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José Saramago ( )

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Academic year: 2021

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Prof. André de Freitas Barbosa Análise literária

HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA

(1989)

José Saramago

(1922-2010)

(2)

ELEMENTOS DE UM ROMANCE HISTÓRICO

Raimundo Silva é revisor de uma editora em Lisboa. A narrativa se inicia quando ele recebe um livro sobre a empreitada militar do futuro rei D.

Afonso Henriques, em 1147, sobre a cidade de Lisboa, tomada pelos mouros. Para a façanha, D.

Afonso contou com a ajuda de cavaleiros cruzados que se deslocavam rumo à Terra Santa.

O revisor, num ato voluntário, acrescenta um

“não” em uma frase: assim, os cruzados “não”

auxiliaram D. Afonso Henriques. O enredo do romance então passa a operar duas histórias: a do próprio cerco de Lisboa e a de Raimundo.

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História do Cerco de Lisboa é a combinação de múltiplas narrativas sobre o acontecimento do título:

“É evidente que [Raimundo] acabou de tomar uma decisão, e que má ela foi, com a mão firme segura a esferográfica e acrescenta uma palavra à página, uma palavra que o historiador não escreveu, que em nome da verdade histórica não poderia ter escrito nunca, a palavra Não, agora o que o livro passou a dizer é que os cruzados Não auxiliarão os portugueses a conquistar Lisboa, assim está escrito e portanto passou a ser verdade, ainda que diferente, o que chamamos falso prevaleceu sobre o que chamamos verdadeiro, tomou o seu lugar, alguém teria de vir contar a história nova, e como.”

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FONTES HISTÓRICAS

Há em

História do Cerco de Lisboa

a

presença de fontes historiográficas oriundas

da Idade Média portuguesa, as quais são

fundamentais para a criação da narrativa

ficcional de Saramago. Dentre essas fontes,

destacam-se a “Conquista de Lisboa aos

mouros em 1147. Carta de um cruzado

inglês”, escrita por Osberno, e “A conquista

de Santarém”, narrada, segundo a tradição

portuguesa, pelo próprio D. Afonso

Henriques.

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PERSONAGENS PRINCIPAIS DO PLANO PRESENTE

Raimundo Benvindo Silva – homem solitário de meia-idade, tem uma vida tranquila e monótona trabalhando como revisor de textos.

Com seu gesto ousado (o indevido “não”), ele desencadeia uma nova perspectiva:

“O seu memorável atrevimento contra o texto quase sagrado da História do Cerco de Lisboa não lhe causara efeito que de longe se parecesse, agora a casa está como se fosse pertença doutra pessoa, e ele é um estranho, até o cheiro é outro, e os móveis estão como deslocados ou deformados por uma perspectiva regida por leis diferentes.”

(6)

Maria Sara – mulher madura (um pouco

mais jovem que Raimundo), de pulso firme,

foi contratada pela editora para supervisionar

os revisores. De início irrita-se com

Raimundo ao tentar descobrir o que causou

seu “erro”, mas depois ficam próximos. De

um contato áspero e conflituoso, Raimundo e

Maria Sara iniciam um relacionamento

amoroso, depois que ela o desafia a escrever

sua versão pessoal para o Cerco. A reescrita

da história e a metaficção, quase sinônimos,

são a matéria-prima da narrativa.

(7)

Na editora, convivem ainda profissionais como o Costa, responsável pela produção editorial, e um inominado Diretor Literário. Em casa, Raimundo recebe regularmente a Senhora Maria (“a mulher-a-dias”), empregada doméstica.

Já no plano temporal do passado (século XII), convivem personagens de importância histórica, como D. Afonso Henriques e os cruzados cristãos, além de representantes muçulmanos e o soldado Mogueime, protagonista dos conflitos armados e de uma história afetiva com Ouroana – um caso de amor que espelha, na Idade Média, o envolvimento de Raimundo e Maria Sara.

(8)

RESUMO E ANÁLISE DO ENREDO

Raimundo Silva, ao revisar um livro sobre a

Cerco de Lisboa, comete um erro proposital:

acrescenta a palavra “não” a uma frase e altera a afirmação sobre o apoio dos cruzados aos portugueses contra a dominação moura.

O ato transgressor desencadeia uma reflexão sobre a proximidade do texto histórico e do texto literário, sendo esta a mais importante discussão trazida pela obra.

Com isso, Saramago propõe uma reflexão sobre

o papel do escritor.

(9)

Raimundo envia o texto à editora; quando o erro é descoberto, a editora remenda o problema acrescentando uma ridícula errata.

Como Raimundo era um revisor experiente, a empresa não o demite, mas contrata uma profissional para supervisionar seu trabalho:

Maria Sara. Ela tenta entender a causa do

erro; depois, surpreendentemente,

incentiva o revisor a reescrever aquele episódio da história de Portugal. Enquanto a história é

reescrita, os dois iniciam um relacionamento

amoroso.

(10)

O herói da história que Raimundo escreve é um modesto soldado chamado Mogueime: ele se destaca nas lutas, é valente e bondoso.

Mogueime apaixona-se por Ouroana,

mas fica com dúvidas se esta aceitará seu

amor (ele é um simples soldado). Esta

história se assemelha à do próprio

Raimundo no plano presente: o autor-

revisor (como Mogueime no passado

fantasioso) consegue terminar de escrever

sua narrativa e fica junto de Maria Sara.

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OS VÁRIOS “CERCOS” DA OBRA

Raimundo tinha uma vida pacata e um serviço monótono, sempre revisando histórias de outros autores.

Além do cerco histórico da cidade, também outros cercos vão caindo: o cerco que impedia Raimundo de ser autor e o que o impedia de comunicar-se com Maria Sara.

Assim, a obra representa a descoberta da

palavra e da escrita como instrumento de

autoconhecimento do ser humano.

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HÁ UMA ÚNICA VERDADE HISTÓRICA?

Além disso, há o questionamento

sobre o que seria a escrita histórica. Na

verdade, a escrita, mesmo quando não

tem intenções ficcionais, é proveniente

da interpretação do passado e da visão

de mundo de quem escreve. Sendo

assim, a história não é colocada como

uma verdade absoluta, mas de acordo

com as escolhas e a compreensão de

quem escreve.

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MOGUEIME e OUROANA:

uma história de amor recriada

Ao narrar a fictícia história de amor de Mogueime e Ouroana na época do Cerco, a obra põe foco numa questão singela que não foi privilegiada no registro formal (o que contribui para a reflexão sobre o registro histórico), mostrando que existe uma escolha por parte do autor.

A antiga história amorosa claramente

espelha o caso de Raimundo e Maria Sara.

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PALAVRAS DO AUTOR

José Saramago já declarou que, por meio de seus romances, busca refazer a história;

ele assim admitiu: “(...) a verdade é que meu sentimento habitual em relação à História é sobretudo o da insatisfação” (Revista Vértice).

O escritor confirmou que História do

Cerco de Lisboa é o seu romance que mais

problematiza e discute a natureza do

conhecimento histórico, nas suas linhas de

força e nas suas contradições limitadoras.

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Segundo Saramago, a história é uma forma de literatura, como se vê na conversa inicial entre o revisor e o historiador:

“Recordo-lhe que os revisores são gente sóbria, já viram muito de literatura e vida, O meu livro, recordo-lhe eu, é de história. Assim realmente o designariam segundo a classificação tradicional dos gêneros, porém, não sendo propósito meu apontar outras contradições, em minha discreta opinião, senhor doutor, tudo quanto não for vida é literatura. A história também. A história sobretudo, sem querer ofender”.

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REIVENÇÃO DA HISTÓRIA PELA REBELDIA

Ao inserir um “não” na história oficial,

Raimundo Silva transforma-se num

escritor que elabora uma versão do Cerco

de Lisboa, a qual se opõe à versão

canônica. Saramago instaura, com isso,

um processo de revisitação do passado,

que faz do romance uma tentativa de

reinventar a memória da fundação de

Portugal, a partir de um novo olhar a

respeito da escrita da história.

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DIÁLOGO COM A TRADIÇÃO

A obra trava um diálogo com a tradição, ao mesmo tempo impondo-lhe uma correção voluntária. Aliás, várias correções: além de desmentir a consagrada ajuda dos cruzados estrangeiros na retomada de Lisboa, a narrativa considera a participação do povo galego (marginalizado pela tradição) na consolidação da independência nacional.

Note-se que as correções implicam a criação de uma nova história e de outra verdade. Nesse processo, o leitor é frequentemente convocado a participar da narrativa.

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PALIMPSESTO

Palimpsesto – Manuscrito em pergaminho que, após ser raspado e polido, era novamente aproveitado para a escrita de outros textos (prática usual na Idade Média). Modernamente, a técnica tem permitido restaurar os primitivos caracteres.

Fonte: Dicionário Online de Português (https://www.dicio.com.br/palimpsesto/)

Saramago finaliza sua aventura histórico- romanesca apresentando-nos a história como um palimpsesto formado por várias camadas de discurso. É uma história que aguarda correções e, ao contrário da tradição, quer se ocupar da vida coletiva e das existências individuais.

Referências

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