigos, feriu seus sentimentos, se casou com um cara que mal conhecemos e está sendo perseguida por assassinos. Estou acompanhando até agora? —Desta vez, apesar do tom severo, eu captei um leve brilho de diversão em seus olhos.
Eu bati meu ombro contra o dele.
—Você pegou a essência.
—E ainda tenho tantas perguntas.
—Eu também. —Dói admitir que, mesmo depois de aprender muito mais sobre Smith e sua relação com Hammond, informações novas e condenáveis continuavam aparecendo. O homem que tinha me atacado era muito mais do que um assassino contratado. Sua razão para me querer morta não tinha nada a ver com negócios. Tinha sido profundamente pessoal. Quantos velhos amigos de Smith mais apareceriam com objetivos semelhantes?
Não era algo que eu quisesse descarregar em Edward, o que significava que o pensamento, como tantos outros, tinha que ficar somente para mim.
—O que mais? —Edward perguntou.
Aparentemente, ele falou sério quando propôs as vinte perguntas.
—Honestamente, eu nem saberia por onde começar.
—Que tal por esta noite? —Ele sugeriu. —O que diabos aconteceu?
Metade desse sangue não é dele.
—Não, não é. —Eu engoli. Devia-lhe pelo menos essas informações, mas não tinha certeza se queria reviver o que tinha acontecido. —Eu fui assaltada
26 ontem. O cara me espancou.
—Cristo, Belle. —Edward passou um braço em volta dos meus ombros.
Senti a pergunta remanescente em sua língua.
—Isso é tudo. —Eu assegurei. —Ele não...
—Já disse o suficiente.
Eu estava grata por ele não me fazer reviver cada detalhe angustiante dessa experiência, ou enfrentar o que poderia ter acontecido se não fosse o bom samaritano que chamou a polícia.
—Foi muito ruim. —Eu disse a ele, sentindo-me deslizar para trás na escuridão daquele momento. Eu me aproximei de Edward, mergulhando no calor de seu corpo.
—Por que você não me chamou? —O castigo foi gentil, mas estava lá.
—Smith estava preocupado que fosse mais do que um assalto, então ele nos registrou no Westminster Royal e foi averiguar algumas coisas.
—Ele te deixou lá? —Edward se irritou.
—Não! Liguei para a tia Jane. —Assim que as palavras saíram da minha boca, eu congelei.
Tia Jane.
No caos, eu tinha me esquecido de entrar em contato com ela. Ela teria voltado para o hotel, e... o pensamento era muito horrível. Eu balancei a mão violentamente antes de finalmente falar.
—Celular.
Edward enfiou a mão no bolso e pegou o telefone. Ele não disse nada enquanto eu discava o número dela e contava os toques.
Ela respondeu no terceiro.
27
—Sou eu. —Eu segurei um soluço e me obriguei a parecer o mais normal possível.
—Graças a Deus. —No fundo eu podia ouvir uma mistura de barulhos. — Todo o hotel está fechado. Eles não me deixam entrar no seu quarto. Eles evacuaram todo mundo, mas eu não consigo te encontrar.
Minha cabeça inclinou-se enquanto eu procurava palavras que a acalmassem sem levantar suspeitas. Não havia nenhuma.
—Eu não estou aí.
—Não posso dizer que sinto muito em ouvir isso. —Mas mesmo enquanto ela falava, sua voz disparou em um tom mais alto. —Onde você está?
—Eu não posso te dizer. —Eu disse, pedindo desculpas. Dizer a ela só a colocaria em perigo, mas não tornava mais fácil manter o segredo.
—Eu entendo. —Jane ficou em silêncio por um momento. —Você está a salvo? Edward está com você?
Claro, ela teria o número dele gravado em seu celular.
—Ele está e estou bem.
—E Smith?
—Ele está aqui. —Eu não podia mentir afirmando que ele estava a salvo, não agora. —Eu não posso dizer mais nada, mas, por favor, acredite em mim, eu vou chamá-la assim que eu puder.
—Eu sei, amor. Estou aqui dia ou noite.
Eu não podia suportar ouvir a devastação em sua voz. Tia Jane entendia, ela sempre entendia, mas eu sabia que a tinha assustado. Eu só podia esperar que seu medo durasse pouco tempo, e que tudo se resolvesse logo.
—Eu tenho que ir.
28
—Esteja a salvo.
Eu desliguei, me perguntando se essas seriam as últimas palavras que ela falaria para mim. Se Hammond tivesse algo a dizer sobre isso, elas seriam.
Quando olhei para cima, Edward esperava.
—Quanto você sabe sobre Hammond e sua relação com o seu irmão?
Seu corpo inteiro ficou rígido quando falei o nome de Hammond. Ele limpou a garganta.
—O suficiente.
Saber alguma coisa sobre Hammond era demais para qualquer pessoa suportar, particularmente porque a cada nova informação conhecida, se percebia o quanto você não sabia nada. O homem era um enigma. A única coisa que eu não questionaria sobre ele era o fato de que era perigoso.
—Nós precisamos desaparecer. —Sussurrei para Edward. —E eu não sei como fazer isso acontecer.
—Alexander...
Eu levantei a mão para cortá-lo. Mesmo amando muito a minha melhor amiga e confiando em seu julgamento, eu precisava que seu marido fosse deixado de fora disto.
—Ele não pode saber.
—Ele está atrás de Hammond. —Edward disse, como se isso mudasse as coisas.
—Eu sei. —Eu esfreguei minha testa, procurando uma maneira delicada de explicar. —E Smith também.
—Mas então... —Ele parou quando sua confusão mudou para compreensão.
29
—Seu irmão está tão obcecado que não consegue enxergar com clareza.
Até eu saber mais, até eu falar com Smith, eu preciso desaparecer.
—Eu suponho que não posso perguntar aonde você vai. —Disse com a voz tensa.
—Eu vou lhe dizer se você quiser saber, mas seria melhor se você não soubesse. —Eu não gosto da ideia de Edward ter que mentir por mim mais do que o necessário.
—Vou fazer algumas chamadas.
Eu não tive a chance de perguntar a quem ele chamaria antes do Dr. Roget aparecer na porta.
—Quais são os seus tipos sanguíneos?
—Humm, A, eu acho. —Parecia certo.
—O Negativo.
Dr. Roget acenou para que Edward se juntasse a ele.
—A alegria de ser um doador universal. —Ele murmurou, enrolando a manga enquanto entrava na sala.
Entrei por trás deles, a minha mão na boca para abafar um suspiro com a visão de Smith ligado a uma máscara de oxigênio e medicamentos intravenosos.
—Ele precisa de uma transfusão. —Explicou o médico, apontando para Edward pegar uma cadeira ao lado da cama. —Eu não posso arriscar ir para o hospital pegar o sangue.
—Sorte que eu estou aqui. —Edward disse entre dentes.
Eu dei a ele um sorriso agradecido. Poucos minutos depois, o sangue de Edward fluía através de um tubo para uma sacola de coleta.
—Agora vamos dar uma olhada em você. —Dr. Roget sugeriu. —Talvez em
30 algum lugar mais privado.
Meu batimento cardíaco acelerou quando percebi que ele queria me levar para outra sala. Smith estaria seguro aqui com Edward, e a clínica estava em silêncio. Eu só precisaria dar um grito se as coisas degringolassem.
—Claro.
A advertência anterior de Edward ecoou na minha cabeça. Eu me preparei quando segui atrás de Roget para uma sala de exame por um longo corredor. Mas o médico apenas acendeu as luzes.
—O seu ombro está sangrando. —Observou ele.
Concordei entorpecida, na verdade surpresa que isso não fosse uma armadilha. Tinha o meu mundo realmente se reduzido a transformar cada estranho que conhecia em um inimigo? Eu tirei minha camisa, fazendo uma careta quando o tecido roçou sobre a ferida adquirida tentando rastejar para fora da janela do meu hotel.
—Adrenalina. —Explicou.
Eu pisquei e balancei a cabeça.
—O que?
—Você esteve funcionando à base de adrenalina. Isso a manteve viva. — Ele me informou. —É por isso que você esqueceu que foi ferida.
—Eu estava preocupada com Smith. —Eu sussurrei.
—Compreensível. —Ele limpou o corte com uma bola de algodão molhado com um líquido frio que ardeu ao contato. —Você deveria estar preocupada.
—Será que ele vai sobreviver a isso? —Eu não estava certa de ter dito as palavras, minha voz era tão baixa.
—Ele vai. Você agiu rapidamente. Uma vez que a transfusão se completar, ele estará estável. Por agora.
31
—E depois?
—Infelizmente, vocês não podem ficar aqui. —Roget sorriu tristemente. — Como médico, não é ideal para o tratamento de um paciente expulsá-lo imediatamente, mas não há simplesmente nenhuma outra maneira.
—Compreendo.
—Compreende, Sra. Price? —Ele perguntou incisivamente. —Eu poderia dar uma desculpa e interná-lo dentro de uma hora, mas ele estaria morto até amanhã. Você realmente entende?
—Eu entendo. —As palavras arranharam em toda a minha língua. Era a segunda vez que eu falava essas palavras esta semana. Cada vez, elas tinham um significado mais grave.
—Eu não vou lhe perguntar nada. —Ele terminou o curativo do corte e foi até a pia. —É melhor eu não saber.
—O que você vai dizer a eles?
—Que Smith veio me pedir assistência médica, e eu cumpri de acordo com meu arranjo com Hammond.
—Você vai bancar o bobo. —Eu percebi.
Sua cabeça balançou.
—Eu não a atendi quando você veio para o hospital, Sra. Price. Mas olhei seu prontuário. Você não precisa me dar mais detalhes.
Ele já tinha adivinhado. Ele sabia que Smith tinha ido doe menino de ouro de Hammond para o número um em sua lista.
—Quanto menos o seu amigo souber, melhor, especialmente tendo em conta quem ele é.
Mordi o lábio para evitar que ele tremesse. Eu sabia que isso estava longe de terminar. Eu tinha arquitetado um plano. Mas a necessidade de colocá-lo em
32 prática estava caminhando em minha direção com uma velocidade vertiginosa.
—Quando eles vierem perguntar, eu vou mencionar que Smith e sua esposa vieram. —Roget limpou as mãos em uma toalha e colocou-a em uma cesta. —Eu deveria verificar o progresso do doador.
Edward seria deixado de fora. Era uma pequena misericórdia, mas tudo era a mesma coisa. A partir de hoje à noite eu só teria a mim mesma para contar, até quando Smith acordasse.
Quando ele acordasse, pensei, desejando acreditar.
33 Cada respiração era uma luta e então, não era mais. Mas nada poderia parar os pesadelos que acompanhavam a escuridão pesada oprimindo meu corpo.
Abra seus olhos.
Eu repeti a ordem até que minhas pálpebras se abriram. Olhando para o teto branco, levei um momento para perceber que eu estava respirando através de uma máscara de oxigênio. Toquei a borda suada dela, tentando afastar um milhão de perguntas em minha mente e todas centradas em torno de uma pessoa:
Belle.
Apoiando-me no meu cotovelo, uma dor intensa passou por mim e me jogou de volta na maca.
—Eu não tentaria me levantar. —Uma voz fria me aconselhou. —Ela vai estar de volta em um segundo.
Desta vez, eu arranquei a máscara e girei em direção à voz, ignorando a segunda pontada de dor. Edward era um queridinho da mídia, amado pelas massas por sua bondade e natureza doce. De certa forma, o príncipe era o menino de ouro da Inglaterra, mas se os jornais pudessem vê-lo agora, eles poderiam retirar o título.
Ele olhou para mim, o rosto desprovido dessa simpatia infame, e a mensagem era clara: ele estava aqui por ela. Não por mim.
Como se eu desse a mínima. Eu tinha lidado com a atitude pomposa de
34 sua família tempo suficiente para saber o que eles realmente eram. Eu tinha os tolerados com o único propósito de destruir Hammond. Agora eu teria que tolerá- los por novas razões, mas eu não tinha que gostar de Edward. Eu tinha certeza que o sentimento era mútuo.
—Que porra você está fazendo aqui? —Perguntei com a voz rouca antes de sucumbir a um ataque de tosse.
—De nada. —Ele respondeu com uma voz calma, segurando o braço para mostrar o tubo vermelho atado à sua carne. —Você precisa de sangue.
Ele não me disse mais do que isso, mas a sua presença aqui era o suficiente para me ajudar a juntar um pouco da minha memória que faltava.
Apesar de não me dizer onde estávamos. Ou onde minha esposa tinha ido. Tentei sair da maca de novo, mas desta vez Edward me pegou e me segurou.
—Você é doente mental? —Perguntou. —Você pode parar de tentar se matar por cinco minutos, porra?
—Onde ela está? —Perguntei em voz baixa.
—O seu médico a está examinando.
Desta vez, ele não poderia me manter deitado. Eu joguei meus pés sobre a borda da maca e estrelas piscaram na minha visão. Balançando a cabeça, eu tentei afastar a tontura.
—Ela está bem. —Edward agarrou meu ombro. —Eu não posso dizer o mesmo sobre você.
—Ele é teimoso. —A voz de barítono de Roget chamou da porta. —Smith, sua adorável esposa está aqui. Segura.
Meu olhar passou por cima do seu ombro, meu coração batendo contra a minha caixa torácica como um animal encurralado. Eu pensei que eu a tinha enviado à segurança, só para ter Hammond a esperando. Deveria ter me acalmado saber que ela não tinha ido para Clara e Alexander depois do meu telefonema, mas o fato de que ela estava aqui, sem saber que estava sendo
35 tratada pelo médico pessoal de Hammond, só me deixou mais desesperado para levá-la tão longe de Londres quanto pudesse.
Belle espiou por trás de Roget e em seguida, correu para o meu lado. Tê-la tão perto foi o suficiente para me relaxar, mesmo que apenas por um momento, e eu desmoronei, o lençol descartável rasgando debaixo de mim.
—Você precisava de uma transfusão. —Ela mexia em cima de mim, afastando meu cabelo da minha testa. Seus olhos não encontrando os meus, e quando eu finalmente estendi a mão e elevei o queixo, eu achei lágrimas transbordando em seus cílios.
—Ei, bonita. —Eu disse com uma voz suave. Não adiantava tentar tranquilizá-la. Eu tinha me apaixonado por uma mulher inteligente; seria um insulto minimizar o que ela tinha passado.
Ou o que estava por vir.
—Você me assustou, Price. —Ela sussurrou. —Eu não sei se devo te bater ou te beijar.
—Por acaso, eu gosto ápero. —Eu a lembrei, acariciando as costas da minha mão suavemente sobre sua bochecha machucada.
Edward gemeu, ele estava a menos de um metro de distância, um sorriso envergonhado apareceu sobre o rosto bonito de Belle. Mesmo com seus ferimentos, ela era a mulher mais deslumbrante do mundo. Ela era uma beleza clássica com maçãs do rosto altas e delicadas, e ela combinava essas características com a sensibilidade de uma alma ingênua. Só de pensar nela usando batom vermelho era normalmente o suficiente para me deixar duro.
Mas nada disso foi o que capturou minha atenção e alimentou a minha obsessão. Tinha sido seu fogo que me desfez. Antes dela eu não tinha interesse em relacionamentos. Eu nunca tinha pensado que poderia confiar em uma mulher novamente. Ela simplesmente acendeu uma chama em mim que eu acreditava que não poderia ser acesa novamente. Ela tinha me dado um propósito, além de mim mesmo. Ela era a minha razão de viver e minha razão
36 para lutar.
E ela estava em perigo.
—Eu gostaria de falar com o Dr. Roget sozinho.
Os dentes de Belle afundaram em seu lábio inferior quando ela me estudou antes de se levantar e cruzar os braços sobre o peito pequeno.
—Você me mandou embora uma vez esta noite, e olha como isso acabou.
—Eu só estou te mandando para o corredor. —Forcei um sorriso. Belle bufou quando se virou para sair.
Dr. Roget tinha terminado de remover o cateter de Edward e estava montando o equipamento para a transfusão. Eu atirei ao melhor amigo de Belle um olhar significativo sobre o ombro. Ele o pegou e inclinou o queixo em reconhecimento.
—Há uma geladeira no corredor. —Roget instruiu-os. —Peguem algo açucarado e sentem-se.
—Bem. Vamos lá. —Ela passou um braço em volta da cintura dele, e os dois compartilharam um sorriso tão genuíno que o ciúme rugiu no meu peito.
Dado que Edward era gay, eu deveria ter me sentido estúpido. Mas eu queria um relacionamento tranquilo. Eu queria fazê-la se sentir iluminada, não sobrecarregada. Eu queria fazê-la sorrir e não chorar. Hoje à noite eu tinha falhado em protegê-la. Eu era um fracasso como marido.
O médico bateu na minha pele procurando por uma veia, mas eu mal senti.
—Quão ruim?
—Poderia ser pior. —Disse com um encolher de ombros, sem se preocupar em avisar antes de me furar.
—Quanto? —Eu perguntei secamente.
37
—Você poderia estar morto. —Ele ressaltou. —E, nesse cenário, ela estaria morta, também.
—Isso é uma ameaça? —Eu rosnei, minha mão batendo para pegar o punho de seu jaleco de laboratório.
Roget retirou calmamente meus dedos e continuou a arrumar a intravenosa. —Nós fizemos juramentos em nossas profissões, Smith. O meu foi mais fácil de manter em muitas maneiras.
—Não fazer o mal? —Perguntei com uma risada. Ele tinha feito muito mal.
Todos nós tínhamos.
—A minha responsabilidade profissional é meu paciente. Eu sou responsável por sua saúde e sua vida. Não importa quem é ou os crimes que cometeu. Se a polícia trouxer um criminoso ferido, é meu dever como médico tratá-lo.
—Eu sempre quis saber como você dorme à noite. —Murmurei.
—Muitas vezes me perguntei a mesma coisa sobre você. —Disse ele, sem perder tempo. —Seu dever é também para com o seu cliente.
—É aí que nós somos diferentes, doutor. Eu sei que sou escória.
—Eu sei disso também. —Roget sentou sobre um tamborete ao lado da mesa. —Hammond ofereceu recursos financeiros para o hospital que o Estado não poderia. Eu fiz uma escolha.
Todos nós tínhamos feito a mesma escolha, vender a nossa alma.
Hammond era quem pagava mais em Londres. Ele sempre tinha sido.
—Eu não me arrependo disso. —Ele continuou. —Eu já salvei inúmeras vidas através de suas doações.
—E sobre as vidas que tirou? —Perguntei-lhe.
—Lamentável. —Havia hesitação.
38 No final do dia, era impossível anular a vermelho nos livros. Não importa o que nós disséssemos a nós mesmos, não importa o bem que fizéssemos.
—Georgia está morta. —Eu informei a ele. —Ele a matou.
A garganta de Roget deslizou quando ele engoliu esta informação.
—Sinto muito por ouvir isso.
—Ele vai me matar também e a Belle.
—Sua esposa é uma mulher inteligente, Smith. Eu já a aconselhei.
Meus olhos se estreitaram.
—Que jogo nós estamos jogando aqui?
—Sem jogo, Smith. Eu não me sentei para discutir ética com você. Eu estava tentando te dizer que eu não informei Hammond da sua presença aqui esta noite. —Roget estendeu as mãos como se estivesse me oferecendo um presente.
Mas nós dois sabíamos que não era tão simples assim.
—Ele vai descobrir.
—Quando ele descobrir, eu vou lembrá-lo que eu estava sob as ordens para cuidar de sua família sob qualquer circunstância.
—Eu não sou sua família. Não mais.
Ele levantou uma sobrancelha espessa.
—Eu não sabia disso. Você simplesmente apareceu com sua esposa necessitando de atenção médica. O ajudei, sem pensar muito nisso.
—Não importa. —Eu disse com um suspiro. —Nós nem sequer conseguiremos sair da cidade.
—Fiquei surpreso ao vê-lo de amizade com pessoas em posições elevadas.
39 Talvez você tenha mais tempo do que pensa.
—Então você não vai entrar em contato com ele? —Eu não escondi minha surpresa por esta possibilidade. Hammond não era conhecido por chegar a conclusões racionais. Era uma aposta por parte de Roget, esconder essas informações dele.
—Eu lhe disse que a minha responsabilidade é com meus pacientes. Seu bem-estar é a minha preocupação. Tanto quanto eu sei, Hammond não morrerá se você se curar.
Ele sofreria se eu tivesse alguma coisa a dizer sobre isso. A boca de Roget pressionou em uma linha, e ele pareceu suspeitar do que eu estava pensando.
—Eu aprecio isso. —Apesar das reivindicações profissionais de Roget, era difícil ser grato a um homem cuja função mais importante no mundo era manter um homem mau, vivo e saudável.
Eu o ouvi, sem entusiasmo, enquanto me dizia coisas que eu já sabia. Eu não podia ficar aqui. Seria perigoso para eu ir ao hospital. Eu teria que sair quando a transfusão estivesse completa. Eu balancei a cabeça nos momentos adequados, apesar da inutilidade. Roget seria a primeira pessoa que Hammond procuraria quando soubesse os detalhes da noite. Nós não teríamos muito tempo antes do próximo ataque infernal sobre nós.
—Você pode pedir a Edward para entrar? —Perguntei, interrompendo-o no meio da frase.
—É claro. —Ele disse em uma voz arrogante.
Edward me olhou quando entrou na sala, com cautela antes de retornar às suas características.
—Eu queria agradecer a você. —Disse a ele. Desta vez não havia dúvida da minha sinceridade. Pelo menos, não no fim. —Você estava lá para Belle quando eu não podia.
—Parece que você tem dificuldade em estar lá para ela. —Edward
40 apontou. —Talvez você não seja o homem para o trabalho.
Cada instinto do meu corpo queria destruí-lo enquanto ele falava, mas eu lutei contra a vontade. Cerrando os punhos, eu me forcei a manter a calma.
—A partir de agora, é minha exclusiva responsabilidade.
—E o que acontece com o seu dever para os outros? —Edward lançou um olhar significativo para mim.
Eu não estava mais interessado em conversa mole.
—Diga ao seu irmão o que eu disse. Ele recebeu informação suficiente para prender Hammond há meses. Estou fora.
—Ele vai ficar muito triste em ouvir isso.
—Mas eu suspeito que você não. —Eu adivinhei. Até agora, eu não tinha certeza se Edward estava ciente da caça às bruxas privada de seu irmão.
—É dever de um filho vingar seu pai. Se você perdoar o clichê, está no nosso sangue acreditar nisso, mas minha verdadeira preocupação sempre foi com a proteção de Clara e Belle.
—E Alexander não?
—Ele morreria por Clara. —Edward me assegurou. —Eu não estou certo se ele faria esse sacrifício por Belle.
—Ele não deveria. —Eu disse duramente. —Esse é o meu dever.
Edward desviou o olhar quando falou em voz baixa: —Ele lhe disse para afastar-se dela.
—Eu nunca fui muito bom em aceitar ordens. —Eu o lembrei. —É por isso que eu duvido que ele vá lamentar minha perda.
—Se alguma coisa acontecer com ela...
—Guarde sua ameaça. —Eu o interrompi. —Se alguma coisa acontecer