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DOUTORADO EM DIREITO São Paulo 2014

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(1)

SAMANTHA MARTINS FEUZ

O DIREITO DO FILHO EM REQUERER A RELATIVIZAÇÃO DA COISA JULGADA NAS AÇÕES DE INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE EM FACE AO PRINCÍPIO

DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA.

DOUTORADO EM DIREITO

(2)

SAMANTHA MARTINS FEUZ

O DIREITO DO FILHO EM REQUERER A RELATIVIZAÇÃO DA COISA JULGADA NAS AÇÕES DE INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE EM FACE AO PRINCÍPIO

DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA.

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo- PUC/SP, como parte dos requisitos necessários para obtenção do título de Doutor em Direito Processual Civil, sob a orientação do Professor Doutor Nelson Luiz Pinto.

(3)

SAMANTHA MARTINS FEUZ

O DIREITO DO FILHO EM REQUERER A RELATIVIZAÇÃO DA COISA JULGADA NAS AÇÕES DE INVESTIGAÇÃO DE PATERNIDADE EM FACE AO PRINCÍPIO

DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA.

Aprovada por:

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(4)

Aos meus grandes amores Sabrina e Gabriel, tesouros da minha vida,

razão da minha existência, meus filhos lindos.

Ao meu marido Paulo, com amor por todo o apoio durante esses anos.

À minha amada mãe Nancy, por todo o incentivo, suporte, carinho e

amor dedicados durante toda a minha vida.

Ao Danilo, meu irmão amado, por estar sempre ao meu lado.

Aos meus avós Mathilde e Lauro, com amor e carinho.

Ao professor Nelson Luiz Pinto, pelo apoio e amizade.

Em especial ao meu pai José, “in memoriam”, por ter sido o melhor pai que uma pessoa pudesse sonhar em ter e por todo carinho e amor dedicado durante

(5)

Abordamos nesse estudo o tema “O Direito do filho em requerer a relativização da coisa julgada nas ações de investigação de paternidade em face ao

princípio da dignidade da pessoa humana”.

O objetivo desse trabalho foi demonstrar a importância de tal tema nos dias

de hoje, diante da grande incidência de ações onde um filho tem sua paternidade

presumida diante da recusa do pai em se submeter ao exame de DNA nas ações

investigatórias de paternidade.

Após demonstrar-se o prejuízo que tal decisão possa implicar no futuro,

durante o desenvolvimento do trabalho abordamos o princípio da dignidade da

pessoa humana, conceituando-o e trazendo a relevância que o mesmo representa

ao mundo jurídico e, em especial ao tema.

Logo a seguir, tratamos da coisa julgada, seu conceito, para enfim,

chegarmos ao objeto de nossos estudos, qual seja, sua relativização em

investigações de paternidade onde o filho o é declarado como tal após o pai se

recusar injustamente a se submeter ao exame de DNA.

A seguir, apresentamos propostas de soluções jurídicas para que os filhos

possam mudar tais decisões, demonstrando que a coisa julgada deve ser

relativizada haja vista o princípio da dignidade da pessoa humana e a busca da

verdade real e biológica e a justiça das decisões que certamente devem ser

almejadas por nossos juristas.

Ao final, concluímos nosso trabalho apontando nossa opinião, principalmente

apontando que as decisões proferidas devem sempre ser realizadas em busca da

(6)
(7)

In this study we discussed the theme "the right of the child to apply for

relativization of res judicata in the paternity investigation actions in the face of the

principle of dignity of the human person."

The objective of this work was to demonstrate the importance of such theme

these days, given the high incidence of actions where a son has his presumed

paternity before the father's refusal to submit to DNA testing in paternity investigatory

actions.

After demonstrating the prejudice that such a decision might lead to in the

future, during the development of the work discussed the principle of dignity of the

human person, conceptualizing and bringing the relevance that it represents to the

legal world and, in particular to the theme.

Soon after, take care of res judicata, its concept, anyway, we get to the object

of our study, which is, its relativization in paternity investigations where the son is

declared as such after the father refuse unfairly to submit to the DNA test.

Below, we present proposals of legal solutions so that the children can change

those decisions, demonstrating that res judicata should be put into perspective

considering the principle of human dignity and the search for the real truth and justice

and biological decisions that certainly should be targeted by our lawyers.

At the end, we concluded our work pointing our opinion, mostly pointing out

that decisions should always be carried out in pursuit of Justice and the dignity of the

human person.

(8)

1 INTRODUÇÃO... 10

2 Considerações iniciais e relevância do tema... 13

3 O Princípio da dignidade da pessoa humana... 19

3.1 O sistema jurídico brasileiro e a importância dos princípios processuais constitucionais... 19

3.2 Conceito e breve relato histórico... 21

3.3 Da importância do princípio... 31

4 Da coisa julgada... 35

4.1 Conceito. Coisa julgada formal e material... 35

4.2 A coisa julgada material e a segurança jurídica... 37

5 Da relativização da coisa julgada... 40

5.1 Da relativização da coisa julgada e ação rescisória... 40

5.2 Da relativização da coisa julgada e justiça das decisões... 44

6 O princípio da dignidade da pessoa humana e a relativização da coisa julgada... 57

6.1 A importância do princípio diante da coisa julgada... 57

6.2 A declaração de paternidade presumida nas ações de investigação de paternidade e a relativização dessa coisa julgada em vista do princípio da dignidade da pessoa humana... 62

7 A ação declaratória e a busca da verdade real... 86

7.1 O exame de DNA e a verdade real... 86

7.2 A ação declaratória de paternidade... 90

7.3 A ação declaratória de não paternidade: a busca da verdade real e a dignidade da pessoa humana frente à coisa julgada... 91

8 Conclusões... 97

(9)
(10)

1 INTRODUÇÃO

Neste trabalho procuramos demonstrar a importância do princípio da

dignidade da pessoa humana em contraposição ao da segurança jurídica no que se

refere à imutabilidade das decisões transitadas em julgado nas ações de

investigação de paternidade onde houver a recusa do investigado em submeter-se

ao exame de DNA.

Logo de início, salientamos a importância do tema haja vista a repercussão

trazida pela imposição de uma paternidade presumida à constituição de uma nova

família, devido ao fato de que, aquele que moveu a ação passou a ter em seu

documento comprobatório de registro de nascimento, um pai.

Em todo o trabalho, resta demonstrado o quanto fundamental é uma família

para a formação do indivíduo, destacando, principalmente, a figura paterna.

Para melhor compreensão, iniciamos com um breve relato histórico sobre a

evolução do princípio da dignidade da pessoa humana para logo a seguir

conceituá-lo e dissertar sobre sua importância haja vista tratar-se de um princípio fundamental

presente em nosso ordenamento jurídico.

Diante do fato de o objeto de nossos estudos voltarem-se muito à discussão

da relativização da coisa julgada, inicialmente a conceituaremos, diferenciando coisa

julgada formal e coisa julgada material, mas, limitando-nos a esta última devido à

sua íntima ligação ao assunto abordado.

A seguir, tratamos com grande ênfase da coisa julgada e a segurança

jurídica trazida pela mesma, não desprezando, em momento algum, a importância

(11)

relevância de nossos estudos no que diz respeito ao direito infindável que alguém

possui de conhecer seu pai biológico, de saber sua verdadeira identidade.

De suma importância, a abordagem a respeito da relativização da coisa

julgada.

Primeiramente, levamos em conta todos os aspectos da ação rescisória haja

vista sua “capacidade” de rediscutir uma decisão transitada em julgado. Contudo,

desde já deixamos claro que a mesma não possui o condão de solucionar a questão

do reexame da decisão proferida na ação de investigação de paternidade em

estudo.

É, de suma importância falar da justiça das decisões e a coisa julgada para

melhor entendimento do nosso tema.

Durante o trabalho, restará mostrado que a sociedade, mais do que nunca,

vem se preocupando com a justiça das decisões, aproximando a felicidade e a

justiça e, conforme veremos, parece-nos inaceitável que um filho não tenha a

oportunidade de, mesmo após o trânsito em julgado de uma ação, não poder

novamente submeter a exame uma questão tão fundamental para o

desenvolvimento de seu ser: a paternidade biológica.

Dissertamos a respeito de, a nosso ver, preponderância do princípio da

dignidade da pessoa humana em face à segurança jurídica sempre procurando

esclarecer que, dentro dos direitos da personalidade, mais especificamente o de um

filho conhecer seu verdadeiro pai, sem dúvida este deve prevalecer em

contraposição ao engessamento de decisões ultrapassadas.

Sem dúvida, resta claro que, em havendo a declaração de paternidade

presumida nas ações de investigação de paternidade, tal coisa julgada deverá ser

(12)

É muito importante para um filho mergulhado em incertezas a descoberta da

verdade real e biológica em contraposição à verdade jurídica, o que efetivamente

será demonstrado no decorrer desses estudos.

Após dissertar sobre tema tão relevante apresentamos uma solução

processual para aqueles que se sentem lesados e feridos em sua dignidade terem a

oportunidade de rediscutir a questão e, finalmente, sentirem-se libertos dos males

(13)

2 CONSIDERAÇÕES INICIAIS E RELEVÂNCIA DO TEMA.

O desenvolvimento desse trabalho visa demonstrar a relevância do tema em

estudo.

Nota-se que, ao longo dos anos o conceito e a visão da família vêm

mudando consideravelmente.

Há tempos atrás, esta era formada exclusivamente pelo pai, mãe e filhos

havidos dessa união e, também, pelos adotivos.

Não se questionava o afeto familiar ou os vínculos além dos amparados por

lei que pudessem unir os membros dessa sociedade.

Mas, nossos pensamentos evoluíram com as mudanças da sociedade e,

hoje em dia, entende-se que o Estado não deve se preocupar exclusivamente com

meros conceitos, mas sim, com fatos que possam trazer uma vida harmônica.

Ser um pai biológico não significa ser um pai verdadeiro, aquele que se

preocupa com o filho, com sua saúde, estudos, futuro, ou seja, com sua integridade

física e moral.

Pior ainda é a situação do indivíduo que, após uma ação de investigação de

paternidade passa a ter como imposta a figura de pai. Mais drástica ainda a hipótese

daquele que, em uma ação onde, por recusa ao exame de DNA, tem como

declarada sua paternidade.

Certamente, não podemos generalizar essas afirmações. Muitos indivíduos

após a confirmação da paternidade se tornam excelentes pais, o que traz uma série

de benefícios para seus afortunados filhos.

Contudo, não é com essa situação ideal para a sociedade e para o Estado

(14)

afirmação de paternidade imposta na ação de investigação de paternidade onde o

pai se recusou a se submeter ao exame de DNA.

Com certeza, isso traz graves consequências de ordem moral e psicológica

àquele que terá em sua certidão de nascimento um pai meramente representativo,

mas, no seu dia a dia, não terá amor e carinho.

Família não é apenas um documento. É carinho, companheirismo, amor. É à

base de nossa sociedade. Com certeza, se todas fossem bem estruturadas

poderíamos afirmar com ousadia, mas certeza, que não apenas viveríamos em um

país melhor, mas em um mundo magnífico.

Bem disse João Batista Villela1:

“(...) paternidade e maternidade não são geração, mas sim afetividade e serviço, em que a força do vínculo resultante dessa consideração acaba por manifestar uma nova arquitetura da filiação, em que o alicerce deixa de ser o elemento genético e passa a ter em conta a força do sentimento, como forma de estabelecer o vínculo paterno-filial, em um verdadeiro processo de construção- se for permitido o uso de tal figura- com vistas à aferição da

paternidade, considerada ela em amplo sentido.”

Pode parecer romântico, mas o amor sempre esteve intimamente ligado ao

direito. Rudolf Von Ihering2, já afirmava que: “Consciência do direito, convicção

jurídica são abstração da ciência que o povo não compreende; a força do direito

reside no sentimento, exatamente como a do amor; a razão e a inteligência não

podem substituir o sentimento quando este falta”.

1 VILLELA, João Baptista. Desbiologização da paternidade. Revista da Faculdade de Direito da Universidade de Minas Gerais. Belo Horizonte, maio 1979.

(15)

Assevera Silvana Maria Carbonera3:

“(...) ao mesmo tempo em que se torna possível conhecer a origem

genética pela tecnologia, o afeto também tem espaço e contornos jurídicos, revelando os pais do coração. Como bem aduz João Baptista Villela, o aspecto biológico cede espaço ao comportamento. A figura paterna [e a materna também, acrescenta-se aqui] é reconhecida pelo amor, desvelo e

serviço com que se entrega ao bem da criança.”

Temos que, seria bom que o pai reconhecesse o filho espontaneamente ao

nascer, ou melhor, que já o amasse dentro do ventre materno, mas, nem sempre

isso é possível.

Àquele que não teve a oportunidade de conhecer seu pai ao nascer, ser

registrado civilmente com seu nome, receber esse amor em sua plenitude, resta

procurar a justiça para investigar a paternidade através de vários métodos

probatórios, dentre eles, o mais importante, o exame de DNA.

Sem esse exame, com a recusa injustificada do pai a submeter-se ao

mesmo, pode o juiz declarar a paternidade e, com ela, todas as consequências do

ato surgirão: direito a alimentos, guarda visitas, herança etc.

Mas, será que o direito ao amor também surgirá com essa paternidade

forçada? E, pior, com a incerteza da mesma haja vista a ausência do exame?

“Pai é quem ama!”

Essa é a frase mais corriqueira dos meios sociais, dos divãs dos

especialistas.

Ter um pai apenas no “papel” não representa aquela figura presente em

todos os momentos de nossas vidas, na saúde, na alegria e na tristeza.

Bem afirma Caio Mário da Sila Pereira4:

(16)

“Cumpre salientar que o afeto tem invadido a Ciência Jurídica, inclusive para se reconhecer outros atributos nas relações paterno-filial, transcendendo aos aspectos exclusivamente psicológicos e sociológicos.

Assim como o “respeito e consideração mútuo”- art. 1566, inciso V do

Código Civil e “lealdade e respeito”- art. 1724, do mesmo diploma legal- o afeto e tolerância estão sendo incorporados como valores jurídicos no

âmbito das relações familiares”.

A melhor família é aquela baseada em laços de afetividade e amor. Sem

esses elementos aquele “pai imposto”, pai com dúvidas acerca de sua paternidade,

poderá rejeitar explicitamente o “suposto” filho, lhe causando danos que, se não

forem contidos rapidamente, tornar-se-ão irreversíveis.

Afirma Mauro Nicolau Junior5:

“O conhecimento da paternidade é relevante não só para o filho, mas também para o pai, ao qual eventualmente possa ter sido imputada, de forma equívoca, a paternidade de criança. O nome, a identidade, os traços fisionômicos, o caráter e as características transmitidas biologicamente são fundamentais para o exercício pleno da dignidade humana.”

Daí a relevância de nossos estudos e importância do tema.

A análise da coisa julgada em confronto com a dignidade da pessoa,

analisada em seus pormenores, poderá elucidar e trazer uma luz a tão conturbado

assunto.

Um filho deve ter, em seu registro de nascimento, um pai que, por imposição

de uma ação de investigação de paternidade, onde não fora realizado o exame de

DNA, o rejeita, o nega, não lhe concede qualquer tipo de demonstração de

afetividade?

4 PEREIRA, Caio Mário da Silva. Instituições de Direito: Direito de Família. Rio de Janeiro: Forense. 2004.p.39.

(17)

O trânsito em julgado de uma decisão pode trazer um prejuízo tão grande à

formação de um ser?

É essa a versão de família que o Estado pretende impor? Será que isso está

de acordo com a nossa realidade?

Antônio Carlos Mathias Coltro6, assim afirma:

“Com fundamento na paternidade responsável, ‘o poder familiar é instituído no interesse dos filhos e da família, não em proveito dos genitores’ e com

base nessa premissa deve ser analisada sua permanência ou destituição.

Citando Laurent, ‘o poder do pai e da mãe não é outra coisa senão proteção

e direção’ (Principies de Droit Civil Français, 4/350), segundo as balizas do

direito de cuidado a envolver a criança e o adolescente.”

Nota-se que nossa Carta Magna e o Estatuto da Criança e do Adolescente

preocupam-se com a proteção à família e também com o direito à convivência

familiar.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu artigo 27,

reconhece expressamente a indisponibilidade e imprescritibilidade do direito à

filiação, restando claro, ao nosso entender, que nada pode tirar de um filho o direito

de sempre e, a qualquer momento, mesmo com o trânsito em julgado de uma

decisão, procurar saber se aquela pessoa é ou não seu verdadeiro pai.

Ter ou não um pai legítimo pode ser de suma importância para um

indivíduo. Não cabe ao direito, revestido de dogmas e conservadorismo negar ao

filho o direito a uma existência digna. As certezas biológica e científica mesmo que

tardias, podem mudar a vida de uma pessoa.

(18)

Aquele pai que antes se recusara a se submeter ao exame de DNA

poderá ter a chance de fazê-lo e então, saber a verdade. Isso mudará a vida de

ambos.

Se for pai, agora com a certeza, haverá uma esperança de realmente

reconhecer aquele indivíduo como seu filho e, passar então a amá-lo e respeitá-lo

como parte integrante de seu ser, como membro de sua família.

Se o exame negar a paternidade, o investigante poderá entender melhor

aquele sentimento de desprezo que o acompanhou por muito tempo. Perceberá que

aquele indivíduo imposto como pai, nunca o foi e nunca o será e, a partir desse

momento, sua vida poderá se tornar melhor, pois este não estará mais vivendo com

o fantasma da rejeição.

Uma família deve ser solidificada com amor, respeito e afeição mútuos. Não

cabe ao direito e às decisões jurídicas engessadas, negar ao indivíduo a fuga do

(19)

3. O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA.

3.1. O sistema jurídico brasileiro e a importância dos princípios processuais

constitucionais.

O sistema jurídico pátrio rege-se pelo princípio da supremacia da lei, sendo

normas escritas emanadas da autoridade competente7.

Hans Kelsen, o jurisfilósofo idealizador da ideia de hierarquização e

subordinação das leis, estabeleceu um critério onde todas as leis são dependentes

de uma “lei maior” e a ela têm de ser adequadas, caso contrário, poderá ter sua

validade contestada.

Por este critério, entende-se a Constituição Federal como pilar normativo que

rege a instrumentalidade para criação de normas.

A Constituição Federal tem seu fundamento na Soberania Nacional, sendo

elaborada pelo que se chama de “Poder Constituinte Originário”, expressão máxima

da soberania, já que é ele o Poder que instaura originalmente o Estado e a Ordem

Jurídica da Sociedade Política, criando um novo Estado e rompendo por completo

com a Ordem Jurídica que havia anteriormente à sua instauração naquela

Sociedade Política.

Todavia, não podemos deixar de atentar-se para o fato de que a Constituição

Federal é estruturada por meio de princípios fundamentais, que servem de diretrizes

gerais para orientar a ciência.

(20)

Assim, parte da doutrina entende prejudicada a ideia de Kelsen de que a

Constituição Federal seria a denominada “lei maior”, estando os princípios

fundamentais no cume hierárquico normativo.

O legislador quando da elaboração da norma não pode prever tudo o que

pode acontecer no futuro. Dessa maneira, podem ocorrer situações em que não há

normas para tratar daquele assunto. Além disso, a sociedade evolui com o passar

dos anos e novas situações tendem a surgir. Consequentemente, existirão

momentos em que faltarão normas para reger o caso concreto.

Ao se analisar o ordenamento jurídico brasileiro, infere-se que o próprio

legislador admitiu a hipótese de existência das lacunas. Nota-se que o magistrado

tem o dever de, no caso concreto, buscar a solução para integrar e preencher as

omissões do direito, como se depreende do artigo 4º da LINDB e do artigo 126 do

CPC, que consagra o princípio da proibição do non liquet, ou seja, da vedação da

denegação de entrega da tutela jurisdicional.

Desta mesma maneira, quando analisados os princípios processuais

constitucionais, pode-se concluir que têm por espoco garantir a efetividade do

cumprimento do devido processo legal, previsto na Constituição Federal em seu

artigo 5º, LIV: ”... ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido

processo legal”.

O princípio do devido processo legal é uma das garantias constitucionais mais

festejadas, pois dele decorrem todos os outros princípios e garantias

constitucionais. Ele é a base legal para aplicação de todos os demais princípios,

independente do ramo do direito processual, inclusive no âmbito do direito material

(21)

Assim, o devido processo legal garante inúmeros outros postulados como os

princípios do contraditório, da ampla defesa e da motivação (apesar de autônomos e

independentes entre si), integrando-se totalmente os incisos LIV e LV, ambos do

artigo 5º da Carta Magna de 1988. Tais princípios ajudam a garantir a tutela dos

direitos e interesses individuais, coletivos e difusos.

3.2. Conceito e breve relato histórico.

Para conceituar dignidade da pessoa humana se faz necessário um

retrospecto das conquistas dos direitos humanos.

Em qualquer tempo ou em qualquer lugar falar em direitos humanos é falar

em defesa da humanidade. A espécie humana se diferencia das demais porque

possui uma dignidade que a diferencia das demais: a dignidade humana, que

constitui princípio estruturante do direito.

Os direitos humanos nasceram dos valores da humanidade, que uma vez

conscientizados, fundados e legitimados no princípio maior da dignidade da pessoa

humana passaram a ser exigidos ante os poderes estabelecidos. Direitos estes

alcançados pelo enfrentamento, inclusive físico, com o poder e não por meio de

bases filosófico-jurídicas.

Para entender a relação dos direitos humano com o poder é necessário que

se estabeleça uma relação em ter direitos e poder, estabelecendo distinção entre

legalidade e legitimidade nos direitos humanos bem como sua importância no âmbito

jurídico uma vez que tais direitos se concretizam em documentos internacionais,

(22)

Hoje, os direitos humanos são categorias jurídicas cotidianas, porém o

caminho percorrido em direção à humanidade foi árduo.

O desenvolvimento da noção de direitos humanos foi construído por meio de

confrontação e de luta incessante pelos valores da humanidade, em que o poder

imposto aos homens e sua organização em comunidades, povos e Estados, foi se

perdendo nas batalhas sob a ordem da liberdade, igualdade e solidariedade

(fraternidade) dos seres humanos, que se rebelaram guiados pelas luzes da razão e

dos valores e sentimentos compartilhados.

Conforme Fabio Comparato8:

“Os direitos humanos até aqui conquistados resultaram de lutas e conflitos, por meio dos quais as instituições jurídicas de defesa da dignidade humana se espraiaram pouco a pouco até alcançar todos os povos da Terra. Uma dessas conquistas é a aceitação universal da noção de que todos os homens são merecedores de igual respeito, independentemente de diferenças culturais, socioeconômicas, religiosas, étnicas e outras que os distingam. Todos somos iguais em dignidade e ninguém pode se proclamar superior aos outros”.

Ernest Bloch9 reafirma esta ideia de dignidade humana, que permite ao

indivíduo andar de cabeça erguida ao afirmar que: "é em que se baseia o conceito

de direitos humanos e a teoria da democracia, porque impõe conexão ativa e real

para o outro e um governo pluralista da convivência social".

Vladmir Oliveira da Silveira10 conceitua que: “a origem dos direitos humanos

tem constituído um ponto de discórdia entre os juristas”.

Dufour11classifica as concepções existentes em três categorias:

8 Comparato, Fabio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 6. Ed. São Paulo: Saraiva, 2088, p. 1.

9 BLOCH, Ernest. Derecho natural Y dignidade humana.Madrid: Aguilar, 1980.

(23)

“A primeira se funda na tese de que os direitos humanos teriam surgido de uma vontade coletiva de protesto ante ameaças de arbítrio ou despotismo. A segunda categoria atribui uma origem essencialmente religiosa aos direitos humanos. Ela se fundamenta no pensamento protestante reformado anglo-saxão e defende a separação entre Igreja e Estado. Finalmente, a terceira concepção atribui aos direitos humanos à origem contingente, de natureza histórica.”

Cada teoria sua razão de ser, seu fundamento, porém não é possível

conceber um único fator ou aspecto como causa.

De acordo com Marx12 os direitos humanos não surgem da natureza do

homem, mas da situação do indivíduo na sociedade e, sobretudo no processo de

produção social. Portanto, direitos humanos não são atributos naturais.

Vladmir Oliveira da Silveira13 preceitua:

“Encontramos indícios sobre o conceito de dignidade da pessoa humana desde o direito romano (as diginitas, com sentido moral em alguns casos e jurídicos em outros). Passando pela teologia da Idade Média (Santo Tomás de Aquino introduz a ideia de distinção do homem, feito à imagem e semelhança de Deus) e as filosofias humanista (Gianozzo Manetti, Givanni Pico, Vives e Pérz de Oliva), empirista (David Hume), da ilustração (Immanuel Kant), do classicismo alemão (Fiedrich Von Schiller) e idealista (Georg Friedrich Hegel), dentre outras. Já no período axial14 despontou a ideia de uma igualdade essencial entre todos os homens, mas foram necessários 25 séculos para que a Organização das Nações Unidas proclamasse, na abertura da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos.”

Para Fernández Garcia15:

11 DUFOUR, Alfred. Droits de l’Homme. Droit Naturel el Histoire. Paris: PUF, 1991, p.15 e s. 12 MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. O manifesto comunista. São Paulo: Boitempo, 1998. 13 Silveira, Vladmir Oliveira da. 2010, p. 103. Ibid.

14 Karl Jaspers escolheu a palavra axial porque para os cristão

s, o “eixo” da sua história é a vida e o

ministério de Cristo. Contudo, defendeu que a História poderia ser dividida em duas grandes etapas, em função de uma determinada época, entre os séculos VIII e II a. C., a qual formaria o eixo histórico da humanidade. É certo que, o período axial foi marcante na evolução dos direitos humanos, reuniu grandes mestres, inesquecíveis pelos preciosos conhecimentos lembrados e estudados por vários juristas. Nesse sentido ver: BIERLEIN, J. F. Mitos Paralelos. Trad. Pedro Ribeiro

(24)

“O conceito de dignidade humana é fruto de um longo processo

sociocultural, definindo-se como o respeito mínimo à condição de ser humano em cada momento histórico. É justamente esse respeito que impede que sua vida ou sua integridade seja substituída por outro valor. Essa compreensão é fundamental para entender a dignidade humana em

todos os seus sentidos e alcance”.

Na Antiguidade, os conceitos de liberdade, cidadania, personalidade e

democracia – quando existiam – possuíam um sentido bem diferente do que têm

hoje, e os direitos a eles inerentes eram desconhecidos pela maior parte da

humanidade.

Embora a noção de direitos humanos tenha sido reconhecida e introduzida no

ordenamento jurídico em passado relativamente recente, ao longo de toda sua

evolução do pensamento ocidental é perceptível à manifestação constante, ainda

que esparsa, da crença na sacralidade da pessoa humana.

Os direitos humanos eram, assim, concebidos como direitos naturais

impostos por Deus. A maioria dos déspotas oniscientes da Antiguidade ordenou a

confecção de leis e códigos que traduziam seus próprios anseios de perpetuar-se no

poder. A força do poder religioso impedia a autonomia das pessoas e a existência

comunitária do homem sobrepunha-se às vontades individuais. Revestida de

poderes políticos a religião indicava a todos um único caminho: a obediência por

temor a Deus. Os elementos sancionadores e proibitivos do poder dos governantes

também não estavam suficientemente esclarecidos e diferenciados.

Na Idade Antiga é possível identificar as raízes históricas da luta pela

dignificação do homem e seus direitos. Elas estão presentes no Código de

Hammurabi (Babilônia, século XVIII a.C.); no pensamento de Amenófis IV (Egito,

século XIV a.C.); na visão de Zaratustra ou Zoroastro (Pérsia, século VII a.C.); nas

(25)

a.C.); nos conceitos de Pitágoras e na República de Platão (Grécia, século IV a.C.);

na filosofia de Mêncio (China, século IV a.C.); nas leis do Império Mauriano (Índia,

século IIIa.C.); na legislação do Cilindro de Ciro (Pérsia, século II a.C.); no Direito

Romano e em várias outras civilizações ancestrais.

Nos séculos VIII a II a.C. identificamos uma mudança na compreensão da

condição humana. Nos anos de 996 a.C. a 963 a.C. o rei David estabeleceu pela

primeira vez na história política da humanidade a figura do rei-sacerdote, ou seja, do

monarca que não se autoproclamava Deus nem se declarava legislador, mas

assumia a função de delegado do Deus único e responsável supremo pela execução

da lei divina. De acordo com Fábio Comparato16 ali surgiu o embrião daquilo que

muitos séculos depois passou a ser designado como Estado de Direito.

Na Atenas do século V a.C., a comunidade dos cidadãos supervisionava as

magistraturas do Estado (polis) e as instituições eram dirigidas pelo demos (povo). O

poder era limitado pelo pleno direito que exerciam os atenienses ao participar dos

assuntos públicos. Inúmeros textos registram ideais humanistas até hoje

considerados referência para a cultura ocidental. A categoria cidadão era restrita aos

varões gregos livres, excluindo-se os escravos, os metecos (estrangeiros residentes

naquela Cidade-Estado) e as mulheres.

Lafer17 situa a origem dos direitos humanos nas tradições judaico-cristã e

estoica da civilização ocidental, que afirmam a dignidade do ser humano como

valor-fonte, seja por ter sido criado à imagem e semelhança de Deus, seja pela condição

de cidadão da cosmo-polis.

O período medieval foi marcado pelas lutas contra os abusos do poder

instaurado pelo feudalismo e pela destruição do poder político e econômico até

16 COMPARATO, Fabio Konder. Op. Cit., p. 40.

(26)

então vigente. Foi nesse contexto que surgiram as primeiras manifestações de

rebeldia: a Carta Magna de 1215, na Inglaterra, considerada pela maior parte da

doutrina como o primeiro precedente das declarações de direitos humanos. A Magna

Carta, na verdade constituiu uma convenção acordada entre o monarca João “Sem

-Terra” e os barões feudais. Um reconhecimento de que a soberania do rei passava a

ser substancialmente limitada por franquias ou privilégios estamentais, que

possuíam, portanto, abrangência coletiva. Porém, o pioneirismo em relação a tais

documentos cabe à Declaração das Cortes de Leão, em 1188, no Reino de

Espanha. Foi o primeiro dentre os diplomas medievais precursores dos direitos

humanos.

O período transcorrido do início do feudalismo até o século XI é marcado pela

descentralização do poder.

É nesse período que ocorre na Europa, o enfrentamento entre o poder

religioso do Papa e o poder político do Imperador carolíngio, também conhecido

como Império de Carlos Magno. Paralelamente, os burgueses de maior hierarquia

(primi inter pares) iniciaram uma campanha de reivindicações de poderes, que até

então se concentravam nas mãos coletivas do clero e da nobreza.

Na medida em que a rígida sociedade estamental europeia cedia espaço a

uma classe social ainda rudimentar (a burguesia), a autoridade dos nobres e

monarcas era colocada em xeque por nova forma de entender o mundo e a vida.

Essa nova visão teve origem no pensamento estoico e na moral cristã. Surge, assim,

o direito natural como conjunto de valores que se impõe às leis, convertendo-se na

medida da justiça das normas e dos governantes. Associada à ideia de direito

natural à conceituação de direito subjetivo será fundamental para a construção

(27)

Esses primeiros antecedentes do moderno constitucionalismo marcam a

instauração do princípio de legalidade como garantia dos direitos reconhecidos,

representando o início de uma nova trajetória que pretende o reconhecimento de

direitos inalienáveis, irrenunciáveis e universais.

No início do período renascentista o direito passa a ser identificado como uma

faculdade do indivíduo sobre si mesmo e as coisas.

Foi na Alta Idade Média que a categoria jurídica de direito subjetivo foi

formulada, numa concepção de direitos humanos que, embora diferente da

moderna, criou condições para sua formulação.

A história dos direitos fundamentais se liga, no final do século XVIII, com o

surgimento do constitucionalismo o qual herdou da Idade Média a ideia de

contenção do poder do Estado em favor do cidadão enquanto construção social e

política resultante de lutas sociais.

Foi no final do século XVIII e principalmente no decorrer do século XIX que

todos os países democráticos passaram a comtemplar os direitos individuais, nos

moldes alicerçados pelo liberalismo, com foco na luta do homem por sua liberdade

individual e pela limitação ao poder do Estado.

É no princípio da dignidade humana que a ordem jurídica encontra o próprio

sentido. Para a hermenêutica constitucional contemporânea, é ponto de partida e

ponto de chegada.

Segundo Sarlet18:

(28)

“Temos por dignidade da pessoa humana a qualidade intrínseca e distintiva

de cada ser humano que o faz merecedor do mesmo respeito e consideração por parte do Estado e da comunidade, implicando, neste sentido, um complexo de direitos e deveres fundamentais que assegurem a pessoa tanto contra todo e qualquer ato de cunho degradante e desumano, como venham a lhe garantir as condições essenciais mínimas para uma vida saudável, além de propiciar e promover sua participação ativa corresponsável nos destinos da própria existência e da vida em comunhão

dos demais seres humanos”

Como direitos fundamentais, os direitos da personalidade tiveram sua

maior importância no cristianismo, visto que a concepção filosófica grega não

concebeu um sistema de garantias dos indivíduos contra o Estado ou governantes.

Já os romanos pensavam de forma jurídica, em contrapartida ao

pensamento filosófico dos gregos. Foi de suma importância para a história da

humanidade o surgimento da Lei das XII Tábuas que tratava da liberdade,

prosperidade e proteção dos direitos do cidadão.

Mas, foi com a concepção cristã que a dignidade da pessoa humana

tomou vulto já que, segundo esta, o ser humano é feito à imagem e semelhança de

Deus.

Com a Revolução Francesa, os direitos da personalidade foram vistos como

inerentes à razão humana e ganharam ainda mais força.

Montesquieu defendia a separação dos poderes, onde cada um deles

deveria limitar os outros. Para ele a dignidade do indivíduo estava intimamente

ligada à sua liberdade.

A Revolução Francesa culminou por nos trazer um dos documentos mais

importantes da história mundial, a “Declaração dos Direitos do Homem e do

Cidadão” (Déclaration des Dioits de l’Homme et du Citoyen), de 02 de outubro de 1789, que demonstrava os direitos universais e naturais do homem que deveriam ser

(29)

Com o passar dos anos, principalmente com o advento da Revolução

Industrial, notou-se que a dignidade humana sofreu sérios prejuízos devido ao

controle das atividades econômicas feito pelos burgueses. Garantir direitos não era

suficiente. Necessário para a época era a efetivação desses direitos com a presença

mais operante do Estado.

Sidney Guerra19, em sua obra assim escreveu:

“A valorização da dignidade da pessoa humana ganha importância tanto no âmbito do direito interno dos Estados (com a previsão legislativa consagrada nas Constituições substanciais e/ou formais na categoria de direito fundamental e, não tão raramente, na categoria de estrutura organizacional dos próprios Estados) como no plano internacional (em especial com a celebração de vários tratados internacionais)”.

“O princípio da dignidade da pessoa humana adquiriu contornos universalistas desde que a Declaração Universal de Direitos do Homem o

concebeu em seu preâmbulo: “Considerando que o reconhecimento da

dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”. (...). Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos fundamentais do homem, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos do homem e da mulher, e que decidiram promover o progresso social e

melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla.”

“Na sequência, seu artigo 1 proclamou que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e consciência, devem agir uns para com os outros em espírito e fraternidade.”

Foi a primeira vez que uma comunidade universal de nações formulou uma

declaração sobre a liberdade e os direitos fundamentais do homem, a qual resultou

no reconhecimento de valores e bens jurídicos cuja proteção interessa à

comunidade internacional, o respeito da pessoa, sua qualidade de sujeito de direito,

estando todos os Estados obrigados, frente à comunidade de países ao respeito e

reconhecimento desses direitos.

(30)

Podemos afirmar, portanto, que a dignidade da pessoa humana, como parte

dos direitos do homem, somente pode ser considerada como efetiva, quando posta

nos ordenamentos jurídicos dos Estados. É o que dispõe Bidart Campos20:

“(...) os direitos humanos passam a ser considerados realmente ‘direitos”

uma vez incorporados ao direito positivo, mas antes disso são considerados

‘direitos morais’, ou seja, exigências éticas que a filosofia dos direitos

humanos concederia o termo de ‘direitos.”

De acordo com Marco Antonio Marques da Silva21:

“a dignidade da pessoa humana implica em liberdade, igualdade e justiça; todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em

espírito de fraternidade”.

Nos tempos atuais, esse postulado como inato aos homens, é

reconhecidamente, essência e fundamento da sociedade, sem o qual não se

justificaria.

José Afonso da Silva22 observa que:

“O termo dignidade é empregado como atributo intrínseco, da essência da pessoa humana, único ser que compreende um valor interno, superior a qualquer preço, que não admite substituição equivalente; a dignidade

entranha e se confunde com a própria natureza do ser humano”.

Antonio Luís Chaves Camargo23anota que:

“Inexiste uma específica definição para a dignidade humana, porém ela se manifesta em todas as pessoas, já que cada um, ao respeitar o outro, tem a visão do outro. A dignidade humana existe em todos os indivíduos e impõe o respeito mútuo entre as pessoas, no ato da comunicação, e se opõe a uma interferência indevida na vida privada pelo Estado. Tais direitos são

20 CAMPOS, Germán J. Bidart. Teoría general de los derechos humanos. Buenos Aires: Astrea, 2006. p. 80.

21 MARQUES DA SILVA, Marco Antonio. Cidadania e Democracia: instrumentos para efetivação da dignidade humana. In: Tratado Luso–Brasileiro da Dignidade Humana. 2 ed. São Paulo: Quartier-Latin, 2009. P. 224 e s.

22 SILVA, José Afonso da. Cidadania e Dignidade da pessoa humana. Revista da Procuradoria-Geral da República, nº 9, jul./dez. 1996, p. 91

(31)

inerentes, conhecidos pelas pessoas, não podendo, portanto o Estado desconhecê-los. A este cabe, ainda, criar condições favoráveis para uma

integral realização dos mesmos”.

Hoje em dia, vários diplomas legais, inclusive nossa legislação em vigor,

recepcionam tal princípio, cabendo aos cidadãos e ao Estado o respeito ao mesmo.

3.3. Da importância do princípio.

Da análise do princípio da dignidade da pessoa humana desde seu

surgimento até os dias de hoje, podemos afirmar que este é, sem dúvida, um dos

mais importantes de nossa Carta Magna.

Paulo Bonavides24 afirma:

“Sua densidade jurídica no sistema constitucional há de ser, portanto, máxima, e se houver reconhecidamente um princípio supremo no tronco da hierarquia das normas, esse princípio não deve ser outro senão aquele em

que todos os ângulos éticos da personalidade se acham consubstanciados”.

Certamente, o princípio da dignidade da pessoa humana deve ser

considerado um princípio constitucional sempre fundamental. Que espécie de ser

humano teríamos sem que lhe fosse assegurada uma existência digna? Que caráter

seria desenvolvido? Quais as consequências da convivência de um ser sem seu

direito precípuo numa sociedade?

Os males são infindáveis. Podemos afirmar que, mais do que simplesmente

dispor sobre esse princípio, nosso ordenamento jurídico deve traçar metas e

objetivos para a observância e respeito ao mesmo.

(32)

A dignidade nasce com a pessoa. É inerente ao ser humano. Mas, é na sua

convivência com outros indivíduos e na sociedade que essa dignidade deve ser

colocada à prova. Nesse momento é que o Estado deve ser atuante.

Rizzato Nunes25, em sua obra escreve:

“Está mais do que na hora de o operador do Direito passar a gerir sua atuação social pautado no princípio fundamental estampado no Texto Constitucional. Aliás, é um verdadeiro supraprincípio constitucional que ilumina todos os demais princípios e normas constitucionais e infraconstitucionais. E por isso não pode o Princípio da Dignidade da Pessoa Humana ser desconsiderado em nenhum ato de interpretação, aplicação ou criação de normas jurídicas.

O esforço é necessário porque sempre haverá aqueles que pretendem dizer ou supor que Dignidade é uma espécie de enfeite, um valor abstrato de difícil captação. Só que é bem ao contrário: não só esse princípio é vivo, real, pleno e está em vigor como deve ser levado em conta sempre, em qualquer situação.”

Nunca é demais proclamar e citar a importância de tal princípio. Flávia

Piovesan26, com muito acerto, discorreu sobre o assunto:

“Como se tem percebido, para além de se configurar um princípio constitucional fundamental, a dignidade da pessoa humana possui um quid que a individualiza de todas as demais normas dos ordenamentos aqui estudados, dentre eles o brasileiro. Assim, deitando seus próprios fundamentos no ser humano em si mesmo, como ente final, e não como meio, em reação à sucessão de horrores praticados pelo próprio ser humano, lastreado no próprio direito positivo, é esse princípio, imperante nos documentos constitucionais democráticos, que unifica e centraliza todo o sistema; e que, com prioridade, reforça a necessária doutrina da força normativa dos princípios constitucionais fundamentais.”

“A dignidade humana simboliza, deste modo, um verdadeiro superprincípio constitucional, a norma maior a orientar o constitucionalismo contemporâneo, dotando-lhe especial racionalidade, unidade e sentido.”

25 NUNES, Luiz Antônio Rizzatto. O princípio constitucional da dignidade da pessoa humana: doutrina e jurisprudência. São Paulo: Saraiva, 2002. pp. 50 a 51.

(33)

Nossa Constituição Federal, percebendo a importância de tal princípio tratou

de apresenta-lo já em seu artigo 1:

“Art. 1. A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:

I- a soberania; II- a cidadania;

III- a dignidade da pessoa humana”.

Ser digno é existir feliz, com saúde, segurança, respeito.

Durante a Segunda Guerra Mundial não poderíamos afirmar que os judeus

que sofreram atrocidades do nazismo possuíam uma existência digna. Esse

princípio fundamental não fora respeitado.

Diante de tantos males causados na época houve uma preocupação muito

grande da humanidade em traçar regras para se evitar tanto desrespeito ao homem

como ser.

Infelizmente, não podemos afirmar que todos os países ainda respeitem a

dignidade da pessoa humana. Sempre temos notícias de guerras e injustiças

praticadas contra os indivíduos.

Fome, miséria, desprezo, assassinatos em série de pessoas inocentes,

crianças sendo alvo de atentados, demonstram que há muito ainda a se aprender.

Uma pessoa com dignidade não pode estar sujeita a esses males. Ela tem

direito à vida, honra, liberdade, etc. Concordamos, nesse ponto, com Miguel

Ekmekdjian27, que, com muita propriedade, afirma que a dignidade da pessoa

humana pode até ser considerada mais importante do que o direito à vida. Vejamos

suas palavras:

“Se realizarmos uma enquete sobre a relação hierárquica entre o direito à

dignidade e o direito à vida, possivelmente grande parte das respostas

(34)

apontaria em primeiro lugar o direito à vida e abaixo deste o direito à dignidade. O argumento que aparenta ser decisivo é que sem vida não é possível à dignidade. Esta afirmação pode parecer de grande impacto, contudo é errônea. Implica uma transposição de lugares. De um ponto de vista biológico, é certo que não é concebível a dignidade de um ser inerte, em uma pedra, ou em um vegetal. Assim como se afirma que sem vida não há dignidade (o que aceitamos somente de um enfoque biológico), nos perguntamos se existe vida sem dignidade. Que vida é esta? Era vida a dos escravos tratados como animais que servem para trabalhar e reproduzir-se? Biologicamente sim, mas eticamente não”.

De todo o exposto, podemos concluir que, o princípio da dignidade da

pessoa humana deve ser encarado como um princípio fundamental para existência

do homem como ser individual e como membro de uma sociedade.

A seguir passaremos a discorrer sobre a coisa julgada, demonstrando sua

relação com o tema proposto para, logo a seguir, retomarmos a discussão sobre a

(35)

4 DA COISA JULGADA.

4.1. Conceito. Coisa julgada formal e material.

O artigo 467 do Código de Processo Civil define coisa julgada: “

Denomina-se coisa julgada material a eficácia que torna imutável e indiscutível a Denomina-sentença, não

mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário”.

Nota-se que nosso Código definiu a coisa julgada material, com o intuito,

certamente, de demonstrar que, em um determinado momento, é necessário que as

decisões se tornem imutáveis, trazendo, assim, maior segurança jurídica aos

interessados.

É comum na doutrina encontrarmos quem diga que há duas espécies de

coisa julgada: a formal e a material. Contudo, tecnicamente trata-se de um fenômeno

único. A material e a formal não são propriamente duas espécies de coisa julgada,

mas duas formas de manifestação do mesmo fenômeno. A formal é a imutabilidade

dos efeitos da sentença no próprio processo em que foi proferida; e a material, em

qualquer outro processo.

A coisa julgada formal representa um fenômeno estritamente processual,

pois o seu advento traz a imutabilidade da sentença dentro do processo por diversas

razões: ora pela impossibilidade de interposição de recursos, ora porque a lei não

mais os admite, ora porque o recorrente renunciou à interposição do recurso, ora

porque se esgotou o prazo para a sua interposição ou, até mesmo porque o

recorrente desistiu do recurso interposto.

Da análise comparativa entre ambas podemos perceber que trazem

(36)

Cândido Rangel Dinamarco28 nos auxilia com grande precisão a solucionar tal

questão:

“(...) enquanto a “coisa julgada formal é a imutabilidade da sentença como ato jurídico processual”, a coisa julgada material, por sua vez, constitui a “imutabilidade dos efeitos substanciais da sentença de mérito”.

Da análise de tais dizeres podemos perceber que a coisa julgada formal atua

dentro do processo, não impedindo que o objeto do julgamento seja rediscutido em

outra ação. Trata-se, portanto, de um fenômeno endoprocessual.

“RECURSO ESPECIAL. AÇÃO DECLARATÓRIA C/C COBRANÇA.

EXTINÇÃO SEM RESOLUÇÃO DO MÉRITO. COISA JULGADA FORMAL. POSSIBILIDADE DE AJUIZAMENTO DE NOVA AÇÃO. DIREITO DE ACESSO À JUSTIÇA.

1.- A jurisprudência desta Corte é no sentido de que a extinção do processo sem julgamento do mérito por falta de legitimidade ad causam não produz coisa julgada material, mas apenas coisa julgada formal, a qual não impede a discussão da matéria em processo diverso. Precedentes.

2.- A ação anteriormente proposta pelo autor, igual à ação da qual decorreu o Recurso Especial em análise, sem resolução do mérito, não cria impedimento à propositura de nova ação pelo autor, contra as mesmas partes, sob pena de violação ao artigo 5º, XXXV, da Constituição da República, que assegura o amplo acesso à Justiça.

3.- Recurso Especial provido.”29

Já a coisa julgada material produz seus efeitos no mesmo processo em que

a sentença foi proferida ou em qualquer outro, impedindo seu reexame, o que nos

leva a afirmar que a mesma representa um fenômeno extraprocessual.

Não obstante a importância da coisa julgada formal para nosso ordenamento

jurídico parece-nos mais interessante nos restringir ao aprofundamento do estudo da

coisa julgada material, haja vista sua relevância e incidência fundamental ao estudo

do tema objeto deste trabalho.

28 DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil. 6. ed. São Paulo: Malheiros, 2009, v.3. p. 297-301.

(37)

4.2. A coisa julgada material e a segurança jurídica.

Prescreve o artigo 5º, inciso XXXVI, da Constituição Federal que: “A lei não

prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada.”

Essa garantia decorre da necessidade de que as decisões judiciais não

possam mais ser alteradas, a partir de um determinado ponto. Do contrário, a

segurança jurídica sofreria grave ameaça. É função do poder Judiciário solucionar os

conflitos de interesse, buscando a pacificação social. Ora, caso essa solução possa

ser eternamente questionada e revisada, a paz ficaria definitivamente prejudicada.

A função da coisa julgada é assegurar que os efeitos decorrentes das

sentenças judiciais não possam mais ser modificados, tornando-se definitivos. É o

fenômeno diretamente associado à segurança jurídica, quando o conflito ou a

controvérsia é definitivamente solucionado.

Da leitura do artigo percebe-se que a intenção de nosso legislador é

assegurar às partes segurança ao tratar da relação jurídica afetada pela sentença

devido à sua imutabilidade.

A coisa julgada traz às partes uma certeza jurídica, estabelecendo um

vínculo entre estas e o juiz.

Humberto Theodoro Júnior30, assim afirma:

“A coisa julgada, por sua força vinculativa e impeditiva, não permite que partes e juiz escapem da definitiva sujeição aos efeitos do acertamento consumado no processo de conhecimento. O resultado prático é caber a qualquer dos litigantes a exceptio rei judicatae, para excluir novo debate

sobre a relação jurídica decidida”; e ao juiz, o poder de, até mesmo de

ofício, extinguir o processo sem julgamento do mérito, sempre que encontrar

configurada a ofensa à coisa julgada (art. 267, V e parágrafo 3).”

(38)

Sua importância é grande. Quando temos duas ações com questões iguais

onde uma transitou em julgado e a outra fora proposta posteriormente ao julgamento

daquela, ocorrerá a indiscutibilidade da sentença transitada em julgado.

Nesse caso, o juiz do novo processo não poderá reexaminar aquela

questão, devido à sua indiscutibilidade, devendo, com base no disposto no artigo

267, V e parágrafo 3 do Código de Processo Civil, até mesmo de ofício, extinguir o

processo sem resolução do mérito.

Percebe-se que a principal característica da coisa julgada é a segurança

jurídica, sem a qual, a incerteza reinaria nas relações sociais, e o caos e a desordem

seriam o habitual dos fenômenos jurídicos.

Não se pode confundir, entretanto, a coisa julgada com os efeitos da

sentença.

Como é sabido, a sentença, produzem diversos efeitos, condenatórios,

constitutivos, modificativos ou extintivos, afastando uma incerteza que existia entre

os litigantes.

No entanto, a coisa julgada não é um dos efeitos da sentença, mas sim, uma

qualidade deles, a imutabilidade.

O trânsito em julgado está associado à impossibilidade de novo recursos

contra a sentença, fazendo com que ela se torne definitiva, não podendo mais ser

modificada. A eficácia da sentença não está necessariamente condicionada ao

trânsito em julgado, mas à inexistência de recursos dotados de efeito suspensivo.

Não obstante a importância da coisa julgada e sua contribuição para

assegurar às partes envolvidas em um conflito uma decisão definitiva da questão

(39)

relativização, haja vista questões que envolvem a defesa de interesses

(40)

5 DA RELATIVIZAÇÃO DA COISA JULGADA.

5.1 Da relativização da coisa julgada e ação rescisória.

A coisa julgada sempre foi considerada um grande dogma para os

estudiosos do processo civil. Muito se houve falar que a “coisa julgada transforma o

certo no errado”, ou “faz existente o inexistente”.

Por esta razão, o Código de Processo Civil admite que no prazo de 02 anos,

a contar do trânsito em julgado, haja possibilidade de ajuizamento da ação

rescisória, momento em que ainda haverá possibilidade de desconstituí-la. Porém,

superado esse prazo, não haveria mais como afastá-la, nem mesmo naquelas

situações em que se verifique manifesto equívoco na decisão judicial, ou evidentes

os danos que poderiam dele decorrer.

Esse dogma, que durante muitos anos permaneceu inatacável, tem sido

objeto de grande discussão nos últimos tempos. Não se discute que o fenômeno da

coisa julgada deve ser preservado, visto que sem ele haveria grave

comprometimento da função pacificadora das decisões judiciais. Todavia, isso não

afasta o risco de, por meio da coisa julgada, poderem ser eternizadas situações tão

nocivas, ou ainda mais, que aquelas que adviriam da rediscussão posterior da

decisão.

Por este motivo, por força das lições sobretudo do Ministro José Augusto

Delgado e de Humberto Theodoro Junior, às quais foram acrescentados novos

argumentos por Cândido Rangel Dinamarco, tem-se falado na relativização da coisa

(41)

Trata-se da possibilidade de, em situações excepcionais, afastar a coisa

julgada, mesmo que já tenha sido ultrapassado o prazo de rescisória.

Esta fundamentação teórica encontra amparo na existência de direitos e

garantias fundamentais tão ou mais importantes do que a coisa julgada, eu não

poderia prevalecer se confrontada com eles.

Neste sentido, ensina Cândido Dinamarco31:

“Não há uma garantia sequer, nem mesmo à coisa julgada, que conduza invariavelmente e de modo absoluto à renegação das demais ou dos valores que elas representam. Afirmar o valor da segurança jurídica (ou certeza) não pode implicar desprezo ao da unidade federativa, ou da dignidade humana e intangibilidade do corpo etc... É imperioso equilibrar com harmonia as duas exigências divergentes, transigindo razoavelmente quanto a certos valores em nome da segurança jurídica, mas abrindo-se mão desta sempre que sua prevalência seja capaz de sacrificar o

insacrificável”.

Este estudo ilustra muito bem esta situação em que a coisa julgada deverá

ser afastada, ainda que ultrapassado o prazo da rescisória, como no caso das ações

de investigação de paternidade, quando posterior realização de exame científico de

material genético fique comprovado que o resultado do processo não retrata a

verdade dos fatos. Se, de um lado, há o direito à segurança jurídica, de outro, há o

direito individual das pessoas que figurarem como filhos ou pais de quem

efetivamente o são.32

A coisa julgada é, sem dúvida, a representação clara e indúbil da segurança

jurídica que o Estado, através do Poder Judiciário, no exercício da jurisdição, cumpre

sua função de por fim ao conflito de interesses de maneira definitiva.

31 DINAMARCO,Cândido Rangel. Nova era do processo civil, São Paulo, Malheiros, 2. Ed., 2007, p. 249.

(42)

Conforme já dito alhures, nossa legislação permite que, em casos

excepcionais e expressos, a sentença coberta pela coisa julgada material possa

sofrer mudanças através de ação autônoma de impugnação, cuja finalidade é

desconstituir a sentença de mérito transitada em julgado. Nela ainda é possível

postular a reapreciação daquilo que foi decidido em caráter definitivo. Trata-se de

ação rescisória.

Segundo Barbosa Moreira33 em sua obra:

“Chama-se rescisória à ação por meio da qual se pede a desconstituição de sentença transita em julgado, com eventual rejulgamento, a seguir, da

matéria nela julgada”.

Nosso Código de Processo Civil em seu artigo 485 e seus incisos, prevê as

hipóteses de admissibilidade dessa ação, que são:

“Art.485. A sentença de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida

quando:

I- se verificar que foi dada por prevaricação, concussão ou corrupção do juiz;

II- proferida por juiz impedido ou absolutamente incompetente;

III- resultar de dolo da parte vencedora em detrimento da parte vencida, ou de colusão entre as partes, a fim de fraudar a lei;

IV- ofender a coisa julgada; V- violar literal disposição de lei;

VI- se fundar em prova, cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal ou seja provada na própria ação rescisória;

VII- depois da sentença, o autor obtiver documento novo, cuja existência ignorava, ou de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável;

VIII- houver fundamento para invalidar confissão, desistência ou transação, em que se baseou a sentença;

IX- fundada em erro de fato, resultante de atos ou de documentos da causa.”

(43)

Já o artigo 495 do Código de Processo Civil estabelece prazo de dois anos

contados do trânsito em julgado da decisão para a interposição da ação rescisória.

Nota-se que esse prazo é decadencial, razão pela qual não se suspende ou se

interrompe.

Não obstante a importância da ação rescisória para nosso ordenamento

jurídico, temos que, para o objeto de nosso estudo, a mesma não se enquadra como

uma solução à questão apresentada, justamente devido ao prazo decadencial

estabelecido por lei para sua interposição.

Entendemos também que a mesma não representa um meio hábil à

discussão do que é justo ou injusto, do que é certo ou incerto. Utilizá-la sempre que

uma parte no processo se sentir prejudicada por uma decisão considerada como

"errada”, seria retirar do Poder Judiciário, a segurança de suas decisões. Tal fato

faria com que o mesmo, já sufocado pelo enorme número de ações em curso,

sofresse uma verdadeira “avalanche” de ações rescisórias.

Ora, a ação rescisória não é recurso! Não é meio hábil a reverter decisões

consideradas injustas. Seus fundamentos encontram-se expressamente previstos no

artigo 485 do Código de Processo Civil. Percebe-se pela sua leitura que, em

momento algum, há a menção à revisão das decisões proferidas injustamente ou de

modo errôneo.

Sálvio de Figueiredo Teixeira em seu voto como relator do AR 681, do

TJMG, RF, 292/281, abordou com precisão o assunto:

“A rescisória, um dos mais belos e complexos institutos da ciência jurídica, somente é admitida excepcionalmente, uma vez que a intangibilidade das decisões judiciais surgiu no universo jurídico como um imperativo da própria sociedade, para evitar o fenômeno da perpetuidade dos litígios, causa de intranquilidade social que atrita, com o fim primário do Direito, que é a paz social.

(44)

da sentença, “dado que ninguém poderá jamais garantir que algum

julgamento esteja absolutamente certo diante do ordenamento jurídico, visto que como a ciência do direito nutre-se das dúvidas e das controvérsias que

pululam na exegese dos textos e dos institutos”. Daí concluir Rosenberg (Tratado, parágrafo 148, II, 3, II/453) que “o debate a propósito de o

julgamento ser justo ou injusto, bem como estar certo ou errado, só conduz a inúteis discussões sobre a injustiça da sentença, precisamente eliminadas

pela autoridade da coisa julgada”.

Portanto, diante da relevância que significa para um indivíduo saber se

aquele que figura por imposição judicial em sua certidão de nascimento realmente é

seu pai biológico, entende-se que não deve ser utilizada a ação rescisória para o

reexame da questão, haja vista as limitações legais impostas a ela, tais como prazo

decadencial para sua interposição, hipóteses de cabimento, dentre outras.

Ora, questão fundamental para a defesa dos direitos da personalidade de

alguém não pode ser limitada ao prazo decadencial de dois anos, pois, o indivíduo

pode estar sofrendo há décadas as consequências de uma decisão já transitada em

julgado. Ademais, também é bom frisar que, não podem direitos fundamentais de um

ser humano estar adstritos às hipóteses descritas no artigo 485 do Código de

Processo Civil.

5.2. Da relativização da coisa julgada e a justiça das decisões.

Neste trabalho, procuramos enfatizar a importância da coisa julgada e, em

momento algum, colocamos em dúvida a segurança trazida pela mesma às relações

jurídicas.

No que se refere à relativização da coisa julgada em ações rescisórias,

demonstramos que nosso ordenamento prevê que em determinadas situações

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