Prof. André de Freitas Barbosa Análise literária
HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA
(1989)
José Saramago
(1922-2010)
ELEMENTOS DE UM ROMANCE HISTÓRICO
Raimundo Silva é revisor de uma editora em Lisboa. A narrativa se inicia quando ele recebe um livro sobre a empreitada militar do futuro rei D.
Afonso Henriques, em 1147, sobre a cidade de Lisboa, tomada pelos mouros. Para a façanha, D.
Afonso contou com a ajuda de cavaleiros cruzados que se deslocavam rumo à Terra Santa.
O revisor, num ato voluntário, acrescenta um
“não” em uma frase: assim, os cruzados “não”
auxiliaram D. Afonso Henriques. O enredo do romance então passa a operar duas histórias: a do próprio cerco de Lisboa e a de Raimundo.
História do Cerco de Lisboa é a combinação de múltiplas narrativas sobre o acontecimento do título:
“É evidente que [Raimundo] acabou de tomar uma decisão, e que má ela foi, com a mão firme segura a esferográfica e acrescenta uma palavra à página, uma palavra que o historiador não escreveu, que em nome da verdade histórica não poderia ter escrito nunca, a palavra Não, agora o que o livro passou a dizer é que os cruzados Não auxiliarão os portugueses a conquistar Lisboa, assim está escrito e portanto passou a ser verdade, ainda que diferente, o que chamamos falso prevaleceu sobre o que chamamos verdadeiro, tomou o seu lugar, alguém teria de vir contar a história nova, e como.”
FONTES HISTÓRICAS
Há em
História do Cerco de Lisboaa
presença de fontes historiográficas oriundas
da Idade Média portuguesa, as quais são
fundamentais para a criação da narrativa
ficcional de Saramago. Dentre essas fontes,
destacam-se a “Conquista de Lisboa aos
mouros em 1147. Carta de um cruzado
inglês”, escrita por Osberno, e “A conquista
de Santarém”, narrada, segundo a tradição
portuguesa, pelo próprio D. Afonso
Henriques.
PERSONAGENS PRINCIPAIS DO PLANO PRESENTE
Raimundo Benvindo Silva – homem solitário de meia-idade, tem uma vida tranquila e monótona trabalhando como revisor de textos.
Com seu gesto ousado (o indevido “não”), ele desencadeia uma nova perspectiva:
“O seu memorável atrevimento contra o texto quase sagrado da História do Cerco de Lisboa não lhe causara efeito que de longe se parecesse, agora a casa está como se fosse pertença doutra pessoa, e ele é um estranho, até o cheiro é outro, e os móveis estão como deslocados ou deformados por uma perspectiva regida por leis diferentes.”
Maria Sara – mulher madura (um pouco
mais jovem que Raimundo), de pulso firme,
foi contratada pela editora para supervisionar
os revisores. De início irrita-se com
Raimundo ao tentar descobrir o que causou
seu “erro”, mas depois ficam próximos. De
um contato áspero e conflituoso, Raimundo e
Maria Sara iniciam um relacionamento
amoroso, depois que ela o desafia a escrever
sua versão pessoal para o Cerco. A reescrita
da história e a metaficção, quase sinônimos,
são a matéria-prima da narrativa.
Na editora, convivem ainda profissionais como o Costa, responsável pela produção editorial, e um inominado Diretor Literário. Em casa, Raimundo recebe regularmente a Senhora Maria (“a mulher-a-dias”), empregada doméstica.
Já no plano temporal do passado (século XII), convivem personagens de importância histórica, como D. Afonso Henriques e os cruzados cristãos, além de representantes muçulmanos e o soldado Mogueime, protagonista dos conflitos armados e de uma história afetiva com Ouroana – um caso de amor que espelha, na Idade Média, o envolvimento de Raimundo e Maria Sara.
RESUMO E ANÁLISE DO ENREDO
Raimundo Silva, ao revisar um livro sobre a
Cerco de Lisboa, comete um erro proposital:
acrescenta a palavra “não” a uma frase e altera a afirmação sobre o apoio dos cruzados aos portugueses contra a dominação moura.
O ato transgressor desencadeia uma reflexão sobre a proximidade do texto histórico e do texto literário, sendo esta a mais importante discussão trazida pela obra.
Com isso, Saramago propõe uma reflexão sobre
o papel do escritor.
Raimundo envia o texto à editora; quando o erro é descoberto, a editora remenda o problema acrescentando uma ridícula errata.
Como Raimundo era um revisor experiente, a empresa não o demite, mas contrata uma profissional para supervisionar seu trabalho:
Maria Sara. Ela tenta entender a causa do
erro; depois, surpreendentemente,
incentiva o revisor a reescrever aquele episódio da história de Portugal. Enquanto a história éreescrita, os dois iniciam um relacionamento
amoroso.
O herói da história que Raimundo escreve é um modesto soldado chamado Mogueime: ele se destaca nas lutas, é valente e bondoso.
Mogueime apaixona-se por Ouroana,
mas fica com dúvidas se esta aceitará seu
amor (ele é um simples soldado). Esta
história se assemelha à do próprio
Raimundo no plano presente: o autor-
revisor (como Mogueime no passado
fantasioso) consegue terminar de escrever
sua narrativa e fica junto de Maria Sara.
OS VÁRIOS “CERCOS” DA OBRA
Raimundo tinha uma vida pacata e um serviço monótono, sempre revisando histórias de outros autores.
Além do cerco histórico da cidade, também outros cercos vão caindo: o cerco que impedia Raimundo de ser autor e o que o impedia de comunicar-se com Maria Sara.
Assim, a obra representa a descoberta da
palavra e da escrita como instrumento de
autoconhecimento do ser humano.
HÁ UMA ÚNICA VERDADE HISTÓRICA?
Além disso, há o questionamento
sobre o que seria a escrita histórica. Na
verdade, a escrita, mesmo quando não
tem intenções ficcionais, é proveniente
da interpretação do passado e da visão
de mundo de quem escreve. Sendo
assim, a história não é colocada como
uma verdade absoluta, mas de acordo
com as escolhas e a compreensão de
quem escreve.
MOGUEIME e OUROANA:
uma história de amor recriada
Ao narrar a fictícia história de amor de Mogueime e Ouroana na época do Cerco, a obra põe foco numa questão singela que não foi privilegiada no registro formal (o que contribui para a reflexão sobre o registro histórico), mostrando que existe uma escolha por parte do autor.
A antiga história amorosa claramente
espelha o caso de Raimundo e Maria Sara.
PALAVRAS DO AUTOR
José Saramago já declarou que, por meio de seus romances, busca refazer a história;
ele assim admitiu: “(...) a verdade é que meu sentimento habitual em relação à História é sobretudo o da insatisfação” (Revista Vértice).
O escritor confirmou que História do
Cerco de Lisboa é o seu romance que mais
problematiza e discute a natureza do
conhecimento histórico, nas suas linhas de
força e nas suas contradições limitadoras.
Segundo Saramago, a história é uma forma de literatura, como se vê na conversa inicial entre o revisor e o historiador:
“Recordo-lhe que os revisores são gente sóbria, já viram muito de literatura e vida, O meu livro, recordo-lhe eu, é de história. Assim realmente o designariam segundo a classificação tradicional dos gêneros, porém, não sendo propósito meu apontar outras contradições, em minha discreta opinião, senhor doutor, tudo quanto não for vida é literatura. A história também. A história sobretudo, sem querer ofender”.
REIVENÇÃO DA HISTÓRIA PELA REBELDIA
Ao inserir um “não” na história oficial,
Raimundo Silva transforma-se num
escritor que elabora uma versão do Cerco
de Lisboa, a qual se opõe à versão
canônica. Saramago instaura, com isso,
um processo de revisitação do passado,
que faz do romance uma tentativa de
reinventar a memória da fundação de
Portugal, a partir de um novo olhar a
respeito da escrita da história.
DIÁLOGO COM A TRADIÇÃO
A obra trava um diálogo com a tradição, ao mesmo tempo impondo-lhe uma correção voluntária. Aliás, várias correções: além de desmentir a consagrada ajuda dos cruzados estrangeiros na retomada de Lisboa, a narrativa considera a participação do povo galego (marginalizado pela tradição) na consolidação da independência nacional.
Note-se que as correções implicam a criação de uma nova história e de outra verdade. Nesse processo, o leitor é frequentemente convocado a participar da narrativa.
PALIMPSESTO
Palimpsesto – Manuscrito em pergaminho que, após ser raspado e polido, era novamente aproveitado para a escrita de outros textos (prática usual na Idade Média). Modernamente, a técnica tem permitido restaurar os primitivos caracteres.
Fonte: Dicionário Online de Português (https://www.dicio.com.br/palimpsesto/)
Saramago finaliza sua aventura histórico- romanesca apresentando-nos a história como um palimpsesto formado por várias camadas de discurso. É uma história que aguarda correções e, ao contrário da tradição, quer se ocupar da vida coletiva e das existências individuais.